Poemas neste tema
Ética e Moral
Lila Ripoll
A Gabriela Mistral
Um nome tão simples,
a força que tem.
Três letras apenas,
três letras pequenas,
não custa dizer.
Joguemos o nome
por onde passarmos
e o nome tão simples
veremos crescer.
(...)
Veremos os homens
de todas as raças
de todas as línguas
na paz se encontrar.
Joguemos o nome
— ó sim, Gabriela —
por onde passarmos
e onde estivermos;
aos mais distraídos,
aos desesperados,
e todos um dia
nos hão de escutar.
(...)
A paz despontando
nos cantos do povo.
No canto dos ventos
a paz a cantar.
(...)
O nome brotando
de todas as bocas,
em todas as línguas,
na terra e no mar.
Três letras apenas,
três letras pequenas,
um nome tão simples,
a força que tem.
Publicado no livro Novos Poemas (1951).
In: RIPOLL, Lila. Ilha difícil: antologia poética. Sel. e apres. Maria da Glória Bordini. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1987. p.109-11
a força que tem.
Três letras apenas,
três letras pequenas,
não custa dizer.
Joguemos o nome
por onde passarmos
e o nome tão simples
veremos crescer.
(...)
Veremos os homens
de todas as raças
de todas as línguas
na paz se encontrar.
Joguemos o nome
— ó sim, Gabriela —
por onde passarmos
e onde estivermos;
aos mais distraídos,
aos desesperados,
e todos um dia
nos hão de escutar.
(...)
A paz despontando
nos cantos do povo.
No canto dos ventos
a paz a cantar.
(...)
O nome brotando
de todas as bocas,
em todas as línguas,
na terra e no mar.
Três letras apenas,
três letras pequenas,
um nome tão simples,
a força que tem.
Publicado no livro Novos Poemas (1951).
In: RIPOLL, Lila. Ilha difícil: antologia poética. Sel. e apres. Maria da Glória Bordini. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1987. p.109-11
1 589
Lila Ripoll
Retrato
Clara manhã de inverno.
Na rua longa e fria
procuro ansiosamente
um número, uma casa.
(...)
Aguardo a professora,
aguardo e penso,
no agasalho do ambiente de silêncio.
E detenho meus olhos surpreendidos
no retrato maior que a sala guarda.
Reconheço a figura, a fronte ampla,
o olhar audaz e manso ao mesmo tempo.
É ele sim, é o grande Cavaleiro,
Cavaleiro de muitas esperanças.
Que faz ali? Que faz ali? pergunto.
Por que naquela casa silenciosa
tranquilamente antiga e acolhedora,
o retrato de Prestes na parede
sobressai e ilumina a sala inteira?
(...)
"É meu neto, menina. Gosta dele?
É o Luís Carlos, meu neto, não sabia?"
E vejo à minha frente, nobre e simples,
a vovó Ermelinda, de Luís Carlos,
para mim Cavaleiro da Esperança
E a voz continuou serena e mansa:
"Um menino tão terno, tão sensível,
quem diria pudesse ser um dia
um revolucionário?"
(...)
Anda longe o Luís Carlos, de seus dias.
Anda longe e está próximo e presente:
nas palavras apenas murmuradas
— afetivos suspiros e lembranças —
e nas outras que brotam impetuosas
dominando planícies e cidades.
(...)
Seu passo um dia cantará nas pedras
e humildes casas se iluminarão.
E à sua voz, de chama e tempestade,
as vozes triunfais responderão.
Publicado no livro Novos Poemas (1951).
In: RIPOLL, Lila. Ilha difícil: antologia poética. Sel. e apres. Maria da Glória Bordini. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1987. p.106-10
Na rua longa e fria
procuro ansiosamente
um número, uma casa.
(...)
Aguardo a professora,
aguardo e penso,
no agasalho do ambiente de silêncio.
E detenho meus olhos surpreendidos
no retrato maior que a sala guarda.
Reconheço a figura, a fronte ampla,
o olhar audaz e manso ao mesmo tempo.
É ele sim, é o grande Cavaleiro,
Cavaleiro de muitas esperanças.
Que faz ali? Que faz ali? pergunto.
Por que naquela casa silenciosa
tranquilamente antiga e acolhedora,
o retrato de Prestes na parede
sobressai e ilumina a sala inteira?
(...)
"É meu neto, menina. Gosta dele?
É o Luís Carlos, meu neto, não sabia?"
E vejo à minha frente, nobre e simples,
a vovó Ermelinda, de Luís Carlos,
para mim Cavaleiro da Esperança
E a voz continuou serena e mansa:
"Um menino tão terno, tão sensível,
quem diria pudesse ser um dia
um revolucionário?"
(...)
Anda longe o Luís Carlos, de seus dias.
Anda longe e está próximo e presente:
nas palavras apenas murmuradas
— afetivos suspiros e lembranças —
e nas outras que brotam impetuosas
dominando planícies e cidades.
(...)
Seu passo um dia cantará nas pedras
e humildes casas se iluminarão.
E à sua voz, de chama e tempestade,
as vozes triunfais responderão.
Publicado no livro Novos Poemas (1951).
In: RIPOLL, Lila. Ilha difícil: antologia poética. Sel. e apres. Maria da Glória Bordini. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1987. p.106-10
1 382
Lila Ripoll
Festejo
Foi num primeiro de maio,
na cidade de Rio Grande.
(...)
O povo reuniu-se em festa,
pois a festa era do povo.
(...)
"Uni-vos, ó proletários,
ó povos de todo o mundo."
Unido estava em Rio Grande,
o povo simples cantando.
No peito de cada homem
uma esperança se abria.
Em qualquer parte do mundo
uma estrela respondia.
(...)
Foi quando a voz calma e séria,
no velho parque vibrou,
e um convite alviçareiro
o povo unido escutou:
"Amigos, a rua é larga.
Unidos, vamos partir.
A nossa 'União Operária'
nós hoje vamos abrir."
(...)
"A casa de nossa classe,
fechada, por que razão?
Amigos, vamos à rua,
e as portas se abrirão."
A onda humana agitou-se,
cresceu em intensidade.
Em coro as vozes subiram
clamando por liberdade.
"À rua, à rua, sem medo,
unidos, vamos marchar."
Foi como se uma rajada
de vento encrespasse o mar.
Publicado no livro Primeiro de Maio (1954).
In: RIPOLL, Lila. Ilha difícil: antologia poética. Sel. e apres. Maria da Glória Bordini. Porto Alegre: Ed. Universidade/UFRGS, 1987. p.113-11
na cidade de Rio Grande.
(...)
O povo reuniu-se em festa,
pois a festa era do povo.
(...)
"Uni-vos, ó proletários,
ó povos de todo o mundo."
Unido estava em Rio Grande,
o povo simples cantando.
No peito de cada homem
uma esperança se abria.
Em qualquer parte do mundo
uma estrela respondia.
(...)
Foi quando a voz calma e séria,
no velho parque vibrou,
e um convite alviçareiro
o povo unido escutou:
"Amigos, a rua é larga.
Unidos, vamos partir.
A nossa 'União Operária'
nós hoje vamos abrir."
(...)
"A casa de nossa classe,
fechada, por que razão?
Amigos, vamos à rua,
e as portas se abrirão."
A onda humana agitou-se,
cresceu em intensidade.
Em coro as vozes subiram
clamando por liberdade.
"À rua, à rua, sem medo,
unidos, vamos marchar."
Foi como se uma rajada
de vento encrespasse o mar.
Publicado no livro Primeiro de Maio (1954).
In: RIPOLL, Lila. Ilha difícil: antologia poética. Sel. e apres. Maria da Glória Bordini. Porto Alegre: Ed. Universidade/UFRGS, 1987. p.113-11
1 986
Sílvio Romero
ABC do Lavrador
(Ceará)
Agora quero tratar,
Segundo tenho patente,
A vida de lavrador
No passado e no presente.
Bem queria ter ciência,
Dizer por linhas direitas,
Para agora explicar
Uma idéia bem perfeita.
Cuidados tenho da noite,
De madrugada levanto,
De manhã vou para a roça
A correr todos os cantos.
Domingos e dias santos
Todos vão espairecer,
Eu me acho tão moído,
Que não me posso mexer.
Estando desta sorte
Não é possível calçar,
Os pés inchados de espinhos,
E de todo o dia andar.
Feliz de quem não tem
Esta vida laboriosa,
Não vive tão fatigado,
Como eu me acho agora.
Grande tristeza padece
Todo aquele lavrador,
Quando perde o legume todo
Porque o inverno escasseou.
He possível aturar
Até a idade de cinquenta,
Quando se chega aos quarenta,
Já parece ter oitenta.
Lavradores briosos
Consideram no futuro,
Não tomam dinheiro sem ver
Os seus legumes seguros.
Muitos não têm recursos,
Não sabem o que hão de fazer,
Não temem a percentage,
Querem achar quem dê.
