Poemas neste tema
Arte
Antonio Risério
Um Poema é um poema é um poema?
Saudades de Mario Faustino. Não temos hoje uma crítica textual
que se disponha a examinar culturalmente questões culturais. Em
vez da densidade histórica, da abrangência contextual ou da
espessura ensaística, o que nos servem, na bandeja da imprensa,
são flores falsas, brotos de safadeza sibilina, trazidas das coxias
em que se disputa o "poder literário" e em que personagens pouco
ou nada interessantes se esforçam para exercer minimandarinatos
culturalmente irrelevantes.
Vejam o que se fala hoje da criação poética no Brasil.
É um quadro curioso. Os poetas tipográficos resolveram defender
com unhas e dentes a sua baia escritural. Por quê? Porque estão
se sentindo ameaçados. E assim desferem pontapés capengas
em duas direções. De uma parte, afirmam que letra de música
não é poesia —logo, à lata de lixo com Assis Valente,
Dorival Caymmi, Humberto Teixeira, Noel Rosa, Caetano Veloso e Chico Buarque,
entre muitos outros.
De outra parte, declaram que a visualidade da escrita, no horizonte da
poesia, é algo que só pode ser cultivado e praticado por
Augusto de Campos —e que o melhor que eu e Arnaldo Antunes (entre outros
mais) temos a fazer é enfiar o computador no saco. O que sobra,
então? A poesia tipográfica, é claro.
Os argumentos são tolos —e seus representantes, também. De
um modo geral, ficamos à mercê de baboseiras que se estendem
de achismos quase cândidos a ascherismos sub-haroldianos. É
aí que se ouriçam e enristam armas os tolentinos e bonvicinos
em promoção.
Atacando a lírica da música popular brasileira e decretando
a impossibilidade da existência de uma "poesia visual" (monopólio
de Augusto de Campos), eles limpara o terreno apenas para, claro, eles
mesmos. É compreensível. Durante muito tempo, e apesar das
profecias de Walter Benjamin e Viclímir Khlébnikov, o reino
da poesia tipográfica, carta marcada da modernidade ocidental, se
pensou como único e eterno.
Mas vamos por partes. O problema com a poesia da música popular,
que parecia superado a partir da década de 70, não merece
maiores comentários. Se vamos excluir as "lyrics" do tabuleiro,
atiremos fora gregos, provençais e elizabetanos. E qual o problema
com a música popular? Como já dizia o supracitado Faustino,
a poesia é um pássaro versátil e bem pouco esnobe,
capaz de fazer o seu ninho em qualquer canto. E a relação
poesia-canto é sublinhada sem exclusivismos, nos mais diversos sistemas
culturais. A estética verbal dos índios kuikuro, por exemplo,
distingue entre poesia da fala, da fala cantada e do canto. É a
música que transfigura o que há de bom e belo na fala comum.
Se foi para emitir tolices que Tolentino se educou com governantas e preceptores
europeus, teria sido melhor ir ao Xingu.
Bobagem, também, pensar que uma determinada forma poética
se cristalizou, no interior da "Galáxia de Gutenberg", para durar
por todos os tempos. Esse tipo de fantasia canônica não resiste
ao mais breve exame histórico. O padrão da poesia "vers libre"
impressa (alinhamento pela esquerda, margem direita irregular, letras dispostas
linearmente da esquerda para a direita e passagem de uma linha a outra
no sentido alto-baixo, o conjunto aparecendo como um bloco tipográfico
colado no branco da página) pode ser várias coisas, menos
eterno.
Deixando de parte padrões extra-europeus, para nos limitar à
cultura poética do Ocidente, devemos dizer que, mesmo nesse âmbito,
o cânone é obviamente histórico. Não existia
em tempos medievais, já não era cultivado por Blake e está
longe de reinar sozinho, na esquina entressecular em que nos encontramos.
Na verdade, os discursos que querem reduzir a poesia a um dos formatos
que ela assumiu, ao longo de sua trajetória histórica, indicam
nada mais que a crescente ansiedade de literatos conservadores (sejam tolentinos
ou bonvicinos) diante das transmutações formais que atualmente
presenciamos. E, em consequência, diante da impossibilidade de sustentar
o caráter único ou mesmo a hegemonia do modelo gráfico
que esses mesmos literatos elegeram para o fazer poético.
Mas o fato é que a arte da palavra é anterior ao espaço
gráfico gutemberguiano —e sobreviverá a este. Se a invenção
da máquina de escrever marcou a escrita poética a partir
das últimas décadas do século 19, como evitar que
o computador e seus programas gráfico-visuais não a marquem
igualmente, e ainda com mais intensidade, na virada do século 20
para o 21?
Só alguém enceguecido pelo afã irracional de defender
a sua baia escritural, frente à proliferação de signos
e formas de nossa circunstância histórico-cultural, pode pretender
que a materialização do poético somente seja viável
por meio do "medium" gutemberguiano. O computador, a holografia e o vídeo
estão aí, ao nosso dispor. Para quem quiser (e souber) usá-los.
É apenas tolo tentar bloquear o acesso de "designers" da linguagem
às novas tecnologias de inscrição sígnica.
E mais: não só a poesia concreta, quando nasceu, foi acusada
de "repetição" (o "caligrama"!), como Augusto de Campos,
antes que ser único e inimitável, pertence, como ele mesmo
é o primeiro a saber, a uma longa e rica tradição
planetária.
E, aliás, o que é mesmo que essas pessoas nos apresentam?
Nada digno de nota. Bruno Tolentino é um
empulhador, aproveitando-se da falta de organicidade da vida
cultural brasileira para enfiar azeitonas marketeiras nas empadas que passam
à sua frente. Nelson Ascher é um
crítico mediano (sub-candido, sub-haroldo) e um versejador de oitava
categoria. Os desinformados de sempre comem gato por lebre,
claro. Mas há quem saiba distinguir as coisas.
Na verdade, Tolentino é um subfilhote do
eruditismo alienado, ansioso por se travestir em porta-voz da alta cultura.
Com sucesso, já que estamos onde estamos. Mas, no caso, talvez eu
esteja alvejando pacas fáceis, já que Bonvicino
é um oportunista patológico, e Tolentino traz
a mente e o coração infectados. Seja como for, se a dieta
vai de Bonvicino a Tolentino, estamos, no mínimo, pessimamente servidos.
Ora, que Tolentino e Bonvicino (com seu escudeiro Nelson Ascher) explorem
a escrita tradicional.
E o façam da melhor maneira possível. Mas não queiram
nos proibir de cantar, ou de navegar nas águas luminosas da escrita
multimídia. A quirografia, a tipografia e a infografia são
tecnologias ou tecnologizações da palavra. E, assim como
o canto não cessou diante da barra do tipógrafo, também
não vai se furtar a introduzir perturbações nas redes
hipertextuais que agora se desenham e se ramificam por todo o planeta.
A poesia não nasceu em função do suporte de celulose,
mas como palavra-evento —ou, Homero na ponta da língua, palavra
alada.
Antonio Risério é poeta e antropólogo, autor de,
entre outros, "Textos e Tribos" (Imago, 1993), "Avant-Garde na Bahia" (Instituto
Lina Bo e P.M. Bardi, 1995) e "Fetiche" (Fundação Casa de
Jorge Amado, 1996).
(in Caderno Mais, Folha de São Paulo, 28.04.96)
Fantástico, Ascher fala de bem de Risério!
Voltar para o Disseram
Mais Bovincino
que se disponha a examinar culturalmente questões culturais. Em
vez da densidade histórica, da abrangência contextual ou da
espessura ensaística, o que nos servem, na bandeja da imprensa,
são flores falsas, brotos de safadeza sibilina, trazidas das coxias
em que se disputa o "poder literário" e em que personagens pouco
ou nada interessantes se esforçam para exercer minimandarinatos
culturalmente irrelevantes.
Vejam o que se fala hoje da criação poética no Brasil.
É um quadro curioso. Os poetas tipográficos resolveram defender
com unhas e dentes a sua baia escritural. Por quê? Porque estão
se sentindo ameaçados. E assim desferem pontapés capengas
em duas direções. De uma parte, afirmam que letra de música
não é poesia —logo, à lata de lixo com Assis Valente,
Dorival Caymmi, Humberto Teixeira, Noel Rosa, Caetano Veloso e Chico Buarque,
entre muitos outros.
De outra parte, declaram que a visualidade da escrita, no horizonte da
poesia, é algo que só pode ser cultivado e praticado por
Augusto de Campos —e que o melhor que eu e Arnaldo Antunes (entre outros
mais) temos a fazer é enfiar o computador no saco. O que sobra,
então? A poesia tipográfica, é claro.
Os argumentos são tolos —e seus representantes, também. De
um modo geral, ficamos à mercê de baboseiras que se estendem
de achismos quase cândidos a ascherismos sub-haroldianos. É
aí que se ouriçam e enristam armas os tolentinos e bonvicinos
em promoção.
