Poemas neste tema
Humor e Ironia
Ona Gaia
Heis como ficar
Heis como ficar
sem dizer como:
não espere
nada mais fere
do que tontas interferindo.
Quais tontas?
senhoras
perdendo as horas...
pra que lembrar?
pra que esquecer?
es como não ficar
heis como não ir
... nem vir
dizendo como eu como
(canibalmente)
e como como
você!
sem dizer como:
não espere
nada mais fere
do que tontas interferindo.
Quais tontas?
senhoras
perdendo as horas...
pra que lembrar?
pra que esquecer?
es como não ficar
heis como não ir
... nem vir
dizendo como eu como
(canibalmente)
e como como
você!
825
Noel Rosa
Chuva de Vento
Quem nunca viu
Chuva de vendo a fantasia
Vá em Caxambu, de dia
Domingo de carnaval!
Chuva de vento
Só essa de Caxambu!
Domingo chove chuchu
E venta água mineral!
Um espanhol
Que está me ouvindo desconfia
Dessa chuva a fantasia
Que abala Caxambu
Esse espanhol
Que na mentira não me ganha
Garantiu que lá na Espanha
Chove bala pra chuchu!
Chuva de vento
É quando o vento dá na chuva
Sol com chuva - céu cinzento
Casamento de viúva
Zeca Secura
Da fazenda do Anzol
Quando chove não vê sol
Vai comprar feijão no centro
Bebe dez litros
De cachaça em meia hora
Pra aguentá chuva por fora
Tem que se molhar por dentro
Vento danado
É aquele lá de Minas
Sopra em cima das meninas
Diverte a população
Até os velhos
Vão correndo pras janelas
Pra ver se algumas delas
Já usa combinação
Fez sol com chuva
Uma viúva lá da Penha
Disse que não há quem tenha
Tanto pretendente junto
Mas um por um
Dos pretendentes é otário
Pois o vencedor do páreo
Ganha resto de defunto
Quem nunca viu
Chuva de vento a fantasia
Vá em Caxambu de dia
Domingo de carnaval
Chuva de vento
Só essa de Caxambu
Domingo chove chuchu
E venta água mineral!
Um Zé Pau-dágua
Tem um amigo parasita
Não trabalha e sempre grita:
"Viva Deus e chova arroz!"
Gritando assim
Do seu povo ele se vinga
Viva Deus e chova pinga
Que arroz nasce depois
Chuva de vento
Muita gente desconfia
Dessa chuva fantasia
Que eu vi em Caxambu
Se o espanhol
Contar a dele não me ganha
Vai dizer que na Espanha
Chove bala pra chuchu!
Chuva de vendo a fantasia
Vá em Caxambu, de dia
Domingo de carnaval!
Chuva de vento
Só essa de Caxambu!
Domingo chove chuchu
E venta água mineral!
Um espanhol
Que está me ouvindo desconfia
Dessa chuva a fantasia
Que abala Caxambu
Esse espanhol
Que na mentira não me ganha
Garantiu que lá na Espanha
Chove bala pra chuchu!
Chuva de vento
É quando o vento dá na chuva
Sol com chuva - céu cinzento
Casamento de viúva
Zeca Secura
Da fazenda do Anzol
Quando chove não vê sol
Vai comprar feijão no centro
Bebe dez litros
De cachaça em meia hora
Pra aguentá chuva por fora
Tem que se molhar por dentro
Vento danado
É aquele lá de Minas
Sopra em cima das meninas
Diverte a população
Até os velhos
Vão correndo pras janelas
Pra ver se algumas delas
Já usa combinação
Fez sol com chuva
Uma viúva lá da Penha
Disse que não há quem tenha
Tanto pretendente junto
Mas um por um
Dos pretendentes é otário
Pois o vencedor do páreo
Ganha resto de defunto
Quem nunca viu
Chuva de vento a fantasia
Vá em Caxambu de dia
Domingo de carnaval
Chuva de vento
Só essa de Caxambu
Domingo chove chuchu
E venta água mineral!
Um Zé Pau-dágua
Tem um amigo parasita
Não trabalha e sempre grita:
"Viva Deus e chova arroz!"
Gritando assim
Do seu povo ele se vinga
Viva Deus e chova pinga
Que arroz nasce depois
Chuva de vento
Muita gente desconfia
Dessa chuva fantasia
Que eu vi em Caxambu
Se o espanhol
Contar a dele não me ganha
Vai dizer que na Espanha
Chove bala pra chuchu!
1 058
Manuel Sobrinho
Trovas
Amigos, quantos tiveres,
Um por um te deixarão,
Quando já não dispuseres
De dinheiro ou posição...
Se alguém se julga perfeito,
A razão disso adivinho:
Em si não busca o defeito
Que descobre no vizinho.
Do bem por ti desejado
Não corras muito na pista:
Na vida, o mais apressado
Nem sempre é o que mais conquista
És pobre? Sofres? Paciência,
Põe no lábio um riso franco:
Na roleta da existência
Há muito número em branco...
É pela dor procedida
Do tombo que se levou,
Que pode ser bem medida
A altura a que se chegou.
Um por um te deixarão,
Quando já não dispuseres
De dinheiro ou posição...
Se alguém se julga perfeito,
A razão disso adivinho:
Em si não busca o defeito
Que descobre no vizinho.
Do bem por ti desejado
Não corras muito na pista:
Na vida, o mais apressado
Nem sempre é o que mais conquista
És pobre? Sofres? Paciência,
Põe no lábio um riso franco:
Na roleta da existência
Há muito número em branco...
É pela dor procedida
Do tombo que se levou,
Que pode ser bem medida
A altura a que se chegou.
793
Manuel Sérgio
Com Dedos de Luar
Com dedos de luar duas crianças
Jogam à batalha naval
Dão tiros só com lápis e papel
Não tingem de sangue o azul da madrugada
Como dois seres intensamente humanos
Travam uma guerra a brincar
Sem mortos nem ogivas nucleares
Não dão à amizade um nome provisório
Compreendo agora por que alguns generais são tristes
E se perfilam como estátuas musguentas
Já não sabem jogar
À batalha naval
Jogam à batalha naval
Dão tiros só com lápis e papel
Não tingem de sangue o azul da madrugada
Como dois seres intensamente humanos
Travam uma guerra a brincar
Sem mortos nem ogivas nucleares
Não dão à amizade um nome provisório
Compreendo agora por que alguns generais são tristes
E se perfilam como estátuas musguentas
Já não sabem jogar
À batalha naval
892
Gerardo Mello Mourão
Hoje é dia de louras, Abdias
Hoje é dia de louras, Abdias,
telefona e amanhã
quero Wanda Moreno, quero Hilda, quero Rosa e depois
quero de novo a ruiva da Barata Ribeiro, quero Néa,
quero Paula da casa de Arabela e Lourdes com Marina e quero todas
da casa de Helenita:
meu avô passou nos peitos todas as filhas dos moradores do engenho
os Mourões raparigueiros há trezentos anos:
eram cinqüenta mulheres
à noite no cabaret
entre elas uma francesa
sentada num canapé
Raimundo Mourão brigava
com o vigário da Sé
trazia o diabo no couro
quando entrou no cabaret
as mulheres quando o viram
ficaram todas em pé.
Deixara em baixo o Marreira
no cabresto do alazão
na cinta o coldre bordado
e unia chibata na mão
parecia um cangaceiro
do bando do Lampeão
a parnaíba nos quartos
vinte léguas de sertão
cantador Nertan Macedo
afina já teu bordão
matéria-prima do verso
este é um Mello Mourão
valente rico e faceiro
dançador e fanfarrão
tanto bebe como canta
como atira que nem cão
mulheres no porta-seios
segurem o coração
"couro bando papaceia
o chão imemorial
o bode o cavalo o boi
o sentimento mortal
o homem caça dileta
refletida no punhal"
tanta tesão entre as coxas
como balas no embornal
A noite se encheu de tiros
começou a confusão
não ficou homem na sala
pois quem enfrenta um Mourão?
as luzes levando chumbo
virou tudo escuridão
provou as cinqüenta fêmeas
pôs a mão no coração
e sentiu que ele no peito
não se fartara inda não
não encontrava em Francisca
os seios de Conceição
nem em Antônia a cadência
que as ancas de Isaura dão:
só mesmo teus olhos verdes
dariam a ordenação
capaz na noite e no dia
de saciar um Mourão
mas antes que tu chegasses
um punhal na escuridão
deixou morto aquele macho
banhado em sangue no chão:
caça dileta do amor
tombou Raimundo Mourão
herdei-lhe a espora de prata
o rebenque e o alazão
relógio de ouro maciço
de corrente e medalhão
trinta e dois de carga dupla
o clavinote alemão
e na bainha de couro
o punhal de estimação
dezoito pentes de bala
cartucheira e cinturão
os olhos concupiscentes
a aguardente e a perdição
o gosto de mulher boa
procurada com paixão
e atrás de ti pelo mundo
abandonei o sertão.
telefona e amanhã
quero Wanda Moreno, quero Hilda, quero Rosa e depois
quero de novo a ruiva da Barata Ribeiro, quero Néa,
quero Paula da casa de Arabela e Lourdes com Marina e quero todas
da casa de Helenita:
meu avô passou nos peitos todas as filhas dos moradores do engenho
os Mourões raparigueiros há trezentos anos:
eram cinqüenta mulheres
à noite no cabaret
entre elas uma francesa
sentada num canapé
Raimundo Mourão brigava
com o vigário da Sé
trazia o diabo no couro
quando entrou no cabaret
as mulheres quando o viram
ficaram todas em pé.