Não queira ser lavrador
Quem tiver outra profissão,
É a vida mais amarga
Deus deixou aos filhos de Adão.
Pois quando se colhe
Os legumes de um ano,
Ainda se não acaba,
Nova roça começando.
Quase sempre os lavradores
De cana, café, cacau,
Têm feitores de campo
Para não passar tão mal.
Razão eles têm
Para ter contentamento,
Quem trabalha no campo
É quem padece o tormento.
Souberam as câmaras criar
Ministros pra proteger,
Nesta terra não tem um banco
Que a ela possa favorecer.
Terra pobre como esta
Ninguém pode dar impulso,
Sem banco, sem proteção,
Fora de todo o recurso!
Vive sempre isolado
Metido nas espessuras
Com a memória no passado,
O futuro sem venturas.
Xoram todos a sua sorte,
Faz pena ver os lamentos,
De pedir dinheiro a rebate,
Por não acharem por centos.
Zombem, façam caçoada
Da vida do lavrador,
Considerem no futuro,
A sorte a Parca cortou.
O til por ser do fim,
Sempre dá uma esperança,
Na consolação dos afetos
Até chegar a bonança.
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.105-106. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
Agora quero tratar,
Segundo tenho patente,
A vida de lavrador
No passado e no presente.
Bem queria ter ciência,
Dizer por linhas direitas,
Para agora explicar
Uma idéia bem perfeita.
Cuidados tenho da noite,
De madrugada levanto,
De manhã vou para a roça
A correr todos os cantos.
Domingos e dias santos
Todos vão espairecer,
Eu me acho tão moído,
Que não me posso mexer.
Estando desta sorte
Não é possível calçar,
Os pés inchados de espinhos,
E de todo o dia andar.
Feliz de quem não tem
Esta vida laboriosa,
Não vive tão fatigado,
Como eu me acho agora.
Grande tristeza padece
Todo aquele lavrador,
Quando perde o legume todo
Porque o inverno escasseou.
He possível aturar
Até a idade de cinquenta,
Quando se chega aos quarenta,
Já parece ter oitenta.
Lavradores briosos
Consideram no futuro,
Não tomam dinheiro sem ver
Os seus legumes seguros.
Muitos não têm recursos,
Não sabem o que hão de fazer,
Não temem a percentage,
Querem achar quem dê.
Não queira ser lavrador
Quem tiver outra profissão,
É a vida mais amarga
Deus deixou aos filhos de Adão.
Pois quando se colhe
Os legumes de um ano,
Ainda se não acaba,
Nova roça começando.
Quase sempre os lavradores
De cana, café, cacau,
Têm feitores de campo
Para não passar tão mal.
Razão eles têm
Para ter contentamento,
Quem trabalha no campo
É quem padece o tormento.
Souberam as câmaras criar
Ministros pra proteger,
Nesta terra não tem um banco
Que a ela possa favorecer.
Terra pobre como esta
Ninguém pode dar impulso,
Sem banco, sem proteção,
Fora de todo o recurso!
Vive sempre isolado
Metido nas espessuras
Com a memória no passado,
O futuro sem venturas.
Xoram todos a sua sorte,
Faz pena ver os lamentos,
De pedir dinheiro a rebate,
Por não acharem por centos.
Zombem, façam caçoada
Da vida do lavrador,
Considerem no futuro,
A sorte a Parca cortou.
O til por ser do fim,
Sempre dá uma esperança,
Na consolação dos afetos
Até chegar a bonança.
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.105-106. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
1 793
Affonso Ávila
V Internacional
O poeta é visto todos os sábados no bar com um grupo de
jovens dentre eles um negro e um barbado
O poeta é visto todos os sábados no bar com um grupo de
jovens negros e barbados
O poeta é visto todos os sábados no bar com um grupo de
jovens barbados
O poeta é visto no bar com um grupo de jovens barbados
O poeta é visto no bar com um grupo de barbados
O poeta é visto com um grupo de barbados
O poeta é visto com uns barbados estranhos
O poeta é visto com uns barbados suspeitos
O poeta é visto com uns suspeitos
O poeta é um suspeito
O poeta é suspeito
O POETA É UM TERRORISTA
In: ÁVILA, Affonso. Discurso de difamação do poeta: antologia. São Paulo: Summus, 1978. (Palavra poética, 1)
jovens dentre eles um negro e um barbado
O poeta é visto todos os sábados no bar com um grupo de
jovens negros e barbados
O poeta é visto todos os sábados no bar com um grupo de
jovens barbados
O poeta é visto no bar com um grupo de jovens barbados
O poeta é visto no bar com um grupo de barbados
O poeta é visto com um grupo de barbados
O poeta é visto com uns barbados estranhos
O poeta é visto com uns barbados suspeitos
O poeta é visto com uns suspeitos
O poeta é um suspeito
O poeta é suspeito
O POETA É UM TERRORISTA
In: ÁVILA, Affonso. Discurso de difamação do poeta: antologia. São Paulo: Summus, 1978. (Palavra poética, 1)
1 549
Sílvio Romero
ABC do Vaqueiro em Tempo de Seca
(Ceará)
Agora triste começo
A manifestar o meu fado
Os meus Grandes aveixames
A vida de um desgraçado.
Bem queria nunca ser
Vaqueiro neste sertão
Para fim de não me ver
Em tamanha confusão.
Com cuidado levo o dia
E a noite a maginar
De manhã tirar o leite
Ir ao campo campear.
Domingos e dias santos
Sempre tenho que fazer.
Ou bezerros com bicheira.
Ou cavalos pra ir ver.
Enquanto Deus não dá chuva
Logo tudo desanima,
Somente mode o trabalho
Das malvadas das cacimbas.
Façam a todo o vaqueiro
Viver aqui sobre si,
Que entrando nesta vida
Diga: — Já me arrependi!
Grande é a tirania
De um dono de fazenda,
Que de pobre de um vaqueiro
Não tem compaixão nem pena.
Homem que tiver vergonha
Vaqueiro não queira ser,
Que as fazendas de agora
Nem dão bem para comer.
I no tempo que nós estamos
Ninguém tem opinião;
Para um dono de fazenda
Todo vaqueiro é ladrão.
Labora um pobre vaqueiro
Em tormentos tão compridos,
Quando é no remate de contas
Sempre é mal correspondido.
Mandam como a seu negro,
Uns tantos já se matando;
Ainda bem não tem chegado,
Já seus donos estão ralhando.
Não posso com esta lida,
Me causa grande desgosto,
Só por ver como vai
O suor deste meu rosto.
O bom Deus de piedade
A mim me queira livrar,
Enquanto vida tiver
E bens alheios tratar.
Para o mês de Sam João
Vou ver o que estou ganhando,
Quero pagar o que devo,
Inda lhe fico restando.
Querendo ter alguma cousa,
Não há de vestir camisa,
Visto isto que eu digo
O mesmo tempo me avisa.
Ralham contra os vaqueiros,
Nada se faz a seu gosto;
Se acaso morre um bezerro,
Na serra se toma outro.
Saibam todos os vaqueiros
Tratados bem de seus amos,
Se eles não têm consciência,
Logo nós todos furtamos.
Tudo isto que se vê
Inda não disse a metade,
Por causa do leite de vaca
Se quebra muita amizade.
Vou dar fim ao A, B, C,
Eu não quero mais falar,
Se fosse eu a dizer tudo
São capazes de me matar.
Xorem e chorarão
Com grande pena e pesar,
Somente mode um mumbica
Que dão pra se matar.
Zelo, zeloso,
Todos sabem zelar,
Que de um pobre vaqueiro
Sempre tem que falar.
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.107-108. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
Agora triste começo
A manifestar o meu fado
Os meus Grandes aveixames
A vida de um desgraçado.
Bem queria nunca ser
Vaqueiro neste sertão
Para fim de não me ver
Em tamanha confusão.
Com cuidado levo o dia
E a noite a maginar
De manhã tirar o leite
Ir ao campo campear.
Domingos e dias santos
Sempre tenho que fazer.
Ou bezerros com bicheira.
Ou cavalos pra ir ver.
Enquanto Deus não dá chuva
Logo tudo desanima,
Somente mode o trabalho
Das malvadas das cacimbas.
Façam a todo o vaqueiro
Viver aqui sobre si,
Que entrando nesta vida
Diga: — Já me arrependi!
Grande é a tirania
De um dono de fazenda,
Que de pobre de um vaqueiro
Não tem compaixão nem pena.
Homem que tiver vergonha
Vaqueiro não queira ser,
Que as fazendas de agora
Nem dão bem para comer.
I no tempo que nós estamos
Ninguém tem opinião;
Para um dono de fazenda
Todo vaqueiro é ladrão.
Labora um pobre vaqueiro
Em tormentos tão compridos,
Quando é no remate de contas
Sempre é mal correspondido.
Mandam como a seu negro,
Uns tantos já se matando;
Ainda bem não tem chegado,
Já seus donos estão ralhando.
