Poemas neste tema
Outros
António Gomes Leal
As aldeias
Eu gosto das aldeias sossegadas,
com o seu aspecto calmo e pastoril,
erguidas nas colinas azuladas,
mais frescas que as manhãs finas de Abril.
Pelas tardes das eiras, como eu gosto
de sentir a sua vida activa e sã!
Vê-las na luz dolente do sol-posto,
e nas suaves tintas da manhã!...
As crianças do campo, ao amoroso
calor do dia, folgam seminuas,
e exala-se um sabor misterioso
de agreste solidão das suas ruas.
Alegram as paisagens as crianças
mais cheias de murmúrios do que um ninho:
e elevam-nos às coisas simples, mansas,
ao fundo, as brancas velas dum moinho.
Pelas noites de Estio, ouvem-se os ralos
zunirem nas suas notas sibilantes...
E mistura-se o uivar dos cães distantes
com o cântico metálico dos galos.
com o seu aspecto calmo e pastoril,
erguidas nas colinas azuladas,
mais frescas que as manhãs finas de Abril.
Pelas tardes das eiras, como eu gosto
de sentir a sua vida activa e sã!
Vê-las na luz dolente do sol-posto,
e nas suaves tintas da manhã!...
As crianças do campo, ao amoroso
calor do dia, folgam seminuas,
e exala-se um sabor misterioso
de agreste solidão das suas ruas.
Alegram as paisagens as crianças
mais cheias de murmúrios do que um ninho:
e elevam-nos às coisas simples, mansas,
ao fundo, as brancas velas dum moinho.
Pelas noites de Estio, ouvem-se os ralos
zunirem nas suas notas sibilantes...
E mistura-se o uivar dos cães distantes
com o cântico metálico dos galos.
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António Gomes Leal
As aldeias
Eu gosto das aldeias sossegadas,
com o seu aspecto calmo e pastoril,
erguidas nas colinas azuladas,
mais frescas que as manhãs finas de Abril.
Pelas tardes das eiras, como eu gosto
de sentir a sua vida activa e sã!
Vê-las na luz dolente do sol-posto,
e nas suaves tintas da manhã!...
As crianças do campo, ao amoroso
calor do dia, folgam seminuas,
e exala-se um sabor misterioso
de agreste solidão das suas ruas.
Alegram as paisagens as crianças
mais cheias de murmúrios do que um ninho:
e elevam-nos às coisas simples, mansas,
ao fundo, as brancas velas dum moinho.
Pelas noites de Estio, ouvem-se os ralos
zunirem nas suas notas sibilantes...
E mistura-se o uivar dos cães distantes
com o cântico metálico dos galos.
com o seu aspecto calmo e pastoril,
erguidas nas colinas azuladas,
mais frescas que as manhãs finas de Abril.
Pelas tardes das eiras, como eu gosto
de sentir a sua vida activa e sã!
Vê-las na luz dolente do sol-posto,
e nas suaves tintas da manhã!...
As crianças do campo, ao amoroso
calor do dia, folgam seminuas,
e exala-se um sabor misterioso
de agreste solidão das suas ruas.
Alegram as paisagens as crianças
mais cheias de murmúrios do que um ninho:
e elevam-nos às coisas simples, mansas,
ao fundo, as brancas velas dum moinho.
Pelas noites de Estio, ouvem-se os ralos
zunirem nas suas notas sibilantes...
E mistura-se o uivar dos cães distantes
com o cântico metálico dos galos.
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Robert Desnos
Se glisser dans ton ombre à la faveur de la nuit
Se glisser dans ton ombre à la faveur de la nuit
Suivre tes pas, ton ombre à la fenêtre.
Cette ombre à la fenêtre cest toi, ce nest pas une ombre, cest toi.
Nouvre pas cette fenêtre derrière les rideaux de laquelle tu bouges.
Ferme les yeux.
Je voudrais les fermer avec mes lèvres.
Mais la fenêtre souvre et le vent, le vent qui balance bizarrement la flamme et le drapeau entoure ma fuite de son manteau.
La fenêtre souvre : ce nest pas toi.
Je le savais bien.
Suivre tes pas, ton ombre à la fenêtre.
Cette ombre à la fenêtre cest toi, ce nest pas une ombre, cest toi.
Nouvre pas cette fenêtre derrière les rideaux de laquelle tu bouges.
Ferme les yeux.
Je voudrais les fermer avec mes lèvres.
Mais la fenêtre souvre et le vent, le vent qui balance bizarrement la flamme et le drapeau entoure ma fuite de son manteau.
La fenêtre souvre : ce nest pas toi.
Je le savais bien.
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Mário de Sá-Carneiro
Serradura
Serradura
A minha vida sentou-se
E não há quem a levante ,
Que desde o Poente ao Levante
A minha vida fartou-se.