Deixara em baixo o Marreira
no cabresto do alazão
na cinta o coldre bordado
e unia chibata na mão
parecia um cangaceiro
do bando do Lampeão
a parnaíba nos quartos
vinte léguas de sertão
cantador Nertan Macedo
afina já teu bordão
matéria-prima do verso
este é um Mello Mourão
valente rico e faceiro
dançador e fanfarrão
tanto bebe como canta
como atira que nem cão
mulheres no porta-seios
segurem o coração
"couro bando papaceia
o chão imemorial
o bode o cavalo o boi
o sentimento mortal
o homem caça dileta
refletida no punhal"
tanta tesão entre as coxas
como balas no embornal
A noite se encheu de tiros
começou a confusão
não ficou homem na sala
pois quem enfrenta um Mourão?
as luzes levando chumbo
virou tudo escuridão
provou as cinqüenta fêmeas
pôs a mão no coração
e sentiu que ele no peito
não se fartara inda não
não encontrava em Francisca
os seios de Conceição
nem em Antônia a cadência
que as ancas de Isaura dão:
só mesmo teus olhos verdes
dariam a ordenação
capaz na noite e no dia
de saciar um Mourão
mas antes que tu chegasses
um punhal na escuridão
deixou morto aquele macho
banhado em sangue no chão:
caça dileta do amor
tombou Raimundo Mourão
herdei-lhe a espora de prata
o rebenque e o alazão
relógio de ouro maciço
de corrente e medalhão
trinta e dois de carga dupla
o clavinote alemão
e na bainha de couro
o punhal de estimação
dezoito pentes de bala
cartucheira e cinturão
os olhos concupiscentes
a aguardente e a perdição
o gosto de mulher boa
procurada com paixão
e atrás de ti pelo mundo
abandonei o sertão.
1 154
Gerardo Mello Mourão
Naquele tempo
Naquele tempo
o filho dos Mourões era pastor e muitas coisas
pastoreou seu cajado
o bode o cavalo o boi
e os rifles bandoleiros entre
a Canabrava dos Mourões e a Baixa Verde
dos Mourões
e por ali
tangia o pegureiro sua flauta
pastor de anjos tangeu uns tempos
os serafins e os querubins e Querubina
Januzzi à sombra
dos jasmineiros:
pastor das putas sua flauta
gemia nas esquinas e alegrava os bordéis e a
canção de Lesbos
saudava as meninas machas do L’Étoile
(para Paula e Jane)
e a flauta feiticeira
envenenou teus dias
e tuas noites:
de sua melodia
viveram e morreram as amadas e à beira
de suas sepulturas
o pastor das defuntas sopra o choro
pelas que se mataram de amor.
Pastor hei sido em tanto monte, desde
o monte de Vênus ao monte de Sião
e ao monte galego onde damas de copas e espadas
ambulavam na ronda
pastor de moedas — digo o Banco de Crédito
Real —
cordeiro de Deus tonsurado e imolado
naquelas mangedouras
gado inútil cevou-se à ração de meus dias
e os demônios astutos
dançaram sarabanda no monte de Sião —
e as damas
de copas e espadas corriam
do bordel de Helenita ao de Marina
e os lobos devoravam as meninas
dos olhos do pastor
e nada nos foi poupado — Angelo Simões
de Arruda, nada, Efraín,
pois pastor de heróis condottieri e guerrilheiros
tresmalhados todos os rebanhos — Abdias —
restava apenas este pastoreio
das putas e esta flauta
que nunca lhe caiu da boca na viagem
e um dia nesta flauta
apodrecido o canto de cantar
ensaiasse o pastor no sacro bosque
enfeitiçar os animais e as pedras
quem sabe as fêmeas — sempre elas — de
narinas acesas e de ouvidos em flor
esperassem à noite a serenata irresistível
e pedras e serpentes e fêmeas começassem
a chegar arrastados
da doce melodia.
o filho dos Mourões era pastor e muitas coisas
pastoreou seu cajado
o bode o cavalo o boi
e os rifles bandoleiros entre
a Canabrava dos Mourões e a Baixa Verde
dos Mourões
e por ali
tangia o pegureiro sua flauta
pastor de anjos tangeu uns tempos
os serafins e os querubins e Querubina
Januzzi à sombra
dos jasmineiros:
pastor das putas sua flauta
gemia nas esquinas e alegrava os bordéis e a
canção de Lesbos
saudava as meninas machas do L’Étoile
(para Paula e Jane)
e a flauta feiticeira
envenenou teus dias
e tuas noites:
de sua melodia
viveram e morreram as amadas e à beira
de suas sepulturas
o pastor das defuntas sopra o choro
pelas que se mataram de amor.
Pastor hei sido em tanto monte, desde
o monte de Vênus ao monte de Sião
e ao monte galego onde damas de copas e espadas
ambulavam na ronda
pastor de moedas — digo o Banco de Crédito
Real —
cordeiro de Deus tonsurado e imolado
naquelas mangedouras
gado inútil cevou-se à ração de meus dias
e os demônios astutos
dançaram sarabanda no monte de Sião —
e as damas
de copas e espadas corriam
do bordel de Helenita ao de Marina
e os lobos devoravam as meninas
dos olhos do pastor
e nada nos foi poupado — Angelo Simões
de Arruda, nada, Efraín,
pois pastor de heróis condottieri e guerrilheiros
tresmalhados todos os rebanhos — Abdias —
restava apenas este pastoreio
das putas e esta flauta
que nunca lhe caiu da boca na viagem
e um dia nesta flauta
apodrecido o canto de cantar
ensaiasse o pastor no sacro bosque
enfeitiçar os animais e as pedras
quem sabe as fêmeas — sempre elas — de
narinas acesas e de ouvidos em flor
esperassem à noite a serenata irresistível
e pedras e serpentes e fêmeas começassem
a chegar arrastados
da doce melodia.
1 306
Milena Azevedo
O Cinema
Luzes, estrelas, milhões
Fama, sorte, canastrões
Humor, terror, drama, fantasia
Este é o mundo onde o cinema gira.
Eleva o nosso sonho
à condição de super-astro
Faz da nossa imaginação
a estrela principal.
Faz-nos emocionar,
rir, chorar, cantar
Embeleza o nosso caminho,
glorifica o nosso mundinho.
Ganhei, perdi, morri, revivi...
Nem sei quantas lições aprendi,
nem sei como posso agradecer-te
meu bom e velho cinema.
Fama, sorte, canastrões
Humor, terror, drama, fantasia
Este é o mundo onde o cinema gira.
Eleva o nosso sonho
à condição de super-astro
Faz da nossa imaginação
a estrela principal.
Faz-nos emocionar,
rir, chorar, cantar
Embeleza o nosso caminho,
glorifica o nosso mundinho.
Ganhei, perdi, morri, revivi...
Nem sei quantas lições aprendi,
nem sei como posso agradecer-te
meu bom e velho cinema.
772
Mário Donizete Massari
O natal de Raimundo
Raimundo ganhou
presente de Natal
Um incrível carro de bois
movido a pilhas
Leva a boiada Raimundo
Raimundo leva a boiada
E assim ele se diverte
num feliz faz de contas
empurrando um pedaço de madeira
na favela de São Leopoldo
presente de Natal
Um incrível carro de bois
movido a pilhas
Leva a boiada Raimundo
Raimundo leva a boiada
E assim ele se diverte
num feliz faz de contas
empurrando um pedaço de madeira
na favela de São Leopoldo
893
Marco Antônio de Souza
O Som do Poeta
O que foi feito das palavras ?
Quando voltarão a ser versos ?
O poeta perdeu a razão,
ou passou a não usá-la ?
Um ano, ou quase, do último texto !
Último texto ?
Ou último riso ?
Ou último gemido ?
Se a alegria pode ser som
porque não a tristeza... silêncio
Quando voltarão a ser versos ?
O poeta perdeu a razão,
ou passou a não usá-la ?
Um ano, ou quase, do último texto !
Último texto ?
Ou último riso ?
Ou último gemido ?
Se a alegria pode ser som
porque não a tristeza... silêncio
1 045
Marco Antônio de Souza
Instrumentos de Trabalho
Brota a broca da tua mão
como a caneta da minha;
você faz versos com diamante,
eu me restauro com palavras...
Tuas rimas são de ouro,
a tristeza é o metal que liga meus motes !
