Poemas neste tema
Outros
Fernando Pinto do Amaral
Á Chegada do Inverno
Nem sempre
a vida acolhe ou alimenta
os nomes do passado, o seu abismo
repetido num sonho, na mais lenta
assombração, no mais íntimo sismo
Do que chamamos alma. Não existo
sem essa febre mansa que relembro
enquanto as nuvens cobrem tudo isto
com o frio escuro de um dezembro
Longe de mim, de ti, de qualquer lei
ou juízo a que dêmos um sentido:
o que finjo saber é o que não sei
e as palavras colam-se ao ouvido.
a vida acolhe ou alimenta
os nomes do passado, o seu abismo
repetido num sonho, na mais lenta
assombração, no mais íntimo sismo
Do que chamamos alma. Não existo
sem essa febre mansa que relembro
enquanto as nuvens cobrem tudo isto
com o frio escuro de um dezembro
Longe de mim, de ti, de qualquer lei
ou juízo a que dêmos um sentido:
o que finjo saber é o que não sei
e as palavras colam-se ao ouvido.
2 150
1
Joaquim Pessoa
Soneto Primeiro
Não foi Guevarra, mãe, quem te rasgou
Com os punhais do frio pela manhã.
Foi quando eu te feri que um cão ladrou.
Das rosas veio um cheiro a hortelã!
Nos mastros adejavam as gaivotas.
Era Fevereiro. E a noite um pesadelo.
Da chuva que caía algumas gotas
Quiseram repousar no teu cabelo.
E eu nasci. No quarto ninguém estava.
À porta só a chuva é que teimava
Em molhar os lençóis da tua cama.
Não foi Guevarra, mãe, quem tu pariste
Foi um grito do povo azul e triste
Na noite em que chorei luas de lama.
Com os punhais do frio pela manhã.
Foi quando eu te feri que um cão ladrou.
Das rosas veio um cheiro a hortelã!
Nos mastros adejavam as gaivotas.
Era Fevereiro. E a noite um pesadelo.
Da chuva que caía algumas gotas
Quiseram repousar no teu cabelo.
E eu nasci. No quarto ninguém estava.
À porta só a chuva é que teimava
Em molhar os lençóis da tua cama.
Não foi Guevarra, mãe, quem tu pariste
Foi um grito do povo azul e triste
Na noite em que chorei luas de lama.
1 353
1
Hilda Hilst
IV
E por que,
também não doloso e penitente?
Dolo pode ser punhal. E astúcia, logro.
E isso sem nome, o despedir-se sempre
Tem muito de sedução, armadilhas, minúcias
Isso sem nome fere e faz feridas.
Penitente e algoz:
Como se só na morte abraçasses a vida.
É
pomposo e pungente. Com ares de santidade
Odores de cortesã, pode ser carmelita
ou Catarina, ser menina ou malsã.
Penitente
e doloso
Pode ser o sumo de um instante.
Pode ser tu-outro pretendido, teu adeus, tua sorte.
Fêmea-rapaz, ISSO sem nome pode ser um todo
Que só se ajusta ao Nunca. Ao Nunca Mais.
também não doloso e penitente?
Dolo pode ser punhal. E astúcia, logro.
E isso sem nome, o despedir-se sempre
Tem muito de sedução, armadilhas, minúcias
Isso sem nome fere e faz feridas.
Penitente e algoz:
Como se só na morte abraçasses a vida.
É
pomposo e pungente. Com ares de santidade
Odores de cortesã, pode ser carmelita
ou Catarina, ser menina ou malsã.
Penitente
e doloso
Pode ser o sumo de um instante.
Pode ser tu-outro pretendido, teu adeus, tua sorte.
Fêmea-rapaz, ISSO sem nome pode ser um todo
Que só se ajusta ao Nunca. Ao Nunca Mais.
1 571
1
Mariazinha Congílio
O Começo e o Fim
Certeza?
De nada.
Aguardando
Imprevistos
Qualquer hora
Qualquer lugar
Viver em aventura
Pronta para partir
Em qualquer madrugada
Ou anoitecer.
Sempre estamos
nos despedindo,
pessoas. Coisas, lugares
e muita vez
nem sabemos
se o instante que vivemos
é o começo ou o fim.
De nada.
Aguardando
Imprevistos
Qualquer hora
Qualquer lugar
Viver em aventura
Pronta para partir
Em qualquer madrugada
Ou anoitecer.
Sempre estamos
nos despedindo,
pessoas. Coisas, lugares
e muita vez
nem sabemos
se o instante que vivemos
é o começo ou o fim.
921
1
Joaquim Pessoa
De onde chegam estas palavras?
De onde me chegam estas palavras?
Nunca houve palavras para gritar a tua ausência
Apenas o coração
Pulsando a solidão antes de ti
Quando o teu rosto dóia no meu rosto
E eu descobri as minhas mãos sem as tuas
E os teus olhos não eram mais
que um lugar escondido onde a primavera
refaz o seu vestido de corolas.
E não havia um nome para a tua ausência.
Mas tu vieste.
Do coração da noite?
Dos braços da manhã?
Dos bosques do Outono?
Tu vieste.
E acordas todas as horas.
Preenches todos os minutos.
acendes todas as fogueiras
escreves todas as palavras.
Um canto de alegria desprende-se dos meus dedos
quando toco o teu corpo e habito em ti
e a noite não existe
porque as nossas bocas acendem na madrugada
uma aurora de beijos.
Oh, meu amor,
doem-me os braços de te abraçar,
trago as mãos acesas,
a boca desfeita
e a solidão acorda em mim um grito de silêncio quando
o medo de perder-te é um corcel que pisa os meus cabelos
e se perde depois numa estrada deserta
por onde caminhas nua.
