Poemas neste tema
Casa e Lar
Silvestre Péricles de Góis Monteiro
Onze anos depois
Onze anos são passados. Nas campinas
verdes da estâancia há sombras perpassando:
sonhos, visões, lembranças e as divinas
inspirações de outrota, soluçando.
Frondeja o cinamomo, no odorando
calor da primavera. Suaves, finas,
as suas flores ficam arroxeando
aquelas solidões e as nossas sinas.
Entro na casa. O sol fulgura.
Mas, dentro de mim, há frêmitos dolentes
de incertezas, saudades e ternuras.
Surges, por fim. No teu olhar sem côres
releio o meu destino: estão presentes
nossas recordações e nossas dores.
verdes da estâancia há sombras perpassando:
sonhos, visões, lembranças e as divinas
inspirações de outrota, soluçando.
Frondeja o cinamomo, no odorando
calor da primavera. Suaves, finas,
as suas flores ficam arroxeando
aquelas solidões e as nossas sinas.
Entro na casa. O sol fulgura.
Mas, dentro de mim, há frêmitos dolentes
de incertezas, saudades e ternuras.
Surges, por fim. No teu olhar sem côres
releio o meu destino: estão presentes
nossas recordações e nossas dores.
867
Sinésio Cabral
Introspecção II
A vida, neste mundo, é mesmo passageira.
Certeza ninguém tem de estar vivo, amanhã.
O ímpio endeusa a matéria, ao encher a algibeira.
Longe o Povo de Deus de qualquer coisa vã.
A alma — sopro divino. O corpo, esfeito em poeira,
sob outra forma, um dia... A doutrina cristã,
dentro da BOA NOVA — a fonte verdadeira —
diz sobre o Bem e o Mal — no maior talismã.
Nesta minha rotina, há pesados encargos.
E, se não fosse Deus, como suportaria
ver-te a sofrer, também, momentos tão amargos!
Mas me ajudas, meu bem, na luta, noite e dia,
a carregar a cruz, em gestos sempre largos
e a trazer nosso lar em constante harmonia.
Certeza ninguém tem de estar vivo, amanhã.
O ímpio endeusa a matéria, ao encher a algibeira.
Longe o Povo de Deus de qualquer coisa vã.
A alma — sopro divino. O corpo, esfeito em poeira,
sob outra forma, um dia... A doutrina cristã,
dentro da BOA NOVA — a fonte verdadeira —
diz sobre o Bem e o Mal — no maior talismã.
Nesta minha rotina, há pesados encargos.
E, se não fosse Deus, como suportaria
ver-te a sofrer, também, momentos tão amargos!
Mas me ajudas, meu bem, na luta, noite e dia,
a carregar a cruz, em gestos sempre largos
e a trazer nosso lar em constante harmonia.
813
Renato Russo
Música De Trabalho
Sem trabalho eu não sou nada
Não tenho dignidade
Não sinto o meu valor
Não tenho identidade
Mas o que eu tenho é só um emprego
E um salário miserável
Eu tenho o meu ofício
Que me cansa de verdade
Tem gente que não tem nada
E outros que têm mais do que precisam
Tem gente que não quer saber de trabalhar
Mas quando chega o fim do dia
Eu só penso em descansar
E voltar pra casa, pros teus braços
Quem sabe esquecer um pouco
Todo o meu cansaço
Nossa vida não é boa
E nem podemos reclamar
Sei que existe injustiça
Eu sei o que acontece
Tenho medo da polícia
Eu sei o que acontece
Se você não segue as ordens
Se você não obedece
E não suporta o sofrimento
Está destinado à miséria
Mas isso eu não aceito
Eu sei o que acontece
E quando chega o fim do dia
Eu só penso em descansar
E voltar pra casa, pros teus braços
Quem sabe esquecer um pouco
Do pouco que não temos
Quem sabe esquecer um pouco
De tudo que não sabemos
Não tenho dignidade
Não sinto o meu valor
Não tenho identidade
Mas o que eu tenho é só um emprego
E um salário miserável
Eu tenho o meu ofício
Que me cansa de verdade
Tem gente que não tem nada
E outros que têm mais do que precisam
Tem gente que não quer saber de trabalhar
Mas quando chega o fim do dia
Eu só penso em descansar
E voltar pra casa, pros teus braços
Quem sabe esquecer um pouco
Todo o meu cansaço
Nossa vida não é boa
E nem podemos reclamar
Sei que existe injustiça
Eu sei o que acontece
Tenho medo da polícia
Eu sei o que acontece
Se você não segue as ordens
Se você não obedece
E não suporta o sofrimento
Está destinado à miséria
Mas isso eu não aceito
Eu sei o que acontece
E quando chega o fim do dia
Eu só penso em descansar
E voltar pra casa, pros teus braços
Quem sabe esquecer um pouco
Do pouco que não temos
Quem sabe esquecer um pouco
De tudo que não sabemos
2 385
Shinobu Saiki
Haicai
Chaminés lançam
fumaças da lareira,
Campos do Jordão.