Tua métrica é tão funda
quanto a profundidade da cárie;
Minha cárie é este destino,
que me fez poeta, antes de homem...
Teus sonetos são esculturas protéticas,
artísticamente lavradas e adaptadas;
minha prótese mais separa do que une
pois às vezes vergasta e fere...
Por ironia,
se é com a caneta que você ganha a vida,
eu também com a caneta
vivo arriscado a perder a minha...
Que dirão os astros
da união de um poeta com uma dentista ?
como a caneta da minha;
você faz versos com diamante,
eu me restauro com palavras...
Tuas rimas são de ouro,
a tristeza é o metal que liga meus motes !
Tua métrica é tão funda
quanto a profundidade da cárie;
Minha cárie é este destino,
que me fez poeta, antes de homem...
Teus sonetos são esculturas protéticas,
artísticamente lavradas e adaptadas;
minha prótese mais separa do que une
pois às vezes vergasta e fere...
Por ironia,
se é com a caneta que você ganha a vida,
eu também com a caneta
vivo arriscado a perder a minha...
Que dirão os astros
da união de um poeta com uma dentista ?
845
Marcelo Almeida de Oliveira
Chega! De novo
Desculpa, amor, mas hoje não vou te amar,
nem vou deixar minha cabeça se encher de você,
segurem as garrafas porque não vou tomar,
seda e veludo também pode esquecer.
Porque hoje quero saber a verdade.
Já estou cançado de rir sem saber o porquê.
Que o ópio que pelos meus ouvidos entra
só me deixe entorpecido quando permitir;
e que a cobra que encanta da caixa
não me enfeitice com seus olhos argibi.
Mais um bufão vai tirar a fantasia,
mais uma vaia na pequena platéia descontente.
nem vou deixar minha cabeça se encher de você,
segurem as garrafas porque não vou tomar,
seda e veludo também pode esquecer.
Porque hoje quero saber a verdade.
Já estou cançado de rir sem saber o porquê.
Que o ópio que pelos meus ouvidos entra
só me deixe entorpecido quando permitir;
e que a cobra que encanta da caixa
não me enfeitice com seus olhos argibi.
Mais um bufão vai tirar a fantasia,
mais uma vaia na pequena platéia descontente.
609
Mário Hélio
29-IX(Choro e luz)
num dia de festa de muita alegria
lavei meus sonhos na velha pia
e tive medo de quem sorria
e do segredo de quem morria
mas era festa de só um dia
já não bastava tanta agonia?
eu precisava da tal fatia
de choro e luz de fantasia
mas a batalha era que ardia
a sarça ardente na mente fria
meu ser uma linha já que seguia
seu próprio passo de travessia
e para longe do espaço ia
e até bastante cedo descobria
não era amor o que se amou um dia
era outra alegria que irônica ria
era o nome do bicho que verônica via
que me espantava mas não fugia
que me matava mas nãomorria
era outra alegria... e é triste toda alegria
lavei meus sonhos na velha pia
e tive medo de quem sorria
e do segredo de quem morria
mas era festa de só um dia
já não bastava tanta agonia?
eu precisava da tal fatia
de choro e luz de fantasia
mas a batalha era que ardia
a sarça ardente na mente fria
meu ser uma linha já que seguia
seu próprio passo de travessia
e para longe do espaço ia
e até bastante cedo descobria
não era amor o que se amou um dia
era outra alegria que irônica ria
era o nome do bicho que verônica via
que me espantava mas não fugia
que me matava mas nãomorria
era outra alegria... e é triste toda alegria
888
Mário Hélio
28-VIII-(O mágico)
o pássaro voou da cartola do mágico
mas não havia cartola nem truque
o pássaro-saíra da mão do mágico
mas não havia mão
o mágico num acidente mágico havia perdido
as duas mãos
e então de onde saíra o pássaro?
do chão, sim, do chão de onde saem
todos os pássaros
mas não havia chão
a multidão bem observou
não havia multidão nem mágico
mas o pássaro realmente voou.
mas não havia cartola nem truque
o pássaro-saíra da mão do mágico
mas não havia mão
o mágico num acidente mágico havia perdido
as duas mãos
e então de onde saíra o pássaro?
do chão, sim, do chão de onde saem
todos os pássaros
mas não havia chão
a multidão bem observou
não havia multidão nem mágico
mas o pássaro realmente voou.
968
Mário Hélio
8 - VIII (Révora)
eu pensei que não seria o único
a penetrar sorrateiro em tua alcova
e beber o lume e a lama de tantos corpos.
nós estávamos um pouco tristes,
e nus sabíamos os últimos puros.
o suor saía dos teus poros,
e eu já para ti algum escudo
quando a luz da escuridão nos envolvia.
e tu volvias, amiga.
eu não sabia que vias poesia em tudo.
teu lábio, contudo, emudecia, umedecia-se de orvalho,
e nós estávamos mudos.
foi quando o anjo singular da fantasia
despiu-se mostrando-se todo.
e então em um ato sublime
também te deitaste em mim
como um jardim em espinhos.
tu não sabes que este não é o caminho?
não atinavas, estavas sozinha, e eu, sozinho,
brincando com a tua agonia.
eu não sabia que vias poesia em tudo.
mas o que esse tudo abrangia?
a mim? a nós? ou ao que me iludo
adaptando-me moldando-me à alegria
que existia sempre? sempre até quando?
e ser preciso morrer de vez em quando
e ser preciso precisar-te que preciso
e aguardo-te, e guardo teu riso no meu viso
que sem ter mais o que espelhar
vai-se espelhando narciso.
eu vi um vulto sem saber que via,
sem saber que vias poesia em tudo.
veneno doce que bebido mata
mas que embebido só numa canastra
arde e maltrata só.
mas que importa toda parafasia
ou monomania de dois nomes
se é substantivo poesia
e tudo é indefinido pronome?
a penetrar sorrateiro em tua alcova
e beber o lume e a lama de tantos corpos.
nós estávamos um pouco tristes,
e nus sabíamos os últimos puros.
o suor saía dos teus poros,
e eu já para ti algum escudo
quando a luz da escuridão nos envolvia.
e tu volvias, amiga.
eu não sabia que vias poesia em tudo.
teu lábio, contudo, emudecia, umedecia-se de orvalho,
e nós estávamos mudos.
foi quando o anjo singular da fantasia
despiu-se mostrando-se todo.
e então em um ato sublime
também te deitaste em mim
como um jardim em espinhos.
tu não sabes que este não é o caminho?
não atinavas, estavas sozinha, e eu, sozinho,
brincando com a tua agonia.
eu não sabia que vias poesia em tudo.
mas o que esse tudo abrangia?
a mim? a nós? ou ao que me iludo
adaptando-me moldando-me à alegria
que existia sempre? sempre até quando?
e ser preciso morrer de vez em quando
e ser preciso precisar-te que preciso
e aguardo-te, e guardo teu riso no meu viso
que sem ter mais o que espelhar
vai-se espelhando narciso.
eu vi um vulto sem saber que via,
sem saber que vias poesia em tudo.
veneno doce que bebido mata
mas que embebido só numa canastra
arde e maltrata só.
mas que importa toda parafasia
ou monomania de dois nomes
se é substantivo poesia
e tudo é indefinido pronome?
658
Luis Manoel Paes Siqueira
Telegrama Urgente para Solange Siqueira
Um dia você recebeu
uma boneca suíça
e resolveu que com ela
jamais iria brincar.
(Ela era bonita demais
diante dos outros brinquedos)
O tempo passou e lhe fez
boneca mais que suíça
Aquela menina morena
que adorava cantar.
Mas Deus mudou seu caminho
brincando de marionete
(Que dados estranhos ele joga
no jogo que só ele ganha?)
Nublaram as suas idéias
do sonho de ser feliz
e os cães paramentados
fecharam as portas dos templos.
"Aqui não pode ficar
quem faz o livre-pensar
e pra poder frequentar
somente usando o crachá"
As suas mãos revidaram
criando flores de prata.
Agora o jogo termina
e como sempre acontece
o vencedor se recolhe
ao seu silêncio profundo.
Escuta um conselho do amigo:
não entre no céu loteado
do clero esclerosado.
Procure um planeta florido
e um anjo assim distraído
que saiba tocar violão
e espera por teu irmão:
- Eu levo a boneca comigo.
Notas Explicativas (Ao modo Soares Feitosa)
1. Numa viagem de meu pai àquele país, deu-lhe uma boneca belíssima.
2. Solange, assim como a boneca, também era.
3. Deus brinca de boneca com a gente e com "dados viciados".
4. A boneca e a dona se confundem. Só que uma canta e é moreninha.
5. Aos vinte e três anos, solange apresentou problemas psiquiátricos graves Esquizofrenia. Mesmo assim, terminou o curso de Arquitetura e noivou com um amigo de infância. Mas eu e ela, desde os 17, havíamos deixado de frequentar igrejas protestantes. Por pedido de meu pai, ela voltou a essas igrejas para casar lá, mas elas se recusaram pelo fato de termos nos afastados. (Meu avô era pastor presbiteriano e construiu várias igrejas no sertão — veja a ironia).