Nunca houve palavras para gritar a tua ausência
Apenas o coração
Pulsando a solidão antes de ti
Quando o teu rosto dóia no meu rosto
E eu descobri as minhas mãos sem as tuas
E os teus olhos não eram mais
que um lugar escondido onde a primavera
refaz o seu vestido de corolas.
E não havia um nome para a tua ausência.
Mas tu vieste.
Do coração da noite?
Dos braços da manhã?
Dos bosques do Outono?
Tu vieste.
E acordas todas as horas.
Preenches todos os minutos.
acendes todas as fogueiras
escreves todas as palavras.
Um canto de alegria desprende-se dos meus dedos
quando toco o teu corpo e habito em ti
e a noite não existe
porque as nossas bocas acendem na madrugada
uma aurora de beijos.
Oh, meu amor,
doem-me os braços de te abraçar,
trago as mãos acesas,
a boca desfeita
e a solidão acorda em mim um grito de silêncio quando
o medo de perder-te é um corcel que pisa os meus cabelos
e se perde depois numa estrada deserta
por onde caminhas nua.
2 168
1
Hilda Hilst
VIII
Aquela
que não te pertence por mais queira
(Porque ser pertencente
É entregar a alma a uma Cara, a de áspide
Escura e clara, negra e transparente), Ai!
Saber-se pertencente é ter mais nada.
É ter tudo também.
É como ter o rio, aquele que deságua
Nas infinitas águas de um sem-fim de ninguéns.
Aquela que não te pertence não tem corpo.
Porque corpo é um conceito suposto de matéria
E finito. E aquela é luz. E etérea.
Pertencente
é não ter rosto. É ser amante
De um Outro que nem nome tem. Não é Deus nem Satã.
Não tem ilharga ou osso. Fende sem ofender.
É vida e ferida ao mesmo tempo, "Esse"
Que bem me sabe inteira pertencida.
que não te pertence por mais queira
(Porque ser pertencente
É entregar a alma a uma Cara, a de áspide
Escura e clara, negra e transparente), Ai!
Saber-se pertencente é ter mais nada.
É ter tudo também.
É como ter o rio, aquele que deságua
Nas infinitas águas de um sem-fim de ninguéns.
Aquela que não te pertence não tem corpo.
Porque corpo é um conceito suposto de matéria
E finito. E aquela é luz. E etérea.
Pertencente
é não ter rosto. É ser amante
De um Outro que nem nome tem. Não é Deus nem Satã.
Não tem ilharga ou osso. Fende sem ofender.
É vida e ferida ao mesmo tempo, "Esse"
Que bem me sabe inteira pertencida.
1 429
1
Ana Luísa Amaral
Navegações Doentes
Tenho os sintomas todos:
navegam-me fluídos
e o devaneio em barcos de desejo
os sons de trovoada
mesmo tapando ouvidos:
esclerótica paixão que não domino
tenho os sintomas todos
e assim me reconheço
acamada, incurável: na parede do fundo
navegantes os barcos
navegam-me fluídos
e o devaneio em barcos de desejo
os sons de trovoada
mesmo tapando ouvidos:
esclerótica paixão que não domino
tenho os sintomas todos
e assim me reconheço
acamada, incurável: na parede do fundo
navegantes os barcos
4 219
1
Hilda Hilst
VII
Rios de
rumor: meu peito te dizendo adeus.
Aldeia é o que sou. Aldeã de conceitos
Porque me fiz tanto de ressentimentos
Que o melhor é partir. E te mandar escritos.
Rios de rumor no peito: que te viram subir
A colina de alfafas, sem éguas e sem cabras
Mas com a mulher, aquela,
Que sempre diante dela me soube tão pequena.
Sabenças? Esqueci-as. Livros? Perdi-os.
Perdi-me tanto em ti
Que quando estou contigo não sou vista
E quando estás comigo vêem aquela.
rumor: meu peito te dizendo adeus.
Aldeia é o que sou. Aldeã de conceitos
Porque me fiz tanto de ressentimentos
Que o melhor é partir. E te mandar escritos.
Rios de rumor no peito: que te viram subir
A colina de alfafas, sem éguas e sem cabras
Mas com a mulher, aquela,
Que sempre diante dela me soube tão pequena.
Sabenças? Esqueci-as. Livros? Perdi-os.
Perdi-me tanto em ti
Que quando estou contigo não sou vista
E quando estás comigo vêem aquela.
1 649
1
Angela Santos
Dobras da Memória
Prende-se
à alma
isto que não dizemos, que é só sentir
a fome de tudo ser a um só tempo
sem tempo Ter
Donde o longe que me chama
que lhe não sei as raízes?
difusa nas dobras da memória
a ponte de mim a mim
que não atravessei
intocável, fugidia cifra
de que fico aquém
Revisitados espaços onde fui e sou
teima o afã de me dizer,
que me devolve à incoincidência
de me saber outra
e a mesma ser.
à alma
isto que não dizemos, que é só sentir
a fome de tudo ser a um só tempo
sem tempo Ter
Donde o longe que me chama
que lhe não sei as raízes?
difusa nas dobras da memória
a ponte de mim a mim
que não atravessei
intocável, fugidia cifra
de que fico aquém
Revisitados espaços onde fui e sou
teima o afã de me dizer,
que me devolve à incoincidência
de me saber outra
e a mesma ser.
778
1
Angela Santos
Dobras da Memória
Prende-se
à alma
isto que não dizemos, que é só sentir
a fome de tudo ser a um só tempo
sem tempo Ter
Donde o longe que me chama
que lhe não sei as raízes?
difusa nas dobras da memória
a ponte de mim a mim
que não atravessei
intocável, fugidia cifra
de que fico aquém
Revisitados espaços onde fui e sou
teima o afã de me dizer,
que me devolve à incoincidência
de me saber outra
e a mesma ser.