Atacando a lírica da música popular brasileira e decretando
a impossibilidade da existência de uma "poesia visual" (monopólio
de Augusto de Campos), eles limpara o terreno apenas para, claro, eles
mesmos. É compreensível. Durante muito tempo, e apesar das
profecias de Walter Benjamin e Viclímir Khlébnikov, o reino
da poesia tipográfica, carta marcada da modernidade ocidental, se
pensou como único e eterno.
Mas vamos por partes. O problema com a poesia da música popular,
que parecia superado a partir da década de 70, não merece
maiores comentários. Se vamos excluir as "lyrics" do tabuleiro,
atiremos fora gregos, provençais e elizabetanos. E qual o problema
com a música popular? Como já dizia o supracitado Faustino,
a poesia é um pássaro versátil e bem pouco esnobe,
capaz de fazer o seu ninho em qualquer canto. E a relação
poesia-canto é sublinhada sem exclusivismos, nos mais diversos sistemas
culturais. A estética verbal dos índios kuikuro, por exemplo,
distingue entre poesia da fala, da fala cantada e do canto. É a
música que transfigura o que há de bom e belo na fala comum.
Se foi para emitir tolices que Tolentino se educou com governantas e preceptores
europeus, teria sido melhor ir ao Xingu.
Bobagem, também, pensar que uma determinada forma poética
se cristalizou, no interior da "Galáxia de Gutenberg", para durar
por todos os tempos. Esse tipo de fantasia canônica não resiste
ao mais breve exame histórico. O padrão da poesia "vers libre"
impressa (alinhamento pela esquerda, margem direita irregular, letras dispostas
linearmente da esquerda para a direita e passagem de uma linha a outra
no sentido alto-baixo, o conjunto aparecendo como um bloco tipográfico
colado no branco da página) pode ser várias coisas, menos
eterno.
Deixando de parte padrões extra-europeus, para nos limitar à
cultura poética do Ocidente, devemos dizer que, mesmo nesse âmbito,
o cânone é obviamente histórico. Não existia
em tempos medievais, já não era cultivado por Blake e está
longe de reinar sozinho, na esquina entressecular em que nos encontramos.
Na verdade, os discursos que querem reduzir a poesia a um dos formatos
que ela assumiu, ao longo de sua trajetória histórica, indicam
nada mais que a crescente ansiedade de literatos conservadores (sejam tolentinos
ou bonvicinos) diante das transmutações formais que atualmente
presenciamos. E, em consequência, diante da impossibilidade de sustentar
o caráter único ou mesmo a hegemonia do modelo gráfico
que esses mesmos literatos elegeram para o fazer poético.
Mas o fato é que a arte da palavra é anterior ao espaço
gráfico gutemberguiano —e sobreviverá a este. Se a invenção
da máquina de escrever marcou a escrita poética a partir
das últimas décadas do século 19, como evitar que
o computador e seus programas gráfico-visuais não a marquem
igualmente, e ainda com mais intensidade, na virada do século 20
para o 21?
Só alguém enceguecido pelo afã irracional de defender
a sua baia escritural, frente à proliferação de signos
e formas de nossa circunstância histórico-cultural, pode pretender
que a materialização do poético somente seja viável
por meio do "medium" gutemberguiano. O computador, a holografia e o vídeo
estão aí, ao nosso dispor. Para quem quiser (e souber) usá-los.
É apenas tolo tentar bloquear o acesso de "designers" da linguagem
às novas tecnologias de inscrição sígnica.
E mais: não só a poesia concreta, quando nasceu, foi acusada
de "repetição" (o "caligrama"!), como Augusto de Campos,
antes que ser único e inimitável, pertence, como ele mesmo
é o primeiro a saber, a uma longa e rica tradição
planetária.
E, aliás, o que é mesmo que essas pessoas nos apresentam?
Nada digno de nota. Bruno Tolentino é um
empulhador, aproveitando-se da falta de organicidade da vida
cultural brasileira para enfiar azeitonas marketeiras nas empadas que passam
à sua frente. Nelson Ascher é um
crítico mediano (sub-candido, sub-haroldo) e um versejador de oitava
categoria. Os desinformados de sempre comem gato por lebre,
claro. Mas há quem saiba distinguir as coisas.
Na verdade, Tolentino é um subfilhote do
eruditismo alienado, ansioso por se travestir em porta-voz da alta cultura.
Com sucesso, já que estamos onde estamos. Mas, no caso, talvez eu
esteja alvejando pacas fáceis, já que Bonvicino
é um oportunista patológico, e Tolentino traz
a mente e o coração infectados. Seja como for, se a dieta
vai de Bonvicino a Tolentino, estamos, no mínimo, pessimamente servidos.
Ora, que Tolentino e Bonvicino (com seu escudeiro Nelson Ascher) explorem
a escrita tradicional.
E o façam da melhor maneira possível. Mas não queiram
nos proibir de cantar, ou de navegar nas águas luminosas da escrita
multimídia. A quirografia, a tipografia e a infografia são
tecnologias ou tecnologizações da palavra. E, assim como
o canto não cessou diante da barra do tipógrafo, também
não vai se furtar a introduzir perturbações nas redes
hipertextuais que agora se desenham e se ramificam por todo o planeta.
A poesia não nasceu em função do suporte de celulose,
mas como palavra-evento —ou, Homero na ponta da língua, palavra
alada.
Antonio Risério é poeta e antropólogo, autor de,
entre outros, "Textos e Tribos" (Imago, 1993), "Avant-Garde na Bahia" (Instituto
Lina Bo e P.M. Bardi, 1995) e "Fetiche" (Fundação Casa de
Jorge Amado, 1996).
(in Caderno Mais, Folha de São Paulo, 28.04.96)
Fantástico, Ascher fala de bem de Risério!
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Mais Bovincino
1 796
Pedro Paulo de Sena Madureira
Affonso Romano de Sant’ana
Entre escolhos e rombos
sem temer os tombos
narras a exata fúria de teus versos.
Professas um carvão implacável
que me queima e não hesita, aceso,
ante a cinza provável
que o anula.
No fundo e fim de teus poemas
devassas o tempo, seus casulos e traves.
Rezas, e não sabes.
sem temer os tombos
narras a exata fúria de teus versos.
Professas um carvão implacável
que me queima e não hesita, aceso,
ante a cinza provável
que o anula.
No fundo e fim de teus poemas
devassas o tempo, seus casulos e traves.
Rezas, e não sabes.
768
Rosani Abou Adal
Aquário
Tudo frio na madrugada.
Teu corpo ausente dos meus braços,
o colchão vazio e distante.
Repouso a cabeça no travesseiro de pedra,
sonho contigo de olhos abertos.
Voas como um gavião para o desconhecido.
O quarto escuro e triste.
O peixe no aquário solitário
sente meus sinais e movimentos.
Nada, mergulha e me observa
com seus olhinhos miúdos.
Somos dois, cercados de quadros e livros,
em harmonia como dois eremitas.
Na cama, meu corpo nu.
No aquário, o peixinho carente
pede com suas guelras
uma companheira para repartir
seu espaço e pequenino coração.
Entendo a mensagem e psicografo
pelo vidro com um toque sereno.
Ele dorme aliviado ao sentir
carinho e afeto através das fibras mortas.
O silêncio toma conta da noite,
as obras de arte perdem a cor,
os livros, sem títulos e autoria,
as páginas em branco emudecem.
Dentro de minhalma uma tempestade de neve
esquenta meu corpo,
um inverno latente me acolhe.
O peixe estático dorme
tranqüilo e esperançoso.
Em sua cor de fogo, uma infinita paz.
Teu corpo ausente dos meus braços,
o colchão vazio e distante.
Repouso a cabeça no travesseiro de pedra,
sonho contigo de olhos abertos.
Voas como um gavião para o desconhecido.
O quarto escuro e triste.
O peixe no aquário solitário
sente meus sinais e movimentos.
Nada, mergulha e me observa
com seus olhinhos miúdos.
Somos dois, cercados de quadros e livros,
em harmonia como dois eremitas.
Na cama, meu corpo nu.
No aquário, o peixinho carente
pede com suas guelras
uma companheira para repartir
seu espaço e pequenino coração.
Entendo a mensagem e psicografo
pelo vidro com um toque sereno.
Ele dorme aliviado ao sentir
carinho e afeto através das fibras mortas.
O silêncio toma conta da noite,
as obras de arte perdem a cor,
os livros, sem títulos e autoria,
as páginas em branco emudecem.
Dentro de minhalma uma tempestade de neve
esquenta meu corpo,
um inverno latente me acolhe.
O peixe estático dorme
tranqüilo e esperançoso.
Em sua cor de fogo, uma infinita paz.
819
Paulo Vizioli
Apresentação de Donizete Galvão
Do silêncio da pedra é o terceiro volume de poesia de Donizete Galvão. Tem em comum com os anteriores -- Azul navalha (1988) e As faces do rio (1991) -- a profundidade das inquietações temáticas e o vigor dos recursos estilísticos -- além (é claro) da postura independente, livre das atitudes e dos modismos que permeiam boa parte da produção poética contemporânea. Mas a obra apresenta igualmente traços próprios, distinguindo-se de Azul navalha pela concisão maior da linguagem, e de As faces do rio pela escolha da "pedra", ao invés da "água", como motivo condutor. Com isso, o volume dá um pouco mais de ênfase ao "espaço" em detrimento do "tempo"(que normalmente se associa à fluidez do rio), complementando assim a visão que o poeta oferece da sua e da nossa realidade.