6. Solange por muitos anos desenhou jóias e ficou muito conhecida no Recife como designer.
7. Agora, a morte. E o vencedor se recolhe...
uma boneca suíça
e resolveu que com ela
jamais iria brincar.
(Ela era bonita demais
diante dos outros brinquedos)
O tempo passou e lhe fez
boneca mais que suíça
Aquela menina morena
que adorava cantar.
Mas Deus mudou seu caminho
brincando de marionete
(Que dados estranhos ele joga
no jogo que só ele ganha?)
Nublaram as suas idéias
do sonho de ser feliz
e os cães paramentados
fecharam as portas dos templos.
"Aqui não pode ficar
quem faz o livre-pensar
e pra poder frequentar
somente usando o crachá"
As suas mãos revidaram
criando flores de prata.
Agora o jogo termina
e como sempre acontece
o vencedor se recolhe
ao seu silêncio profundo.
Escuta um conselho do amigo:
não entre no céu loteado
do clero esclerosado.
Procure um planeta florido
e um anjo assim distraído
que saiba tocar violão
e espera por teu irmão:
- Eu levo a boneca comigo.
Notas Explicativas (Ao modo Soares Feitosa)
1. Numa viagem de meu pai àquele país, deu-lhe uma boneca belíssima.
2. Solange, assim como a boneca, também era.
3. Deus brinca de boneca com a gente e com "dados viciados".
4. A boneca e a dona se confundem. Só que uma canta e é moreninha.
5. Aos vinte e três anos, solange apresentou problemas psiquiátricos graves Esquizofrenia. Mesmo assim, terminou o curso de Arquitetura e noivou com um amigo de infância. Mas eu e ela, desde os 17, havíamos deixado de frequentar igrejas protestantes. Por pedido de meu pai, ela voltou a essas igrejas para casar lá, mas elas se recusaram pelo fato de termos nos afastados. (Meu avô era pastor presbiteriano e construiu várias igrejas no sertão — veja a ironia).
6. Solange por muitos anos desenhou jóias e ficou muito conhecida no Recife como designer.
7. Agora, a morte. E o vencedor se recolhe...
1 139
Lígia Diniz
Enquanto
Por me dares sempre teu riso
Por me dares sempre teus olhos
Por me dares sempre tua boca,
E tomares a minha, sempre.
Por me embebedares com palavras
E por deixar-me te dopar com as minhas
Por beberes minhas frases,
Minha falas, meus sons.
Por me sentir em teus braços
Por me sentires em teus braços
Por meus braços te sentirem
Por ser em ti sem mim
Por não seres meu, por não ser tua,
Quero sempre ser pois tenho medo.
Por me dares sempre teus olhos
Por me dares sempre tua boca,
E tomares a minha, sempre.
Por me embebedares com palavras
E por deixar-me te dopar com as minhas
Por beberes minhas frases,
Minha falas, meus sons.
Por me sentir em teus braços
Por me sentires em teus braços
Por meus braços te sentirem
Por ser em ti sem mim
Por não seres meu, por não ser tua,
Quero sempre ser pois tenho medo.
846
Jomard Muniz de Britto
Ó cidade faminta!
Ó cidade faminta!
Alimentando-se de letras de canções,
palavras no mel de boca em boca.
Não esquecer. Não relembrar.
Assumir a farsa. Enfiar a face
da lâmina carnavalesca.
Tristeza não tem fim /
felicidade sim...
Poeta-anti-herói de todos
os falsetes e falcatruas.
Face a fácil refazer a festa.
Festim angélico de vagabundos
pela estrada que vai dar no mar.
Amar em plano-sequência.
Beijar em montagem ideogrâmica.
Cidade Carlitos
sumindo na poeira da esperança.
Quarta-feira de cinzas no país...
Cidadela de todas as fomes.
Alimentando-se de letras de canções,
palavras no mel de boca em boca.
Não esquecer. Não relembrar.
Assumir a farsa. Enfiar a face
da lâmina carnavalesca.
Tristeza não tem fim /
felicidade sim...
Poeta-anti-herói de todos
os falsetes e falcatruas.
Face a fácil refazer a festa.
Festim angélico de vagabundos
pela estrada que vai dar no mar.
Amar em plano-sequência.
Beijar em montagem ideogrâmica.
Cidade Carlitos
sumindo na poeira da esperança.
Quarta-feira de cinzas no país...
Cidadela de todas as fomes.
1 014
José de Paula Ramos Jr.
A Machado de Assis
Menino, no caminho da escola primária,
teu nome eu soletrava na placa de rua,
sem saber mais que o som daquelas letras nuas
entre os ramos dourados de cachos de acácias.
Quem foste, velho bruxo? Ao desnudar falácias,
expor que a vida é um vício e um vaso de imposturas,
os livros, que escreveste na idade madura,
mostraram a alma humana, e como ela é precária.
Bentinho, Capitu, Cristiano, Sofia,
Quincas Borba, Brás Cubas, Simão Bacamarte,
Dona Carmo, Virgília, Paulo, Pedro, Flora,
e tantas personagens que não digo agora,
criaste, entre o riso irônico e a melancolia,
como acácias eternas no jardim das artes.
teu nome eu soletrava na placa de rua,
sem saber mais que o som daquelas letras nuas
entre os ramos dourados de cachos de acácias.
Quem foste, velho bruxo? Ao desnudar falácias,
expor que a vida é um vício e um vaso de imposturas,
os livros, que escreveste na idade madura,
mostraram a alma humana, e como ela é precária.
Bentinho, Capitu, Cristiano, Sofia,
Quincas Borba, Brás Cubas, Simão Bacamarte,
Dona Carmo, Virgília, Paulo, Pedro, Flora,
e tantas personagens que não digo agora,
criaste, entre o riso irônico e a melancolia,
como acácias eternas no jardim das artes.
1 029
João Marcio Furtado Costa
Poema em Linha Torta
Poema em Linha Torta
(05/93)
Que bom que é a vida,
Quando ela é servida,
Com catupiry.
Que bom que é a vida,
Mesmo sofrida,
Se você sabe rir.
E eu gosto de rir.
E eu sei fazer rir.
Serei eu um palhaço?
E o palhaço o que é?
É ladrão de mulher.
Ôba, então que bom
Que eu sou um palhaço!!!
Que bom que eu caço,
Que bom que eu laço,
Que bom que eu traço,
Meu destino e tentação.
E apesar de todo crivo,
Que bom que eu vivo,
Que bom que eu sirvo,
Que bom que eu sou João.
Que bom praticar esporte,
Me cansa, descansa,
Me torna criança,
E ajuda a adiar a morte.
Que bom que é ter sorte,
Ser jovem, ser forte,
E ter muito dinheiro.
Que bom que é ter fogo,
Que bom se tem jogo,
E se vence, o cruzeiro.
Que bom que é o Brasil,
Quando ele é servido,
Ao óleo e ao alho.
Que bom que é o Brasil,
Mesmo sendo sofrido,
Ele é nosso galho.
(05/93)
Que bom que é a vida,
Quando ela é servida,
Com catupiry.
Que bom que é a vida,
Mesmo sofrida,
Se você sabe rir.
E eu gosto de rir.
E eu sei fazer rir.
Serei eu um palhaço?
E o palhaço o que é?
É ladrão de mulher.
Ôba, então que bom
Que eu sou um palhaço!!!
Que bom que eu caço,
Que bom que eu laço,
Que bom que eu traço,
Meu destino e tentação.
E apesar de todo crivo,
Que bom que eu vivo,
Que bom que eu sirvo,
Que bom que eu sou João.
Que bom praticar esporte,
Me cansa, descansa,
Me torna criança,
E ajuda a adiar a morte.
Que bom que é ter sorte,
Ser jovem, ser forte,
E ter muito dinheiro.
Que bom que é ter fogo,
Que bom se tem jogo,
E se vence, o cruzeiro.
Que bom que é o Brasil,
Quando ele é servido,
Ao óleo e ao alho.
Que bom que é o Brasil,
Mesmo sendo sofrido,
Ele é nosso galho.