Não posso com esta lida,
Me causa grande desgosto,
Só por ver como vai
O suor deste meu rosto.
O bom Deus de piedade
A mim me queira livrar,
Enquanto vida tiver
E bens alheios tratar.
Para o mês de Sam João
Vou ver o que estou ganhando,
Quero pagar o que devo,
Inda lhe fico restando.
Querendo ter alguma cousa,
Não há de vestir camisa,
Visto isto que eu digo
O mesmo tempo me avisa.
Ralham contra os vaqueiros,
Nada se faz a seu gosto;
Se acaso morre um bezerro,
Na serra se toma outro.
Saibam todos os vaqueiros
Tratados bem de seus amos,
Se eles não têm consciência,
Logo nós todos furtamos.
Tudo isto que se vê
Inda não disse a metade,
Por causa do leite de vaca
Se quebra muita amizade.
Vou dar fim ao A, B, C,
Eu não quero mais falar,
Se fosse eu a dizer tudo
São capazes de me matar.
Xorem e chorarão
Com grande pena e pesar,
Somente mode um mumbica
Que dão pra se matar.
Zelo, zeloso,
Todos sabem zelar,
Que de um pobre vaqueiro
Sempre tem que falar.
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.107-108. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
1 659
Ronald de Carvalho
Sabedoria
Enquanto disputam os doutores gravemente
sobre a natureza
do bem e do mal, do erro e da verdade,
do consciente e do inconsciente;
enquanto disputam os doutores sutilíssimos,
aproveita o momento!
Faze da tua realidade
uma obra de beleza
Só uma vez amadurece,
efêmero imprudente,
o cacho de uvas que o acaso te oferece...
Publicado no livro Epigramas Irônicos e Sentimentais (1922).
In: CARVALHO, Ronald de. O espelho de Ariel e poemas escolhidos. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Nova Aguilar; Brasília: INL, 1976. p.176. (Manancial, 44
sobre a natureza
do bem e do mal, do erro e da verdade,
do consciente e do inconsciente;
enquanto disputam os doutores sutilíssimos,
aproveita o momento!
Faze da tua realidade
uma obra de beleza
Só uma vez amadurece,
efêmero imprudente,
o cacho de uvas que o acaso te oferece...
Publicado no livro Epigramas Irônicos e Sentimentais (1922).
In: CARVALHO, Ronald de. O espelho de Ariel e poemas escolhidos. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Nova Aguilar; Brasília: INL, 1976. p.176. (Manancial, 44
2 959
Gregório de Matos
Descreve com Mais Individuação
Senhora Dona Bahia,
nobre, e opulenta cidade,
madrasta dos Naturais,
e dos estrangeiros madre.
Dizei-me por vida vossa,
em que fundais o ditame
de exaltar, os que aí vêm,
e abater, os que ali nascem?
(...)
Vem um Clérigo idiota,
desmaiado com um jalde,
os vícios com seu bioco,
com seu rebuço as maldades:
Mais Santo do que Mafoma
na crença dos seus Árabes,
Letrado como um Matulo,
e velhaco como um Frade:
Ontem simples Sacerdote,
hoje uma grã dignidade,
ontem salvage notório,
hoje encoberto ignorante.
Ao tal Beato fingido
é força, que o povo aclame,
e os do governo se obriguem,
pois edifica a cidade.
Chovem uns, e chovem outros
com ofícios, e lugares,
e o beato tudo apanha
por sua muita humildade.
Cresce em dinheiro, e respeito,
vai remetendo as fundagens,
compra toda a sua terra,
com que fica homem grande,
e eis aqui a personagem.
(...)
Chega um destes, toma amo,
que as capelas dos Magnates
são rendas, que Deus criou
para estes Orate frates.
Fazem-lhe certo ordenado,
que é dinheiro na verdade,
que o Papa reserva sempre
das ceias, e dos jantares.
Não se gasta, antes se embolsa,
porque o Reverendo Padre
é do Santo Nicomedes
meritíssimo confrade;
e eis aqui a personagem.
Vêem isto os Filhos da terra,
e entre tanta iniquidade
são tais, que nem inda tomam
licença para queixar-se.
Sempre vêem, e sempre falam,
até que Deus lhes depare,
quem lhes faça de justiça
esta sátira à cidade,
Tão queimada, e destruída
te vejas, torpe cidade,
como Sodoma, e Gomorra
duas cidades infames.
(...)
In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.
NOTA: Bioco: manto ou capuz usado sobre a cabeça e parte do rosto para afetar modéstia, virtude; Mafoma: Maomé
nobre, e opulenta cidade,
madrasta dos Naturais,
e dos estrangeiros madre.
Dizei-me por vida vossa,
em que fundais o ditame
de exaltar, os que aí vêm,
e abater, os que ali nascem?
(...)
Vem um Clérigo idiota,
desmaiado com um jalde,
os vícios com seu bioco,
com seu rebuço as maldades:
Mais Santo do que Mafoma
na crença dos seus Árabes,
Letrado como um Matulo,
e velhaco como um Frade:
Ontem simples Sacerdote,
hoje uma grã dignidade,
ontem salvage notório,
hoje encoberto ignorante.
Ao tal Beato fingido
é força, que o povo aclame,
e os do governo se obriguem,
pois edifica a cidade.
Chovem uns, e chovem outros
com ofícios, e lugares,
e o beato tudo apanha
por sua muita humildade.
Cresce em dinheiro, e respeito,
vai remetendo as fundagens,
compra toda a sua terra,
com que fica homem grande,
e eis aqui a personagem.
(...)
Chega um destes, toma amo,
que as capelas dos Magnates
são rendas, que Deus criou
para estes Orate frates.
Fazem-lhe certo ordenado,
que é dinheiro na verdade,
que o Papa reserva sempre
das ceias, e dos jantares.
Não se gasta, antes se embolsa,
porque o Reverendo Padre
é do Santo Nicomedes
meritíssimo confrade;
e eis aqui a personagem.
Vêem isto os Filhos da terra,
e entre tanta iniquidade
são tais, que nem inda tomam
licença para queixar-se.
Sempre vêem, e sempre falam,
até que Deus lhes depare,
quem lhes faça de justiça
esta sátira à cidade,
Tão queimada, e destruída
te vejas, torpe cidade,
como Sodoma, e Gomorra
duas cidades infames.
(...)
In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.
NOTA: Bioco: manto ou capuz usado sobre a cabeça e parte do rosto para afetar modéstia, virtude; Mafoma: Maomé
2 606
Gregório de Matos
A Cosme Moura Rolim
Um Rolim de Monai Bonzo Bramá
Primaz de Greparia do Pegu,
Que sem ser do Pequim, por ser do Açu,
Quer ser filho do Sol nascendo cá.
Tenha embora um Avô nascido lá,
Cá tem três para as partes do Cairu,
Chama-se o principal Paraguaçu
Descendente este tal de um Guinamá.
Que é fidalgo nos ossos, cremos nós.
Que nisto consistia o mor brasão
Daqueles, que comiam seus avós.
E como isto lhe vem por geração,
Tem tomado por timbre em seus teirós
Morder, aos que provêm de outra Nação.
In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.
NOTA: Rolim: emissário ou embaixador, entre os povos do Extremo Oriente. Observe-se aqui um trocadilho com o nome próprio; bonzo bramá: sacerdote budista de Bramá (Birmânia); greparia: coletivo de grepo, sacerdote de Pegu, cidade sagrada na baixa Birmâni
Primaz de Greparia do Pegu,
Que sem ser do Pequim, por ser do Açu,
Quer ser filho do Sol nascendo cá.
Tenha embora um Avô nascido lá,
Cá tem três para as partes do Cairu,
Chama-se o principal Paraguaçu
Descendente este tal de um Guinamá.
Que é fidalgo nos ossos, cremos nós.
Que nisto consistia o mor brasão
Daqueles, que comiam seus avós.
E como isto lhe vem por geração,
Tem tomado por timbre em seus teirós
Morder, aos que provêm de outra Nação.
In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.
NOTA: Rolim: emissário ou embaixador, entre os povos do Extremo Oriente. Observe-se aqui um trocadilho com o nome próprio; bonzo bramá: sacerdote budista de Bramá (Birmânia); greparia: coletivo de grepo, sacerdote de Pegu, cidade sagrada na baixa Birmâni
2 187
Moacyr Felix
Eu Sou Daqui: 1970 a 1980
A Wilson Fadul, Waldo César e Luís Eduardo
Vanderlei, companheiros nas lutas pelo socialismo e
liberdade na Paz e Terra e na revista de mesmo nome
(...)
No Brasil o poema deve nascer como se fosse a própria vida
do coração que arranco como um peixe trêmulo nas horas
da liberdade a desmoronar-se devagarinho em cada rosto;
da melancolia a encolher-se na profundidade dos botecos;
das ruas que os ventos movem numa antiga cantilena de escravos;
da pobreza a dependurar-se no corpo grande da existência;
da revolução a servir de vinho para os que se constroem de pé.