E ei-la,a mona ,lá está,
Estendida ,a perna traçada ,
No infindável sofá
Da minha Alma estofada .
Pois é assim:a minha Alma
Outrora a sonhar de Rússias,
Espapaçou-se de calma,
E hoje sonha só pelúcias.
Vai aos Cafés,pede um bock,
Lê o "Matin" de castigo ,
E não há nenhum remoque
Que a regresse ao Oiro antigo!
Dentro de mim é um fardo
Que não pesa ,mas que maça:
O zumbido dum moscardo,
Ou comichão que não passa.
Folhetim da "Capital"
Pelo o nosso Júlio Dantas -
Ou qualquer coisa entre tantas
Duma antipatia igual …
O raio já bebe vinho,
Coisa que nunca fazia,
E fuma o seu cigarrinho
Em plena burocracia!…
Qualquer dia ,pela certa ,
Quando eu mal me precate,
É capaz dum disparate ,
Se encontra uma porta aberta…
Isto assim não pode ser…
Mas como achar um remédio?
-P´ra acabar este intermédio
Lembrei-me de endoidecer:
O que era fácil -partindo
Os móveis do meu hotel,
Ou para a rua saindo
De barrete de papel
A gritar "Viva a Alemanha"…
Mas a minha Alma,em verdade,
Não merece tal façanha,
Tal prova de lealdade.
Vou deixá-la-decidido-
No lavabo dum Café,
Como um anel esquecido.
É um final mais raffiné.
A minha vida sentou-se
E não há quem a levante ,
Que desde o Poente ao Levante
A minha vida fartou-se.
E ei-la,a mona ,lá está,
Estendida ,a perna traçada ,
No infindável sofá
Da minha Alma estofada .
Pois é assim:a minha Alma
Outrora a sonhar de Rússias,
Espapaçou-se de calma,
E hoje sonha só pelúcias.
Vai aos Cafés,pede um bock,
Lê o "Matin" de castigo ,
E não há nenhum remoque
Que a regresse ao Oiro antigo!
Dentro de mim é um fardo
Que não pesa ,mas que maça:
O zumbido dum moscardo,
Ou comichão que não passa.
Folhetim da "Capital"
Pelo o nosso Júlio Dantas -
Ou qualquer coisa entre tantas
Duma antipatia igual …
O raio já bebe vinho,
Coisa que nunca fazia,
E fuma o seu cigarrinho
Em plena burocracia!…
Qualquer dia ,pela certa ,
Quando eu mal me precate,
É capaz dum disparate ,
Se encontra uma porta aberta…
Isto assim não pode ser…
Mas como achar um remédio?
-P´ra acabar este intermédio
Lembrei-me de endoidecer:
O que era fácil -partindo
Os móveis do meu hotel,
Ou para a rua saindo
De barrete de papel
A gritar "Viva a Alemanha"…
Mas a minha Alma,em verdade,
Não merece tal façanha,
Tal prova de lealdade.
Vou deixá-la-decidido-
No lavabo dum Café,
Como um anel esquecido.
É um final mais raffiné.
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Natércia Freire
A morte de calar
As viagens que sou
prenderam-se em redomasAo corpo das palavras. À morte de
calar.Do alfabeto meu ignoro as cristalinasFormas de
aladas letras nestes versos finais.São fantasmas de
sol. São fantasmas de sedeQue chegam alta noite
para nenhum lugar.Decifro nas entranhas das
trevas migradorasO solstício da vida além da morte
clara.Mas quem me vem cegar, com setas voadorasNega-me
agora a paz das secretas paisagens.Meus Irmãos
de astronaves, guiadas por um morto,Que me
esperam e estão, que me cantam e falam.Que na vazia
Cruz crucificam meu corpoE abandonam a flor, mesmo
a meio da sala.À janela rasgada, para as
cinzentas águas,Encostam-me, sem olhos, e deixam-me
ficar.Não tenho nada mais a escrever sobre as ondas.E
mesmo que tivesse, ninguém leria o mar.
prenderam-se em redomasAo corpo das palavras. À morte de
calar.Do alfabeto meu ignoro as cristalinasFormas de
aladas letras nestes versos finais.São fantasmas de
sol. São fantasmas de sedeQue chegam alta noite
para nenhum lugar.Decifro nas entranhas das
trevas migradorasO solstício da vida além da morte
clara.Mas quem me vem cegar, com setas voadorasNega-me
agora a paz das secretas paisagens.Meus Irmãos
de astronaves, guiadas por um morto,Que me
esperam e estão, que me cantam e falam.Que na vazia
Cruz crucificam meu corpoE abandonam a flor, mesmo
a meio da sala.À janela rasgada, para as
cinzentas águas,Encostam-me, sem olhos, e deixam-me
ficar.Não tenho nada mais a escrever sobre as ondas.E
mesmo que tivesse, ninguém leria o mar.