Ao contrário da água, que tem a fala dos seus rumorejos e fragores, a pedra é silenciosa, calando "o que nela dói". A água representa a vida, enquanto a pedra simboliza a esterilidade do deserto e, em última instância, a morte. Por isso, Donizete Galvão começa por repudiá-la: "Em que noite adormeci verde/ e acordei Saara?" Vê-se como um daqueles homens que, prisioneiros de suas poluídas cidades de pedra, se isolam uns dos outros na rotina de uma vida aparentemente sem propósito.
Nesta sua waste land particular, Deus se torna a própria pedra, "deus que não pune/ deus que não salva". Apesar disso, é para a pedra que o poeta acaba se voltando, procurando identificar-se com ela consciente e integralmente. Busca nessa imanência algo da eternidade, através das lições que se podem extrair da permanência dos minerais: "De pedra ser./Da pedra ter/ o duro desejo de durar". Sim, porque no espaço da pedra também se encontra uma dimensão temporal, como bem lembra o poema "Fósseis" (ainda que os indícios da vida passada sejam apenas "souvenirs para turistas". Pouco a pouco, o autor vai descobrindo os aspectos positivos de seu símbolo central, ora vendo a pedra como anteparo ou abrigo (como em "Motetos de São José del - Rei"), ora, entre sério e irônico, fazendo um pequeno rol de suas utilidades ("Almanaque da pedra"). A verdade, porém, é que a pedra é o chão essencial: é o que resta depois de tudo ("quando tudo já houver sido,/ lá estará ela"); e é também o que precede a tudo. É dela que brota a água, a fonte da vida: e, sem ela, não haveria o sustentáculo e a nutrição para as plantas e animais, -- como aquela garça que "ergue/ para o céu/ a hipérbole/ do seu alvo/ pescoço".
Até a linguagem da água nasce dos seus embates com o leito das rochas. E é esse processo que esta poesia reproduz, ao recorrer à realidade para dar voz à mesma realidade. Ele trabalha a pedra. E a pedra trabalhada -- a pedra lisa -- se transforma em arte, em algo acima da transitoriedade e do sofrimento ("no mundo das pedras lisas não cabe a dor"). É a pedra capaz de despertar em nós os mesmos devaneios de Keats diante dos relevos de uma urna grega, ou de Yeats diante de uma escultura em lápis lazúl
São esses, em resumo, alguns dos temas de Donizete Galvão em Do silêncio da pedra, temas sem dúvida relevantes, que, ademais, ganham vida graças a uma linguagem poética extremamente concisa e altamente sugestiva -- de tal riqueza metafórica que as imagens se atropelam umas ás outras ("o mar de pedra soterra/ a árvore dos brônquios") -- e toda pontilhada por funcionais sonoridades ( aliterações, rimas internas etc.). Temos, pois, aqui um autor que não só tem o que dizer, mas que também sabe como dizê-lo.
Sobre o autor
Donizete Galvão nasceu em Borda da Mata, Minas Gerais, em 1955.
Publicou em l988 Azul navalha (T.A. Queiroz, Editor), prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) como Revelação de Autor e indicado para o Prêmio Jabuti. Em l99l, publicou seu segundo livro de poesia As faces do rio (Água Viva Edições).
Tem trabalhos publicados nos jornais Nicolau, Suplemento Literário do Minas Gerais, O Galo, O Resto do Mundo , Mariel (editado nos EUA) e nas revistas Babel e Poesia, ambas da Venezuela. Participou também das antologias Veia Poética (Editora Escrita) e Antologia da nova poesia brasileira (Rioarte/Hipocampo).
Título da obra: Do Silêncio da Pedra
Editora: Arte Pau-Brasil Editora
R. Vergueiro, 923, Paraíso
01504-001- São Paulo -SP
Tel. (011) 279-0147
Páginas: 61
Preço: R$ 15,00
Lançamento: Dia 25 de junho- Terça-feira
Local: Livraria da Vila
R. Fradique Coutinho,915
Pinheiros
Tel. 814-5811
Das 18:30 às 21:30
Tels. para contato: 521-9697
871-6174
Ao contrário da água, que tem a fala dos seus rumorejos e fragores, a pedra é silenciosa, calando "o que nela dói". A água representa a vida, enquanto a pedra simboliza a esterilidade do deserto e, em última instância, a morte. Por isso, Donizete Galvão começa por repudiá-la: "Em que noite adormeci verde/ e acordei Saara?" Vê-se como um daqueles homens que, prisioneiros de suas poluídas cidades de pedra, se isolam uns dos outros na rotina de uma vida aparentemente sem propósito.
Nesta sua waste land particular, Deus se torna a própria pedra, "deus que não pune/ deus que não salva". Apesar disso, é para a pedra que o poeta acaba se voltando, procurando identificar-se com ela consciente e integralmente. Busca nessa imanência algo da eternidade, através das lições que se podem extrair da permanência dos minerais: "De pedra ser./Da pedra ter/ o duro desejo de durar". Sim, porque no espaço da pedra também se encontra uma dimensão temporal, como bem lembra o poema "Fósseis" (ainda que os indícios da vida passada sejam apenas "souvenirs para turistas". Pouco a pouco, o autor vai descobrindo os aspectos positivos de seu símbolo central, ora vendo a pedra como anteparo ou abrigo (como em "Motetos de São José del - Rei"), ora, entre sério e irônico, fazendo um pequeno rol de suas utilidades ("Almanaque da pedra"). A verdade, porém, é que a pedra é o chão essencial: é o que resta depois de tudo ("quando tudo já houver sido,/ lá estará ela"); e é também o que precede a tudo. É dela que brota a água, a fonte da vida: e, sem ela, não haveria o sustentáculo e a nutrição para as plantas e animais, -- como aquela garça que "ergue/ para o céu/ a hipérbole/ do seu alvo/ pescoço".
Até a linguagem da água nasce dos seus embates com o leito das rochas. E é esse processo que esta poesia reproduz, ao recorrer à realidade para dar voz à mesma realidade. Ele trabalha a pedra. E a pedra trabalhada -- a pedra lisa -- se transforma em arte, em algo acima da transitoriedade e do sofrimento ("no mundo das pedras lisas não cabe a dor"). É a pedra capaz de despertar em nós os mesmos devaneios de Keats diante dos relevos de uma urna grega, ou de Yeats diante de uma escultura em lápis lazúl
São esses, em resumo, alguns dos temas de Donizete Galvão em Do silêncio da pedra, temas sem dúvida relevantes, que, ademais, ganham vida graças a uma linguagem poética extremamente concisa e altamente sugestiva -- de tal riqueza metafórica que as imagens se atropelam umas ás outras ("o mar de pedra soterra/ a árvore dos brônquios") -- e toda pontilhada por funcionais sonoridades ( aliterações, rimas internas etc.). Temos, pois, aqui um autor que não só tem o que dizer, mas que também sabe como dizê-lo.
Sobre o autor
Donizete Galvão nasceu em Borda da Mata, Minas Gerais, em 1955.
Publicou em l988 Azul navalha (T.A. Queiroz, Editor), prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) como Revelação de Autor e indicado para o Prêmio Jabuti. Em l99l, publicou seu segundo livro de poesia As faces do rio (Água Viva Edições).
Tem trabalhos publicados nos jornais Nicolau, Suplemento Literário do Minas Gerais, O Galo, O Resto do Mundo , Mariel (editado nos EUA) e nas revistas Babel e Poesia, ambas da Venezuela. Participou também das antologias Veia Poética (Editora Escrita) e Antologia da nova poesia brasileira (Rioarte/Hipocampo).
Título da obra: Do Silêncio da Pedra
Editora: Arte Pau-Brasil Editora
R. Vergueiro, 923, Paraíso
01504-001- São Paulo -SP
Tel. (011) 279-0147
Páginas: 61
Preço: R$ 15,00
Lançamento: Dia 25 de junho- Terça-feira
Local: Livraria da Vila
R. Fradique Coutinho,915
Pinheiros
Tel. 814-5811
Das 18:30 às 21:30
Tels. para contato: 521-9697
871-6174
976
Pêro de Andrade Caminha
Epístola XVIII
Queixo-me, douro Andrade, duns indoutos
Que o que às vezes lêem mal, pior entendem,
Querem julgar como se fossem doutos.
Tão facilmente a seu gosto repreendem
As vigílias alheias, que eu me espanto
Como eles de si mesmos não se ofendem.
O verso ou mau ou bom, o escrito, ou canto
Que o espírito custa estudo, e tempo, e lima
Julgam como que não custassem tanto.
A livre prosa ou obrigada rima
Por seu juízo e só entendimento
Assim a têm em desprezo, assim em estima.