No Brasil a palavra de cristal exila o tempo
da sombra quente do poema; usá-la tão-somente
para entoar brisas entre as roxas bundas do Saber
ou para dialogar com um Deus qualquer no espaço
sem sujeira e sem erros, sem manhãs estilhaçadas
no salário menor que as mãos,
é nos desfazermos da verdade que nos firma em homem
da cor do agora, homem comum, simples homem que escreve.
Em meu país, o poeta não usa a braçadeira dos patrões
e com mão insubmissa testemunha
os movimentos do Homem no tempo que sangra
entre a esperança e a história
de cada indivíduo e cada povo.
Em meu país a poesia manda os metafísicos à merda.
e é abrigo provisório das coisas e da vida que são provisórias.
E também às vezes é o definitivo lar
do desespero que se destina a servir a uma esperança
e sub-roga o suicídio pelos atos de criar.
Sem qualquer pretensão de eternidade
como o olhar do pivete a vigiar o carro
que passa, o poema brasileiro não nasce
alimentado pelo indefinível.
E nenhuma vaga saudade do Ser o impele
aqui e agora neste quando
em que se move
para existir, simplesmente existir
como é devido ao homem, a cada homem.
(...)
Imagem - 00810005
Publicado no livro Em Nome da Vida (1981).
In: FÉLIX, Moacyr. Antologia poética. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1993. p.178-17
Vanderlei, companheiros nas lutas pelo socialismo e
liberdade na Paz e Terra e na revista de mesmo nome
(...)
No Brasil o poema deve nascer como se fosse a própria vida
do coração que arranco como um peixe trêmulo nas horas
da liberdade a desmoronar-se devagarinho em cada rosto;
da melancolia a encolher-se na profundidade dos botecos;
das ruas que os ventos movem numa antiga cantilena de escravos;
da pobreza a dependurar-se no corpo grande da existência;
da revolução a servir de vinho para os que se constroem de pé.
No Brasil a palavra de cristal exila o tempo
da sombra quente do poema; usá-la tão-somente
para entoar brisas entre as roxas bundas do Saber
ou para dialogar com um Deus qualquer no espaço
sem sujeira e sem erros, sem manhãs estilhaçadas
no salário menor que as mãos,
é nos desfazermos da verdade que nos firma em homem
da cor do agora, homem comum, simples homem que escreve.
Em meu país, o poeta não usa a braçadeira dos patrões
e com mão insubmissa testemunha
os movimentos do Homem no tempo que sangra
entre a esperança e a história
de cada indivíduo e cada povo.
Em meu país a poesia manda os metafísicos à merda.
e é abrigo provisório das coisas e da vida que são provisórias.
E também às vezes é o definitivo lar
do desespero que se destina a servir a uma esperança
e sub-roga o suicídio pelos atos de criar.
Sem qualquer pretensão de eternidade
como o olhar do pivete a vigiar o carro
que passa, o poema brasileiro não nasce
alimentado pelo indefinível.
E nenhuma vaga saudade do Ser o impele
aqui e agora neste quando
em que se move
para existir, simplesmente existir
como é devido ao homem, a cada homem.
(...)
Imagem - 00810005
Publicado no livro Em Nome da Vida (1981).
In: FÉLIX, Moacyr. Antologia poética. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1993. p.178-17
1 150
Cruz e Sousa
Escravocratas
Oh! trânsfugas do bem que sob o manto régio
manhosos, agachados — bem como um crocodilo,
viveis sensualmente à luz dum privilégio
na pose bestial dum cágado tranqüilo.
Eu rio-me de vós e cravo-vos as setas
ardentes do olhar — formando uma vergasta
dos raios mil do sol, das iras dos poetas,
e vibro-vos à espinha — enquanto o grande basta
O basta gigantesco, imenso, extraordinário —
da branca consciência — o rútilo sacrário
no tímpano do ouvido — audaz me não soar.
Eu quero em rude verso altivo adamastórico,
vermelho, colossal, d'estrépito, gongórico,
castrar-vos como um touro — ouvindo-vos urrar!
Publicado no livro Obra completa (1961). Poema integrante da série O Livro Derradeiro.
In: SOUSA, Cruz e. Poesia completa. Introd. Maria Helena Camargo Régis. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura, 1981
manhosos, agachados — bem como um crocodilo,
viveis sensualmente à luz dum privilégio
na pose bestial dum cágado tranqüilo.
Eu rio-me de vós e cravo-vos as setas
ardentes do olhar — formando uma vergasta
dos raios mil do sol, das iras dos poetas,
e vibro-vos à espinha — enquanto o grande basta
O basta gigantesco, imenso, extraordinário —
da branca consciência — o rútilo sacrário
no tímpano do ouvido — audaz me não soar.
Eu quero em rude verso altivo adamastórico,
vermelho, colossal, d'estrépito, gongórico,
castrar-vos como um touro — ouvindo-vos urrar!
Publicado no livro Obra completa (1961). Poema integrante da série O Livro Derradeiro.
In: SOUSA, Cruz e. Poesia completa. Introd. Maria Helena Camargo Régis. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura, 1981
4 297
Gregório de Matos
Descreve a Vida Escolástica
Mancebo sem dinheiro, bom barrete,
Medíocre o vestido, bom sapato,
Meias velhas, calção de esfola-gato,
Cabelo penteado, bom topete.
Presumir de dançar, cantar falsete,
Jogo de fidalguia, bom barato,
Tirar falsídia ao Moço do seu trato,
Furtar a carne à ama, que promete.
A putinha aldeã achada em feira,
Eterno murmurar de alheias famas,
Soneto infame, sátira elegante.
Cartinhas de trocado para a Freira,
Comer boi, ser Quixote com as Damas,
Pouco estudo, isto é ser estudante.
In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992
Medíocre o vestido, bom sapato,
Meias velhas, calção de esfola-gato,
Cabelo penteado, bom topete.
Presumir de dançar, cantar falsete,
Jogo de fidalguia, bom barato,
Tirar falsídia ao Moço do seu trato,
Furtar a carne à ama, que promete.
A putinha aldeã achada em feira,
Eterno murmurar de alheias famas,
Soneto infame, sátira elegante.
Cartinhas de trocado para a Freira,
Comer boi, ser Quixote com as Damas,
Pouco estudo, isto é ser estudante.
In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992
6 247
Tomás Antônio Gonzaga
Lira V
Eu não sou, minha Nise, pegureiro,
que viva de guardar alheio gado;
nem sou pastor grosseiro,
dos frios gelos e do Sol queimado,
que veste as pardas lãs do seu cordeiro.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!
A Cresso não igualo no tesouro;
mas deu-me a sorte com que honrado viva.
Não cinjo coroa d'ouro;
mas Povos mando, e na testa altiva
verdeja a Coroa do Sagrado Louro.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!
Maldito seja aquele, que só trata
de contar, escondido, a vil riqueza,
que, cego, se arrebata
em buscar nos Avós a vã nobreza,
com que aos mais homens, seus iguais, abata.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!
As fortunas, que em torno de mim vejo,
por falsos bens, que enganam, não reputo;
mas antes mais desejo:
não para me voltar soberbo em bruto,
por ver-me grande, quando a mão te beijo.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!
Pela Ninfa, que jaz vertida em Louro,
o grande Deus Apolo não delira?
Jove, mudado em Touro
e já mudado em velha não suspira?
Seguir aos Deuses nunca foi desdouro.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!
Pretendam Anibais honrar a História,
e cinjam com a mão, de sangue cheia,
os louros da vitória;
eu revolvo os teus dons na minha idéia:
só dons que vêm do céu são minha glória
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!
Publicado no livro Marília de Dirceu: Terceira Parte (1812).
In: GONZAGA, Tomás Antônio. Obras completas. Ed. crít. M. Rodrigues Lapa. São Paulo: Ed. Nacional, 1942. (Livros do Brasil, 5
que viva de guardar alheio gado;
nem sou pastor grosseiro,
dos frios gelos e do Sol queimado,
que veste as pardas lãs do seu cordeiro.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!
A Cresso não igualo no tesouro;
mas deu-me a sorte com que honrado viva.
Não cinjo coroa d'ouro;
mas Povos mando, e na testa altiva
verdeja a Coroa do Sagrado Louro.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!
Maldito seja aquele, que só trata
de contar, escondido, a vil riqueza,
que, cego, se arrebata
em buscar nos Avós a vã nobreza,
com que aos mais homens, seus iguais, abata.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!
As fortunas, que em torno de mim vejo,
por falsos bens, que enganam, não reputo;
mas antes mais desejo:
não para me voltar soberbo em bruto,
por ver-me grande, quando a mão te beijo.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!
Pela Ninfa, que jaz vertida em Louro,
o grande Deus Apolo não delira?
Jove, mudado em Touro
e já mudado em velha não suspira?
Seguir aos Deuses nunca foi desdouro.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!
