Poemas neste tema
Árvores, florestas e montanhas
Eduardo Valente da Fonseca
Deve-se amar o perto
O homem
chegou à lua, e ao sol
e ao fundo do mar,
e só Londres tem a população do meu país,
e nisso nem há mal...
mas quando eu vou a Barroselas do Minho
e a D. Felisbina me recebe contente
na Primavera da sua quinta,
eu só penso na D. Felisbina
e amo a sua cabeça branca.
depois vou passear pelos sítios do ano passado,
e cada folha é um universo.
Então o sol esconde-se
e é a vez dos pinheiros serem divinos sob as estrelas.
chegou à lua, e ao sol
e ao fundo do mar,
e só Londres tem a população do meu país,
e nisso nem há mal...
mas quando eu vou a Barroselas do Minho
e a D. Felisbina me recebe contente
na Primavera da sua quinta,
eu só penso na D. Felisbina
e amo a sua cabeça branca.
depois vou passear pelos sítios do ano passado,
e cada folha é um universo.
Então o sol esconde-se
e é a vez dos pinheiros serem divinos sob as estrelas.
951
Angela Santos
Ao Sul
Nas
terras do sul
há uma lonjura que entra pelos olhos
Instala-se na alma e deixa-se ficar
Nas terras do sul
há homens cansados, colados às paredes
brancas de cal lisa
A planície entende-se e lembra o mar
outras vezes lembra
um deserto vasto a perder de vista
E os homens do sul
cansados de olhar o que foi planície
e parece mar
quando o sol abrasa perdem-se na miragem
que os desertos guardam
Nas terras do sul
há um destino vago e dias de incerteza
e é junto às árvores
que se erguem a prumo e a sombra espelham
que param cansados e choram a terra
com seu olhar vago, seu olhar sem rumo
E na corda a prumo que à arvore se enlaça
em silencio acenam um ultimo adeus
ao sol, à planície, ao vazio ao mundo.
terras do sul
há uma lonjura que entra pelos olhos
Instala-se na alma e deixa-se ficar
Nas terras do sul
há homens cansados, colados às paredes
brancas de cal lisa
A planície entende-se e lembra o mar
outras vezes lembra
um deserto vasto a perder de vista
E os homens do sul
cansados de olhar o que foi planície
e parece mar
quando o sol abrasa perdem-se na miragem
que os desertos guardam
Nas terras do sul
há um destino vago e dias de incerteza
e é junto às árvores
que se erguem a prumo e a sombra espelham
que param cansados e choram a terra
com seu olhar vago, seu olhar sem rumo
E na corda a prumo que à arvore se enlaça
em silencio acenam um ultimo adeus
ao sol, à planície, ao vazio ao mundo.
988
Angela Santos
Cume
E
tudo o que eu quiser
posso!
fronteiras a mim cabe
derrubá-las…
rasgo um voo que me leva
a rasar a tempestade,
de mim parto a mim regresso
não sei onde está o fim
da ousadia que teço..
sem grilhões o voo é plano,
olho os escombros de cima
o lance ousado deu-me asas
para sobrevoar o abismo..
Do voo raso ensaio
o voo que a águia lança
e do cimo da montanha,
que passo a passo é subida,
vejo quão longe se alcança
quão fundo e alto se atinge
o fundo de onde viemos
o cume que pressentimos.
tudo o que eu quiser
posso!
fronteiras a mim cabe
derrubá-las…
rasgo um voo que me leva
a rasar a tempestade,
de mim parto a mim regresso
não sei onde está o fim
da ousadia que teço..
sem grilhões o voo é plano,
olho os escombros de cima
o lance ousado deu-me asas
para sobrevoar o abismo..
Do voo raso ensaio
o voo que a águia lança
e do cimo da montanha,
que passo a passo é subida,
vejo quão longe se alcança
quão fundo e alto se atinge
o fundo de onde viemos
o cume que pressentimos.
1 182
Odylo Costa Filho
A Meu Filho
Recorro a ti para não separar-me
deste chão de sargaços mas de flores,
onde há bichos que amaste e mais os frutos
que com tuas mãos plantavas e colhias.
Por essas mãos te peço que me ajudes
e que afastes de mim com os dentes alvos
do teu riso contido mas presente
a tentação da morte voluntária.
Não deixes, filho meu, que a dor de amar-te
me tire o gosto do terreno barro
e a coragem dos lúcidos deveres.