Geada rude
brancura inclemente
Lua minguante
fumaças da lareira,
Campos do Jordão.
Geada rude
brancura inclemente
Lua minguante
999
Renato Russo
Por Enquanto
Mudaram as estações e nada mudou
Mas eu sei que alguma coisa aconteceu
Está tudo assim tão diferente
Se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar
Que tudo era prá sempre
Sem saber
Que o prá sempre
Sempre acaba ?
Mas nada vai conseguir mudar o que ficou
Quando penso em alguém
Só penso em você
E aí então estamos bem
Mesmo com tantos motivos prá deixar tudo como está
E nem desistir, nem tentar
Agora tanto faz
Estamos indo de volta
Prá casa
Mas eu sei que alguma coisa aconteceu
Está tudo assim tão diferente
Se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar
Que tudo era prá sempre
Sem saber
Que o prá sempre
Sempre acaba ?
Mas nada vai conseguir mudar o que ficou
Quando penso em alguém
Só penso em você
E aí então estamos bem
Mesmo com tantos motivos prá deixar tudo como está
E nem desistir, nem tentar
Agora tanto faz
Estamos indo de volta
Prá casa
2 035
Renato Russo
Depois do começo
Vamos deixar as janelas abertas
Deixar o equilíbrio ir embora
Cair como um saxofone na calçada
Amarrar um fio de cobre no pescoço
Acender um intervalo pelo filtro
Usar um extintor como lençol
Jogar pólo-aquático na cama
Ficar deslizando pelo teto
Da nossa casa cega e medieval
Cantar canções em línguas estranhas
Retalhar as cortinas desarmadas
Com a faca surda que a fé sujou
Desarmar os brinquedos indecentes
E a indecência pura dos retratos no salão
Vamos beber livros e mastigar tapetes
Catar pontas de cigarros nas paredes
Abrir a geladeira e deixar o vento sair
Cuspir um dia qualquer no futuro
De quem já desapareceu
Deus, Deus, somos todos ateus
Vamos cortar os cabelos do príncipe
E entregá-los a um deus plebeu
E depois do começo
O que vier vai começar a ser o fim.
Deixar o equilíbrio ir embora
Cair como um saxofone na calçada
Amarrar um fio de cobre no pescoço
Acender um intervalo pelo filtro
Usar um extintor como lençol
Jogar pólo-aquático na cama
Ficar deslizando pelo teto
Da nossa casa cega e medieval
Cantar canções em línguas estranhas
Retalhar as cortinas desarmadas
Com a faca surda que a fé sujou
Desarmar os brinquedos indecentes
E a indecência pura dos retratos no salão
Vamos beber livros e mastigar tapetes
Catar pontas de cigarros nas paredes
Abrir a geladeira e deixar o vento sair
Cuspir um dia qualquer no futuro
De quem já desapareceu
Deus, Deus, somos todos ateus
Vamos cortar os cabelos do príncipe
E entregá-los a um deus plebeu
E depois do começo
O que vier vai começar a ser o fim.