à alma
isto que não dizemos, que é só sentir
a fome de tudo ser a um só tempo
sem tempo Ter
Donde o longe que me chama
que lhe não sei as raízes?
difusa nas dobras da memória
a ponte de mim a mim
que não atravessei
intocável, fugidia cifra
de que fico aquém
Revisitados espaços onde fui e sou
teima o afã de me dizer,
que me devolve à incoincidência
de me saber outra
e a mesma ser.
778
1
Odylo Costa Filho
O Amor Calado
Ainda que o canto desça, de atropelo
como abelhas no enxame alucinante
em torno a um tronco, e me penetre pelo
ouvido, em sua música incessante,
juro a mim mesmo: nunca hei de escrevê-lo.
Hei de fechá-lo em mim como diamante
dentro da pedra feia. Hei de escondê-lo
na minha alma cansada e navegante.
E nunca mais proclamarei que te amo.
Antes o negarei como os namoros
secretos de menino encabulado.
Que se cale este verso em que te chamo.
Cessem para jamais risos e choros.
Meu amor mineral é tão calado!
como abelhas no enxame alucinante
em torno a um tronco, e me penetre pelo
ouvido, em sua música incessante,
juro a mim mesmo: nunca hei de escrevê-lo.
Hei de fechá-lo em mim como diamante
dentro da pedra feia. Hei de escondê-lo
na minha alma cansada e navegante.
E nunca mais proclamarei que te amo.
Antes o negarei como os namoros
secretos de menino encabulado.
Que se cale este verso em que te chamo.
Cessem para jamais risos e choros.
Meu amor mineral é tão calado!
1 318
1
Odylo Costa Filho
O Amor Calado
Ainda que o canto desça, de atropelo
como abelhas no enxame alucinante
em torno a um tronco, e me penetre pelo
ouvido, em sua música incessante,
juro a mim mesmo: nunca hei de escrevê-lo.
Hei de fechá-lo em mim como diamante
dentro da pedra feia. Hei de escondê-lo
na minha alma cansada e navegante.
E nunca mais proclamarei que te amo.
Antes o negarei como os namoros
secretos de menino encabulado.
Que se cale este verso em que te chamo.
Cessem para jamais risos e choros.
Meu amor mineral é tão calado!
como abelhas no enxame alucinante
em torno a um tronco, e me penetre pelo
ouvido, em sua música incessante,
juro a mim mesmo: nunca hei de escrevê-lo.
Hei de fechá-lo em mim como diamante
dentro da pedra feia. Hei de escondê-lo
na minha alma cansada e navegante.
E nunca mais proclamarei que te amo.
Antes o negarei como os namoros
secretos de menino encabulado.
Que se cale este verso em que te chamo.
Cessem para jamais risos e choros.
Meu amor mineral é tão calado!
1 318
1
Odylo Costa Filho
O Amor Calado
Ainda que o canto desça, de atropelo
como abelhas no enxame alucinante
em torno a um tronco, e me penetre pelo
ouvido, em sua música incessante,
juro a mim mesmo: nunca hei de escrevê-lo.
Hei de fechá-lo em mim como diamante
dentro da pedra feia. Hei de escondê-lo
na minha alma cansada e navegante.
E nunca mais proclamarei que te amo.
Antes o negarei como os namoros
secretos de menino encabulado.
Que se cale este verso em que te chamo.
Cessem para jamais risos e choros.
Meu amor mineral é tão calado!
como abelhas no enxame alucinante
em torno a um tronco, e me penetre pelo
ouvido, em sua música incessante,
juro a mim mesmo: nunca hei de escrevê-lo.
Hei de fechá-lo em mim como diamante
dentro da pedra feia. Hei de escondê-lo
na minha alma cansada e navegante.
E nunca mais proclamarei que te amo.
Antes o negarei como os namoros
secretos de menino encabulado.
Que se cale este verso em que te chamo.
Cessem para jamais risos e choros.
Meu amor mineral é tão calado!
1 318
1
Odylo Costa Filho
O Amor Calado
Ainda que o canto desça, de atropelo
como abelhas no enxame alucinante
em torno a um tronco, e me penetre pelo
ouvido, em sua música incessante,
juro a mim mesmo: nunca hei de escrevê-lo.
Hei de fechá-lo em mim como diamante
dentro da pedra feia. Hei de escondê-lo
na minha alma cansada e navegante.
E nunca mais proclamarei que te amo.
Antes o negarei como os namoros
secretos de menino encabulado.
Que se cale este verso em que te chamo.
Cessem para jamais risos e choros.
Meu amor mineral é tão calado!
como abelhas no enxame alucinante
em torno a um tronco, e me penetre pelo
ouvido, em sua música incessante,
juro a mim mesmo: nunca hei de escrevê-lo.
Hei de fechá-lo em mim como diamante
dentro da pedra feia. Hei de escondê-lo
na minha alma cansada e navegante.
E nunca mais proclamarei que te amo.
Antes o negarei como os namoros
secretos de menino encabulado.
Que se cale este verso em que te chamo.
Cessem para jamais risos e choros.
Meu amor mineral é tão calado!
1 318
1
Pedro Tierra
Ressurreição
1.
Ñancauazu
já não te aguarda.
Vallegrande já não te guarda.
Bolívia já não te guarda
em seu coração de estanho.
Você desceu dos Andes.
Não se subjuga o corpo estendido dos ventos
Che.