Que estas árvores guardam, no céu puro,
entre rastros de estrelas, a lembrança
dos teus humanos olhos deslumbrados.
deste chão de sargaços mas de flores,
onde há bichos que amaste e mais os frutos
que com tuas mãos plantavas e colhias.
Por essas mãos te peço que me ajudes
e que afastes de mim com os dentes alvos
do teu riso contido mas presente
a tentação da morte voluntária.
Não deixes, filho meu, que a dor de amar-te
me tire o gosto do terreno barro
e a coragem dos lúcidos deveres.
Que estas árvores guardam, no céu puro,
entre rastros de estrelas, a lembrança
dos teus humanos olhos deslumbrados.
1 216
Luiz Felipe Coelho
Talvez um conto de Andersen
Há silenciosos
bosques na memória,
tão solenes que lá os deuses não entram,
vida e morte congelados em denso nevoeiro
a confundir o eterno ciclo do tempo.
Tenebrosas fábulas os povoam
imagens de trevas, feitiços e bruxas
árvores que perderam a casca:
seu duro interior exposto rejeita marcas
de canivetes de namorados,
folhas sêcas não mais beijadas pela luz do Sol
esperam inutilmente ventos que as levarão
para longe,
para fora dos densos remansos,
para dentro do eterno reciclar dos insetos,
das bactérias e dos cogumelos,
galhos e troncos onde nunca crianças subirão
e que cansaram de se erguer para o céu.
Quando lá entramos
vindos dos longos corredores do sonho
sentimos o frio terror do reverso do espelho
e ouvimos o convite do cansaço
para deitar, para dormir,para o final.
bosques na memória,
tão solenes que lá os deuses não entram,
vida e morte congelados em denso nevoeiro
a confundir o eterno ciclo do tempo.
Tenebrosas fábulas os povoam
imagens de trevas, feitiços e bruxas
árvores que perderam a casca:
seu duro interior exposto rejeita marcas
de canivetes de namorados,
folhas sêcas não mais beijadas pela luz do Sol
esperam inutilmente ventos que as levarão
para longe,
para fora dos densos remansos,
para dentro do eterno reciclar dos insetos,
das bactérias e dos cogumelos,
galhos e troncos onde nunca crianças subirão
e que cansaram de se erguer para o céu.
Quando lá entramos
vindos dos longos corredores do sonho
sentimos o frio terror do reverso do espelho
e ouvimos o convite do cansaço
para deitar, para dormir,para o final.
842
Luiz Felipe Coelho
Colinas
Suaves morros se sucediam
-verdes pastos,
raros bois,
desertos de capim-
e exibiam silenciosos discursos
aos que passavam na estrada.
Sim,
já tinham sido cobertos por imensas matas
a darem trabalho para índios,
bandeirantes, padres e quem mais
desejasse atravessá-las.
Sim,
já tinham visto o ouro de Minas fluir,
tropas de burros com soldados,
civis e agentes do distante Rei,
seus passos ecoando em trilhas e vales.
Sim,
já tinham sido vastos cafezais
de dominadores barões do Império,
enquanto o café seguia para longe,
por longos trilhos e dormentes hoje insones.
Pessoas inumeráveis
também murmuravam inaudíveis silêncios:
índios e caciques, brancos e escravos,
pobres e ricos, ingleses e caboclos,
mestiços e barões, todos já mandaram
e já obedeceram, já respiraram
e já os esquecemos.
Matas, ouro, plantações, pessoas...
muito viveu e muito desapareceu.
Das vidas sacrificadas pelo tempo,
nada sabemos, suas gargalhada e choros
não mais ecoam, suas tristezas e felicidades
desapareceram. O opaco presente silencia,
invisível alambique a destilar
esquecimento e ternura.
Só o céu, o mesmo céu azul e frio,
nos envolve com o mesmo manto de silêncios,
nos contamina com o que nada mais é,
e falamos.
Ou talvez calemos, não sabendo
se tremeremos inquietos pelo passado
ou pelo futuro, não sabendo
que perguntas acordarão o gênio maligno
que Salomão aprisionou na garrafa
e o jogou no esquecimento do oceano.
Algum dia seremos também punidos
com o eterno desaparecimento,
tudo será deserto à nossa volta,
tudo será esquecido. Então, alguém,
passando por alguma estrada se interrogará
sobre os mundos desaparecidos
e sobre os que os habitavam.