1 220
Renato Russo
O mundo anda tão complicado
Gosto de ver você dormir
Que nem criança com a boca aberta
O telefone chega sexta-feira
Aperta o passo, por causa da garoa
Me empresta um par de meias
A gente chega na sessão das dez
Hoje eu acordo ao meio-dia
Amanhã é a sua vez
Vem cá meu bem, que é bom lhe ver
O mundo anda tão complicado
Que hoje eu quero fazer tudo por você
Temos que consertar o despertador
E separar todas as ferramentas
A mudança grande chegou
Com o fogão e a geladeira e a televisão
Não precisamos dormir no chão
Até que é bom, mas a cama chegou na terça
E na quinta chegou o som
Sempre faço mil coisas ao mesmo tempo
E até que é fácil acostumar-se com o meu jeito
Agora que temos nossa casa
É a chave que sempre esqueço
Vamos chamar nossos amigos
A gente faz uma feijoada
Esquece um pouco do trabalho
E fica de bate-papo
Temos a semana inteira pela frente
Você me conta como foi seu dia
E a gente diz um pro outro:
- Estou com sono, vamos dormir !
Vem cá meu bem, que é bom lhe ver
O mundo anda tão complicado
Que hoje eu quero fazer tudo por você
Quero ouvir uma canção de amor
Que fale da minha situação
De quem deixou a segurança do seu mundo
Por amor
Por amor
Que nem criança com a boca aberta
O telefone chega sexta-feira
Aperta o passo, por causa da garoa
Me empresta um par de meias
A gente chega na sessão das dez
Hoje eu acordo ao meio-dia
Amanhã é a sua vez
Vem cá meu bem, que é bom lhe ver
O mundo anda tão complicado
Que hoje eu quero fazer tudo por você
Temos que consertar o despertador
E separar todas as ferramentas
A mudança grande chegou
Com o fogão e a geladeira e a televisão
Não precisamos dormir no chão
Até que é bom, mas a cama chegou na terça
E na quinta chegou o som
Sempre faço mil coisas ao mesmo tempo
E até que é fácil acostumar-se com o meu jeito
Agora que temos nossa casa
É a chave que sempre esqueço
Vamos chamar nossos amigos
A gente faz uma feijoada
Esquece um pouco do trabalho
E fica de bate-papo
Temos a semana inteira pela frente
Você me conta como foi seu dia
E a gente diz um pro outro:
- Estou com sono, vamos dormir !
Vem cá meu bem, que é bom lhe ver
O mundo anda tão complicado
Que hoje eu quero fazer tudo por você
Quero ouvir uma canção de amor
Que fale da minha situação
De quem deixou a segurança do seu mundo
Por amor
Por amor
1 545
Roberto Pontes
Ode à Cama
Então pode-se ouvir certo ruído
O doce farfalhar feito e desfeito
O cálido fluir do ser que é
Fundado sobre o cê e o verbo ama
A lânguida canção. Lida do leito.
Cama em que os filhos fiz
E onde virá baixar a morte
Lugar de amor, viagem, transe.
Oh! entre madeira, verniz e pano
Vai selada nossa vida e nossa sorte.
O doce farfalhar feito e desfeito
O cálido fluir do ser que é
Fundado sobre o cê e o verbo ama
A lânguida canção. Lida do leito.
Cama em que os filhos fiz
E onde virá baixar a morte
Lugar de amor, viagem, transe.
Oh! entre madeira, verniz e pano
Vai selada nossa vida e nossa sorte.
1 161
Pe. Osvaldo Chaves
Angelim Intacto
Cearense, 21.10.23, padre católico e
professor de línguas clássicas. Publicou
apenas parte de sua vasta obra poética, em
1986, sob o título Exíguas. Reside em
Sobral, CE., fone 088.611.06.68
A casa velha do Angelim,
Desfeita há muitos anos,
Resiste ao tempo, intacta, na memória.
O alpendre soma sombra
Com os cajueiros e o jenipapeiro,
Olhando ao sul o córrego da baixa.
Agora o quarto, com balcão e prateleiras,
Onde Gonçalo Pompe negociou.