A luz recorta o rosto inclinado sobre mapas ou livros,
os cabelos, a boina, a estrela de cinco pontas.
A fumaça do charuto dissolve
todos os contornos e te semeia num campo arado
para além da região maíscula dos mitos:
Che
Os rios do continente percorrem tuas veias
e as minhas, a caminho de Santa Clara.
Que el Gran Caimán te recolha,
em nome de todos nós.
Os rios do continente visitam os olhos
da terceira geração tocada
pela tirania de tua luz:
Che.
Tuas mãos deixaram o fuzil
e a palavra.
Há o tempo dos fuzis
e o tempo da palavra.
A palavra se faz verso,
aço
e ternura.
Por isso a palavra vaza o tempo,
sempre visitará a boca dos insubmissos.
Neste tempo de desertos, Che,
cabe aos poetas a temerária
tarefa das ressurreições.
2.
Antes que
a madrugada
limpasse o carvão da sombra
e da morte,
e o tempo deitasse
sem pressa,
trinta anos contados, suas vagas de luz
sobre os destroços da vida,
fiz, pela palavra, um exército impossível
fluir do coração da terra.
Uma torrente inumerável de abelhas,
operárias do mel e da ternura,
a recobrir o dorso das serras,
o tronco das árvores,
a pedra dos abismos,
a merda abundante dos animais,
flores, brejos, veredas,
a larga vastidão dos gerais,
o campo de espadas verdes do chapadão,
até mergulhar a última rama
no caldo cor de ferrugem
e se fazer o sertão
viveiro voraz dos insetos,
caldeira escura fervendo
lamento, dor e memória.
3.
Poro a
poro,
gota a gota,
como a noite,
tempo a tempo
destila a luz das estrelas
e a chuva amamenta
as bocas exaustas da terra,
como o angico goteja
o ouro de sua resina,
as abelhas untadas
na ciência de todos os sucos
vão rejuntando
o corpo do Comandante
Ernesto Guevara:
memória dispersa do povo.
No canto mais fresco,
na grota mais funda,
no cerne da noite
de nãncauazú remontam:
os pés:
calejados pés
do sempre retirante,
alicerces do mundo,
passo do povo em marcha.
As mãos:
arado da terra e do tempo
pátria primeira do pão de todos.
Os braços:
força contida do povo,
fúria de vulcões acorrentados,
mastros erguidos na tormenta.
O sangue:
mar vermelho derramado,
vento de furacão,
matéria do Tempo Novo.
O sonho:
vôo de pássaros iguais
- tão diferentes em sua pluma -
água viva, libertada,
canto dos cantos gerais.
E a voz,
corda a corda resgatada
dos socavões do silêncio,
como os galos condenados
resgatam da escuridão
sementes de alvorada,
recompõe-se obstinada,
em trovão subterrâneo,
anúncio de tempestades.
4.
Quando
o Tempo regressar dos seus labirintos
para inquirir a pedra dos séculos
- armado com a artilharia dos relâmpagos -,
este século de cinza e rebeldia
oferecerá a face fugidia deste homem
que escapa aos desígnios do mercado
e sempre recusará o altar dos deuses.
Ernesto Che Guevara: apenas um homem,
talhado em ternura e valentia.
Comandante, companheiro,
que meu verso possa te devolver ao Continente:
dou por terminada a temerária tarefa da ressurreição.
Brasília,
outubro/97
Ñancauazu
já não te aguarda.
Vallegrande já não te guarda.
Bolívia já não te guarda
em seu coração de estanho.
Você desceu dos Andes.
Não se subjuga o corpo estendido dos ventos
Che.
A luz recorta o rosto inclinado sobre mapas ou livros,
os cabelos, a boina, a estrela de cinco pontas.
A fumaça do charuto dissolve
todos os contornos e te semeia num campo arado
para além da região maíscula dos mitos:
Che
Os rios do continente percorrem tuas veias
e as minhas, a caminho de Santa Clara.
Que el Gran Caimán te recolha,
em nome de todos nós.
Os rios do continente visitam os olhos
da terceira geração tocada
pela tirania de tua luz:
Che.
Tuas mãos deixaram o fuzil
e a palavra.
Há o tempo dos fuzis
e o tempo da palavra.
A palavra se faz verso,
aço
e ternura.
Por isso a palavra vaza o tempo,
sempre visitará a boca dos insubmissos.
Neste tempo de desertos, Che,
cabe aos poetas a temerária
tarefa das ressurreições.
2.
Antes que
a madrugada
limpasse o carvão da sombra
e da morte,
e o tempo deitasse
sem pressa,
trinta anos contados, suas vagas de luz
sobre os destroços da vida,
fiz, pela palavra, um exército impossível
fluir do coração da terra.
Uma torrente inumerável de abelhas,
operárias do mel e da ternura,
a recobrir o dorso das serras,
o tronco das árvores,
a pedra dos abismos,
a merda abundante dos animais,
flores, brejos, veredas,
a larga vastidão dos gerais,
o campo de espadas verdes do chapadão,
até mergulhar a última rama
no caldo cor de ferrugem
e se fazer o sertão
viveiro voraz dos insetos,
caldeira escura fervendo
lamento, dor e memória.
3.
Poro a
poro,
gota a gota,
como a noite,
tempo a tempo
destila a luz das estrelas
e a chuva amamenta
as bocas exaustas da terra,
como o angico goteja
o ouro de sua resina,
as abelhas untadas
na ciência de todos os sucos
vão rejuntando
o corpo do Comandante
Ernesto Guevara:
memória dispersa do povo.
No canto mais fresco,
na grota mais funda,
no cerne da noite
de nãncauazú remontam:
os pés:
calejados pés
do sempre retirante,
alicerces do mundo,
passo do povo em marcha.