1 044
João Gulart de Souza Gomos
algaravia
o que se sabe de mim
é que roubo palavras ao vento
roubo horas ao tempo
e imagens à película:
sou um ladrão de cutículas
redentor de movimentos
coleciono momentos
em pequeninas partículas;
assalto estórias perdidas
e o que não sei, invento —
quixote e moinhos de vento
habitam-me alternados
caminheiro de atalhos
ignoro as desditas
e é o que basta dizer:
que componho versos sem métrica
e desconheço estilos
falo do que não entendo
e calo o que não consinto
aborreço o meu dia
e alimento a gaveta
de papéis escrevinhados
de outra tanta algaravia
que nos despe de encantos
e reclama melodia
noutro tempo, outro canto
e outro tanto se cria
ao falar velhas palavras
tédio... é meio-dia
quando os ponteiros se encontram
e príncipes desencantam
de coaxos já cansados
por beijos de lindas donzelas
... mas isto é já outro caso
(também de amor, mas sonhado)
que não nos compete falar.
tédio... é meia-noite
e lobisomens se encantam
de uivos agoniados
por pragas e maldições;
e a lua vai se deitar
em leitos de outros ladrões
Goulart Gomes, Salvador, BA
é que roubo palavras ao vento
roubo horas ao tempo
e imagens à película:
sou um ladrão de cutículas
redentor de movimentos
coleciono momentos
em pequeninas partículas;
assalto estórias perdidas
e o que não sei, invento —
quixote e moinhos de vento
habitam-me alternados
caminheiro de atalhos
ignoro as desditas
e é o que basta dizer:
que componho versos sem métrica
e desconheço estilos
falo do que não entendo
e calo o que não consinto
aborreço o meu dia
e alimento a gaveta
de papéis escrevinhados
de outra tanta algaravia
que nos despe de encantos
e reclama melodia
noutro tempo, outro canto
e outro tanto se cria
ao falar velhas palavras
tédio... é meio-dia
quando os ponteiros se encontram
e príncipes desencantam
de coaxos já cansados
por beijos de lindas donzelas
... mas isto é já outro caso
(também de amor, mas sonhado)
que não nos compete falar.
tédio... é meia-noite
e lobisomens se encantam
de uivos agoniados
por pragas e maldições;
e a lua vai se deitar
em leitos de outros ladrões
Goulart Gomes, Salvador, BA
871
J. B. Sayeg
Máquina de Fazer Gorjeio
Eu já te disse
ele é um passarinho lento
toda manhã em nossa janela,
não lhe preste qualquer atenção,
para não criar nenhuma dependência,
pois um dia ele se acabará
como tudo nesta cidade se consome,
sobretudo, quando se sabe,
não é um pássaro,
mas um brinquedo de corda,
proferindo-se a senha, um estranho gorjeio
sai do mecanismo
querendo comunicar-se,
toda a vez que se vira a manivela.
(do livro Pantomimas e Animação, 1989).
ele é um passarinho lento
toda manhã em nossa janela,
não lhe preste qualquer atenção,
para não criar nenhuma dependência,
pois um dia ele se acabará
como tudo nesta cidade se consome,
sobretudo, quando se sabe,
não é um pássaro,
mas um brinquedo de corda,
proferindo-se a senha, um estranho gorjeio
sai do mecanismo
querendo comunicar-se,
toda a vez que se vira a manivela.
(do livro Pantomimas e Animação, 1989).
962
Georges Emmanuel Clancier
Surrealismo: Revolta e Conquista
O surgimento dos poemas destrutivos e visionários de Rimbaud e Lautréamont coincide com guerra de 1870 e a insurreição da Comuna, do mesmo modo que o novo cataclisma guerreiro de 1914-1918 e a Revolução de Outubro de 1917 ensangüentam e iluminam o tempo que trará a revolta dos poetas adolescentes guiados pelos apelos, blasfêmias e cóleras, além dos entusiasmos bradados outrora no deserto, através das lluminations e dos Chants de Maldoror.
A sociedade da qual Ubu denunciou o absurdo, a hipocrisia, a ferocidade travestida nos ouropéis solenes e devoções carolas aos princípios e à Tradição, essa sociedade que se diz conduzida pela razão e pela Moral, julgando reconhecer-se numa "Arte" igualmente racional, realiza-se, em verdade, na loucura e no crime guerreiros - a bem dizer, dissimulados, também eles, pela máscara da civilização. Chegou para os jovens poetas que ouviram a lição dos grandes "malditos" o momento de desmascarar, dessa vez em definitivo, uma sociedade que sabe apenas arruinar-se materialmente e espiritualmente, e assassinar a humanidade. E como, antes de tudo, são postas a razão e a tradição, convém liquidá-las.
O Surrealismo se volta para o que até aqui continua irredutível aos imperativos sociais e ao empobrecimento da lógica. Planta armadilhas, sem rumor nem aviso.
Violência - Para isso, o melhor recurso não é ridicuralizá-las? À violência e absurdo do seu tempo os jovens poetas contrapõem uma violência e um absurdo deliberados e poéticos.
Amadurecidos por um sobressalto vital, eles escarram o seu desgosto na cara do mundo "que os fez"; apelam para tudo quanto esse mesmo mundo finge ignorar: o absurdo opõe-se à razão, a desordem à "ordem" que sequer consegue camuflar um caos ignóbil. Nos satisfeitos, nos pomposos, o humor aplica, então, frias e rudes bofetadas. Nessa revolta o humor se apresenta como elemento destruidor por excelência. Ela advém do espírito de escândalo de que Jarry já havia tirado partido, é uma concentração no escândalo, lança propostas capazes de arruinar de súbito a segurança do espírito.
Planta armadilhas, sem rumor nem aviso, puxa de sopetão as cadeiras, e os que estão "sentados" tombaram ruidosamente. "Humor negro", como bem disse Breton. Negro, certamente, pelo desespero profundo dos que promovem - tão profundo que não deixa à superfície nenhum dos seus traços habituais - e negro em razão da obscuridade em que tende a mergulhar bruscamente a razão das pessoas a quem costumam desafiar com um estranho sorriso. Um desespero, em suma, que se transforma em arma, aquela arma, aquela arma do isolado que opõe uma incoerência escolhida à coerência social opressora.
Um exemplo de semelhante humor é dado por alguns jovens dadaístas e surrealistas em sentido literal. Entre eles, o mais perfeito, sem dúvida, foi Jacques Vaché (1). André Breton, então mallarméano, o encontrou em Nantes, em 1916, e a entrevista provocou uma metamorfose que deveria marcar Breton para sempre e, por intermédio dele, o futuro surrealismo. Esta passagem de uma carta de Vaché exprime de maneira surpreendente o estado de espírito desses adolescentes lançados no contra-senso da guerra: "Eu me aborreço muito atrás do meu monóculo de vidro, me visto de cáqui e combato os alemães - A máquina de embrutecer... marcha com grande fragor e eu não estou longe, no curral de tanques - um animal bem ubíquo, mas sem alegria".
"Sem alegria" - eis aí a chave dessa revolta glacial. O mundo que matou a alegria não merece o desprezo, os sarcasmos desses poetas que poderiam subscrever, desesperados e desenvoltos, o que disse Jacques Vaché: "Me causaria o maior tédio morrer tão jovem. Ah puis Merdre"? A definição mais exata desse humor nós a devemos ainda a Jacques Vaché, quando escreve - e sua ortografia denuncia logo a filiação Ubuesca da letra inicial: "Umor, sentimento de inutilidade teatral e sem alegria de tudo, quando se adquire consciência".
Causaria espanto que Jacques Vaché, após o armistício, se tenha suicidado? Mas a alegria é difícil de matar para sempre no coração vivo da juventude, e a um Jacques Vaché, que se despede da sociedade monstruosamente grotesca e trágica, sucedem outros jovens que resolvem tornar comum a sua rebelião e não sair da cena sem antes atribuir à sua época a finalidade absoluta de não-aceitação. Tzara, fundador do dadaísmo, dirá a propósito deste movimento: "A guerra (1914-1918) não foi nossa; nós a sofremos através da falsidade dos sentimentos e da mediocridade das excusas.
Era dessa ordem, 30 anos atrás, o estado de espírito da juventude, no momento em que Dada nascia na Suíça. Dada brotou de uma exigência moral, de uma vontade implacável de chegar a uma moral absoluta...
Dada nasceu de um revolta comum a todos os adolescentes e que exigia adesão completa do indivíduo às necessidades profundas de sua natureza, sem considerações para com a história, a lógica ou a moral circundantes. (...)
A frase de Descartes - "Não me interessa saber que houve homens antes de mim" - nós a pusemos como epígrafe de uma das nossas publicações". Essa política de tábua rasa fez adeptos na Suíça, na Alemanha e na França, onde, ao redor de Tzara, se reuniram Arp, Aragon, Soupault, Eluard, Breton, Péret, Picabia, Duchamp. Com uma paixão tumultuosa e um cinismo estudado, privilégios de seus 20 anos, esses jovens poetas à força libertos do combate desabrocham em um tempo que acabava de aprender, segundo palavras de Valéry, que as civilizações são mortais, e retomam à sua maneira uma contraguerra, uma guerra santa à ordem estabelecida. Trata-se de provocar e desmoralizar.
O escândalo pelo amor do escândalo é a senha. Tzara, evocando a lembrança de uma manifestação dada na Salle Gaveau, descreve o público de pé, os braços para cima, vociferante - e acrescenta: "O espetáculo acontecia na sala, nós reunidos no palco olhávamos o público enfurecido". Belo efeito de humor, essa inversão de papéis. De Dada, é claro, nada podia sair, por definição,salvo o "ruído e a fúria", salvo também aquela "violência sacrílega". Conforme observa Tritan Tzara, "uma espécie de novo heroísmo intelectual, um tipo de civismo literário". Os jovens estavam muito impacientes para destruir tudo ao seu redor, apenas pelo pressentimento de uma vida verdadeira suscetível de brotar quando tivessem dispersado os entulhos daquela inaceitável existência proposta pelos poderes estabelecidos, os quais se empenhavam em denunciar a maldição intrínseca e, ao mesmo tempo, a próxima ruína.