A sala da varanda, a banca do oratório
Com São Gonçalo tosco esculpido em madeira.
O corredor e à esquerda a camarinha,
Alcova de uma porta só por onde muitas vezes,
Menina e moça, minha mãe passou:
E um dia, em 23, entrou para eu nascer.
E, depois da cozinha,
Os oito limoeiros que plantou
Julgando que os desejos de limão
Iriam muito além de nove meses.
O juazeiro ao poente e o chiqueiro das cabras.
Os pêlos encerados dos caprinos,
E o forte cheiro hircino
Misturado com o cheiro doce de melosas.
Cabritinhos robustos chiqueirados.
E as fêmeas de cria, em trêmulo, sofridas
Gemendo a dor do leite
Em úberes de tetas fartas apojando.
Cheiro bom de cajueiros carregados,
E o delírio dos pássaros no gozo
Da safra dos cajus e das goiabas.
A música das canas na vazante,
E junto ao engenho e à fornalha dos tachos
O cheiro do bagaço e do caldo e do mel.
O aroma dos jenipapos,
Moles de tão maduros,
Vazando suco e contra o chão se espatifando.
Fartura de água boa no verão,
Água abundante mesmo, à flor do chão.
Tudo verde em redor das cacimbas
Em pleno mês de outubro
E novembro e dezembro:
Cacimba Velha, Cacimbinha
E Cacimba das Camaúbas,
Abertas, a falar das grandes secas:
A seca de Novecentos
Do Quinze e do Dezenove.
O cheiro das ervas verdes,
Dos juncos, dos aguapés;
E o cheiro verde do lodo,
O suave buquê das algas das águas boas...
Nem tudo morre, muita coisa fica,
Intacta:
o aroma, o gosto, o som, a imagem e o contacto
São a alma imortal das coisas transitórias.
Depois de morto o olfato,
É vida, na memória, o aroma das coisas.
Apagada a visão,
É vida a imagem, o relevo e a cor.
Morta a audição, ficam vivos os sons
Gravados
Nos microssulcos do íntimo do espírito.
Sobral, setembro de 1985.
professor de línguas clássicas. Publicou
apenas parte de sua vasta obra poética, em
1986, sob o título Exíguas. Reside em
Sobral, CE., fone 088.611.06.68
A casa velha do Angelim,
Desfeita há muitos anos,
Resiste ao tempo, intacta, na memória.
O alpendre soma sombra
Com os cajueiros e o jenipapeiro,
Olhando ao sul o córrego da baixa.
Agora o quarto, com balcão e prateleiras,
Onde Gonçalo Pompe negociou.
A sala da varanda, a banca do oratório
Com São Gonçalo tosco esculpido em madeira.
O corredor e à esquerda a camarinha,
Alcova de uma porta só por onde muitas vezes,
Menina e moça, minha mãe passou:
E um dia, em 23, entrou para eu nascer.
E, depois da cozinha,
Os oito limoeiros que plantou
Julgando que os desejos de limão
Iriam muito além de nove meses.
O juazeiro ao poente e o chiqueiro das cabras.
Os pêlos encerados dos caprinos,
E o forte cheiro hircino
Misturado com o cheiro doce de melosas.
Cabritinhos robustos chiqueirados.
E as fêmeas de cria, em trêmulo, sofridas
Gemendo a dor do leite
Em úberes de tetas fartas apojando.
Cheiro bom de cajueiros carregados,
E o delírio dos pássaros no gozo
Da safra dos cajus e das goiabas.
A música das canas na vazante,
E junto ao engenho e à fornalha dos tachos
O cheiro do bagaço e do caldo e do mel.
O aroma dos jenipapos,
Moles de tão maduros,
Vazando suco e contra o chão se espatifando.
Fartura de água boa no verão,
Água abundante mesmo, à flor do chão.
Tudo verde em redor das cacimbas
Em pleno mês de outubro
E novembro e dezembro:
Cacimba Velha, Cacimbinha
E Cacimba das Camaúbas,
Abertas, a falar das grandes secas:
A seca de Novecentos
Do Quinze e do Dezenove.