As mãos:
arado da terra e do tempo
pátria primeira do pão de todos.
Os braços:
força contida do povo,
fúria de vulcões acorrentados,
mastros erguidos na tormenta.
O sangue:
mar vermelho derramado,
vento de furacão,
matéria do Tempo Novo.
O sonho:
vôo de pássaros iguais
- tão diferentes em sua pluma -
água viva, libertada,
canto dos cantos gerais.
E a voz,
corda a corda resgatada
dos socavões do silêncio,
como os galos condenados
resgatam da escuridão
sementes de alvorada,
recompõe-se obstinada,
em trovão subterrâneo,
anúncio de tempestades.
4.
Quando
o Tempo regressar dos seus labirintos
para inquirir a pedra dos séculos
- armado com a artilharia dos relâmpagos -,
este século de cinza e rebeldia
oferecerá a face fugidia deste homem
que escapa aos desígnios do mercado
e sempre recusará o altar dos deuses.
Ernesto Che Guevara: apenas um homem,
talhado em ternura e valentia.
Comandante, companheiro,
que meu verso possa te devolver ao Continente:
dou por terminada a temerária tarefa da ressurreição.
Brasília,
outubro/97
1 908
1
Pedro Tierra
Ressurreição
1.
Ñancauazu
já não te aguarda.
Vallegrande já não te guarda.
Bolívia já não te guarda
em seu coração de estanho.
Você desceu dos Andes.
Não se subjuga o corpo estendido dos ventos
Che.
A luz recorta o rosto inclinado sobre mapas ou livros,
os cabelos, a boina, a estrela de cinco pontas.
A fumaça do charuto dissolve
todos os contornos e te semeia num campo arado
para além da região maíscula dos mitos:
Che
Os rios do continente percorrem tuas veias
e as minhas, a caminho de Santa Clara.
Que el Gran Caimán te recolha,
em nome de todos nós.
Os rios do continente visitam os olhos
da terceira geração tocada
pela tirania de tua luz:
Che.
Tuas mãos deixaram o fuzil
e a palavra.
Há o tempo dos fuzis
e o tempo da palavra.
A palavra se faz verso,
aço
e ternura.
Por isso a palavra vaza o tempo,
sempre visitará a boca dos insubmissos.
Neste tempo de desertos, Che,
cabe aos poetas a temerária
tarefa das ressurreições.
2.
Antes que
a madrugada
limpasse o carvão da sombra
e da morte,
e o tempo deitasse
sem pressa,
trinta anos contados, suas vagas de luz
sobre os destroços da vida,
fiz, pela palavra, um exército impossível
fluir do coração da terra.
Uma torrente inumerável de abelhas,
operárias do mel e da ternura,
a recobrir o dorso das serras,
o tronco das árvores,
a pedra dos abismos,
a merda abundante dos animais,
flores, brejos, veredas,
a larga vastidão dos gerais,
o campo de espadas verdes do chapadão,
até mergulhar a última rama
no caldo cor de ferrugem
e se fazer o sertão
viveiro voraz dos insetos,
caldeira escura fervendo
lamento, dor e memória.
3.
Poro a
poro,
gota a gota,
como a noite,
tempo a tempo
destila a luz das estrelas
e a chuva amamenta
as bocas exaustas da terra,
como o angico goteja
o ouro de sua resina,
as abelhas untadas
na ciência de todos os sucos
vão rejuntando
o corpo do Comandante
Ernesto Guevara:
memória dispersa do povo.
No canto mais fresco,
na grota mais funda,
no cerne da noite
de nãncauazú remontam:
os pés:
calejados pés
do sempre retirante,
alicerces do mundo,
passo do povo em marcha.
As mãos:
arado da terra e do tempo
pátria primeira do pão de todos.
Os braços:
força contida do povo,
fúria de vulcões acorrentados,
mastros erguidos na tormenta.
O sangue:
mar vermelho derramado,
vento de furacão,
matéria do Tempo Novo.
O sonho:
vôo de pássaros iguais
- tão diferentes em sua pluma -
água viva, libertada,
canto dos cantos gerais.
E a voz,
corda a corda resgatada
dos socavões do silêncio,
como os galos condenados
resgatam da escuridão
sementes de alvorada,
recompõe-se obstinada,
em trovão subterrâneo,
anúncio de tempestades.
4.
Quando
o Tempo regressar dos seus labirintos
para inquirir a pedra dos séculos
- armado com a artilharia dos relâmpagos -,
este século de cinza e rebeldia
oferecerá a face fugidia deste homem
que escapa aos desígnios do mercado
e sempre recusará o altar dos deuses.
Ernesto Che Guevara: apenas um homem,
talhado em ternura e valentia.
Comandante, companheiro,
que meu verso possa te devolver ao Continente:
dou por terminada a temerária tarefa da ressurreição.
Brasília,
outubro/97
Ñancauazu
já não te aguarda.
Vallegrande já não te guarda.
Bolívia já não te guarda
em seu coração de estanho.
Você desceu dos Andes.
Não se subjuga o corpo estendido dos ventos
Che.
A luz recorta o rosto inclinado sobre mapas ou livros,
os cabelos, a boina, a estrela de cinco pontas.
A fumaça do charuto dissolve
todos os contornos e te semeia num campo arado
para além da região maíscula dos mitos:
Che
Os rios do continente percorrem tuas veias
e as minhas, a caminho de Santa Clara.
Que el Gran Caimán te recolha,
em nome de todos nós.
Os rios do continente visitam os olhos
da terceira geração tocada
pela tirania de tua luz:
Che.