Mas Dada, ou o escárnio absoluto, não podia ele mesmo escapar ao seu próprio ácido; sistema voltado para a condenação à morte de todos os sistemas, restava-lhe, por seu turno, destruir-se. Foi o que aconteceu. À destruição dadaísta sucedeu a conquista surrealista. Mais exatamente, a tentativa de desbaratar os valores pessoais ou sociais erigidos e mantidos pela hierarquia burguesa, secundava, doravante, a vontade de instituir, acima dessa desordem purificadora, a primazia de um homem enfim liberto de todas as servidões, seja de origem econômica, intelectual, moral ou religiosa. Evidentemente os limites de uma breve análise me levam a separar com nitidez o que de fato se opera na complexidade agitada da vida; no interior do próprio Dada, bem antes do fim oficial desse movimento, o Surrealismo já se buscava. Por exemplo, é na revista Dada intitulada por ironia Littérature que aparece em 1919 o primeiro texto especificamente "surrealista": Les Champs Magnétiques, escrito a quatro mãos por André Breton e Philippe Soupault.
Da mesma forma que o encontro de Jacques Vaché permitiu a Breton a descoberta do humor/ameaça de morte, o encontro do freudianismo e sua ênfase no psiquismo inconsciente incitaram o autor dos Vasos Comunicantes a buscar no domínio do irracional promessas de vida. Já que a vida ativa e dirigida da inteligência havia chegado a uma barbárie mecânica que se ornamenta hipocritamente com o nome de civilização, o único recurso
A sociedade da qual Ubu denunciou o absurdo, a hipocrisia, a ferocidade travestida nos ouropéis solenes e devoções carolas aos princípios e à Tradição, essa sociedade que se diz conduzida pela razão e pela Moral, julgando reconhecer-se numa "Arte" igualmente racional, realiza-se, em verdade, na loucura e no crime guerreiros - a bem dizer, dissimulados, também eles, pela máscara da civilização. Chegou para os jovens poetas que ouviram a lição dos grandes "malditos" o momento de desmascarar, dessa vez em definitivo, uma sociedade que sabe apenas arruinar-se materialmente e espiritualmente, e assassinar a humanidade. E como, antes de tudo, são postas a razão e a tradição, convém liquidá-las.
O Surrealismo se volta para o que até aqui continua irredutível aos imperativos sociais e ao empobrecimento da lógica. Planta armadilhas, sem rumor nem aviso.
Violência - Para isso, o melhor recurso não é ridicuralizá-las? À violência e absurdo do seu tempo os jovens poetas contrapõem uma violência e um absurdo deliberados e poéticos.
Amadurecidos por um sobressalto vital, eles escarram o seu desgosto na cara do mundo "que os fez"; apelam para tudo quanto esse mesmo mundo finge ignorar: o absurdo opõe-se à razão, a desordem à "ordem" que sequer consegue camuflar um caos ignóbil. Nos satisfeitos, nos pomposos, o humor aplica, então, frias e rudes bofetadas. Nessa revolta o humor se apresenta como elemento destruidor por excelência. Ela advém do espírito de escândalo de que Jarry já havia tirado partido, é uma concentração no escândalo, lança propostas capazes de arruinar de súbito a segurança do espírito.
Planta armadilhas, sem rumor nem aviso, puxa de sopetão as cadeiras, e os que estão "sentados" tombaram ruidosamente. "Humor negro", como bem disse Breton. Negro, certamente, pelo desespero profundo dos que promovem - tão profundo que não deixa à superfície nenhum dos seus traços habituais - e negro em razão da obscuridade em que tende a mergulhar bruscamente a razão das pessoas a quem costumam desafiar com um estranho sorriso. Um desespero, em suma, que se transforma em arma, aquela arma, aquela arma do isolado que opõe uma incoerência escolhida à coerência social opressora.
Um exemplo de semelhante humor é dado por alguns jovens dadaístas e surrealistas em sentido literal. Entre eles, o mais perfeito, sem dúvida, foi Jacques Vaché (1). André Breton, então mallarméano, o encontrou em Nantes, em 1916, e a entrevista provocou uma metamorfose que deveria marcar Breton para sempre e, por intermédio dele, o futuro surrealismo. Esta passagem de uma carta de Vaché exprime de maneira surpreendente o estado de espírito desses adolescentes lançados no contra-senso da guerra: "Eu me aborreço muito atrás do meu monóculo de vidro, me visto de cáqui e combato os alemães - A máquina de embrutecer... marcha com grande fragor e eu não estou longe, no curral de tanques - um animal bem ubíquo, mas sem alegria".
"Sem alegria" - eis aí a chave dessa revolta glacial. O mundo que matou a alegria não merece o desprezo, os sarcasmos desses poetas que poderiam subscrever, desesperados e desenvoltos, o que disse Jacques Vaché: "Me causaria o maior tédio morrer tão jovem. Ah puis Merdre"? A definição mais exata desse humor nós a devemos ainda a Jacques Vaché, quando escreve - e sua ortografia denuncia logo a filiação Ubuesca da letra inicial: "Umor, sentimento de inutilidade teatral e sem alegria de tudo, quando se adquire consciência".
Causaria espanto que Jacques Vaché, após o armistício, se tenha suicidado? Mas a alegria é difícil de matar para sempre no coração vivo da juventude, e a um Jacques Vaché, que se despede da sociedade monstruosamente grotesca e trágica, sucedem outros jovens que resolvem tornar comum a sua rebelião e não sair da cena sem antes atribuir à sua época a finalidade absoluta de não-aceitação. Tzara, fundador do dadaísmo, dirá a propósito deste movimento: "A guerra (1914-1918) não foi nossa; nós a sofremos através da falsidade dos sentimentos e da mediocridade das excusas.
Era dessa ordem, 30 anos atrás, o estado de espírito da juventude, no momento em que Dada nascia na Suíça. Dada brotou de uma exigência moral, de uma vontade implacável de chegar a uma moral absoluta...
Dada nasceu de um revolta comum a todos os adolescentes e que exigia adesão completa do indivíduo às necessidades profundas de sua natureza, sem considerações para com a história, a lógica ou a moral circundantes. (...)
A frase de Descartes - "Não me interessa saber que houve homens antes de mim" - nós a pusemos como epígrafe de uma das nossas publicações". Essa política de tábua rasa fez adeptos na Suíça, na Alemanha e na França, onde, ao redor de Tzara, se reuniram Arp, Aragon, Soupault, Eluard, Breton, Péret, Picabia, Duchamp. Com uma paixão tumultuosa e um cinismo estudado, privilégios de seus 20 anos, esses jovens poetas à força libertos do combate desabrocham em um tempo que acabava de aprender, segundo palavras de Valéry, que as civilizações são mortais, e retomam à sua maneira uma contraguerra, uma guerra santa à ordem estabelecida. Trata-se de provocar e desmoralizar.
O escândalo pelo amor do escândalo é a senha. Tzara, evocando a lembrança de uma manifestação dada na Salle Gaveau, descreve o público de pé, os braços para cima, vociferante - e acrescenta: "O espetáculo acontecia na sala, nós reunidos no palco olhávamos o público enfurecido". Belo efeito de humor, essa inversão de papéis. De Dada, é claro, nada podia sair, por definição,salvo o "ruído e a fúria", salvo também aquela "violência sacrílega". Conforme observa Tritan Tzara, "uma espécie de novo heroísmo intelectual, um tipo de civismo literário". Os jovens estavam muito impacientes para destruir tudo ao seu redor, apenas pelo pressentimento de uma vida verdadeira suscetível de brotar quando tivessem dispersado os entulhos daquela inaceitável existência proposta pelos poderes estabelecidos, os quais se empenhavam em denunciar a maldição intrínseca e, ao mesmo tempo, a próxima ruína.
Mas Dada, ou o escárnio absoluto, não podia ele mesmo escapar ao seu próprio ácido; sistema voltado para a condenação à morte de todos os sistemas, restava-lhe, por seu turno, destruir-se. Foi o que aconteceu. À destruição dadaísta sucedeu a conquista surrealista. Mais exatamente, a tentativa de desbaratar os valores pessoais ou sociais erigidos e mantidos pela hierarquia burguesa, secundava, doravante, a vontade de instituir, acima dessa desordem purificadora, a primazia de um homem enfim liberto de todas as servidões, seja de origem econômica, intelectual, moral ou religiosa. Evidentemente os limites de uma breve análise me levam a separar com nitidez o que de fato se opera na complexidade agitada da vida; no interior do próprio Dada, bem antes do fim oficial desse movimento, o Surrealismo já se buscava. Por exemplo, é na revista Dada intitulada por ironia Littérature que aparece em 1919 o primeiro texto especificamente "surrealista": Les Champs Magnétiques, escrito a quatro mãos por André Breton e Philippe Soupault.