O cheiro das ervas verdes,
Dos juncos, dos aguapés;
E o cheiro verde do lodo,
O suave buquê das algas das águas boas...
Nem tudo morre, muita coisa fica,
Intacta:
o aroma, o gosto, o som, a imagem e o contacto
São a alma imortal das coisas transitórias.
Depois de morto o olfato,
É vida, na memória, o aroma das coisas.
Apagada a visão,
É vida a imagem, o relevo e a cor.
Morta a audição, ficam vivos os sons
Gravados
Nos microssulcos do íntimo do espírito.
Sobral, setembro de 1985.
1 134
Martins Vieira
O Parnaíba
Vem de longe, tangendo alvacentas espumas
Ao sabor da corrente, eriçando cachoeiras;
Aqui, se aperta; ali, se espraia, enquanto as plumas
De leques vegetais baloiçam nas palmeiras.
Leva a flor que tranqüila adormece entre as brumas
E se deixa impelir como as balsas fagueiras,
Onde geme o violão do embarcadiço, e algumas
Das cordas vão ferir as cordas verdadeiras...
— Ó rio lá de casa, ó Pai velho das crianças,
Águas que vão molhar o solo e as belas tranças
Da noiva que se banha em ti, ao vento e à luz,
Ó rio benfazejo, aplacarás a sede
Do mar, deixando aqui o pão em cada rede
a nós elo batismo, o nome de Jesus.
Ao sabor da corrente, eriçando cachoeiras;
Aqui, se aperta; ali, se espraia, enquanto as plumas
De leques vegetais baloiçam nas palmeiras.
Leva a flor que tranqüila adormece entre as brumas
E se deixa impelir como as balsas fagueiras,
Onde geme o violão do embarcadiço, e algumas
Das cordas vão ferir as cordas verdadeiras...
— Ó rio lá de casa, ó Pai velho das crianças,
Águas que vão molhar o solo e as belas tranças
Da noiva que se banha em ti, ao vento e à luz,
Ó rio benfazejo, aplacarás a sede
Do mar, deixando aqui o pão em cada rede
a nós elo batismo, o nome de Jesus.
935
Mário Pederneiras
Íntimo
(fragmento)
A boa vida é esta:
O sossego normal deste meu quarto,
Em luz e paz imerso,
Onde as horas reparto
Entre o — do ganha-pão — rude trabalho
E o Culto do meu Verso,
Que me dá e atesta
A certeza orgulhosa do que valho.
E numa esfera assim, clara e discreta,
Que um bem-estar pacífico resuma,
Ter, como eu tenho, quando leio e escrevo,
O suave enlevo,
De uma
Doce figura feminina e casta
Que, alegremente e carinhosa, arrasta
A vida heróica de mulher de Poeta.
Não que o Poeta seja um mau, um triste
Merecedor de insultos e de apodos,
De ódio e menoscabo...
Nele, ao contrário, só doçura existe,
Mas porque é um pobre diabo
Que sofre mais que todos.
A boa vida é esta:
O sossego normal deste meu quarto,
Em luz e paz imerso,
Onde as horas reparto
Entre o — do ganha-pão — rude trabalho
E o Culto do meu Verso,
Que me dá e atesta
A certeza orgulhosa do que valho.
E numa esfera assim, clara e discreta,
Que um bem-estar pacífico resuma,
Ter, como eu tenho, quando leio e escrevo,
O suave enlevo,
De uma
Doce figura feminina e casta
Que, alegremente e carinhosa, arrasta
A vida heróica de mulher de Poeta.
Não que o Poeta seja um mau, um triste
Merecedor de insultos e de apodos,
De ódio e menoscabo...
Nele, ao contrário, só doçura existe,
Mas porque é um pobre diabo
Que sofre mais que todos.
1 125
Mário Pederneiras
Meu Casal
Fica distante da cidade e em frente
À remansosa paz de uma enseada
Esta dos meus romântica morada,
Que olha de cheio para o Sol nascente.
