Temas
Poemas neste tema

Ética e Moral

Teófilo Dias

Teófilo Dias

O Século Caminha

A Assis Brasil

O século é pujante, heróico, inexorável.
— Navio que enristou a quilha incontrastável
Às praias do porvir, lá vai talhando o mar.
Espadana-lhe em vão as bavas hediondas
O inútil preconceito; embalde em crespas ondas
Forceja por tolher-lhe o impávido marchar.

Quebrando à vaga rude a cólera, que espuma,
A — Idéia, o nauta audaz, atira-lhe, uma a uma,
As tradições do cetro e da tiara as leis;
Rota, cai do passado a trágica bandeira;
E de envolta com ela a triunfal esteira
Submerge avidamente as púrpuras dos reis.

Rasga afoito ao futuro as fundas névoas densas
O alento vingador, viril das novas crenças,
Que ruge, solto, livre, indômito e fatal.
Ó déspotas cruéis! ó Césares! é tarde!
Dobrai o régio manto orgíaco e cobarde!
É tempo! Adormecei no olvido sepulcral!

Consolai-vos! — Não mais os vossos membros rotos
Filtrarão sangue vil da história nos esgotos
Aos gritos infernais das ébrias multidões!
— No pólo social a estrela do direito
Ergueu-se, há muito já. No mortuário leito
Repousai. Já não há coroas nem brazões!

O século caminha. Os cadafalsos velhos
Ruíram. Das nações os vários evangelhos
Rasga-os, folha por folha, a garra de Satã;
E os livros feitos pó, virá uma só crença,
E unidos se verão numa harmonia imensa
Os crentes de Jesus, de Buda e do Corã.


Publicado no livro Fanfarras (1882). Poema integrante da série Revolta.

In: DIAS, Teófilo. Poesias escolhidas. Sel. introd. e notas Antonio Candido. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 196
1 902
Raul Pompéia

Raul Pompéia

Viação Urbana

Sem sair do assunto de viação urbana.

Os carros do Rio de Janeiro fazem a sua vida e a sua sociedade a par da população humana, infelizmente algumas vezes por cima dela; uma vida interessante cheia de episódios, de animação, de variedade.

Os veículos têm o seu caráter e vive cada um a seu modo; uns são aristocráticos, outros são plebeus; uns são ativos, outros são lerdos; há ricos e pobres, modestos e arrogantes, honrados e perversos. Têm suas paixões: o caminhão odeia o bond, o bond odeia a vitória. Brigam freqüentemente, sempre tal qual a sociedade dos homens, o mais forte, mesmo o mais injusto, tomando-lhe o lugar, ou esmagando o mais fraco. Através dessas intrigas rodantes, passa a honrada carroça, séria, com a sua carga de granito talhado a balançar de cadeias de ferro, rude e válida como o trabalho. Ninguém lhe toque, ela vai séria e grave o seu caminho: O bond bate-lhe tanto pior: perde a plataforma. O landau brazonado roça-lhe insolente, com o pára-lama mete-lhe a lanterna à cara: perde o pára-lama, perde a lanterna.

Fora da intriga geral, passa também o carrinho do pão, madrugador e ativo, como que a gritar com o estrépito das rodas que a atividade é que dá o pão; passa o tílburi leviano e célere, salvando-se da sua fraqueza pela celeridade, como os veados esquivando-se, fugindo, passando sempre adiante; esperto como um bom arranjador da vida, furtando aqui e ali um pouco de trilho ao bond, como a mostrar que a esperteza e a consciência não são geralmente predicadas complementares. Mas o que mais interessa da vida dos veículos é a hipótese referida em que eles, que fazem a vida ao lado da vida da população humana, dão muita vez para fazê-la por cima. ..

Mais interessante porque mais gravemente nos afeta, e porque é um ponto de discussão.

É a questão da responsabilidade dos cocheiros.

Ainda esta semana, no Campo da Aclamação, deu-se um horrível desastre. A vítima foi uma mulher. Contundida por um carro da Companhia de São Cristóvão, teve o coração varado por um fragmento das costelas, que se lhe quebraram com a pancada do veículo, e sucumbiu imediatamente. A crônica dos desastres de rua nesta cidade exagera-se, salvas as proporções, sobre qualquer estatística congênere dos centros mais populosos, registrando todos os dias tristes incidentes resultados da imprudência dos cocheiros.

Reclamam-se providências, inventam-se e adotam-se salva-vidas, mas a epidemia dos sinistros de rua não cessa.

Indagando-se as causas de semelhante mal, considerando que já se tem atendido a alguma coisa a esse respeito e o mal não decresce, pode-se com quase certeza o descobrir-lhe a principal origem na impunidade dos cocheiros.