E nós também os olharemos,
invisíveis.
-verdes pastos,
raros bois,
desertos de capim-
e exibiam silenciosos discursos
aos que passavam na estrada.
Sim,
já tinham sido cobertos por imensas matas
a darem trabalho para índios,
bandeirantes, padres e quem mais
desejasse atravessá-las.
Sim,
já tinham visto o ouro de Minas fluir,
tropas de burros com soldados,
civis e agentes do distante Rei,
seus passos ecoando em trilhas e vales.
Sim,
já tinham sido vastos cafezais
de dominadores barões do Império,
enquanto o café seguia para longe,
por longos trilhos e dormentes hoje insones.
Pessoas inumeráveis
também murmuravam inaudíveis silêncios:
índios e caciques, brancos e escravos,
pobres e ricos, ingleses e caboclos,
mestiços e barões, todos já mandaram
e já obedeceram, já respiraram
e já os esquecemos.
Matas, ouro, plantações, pessoas...
muito viveu e muito desapareceu.
Das vidas sacrificadas pelo tempo,
nada sabemos, suas gargalhada e choros
não mais ecoam, suas tristezas e felicidades
desapareceram. O opaco presente silencia,
invisível alambique a destilar
esquecimento e ternura.
Só o céu, o mesmo céu azul e frio,
nos envolve com o mesmo manto de silêncios,
nos contamina com o que nada mais é,
e falamos.
Ou talvez calemos, não sabendo
se tremeremos inquietos pelo passado
ou pelo futuro, não sabendo
que perguntas acordarão o gênio maligno
que Salomão aprisionou na garrafa
e o jogou no esquecimento do oceano.
Algum dia seremos também punidos
com o eterno desaparecimento,
tudo será deserto à nossa volta,
tudo será esquecido. Então, alguém,
passando por alguma estrada se interrogará
sobre os mundos desaparecidos
e sobre os que os habitavam.
E nós também os olharemos,
invisíveis.
884
Sidney Neto
O Solar dos Heróis
Cearenses, vocês querem ver
de bem perto um grande poema?
É tão fácil!
Cavalguem, como eu,
num dia de fogo vivo,
meu alazão dourado,
os quatro pés calçados,
estrela branca à testa,
sinal encoberto,
galopando no meio dos turvos redemoinhos rasgando,
verrumando,
o céu azul muito sereno,
sobre um pedregulho em brasas acesas,
de bronze dos heróis!
ladeando árvores incendiadas pelo sol em chama,
de Orós a Jaguaribe!
Arapongas, nos capões dos cerros, ao longe
batem bigornas, aperfeiçoando espadas guerreiras!
Nuvens de pombais em bando
passam tatalando as grandes asas
Cigarras, chiando, chiando, retinindo,
cantando hinos de vitória!
Ao lado esquerdo de quem vai,
bem do lado do coração,
a gente vê, feliz,
por trás de uma saliência de terra abençoada,
como um ninho de condores,
um velho solar encantado!...
Cearenses, eu senti, como nunca, o Brasil,
porque ali nasceu Juarez, ali nasceu Fernando,
ali nasceu Joaquim Távora!
de bem perto um grande poema?
É tão fácil!
Cavalguem, como eu,
num dia de fogo vivo,
meu alazão dourado,
os quatro pés calçados,
estrela branca à testa,
sinal encoberto,
galopando no meio dos turvos redemoinhos rasgando,
verrumando,
o céu azul muito sereno,
sobre um pedregulho em brasas acesas,
de bronze dos heróis!
ladeando árvores incendiadas pelo sol em chama,
de Orós a Jaguaribe!
Arapongas, nos capões dos cerros, ao longe
batem bigornas, aperfeiçoando espadas guerreiras!
Nuvens de pombais em bando
passam tatalando as grandes asas
Cigarras, chiando, chiando, retinindo,
cantando hinos de vitória!
Ao lado esquerdo de quem vai,
bem do lado do coração,
a gente vê, feliz,
por trás de uma saliência de terra abençoada,
como um ninho de condores,
um velho solar encantado!...
Cearenses, eu senti, como nunca, o Brasil,
porque ali nasceu Juarez, ali nasceu Fernando,
ali nasceu Joaquim Távora!
352
Nana Corrêa de Lima
São Tomé das Letras
São Tomé das Letras
Me calo frente ao teu verde.