Tuas mãos deixaram o fuzil
e a palavra.
Há o tempo dos fuzis
e o tempo da palavra.
A palavra se faz verso,
aço
e ternura.
Por isso a palavra vaza o tempo,
sempre visitará a boca dos insubmissos.
Neste tempo de desertos, Che,
cabe aos poetas a temerária
tarefa das ressurreições.
2.
Antes que
a madrugada
limpasse o carvão da sombra
e da morte,
e o tempo deitasse
sem pressa,
trinta anos contados, suas vagas de luz
sobre os destroços da vida,
fiz, pela palavra, um exército impossível
fluir do coração da terra.
Uma torrente inumerável de abelhas,
operárias do mel e da ternura,
a recobrir o dorso das serras,
o tronco das árvores,
a pedra dos abismos,
a merda abundante dos animais,
flores, brejos, veredas,
a larga vastidão dos gerais,
o campo de espadas verdes do chapadão,
até mergulhar a última rama
no caldo cor de ferrugem
e se fazer o sertão
viveiro voraz dos insetos,
caldeira escura fervendo
lamento, dor e memória.
3.
Poro a
poro,
gota a gota,
como a noite,
tempo a tempo
destila a luz das estrelas
e a chuva amamenta
as bocas exaustas da terra,
como o angico goteja
o ouro de sua resina,
as abelhas untadas
na ciência de todos os sucos
vão rejuntando
o corpo do Comandante
Ernesto Guevara:
memória dispersa do povo.
No canto mais fresco,
na grota mais funda,
no cerne da noite
de nãncauazú remontam:
os pés:
calejados pés
do sempre retirante,
alicerces do mundo,
passo do povo em marcha.
As mãos:
arado da terra e do tempo
pátria primeira do pão de todos.
Os braços:
força contida do povo,
fúria de vulcões acorrentados,
mastros erguidos na tormenta.
O sangue:
mar vermelho derramado,
vento de furacão,
matéria do Tempo Novo.
O sonho:
vôo de pássaros iguais
- tão diferentes em sua pluma -
água viva, libertada,
canto dos cantos gerais.
E a voz,
corda a corda resgatada
dos socavões do silêncio,
como os galos condenados
resgatam da escuridão
sementes de alvorada,
recompõe-se obstinada,
em trovão subterrâneo,
anúncio de tempestades.
4.
Quando
o Tempo regressar dos seus labirintos
para inquirir a pedra dos séculos
- armado com a artilharia dos relâmpagos -,
este século de cinza e rebeldia
oferecerá a face fugidia deste homem
que escapa aos desígnios do mercado
e sempre recusará o altar dos deuses.
Ernesto Che Guevara: apenas um homem,
talhado em ternura e valentia.
Comandante, companheiro,
que meu verso possa te devolver ao Continente:
dou por terminada a temerária tarefa da ressurreição.
Brasília,
outubro/97
1 908
1
Fernando Tavares Rodrigues
As Time Goes By
Como o
tempo passa
Enquanto ficamos sós...
Passamos nós pelo tempo
Ou passa o tempo por nós?
Bebamos os dois á taça
O que afinal sou eu só
- ambígua raiva, duelo,
dualidade num só.
tempo passa
Enquanto ficamos sós...
Passamos nós pelo tempo
Ou passa o tempo por nós?
Bebamos os dois á taça
O que afinal sou eu só
- ambígua raiva, duelo,
dualidade num só.
1 188
1
Fernando Fabião
Estava à Tua Espera
Estava
á tua espera
Desde o começo do mundo
No sentido da água dos indícios do fogo
Pousaste o olhar
Na luz que tardava
E em redor a neve ardeu
Havia uma casa
Um endereço uma magnólia incendiada
A nada alterou o itinerário das aves
Estava á tua espera
Desde o começo do mundo
Na despedida dos anjos
No rumor matinal de Abril
Com parcimónia escrevo
Num talento breve e ao abrigo da noite
As razões desta areia iluminada
á tua espera
Desde o começo do mundo
No sentido da água dos indícios do fogo
Pousaste o olhar
Na luz que tardava
E em redor a neve ardeu
Havia uma casa
Um endereço uma magnólia incendiada
A nada alterou o itinerário das aves
Estava á tua espera
Desde o começo do mundo
Na despedida dos anjos
No rumor matinal de Abril
Com parcimónia escrevo
Num talento breve e ao abrigo da noite
As razões desta areia iluminada
976
1
Fernando Fabião
Estava à Tua Espera
Estava
á tua espera
Desde o começo do mundo
No sentido da água dos indícios do fogo
Pousaste o olhar
Na luz que tardava
E em redor a neve ardeu
Havia uma casa
Um endereço uma magnólia incendiada
A nada alterou o itinerário das aves
Estava á tua espera
Desde o começo do mundo
Na despedida dos anjos
No rumor matinal de Abril
Com parcimónia escrevo
Num talento breve e ao abrigo da noite
As razões desta areia iluminada
á tua espera
Desde o começo do mundo
No sentido da água dos indícios do fogo
Pousaste o olhar
Na luz que tardava
E em redor a neve ardeu
Havia uma casa
Um endereço uma magnólia incendiada
A nada alterou o itinerário das aves
Estava á tua espera
Desde o começo do mundo
Na despedida dos anjos
No rumor matinal de Abril
Com parcimónia escrevo
Num talento breve e ao abrigo da noite
As razões desta areia iluminada
976
1
Hilda Hilst
III
Isso de
mim que anseia despedida
(Para perpetuar o que está sendo)
Não tem nome de amor. Nem é celeste
Ou terreno. Isso de mim é marulhoso
E tenro. Dançarino também. Isso de mim
É novo: Como que come o que nada contém.