Pretendam Anibais honrar a História,
e cinjam com a mão, de sangue cheia,
os louros da vitória;
eu revolvo os teus dons na minha idéia:
só dons que vêm do céu são minha glória
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!
Publicado no livro Marília de Dirceu: Terceira Parte (1812).
In: GONZAGA, Tomás Antônio. Obras completas. Ed. crít. M. Rodrigues Lapa. São Paulo: Ed. Nacional, 1942. (Livros do Brasil, 5
3 835
Moacyr Felix
Iniciação
— Meu pai, o que é a liberdade?
— É o seu rosto, meu filho,
o seu jeito de indagar
o mundo a pedir guarida
no brilho do seu olhar.
A liberdade, meu filho,
é o próprio rosto da vida
que a vida quis desvendar.
É sua irmã numa escada
iniciada há milênios
em direção ao amor,
seu corpo feito de nuvens
carne, sal, desejo, cálcio
e fundamentos de dor.
A liberdade, meu filho,
é o próprio rosto do amor.
— Meu pai, o que é a liberdade?
A mão limpa, o copo d'água
na mesa qual num altar
aberto ao homem que passa
com o vento verde do mar.
É o ato simples de amar
o amigo, o vinho, o silêncio
da mulher olhando a tarde
— laranja cortada ao meio,
tremor de barco que parte,
esto de crina sem freio.
— Meu pai, o que é a liberdade?
É um homem morto na cruz
por ele próprio plantada,
é a luz que sua morte expande
pontuda como uma espada.
É Cuauhtemoc a criar
sobre o braseiro que o mata
uma rosa de ouro e prata
para a altivez mexicana.
São quatro cavalos brancos
quatro bússolas de sangue
na praça de Vila Rica
e mais Felipe dos Santos
de pé a cuspir nos mantos
do medo que a morte indica.
É a blusa aberta do povo
bandeira branca atirada
jardim de estrelas de sangue
do céu de maio tombadas
dentro da noite goyesca.
É a guilhotina madura
cortando o espanto e o terror
sem cortar a luz e o canto
de uma lágrima de amor.
(...)
Publicado no livro Canto para as Transformações do Homem (1964).
In: FÉLIX, Moacyr. Antologia poética. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1993. p.4-
— É o seu rosto, meu filho,
o seu jeito de indagar
o mundo a pedir guarida
no brilho do seu olhar.
A liberdade, meu filho,
é o próprio rosto da vida
que a vida quis desvendar.
É sua irmã numa escada
iniciada há milênios
em direção ao amor,
seu corpo feito de nuvens
carne, sal, desejo, cálcio
e fundamentos de dor.
A liberdade, meu filho,
é o próprio rosto do amor.
— Meu pai, o que é a liberdade?
A mão limpa, o copo d'água
na mesa qual num altar
aberto ao homem que passa
com o vento verde do mar.
É o ato simples de amar
o amigo, o vinho, o silêncio
da mulher olhando a tarde
— laranja cortada ao meio,
tremor de barco que parte,
esto de crina sem freio.
— Meu pai, o que é a liberdade?
É um homem morto na cruz
por ele próprio plantada,
é a luz que sua morte expande
pontuda como uma espada.
É Cuauhtemoc a criar
sobre o braseiro que o mata
uma rosa de ouro e prata
para a altivez mexicana.
São quatro cavalos brancos
quatro bússolas de sangue
na praça de Vila Rica
e mais Felipe dos Santos
de pé a cuspir nos mantos
do medo que a morte indica.
É a blusa aberta do povo
bandeira branca atirada
jardim de estrelas de sangue
do céu de maio tombadas
dentro da noite goyesca.
É a guilhotina madura
cortando o espanto e o terror
sem cortar a luz e o canto
de uma lágrima de amor.
(...)
Publicado no livro Canto para as Transformações do Homem (1964).
In: FÉLIX, Moacyr. Antologia poética. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1993. p.4-
1 320
Raimundo Correia
Epístola ao Bardo Muniz
Cala-te, esdrúxulo lírico;
Teu estro é bandulho hidrópico!
Olha as garras de um satírico!
Cala-te, esdrúxulo lírico!
Teu verso ao leitor empírico
Fere de tópico em tópico...
Cala-te, esdrúxulo lírico;
Teu estro é bandulho hidrópico!
(...)
Nos teus preitos esquipáticos
Citas tanto bardo, — Hipócrates!
Citas autores dramáticos
Nos teus preitos esquipáticos
Citas talentos simpáticos!
Citas Camões! Citas Sócrates!
Nos teus preitos esquipáticos
Citas tanto bardo, — Hipócrates!
Muniz! tu causas-nos cólicas!
Erudito de catálogos!
Pondo as almas melancólicas,
Muniz! tu causas-nos cólicas!
Faze antes canções bucólicas,
Mas nunca preitos análogos!
Muniz! tu causas-nos cólicas
Erudito de catálogos!
Deita antes verso byrônico,
Mas, rápido, a velocípede...
Sê ferino, sê irônico!
Deita antes verso byrônico!
Que diabo! Isso é vício crônico!
Espanta que sejas bípede!
Deita antes verso byrônico,
Mas, rápido, a velocípede...
Larga essa lira caquética!
Ouve! e desculpa esta epístola!
Ó professor de dialética!
Larga essa lira caquética!
Porque antes não curas ética,
Pústula, escrófula e fístula!
Larga essa lira caquética!
Ouve! e desculpa esta epístola!
Poema integrante da série Poesias Avulsas.
In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo. Ed. Nacional, 1948. v.2, p.354-356
Teu estro é bandulho hidrópico!
Olha as garras de um satírico!
Cala-te, esdrúxulo lírico!
Teu verso ao leitor empírico
Fere de tópico em tópico...
Cala-te, esdrúxulo lírico;
Teu estro é bandulho hidrópico!
(...)
Nos teus preitos esquipáticos
Citas tanto bardo, — Hipócrates!
Citas autores dramáticos
Nos teus preitos esquipáticos
Citas talentos simpáticos!
Citas Camões! Citas Sócrates!
Nos teus preitos esquipáticos
Citas tanto bardo, — Hipócrates!
Muniz! tu causas-nos cólicas!
Erudito de catálogos!
Pondo as almas melancólicas,
Muniz! tu causas-nos cólicas!
Faze antes canções bucólicas,
Mas nunca preitos análogos!
Muniz! tu causas-nos cólicas
Erudito de catálogos!
Deita antes verso byrônico,
Mas, rápido, a velocípede...
Sê ferino, sê irônico!
Deita antes verso byrônico!
Que diabo! Isso é vício crônico!
Espanta que sejas bípede!
Deita antes verso byrônico,
Mas, rápido, a velocípede...
Larga essa lira caquética!
Ouve! e desculpa esta epístola!
Ó professor de dialética!
Larga essa lira caquética!
Porque antes não curas ética,
Pústula, escrófula e fístula!
Larga essa lira caquética!
Ouve! e desculpa esta epístola!
Poema integrante da série Poesias Avulsas.
In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo. Ed. Nacional, 1948. v.2, p.354-356
1 510
Alexandre de Gusmão
A Júpiter Supremo Deus do Olimpo
Nume que tens do mundo o regimento,
Se amas o bem, se odeias a maldade,
Como deixas com prêmio a iniquidade,
E assoçobrado ao são entendimento?
Como hei de crer qu'um imortal tormento,
Castigue a uma mortal leviandade?
Que seja ciência, amor ou piedade
Expor-me ao mal sem meu consentimento?
Guerras cruéis, fanáticos tiranos,
Raios, tremores, e as moléstias tristes,
Enchem o curso de pesados anos;
Se és Deus, s'isto prevês, e assim persistes,
Ou não fazes apreço dos humanos,
Ou qual dizem não és; ou não existes.
Publicado no livro Coleção de vários escritos inéditos, políticos e literários (1841).
In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. Antologia dos poetas brasileiros da fase colonial. São Paulo: Perspectiva, 1979. p.121. (Textos, 2
Se amas o bem, se odeias a maldade,
Como deixas com prêmio a iniquidade,
E assoçobrado ao são entendimento?
Como hei de crer qu'um imortal tormento,
Castigue a uma mortal leviandade?
Que seja ciência, amor ou piedade
Expor-me ao mal sem meu consentimento?
Guerras cruéis, fanáticos tiranos,
Raios, tremores, e as moléstias tristes,
Enchem o curso de pesados anos;
Se és Deus, s'isto prevês, e assim persistes,
Ou não fazes apreço dos humanos,
Ou qual dizem não és; ou não existes.
Publicado no livro Coleção de vários escritos inéditos, políticos e literários (1841).
In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. Antologia dos poetas brasileiros da fase colonial. São Paulo: Perspectiva, 1979. p.121. (Textos, 2
1 356
Gonçalves Dias
IV
(...)
E nessas cidades, vilas e aldeias, nos seus cais,
praças e chafarizes — vi somente — escravos!
E à porta ou no interior dessas casas mal construídas
e nesses palácios sem elegância — escravos!