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Natércia Freire
A morte de calar
As viagens que sou
prenderam-se em redomasAo corpo das palavras. À morte de
calar.Do alfabeto meu ignoro as cristalinasFormas de
aladas letras nestes versos finais.São fantasmas de
sol. São fantasmas de sedeQue chegam alta noite
para nenhum lugar.Decifro nas entranhas das
trevas migradorasO solstício da vida além da morte
clara.Mas quem me vem cegar, com setas voadorasNega-me
agora a paz das secretas paisagens.Meus Irmãos
de astronaves, guiadas por um morto,Que me
esperam e estão, que me cantam e falam.Que na vazia
Cruz crucificam meu corpoE abandonam a flor, mesmo
a meio da sala.À janela rasgada, para as
cinzentas águas,Encostam-me, sem olhos, e deixam-me
ficar.Não tenho nada mais a escrever sobre as ondas.E
mesmo que tivesse, ninguém leria o mar.
prenderam-se em redomasAo corpo das palavras. À morte de
calar.Do alfabeto meu ignoro as cristalinasFormas de
aladas letras nestes versos finais.São fantasmas de
sol. São fantasmas de sedeQue chegam alta noite
para nenhum lugar.Decifro nas entranhas das
trevas migradorasO solstício da vida além da morte
clara.Mas quem me vem cegar, com setas voadorasNega-me
agora a paz das secretas paisagens.Meus Irmãos
de astronaves, guiadas por um morto,Que me
esperam e estão, que me cantam e falam.Que na vazia
Cruz crucificam meu corpoE abandonam a flor, mesmo
a meio da sala.À janela rasgada, para as
cinzentas águas,Encostam-me, sem olhos, e deixam-me
ficar.Não tenho nada mais a escrever sobre as ondas.E
mesmo que tivesse, ninguém leria o mar.
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2
Florbela Espanca
Crucificada
Amiga... noiva... irmã... o que quiseres!
Por ti, todos os céus terão estrelas,
Por teu amor, mendiga, hei de merecê-las,
Ao beijar a esmola que me deres.
Podes amar até outras mulheres!
– Hei de compor, sonhar palavras belas,
Lindos versos de dor só para elas,
Para em lânguidas noites lhes dizeres!
Crucificada em mim, sobre os meus braços,
Hei de poisar a boca nos teus passos
Pra não serem pisados por ninguém.
E depois... Ah! depois de dores tamanhas,
Nascerás outra vez de outras entranhas,
Nascerás outra vez de uma outra Mãe!
Por ti, todos os céus terão estrelas,
Por teu amor, mendiga, hei de merecê-las,
Ao beijar a esmola que me deres.
Podes amar até outras mulheres!
– Hei de compor, sonhar palavras belas,
Lindos versos de dor só para elas,
Para em lânguidas noites lhes dizeres!
Crucificada em mim, sobre os meus braços,
Hei de poisar a boca nos teus passos
Pra não serem pisados por ninguém.
E depois... Ah! depois de dores tamanhas,
Nascerás outra vez de outras entranhas,
Nascerás outra vez de uma outra Mãe!
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Celina Holanda
Passeio no Parque
(Óleo sobre tela, de Seurat)
Neste parque imutável
até hoje passeiam
estes homens de escuro
e estas frágeis mulheres
Até hoje as flores, os cristais
e as toalhas
são sem mácula
nas salas de esperar
o amigo, o amado
ou a chuva passar. Nada
de apocalipse
a terrível Besta e poços
insondáveis. Nada
a relembrar o abismo
que somos.
Neste parque imutável
até hoje passeiam
estes homens de escuro
e estas frágeis mulheres
Até hoje as flores, os cristais
e as toalhas
são sem mácula
nas salas de esperar
o amigo, o amado
ou a chuva passar. Nada
de apocalipse
a terrível Besta e poços
insondáveis. Nada
a relembrar o abismo
que somos.
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Maria Teresa Horta
Recusa
Não terás para
meDarQuotidiano contigoAbrigoCorpo despidoNem
terás para meDarA segurança do
perigoMais do que o gestoOcupadoO afagoO
desmentidoNão terás para me DarO espanto de estar
contigo.
meDarQuotidiano contigoAbrigoCorpo despidoNem
terás para meDarA segurança do
perigoMais do que o gestoOcupadoO afagoO
desmentidoNão terás para me DarO espanto de estar
contigo.
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2
António Nobre
Pobre tísica
Quando ela passa à minha porta,
Magra, lívida, quase morta,
E vai até à beira-mar,
Lábios brancos, olhos pisados:
Meu coração dobra a finados,
Meu coração põe-se a chorar.
Perpassa leve como a folha,
E, suspirando, às vezes olha
Para as gaivotas, para o Ar:
E, assim, as suas pupilas negras
Parecem duas toutinegras,
Tentando as asas para voar!