A impossível oquidão de um ovo.
Como se um tigre
Reversivo,
Veemente de seu avesso
Cantasse mansamente.
Não
tem nome de amor. Nem se parece a mim.
Como pode ser isso? Ser tenro, marulhoso
Dançarino e novo, ter nome de ninguém
E preferir ausência e desconforto
Para guardar no eterno o coração do outro.
mim que anseia despedida
(Para perpetuar o que está sendo)
Não tem nome de amor. Nem é celeste
Ou terreno. Isso de mim é marulhoso
E tenro. Dançarino também. Isso de mim
É novo: Como que come o que nada contém.
A impossível oquidão de um ovo.
Como se um tigre
Reversivo,
Veemente de seu avesso
Cantasse mansamente.
Não
tem nome de amor. Nem se parece a mim.
Como pode ser isso? Ser tenro, marulhoso
Dançarino e novo, ter nome de ninguém
E preferir ausência e desconforto
Para guardar no eterno o coração do outro.
1 760
1
Irene Lisboa
Jeito de Escrever
Não sei que diga.
E a quem o dizer?
Não sei que pense.
Nada jamais soube.
Nem de mim, nem dos outros.
Nem do tempo, do céu e da terra, das coisas...
Seja do que for ou do que fosse.
Não sei que diga, não sei que pense.
Oiço os ralos queixosos, arrastados.
Ralos serão?
Horas da noite.
Noite começada ou adiantada, noite.
Como é bonito escrever!
Com este longo aparo, bonitas as letras e o gesto - o jeito.
Ao acaso, sem âncora, vago no tempo.
No tempo vago...
Ele vago e eu sem amparo.
Piam pássaros, trespassam o luto do espaço, este sereno luto das horas.
Mortas!
E por mais não ter que relatar me cerro.
Expressão antiga, epistolar: me cerro.
Tão grato é o velho, inopinado e novo.
Me cerro!
Assim: uma das mãos no papel, dedos fincados,
solta a outra, de pena expectante.
Uma que agarra, a outra que espera...
Ó ilusão!
E tudo acabou, acaba.
Para quê a busca das coisas novas, à toa e à roda?
Silêncio.
Nem pássaros já, noite morta.
Me cerro.
Ó minha derradeira composição! Do não, do
nem, do nada, da ausência e solidão.
Da indiferença.
Quero eu que o seja! da indiferença ilimitada.
Noite vasta e contínua, caminha, caminha.
Alonga-te.
A ribeira acordou.
E a quem o dizer?
Não sei que pense.
Nada jamais soube.
Nem de mim, nem dos outros.
Nem do tempo, do céu e da terra, das coisas...
Seja do que for ou do que fosse.
Não sei que diga, não sei que pense.
Oiço os ralos queixosos, arrastados.
Ralos serão?
Horas da noite.
Noite começada ou adiantada, noite.
Como é bonito escrever!
Com este longo aparo, bonitas as letras e o gesto - o jeito.
Ao acaso, sem âncora, vago no tempo.
No tempo vago...
Ele vago e eu sem amparo.
Piam pássaros, trespassam o luto do espaço, este sereno luto das horas.
Mortas!
E por mais não ter que relatar me cerro.
Expressão antiga, epistolar: me cerro.
Tão grato é o velho, inopinado e novo.
Me cerro!
Assim: uma das mãos no papel, dedos fincados,
solta a outra, de pena expectante.
Uma que agarra, a outra que espera...
Ó ilusão!
E tudo acabou, acaba.
Para quê a busca das coisas novas, à toa e à roda?
Silêncio.
Nem pássaros já, noite morta.
Me cerro.
Ó minha derradeira composição! Do não, do
nem, do nada, da ausência e solidão.
Da indiferença.
Quero eu que o seja! da indiferença ilimitada.
Noite vasta e contínua, caminha, caminha.
Alonga-te.
A ribeira acordou.
1 917
1
Irene Lisboa
Jeito de Escrever
Não sei que diga.
E a quem o dizer?
Não sei que pense.
Nada jamais soube.
Nem de mim, nem dos outros.
Nem do tempo, do céu e da terra, das coisas...
Seja do que for ou do que fosse.
Não sei que diga, não sei que pense.
Oiço os ralos queixosos, arrastados.
Ralos serão?
Horas da noite.
Noite começada ou adiantada, noite.
Como é bonito escrever!
Com este longo aparo, bonitas as letras e o gesto - o jeito.
Ao acaso, sem âncora, vago no tempo.
No tempo vago...
Ele vago e eu sem amparo.
Piam pássaros, trespassam o luto do espaço, este sereno luto das horas.
Mortas!
E por mais não ter que relatar me cerro.
Expressão antiga, epistolar: me cerro.
Tão grato é o velho, inopinado e novo.
Me cerro!
Assim: uma das mãos no papel, dedos fincados,
solta a outra, de pena expectante.
Uma que agarra, a outra que espera...
Ó ilusão!
E tudo acabou, acaba.
Para quê a busca das coisas novas, à toa e à roda?
Silêncio.
Nem pássaros já, noite morta.
Me cerro.
Ó minha derradeira composição! Do não, do
nem, do nada, da ausência e solidão.
Da indiferença.
Quero eu que o seja! da indiferença ilimitada.
Noite vasta e contínua, caminha, caminha.
Alonga-te.
A ribeira acordou.
E a quem o dizer?
Não sei que pense.
Nada jamais soube.
Nem de mim, nem dos outros.
Nem do tempo, do céu e da terra, das coisas...
Seja do que for ou do que fosse.
Não sei que diga, não sei que pense.
Oiço os ralos queixosos, arrastados.