Se lhes perguntas pelo fundamento,
Respondem só, que bem não lhes parece.
Querem que obrigue o seu contentamento.
Que me dizes, Francisco, a quem conhece
O mundo por tão raro, e em cujo espírito
Apolo claramente se enriquece?
Com quais julgas que deve ser escrito
Aquele de juízo tão ousado,
Que quer assim julgar o alheio escrito?
O sisudo, o prudente, o atentado,
O douto, antes que julgue tudo atenta,
Por não ser seu juízo mal julgado.
Ante os olhos primeiro representa
A obrigação do verso, e a natureza,
Vê se ofende a invenção, ou se contenta.
Com livre espírito nota, e com pureza
Os conceitos, as frases, as figuras,
E se na língua tem cópia ou pobreza.
Se as palavras são próprias, se são puras,
Se as busca claras para o que pretende,
Ou se ásperas, difíciles, e escuras.
O decoro se o guarda, ou se o entende,
E se matéria é bem ou mal seguida,
Se abranda, ou afeiçoa, ou move, e acende.
Se toma imitação bem escolhida,
Se o estilo é sempre grave, ou sempre brando,
Se a sentença a bom tempo, ou mau trazida.
Se se vai longamente dilatando,
Ou se diz o que quer tão brevemente
Que ou não se entende bem, ou vai cansando.
Quem tudo isto, Francisco, nota, e sente
Com claríssimo juízo, e peito puro,
E o mais que enjeita a musa, e o que consente;
Julgue, ria, repreenda, e este seguro
Que deve inteiramente de ser crido,
E eu, destes sós espíritos trato, e curo.
Destes quero ser antes repreendido,
Destes como tu és, ó raro Andrade,
Que dos outros louvado e recebido.
Aprende-se com estes a verdade
Do que Apolo promete, e a musa ensina,
A quem dá a repreensão autoridade.
O espírito que não voa, nem atina
O bem, ou mal do que se canta, e escreve,
Quando bem, ou mal julga desatina.
Se dá razão, mais fria a dá que neve,
Sem fundamento louva, e assim reprova,
Quem em juízo apressado à razão leve.
A repreensão no mundo não é nova,
Mas quem melhor entende, mais de espaço
O mau repreende, ou o melhor aprova.
Têm as línguas agudas mais que daço
Estes que querem ser graves censores,
Se lhes armas, caem logo em qualquer laço.
Juízos vãos, indoutos repreensores,
Não sofrem musas ser assim tratadas,
Nem recebem de vós inda louvores.
Tende-os guardados, tende bem guardadas
As leves repreensões que usais em tudo,
Para as coisas das musas não tocadas.
Sem elas todo peito há de mudo,
E raríssimo aquele, antes só, peito
Que não se deva ant elas chamar rudo.
Seja meu verso, sem nenhum respeito
Daqueles, a que Febo maior parte
Tem de si dado, ou repreendido, ou aceito.
Seja de ti, Francisco, que guardar-te
Quis par honra da musa portuguesa,
E para entre os mais raros mais mostrar-te.
Tu segue confiado aquela empresa
Que tão felicemente começaste,
Segue-a com pronto espírito, e alma acesa,
A vitória Caríssima que achaste,
Digna do raro engenho que em tudo usas,
E usaste sempre em tudo o que cantaste;
Confiado em teu conselho, e no das musas
A segue, e em tua lima, e espírito claro,
E assim mais haverá espantos que escusas
Em teu verso, e em teu canto douto e raro.
Que o que às vezes lêem mal, pior entendem,
Querem julgar como se fossem doutos.
Tão facilmente a seu gosto repreendem
As vigílias alheias, que eu me espanto
Como eles de si mesmos não se ofendem.
O verso ou mau ou bom, o escrito, ou canto
Que o espírito custa estudo, e tempo, e lima
Julgam como que não custassem tanto.
A livre prosa ou obrigada rima
Por seu juízo e só entendimento
Assim a têm em desprezo, assim em estima.
Se lhes perguntas pelo fundamento,
Respondem só, que bem não lhes parece.
Querem que obrigue o seu contentamento.
Que me dizes, Francisco, a quem conhece
O mundo por tão raro, e em cujo espírito
Apolo claramente se enriquece?
Com quais julgas que deve ser escrito
Aquele de juízo tão ousado,
Que quer assim julgar o alheio escrito?
O sisudo, o prudente, o atentado,
O douto, antes que julgue tudo atenta,
Por não ser seu juízo mal julgado.
Ante os olhos primeiro representa
A obrigação do verso, e a natureza,
Vê se ofende a invenção, ou se contenta.
Com livre espírito nota, e com pureza
Os conceitos, as frases, as figuras,
E se na língua tem cópia ou pobreza.
Se as palavras são próprias, se são puras,
Se as busca claras para o que pretende,
Ou se ásperas, difíciles, e escuras.
O decoro se o guarda, ou se o entende,
E se matéria é bem ou mal seguida,
Se abranda, ou afeiçoa, ou move, e acende.
Se toma imitação bem escolhida,
Se o estilo é sempre grave, ou sempre brando,
Se a sentença a bom tempo, ou mau trazida.
Se se vai longamente dilatando,
Ou se diz o que quer tão brevemente
Que ou não se entende bem, ou vai cansando.
Quem tudo isto, Francisco, nota, e sente
Com claríssimo juízo, e peito puro,
E o mais que enjeita a musa, e o que consente;
Julgue, ria, repreenda, e este seguro
Que deve inteiramente de ser crido,
E eu, destes sós espíritos trato, e curo.
Destes quero ser antes repreendido,
Destes como tu és, ó raro Andrade,
Que dos outros louvado e recebido.
Aprende-se com estes a verdade
Do que Apolo promete, e a musa ensina,
A quem dá a repreensão autoridade.
O espírito que não voa, nem atina
O bem, ou mal do que se canta, e escreve,
Quando bem, ou mal julga desatina.
Se dá razão, mais fria a dá que neve,
Sem fundamento louva, e assim reprova,
Quem em juízo apressado à razão leve.
A repreensão no mundo não é nova,
Mas quem melhor entende, mais de espaço
O mau repreende, ou o melhor aprova.
Têm as línguas agudas mais que daço
Estes que querem ser graves censores,
Se lhes armas, caem logo em qualquer laço.
Juízos vãos, indoutos repreensores,
Não sofrem musas ser assim tratadas,
Nem recebem de vós inda louvores.
Tende-os guardados, tende bem guardadas
As leves repreensões que usais em tudo,
Para as coisas das musas não tocadas.
Sem elas todo peito há de mudo,
E raríssimo aquele, antes só, peito
Que não se deva ant elas chamar rudo.
Seja meu verso, sem nenhum respeito
Daqueles, a que Febo maior parte
Tem de si dado, ou repreendido, ou aceito.
Seja de ti, Francisco, que guardar-te
Quis par honra da musa portuguesa,
E para entre os mais raros mais mostrar-te.
Tu segue confiado aquela empresa
Que tão felicemente começaste,
Segue-a com pronto espírito, e alma acesa,
A vitória Caríssima que achaste,
Digna do raro engenho que em tudo usas,
E usaste sempre em tudo o que cantaste;
Confiado em teu conselho, e no das musas
A segue, e em tua lima, e espírito claro,
E assim mais haverá espantos que escusas
Em teu verso, e em teu canto douto e raro.
663
Pablo Simpson
VII Ainda há pouco era um desenho que te fiz
Ainda há pouco era um desenho que te fiz,
No qual o retrato - um azul de flores deste dia,
De recolhidas flores, uma a uma, quis
Pô-las furtivas do amor que te pedia.
No que trazê-las fosse então o que queria...
No que roubá-las fosse o gesto mais feliz...
Ainda há pouco era um desenho que fazia,
Onde nas flores misturava azuis-anis.
E ao misturá-los foi que certa hora vi,
Não o teu rosto, este o pintar não me permite,
Mas o cantar de um envergonhado bem-te-vi,
Que no seu canto, em que me via enternecido,
Dizia: - Ah! que dessas flores não imite
O azul, pois este a ti o havia prometido.
No qual o retrato - um azul de flores deste dia,
De recolhidas flores, uma a uma, quis
Pô-las furtivas do amor que te pedia.
No que trazê-las fosse então o que queria...
No que roubá-las fosse o gesto mais feliz...
Ainda há pouco era um desenho que fazia,
Onde nas flores misturava azuis-anis.
E ao misturá-los foi que certa hora vi,
Não o teu rosto, este o pintar não me permite,
Mas o cantar de um envergonhado bem-te-vi,
Que no seu canto, em que me via enternecido,
Dizia: - Ah! que dessas flores não imite
O azul, pois este a ti o havia prometido.
470
Olga Savary
David
Não sendo bicho nem deus
nem da raiz tendo a força
ou a eternidade da pedra,
o poeta nas palavras
põe essa força de nada:
sua funda é o poema.
nem da raiz tendo a força
ou a eternidade da pedra,
o poeta nas palavras
põe essa força de nada:
sua funda é o poema.