Pedra ramada verde-amarela.
Fonte telúrica,
No seio da serra.
Me calo frente ao teu verde.
Pedra ramada verde-amarela.
Fonte telúrica,
No seio da serra.
1 451
Quintino Cunha
Comunhão da Serra
Ontem, à noite, eu vi a minha Serra,
Como uma virgem, trêmula, contrita,
Recebendo de Deus, daqui da terra,
Uma hóstia do Céu, hóstia bendita.
Como foi, para vê-la assim? De neves
Era o véu transparente, que a cobria,
Vendo-se aqui e ali negros tons leves,
Do negro que do verde aparecia.
Tons negros, talvez restos, que os comparo,
De alguma nuvem torva, esfacelada
Por Deus, que só queria o Céu bem claro,
Porque ia dar a hóstia consagrada!
o cafeeiral, que rebentava em flores,
A grinalda na fronte lhe brotava;
E o frio, rebento dos temores,
No seu intimo, o frio rebentava!
Assim a Natureza era o sacrário,
De onde Deus dava a comunhão radiosa
À Serra! E era o Céu o grande hostiário
E era a lua, a hóstia luminosa.
E digam que eu não vi a minha Serra,
Como uma virgem, de grinalda e véu,
Recebendo de Deus, daqui da terra,
A hóstia luminosa lá do Céu!
Como uma virgem, trêmula, contrita,
Recebendo de Deus, daqui da terra,
Uma hóstia do Céu, hóstia bendita.
Como foi, para vê-la assim? De neves
Era o véu transparente, que a cobria,
Vendo-se aqui e ali negros tons leves,
Do negro que do verde aparecia.
Tons negros, talvez restos, que os comparo,
De alguma nuvem torva, esfacelada
Por Deus, que só queria o Céu bem claro,
Porque ia dar a hóstia consagrada!
o cafeeiral, que rebentava em flores,
A grinalda na fronte lhe brotava;
E o frio, rebento dos temores,
No seu intimo, o frio rebentava!
Assim a Natureza era o sacrário,
De onde Deus dava a comunhão radiosa
À Serra! E era o Céu o grande hostiário
E era a lua, a hóstia luminosa.
E digam que eu não vi a minha Serra,
Como uma virgem, de grinalda e véu,
Recebendo de Deus, daqui da terra,
A hóstia luminosa lá do Céu!
1 653
Gilberto Gil
Flora
Imagino-te já idosa
Frondosa toda a folhagem
Multiplicada a ramagem
De agora
Tendo tudo transcorrido
Flores e frutos da imagem
Com que faço essa viagem
Pelo reino do teu nome
Ó, Flora
Imagino-te jaqueira
Postada à beira da estrada
Velha, forte, farta, bela
Senhora
Pelo chão, muitos caroços
Como que restos dos nossos
Próprios sonhos devorados
Pelo pássaro da aurora
Ó, Flora
Imagino-te futura
Ainda mais linda, madura
Pura no sabor de amor e
De amora
Toda aquela luz acesa
Na doçura e na beleza
Terei sono, com certeza
Debaixo da tua sombra
Ó, Flora
Frondosa toda a folhagem
Multiplicada a ramagem
De agora
Tendo tudo transcorrido
Flores e frutos da imagem
Com que faço essa viagem
Pelo reino do teu nome
Ó, Flora
Imagino-te jaqueira
Postada à beira da estrada
Velha, forte, farta, bela
Senhora
Pelo chão, muitos caroços
Como que restos dos nossos
Próprios sonhos devorados
Pelo pássaro da aurora
Ó, Flora
Imagino-te futura
Ainda mais linda, madura
Pura no sabor de amor e
De amora
Toda aquela luz acesa
Na doçura e na beleza
Terei sono, com certeza
Debaixo da tua sombra
Ó, Flora
2 696
Ferro do Lago
Canção Pagã
Os meus olhos caíram
sobre o teu corpo
numa bênção pagã
ungida de desejos.
O meu coração pulsa
no seio das montanhas.
Arde em chamas o gelo
dos círculos polares.
Hirtas, as árvores
despiram-se das folhas,
que o vento varreu
com meus cinco sentidos.
Lateja o meu sangue
nas veias dos regatos.
O sol cobriu o rosto
com o sudário dos nimbos.