Ralos serão?
Horas da noite.
Noite começada ou adiantada, noite.
Como é bonito escrever!
Com este longo aparo, bonitas as letras e o gesto - o jeito.
Ao acaso, sem âncora, vago no tempo.
No tempo vago...
Ele vago e eu sem amparo.
Piam pássaros, trespassam o luto do espaço, este sereno luto das horas.
Mortas!
E por mais não ter que relatar me cerro.
Expressão antiga, epistolar: me cerro.
Tão grato é o velho, inopinado e novo.
Me cerro!
Assim: uma das mãos no papel, dedos fincados,
solta a outra, de pena expectante.
Uma que agarra, a outra que espera...
Ó ilusão!
E tudo acabou, acaba.
Para quê a busca das coisas novas, à toa e à roda?
Silêncio.
Nem pássaros já, noite morta.
Me cerro.
Ó minha derradeira composição! Do não, do
nem, do nada, da ausência e solidão.
Da indiferença.
Quero eu que o seja! da indiferença ilimitada.
Noite vasta e contínua, caminha, caminha.
Alonga-te.
A ribeira acordou.
1 917
1
Irene Lisboa
Jeito de Escrever
Não sei que diga.
E a quem o dizer?
Não sei que pense.
Nada jamais soube.
Nem de mim, nem dos outros.
Nem do tempo, do céu e da terra, das coisas...
Seja do que for ou do que fosse.
Não sei que diga, não sei que pense.
Oiço os ralos queixosos, arrastados.
Ralos serão?
Horas da noite.
Noite começada ou adiantada, noite.
Como é bonito escrever!
Com este longo aparo, bonitas as letras e o gesto - o jeito.
Ao acaso, sem âncora, vago no tempo.
No tempo vago...
Ele vago e eu sem amparo.
Piam pássaros, trespassam o luto do espaço, este sereno luto das horas.
Mortas!
E por mais não ter que relatar me cerro.
Expressão antiga, epistolar: me cerro.
Tão grato é o velho, inopinado e novo.
Me cerro!
Assim: uma das mãos no papel, dedos fincados,
solta a outra, de pena expectante.
Uma que agarra, a outra que espera...
Ó ilusão!
E tudo acabou, acaba.
Para quê a busca das coisas novas, à toa e à roda?
Silêncio.
Nem pássaros já, noite morta.
Me cerro.
Ó minha derradeira composição! Do não, do
nem, do nada, da ausência e solidão.
Da indiferença.
Quero eu que o seja! da indiferença ilimitada.
Noite vasta e contínua, caminha, caminha.
Alonga-te.
A ribeira acordou.
E a quem o dizer?
Não sei que pense.
Nada jamais soube.
Nem de mim, nem dos outros.
Nem do tempo, do céu e da terra, das coisas...
Seja do que for ou do que fosse.
Não sei que diga, não sei que pense.
Oiço os ralos queixosos, arrastados.
Ralos serão?
Horas da noite.
Noite começada ou adiantada, noite.
Como é bonito escrever!
Com este longo aparo, bonitas as letras e o gesto - o jeito.
Ao acaso, sem âncora, vago no tempo.
No tempo vago...
Ele vago e eu sem amparo.
Piam pássaros, trespassam o luto do espaço, este sereno luto das horas.
Mortas!
E por mais não ter que relatar me cerro.
Expressão antiga, epistolar: me cerro.
Tão grato é o velho, inopinado e novo.
Me cerro!
Assim: uma das mãos no papel, dedos fincados,
solta a outra, de pena expectante.
Uma que agarra, a outra que espera...
Ó ilusão!
E tudo acabou, acaba.
Para quê a busca das coisas novas, à toa e à roda?
Silêncio.
Nem pássaros já, noite morta.
Me cerro.
Ó minha derradeira composição! Do não, do
nem, do nada, da ausência e solidão.
Da indiferença.
Quero eu que o seja! da indiferença ilimitada.
Noite vasta e contínua, caminha, caminha.
Alonga-te.
A ribeira acordou.
1 917
1
Angela Santos
Strip-Tease
Escancaro
para o mundo
o dentro de mim
em puras exibições de strip-tease da alma
Desnudo-me pelo avesso
adornado de sedas, rendas e cetins
e o avesso se contorce nas palavras
ao jeito de dançarina, comerciando prazer
Vislumbro plateias ávidas,
pupilas inchadas, linguas humidas avermelhadas
exibindo-se ante o languido
arquejar de minha alma
O dentro de mim realiza o sortilegio
o secreto desejo que me habita,
dispo-me inteira pelo avesso
e na nudez primordial da chegada
ofereço-me a visão da minha própria luxuria.
Nas palavras que são corpo, dor, prazer
no palco branco de uma página vazia
nos fluídos de tinta, que rasgam meu ser
na energia pura de clarões que me atravessa
atinjo o êxtase pelo avesso de mim.
para o mundo
o dentro de mim
em puras exibições de strip-tease da alma
Desnudo-me pelo avesso
adornado de sedas, rendas e cetins
e o avesso se contorce nas palavras
ao jeito de dançarina, comerciando prazer
Vislumbro plateias ávidas,
pupilas inchadas, linguas humidas avermelhadas
exibindo-se ante o languido
arquejar de minha alma
O dentro de mim realiza o sortilegio
o secreto desejo que me habita,
dispo-me inteira pelo avesso
e na nudez primordial da chegada
ofereço-me a visão da minha própria luxuria.
Nas palavras que são corpo, dor, prazer
no palco branco de uma página vazia
nos fluídos de tinta, que rasgam meu ser
na energia pura de clarões que me atravessa
atinjo o êxtase pelo avesso de mim.
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