Árvores dão-lhe a sombra desejada
Pela calma feição da minha gente,
E ela toda se ajusta ao tom dolente
Das cantigas que o Mar lhe chora à entrada.
Lá dentro o teu olhar de calmos brilhos,
Todo o meu bem e todo o meu empenho,
E a sonora alegria de meus filhos.
Outros que tenham com mais luxo o lar,
Que a mim me basta, Flor, o que aqui tenho,
Árvores, filhos, teu amor e o mar.
À remansosa paz de uma enseada
Esta dos meus romântica morada,
Que olha de cheio para o Sol nascente.
Árvores dão-lhe a sombra desejada
Pela calma feição da minha gente,
E ela toda se ajusta ao tom dolente
Das cantigas que o Mar lhe chora à entrada.
Lá dentro o teu olhar de calmos brilhos,
Todo o meu bem e todo o meu empenho,
E a sonora alegria de meus filhos.
Outros que tenham com mais luxo o lar,
Que a mim me basta, Flor, o que aqui tenho,
Árvores, filhos, teu amor e o mar.
2 239
Marcelo Reis
O Jardim
O Jardim
Um jardim tu procuras
Para repousar teus calos,
Teus sofrimentos.
Queres desaparecer pelas frestas da terra,
e alimentar uma flor
já que cansaste de nutrir o mundo.
E cansaste de forma tão trágica,
repentina.
Assim tu me esquartejas, poeta!
Ainda por cima quer um jardim
Um jardim em teu refúgio, em teu exílio.
Exílio que fizeste, pois nós te amávamos.
Teu jardim é quase impossível
Nessa cidade de mar imenso,
mas tão estranha a ti e a teus pares.
Volta para casa, cara.
Tu cantaste a tua vila,
não as ondas bravias do mar.
Aqui terá muitos jardins para escolher.
Os seres mágicos da relva
poderão te levar de jardim em jardim.
Aqui ainda são permitidos os pequenos obreiros.
Poderás cantar esta simplicidade.
Teu filho e teus órfãos hão de cantar junto.
Apesar do meu apelo, faça como quiseres.
Passarei sobre o gramado e as flores,
Onde quer que estejam,
no mar, na terra, no infinito céu,
o jardim cantará minha vida,
escalarei a tua "montanha mágica",
conterei o "vento no litoral",
e deixarei o sol bater em cheio na janela do meu quarto.
(para Renato Russo)
Um jardim tu procuras
Para repousar teus calos,
Teus sofrimentos.
Queres desaparecer pelas frestas da terra,
e alimentar uma flor
já que cansaste de nutrir o mundo.
E cansaste de forma tão trágica,
repentina.
Assim tu me esquartejas, poeta!
Ainda por cima quer um jardim
Um jardim em teu refúgio, em teu exílio.
Exílio que fizeste, pois nós te amávamos.
Teu jardim é quase impossível
Nessa cidade de mar imenso,
mas tão estranha a ti e a teus pares.
Volta para casa, cara.
Tu cantaste a tua vila,
não as ondas bravias do mar.
Aqui terá muitos jardins para escolher.
Os seres mágicos da relva
poderão te levar de jardim em jardim.
Aqui ainda são permitidos os pequenos obreiros.
Poderás cantar esta simplicidade.
Teu filho e teus órfãos hão de cantar junto.
Apesar do meu apelo, faça como quiseres.
Passarei sobre o gramado e as flores,
Onde quer que estejam,
no mar, na terra, no infinito céu,
o jardim cantará minha vida,
escalarei a tua "montanha mágica",
conterei o "vento no litoral",
e deixarei o sol bater em cheio na janela do meu quarto.
(para Renato Russo)
1 169
Marcelo Penido Silva
Na jardineira
Na jardineira, sepultadas flores
colhem o frio
da fachada.
E sustentados
pelos ares de varanda
os perfumes fluem
ao dique
das vidraças.
Dentro,
ante os olhares dos porta-retratos,
estão sem vida
as coloridas
sempre-vivas,
embalsamadas num reflexo
da mobília
encerada.
colhem o frio
da fachada.