Glosando o tema da imprudência dos transeuntes, a imprensa tem concorrido para esse regime de injustiça que a favorece aos culpados dos sinistros de rua, com revoltante violação do princípio da segurança pública.

O transeunte, dizem, tem obrigação de ver por onde passa, de ser atento e prudente. Porventura entenderá quem assim diz, que os conselheiros gratuitos têm mais interesse em que um desastre não se dê do que quem pode ser vítima dele? E a atenção porventura é coisa que imponha como um dever? E não é patente que aquele que segue, preocupado com os seus graves negócios, absorvido por qualquer preocupação de sentimento ou de interesse, tem direito a que a sociedade vele por ele, proteja-lhe os imprudentes descuidos da sua preocupação.

Porventura poupa ele despesas de segurança, pagas pelos impostos que o estado a seu favor aplica e aproveita?

Ao condutor de um veículo, entretanto, que é remunerado para estar atento, que faz profissão da sua habilidade em guiar, livre de solavancos e desvios, o seu carro, inocenta-se, a pretexto de que o público deve ter cuidado em não se meter embaixo das rodas.

A respeito disto de prudência do transeunte, é de notar que as vítimas dos desastres de rua produzido pelos veículos são em maior número mulheres e crianças, exatamente criaturas às quais chega a assistir o direito da imprudência.

A opinião seria outra, se para a crítica desta espécie de crimes desculpados, cuja arma é o peso de uma carruagem, se recordasse um costume, apenas, dos cocheiros, o que eles têm de "espantar" para abrir caminho ao seu carro, de espantar precipitando a carreira dos seus animais sobre o transeunte que lhe passa um tanto demorado por diante das parelhas.

Assustado efetivamente o pobre, muitas vezes uma velha, um mendigo, um miserável semi-ébrio, ameaçado literalmente de morte, escapa-se o mais depressa que pode e o desastre às vezes se evita. Não seria, contudo, muito mais natural que os cocheiros procedessem por outra manobra, refreando a carreira do seu carro, estacando o belo galope de seus cavalos, e esperando, com a paciência de quem faz por salvar a vida de um homem, que se lhe tenha desfeito em caminho toda a probabilidade do mais horrível homicídio?

Publicada no Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 15 jun. 1890. Título atribuído pelo Itaú Cultural.
POMPÉIA, Raul. Crônicas 2. Organização de Afrânio Coutinho. Assistência de Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1983. v. 6. p. 365-366
1 710
Raul Pompéia

Raul Pompéia

As Greves

Depois, não carecemos de culpas reprováveis para ter a agitação popular no Rio de Janeiro. Aí estão as grèves.

Supunha-se que era privilégio das populações operárias da velha Europa. As grèves foram pouco a pouco emigrando para o nosso continente; aclimaram-se nos Estados Unidos do Norte; desceram depois pela carta geográfica e invadiram o Chile. Agora estão na capital fluminense.

É justiça, contudo, reconhecer que as nossas grèves de um povo feliz, são calmas e moderadas, quase circunspectas; o que, longe de enfraquecê-las, deve ao contrário prestigiá-las diante daquelas contra quem representam.

Em atenção a essa mesma brandura dos que reclamam, devem os patrões cuidar em atendê-los da melhor vontade.

A indústria mal começa a existir entre nós, a opinião operária, por assim dizer, começa apenas a constituir-se. Mas com o natural progresso ela há de ter voto enérgico, aqui como em toda parte, e é bom que aqueles de quem o acordo mais depende, para estabelecer-se entre o capital e o trabalho, vão desde já implantando, entre os seus subordinados, pela eqüidade das concessões, os hábitos de harmonia e mútuo bom humor indispensáveis à vida econômica da produção. E para que regatear em um dia o que no dia seguinte se vai conceder? O meio-tempo não passa de um prazo útil de azedume.

Dir-se-á que, enquanto a impaciência dos grevistas vai e vem, folgam alguns lucros. Mas a indústria não é com certeza uma coisa efêmera, que se adstrinja às vantagens de um momento.

E resistir é unicamente adiar, isto mesmo quando a resistência é profícua; e adiar é instituir a reclamação perpétua em regime; é arvorar em mal crônico uma crise passageira. Acrescendo a consciência de que a resistência fatalmente sucumbirá por fim, o que a faz insensata sobre malévola.

Reparem bem no que é a grève.

A grève é a transformação moderna da guerra.

Ë mais do que a transformação: é a própria guerra invertida. A guerra é um movimento de agressão; a grève é a imobilidade agressiva. A grève dispõe da mais poderosa das forças da natureza, a celebrada força da inércia. Pela guerra o soldado vence o inimigo; pela grève faria coisa mais difícil: venceria o comandante. Se a guerra e a grève se confundissem, por efeito de uma conspiração generosa das classes armadas, a guerra seria abolida: o monstro inquieto das ambições internacionais morreria paralítico.