1 309
Oscar Rosas
Sereia
Reparem nesse bronze, veia a veia,
Cornucópia de seios e de escama,
Obra de um japonês, em que o Fusi-Iama
Adora o mar em enluarada areia.
Canta, e essa harmonia nos golpeia.
É duma triste e solitária gama,
Porém aumenta desse bronze a fama
O olhar amortecido da sereia.
Penso que sonha o pólo e o nevoeiro,
E a pálida talhada de um crescente
Num céu de véus de noiva e jasmineiro.
E, como búzio a referver, ressoa
Numa langue preguiça de serpente,
Num êxtase nostálgico de leoa.
Cornucópia de seios e de escama,
Obra de um japonês, em que o Fusi-Iama
Adora o mar em enluarada areia.
Canta, e essa harmonia nos golpeia.
É duma triste e solitária gama,
Porém aumenta desse bronze a fama
O olhar amortecido da sereia.
Penso que sonha o pólo e o nevoeiro,
E a pálida talhada de um crescente
Num céu de véus de noiva e jasmineiro.
E, como búzio a referver, ressoa
Numa langue preguiça de serpente,
Num êxtase nostálgico de leoa.
1 331
Dunshee de Abranches
O Violino do Artista
Só lhe restava o mágico violino
nessa vida de eterno sofrimento;
único amigo, um outro peregrino
na rota desgraçada do talento.
Como sentia o mísero instrumento,
nessa alma rude, um lenho pequenino,
que tinha em mãos do dono um sentimento
que era "mais do que humano, era divino!"
E juntos iam no fulgor das cenas
confundir num adágio as suas penas,
irmãos na glória, gêmeos no tormento!...
Mas morto um dia o artista, gente absurda
quis tocá-lo... mas ah! tinha a alma surda...
já não sentia o mísero instrumento!...
nessa vida de eterno sofrimento;
único amigo, um outro peregrino
na rota desgraçada do talento.
Como sentia o mísero instrumento,
nessa alma rude, um lenho pequenino,
que tinha em mãos do dono um sentimento
que era "mais do que humano, era divino!"
E juntos iam no fulgor das cenas
confundir num adágio as suas penas,
irmãos na glória, gêmeos no tormento!...
Mas morto um dia o artista, gente absurda
quis tocá-lo... mas ah! tinha a alma surda...
já não sentia o mísero instrumento!...
885
Nascimento Moraes Filho
Homem
homem,
a vida é como a vênus de milo;
— faltam-lhe os braços!
aperfeiçoa-a!
plasma no sonho a sua perfeição:
— o sonho é o mármore de páros!...
talvez entre as ruínas do teu eu
estejam escondidos os seus braços
olha!
um rastro de auroras mortas
marca o caminho da tua crença...
empunha a flama da fé
e desce aos subterrâneos da existência,
como os primitivos cristãos,
às galerias esquecidas das catacumbas!
e, de volta,
com teus olhos pregados no infinito,
rompe a mortalha de crepúsculo que te envolve,
e marcha!
na tua marcha ascendente,
esmaga com teus pés de titã o incognoscível
e faze-o explodir aos teus passos
numa erupção de novas auroras!...
então, empolgando os mundos e os astros coruscantes,
bradarás:
—levanta-te — ó sol sem poente!
e uma luz de arrebóis brilhará para sempre!...
......................................................................................
síncope da luz!
angústia do verde nas esperanças!
há um sino dobrando em cada coração
e uma cruz de esqueleto de ilusões abre seus braços
sobre cada pensamento
— é a hora do crepúsculo do amor
— a hora do crepúsculo do sonho!
a vida é como a vênus de milo;
— faltam-lhe os braços!
aperfeiçoa-a!
plasma no sonho a sua perfeição:
— o sonho é o mármore de páros!...
talvez entre as ruínas do teu eu
estejam escondidos os seus braços
olha!
um rastro de auroras mortas
marca o caminho da tua crença...
empunha a flama da fé
e desce aos subterrâneos da existência,
como os primitivos cristãos,
às galerias esquecidas das catacumbas!
e, de volta,
com teus olhos pregados no infinito,
rompe a mortalha de crepúsculo que te envolve,
e marcha!
na tua marcha ascendente,
esmaga com teus pés de titã o incognoscível
e faze-o explodir aos teus passos
numa erupção de novas auroras!...
então, empolgando os mundos e os astros coruscantes,
bradarás:
—levanta-te — ó sol sem poente!
e uma luz de arrebóis brilhará para sempre!...
......................................................................................
síncope da luz!
angústia do verde nas esperanças!
há um sino dobrando em cada coração
e uma cruz de esqueleto de ilusões abre seus braços
sobre cada pensamento
— é a hora do crepúsculo do amor
— a hora do crepúsculo do sonho!
933
Noel Nascimento
Pesquisa Estética
À procura
da sonoridade mais pura,
quis decifrar o mistério
da beleza natural.
Palavra por palavra,
desfolhei o poema
e despetalei a flor.
Em busca da magia de um canto
quase descubro
a fonte do amor.
O que faz o mavioso gorgeio,
seria a forcá que faz o vôo?
Onde a nascente no coração de cristal?
Pena por pena,
depenei um canarinho,
tingi de sangue as minhas unhas,
mas ao abrir-lhe o peito
não achei a flautinha divinal ...
da sonoridade mais pura,
quis decifrar o mistério
da beleza natural.
Palavra por palavra,
desfolhei o poema
e despetalei a flor.
Em busca da magia de um canto
quase descubro
a fonte do amor.
O que faz o mavioso gorgeio,
seria a forcá que faz o vôo?
Onde a nascente no coração de cristal?
Pena por pena,
depenei um canarinho,
tingi de sangue as minhas unhas,
mas ao abrir-lhe o peito
não achei a flautinha divinal ...
789
Nilson José Ribeiro
Impressão
Impressão
Tens a cor mais límpida e real
e a luminosidade calma das manhãs de primavera
Eu carrego na alma a explosão boreal
e a densidade rubra das tardes de inverno
Tens nos pés as estradas, os caminhos, o destino
Tenho asas densas e mergulho cego num vôo sem rumo
-caio, levanto, bato o pó e me aprumo-
És música cristalina, o som puro, melodia solta ao vento
Sou o tempo, semifusa, o contratempo
Tu, a beleza límpida e afinadíssima da voz de soprano
Sou Mozart ao piano.
És da noite as estrelas iluminadas no céu enluarado
Sou cometa incandescente e alucinado
atravessando veloz, incendiando a paisagem
És postal. Sou miragem.
Tens a força da terra
a suavidade da vinha, a tez da uva
Sou vento que te remexe, vendaval,
e, depois, o carinho precioso da abençoada chuva.
És paisagem a céu aberto,
montanhas, água, brisa, vela
Sou Van Gogh escancarado na tela.
És o riacho que mata a sede
Sou a cascata incontrolável
És descanso, a paz, o sono, a rede
Sou o desejo inadiável
És o calor que alenta os viajantes
Sou a brasa que arde em seu fogo ruivo
Encantas com a voz de mil pássaros cantantes
Eu uivo.
És, inteira,
parte de mim que se perdeu.
Sou, assim dividido,
definitivamente
inteiro teu.
Tens a cor mais límpida e real
e a luminosidade calma das manhãs de primavera
Eu carrego na alma a explosão boreal
e a densidade rubra das tardes de inverno
Tens nos pés as estradas, os caminhos, o destino
Tenho asas densas e mergulho cego num vôo sem rumo
-caio, levanto, bato o pó e me aprumo-
És música cristalina, o som puro, melodia solta ao vento
Sou o tempo, semifusa, o contratempo
Tu, a beleza límpida e afinadíssima da voz de soprano
Sou Mozart ao piano.
És da noite as estrelas iluminadas no céu enluarado
Sou cometa incandescente e alucinado
atravessando veloz, incendiando a paisagem
És postal. Sou miragem.
Tens a força da terra
a suavidade da vinha, a tez da uva
Sou vento que te remexe, vendaval,
e, depois, o carinho precioso da abençoada chuva.
És paisagem a céu aberto,
montanhas, água, brisa, vela
Sou Van Gogh escancarado na tela.
És o riacho que mata a sede
Sou a cascata incontrolável
És descanso, a paz, o sono, a rede
Sou o desejo inadiável
És o calor que alenta os viajantes
Sou a brasa que arde em seu fogo ruivo
Encantas com a voz de mil pássaros cantantes
Eu uivo.
És, inteira,
parte de mim que se perdeu.
Sou, assim dividido,
definitivamente
inteiro teu.
453
Myriam Fraga
Os Retratos
I
Na matemática severa
Das imagens
Em retângulo brilhante
A face,
Preservada.
Aqui o tempo é um esmalte claro
E o traço outrora impreciso
É perfeito e mineral.
Somente extinta aparência
Vislumbrada além do morto
Confinado
Nos retratos.
II
Em luz e sombra agora
O contemplado
Rosto de antigamente
Exato e raro.
Tudo que foi
Aqui está enterrado.