Veste um hábito cor de leite,
Saiinha lisa, sem enfeite,
Boina maruja, toda luar:
Por isso, mal na praia alveja,
As mais suspiram com inveja:
«Noiva feliz, que vais casar...»
Triste, acompanha-a um "Terra Nova"
Que, dentro em pouco, à fria cova
A irá de vez acompanhar...
O chão desnuda com cautela,
Que "Boy" conhece o estado dela:
Qunado ela tosse, põe-se a uivar!
E, assim, sozinha com a aia,
Ao Sol, se assenta sobre a praia,
Entre os bebés, que é o seu lugar.
E o Oceano, trémulo avozinho,
Cofiando as barbas cor de linho,
Vai ter com ela a conversar.
Falam de sonhos, de anjos, e ele
Fala damor, fala daquele
Que tanto e tanto a faz penar...
E o coração parte-se todo,
Quando a sorrir, com tão bom modo,
O Mar lhe diz: «Há-de sarar...»
Sarar? Misérrima esperança!
Padres! ungi essa criança,
Podeis sua alma encomendar:
Corpinho danjo, casto e inerme,
Vai ser amada pelo verme,
Os bichos vão-na desfrutar.
Sarar? Da cor dos alvos linhos,
Parecem fusos seus dedinhos,
Seu corpo é roca de fiar...
E, ao ouvir-lhe a tosse seca e fina,
Eu julgo ouvir numa oficina
Tábuas do seu caixão pregar!
Sarar? Magrita como o junco,
O seu nariz (que é grego e adunco)
Começa aos poucos de afilar,
Seus olhos lançam ígneas chamas:
Ó pobre mãe, que tanto a amas,
Cautela! O Outono está a chegar...
Magra, lívida, quase morta,
E vai até à beira-mar,
Lábios brancos, olhos pisados:
Meu coração dobra a finados,
Meu coração põe-se a chorar.
Perpassa leve como a folha,
E, suspirando, às vezes olha
Para as gaivotas, para o Ar:
E, assim, as suas pupilas negras
Parecem duas toutinegras,
Tentando as asas para voar!
Veste um hábito cor de leite,
Saiinha lisa, sem enfeite,
Boina maruja, toda luar:
Por isso, mal na praia alveja,
As mais suspiram com inveja:
«Noiva feliz, que vais casar...»
Triste, acompanha-a um "Terra Nova"
Que, dentro em pouco, à fria cova
A irá de vez acompanhar...
O chão desnuda com cautela,
Que "Boy" conhece o estado dela:
Qunado ela tosse, põe-se a uivar!
E, assim, sozinha com a aia,
Ao Sol, se assenta sobre a praia,
Entre os bebés, que é o seu lugar.
E o Oceano, trémulo avozinho,
Cofiando as barbas cor de linho,
Vai ter com ela a conversar.
Falam de sonhos, de anjos, e ele
Fala damor, fala daquele
Que tanto e tanto a faz penar...
E o coração parte-se todo,
Quando a sorrir, com tão bom modo,
O Mar lhe diz: «Há-de sarar...»
Sarar? Misérrima esperança!
Padres! ungi essa criança,
Podeis sua alma encomendar:
Corpinho danjo, casto e inerme,
Vai ser amada pelo verme,
Os bichos vão-na desfrutar.
Sarar? Da cor dos alvos linhos,
Parecem fusos seus dedinhos,
Seu corpo é roca de fiar...
E, ao ouvir-lhe a tosse seca e fina,
Eu julgo ouvir numa oficina
Tábuas do seu caixão pregar!
Sarar? Magrita como o junco,
O seu nariz (que é grego e adunco)
Começa aos poucos de afilar,
Seus olhos lançam ígneas chamas:
Ó pobre mãe, que tanto a amas,
Cautela! O Outono está a chegar...
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2
José Tolentino Mendonça
A presença mais pura
Nada no mundo mais próximo
mas aqueles a quem negamos a palavra
o amor, certas enfermidades, a presença mais pura
ouve o que diz a mulher vestida de sol
quando caminha no cimo das árvores
"a que distância da língua comum deixaste
o teu coração?"
A altura desesperada do azul
no teu retrato de adolescente há centenas de anos
a extinção dos lírios no jardim municipal
o mar desta baía em ruínas ou se quiseres
os sacos do supermercado que se expandem nas gavetas
as conversas ainda surpreendentemente escolares
soletradas em família
a fadiga da corrida domingueira pela mata
as senhas da lavandaria com um "não esquecer" fixado
o terror que temos
de certos encontros de acaso
porque deixamos de saber dos outros
coisas tão elementares
o próprio nome
Ouve o que diz a mulher vestida de sol
quando caminha no cimo das árvores
"a que distancia deixaste
o coração?"
mas aqueles a quem negamos a palavra
o amor, certas enfermidades, a presença mais pura
ouve o que diz a mulher vestida de sol
quando caminha no cimo das árvores
"a que distância da língua comum deixaste
o teu coração?"