Esta reforma da estratégia das lutas sociais veio da alteração da índole dos povos. A sociedade atual tem no Oriente do seu futuro uma aurora evidente de paz.

Paz no velho sentido da palavra. O progresso industrial e a decadência da guerra proporcionam-se entre si inevitavelmente. O século XIX, chamado século do operário, tem fabricado armas de guerra incomparavelmente mais do que nenhum outro; mas, apreciando-o com justiça, não custa descobrir que ela as fabrica muito mais para vender do que para matar. Não há dúvida. A paz aí vem. E porque ela promete vir, os homens foram pensando em fazer dela mesmo... como diremos? arma de guerra. Guerra aqui em sentido moderno. E, como se sabe dos compêndios de tática que a guerra é principalmente a mobilização, recorreu-se ao princípio contrário da imobilização, para conhecer-lhe a eficácia hostilizadora. O velho princípio da hostilidade é atacar; o novo princípio é não atacar, mas em compensação não fazer mais nada. Braços cruzados! tornou-se um grito de campanha mais perigoso do que o anacrônico — Às armas! Com a velha guerra corria o sangue, o que era mau; com a grève nova deixam de correr os juros, o que é mil vezes pior.

Vejam lá os chefes industriais que incômoda situação lhes pode reservar a teoria da resistência.

Entre nós porque a massa dos trabalhadores não é numerosa e a imigração de pessoal para o trabalho é quotidiana, ainda pode haver o apelo para gente nova, em substituição dos seus antecessores incontestados. Basta, porém, que se forme o povo operário domiciliado e que possa a cabala de classe girar melhor, com a intimidade de próximas e antigas camaradagens, para que já não haja outro recurso senão, como na Europa desabusada, o das absurdas coações brutais e mortíferas.

Publicada no Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 17 ago. 1890. Título atribuído pelo Itaú Cultural.
POMPÉIA, Raul. Crônicas 4. Organização de Afrânio Coutinho. Assistência de Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1983. v. 9. p. 87-88
1 804
Sílvio Romero

Sílvio Romero

II - A Mancha Negra

(A ESCRAVIDÃO)

A natureza ainda aqui sorria virgem!
Havia pouco então que, em festival vertigem,
O nosso mar sulcara a frota de Cabral.
Trazido pelo vento em doido temporal,
O velho navegante, escapou às duras vagas.
O Éden do futuro achara em nossas plagas.

Ainda nesse tempo o vasto céu tranquilo
As selvas espelhava enormes, colossais.
Do mar os turbilhões, dos ventos o sibilo,
Da catadupa o som, da linfa os ternos ais
Passavam como o canto inebriante e vivo
Do gênio do Brasil. Ainda em sólio divo
A Mãe d'água morena as tranças penteava,
Aos cheiros da baunilha; a fonte acompanhava.

As queixas da cabocla, amante que chorosa
Do seu guerreiro ausente as mágoas lhe dizia.
A terra os seios nus não tinha pesarosa
Deixado retalhar à clara luz do dia.

E tudo era brilhante. Os troncos seculares,
Beijados pelo vento, agitando os cocares,
Ouviam deslizar, os rios namorados,
Qu'estendiam além os corpos prateados...
O selvagem valente o arco destendia,
E a seta ia certeira ao dorso do tapir;
A liberdade brusca, indômita, erradia,
Criou asas também; sabia então subir!

Soava pelo espaço o alegre ditirambo
Cantado pela flor e as virgens cor de jambo,
Cantado pelo azul e pelas ventanias...
O rio, a vastidão, a mata, os descampados,
Sabiam modular as fortes melodias
Em coros festivais, em hinos alternados.
De tudo irradiava a vida, as turbulências
Do virginal sentir; miríficas essências
Trescalavam do val aos seios das donzelas.
Em sono de leão dormia o Amazonas,
Esperando Orelana; ao sol de nossas zonas,
Guerreiro sem rival, sonhava fortes lutas...
Aos roncos do jaguar, oculto pelas grutas,
Bradava o pororoca em seu pavor profundo.

Pois bem! Neste país, aqui no Novo Mundo,
Aqui, onde o que brota e cresce e luta e aspira,
Alenta o próprio ser do sol na imensa pira;
Aqui, onde o viver é fitar as alturas,
Onde não há baixeza e não se vêem planuras;
A sórdida cobiça, adiantando o braço,
De negro quis trajar a luz de nosso espaço;
A pérfida avareza alevantando a mão,
De luto nos vestiu da cor da... Escravidão!


Poema integrante da série Os Palmares.

In: ROMERO, Sílvio. Últimos harpejos: fragmentos poéticos. Pelotas: Carlos Pinto, 1883
2 232