E sustentados
pelos ares de varanda
os perfumes fluem
ao dique
das vidraças.
Dentro,
ante os olhares dos porta-retratos,
estão sem vida
as coloridas
sempre-vivas,
embalsamadas num reflexo
da mobília
encerada.
809
Moreira Campos
Insubmissos e lmponderáveis
Onde as vozes, os gestos e as sombras
que encheram estas paredes?
Os pés que pisaram estas lajes
(tijolos de ladrilho)?
Revejo tudo.
O vulto grande de meu pai, já na porta:
— Vou indo, Adélia.
O ovo de madeira com que minha mãe cerzia meias.
Os meus carretéis de brinquedo.
A modinha
de Mundinha
na cozinha.
Os esquisitos santos de minha avó,
seu oratório e palhas bentas, seus esquecimentos:
— Menino, o Tiago ainda não voltou!
(Meu avô Tiago, morto havia dez anos).
Um dia os homens vieram
com muito alarido e grandes latas de cal.
Caiaram tudo.
Revolveram o piso.
Só não puderam cobrir e revolver aquelas vozes,
aqueles gestos,
aquelas sombras,
aqueles passos.
Insubmissos e imponderáveis.
que encheram estas paredes?
Os pés que pisaram estas lajes
(tijolos de ladrilho)?
Revejo tudo.
O vulto grande de meu pai, já na porta:
— Vou indo, Adélia.
O ovo de madeira com que minha mãe cerzia meias.
Os meus carretéis de brinquedo.
A modinha
de Mundinha
na cozinha.
Os esquisitos santos de minha avó,
seu oratório e palhas bentas, seus esquecimentos:
— Menino, o Tiago ainda não voltou!
(Meu avô Tiago, morto havia dez anos).
Um dia os homens vieram
com muito alarido e grandes latas de cal.
Caiaram tudo.
Revolveram o piso.
Só não puderam cobrir e revolver aquelas vozes,
aqueles gestos,
aquelas sombras,
aqueles passos.
Insubmissos e imponderáveis.
1 119
M. de Monte Maggiore
Salmo da Meia Noite
Tua voz suavizou minha alma e teu pensamento desceu ao meu
coração como um bálsamo.
As tristezas se foram, dispersadas.
A Paz veio, leve como um pássaro,
e a Poesia desatou suas pétalas perfumadas.
Repara, doce Amor, na melodia do meu alaúde.
Estes acordes delicados são para ti uma carícia.
Que vaie a vida sem o Cisne Branco do meu lago azul?
Desprende, Ave Sagrada, um vôo altaneiro e vem pousar nas
águas mansas do meu jardim fechado.
Dar-te-ei carne de coração na hóstia de um amor imenso!
Beberás o licor da poesia no cálice dos meus lábios.
Serás imortal!
Abre as asas brancas nas campinas azuis, onde o sol passeia, e
vem, que te espero, ansiosamente.
Ergueremos um pavilhão colorido nos montes de Sião.
Nossa casa terá água cristalina para os que têm sede
e pão branco para os que pisam os caminhos da vida.
Todas as tardes passearemos envoltos na brisa vespertina e descobriremos,
no horizonte, as telas imortais do Criador,
Em nossa tenda haverá tapetes de Caxemira e pérolas de Ofir e
marfim da índia e rosas de Jericó...
Nossas manhãs serão claras como as manhãs de abril e nossas
noites suaves como as noites de luar de agosto.
Haverá em tudo aquele riso bom que sai do coração, porque
nossa felicidade saiu das mãos de Deus!
Doce amiga, teu perfume me vem na asa da saudade.
A carícia de tuas mãos, sinto-a sobre meus olhos cansados, ao
cair da tarde.
Há um lugar chorando uma ausência... Dentro da noite, ouve-se
um canto triste. É o pombo chamando a companheira para o
ninho vazio.
A felicidade está cantando baixinho a cancão da "Espera". "Ela"
vem vindo, lá longe, na curva azul da lemerança...
coração como um bálsamo.
As tristezas se foram, dispersadas.