A altura desesperada do azul
no teu retrato de adolescente há centenas de anos
a extinção dos lírios no jardim municipal
o mar desta baía em ruínas ou se quiseres
os sacos do supermercado que se expandem nas gavetas
as conversas ainda surpreendentemente escolares
soletradas em família
a fadiga da corrida domingueira pela mata
as senhas da lavandaria com um "não esquecer" fixado
o terror que temos
de certos encontros de acaso
porque deixamos de saber dos outros
coisas tão elementares
o próprio nome
Ouve o que diz a mulher vestida de sol
quando caminha no cimo das árvores
"a que distancia deixaste
o coração?"
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2
Fernando Pessoa
ANÁLISE
Tão abstracta é a ideia do teu ser
Que me vem de te olhar, que, ao entreter
Os meus olhos nos teus, perco-os de vista,
E nada fica melhor em meu olhar, e dista
Teu corpo do meu ver tão longamente,
E a ideia do teu ser fica tão rente
Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me
Sabendo que tu és, que, só por ter-me
Consciente de ti, nem a mim sinto.
E assim, neste ignorar-me a ver-te, minto
A ilusão da sensação, e sonho,
Não te vendo, nem vendo, nem sabendo
Que te vejo, ou sequer que sou, risonho
Do interior crepúsculo tristonho
Em que sinto que sonho o que me sinto sendo.
Que me vem de te olhar, que, ao entreter
Os meus olhos nos teus, perco-os de vista,
E nada fica melhor em meu olhar, e dista
Teu corpo do meu ver tão longamente,
E a ideia do teu ser fica tão rente
Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me
Sabendo que tu és, que, só por ter-me
Consciente de ti, nem a mim sinto.
E assim, neste ignorar-me a ver-te, minto
A ilusão da sensação, e sonho,
Não te vendo, nem vendo, nem sabendo
Que te vejo, ou sequer que sou, risonho
Do interior crepúsculo tristonho
Em que sinto que sonho o que me sinto sendo.
4 922
2
Mário Cesariny
Tantos pintores
Tantos pintores... A realidade, comovida, agradece mas fica no mesmo sítio (daqui ninguém me tira) chamado paisagem
Tantos escritores
A realidade, comovida, agradece
e continua a fazer o seu frio
sobre bairros inteiros na cidade
e algures
Tantos mortos
no rio
A realidade, comovida, agradece
porque sabe que foi por ela o sacrifício
mas não agradece muito
Ela sabe que os pintores
os escritores
e quem morre
não gostam da realidade
querem-na para um bocado
não se lhe chegam muito pode sufocar
Só o velho moinho do acordeon da esquina
rodado a manivela de trabuqueta
sem mesura sem fim e sem vontade
dá voltas à solidão da realidade
Tantos escritores
A realidade, comovida, agradece
e continua a fazer o seu frio
sobre bairros inteiros na cidade
e algures
Tantos mortos
no rio
A realidade, comovida, agradece
porque sabe que foi por ela o sacrifício
mas não agradece muito
Ela sabe que os pintores
os escritores
e quem morre
não gostam da realidade
querem-na para um bocado
não se lhe chegam muito pode sufocar
Só o velho moinho do acordeon da esquina
rodado a manivela de trabuqueta
sem mesura sem fim e sem vontade
dá voltas à solidão da realidade
4 067
2
Mário Cesariny
Tantos pintores
Tantos pintores... A realidade, comovida, agradece mas fica no mesmo sítio (daqui ninguém me tira) chamado paisagem
Tantos escritores
A realidade, comovida, agradece
e continua a fazer o seu frio
sobre bairros inteiros na cidade
e algures
Tantos mortos
no rio
A realidade, comovida, agradece
porque sabe que foi por ela o sacrifício
mas não agradece muito
Ela sabe que os pintores
os escritores
e quem morre
não gostam da realidade
querem-na para um bocado
não se lhe chegam muito pode sufocar
Só o velho moinho do acordeon da esquina
rodado a manivela de trabuqueta
sem mesura sem fim e sem vontade
dá voltas à solidão da realidade
Tantos escritores
A realidade, comovida, agradece
e continua a fazer o seu frio
sobre bairros inteiros na cidade
e algures
Tantos mortos
no rio
A realidade, comovida, agradece
porque sabe que foi por ela o sacrifício
mas não agradece muito
Ela sabe que os pintores
os escritores
e quem morre
não gostam da realidade
querem-na para um bocado
não se lhe chegam muito pode sufocar
Só o velho moinho do acordeon da esquina
rodado a manivela de trabuqueta
sem mesura sem fim e sem vontade
dá voltas à solidão da realidade
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2
Fiama Hasse Pais Brandão
Depois de traduzir Hélène Dorion
Amar o universo não me traz mágoa.
sobretudo, amar a areia arrebata-me de júbilo e paixão.