Da mesma forma que o encontro de Jacques Vaché permitiu a Breton a descoberta do humor/ameaça de morte, o encontro do freudianismo e sua ênfase no psiquismo inconsciente incitaram o autor dos Vasos Comunicantes a buscar no domínio do irracional promessas de vida. Já que a vida ativa e dirigida da inteligência havia chegado a uma barbárie mecânica que se ornamenta hipocritamente com o nome de civilização, o único recurso
902
António Ferreira
Carta
Fez força ao meu intento a doce e branda
Musa tua, Bernardes, que a meu peito
Dá novo espírito, novo fogo manda.
Como um juízo queres que sujeito
Viva a tantos juízos, se não guarda
De tanto riso o rosto contrafeito?
Quanto em mi mais das musas o fogo arde,
Tanto trabalho mais para apagá-lo:
Quanto o silêncio val sabe-se tarde.
A medo vivo, a medo escrevo e falo;
Hei medo do que falo só comigo;
Mais inda a medo cuido, a medo calo.
Encontro a cada passo com um inimigo
De todo bom espírito: este me faz
Temer-me de mi mesmo, e do amigo.
Tais novidades este tempo traz,
Que é necessário fingir pouco siso,
Se queres vida ter, se queres paz.
Vida em tanta cautela, tanto aviso,
Quando me deixarás? quando verei
Um verdadeiro rosto, um simples riso?
Quando a mi me creram, todos crerei
Sem dúvida, sem cores, sem enganos,
E eu, que de mi mesmo seja reis
Ali tantos dias tristes, tantos anos
Levados pelos ares em desejos
De falsos bens, e nossos tristes danos!
A quem os deixa e foge, quão sobejos
Lhe parecem mais bens que os que só bastam,
Desviar da virtude os cegos pejos.
Quantos as vidas, quantos almas gastam
Em buscar seu perigo, e sua morte,
E trás ela seus jugos cruéis arrastam
Aqueles vivem só, a que coube em sorte
Ao som da flauta, que dos ombros pende,
O mundo desprezar com espírito forte.
Toda minhalma em desejar se estende
A doce vida, que tão doce cantas,
Que quase a força quebra, que me prende.
Mas ajunta a estas forças outras tantas,
Todas quebraria eu, se asas tivesse
Com que chegasse onde me tu levantas.
Se eu pudesse, Bernardes, se eu pudesse
Ser senhor só de mi, eu voaria
Onde do vulgo mais longe estivesse.
Ali quão livremente me riria
De quanto agora choro! ali meu canto
Livre por ares livres soltaria.
Enquanto me vês preso, amigo, enquanto
Sem espírito, sem forças, não me chames
Com teus versos, que a ti só honram tanto.
Por mais que me desejes, mais que me ames,
Não empregues em mi tão cegamente
Teu canto com que é bem que heróis afames.
Mas tratarei contigo amigamente
Do conselho que pedes, juízo e lima
Tem em si todo humilde e diligente.
Quem tanto a si mesmo ama, tanto amima,
Que a si se favorece, e se perdoa,
Que espírito mostrará em prosa ou rima?
Tais são alguns a que triste a hera coroa
Roubada do vão povo ao claro espírito
Que esconder-se trabalha, e então mais soa.
Aquele dá de si público grito:
Este cala e se esconde: o tempo enfim
Uma apaga; imortal faz doutro o escrito.
A primeira lei minha é, que de mim
Primeiro me guarde eu, e a mim não creia,
Nem os que levemente se me rim.
Conheça-me a mi mesmo: siga a veia
Natural, não forçada: o juízo quero
De quem com juízo, e sem paixão me leia.
Na boa imitação e uso, que o fero
Engenho abranda, ao inculto dá arte,
No conselho do amigo douto espero.
Muito, ó poeta! o engenho pode dar-te;
Mas muito mais que o engenho, o tempo e o estudo;
Não queiras de ti logo contentar-te.
É necessário ser um tempo mudo:
Ouvir e ler somente: que aproveita
Sem armas, com fervor, cometer tudo?
Caminha por aqui. Esta é a direita
Estrada dos que sobem ó alto monte
Ao brando Apolo, às nove irmãs aceita.
Do bom escrever, saber primeiro é fonte:
Enriquece a memória de doutrina
De que um cante, outro ensine, outro se conte.
Isto me disse sempre uma divina
Voz à orelha; isto entendo e creio;
Isto ora me castiga, ora me ensina.
Cada um para seu fim, busca um meio:
Quem não sabe do ofício, não o trata;
Dos que sem saber escrevem o mundo é cheio.
Se ornares de fino ouro e branca prata
Quanto mais e melhor já resplandece,
Tanto mais val o engenho, sua arte se ata.
Não prende logo a planta, não florece
Sem ser da destra mão limpa e regada,
Co tempo e arte flor fruto parece.
Questão já foi de muitos disputada
Se obra em verso arte mais, se a natureza?
Uma sem outra val ou pouco ou nada.
Mas eu tomaria antes a dureza
Daquele que o trabalho e arte abrandou,
Que destoutro a corrente e vã presteza.
Vence o trabalho tudo; o que cansou
Seu espírito e seus olhos, alguma hora
Mostrará parte alguma do que achou.
A palavra que sai uma vez fora,
Mal se sabe tornar: é mais seguro
Não tê-la, que escusar a culpa agora.
Vejo teu verso brando, estilo puro,
Engenho, arte, doutrina: só queria
Tempo e lima de inveja forte muro.
Ensina muito, e muda um ano e um dia:
Como em pintura os erros vai mostrando
Depois o tempo, que o olho antes não via.
Corta o sobejo, vai acrescentando
O que falta, o baixo ergue, o alto modera,
Tudo a uma igual regra conformando.
Sirva própria palavra ao bom intento;
Haja juízo e regra e diferença
Da prática comum ó pensamento.
Dana ó estilo às vezes a sentença;
Tão igual venha tudo, e tão conforme,
Que em dúvida este ver qual deles vença.
Mas deligente assim a lima reforme
Teu verso, que não entre pelo são,
Tornando-o, em vez de orná-lo, então disforme.
O vício que se dá ó pintor, que a mão
Não sabe erguer da tábua, fuge: a graça
Tiram, quando alguns cuidam que a mais dão.
Roendo o triste verso, como traça
Sem sangue o deixam, sem espírito e vida:
Outro o parto sem forma traz à praça.
Há nas coisas um fim, há tal medida,
Que quanto passa, ou falta dela, é vício:
É necessária a emenda bem regida.
Necessário é, confesso, o artifício,
Não afeitado: empece a tenra planta
O muito mimo, o muito benefício.
Às vezes o que vem primeiro, tanta
Natural graça traz, que uma das nove
Deusas parece que o inspira e canta.
Qual é a língua cruel, que inda ouse e prove
Em vão ali seus fios? deixe inteiro
O bem-nascido verso, o mau renove?
Não mude, ou tire, ou ponha, sem primeiro
Vir os ouvidos do prudente esperto
Amigo, não invejoso ou lisonjeiro.
Engana-se o amor-próprio, falso e incerto
Também se engana o medo de aprazer-se;
Em ambos erro há quase igual e certo.
Para isto é bom remédio às vezes ler-se
A dois ou três amigos; o bom pejo
Honesto ajuda então melhor a ver-se.
Ali como juiz então me vejo:
Sinto quando igual vou, quando descaio,
Quando doutra maneira me desejo.
Quando eu meus versos lia ao meu Sampaio,
"Muda (dizia) e tira". Ia, e tornava:
"Inda (diz) na sentença bem não caio".
O que mais suavemente me soava,
O que me enchia o espírito, por mau tinha;
O que me desprazia me louvava.
Então conheci eu a dita minha
Em tal amigo, tão desenganado
juízo e certo, em que eu confiado vinha.
Quem dos olhos tantos lido, quem julgado
De tanto inimigo às vezes há de ser,
Convém tempo esperar, e ir bem armado.
Isto me faz, Bernardes meu, temer
No teu, como no meu: não val escusa;
Dói muito ver meu erro, e arrepender.
Quem louva o bom? quem bom e mau não escusa?
Mas tu não tens razão de temer muito,
Musa tua, Bernardes, que a meu peito
Dá novo espírito, novo fogo manda.
Como um juízo queres que sujeito
Viva a tantos juízos, se não guarda
De tanto riso o rosto contrafeito?
Quanto em mi mais das musas o fogo arde,
Tanto trabalho mais para apagá-lo:
Quanto o silêncio val sabe-se tarde.
A medo vivo, a medo escrevo e falo;
Hei medo do que falo só comigo;
Mais inda a medo cuido, a medo calo.
Encontro a cada passo com um inimigo
De todo bom espírito: este me faz
Temer-me de mi mesmo, e do amigo.
Tais novidades este tempo traz,
Que é necessário fingir pouco siso,
Se queres vida ter, se queres paz.