No lago plúmbeo
bóia o teu corpo,
bóia entre espumas.
sobre o teu corpo
numa bênção pagã
ungida de desejos.
O meu coração pulsa
no seio das montanhas.
Arde em chamas o gelo
dos círculos polares.
Hirtas, as árvores
despiram-se das folhas,
que o vento varreu
com meus cinco sentidos.
Lateja o meu sangue
nas veias dos regatos.
O sol cobriu o rosto
com o sudário dos nimbos.
No lago plúmbeo
bóia o teu corpo,
bóia entre espumas.
930
Goulart de Andrade
Kosmos
Tens a aurora na boca e a noite escura
Nos olhos; no cabelo em desalinho.
O mar bravo, a floresta, o torvelinho;
E as neves da montanha em tua alvura
Possuis na voz a música e a frescura
Da água corrente; o sussurrar do ninho
Na surdina sutil do teu carinho,
Em que o calor ao travo se mistura...
Cheiras como um vergel! Tens a tristeza
De uma tarde hibernal, em que anda imerso
Teu amor — meu algoz e minha presa —
Em tua alma e teu corpo acha meu verso
Todas as convulsões da natureza
E as harmonias todas do universo.
Nos olhos; no cabelo em desalinho.
O mar bravo, a floresta, o torvelinho;
E as neves da montanha em tua alvura
Possuis na voz a música e a frescura
Da água corrente; o sussurrar do ninho
Na surdina sutil do teu carinho,
Em que o calor ao travo se mistura...
Cheiras como um vergel! Tens a tristeza
De uma tarde hibernal, em que anda imerso
Teu amor — meu algoz e minha presa —
Em tua alma e teu corpo acha meu verso
Todas as convulsões da natureza
E as harmonias todas do universo.
1 397
Carlyle Martins
Tapera
É quase ruína em meio à selva espessa e bruta,
Dentro da solidão, sem amparo e sem dono,
A tapera que, no ermo, unicamente escuta,
O vento a perpassar, na indolência do outono.
Noite morta. Em redor, o matagal se enluta.
Há um sombrio torpor de tristeza e abandono,
Como se a alma da terra, após contínua luta,
No silêncio dormisse um prolongado sono.
Passam, no alto, a cantar, aves de mau agouro...
Tudo quieto. Há uni mistério, uma angústia infinita,
No véu da escuridão, que no espaço se eleva.
Não brilham no céu plúmbeo e triste os astros de ouro!
E ela, na solitude em que a saudade habita,
É um es erro ue assombra o próprio horror da treva.
Dentro da solidão, sem amparo e sem dono,
A tapera que, no ermo, unicamente escuta,
O vento a perpassar, na indolência do outono.
Noite morta. Em redor, o matagal se enluta.
Há um sombrio torpor de tristeza e abandono,
Como se a alma da terra, após contínua luta,
No silêncio dormisse um prolongado sono.
Passam, no alto, a cantar, aves de mau agouro...
Tudo quieto. Há uni mistério, uma angústia infinita,
No véu da escuridão, que no espaço se eleva.
Não brilham no céu plúmbeo e triste os astros de ouro!
E ela, na solitude em que a saudade habita,
É um es erro ue assombra o próprio horror da treva.
902
Carlyle Martins
A Ninfa
No bosque silencioso em que se inflama
o alto sol e onde as árvores em torno
Se condensam, formando implexa rama,
Passa um corpo de Ninfa, esbelto e morno.
É noite. Um luar de opala se derrama...
Nas clareiras, a Ninfa, — excelso adorno — ,
Teme um Sátiro audaz, de olhar em chama,
Que a persegue dos lagos no contorno.
Corre a Ninfa sutil no ermo do bosque
Através da intrincada ramaria,
Embora o mato às pernas se lhe enrosque,
Fugindo ao capro, célere recua:
— Do olhar mostrando a fulva pedraria
E o sereno esplendor da carne nua.
o alto sol e onde as árvores em torno
Se condensam, formando implexa rama,
Passa um corpo de Ninfa, esbelto e morno.
É noite. Um luar de opala se derrama...
Nas clareiras, a Ninfa, — excelso adorno — ,
Teme um Sátiro audaz, de olhar em chama,
Que a persegue dos lagos no contorno.