Amar o mar completa a minha vida com o tacto de um amor imenso.
Mas veio o vento e, por momentos, amargurou o meu corpo, a oscilar.
E está o Sol aqui, depois de uns dias com o jardim obscurecido a beber sombra.
E sei que os átomos zumbem e dançam como os insectos, ébrios em redor do pólen.
sobretudo, amar a areia arrebata-me de júbilo e paixão.
Amar o mar completa a minha vida com o tacto de um amor imenso.
Mas veio o vento e, por momentos, amargurou o meu corpo, a oscilar.
E está o Sol aqui, depois de uns dias com o jardim obscurecido a beber sombra.
E sei que os átomos zumbem e dançam como os insectos, ébrios em redor do pólen.
1 808
2
Al Berto
Truque Inoxidável
faca
repito faca
escrevo faca pelo corpo,desenho faca no peito da noite
desembaraço-me do sumo inoxidável doutra faca
faca
sorrio faca no escuro dum beco
-Hoje não matarás!
repito faca
escrevo faca pelo corpo,desenho faca no peito da noite
desembaraço-me do sumo inoxidável doutra faca
faca
sorrio faca no escuro dum beco
-Hoje não matarás!
6 647
2
Joaquim Pessoa
Resistir
Dobrar na boca o frio da espora
Calcar o passo sobre lume
Abrir o pão a golpes de machado
Soltar pelo flanco os cavalos do espanto
Fazer do corpo um barco e navegar a pedra
Regressar devagar ao corpo morno
Beber um outro vinho pisado por um astro
Possuir o fogo ruivo sob a própria casa
numa chama de flechas ao redor.
Calcar o passo sobre lume
Abrir o pão a golpes de machado
Soltar pelo flanco os cavalos do espanto
Fazer do corpo um barco e navegar a pedra
Regressar devagar ao corpo morno
Beber um outro vinho pisado por um astro
Possuir o fogo ruivo sob a própria casa
numa chama de flechas ao redor.
2 475
2
Manuel António Pina
Vê se há mensagens
no gravador de chamadas;
rega as roseiras;
as chaves estão
na mesa do telefone;
traz o meu
caderno de apontamentos
(o de folhas
sem linhas,as linhas distraem-me).
Não digas nada
a ninguém,
o tempo,agora,
é de poucas palavras,
e de ainda menos sentido.
Embora eu,pelos vistos,
não tenha razão de queixa.
Senhor,permite que algo permanença,
alguma palavra ou alguma lembrança,
que alguma coisa possa ter sido
de outra maneira,
não digo a morte,nem a vida,
mas alguma coisa mais insubstancial.
Se não para que me deste os substantivos e os verbos,
o medo e a esperança,
a urze e o salgueiro,
os meus heróis e os meus livros?
Agoa o meu coração
está cheio de passos
e de vozes falando baixo,
de nomes passados
lembrando-me onde
as minhas palavras não chegam
nem a minha vida
Nem provavelmente o Adalat ou o Nitromint."
rega as roseiras;
as chaves estão
na mesa do telefone;
traz o meu
caderno de apontamentos
(o de folhas
sem linhas,as linhas distraem-me).
Não digas nada
a ninguém,
o tempo,agora,
é de poucas palavras,
e de ainda menos sentido.
Embora eu,pelos vistos,
não tenha razão de queixa.
Senhor,permite que algo permanença,
alguma palavra ou alguma lembrança,
que alguma coisa possa ter sido
de outra maneira,
não digo a morte,nem a vida,
mas alguma coisa mais insubstancial.
Se não para que me deste os substantivos e os verbos,
o medo e a esperança,
a urze e o salgueiro,
os meus heróis e os meus livros?
Agoa o meu coração
está cheio de passos
e de vozes falando baixo,
de nomes passados
lembrando-me onde
as minhas palavras não chegam
nem a minha vida
Nem provavelmente o Adalat ou o Nitromint."
4 879
2
Ruy Belo
Literatura explicativa
O pôr-do-sol em espinho não é o pôr-do-sol
nem mesmo o pôr-do-sol é bem o pôr-do-sol
É não morrermos mais é irmos de mãos dadas
com alguém ou com nós mesmos anos antes
é lermos leibniz conviver com os medici
onze quilómetros ao sul de florença
sobre restos de inquietação visível em bilhetes de eléctrico
Há quanto tempo se põe o sol em espinho?
Terão visto este sol os liberais no mar
ou antero de junto da ermida?
O sol que aqui se põe onde nasce? A quem
passamos este sol? Quem se levanta onde nos deitamos?