Em branco e preto
A soma revelada
Do que outrora foi vida
E hoje é distância.
Na matemática severa
Das imagens
Em retângulo brilhante
A face,
Preservada.
Aqui o tempo é um esmalte claro
E o traço outrora impreciso
É perfeito e mineral.
Somente extinta aparência
Vislumbrada além do morto
Confinado
Nos retratos.
II
Em luz e sombra agora
O contemplado
Rosto de antigamente
Exato e raro.
Tudo que foi
Aqui está enterrado.
Em branco e preto
A soma revelada
Do que outrora foi vida
E hoje é distância.
1 222
Marilda Vasconcelos de Oliveira
Arte Plástica
Um deus recria o perfil imaginado.
Tintas desfia sobre a tela
compondo a substância
de um rosto pétreo.
Surge amarga boca
desdenhando frutos
olhar de gelo
nuca de soldado alerta.
Entanto
as mãos do mesmo deus
impondo ao pincel
ordem de lã
na tela fazem nascer um outro rosto
e as tintas
traço a traço
configuram
na cruz sacrificado
um justo agonizante.
Tintas desfia sobre a tela
compondo a substância
de um rosto pétreo.
Surge amarga boca
desdenhando frutos
olhar de gelo
nuca de soldado alerta.
Entanto
as mãos do mesmo deus
impondo ao pincel
ordem de lã
na tela fazem nascer um outro rosto
e as tintas
traço a traço
configuram
na cruz sacrificado
um justo agonizante.
550
Myriam Fraga
Barragem
Estrutura de cal
Subitamente o rio
(argila e metal)
Se recompõe
E pára.
Somente a fúria
Calma do gesto
Que se disfarça.
Barragem ou poço
(argamassa)
Simetria de iludidos
Nas linhas duras
Do cais.
Talvez a sombra
íris-pupila
Que se adelgaça.
Recua e passa.
Subitamente o rio
(argila e metal)
Se recompõe
E pára.
Somente a fúria
Calma do gesto
Que se disfarça.
Barragem ou poço
(argamassa)
Simetria de iludidos
Nas linhas duras
Do cais.
Talvez a sombra
íris-pupila
Que se adelgaça.
Recua e passa.
1 059
Neide Archanjo
Fortuna Crítica
Antônio Houaiss
"N.A., sofri o seu Quitote tango e foxtrote, Sofri mesmo — em grande parte pelas ambigüidades admiravelmente construídas nele,eis que nele nada quero ver que não tenha sido dominado por sua arte. Ora o lia como expressão de um ser feminino, ora de um masculino, ora de um siriano, ora de um a-hetero-homo-pan-sexual, ora de alguém mininesco,ora de alguém nauseado, ora como esperança,ora como desespero,ora como de iluso,ora de iludido. O que sei é que a sua busca é pungente, porque magoada e doída e magoante e dolente, graças à poderosa expressão que ilumina como se tornada fachos, armas, esporas, alimentos, venenos. Sua procura teve sobre mim o rigor atritante de coisa pensante congrata, inarredável."
Carlos Drummond de Andrade
" Aqui estou debruçado sobre seu livro Escavações curtindo aquela "admirável epifania/onde o poema se debruça/inominável". Quer nos poemas de largo fôlego, de ‘Sítios,quer na extrema concisão de ‘Fragmentos’, você alcança a justa e vibrante expressão que deixa marca no leitor."
Wilson Martins
"As admiráveis Marinhas de N.A. são uma meditação sobre o Destino, o da autora enquanto pessoa e enquanto brasileira, o da pátria enquanto mito emocional e realidade histórica; e é também uma meditação sobre a poesia enquanto veículo de expressão para o que por outros meios não poderia ser expresso.Tudo se condensa no mesmo mito, o mito do poeta no mundo, mas mundo e poeta sob as suas espécies reais de uma língua literária e de uma integração nacional. A autora domina o instrumento em todas as suas virtualidades técnicas e dá a cada ‘quadro’ a tonalidade própria a estrutura versificatória que exige,as harmônicas que lhe são próprias. As marinhas surpreendem o núcleo substanciado que é ser brasileiro e sabe identificá-lo no ‘correlativo poético’ que lhe corresponde. Tendo estreado em 1964 com Primeiros ofícios da memória, ela evidenciava desde então as mudanças de plano que àquela altura começavam a ser manifestar na poesia brasileira contemporânea. É a ‘poesia cívica’ em sua manifestação mais perfeita, não pode ser ‘cívica’ mas pode ser poesia, Podemos identificar em N.A., sem hesitação, uma das grandes vozes poéticas do nosso tempo, o ‘o contraste’ mineralógico pelo qual se deve verificar o teor de poesia de todos os demais. "
"N.A., sofri o seu Quitote tango e foxtrote, Sofri mesmo — em grande parte pelas ambigüidades admiravelmente construídas nele,eis que nele nada quero ver que não tenha sido dominado por sua arte. Ora o lia como expressão de um ser feminino, ora de um masculino, ora de um siriano, ora de um a-hetero-homo-pan-sexual, ora de alguém mininesco,ora de alguém nauseado, ora como esperança,ora como desespero,ora como de iluso,ora de iludido. O que sei é que a sua busca é pungente, porque magoada e doída e magoante e dolente, graças à poderosa expressão que ilumina como se tornada fachos, armas, esporas, alimentos, venenos. Sua procura teve sobre mim o rigor atritante de coisa pensante congrata, inarredável."
Carlos Drummond de Andrade
" Aqui estou debruçado sobre seu livro Escavações curtindo aquela "admirável epifania/onde o poema se debruça/inominável". Quer nos poemas de largo fôlego, de ‘Sítios,quer na extrema concisão de ‘Fragmentos’, você alcança a justa e vibrante expressão que deixa marca no leitor."
Wilson Martins
"As admiráveis Marinhas de N.A. são uma meditação sobre o Destino, o da autora enquanto pessoa e enquanto brasileira, o da pátria enquanto mito emocional e realidade histórica; e é também uma meditação sobre a poesia enquanto veículo de expressão para o que por outros meios não poderia ser expresso.Tudo se condensa no mesmo mito, o mito do poeta no mundo, mas mundo e poeta sob as suas espécies reais de uma língua literária e de uma integração nacional. A autora domina o instrumento em todas as suas virtualidades técnicas e dá a cada ‘quadro’ a tonalidade própria a estrutura versificatória que exige,as harmônicas que lhe são próprias. As marinhas surpreendem o núcleo substanciado que é ser brasileiro e sabe identificá-lo no ‘correlativo poético’ que lhe corresponde. Tendo estreado em 1964 com Primeiros ofícios da memória, ela evidenciava desde então as mudanças de plano que àquela altura começavam a ser manifestar na poesia brasileira contemporânea. É a ‘poesia cívica’ em sua manifestação mais perfeita, não pode ser ‘cívica’ mas pode ser poesia, Podemos identificar em N.A., sem hesitação, uma das grandes vozes poéticas do nosso tempo, o ‘o contraste’ mineralógico pelo qual se deve verificar o teor de poesia de todos os demais. "
1 108
Neide Archanjo
Neste mezzo del camin
Neste mezzo del camin
carrego comigo obras e cânticos
alguns alheios outros próprios
coisas que escolhi.
Entre vogais e vocábulos
componho a biografia
construção sonora de rostos
reflexos sentimentos
tão grande tão grandes
uns rindo como gralhas
outros mansos
todos não perdidos
pressentida romã entreaberta
assim esta memória existe.
Vou como o discípulo
de um velho pintor chinês
que curvado sob o peso de pincéis
potes de laca
rolos de seda e de papel arroz
sonhava carregar montanhas rios
falcões reais
e se assim sonhava
certamente assim o fazia.
carrego comigo obras e cânticos
alguns alheios outros próprios
coisas que escolhi.
Entre vogais e vocábulos
componho a biografia
construção sonora de rostos
reflexos sentimentos
tão grande tão grandes
uns rindo como gralhas
outros mansos
todos não perdidos
pressentida romã entreaberta
assim esta memória existe.
Vou como o discípulo
de um velho pintor chinês
que curvado sob o peso de pincéis
potes de laca
rolos de seda e de papel arroz
sonhava carregar montanhas rios
falcões reais
e se assim sonhava
certamente assim o fazia.
1 006
Joaquim Namorado
ARS
Os muros brancos da indiferença
desafiam os pintores
a pintar neles a esperança
amarelos sóis girando
roxos violetas azuis
gente animais árvores flores
como há e não há inventados
largas janelas abertas
para a vida e para o sonho
vermelhos entusiasmos
castanhos terra serenos
verdes e verdes terrenos
de horizontes rasgados
onde caibam os países
e os continentes e os mares ainda por descobrir
e o homem caiba inteiro
na verdadeira grandeza
em profundas perspectivas
tudo o que é grande e pequeno
dos outros o que a nós pertence
de nós o que a todos damos
a noite intensa povoada de sóis
que outros dias iluminam
a esperança neles pintada
a Paz o Pão o Amor.