Corre a Ninfa sutil no ermo do bosque
Através da intrincada ramaria,
Embora o mato às pernas se lhe enrosque,
Fugindo ao capro, célere recua:
— Do olhar mostrando a fulva pedraria
E o sereno esplendor da carne nua.
2 078
Antônio Sales
Terra de Sol
O áureo malho do sol bate na incude
Da rocha estriada de malacachetas,
E mil faíscas, nesse embate rude,
Se desprendem das rútilas facetas.
Sem uma sombra amiga que as escude
Contra a soalheira, que abre o chão em gretas,
Buscam sedentas o longínquo açude
Vacas ossudas de engelhadas tetas,
É de ouro fulvo a grama ressequida;
A estrada poenta, em sinal de viga
Para os sertões intérminos se alonga...
E na mudez da abóbada infinita
Ouvi: parece que é a luz que grita
No tinido estridente da araponga.
Da rocha estriada de malacachetas,
E mil faíscas, nesse embate rude,
Se desprendem das rútilas facetas.
Sem uma sombra amiga que as escude
Contra a soalheira, que abre o chão em gretas,
Buscam sedentas o longínquo açude
Vacas ossudas de engelhadas tetas,
É de ouro fulvo a grama ressequida;
A estrada poenta, em sinal de viga
Para os sertões intérminos se alonga...
E na mudez da abóbada infinita
Ouvi: parece que é a luz que grita
No tinido estridente da araponga.
1 548
Vivaldo Beldade
A Morte da Arvore
Leio nos teus ramos desnudados
e nas hastes quebradas
a luta travada na noite em que tombaste.
As tuas veias sem sangue
trazem-me aos sentidos a sinfonia da morte
no último acorde da tempestade.
Arvore agonizante,
eu sinto a dor da última folha que te abandona
e a prece desesperada do fim
na última lágrima que aspiras à terra.
e nas hastes quebradas
a luta travada na noite em que tombaste.
As tuas veias sem sangue
trazem-me aos sentidos a sinfonia da morte
no último acorde da tempestade.
Arvore agonizante,
eu sinto a dor da última folha que te abandona
e a prece desesperada do fim
na última lágrima que aspiras à terra.
1 053
Maria Thereza Noronha
Palavras
O poeta nas montanhas arma a tenda. Estende os olhos sobre o abismo, apruma as asas, espera. O peito entoca o inquieto pássaro. O vento breve traz as palavras. Espalhadas na relva, ele as recolhe, ajunta, separa: cada uma com seu sol interior, sua recôndita lenda, os matizes à espreita de propícia luz onde se apurem. O poeta desentoca o pássaro e vai bicando as letras, alinhando-as, brunindo-as, tecendo ali um colar de sílabas, aqui um diadema de signos, uma tiara de imagens - um poema.
O pássaro sobrevoa as montanhas, ultrapassando-as. Tem nas vértebras a vertigem do verso, e vai levando-o para outras paragens: praias, planícies, planaltos, vales.
O pássaro sobrevoa as montanhas, ultrapassando-as. Tem nas vértebras a vertigem do verso, e vai levando-o para outras paragens: praias, planícies, planaltos, vales.
993
Silvestre Péricles de Góis Monteiro
Das montanhas
As montanhas, que vês, são rasgos de conquistas,
- o arroubo mineral às alturas supremas.
Elas trazem no seio a centêlha imprevista
da persistência ideal a refulgir em poemas.
E sempre as convulsiona o gênio imperialista
do domínio rochaz as ascensões extremas.
Daí, por elas só - armas que a força enrista -
a audácia dos vulcões, dos aludes, das gemas...
As montanhas - palor nevado, a espaços... longes
branqueamentos sem fim nas cristas milenárias:
a sombra dos heróis, dos mártires, dos monges...
E, ao vencer a distância, o mistério da morte,
ei-las dentro do Sonho, altivas, legendárias,
ensinando a ser nobre, a ser grande, a ser forte !
.
- o arroubo mineral às alturas supremas.
Elas trazem no seio a centêlha imprevista
da persistência ideal a refulgir em poemas.
E sempre as convulsiona o gênio imperialista
do domínio rochaz as ascensões extremas.
Daí, por elas só - armas que a força enrista -
a audácia dos vulcões, dos aludes, das gemas...
As montanhas - palor nevado, a espaços... longes
branqueamentos sem fim nas cristas milenárias:
a sombra dos heróis, dos mártires, dos monges...