Vida em tanta cautela, tanto aviso,
Quando me deixarás? quando verei
Um verdadeiro rosto, um simples riso?
Quando a mi me creram, todos crerei
Sem dúvida, sem cores, sem enganos,
E eu, que de mi mesmo seja reis
Ali tantos dias tristes, tantos anos
Levados pelos ares em desejos
De falsos bens, e nossos tristes danos!
A quem os deixa e foge, quão sobejos
Lhe parecem mais bens que os que só bastam,
Desviar da virtude os cegos pejos.
Quantos as vidas, quantos almas gastam
Em buscar seu perigo, e sua morte,
E trás ela seus jugos cruéis arrastam
Aqueles vivem só, a que coube em sorte
Ao som da flauta, que dos ombros pende,
O mundo desprezar com espírito forte.
Toda minhalma em desejar se estende
A doce vida, que tão doce cantas,
Que quase a força quebra, que me prende.
Mas ajunta a estas forças outras tantas,
Todas quebraria eu, se asas tivesse
Com que chegasse onde me tu levantas.
Se eu pudesse, Bernardes, se eu pudesse
Ser senhor só de mi, eu voaria
Onde do vulgo mais longe estivesse.
Ali quão livremente me riria
De quanto agora choro! ali meu canto
Livre por ares livres soltaria.
Enquanto me vês preso, amigo, enquanto
Sem espírito, sem forças, não me chames
Com teus versos, que a ti só honram tanto.
Por mais que me desejes, mais que me ames,
Não empregues em mi tão cegamente
Teu canto com que é bem que heróis afames.
Mas tratarei contigo amigamente
Do conselho que pedes, juízo e lima
Tem em si todo humilde e diligente.
Quem tanto a si mesmo ama, tanto amima,
Que a si se favorece, e se perdoa,
Que espírito mostrará em prosa ou rima?
Tais são alguns a que triste a hera coroa
Roubada do vão povo ao claro espírito
Que esconder-se trabalha, e então mais soa.
Aquele dá de si público grito:
Este cala e se esconde: o tempo enfim
Uma apaga; imortal faz doutro o escrito.
A primeira lei minha é, que de mim
Primeiro me guarde eu, e a mim não creia,
Nem os que levemente se me rim.
Conheça-me a mi mesmo: siga a veia
Natural, não forçada: o juízo quero
De quem com juízo, e sem paixão me leia.
Na boa imitação e uso, que o fero
Engenho abranda, ao inculto dá arte,
No conselho do amigo douto espero.
Muito, ó poeta! o engenho pode dar-te;
Mas muito mais que o engenho, o tempo e o estudo;
Não queiras de ti logo contentar-te.
É necessário ser um tempo mudo:
Ouvir e ler somente: que aproveita
Sem armas, com fervor, cometer tudo?
Caminha por aqui. Esta é a direita
Estrada dos que sobem ó alto monte
Ao brando Apolo, às nove irmãs aceita.
Do bom escrever, saber primeiro é fonte:
Enriquece a memória de doutrina
De que um cante, outro ensine, outro se conte.
Isto me disse sempre uma divina
Voz à orelha; isto entendo e creio;
Isto ora me castiga, ora me ensina.
Cada um para seu fim, busca um meio:
Quem não sabe do ofício, não o trata;
Dos que sem saber escrevem o mundo é cheio.
Se ornares de fino ouro e branca prata
Quanto mais e melhor já resplandece,
Tanto mais val o engenho, sua arte se ata.
Não prende logo a planta, não florece
Sem ser da destra mão limpa e regada,
Co tempo e arte flor fruto parece.
Questão já foi de muitos disputada
Se obra em verso arte mais, se a natureza?
Uma sem outra val ou pouco ou nada.
Mas eu tomaria antes a dureza
Daquele que o trabalho e arte abrandou,
Que destoutro a corrente e vã presteza.
Vence o trabalho tudo; o que cansou
Seu espírito e seus olhos, alguma hora
Mostrará parte alguma do que achou.
A palavra que sai uma vez fora,
Mal se sabe tornar: é mais seguro
Não tê-la, que escusar a culpa agora.
Vejo teu verso brando, estilo puro,
Engenho, arte, doutrina: só queria
Tempo e lima de inveja forte muro.
Ensina muito, e muda um ano e um dia:
Como em pintura os erros vai mostrando
Depois o tempo, que o olho antes não via.
Corta o sobejo, vai acrescentando
O que falta, o baixo ergue, o alto modera,
Tudo a uma igual regra conformando.
Sirva própria palavra ao bom intento;
Haja juízo e regra e diferença
Da prática comum ó pensamento.
Dana ó estilo às vezes a sentença;
Tão igual venha tudo, e tão conforme,
Que em dúvida este ver qual deles vença.
Mas deligente assim a lima reforme
Teu verso, que não entre pelo são,
Tornando-o, em vez de orná-lo, então disforme.
O vício que se dá ó pintor, que a mão
Não sabe erguer da tábua, fuge: a graça
Tiram, quando alguns cuidam que a mais dão.
Roendo o triste verso, como traça
Sem sangue o deixam, sem espírito e vida:
Outro o parto sem forma traz à praça.
Há nas coisas um fim, há tal medida,
Que quanto passa, ou falta dela, é vício:
É necessária a emenda bem regida.
Necessário é, confesso, o artifício,
Não afeitado: empece a tenra planta
O muito mimo, o muito benefício.
Às vezes o que vem primeiro, tanta
Natural graça traz, que uma das nove
Deusas parece que o inspira e canta.
Qual é a língua cruel, que inda ouse e prove
Em vão ali seus fios? deixe inteiro
O bem-nascido verso, o mau renove?
Não mude, ou tire, ou ponha, sem primeiro
Vir os ouvidos do prudente esperto
Amigo, não invejoso ou lisonjeiro.
Engana-se o amor-próprio, falso e incerto
Também se engana o medo de aprazer-se;
Em ambos erro há quase igual e certo.
Para isto é bom remédio às vezes ler-se
A dois ou três amigos; o bom pejo
Honesto ajuda então melhor a ver-se.
Ali como juiz então me vejo:
Sinto quando igual vou, quando descaio,
Quando doutra maneira me desejo.
Quando eu meus versos lia ao meu Sampaio,
"Muda (dizia) e tira". Ia, e tornava:
"Inda (diz) na sentença bem não caio".
O que mais suavemente me soava,
O que me enchia o espírito, por mau tinha;
O que me desprazia me louvava.
Então conheci eu a dita minha
Em tal amigo, tão desenganado
juízo e certo, em que eu confiado vinha.
Quem dos olhos tantos lido, quem julgado
De tanto inimigo às vezes há de ser,
Convém tempo esperar, e ir bem armado.
Isto me faz, Bernardes meu, temer
No teu, como no meu: não val escusa;
Dói muito ver meu erro, e arrepender.
Quem louva o bom? quem bom e mau não escusa?
Mas tu não tens razão de temer muito,
1 905
Fábio Afonso de Almeida
Édrio
Uma sombra entra no bar
Cabelos escorridos, terno barato
Olhos empapuçados e perdidos
Måos que escondem vil tremor
Dentes trincados de medo
E o gesto disfarçado, casual.
O gole. E o corpo arrepia-se numa gastura
Treme da cabeça aos pés. Os olhos inchados voltam para fora
Os olhos piscam ante o sol forte da rua
Em frente ås torres brancas
Da catedral...
Cidade maldita!
Duas torres e um rosto macilento, eu vejo
O jardim sujo em frente, os ônibus, a multidåo
Ah! A química branca e frenética!
Maldita! Maldita!
Escadas de mármore dançando ao sol
Tempo bêbado, ângulos estranhos
Cadedrais tortas da vida.
O solítário sorri dois dentes apenas
Monumental ironia. Escarnece do mundo
E a escadaria se contorce, subindo...
Alguém entende? A catedral tonta
Da cidade maldita. Os insetos da rua
Correm em fuga incerta.
A dor de Deus bebe o mundo.
Cabelos escorridos, terno barato
Olhos empapuçados e perdidos
Måos que escondem vil tremor
Dentes trincados de medo
E o gesto disfarçado, casual.
O gole. E o corpo arrepia-se numa gastura
Treme da cabeça aos pés. Os olhos inchados voltam para fora
Os olhos piscam ante o sol forte da rua
Em frente ås torres brancas
Da catedral...
Cidade maldita!
Duas torres e um rosto macilento, eu vejo
O jardim sujo em frente, os ônibus, a multidåo
Ah! A química branca e frenética!
Maldita! Maldita!
Escadas de mármore dançando ao sol
Tempo bêbado, ângulos estranhos
Cadedrais tortas da vida.
O solítário sorri dois dentes apenas
Monumental ironia. Escarnece do mundo
E a escadaria se contorce, subindo...
Alguém entende? A catedral tonta
Da cidade maldita. Os insetos da rua
Correm em fuga incerta.
A dor de Deus bebe o mundo.
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