E nas mansardas escuras
com os brancos muros em frente
da gelada indiferença
os artistas febris
esboçam em traços difusos
a própria morte do sonho.
Mas já na sombra da sombra
que sobre os brancos muros se estende
O coro das carpideiras
tece flores de retórica
para coroar-lhes as caveiras
e os conservadores misantropos
dos museus do que já foi
fazem o espólio das artes
com requintes de molduras.
Nos muros brancos da indiferença
gela o frio esquecimento…
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
desafiam os pintores
a pintar neles a esperança
amarelos sóis girando
roxos violetas azuis
gente animais árvores flores
como há e não há inventados
largas janelas abertas
para a vida e para o sonho
vermelhos entusiasmos
castanhos terra serenos
verdes e verdes terrenos
de horizontes rasgados
onde caibam os países
e os continentes e os mares ainda por descobrir
e o homem caiba inteiro
na verdadeira grandeza
em profundas perspectivas
tudo o que é grande e pequeno
dos outros o que a nós pertence
de nós o que a todos damos
a noite intensa povoada de sóis
que outros dias iluminam
a esperança neles pintada
a Paz o Pão o Amor.
E nas mansardas escuras
com os brancos muros em frente
da gelada indiferença
os artistas febris
esboçam em traços difusos
a própria morte do sonho.
Mas já na sombra da sombra
que sobre os brancos muros se estende
O coro das carpideiras
tece flores de retórica
para coroar-lhes as caveiras
e os conservadores misantropos
dos museus do que já foi
fazem o espólio das artes
com requintes de molduras.
Nos muros brancos da indiferença
gela o frio esquecimento…
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
1 897
Neide Archanjo
Da Poesia
Esculpo a página a lápis
e um cheiro de bosque
então me aparece.
Que a poesia é feita de romãs
daquilo que é eterno
e de tudo que apodrece.
e um cheiro de bosque
então me aparece.
Que a poesia é feita de romãs
daquilo que é eterno
e de tudo que apodrece.
1 297
Matheus Tonello
O Show da Vida
Abrem-se as cortinas, o show vai começar,
Não é só o dia que amanhece, com ele vem as marionetes incansáveis,
Controladas pela força básica da vida;
Todos os gestos, ações, movimentos, nada é nosso
Somos manipulados por um destino, seja ele bom ou ruim...
Nossas lágrimas, nossos risos são puramente encomendados,
Para dar vida ao espetáculo
O show tem momentos de dor, paixão, tristeza e encantamento,
Há momentos em que a emoção é tão forte,
Que nos dá a nítida impressão de estarmos
VIVOS!
O que temos a fazer? E a felicidade?
Talvez não sejamos o mais feliz possível,
Mas diante das circunstâncias inconstantes de vida e
morte,
Acondicionaremos a felicidade a uma palavra muito importante,
FÉ!
Não é só o dia que amanhece, com ele vem as marionetes incansáveis,
Controladas pela força básica da vida;
Todos os gestos, ações, movimentos, nada é nosso
Somos manipulados por um destino, seja ele bom ou ruim...
Nossas lágrimas, nossos risos são puramente encomendados,
Para dar vida ao espetáculo
O show tem momentos de dor, paixão, tristeza e encantamento,
Há momentos em que a emoção é tão forte,
Que nos dá a nítida impressão de estarmos
VIVOS!
O que temos a fazer? E a felicidade?
Talvez não sejamos o mais feliz possível,
Mas diante das circunstâncias inconstantes de vida e
morte,
Acondicionaremos a felicidade a uma palavra muito importante,
FÉ!
944
Marcelo Penido Silva
O que é a Poesia?
Poesia é como pó
que num sôpro é
o que não sopro
e que jamais seria.
Poesia é
sem ser
meu querer, meu dis ser
e cobre
de prata e ouro
a mais preciosa linha.
Meu veio de Vida
nas mãos de outro.
que num sôpro é
o que não sopro
e que jamais seria.
Poesia é
sem ser
meu querer, meu dis ser
e cobre
de prata e ouro
a mais preciosa linha.
Meu veio de Vida
nas mãos de outro.
971
Mario Ribeiro Martins
Cosme Velho
Quando contemplo as tuas obras primas,
escritor imortal, de que me ufano,
eu não tenho nas minhas pobres rimas,
um termo que te cante e seja humano.
Do romantismo, sufocaste as cimas,
com coragem tal qual de veterano.
Pregaste o realismo com seus climas,
pelo teu verbo forte e soberano.
Como se fosses ser divino-humano,
passaste humildemente pelo mundo,
vencendo os homens com vigor profundo.
Mas, como não venceste o teu engano,
morreste então, sem fé, sem Evangelho,
no rico casarão do COSME VELHO.
escritor imortal, de que me ufano,
eu não tenho nas minhas pobres rimas,
um termo que te cante e seja humano.
Do romantismo, sufocaste as cimas,
com coragem tal qual de veterano.
Pregaste o realismo com seus climas,
pelo teu verbo forte e soberano.
Como se fosses ser divino-humano,
passaste humildemente pelo mundo,
vencendo os homens com vigor profundo.
Mas, como não venceste o teu engano,
morreste então, sem fé, sem Evangelho,
no rico casarão do COSME VELHO.
984
Gerardo Mello Mourão
Cantor de cântaros
Cantor de cântaros
escande
no cântaro a cantárida do canto
cantaria de cântico
cantor cantar cantata cantaria
canteiro de cantares
ora oleiro
oleiro de canções
à ternura do barro torneava falus
e ao moinho do ventre as raparigas
trituravam cantando o doce oleiro
e o pó, Polymnia, pólen
do oleiro cantador
entre
as violasdas fêmeas
entre
a cintura da terra
pênis de barro
Orfeu de barro
no teu ventre pó, Polymnia, pólen
súbito flor
no cântaro se esconde
e escande
pela pele da Musa pela pedra
canta:
canteiro de cantares
cantaria de espuma labirinto
de âmbar
por terra matinal por mar salgado
por inefável seio
de Lisboa por Goa e Madragoa
e Pero Lopes de Souza
e de seus bagos venho
e ali
e aqui
começa o labirinto de Gerardo.
De Lisboa
por Goa e Madragoa peripécia
de Vasco, Pedro e Manuel
Diogo Cão e Antônio Cão
mais a matilha toda dos mastins do mar
farejavam as águas de onde
morder à tona dos sargaços
lamber
a tua verde mão
terra de aurora
pois te cerca e me cerca
a aurora com suas coisas:
e são coisas da aurora
a estrela morredoura
a nascedoura rosa
e sob o azul azul
do céu o boi mijando
fervoroso no curral
o relincho do cavalo erecto
sobre as ancas da égua
estas são — parece — coisas da aurora
e a aurora é coisa minha.
E era uma vez em Sagres um Infante
e Cristóvão Colombo e Vasco e Pedro
e de uns sabeis e de outros
sabem o mar salgado e os sabedores de água
e ventos velas gáveas caravelas
e quartos dalva e solidões e estrelas:
Martim e Pero
Lopes de Souza e de seus bagos venho
de Lisboa por Goa e Madragoa.
E era uma vez
o teu cantor:
quem sabe deste infante?
a coronha do rifle
o percorrido mapa
e um promontório de ouro
— ó musgos de Isabela —
e esses musgos de fêmea
são coisa minha
só tenho as minhas coisas,
e as minhas coisas são
o cavalo a égua o touro
o bode o rifle esta dama de copas
este gibão de couro
e a rosa que te colho:
e essas coisas trabalho
e também a viola e o mapa-mundi.
Dos outros sabe o mar
mas deste infante sabem
tua cintura fina a farejada flor
a noite a aurora
e essas coisas da aurora coisas minhas
peripécia e
labirinto de Gerardo.
escande
no cântaro a cantárida do canto
cantaria de cântico
cantor cantar cantata cantaria
canteiro de cantares
ora oleiro
oleiro de canções
à ternura do barro torneava falus
e ao moinho do ventre as raparigas
trituravam cantando o doce oleiro
e o pó, Polymnia, pólen
do oleiro cantador
entre
as violasdas fêmeas
entre
a cintura da terra
pênis de barro
Orfeu de barro
no teu ventre pó, Polymnia, pólen
súbito flor
no cântaro se esconde
e escande
pela pele da Musa pela pedra
canta:
canteiro de cantares
cantaria de espuma labirinto
de âmbar
por terra matinal por mar salgado
por inefável seio
de Lisboa por Goa e Madragoa
e Pero Lopes de Souza
e de seus bagos venho
e ali
e aqui
começa o labirinto de Gerardo.
De Lisboa
por Goa e Madragoa peripécia
de Vasco, Pedro e Manuel
Diogo Cão e Antônio Cão
mais a matilha toda dos mastins do mar
farejavam as águas de onde
morder à tona dos sargaços
lamber
a tua verde mão
terra de aurora
pois te cerca e me cerca
a aurora com suas coisas:
e são coisas da aurora
a estrela morredoura
a nascedoura rosa
e sob o azul azul
do céu o boi mijando
fervoroso no curral
o relincho do cavalo erecto
sobre as ancas da égua
estas são — parece — coisas da aurora
e a aurora é coisa minha.