E, ao vencer a distância, o mistério da morte,
ei-las dentro do Sonho, altivas, legendárias,
ensinando a ser nobre, a ser grande, a ser forte !
.
759
Rodrigo Carvalho
Descrição
à meu irmão, Márcio Carvalho Góes
Tu és como o úmido gosto de terra:
diferente em cada época.
Mas não perdes o gosto pela terra.
Tu és terra!
Ao seu duro itinerário, o prazer matinal,
junta-se ao suspiro da madrugada.
Ainda é madrugada quando te levantas!
E sai pela estrada. . .
A paisagem diverge:
bois, cavalos, foices, braços, flores molhadas,
e os casebres caindo,
na êrma da manhã.
E roupas coloridas, ao longe, dançam nas cercas.
Teu sangue corre como uma boiada,
num grande galope,
ao longo do horizonte. . .
Teu nome.
Teu nome,
num breve erro ortográfico,
sôa macio. . .
Macio como o chão que pisas.
Chão verde.
Cheiro de mato.
E tua mente modela os animais.
Grandes animais,
sem passado, sem futuro.
Apenas com o peso que lhe importa.
Mas o dia, aos poucos, se desmancha.
E no teu campo,
verde campo,
um campo de estrelas irá brotando,
pouco a pouco,
até que tu voltes. . .
Campo: teu continuar da vida!
Salvador, 14 de março de 1995
Tu és como o úmido gosto de terra:
diferente em cada época.
Mas não perdes o gosto pela terra.
Tu és terra!
Ao seu duro itinerário, o prazer matinal,
junta-se ao suspiro da madrugada.
Ainda é madrugada quando te levantas!
E sai pela estrada. . .
A paisagem diverge:
bois, cavalos, foices, braços, flores molhadas,
e os casebres caindo,
na êrma da manhã.
E roupas coloridas, ao longe, dançam nas cercas.
Teu sangue corre como uma boiada,
num grande galope,
ao longo do horizonte. . .
Teu nome.
Teu nome,
num breve erro ortográfico,
sôa macio. . .
Macio como o chão que pisas.
Chão verde.
Cheiro de mato.
E tua mente modela os animais.
Grandes animais,
sem passado, sem futuro.
Apenas com o peso que lhe importa.
Mas o dia, aos poucos, se desmancha.
E no teu campo,
verde campo,
um campo de estrelas irá brotando,
pouco a pouco,
até que tu voltes. . .
Campo: teu continuar da vida!
Salvador, 14 de março de 1995
1 016
João Augusto Sampaio
Índia
Nunca houve,
Não há,
Nem jamais haverá
Fila indiana mais bela e malemolente
Que o coqueiral entre as dunas do Rio Capivara Grande e o Atlântico,
Na Aldeia Hippie de Arembepe,
Quando visto de sudoeste,
Banhado pela luz das 5:15 nas tardes de Verão.
Jamais verão.
Aldeia Hippie, cinco e quinze da tarde de 1/1/1997 AD
Não há,
Nem jamais haverá
Fila indiana mais bela e malemolente
Que o coqueiral entre as dunas do Rio Capivara Grande e o Atlântico,
Na Aldeia Hippie de Arembepe,
Quando visto de sudoeste,
Banhado pela luz das 5:15 nas tardes de Verão.
Jamais verão.
Aldeia Hippie, cinco e quinze da tarde de 1/1/1997 AD
894
Sousa Caldas
Salmo I, de Davi
Feliz aquele que os ouvidos cerra
A malvados conselhos,
E não caminha pela estrada iníqua
Do pecador infame,
Nem se encosta orgulhoso na cadeira
Pelo vício empestada;
Mas na lei do Senhor fitando os olhos,
A revolve e medita,
Na tenebrosa noite e claro dia.
A fortuna e a desgraça,
Tudo parece a seu sabor moldar-se:
Ele é, qual tenro arbusto,
Plantado à margem de um ribeiro ameno,
Que de virentes folhas
A erguida frente bem depressa ornando,
Na sazão oportuna,
De frutos curva os suculentos ramos.
Não sois assim. ó ímpios;
Mas qual o leve pó que o vento assopra,
Aos ares alevanta,
E abate, e espalha, e com furor dissipa.
Por isso, vos espera
O dia da vingança, e o frio sangue
Vos coalhará de susto;
Nem surgireis, de glória revestidos,
Na assembléia dos justos;
O Senhor da virtude é firme esteio,
Enquanto o ímpio corre,
De horríssonas procelas combatido,
A naufragar sem tino.