O pôr-do-sol em espinho é termos sido felizes
é sentir como nosso o braço esquerdo
Ou melhor: é não haver mais nada mais ninguém
mulheres recortadas nas vidraças
oliveiras à chuva homens a trabalhar
coisas todas as coisas deixadas a si mesmas
Não mais restos de vozes solidão dos vidros
não mais os homens coisas que pensam coisas sozinhas
não mais o põr-do-sol apenas pôr-do-sol
nem mesmo o pôr-do-sol é bem o pôr-do-sol
É não morrermos mais é irmos de mãos dadas
com alguém ou com nós mesmos anos antes
é lermos leibniz conviver com os medici
onze quilómetros ao sul de florença
sobre restos de inquietação visível em bilhetes de eléctrico
Há quanto tempo se põe o sol em espinho?
Terão visto este sol os liberais no mar
ou antero de junto da ermida?
O sol que aqui se põe onde nasce? A quem
passamos este sol? Quem se levanta onde nos deitamos?
O pôr-do-sol em espinho é termos sido felizes
é sentir como nosso o braço esquerdo
Ou melhor: é não haver mais nada mais ninguém
mulheres recortadas nas vidraças
oliveiras à chuva homens a trabalhar
coisas todas as coisas deixadas a si mesmas
Não mais restos de vozes solidão dos vidros
não mais os homens coisas que pensam coisas sozinhas
não mais o põr-do-sol apenas pôr-do-sol
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Judas Isgorogota
Minha Viola Morena
Morena, vá lá no quarto,
me traga a viola aqui;
quero-a com todas as fitas
que esvoaçando parecem
as asas de um bem-te-vi;
quero-a deitada em meu peito,
as suas cordas cantando
as mágoas que já senti...
Minha viola morena
tem corpo de mulher-dama,
tem gosto de sapoti,
tem cheiro de madrugada,
gemidos de juriti...
Morena, a minha viola
é o coração amoroso
que tenho plantado aqui...
Morena, a minha viola
é caipirinha dengosa;
se tu tens ciúme dela,
minha viola, morena,
não tem ciúmes de ti...
Ela se deita comigo,
comigo sonha e padece,
comigo pita e se afina
com um trago de parati...
Morena, a minha viola
é a mais mulher que já vi...
me traga a viola aqui;
quero-a com todas as fitas
que esvoaçando parecem
as asas de um bem-te-vi;
quero-a deitada em meu peito,
as suas cordas cantando
as mágoas que já senti...
Minha viola morena
tem corpo de mulher-dama,
tem gosto de sapoti,
tem cheiro de madrugada,
gemidos de juriti...
Morena, a minha viola
é o coração amoroso
que tenho plantado aqui...
Morena, a minha viola
é caipirinha dengosa;
se tu tens ciúme dela,
minha viola, morena,
não tem ciúmes de ti...
Ela se deita comigo,
comigo sonha e padece,
comigo pita e se afina
com um trago de parati...
Morena, a minha viola
é a mais mulher que já vi...
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Judas Isgorogota
Minha Viola Morena
Morena, vá lá no quarto,
me traga a viola aqui;
quero-a com todas as fitas
que esvoaçando parecem
as asas de um bem-te-vi;
quero-a deitada em meu peito,
as suas cordas cantando
as mágoas que já senti...
Minha viola morena
tem corpo de mulher-dama,
tem gosto de sapoti,
tem cheiro de madrugada,
gemidos de juriti...
Morena, a minha viola
é o coração amoroso
que tenho plantado aqui...
Morena, a minha viola
é caipirinha dengosa;
se tu tens ciúme dela,
minha viola, morena,
não tem ciúmes de ti...
Ela se deita comigo,
comigo sonha e padece,
comigo pita e se afina
com um trago de parati...
Morena, a minha viola
é a mais mulher que já vi...
me traga a viola aqui;
quero-a com todas as fitas
que esvoaçando parecem
as asas de um bem-te-vi;
quero-a deitada em meu peito,
as suas cordas cantando
as mágoas que já senti...
Minha viola morena
tem corpo de mulher-dama,
tem gosto de sapoti,
tem cheiro de madrugada,
gemidos de juriti...
Morena, a minha viola
é o coração amoroso
que tenho plantado aqui...
Morena, a minha viola
é caipirinha dengosa;
se tu tens ciúme dela,
minha viola, morena,
não tem ciúmes de ti...
Ela se deita comigo,
comigo sonha e padece,
comigo pita e se afina
com um trago de parati...
Morena, a minha viola
é a mais mulher que já vi...
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Florbela Espanca
In Memoriam
Ao meu morto querido
Na cidade de Assis, “II Poverello”
Santo, três vezes santo, andou pregando
Que o sol, a terra, a flor, o rocio brando,
Da pobreza o tristíssimo flagelo,
Tudo quanto há de vil, quanto há de belo,
Tudo era nosso irmão! – E assim sonhando,
Pelas estradas da Umbria foi forjando
Da cadeia do amor o maior elo!
“Olha o nosso irmão Sol, nossa irmã Água...”