E era uma vez em Sagres um Infante
e Cristóvão Colombo e Vasco e Pedro
e de uns sabeis e de outros
sabem o mar salgado e os sabedores de água
e ventos velas gáveas caravelas
e quartos dalva e solidões e estrelas:
Martim e Pero
Lopes de Souza e de seus bagos venho
de Lisboa por Goa e Madragoa.
E era uma vez
o teu cantor:
quem sabe deste infante?
a coronha do rifle
o percorrido mapa
e um promontório de ouro
— ó musgos de Isabela —
e esses musgos de fêmea
são coisa minha
só tenho as minhas coisas,
e as minhas coisas são
o cavalo a égua o touro
o bode o rifle esta dama de copas
este gibão de couro
e a rosa que te colho:
e essas coisas trabalho
e também a viola e o mapa-mundi.
Dos outros sabe o mar
mas deste infante sabem
tua cintura fina a farejada flor
a noite a aurora
e essas coisas da aurora coisas minhas
peripécia e
labirinto de Gerardo.
1 401
Martins Napoleão
O Poema da Forma Eterna
(Ó infinito sonho!
O grande céu azul desfolhado no espaço!
O homem pequeno e louco
E o barro úmido às mãos do oleiro cego!)
Expressar cada um
O seu minuto culminante de beleza,
O seu instante de bondade extrema,
O seu momento de heroísmo,
Na subitânea íntegra pureza
De uma forma imperecível!
Como o coágulo de luz no diamante sem jaça,
Qual se a gota de orvalho, porventura,
Imagem matinal do sorriso da luz,
Se condenasse repentinamente.
Não a forma perfeita,
Porém aquela, exata e duradoura,
De um ápice de síntese.
Forma que se transfunda, num jato, a substância
De um momento imortal entre dois limites inúteis do tempo fugaz.
Uma forma que seja — nos limites do vário e mutável — perene.
E possa traduzir a integração, a plenitude e a culminância
Do glorioso momento da vida:
O desejo de fixar o efêmero para o tornar eterno.
Como o oleiro inocente, com as mãos carregadas de sonho,
Procurar transmitir ao barro paciente,
Numa manhã feliz em que os deuses se vestem de luz,
O movimento, a vida, a elástica e nervosa agilidade
Da asa de um pássaro voando...
E o pintor, com os olhos impregnados de cores viventes,
Anseia revelar, numa combinação imprevista de tintas,
Em que a luz e a névoa se misturem,
E a virgindade da manhã se case
À difusa tristeza do crepúsculo,
Num tom maravilhoso,
O úmido olhar do amor que pecou por prazer...
E o músico, de coração sangrante de harmonias,
Tenta subjugar, num acorde que encerre
O resumo de todas as únicas notas supremas
Arrancadas das cordas soluçantes
Dos violinos de todos os artistas
Que morreram em êxtase de sonho.
A expressão musical das primeiras estrelas
Que iluminam o silêncio da tarde,
Como lágrimas de adolescentes...
E o atleta, que tem o sentido dos ritmos nos músculos submissos,
Busca perpetuar, numa imagem que esplenda
Clara e vibrátil como uma ode pindárica,
E tenha a assustadora beleza da vitória sobre a morte,
Ao pasmo olhar da multidão de fôlego suspenso,
O salto sobre o abismo.
E o herói, que mede o valor da vida pela beleza oportuna da morte,
Ambiciona cunhar, numa imagem que ostente
O soberano orgulho do desprezo
E a coragem consciente do perigo,
O simbólico exemplo
Do primeiro soldado que tombou
Com um sorriso nos lábios e uma rosa de sangue no peito.
E o santo que transcende as leis humanas
Aspira a eternizar, numa imagem que seja,
A própria infinitude de todos os êxtases
E todas as bondades sem nenhuma recompensa
O gesto irrepetível
Do instante de humildade e de renúncia
Em que se debruçou para beijar o leproso na boca,
Como um lírio num charco...
E o poeta, flauta cheia do sopro divino
Quer reunir, a um acesso instintivo de forças genésicas
Num canto absoluto
o irrelevado espírito das coisas,
A harmonia que ninguém ousou captar,
A beleza invisível para os outros.
E o lavrador, que espera a bendição de Deus,
Deseja aprender, numa imagem que vibre
Como a entranha da agreste companheira
Sob as primícias da maternidade,
A alegria da terra,
Rasgando o próprio seio sem doer
Para as eclosões das primeiras sementes.
Como o oleiro o seu momento de inocência criadora,
E o pintor, o seu momento de domínio incomparável da matéria plástica,
E o músico o seu momento de cósmica integração,
E o atleta o seu momento de vitória espetacular,
E o santo o seu momento de êxtase supremo
E o lavrador, o seu momento de esperança milagrosa
E o poeta o momento de seu canto absoluto
Todos aspiram a perpetuar-se
Moldando o grande sonho em forma eterna.
Todos desejam essa alegria perfeita
Da forma em que se transfunda, num jato, a substância
Do momento imortal, único, entre os dois limites extremos e inúteis do tempo fugaz.
O grande céu azul desfolhado no espaço!
O homem pequeno e louco
E o barro úmido às mãos do oleiro cego!)
Expressar cada um
O seu minuto culminante de beleza,
O seu instante de bondade extrema,
O seu momento de heroísmo,
Na subitânea íntegra pureza
De uma forma imperecível!
Como o coágulo de luz no diamante sem jaça,
Qual se a gota de orvalho, porventura,
Imagem matinal do sorriso da luz,
Se condenasse repentinamente.
Não a forma perfeita,
Porém aquela, exata e duradoura,
De um ápice de síntese.
Forma que se transfunda, num jato, a substância
De um momento imortal entre dois limites inúteis do tempo fugaz.
Uma forma que seja — nos limites do vário e mutável — perene.
E possa traduzir a integração, a plenitude e a culminância
Do glorioso momento da vida:
O desejo de fixar o efêmero para o tornar eterno.
Como o oleiro inocente, com as mãos carregadas de sonho,
Procurar transmitir ao barro paciente,
Numa manhã feliz em que os deuses se vestem de luz,
O movimento, a vida, a elástica e nervosa agilidade
Da asa de um pássaro voando...
E o pintor, com os olhos impregnados de cores viventes,
Anseia revelar, numa combinação imprevista de tintas,
Em que a luz e a névoa se misturem,
E a virgindade da manhã se case
À difusa tristeza do crepúsculo,
Num tom maravilhoso,
O úmido olhar do amor que pecou por prazer...
E o músico, de coração sangrante de harmonias,
Tenta subjugar, num acorde que encerre
O resumo de todas as únicas notas supremas
Arrancadas das cordas soluçantes
Dos violinos de todos os artistas
Que morreram em êxtase de sonho.
A expressão musical das primeiras estrelas
Que iluminam o silêncio da tarde,
Como lágrimas de adolescentes...
E o atleta, que tem o sentido dos ritmos nos músculos submissos,
Busca perpetuar, numa imagem que esplenda
Clara e vibrátil como uma ode pindárica,
E tenha a assustadora beleza da vitória sobre a morte,
Ao pasmo olhar da multidão de fôlego suspenso,
O salto sobre o abismo.
E o herói, que mede o valor da vida pela beleza oportuna da morte,
Ambiciona cunhar, numa imagem que ostente
O soberano orgulho do desprezo
E a coragem consciente do perigo,
O simbólico exemplo
Do primeiro soldado que tombou
Com um sorriso nos lábios e uma rosa de sangue no peito.
E o santo que transcende as leis humanas
Aspira a eternizar, numa imagem que seja,
A própria infinitude de todos os êxtases
E todas as bondades sem nenhuma recompensa
O gesto irrepetível
Do instante de humildade e de renúncia
Em que se debruçou para beijar o leproso na boca,
Como um lírio num charco...
E o poeta, flauta cheia do sopro divino
Quer reunir, a um acesso instintivo de forças genésicas
Num canto absoluto
o irrelevado espírito das coisas,
A harmonia que ninguém ousou captar,
A beleza invisível para os outros.
E o lavrador, que espera a bendição de Deus,
Deseja aprender, numa imagem que vibre
Como a entranha da agreste companheira
Sob as primícias da maternidade,
A alegria da terra,
Rasgando o próprio seio sem doer
Para as eclosões das primeiras sementes.
Como o oleiro o seu momento de inocência criadora,
E o pintor, o seu momento de domínio incomparável da matéria plástica,
E o músico o seu momento de cósmica integração,
E o atleta o seu momento de vitória espetacular,
E o santo o seu momento de êxtase supremo
E o lavrador, o seu momento de esperança milagrosa
E o poeta o momento de seu canto absoluto
Todos aspiram a perpetuar-se
Moldando o grande sonho em forma eterna.
Todos desejam essa alegria perfeita
Da forma em que se transfunda, num jato, a substância
Do momento imortal, único, entre os dois limites extremos e inúteis do tempo fugaz.
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