E no adro ou debaixo das naves dos templos — de
costas para as imagens sagradas, sem temor, como
sem respeito — escravos!
E nas jangadas mal tecidas — e nas canoas de um
só toro de madeira — escravos; — e por toda a parte
— escravos!!...
Por isto o estrangeiro que chega a algum porto do
vasto império — consulta de novo a sua derrota e
observa atentamente os astros — porque julga que
um vento inimigo o levou às costas d'África.
E conhece por fim que está no Brasil — na terra
da liberdade, na terra ataviada de primores e esclarecida
por um céu estrelado e magnífico!
Mas grande parte da sua população é escrava —
mas a sua riqueza consiste nos escravos — mas o
sorriso — o deleite do seu comerciante — do seu
agrícola — e o alimento de todos os seus habitantes
é comprado à custa do sangue do escravo!
E nos lábios do estrangeiro, que aporta ao Brasil,
desponta um sorriso irônico e despeitoso — e ele diz
consigo, que a terra — da escravidão — não pode
durar muito; porque ele é crente, e sabe que os
homens são feitos do mesmo barro — sujeitos às
mesmas dores e às mesmas necessidades.
Poema integrante da série Capítulo I.
In: DIAS, Gonçalves. Meditação. Rio de Janeiro: H. Garnier, 1909. p.10-1
E nessas cidades, vilas e aldeias, nos seus cais,
praças e chafarizes — vi somente — escravos!
E à porta ou no interior dessas casas mal construídas
e nesses palácios sem elegância — escravos!
E no adro ou debaixo das naves dos templos — de
costas para as imagens sagradas, sem temor, como
sem respeito — escravos!
E nas jangadas mal tecidas — e nas canoas de um
só toro de madeira — escravos; — e por toda a parte
— escravos!!...
Por isto o estrangeiro que chega a algum porto do
vasto império — consulta de novo a sua derrota e
observa atentamente os astros — porque julga que
um vento inimigo o levou às costas d'África.
E conhece por fim que está no Brasil — na terra
da liberdade, na terra ataviada de primores e esclarecida
por um céu estrelado e magnífico!
Mas grande parte da sua população é escrava —
mas a sua riqueza consiste nos escravos — mas o
sorriso — o deleite do seu comerciante — do seu
agrícola — e o alimento de todos os seus habitantes
é comprado à custa do sangue do escravo!
E nos lábios do estrangeiro, que aporta ao Brasil,
desponta um sorriso irônico e despeitoso — e ele diz
consigo, que a terra — da escravidão — não pode
durar muito; porque ele é crente, e sabe que os
homens são feitos do mesmo barro — sujeitos às
mesmas dores e às mesmas necessidades.
Poema integrante da série Capítulo I.
In: DIAS, Gonçalves. Meditação. Rio de Janeiro: H. Garnier, 1909. p.10-1
4 655
Ilka Brunhilde Laurito
Publicidade
Proibido colocar cartazes:
em chão
parede
poste.
(Em homem:
pode.)
1963
Poema integrante da série Inéditos, 1971/1977.
In: LAURITO, Ilka Brunhilde. Sal do lírico: antologia poética. São Paulo: Quíron, 1978. p.31. (Sélesis, 13
em chão
parede
poste.
(Em homem:
pode.)
1963
Poema integrante da série Inéditos, 1971/1977.
In: LAURITO, Ilka Brunhilde. Sal do lírico: antologia poética. São Paulo: Quíron, 1978. p.31. (Sélesis, 13
1 616
Tomás Antônio Gonzaga
Carta 5a
Em que se contam as desordens feitas nas
festas, que se celebraram nos desposórios de nosso
Sereníssimo Infante com a Sereníssima Infanta de
Portugal
(...)
Enquanto, Doroteu, a nossa Chile
Em toda a parte tinha à flor da terra
Extensas, e abundantes minas de oiro;
Enquanto os Taberneiros ajuntavam
Imenso cabedal em poucos anos,
Sem terem nas Tabernas fedorentas
Outros mais sortimentos, que não fossem
Os queijos, a cachaça, e o negro fumo,
E sobre as parteleiras poucos frascos;
Enquanto enfim as negras quitandeiras
À custa dos Amigos só trajavam
Vermelhas capas de galões cobertas,
De galacês, e tissos, ricas saias:
Então, prezado Amigo, em qualquer festa
Tirava liberal o bom Senado
Dos cofres chapeados grossas barras.
Chegaram tais despesas à notícia
Do Rei prudente, que a virtude preza;
E vendo, que estas rendas gastavam
Em touros, Cavalhadas, e Comédias,
Aplicar-se podendo a cousas santas;
Ordena providente, que os Senados
Nos dias, em que devem mostrar gosto
Pelas Reais fortunas, se moderem,
E só façam cantar no Templo os Hinos,
Com que se dão aos Céus as justas graças.
Ah! meu bom Doroteu, que feliz fora
Esta vasta Conquista, se os seus Chefes
Com as leis dos Monarcas se ajustaram!
Mas alguns não presumem ser vassalos;
Só julgam, que os Decretos dos Augustos
Têm força de Decretos, quando ligam
Os braços dos mais homens, que eles mandam;
Mas nunca, quando ligam os seus braços.
(...)
À força do temor o bom Senado
Constância já não tem; afroxa, e cede.
Somente se disputa sobre o modo
De ajuntar-se o dinheiro, com que possa
Suprir tamanho gasto o grande Alberga.
Uns dizem, que das rendas do Senado
Tiradas as despesas, nada sobra.
Os outros acrescentam, que se devem
Parcelas numerosas impagáveis
Às consternadas amas dos expostos.
Uns ralham, outros ralham; mas que importa?
(...)
Imagem - 00170001
Publicado no livro Cartas Chilenas (1845).
In: GONZAGA, Tomás Antônio. Cartas chilenas. Introd. cronol. notas e estabelecimento de texto Joaci Pereira Furtado. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p.115-120. (Retratos do Brasil, 1
festas, que se celebraram nos desposórios de nosso
Sereníssimo Infante com a Sereníssima Infanta de
Portugal
(...)
Enquanto, Doroteu, a nossa Chile
Em toda a parte tinha à flor da terra
Extensas, e abundantes minas de oiro;
Enquanto os Taberneiros ajuntavam
Imenso cabedal em poucos anos,
Sem terem nas Tabernas fedorentas
Outros mais sortimentos, que não fossem
Os queijos, a cachaça, e o negro fumo,
E sobre as parteleiras poucos frascos;
Enquanto enfim as negras quitandeiras
À custa dos Amigos só trajavam
Vermelhas capas de galões cobertas,
De galacês, e tissos, ricas saias:
Então, prezado Amigo, em qualquer festa
Tirava liberal o bom Senado
Dos cofres chapeados grossas barras.
Chegaram tais despesas à notícia
Do Rei prudente, que a virtude preza;
E vendo, que estas rendas gastavam
Em touros, Cavalhadas, e Comédias,
Aplicar-se podendo a cousas santas;
Ordena providente, que os Senados
Nos dias, em que devem mostrar gosto
Pelas Reais fortunas, se moderem,
E só façam cantar no Templo os Hinos,
Com que se dão aos Céus as justas graças.
Ah! meu bom Doroteu, que feliz fora
Esta vasta Conquista, se os seus Chefes
Com as leis dos Monarcas se ajustaram!
Mas alguns não presumem ser vassalos;
Só julgam, que os Decretos dos Augustos
Têm força de Decretos, quando ligam
Os braços dos mais homens, que eles mandam;
Mas nunca, quando ligam os seus braços.
(...)
À força do temor o bom Senado
Constância já não tem; afroxa, e cede.
Somente se disputa sobre o modo
De ajuntar-se o dinheiro, com que possa
Suprir tamanho gasto o grande Alberga.
Uns dizem, que das rendas do Senado
Tiradas as despesas, nada sobra.
Os outros acrescentam, que se devem
Parcelas numerosas impagáveis
Às consternadas amas dos expostos.
Uns ralham, outros ralham; mas que importa?
(...)
Imagem - 00170001
Publicado no livro Cartas Chilenas (1845).
In: GONZAGA, Tomás Antônio. Cartas chilenas. Introd. cronol. notas e estabelecimento de texto Joaci Pereira Furtado. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p.115-120. (Retratos do Brasil, 1
1 927
Tomás Antônio Gonzaga
Carta 3a
Em que se contam as injustiças e violências,
que Fanfarrão executou por causa de uma cadeia,
a que deu princípio.
(...)
Aqui, prezado Amigo, principia
Esta triste tragédia; sim prepara,
Prepara o branco lenço, pois não podes
Ouvir o resto, sem banhar o rosto
Com grossos rios de salgado pranto.
Nas levas, Doroteu, não vêm somente
Os culpados vadios; vem aquele,
Que a dívida pediu ao Comandante;
Vem aquele, que pôs impuros olhos
Na sua mocetona: e vem o pobre,
Que não quis emprestar-lhe algum negrinho,
Para lhe ir trabalhar na roça, ou lavra.