A malvados conselhos,
E não caminha pela estrada iníqua
Do pecador infame,
Nem se encosta orgulhoso na cadeira
Pelo vício empestada;
Mas na lei do Senhor fitando os olhos,
A revolve e medita,
Na tenebrosa noite e claro dia.
A fortuna e a desgraça,
Tudo parece a seu sabor moldar-se:
Ele é, qual tenro arbusto,
Plantado à margem de um ribeiro ameno,
Que de virentes folhas
A erguida frente bem depressa ornando,
Na sazão oportuna,
De frutos curva os suculentos ramos.
Não sois assim. ó ímpios;
Mas qual o leve pó que o vento assopra,
Aos ares alevanta,
E abate, e espalha, e com furor dissipa.
Por isso, vos espera
O dia da vingança, e o frio sangue
Vos coalhará de susto;
Nem surgireis, de glória revestidos,
Na assembléia dos justos;
O Senhor da virtude é firme esteio,
Enquanto o ímpio corre,
De horríssonas procelas combatido,
A naufragar sem tino.
1 167
Roberto Pontes
As Raízes
As raízes explicam sempre as folhas
adidas aos ramos projetados,
e nelas, a essência bruxuleia.
Da sua duração subterrânea
vem o vago e o complexo das plantas
onde apanho o real pelos cabelos.
adidas aos ramos projetados,
e nelas, a essência bruxuleia.
Da sua duração subterrânea
vem o vago e o complexo das plantas
onde apanho o real pelos cabelos.
683
Rogério F. P.
Oh, mulher triste!
Oh, mulher triste!
Sua tez fúnebre relembra
a palidez das mais altas montanhas
em seu cume. E ao mais álgido
mármore causas inveja.
Sopesa as tristezas infindas provenientes da alma.
E a angústia resultante aplacas com a calma, que
pela vastidão, se percebe embotados nesses olhos de anil.
Oh, mulher de olhos fulgurantes!
Se a morte tivesse consciência
de sua implícita beleza
jamais a levaria nesta noite calma de amantes.
Sua tez fúnebre relembra
a palidez das mais altas montanhas
em seu cume. E ao mais álgido
mármore causas inveja.
Sopesa as tristezas infindas provenientes da alma.
E a angústia resultante aplacas com a calma, que
pela vastidão, se percebe embotados nesses olhos de anil.
Oh, mulher de olhos fulgurantes!
Se a morte tivesse consciência
de sua implícita beleza
jamais a levaria nesta noite calma de amantes.
786
Rosa Bruno
Senor Montado
Senhor da solidão, da soledade, Senhor Montado!...
Lembro os medonhos fragores
Das suas trovoadas,
Que pareciam mesmo zangas
Zangas da sua austera majestade...
Lembro as bolotas doces,
Melhores que castanhas das melhores,
Das suas tristonhas azinheiras,
Senhoras graves, nobres de maneiras...
Lembro os seus pastores,
Estáticos, altivos,
Dos rebanhos enormes, seus rebanhos,
Ai nos meus olhos tão vivos!...
E os silêncios infinitos
E os sois e os luares
Coados na ramagem...
E os troncos sangrentos, descarnados,
Escalpelo impiedoso do deus homem,
Nunca farto de carnagem...
E lembro-lhe ser-lhe sempre dedicado,
Sempre filho, sempre escravo,
Senhor da solidão, da soledade
Senhor Montado, de austera majestade...
Lembro os medonhos fragores
Das suas trovoadas,
Que pareciam mesmo zangas
Zangas da sua austera majestade...
Lembro as bolotas doces,
Melhores que castanhas das melhores,
Das suas tristonhas azinheiras,
Senhoras graves, nobres de maneiras...
Lembro os seus pastores,
Estáticos, altivos,
Dos rebanhos enormes, seus rebanhos,
Ai nos meus olhos tão vivos!...
E os silêncios infinitos
E os sois e os luares
Coados na ramagem...
E os troncos sangrentos, descarnados,
Escalpelo impiedoso do deus homem,
Nunca farto de carnagem...
E lembro-lhe ser-lhe sempre dedicado,
Sempre filho, sempre escravo,
Senhor da solidão, da soledade
Senhor Montado, de austera majestade...
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