Ah, Poverello! Em mim, essa lição
Perdeu-se como vela em mar de mágoa
Batida por furiosos vendavais!
– Eu fui na vida a irmã dum só Irmão,
E já não sou a irmã de ninguém mais!
Na cidade de Assis, “II Poverello”
Santo, três vezes santo, andou pregando
Que o sol, a terra, a flor, o rocio brando,
Da pobreza o tristíssimo flagelo,
Tudo quanto há de vil, quanto há de belo,
Tudo era nosso irmão! – E assim sonhando,
Pelas estradas da Umbria foi forjando
Da cadeia do amor o maior elo!
“Olha o nosso irmão Sol, nossa irmã Água...”
Ah, Poverello! Em mim, essa lição
Perdeu-se como vela em mar de mágoa
Batida por furiosos vendavais!
– Eu fui na vida a irmã dum só Irmão,
E já não sou a irmã de ninguém mais!
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David Mourão-Ferreira
As últimas vontades
Deixa ficar a flor,
a morte na gaveta,
o tempo no degrau.
Conheces o degrau:
o sétimo degrau
depois do patamar;
o que range ao passares;
o que foi esconderijo
do maço de cigarros
fumado às escondidas...
Deixa ficar a flor.
E nem murmures.Deixa
o tempo no degrau,
a morte na gaveta.
Conheces a gaveta:
a primeira da esquerda,
que se mantém fechada.
Quem atirou a chave
pela janela fora?
Na batalha do ódio,
destruam-se,fechados,
sem tréguas,os retratos!
Deixa ficar a flor.
A flor? Não a conheces.
Bem sei.Nem eu.Ninguém.
Deixa ficar a flor.
Não digas nada.Ouve.
Não ouves o degrau?
Quem sobe agora a escada?
Como vem devagar!
Tão devagar que sobe...
Não digas nada.Ouve:
é com certeza alguém,
alguém que traz a chave.
Deixa ficar a flor.
a morte na gaveta,
o tempo no degrau.
Conheces o degrau:
o sétimo degrau
depois do patamar;
o que range ao passares;
o que foi esconderijo
do maço de cigarros
fumado às escondidas...
Deixa ficar a flor.
E nem murmures.Deixa
o tempo no degrau,
a morte na gaveta.
Conheces a gaveta:
a primeira da esquerda,
que se mantém fechada.
Quem atirou a chave
pela janela fora?
Na batalha do ódio,
destruam-se,fechados,
sem tréguas,os retratos!
Deixa ficar a flor.
A flor? Não a conheces.
Bem sei.Nem eu.Ninguém.
Deixa ficar a flor.
Não digas nada.Ouve.
Não ouves o degrau?
Quem sobe agora a escada?
Como vem devagar!
Tão devagar que sobe...
Não digas nada.Ouve:
é com certeza alguém,
alguém que traz a chave.
Deixa ficar a flor.
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David Mourão-Ferreira
As últimas vontades
Deixa ficar a flor,
a morte na gaveta,
o tempo no degrau.
Conheces o degrau:
o sétimo degrau
depois do patamar;
o que range ao passares;
o que foi esconderijo
do maço de cigarros
fumado às escondidas...
Deixa ficar a flor.
E nem murmures.Deixa
o tempo no degrau,
a morte na gaveta.
Conheces a gaveta:
a primeira da esquerda,
que se mantém fechada.
Quem atirou a chave
pela janela fora?
Na batalha do ódio,
destruam-se,fechados,
sem tréguas,os retratos!
Deixa ficar a flor.
A flor? Não a conheces.
Bem sei.Nem eu.Ninguém.
Deixa ficar a flor.
Não digas nada.Ouve.
Não ouves o degrau?
Quem sobe agora a escada?
Como vem devagar!
Tão devagar que sobe...
Não digas nada.Ouve:
é com certeza alguém,
alguém que traz a chave.
Deixa ficar a flor.
a morte na gaveta,
o tempo no degrau.
Conheces o degrau:
o sétimo degrau
depois do patamar;
o que range ao passares;
o que foi esconderijo
do maço de cigarros
fumado às escondidas...
Deixa ficar a flor.
E nem murmures.Deixa
o tempo no degrau,
a morte na gaveta.
Conheces a gaveta:
a primeira da esquerda,
que se mantém fechada.
Quem atirou a chave
pela janela fora?
Na batalha do ódio,
destruam-se,fechados,
sem tréguas,os retratos!
Deixa ficar a flor.
A flor? Não a conheces.
Bem sei.Nem eu.Ninguém.
Deixa ficar a flor.
Não digas nada.Ouve.
Não ouves o degrau?
Quem sobe agora a escada?
Como vem devagar!
Tão devagar que sobe...
Não digas nada.Ouve:
é com certeza alguém,
alguém que traz a chave.
Deixa ficar a flor.
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