Estes tristes, mal chegam, são julgados
Pelo benigno Chefe a cem açoites.
Tu sabes, Doroteu, que as Leis do Reino
Só mandam, que se açoitem com a sola,
Aqueles agressores, que estiverem
Nos crimes quase iguais aos réus de morte:
Tu também não ignoras, que os açoites
Só se dão por desprezo nas espáduas;
Que açoitar, Doroteu, em outra parte,
Só pertence aos Senhores, quando punem
Os caseiros delitos dos escravos.
Pois todo este Direito se pretere:
No pelourinho a escada já se assenta,
Já se ligam dos Réus os pés, e os braços;
Já se descem calções, e se levantam
Das imundas camisas rotas fraldas;
Já pegam dous verdutos nos zorragues;
Já descarregam golpes desumanos;
Já soam os gemidos e respingam
Miúdas gotas de pisado sangue.
Uns gritam que são livres: outros clamam
Que as sábias Leis do Rei os julgam brancos:
Este diz, que não tem algum delito,
Que tal vigor mereça; aquele pede
Do injusto acusador ao Céu vingança.
Não afroxam os braços dos verdugos:
Mas antes com tais queixas se duplica
A raiva dos tiranos; qual o fogo,
Que aos assopros dos ventos ergue a chama.
Às vezes, Doroteu, se perde a conta
Dos cem açoites, que no meio estava:
Mas outra nova conta se começa.
Os pobres miseráveis já nem gritam.
Cansados de gritar, apenas soltam
Alguns fracos suspiros, que enternecem.
Que é isso, Doroteu? Tu já retiras
Os olhos do papel? Tu já desmaias?
Já sentes as moções, que alheios males
Costumam infundir nas almas ternas?
Pois és, prezado Amigo, muito fraco;
Aprende a ter o valor do nosso Chefe,
Que à janela se pôs, e a tudo assiste,
Sem voltar o semblante para a ilharga;
E pode ser, Amigo, que não tenha
Esforço para ver correr o sangue,
Que em defesa do Trono se derrama.
(...)
Imagem - 00170005
Publicado no livro Cartas Chilenas (1845).
In: GONZAGA, Tomás Antônio. Cartas chilenas. Introd. cronol. notas e estabelecimento de texto Joaci Pereira Furtado. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p.92-95. (Retratos do Brasil, 1
que Fanfarrão executou por causa de uma cadeia,
a que deu princípio.
(...)
Aqui, prezado Amigo, principia
Esta triste tragédia; sim prepara,
Prepara o branco lenço, pois não podes
Ouvir o resto, sem banhar o rosto
Com grossos rios de salgado pranto.
Nas levas, Doroteu, não vêm somente
Os culpados vadios; vem aquele,
Que a dívida pediu ao Comandante;
Vem aquele, que pôs impuros olhos
Na sua mocetona: e vem o pobre,
Que não quis emprestar-lhe algum negrinho,
Para lhe ir trabalhar na roça, ou lavra.
Estes tristes, mal chegam, são julgados
Pelo benigno Chefe a cem açoites.
Tu sabes, Doroteu, que as Leis do Reino
Só mandam, que se açoitem com a sola,
Aqueles agressores, que estiverem
Nos crimes quase iguais aos réus de morte:
Tu também não ignoras, que os açoites
Só se dão por desprezo nas espáduas;
Que açoitar, Doroteu, em outra parte,
Só pertence aos Senhores, quando punem
Os caseiros delitos dos escravos.
Pois todo este Direito se pretere:
No pelourinho a escada já se assenta,
Já se ligam dos Réus os pés, e os braços;
Já se descem calções, e se levantam
Das imundas camisas rotas fraldas;
Já pegam dous verdutos nos zorragues;
Já descarregam golpes desumanos;
Já soam os gemidos e respingam
Miúdas gotas de pisado sangue.
Uns gritam que são livres: outros clamam
Que as sábias Leis do Rei os julgam brancos:
Este diz, que não tem algum delito,
Que tal vigor mereça; aquele pede
Do injusto acusador ao Céu vingança.
Não afroxam os braços dos verdugos:
Mas antes com tais queixas se duplica
A raiva dos tiranos; qual o fogo,
Que aos assopros dos ventos ergue a chama.
Às vezes, Doroteu, se perde a conta
Dos cem açoites, que no meio estava:
Mas outra nova conta se começa.
Os pobres miseráveis já nem gritam.
Cansados de gritar, apenas soltam
Alguns fracos suspiros, que enternecem.
Que é isso, Doroteu? Tu já retiras
Os olhos do papel? Tu já desmaias?
Já sentes as moções, que alheios males
Costumam infundir nas almas ternas?
Pois és, prezado Amigo, muito fraco;
Aprende a ter o valor do nosso Chefe,
Que à janela se pôs, e a tudo assiste,
Sem voltar o semblante para a ilharga;
E pode ser, Amigo, que não tenha
Esforço para ver correr o sangue,
Que em defesa do Trono se derrama.
(...)
Imagem - 00170005
Publicado no livro Cartas Chilenas (1845).
In: GONZAGA, Tomás Antônio. Cartas chilenas. Introd. cronol. notas e estabelecimento de texto Joaci Pereira Furtado. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p.92-95. (Retratos do Brasil, 1
3 394
Tomás Antônio Gonzaga
Carta 1a
Em que se descreve a entrada, que fez
Fanfarrão em Chile.
(...)
Acorda, Doroteu, acorda, acorda;
Critilo, o teu Critilo é quem te chama:
Levanta o corpo das macias penas;
Ouvirás, Doroteu, sucessos novos,
Estranhos casos, que jamais pintaram
Na idéia do doente, ou de quem dorme
Agudas febres, desvairados sonhos.
Não és tu, Doroteu, aquele mesmo,
Que pedes, que te diga, se é verdade,
O que se conta dos barbados monos,
Que à mesa trazem os fumantes pratos?
Não desejas saber, se há grandes peixes,
Que abraçando os Navios com as longas,
Robustas barbatanas, os suspendem,
Inda que o vento, que d'alheta sopra,
Lhes inche os soltos, desrizados panos?
Não queres, que te informe dos costumes
Dos incultos Gentios? Não perguntas,
Se entre eles há Nações, que os beiços furam?
E outras, que matam com piedade falsa
Os pais, que afroxam ao poder dos anos?
Pois se queres ouvir notícias velhas,
Dispersas por imensos alfarrábios,
Escuta a história de um moderno Chefe,
Que acaba de reger a nossa Chile,
Ilustre imitador a Sancho Pança.
E quem dissera, Amigo, que podia
Gerar segundo Sancho a nossa Espanha!
Não penses, Doroteu, que vou contar-te
Por verdadeira história uma novela
Da classe das patranhas, que nos contam
Verbosos Navegantes, que já deram
Ao globo deste mundo volta inteira:
Uma velha madrasta me persiga,
Uma mulher zelosa me atormente,
E tenha um bando de gatunos filhos,
Que um chavo não me deixem, se este Chefe
Não fez ainda mais, do que eu refiro.
(...)
Tem pesado semblante, a cor é baça,
O corpo de estatura um tanto esbelta,
Feições compridas, e olhadura feia,
Tem grossas sobrancelhas, testa curta,
Nariz direito, e grande; fala pouco
Em rouco baixo som de mau falsete;
Sem ser velho, já tem cabelo ruço;
E cobre este defeito, e fria calva
À força de polvilho, que lhe deita.
Ainda me parece, que o estou vendo
No gordo rocinante escarranchado!
As longas calças pelo embigo atadas,
Amarelo colete, e sobre tudo
Vestida uma vermelha, e justa farda:
(...)
Imagem - 00170001
Publicado no livro Cartas Chilenas (1845).
In: GONZAGA, Tomás Antônio. Cartas chilenas. Introd. cronol. notas e estabelecimento de texto Joaci Pereira Furtado. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p.50-53. (Retratos do Brasil, 1
Fanfarrão em Chile.
(...)
Acorda, Doroteu, acorda, acorda;
Critilo, o teu Critilo é quem te chama:
Levanta o corpo das macias penas;
Ouvirás, Doroteu, sucessos novos,
Estranhos casos, que jamais pintaram
Na idéia do doente, ou de quem dorme
Agudas febres, desvairados sonhos.
Não és tu, Doroteu, aquele mesmo,
Que pedes, que te diga, se é verdade,
O que se conta dos barbados monos,
Que à mesa trazem os fumantes pratos?
Não desejas saber, se há grandes peixes,
Que abraçando os Navios com as longas,
Robustas barbatanas, os suspendem,
Inda que o vento, que d'alheta sopra,
Lhes inche os soltos, desrizados panos?
Não queres, que te informe dos costumes
Dos incultos Gentios? Não perguntas,
Se entre eles há Nações, que os beiços furam?
E outras, que matam com piedade falsa
Os pais, que afroxam ao poder dos anos?
Pois se queres ouvir notícias velhas,
Dispersas por imensos alfarrábios,
Escuta a história de um moderno Chefe,
Que acaba de reger a nossa Chile,
Ilustre imitador a Sancho Pança.
E quem dissera, Amigo, que podia
Gerar segundo Sancho a nossa Espanha!
Não penses, Doroteu, que vou contar-te
Por verdadeira história uma novela
Da classe das patranhas, que nos contam
Verbosos Navegantes, que já deram
Ao globo deste mundo volta inteira:
Uma velha madrasta me persiga,
Uma mulher zelosa me atormente,
E tenha um bando de gatunos filhos,
Que um chavo não me deixem, se este Chefe
Não fez ainda mais, do que eu refiro.
(...)
Tem pesado semblante, a cor é baça,
O corpo de estatura um tanto esbelta,
Feições compridas, e olhadura feia,
Tem grossas sobrancelhas, testa curta,
Nariz direito, e grande; fala pouco
Em rouco baixo som de mau falsete;
Sem ser velho, já tem cabelo ruço;
E cobre este defeito, e fria calva
À força de polvilho, que lhe deita.
Ainda me parece, que o estou vendo
No gordo rocinante escarranchado!
As longas calças pelo embigo atadas,
Amarelo colete, e sobre tudo
Vestida uma vermelha, e justa farda:
(...)
Imagem - 00170001
Publicado no livro Cartas Chilenas (1845).
In: GONZAGA, Tomás Antônio. Cartas chilenas. Introd. cronol. notas e estabelecimento de texto Joaci Pereira Furtado. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p.50-53. (Retratos do Brasil, 1
2 754
Juvenal Galeno
Os Barões
I
Eu não canto os barões assinalados
Por atos de virtude ou de heroismo...
Mas espertos e torpes titulados,
Egrégios na baixeza e no cinismo!
Que os primeiros são tão raros
Nesta terra em que nasci,
Ao passo que dos segundos
Mais de um cento conheci!
E deles cada qual o mais tratante,
Mais néscio e mais servil...
Em fidalgos ruins já ninguém vence
Por certo o meu Brasil!
E se alguém duvidar ponha a luneta
E o passado examine dos barões...
Empurre no presente uma lanceta
E verá o que sai... que podridões!
Ou procure, que tenho na gaveta,
Alguns apontamentos ou borrões...
Mas trabalho é demais... ninguém se meta,
Antes leia estes traços a crayons.
(...)
III
Que ativo contrabandista
Foi outrora, — e ainda o é —
Aquele esperto Fulgêncio,
O barão do Gereré!...
Quem mais ligeiro no ofício?...
Sagaz!
Por entre as trevas da noite...
Trás... zás!
As cousas vinham dos barcos,
Sem o fisco examinar...
Pelas artes de berliques,
Passavam todas no ar;
E por artes de berloques,
Nunca as poderam pegar!
E as que vinham pelo fisco
Mudavam de condição...
Popelinas despachadas
Por fazenda de algodão!
E desse modo Fulgêncio
Depressa se f'licitou...
Passando mil contrabandos
Em pouco tempo enricou,
E para não ser Fulgêncio,
Um baronato arranjou!
Hoje é fidalgo...
Dos nobres é:
Barão exímio
Do Gereré!...
(...)
Publicado no livro Folhetins de Silvanus (1891).
In: GALENO, Juvenal. Folhetins de Silvanus. A machadada. Apres. Renato Braga. Fortaleza: Ed. Henriqueta Galeno, 1969
NOTA: Referência a OS LUSÍADAS, de Camões; Poema composto de 7 parte
Eu não canto os barões assinalados
Por atos de virtude ou de heroismo...
Mas espertos e torpes titulados,
Egrégios na baixeza e no cinismo!
Que os primeiros são tão raros
Nesta terra em que nasci,
Ao passo que dos segundos
Mais de um cento conheci!
E deles cada qual o mais tratante,
Mais néscio e mais servil...
Em fidalgos ruins já ninguém vence
Por certo o meu Brasil!
E se alguém duvidar ponha a luneta
E o passado examine dos barões...
Empurre no presente uma lanceta
E verá o que sai... que podridões!
Ou procure, que tenho na gaveta,
Alguns apontamentos ou borrões...
Mas trabalho é demais... ninguém se meta,
Antes leia estes traços a crayons.
(...)
III
Que ativo contrabandista
Foi outrora, — e ainda o é —
Aquele esperto Fulgêncio,
O barão do Gereré!...
Quem mais ligeiro no ofício?...
Sagaz!
Por entre as trevas da noite...
Trás... zás!
As cousas vinham dos barcos,
Sem o fisco examinar...
Pelas artes de berliques,
Passavam todas no ar;
E por artes de berloques,
Nunca as poderam pegar!
E as que vinham pelo fisco
Mudavam de condição...
Popelinas despachadas
Por fazenda de algodão!
E desse modo Fulgêncio
Depressa se f'licitou...
Passando mil contrabandos
Em pouco tempo enricou,
E para não ser Fulgêncio,
Um baronato arranjou!
Hoje é fidalgo...
Dos nobres é:
Barão exímio
Do Gereré!...
(...)
Publicado no livro Folhetins de Silvanus (1891).
In: GALENO, Juvenal. Folhetins de Silvanus. A machadada. Apres. Renato Braga. Fortaleza: Ed. Henriqueta Galeno, 1969
NOTA: Referência a OS LUSÍADAS, de Camões; Poema composto de 7 parte
1 943
Sebastião Uchoa Leite
Jean-Jacques Rousseau às Avessas
o amor do próximo universal
ou a lógica do contrato social
é o papo furado triunfal
dos que seguem as lutas sindicais
pelos jornais
os amorosos nada morosos
na hora da comilança
sabem muito bem
como encher a pança
Publicado no livro Isso Não É Aquilo (1982).
In: LEITE, Sebastião Uchoa. Obra em dobras, 1960/1988. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma
ou a lógica do contrato social
é o papo furado triunfal
dos que seguem as lutas sindicais
pelos jornais
os amorosos nada morosos
na hora da comilança
sabem muito bem
como encher a pança
Publicado no livro Isso Não É Aquilo (1982).
In: LEITE, Sebastião Uchoa. Obra em dobras, 1960/1988. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma
1 426
Henriqueta Lisboa
Em Sobressalto
As notícias me sobressaltam. Dia a dia
cada vez mais terríveis.
Brotam da terra pelos poros
entram pela janela em silvos ásperos
fazem pilha no chão em letras tortas
caem das nuvens em mortalhas.
E já são outras realidades apostas
ao retoque dos memorandos
às interpretações da ribalta
ao sortilégio da casa dos contos
ao ruminar dos bois — fuga e refúgio.
Em confronto são dúbias
precipitam-se acotovelam-se
em contramarcha se repelem.
Na deturpação do humano
anunciam com alvoroço
através de pinças de fogo
em cartazes de gelo
— o suicídio da multidão em nome de Deus
— o império do vício em nome da Arte
— o sequestro do juiz em prol da Justiça
— o arremesso de touros em via pública
para a alegria dos que se salvam.
Recuso-me a acreditar nas notícias
mas elas se impõem de cátedra
com implacável desfaçatez
talvez para convencer-nos
de que somos todos culpados.
Agem assim como tóxicos
impunemente sorvidos
nas delongas do tédio.
A busca de notícias é um mórbido
caminhar para a cruz
Sem embargo as procuro com empenho
na expectativa tantas vezes vã
de que à noite se mudem
na reparação no contraveneno
das notícias colhidas pela manhã.
Publicado no livro Pousada do Ser (1982).
In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 198
cada vez mais terríveis.
Brotam da terra pelos poros
entram pela janela em silvos ásperos
fazem pilha no chão em letras tortas
caem das nuvens em mortalhas.
E já são outras realidades apostas
ao retoque dos memorandos
às interpretações da ribalta
ao sortilégio da casa dos contos
ao ruminar dos bois — fuga e refúgio.
Em confronto são dúbias
precipitam-se acotovelam-se
em contramarcha se repelem.
Na deturpação do humano
anunciam com alvoroço
através de pinças de fogo
em cartazes de gelo
— o suicídio da multidão em nome de Deus
— o império do vício em nome da Arte
— o sequestro do juiz em prol da Justiça
— o arremesso de touros em via pública
para a alegria dos que se salvam.
Recuso-me a acreditar nas notícias
mas elas se impõem de cátedra
com implacável desfaçatez
talvez para convencer-nos
de que somos todos culpados.
Agem assim como tóxicos
impunemente sorvidos
nas delongas do tédio.
A busca de notícias é um mórbido
caminhar para a cruz
Sem embargo as procuro com empenho
na expectativa tantas vezes vã
de que à noite se mudem
na reparação no contraveneno
das notícias colhidas pela manhã.
Publicado no livro Pousada do Ser (1982).
In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 198
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