A Paz veio, leve como um pássaro,
e a Poesia desatou suas pétalas perfumadas.
Repara, doce Amor, na melodia do meu alaúde.
Estes acordes delicados são para ti uma carícia.
Que vaie a vida sem o Cisne Branco do meu lago azul?
Desprende, Ave Sagrada, um vôo altaneiro e vem pousar nas
águas mansas do meu jardim fechado.
Dar-te-ei carne de coração na hóstia de um amor imenso!
Beberás o licor da poesia no cálice dos meus lábios.
Serás imortal!
Abre as asas brancas nas campinas azuis, onde o sol passeia, e
vem, que te espero, ansiosamente.
Ergueremos um pavilhão colorido nos montes de Sião.
Nossa casa terá água cristalina para os que têm sede
e pão branco para os que pisam os caminhos da vida.
Todas as tardes passearemos envoltos na brisa vespertina e descobriremos,
no horizonte, as telas imortais do Criador,
Em nossa tenda haverá tapetes de Caxemira e pérolas de Ofir e
marfim da índia e rosas de Jericó...
Nossas manhãs serão claras como as manhãs de abril e nossas
noites suaves como as noites de luar de agosto.
Haverá em tudo aquele riso bom que sai do coração, porque
nossa felicidade saiu das mãos de Deus!
Doce amiga, teu perfume me vem na asa da saudade.
A carícia de tuas mãos, sinto-a sobre meus olhos cansados, ao
cair da tarde.
Há um lugar chorando uma ausência... Dentro da noite, ouve-se
um canto triste. É o pombo chamando a companheira para o
ninho vazio.
A felicidade está cantando baixinho a cancão da "Espera". "Ela"
vem vindo, lá longe, na curva azul da lemerança...
2 511
Moreira Campos
A Visita
Ó tia de minha mulher,
ó tia Augusta,
eu vos visito não porque seja um bom,
não porque seja aquele homem "coração de ouro",
como dizeis aos vizinhos em tom de segredo,
que contudo deverá ser ouvido por mim,
enquanto meu automóvel espera à sombra da árvore.
Não. Eu vos visito para sentir os caibros toscos desta sala, a telha-vã,
a velha máquina de costura coberta com a toalhinha
sobre a qual repousa a tentativa do jarro de flores;
o retrato desbotado de vosso marido
contra a parede.
Eu vos visito para indagar do moleque que criastes
e que fugiu pela janela,
que o vento da noite ficou batendo.
E eu vos visito sobretudo para usufruir de vossa solidão
e do mistério de vossas palavras nobres,
de mulher lida em romances, embora baratos.
— E os meninos (da vizinhança) ainda aperreiam muito?
— Hem?
— Os meninos?
— Uns vândalos, meu filho.
Ó tia de minha mulher,
ó tia Augusta, esta palavra "vândalos"
me comove muito mais do que todos os vossos males.
Contudo, trouxe-vos estas maçãs para vossa convalescença
ó tia Augusta,
eu vos visito não porque seja um bom,
não porque seja aquele homem "coração de ouro",
como dizeis aos vizinhos em tom de segredo,
que contudo deverá ser ouvido por mim,
enquanto meu automóvel espera à sombra da árvore.
Não. Eu vos visito para sentir os caibros toscos desta sala, a telha-vã,
a velha máquina de costura coberta com a toalhinha
sobre a qual repousa a tentativa do jarro de flores;
o retrato desbotado de vosso marido
contra a parede.
Eu vos visito para indagar do moleque que criastes
e que fugiu pela janela,
que o vento da noite ficou batendo.
E eu vos visito sobretudo para usufruir de vossa solidão
e do mistério de vossas palavras nobres,
de mulher lida em romances, embora baratos.
— E os meninos (da vizinhança) ainda aperreiam muito?
— Hem?
— Os meninos?
— Uns vândalos, meu filho.
Ó tia de minha mulher,
ó tia Augusta, esta palavra "vândalos"
me comove muito mais do que todos os vossos males.
Contudo, trouxe-vos estas maçãs para vossa convalescença
1 616
João Mello
Promessa de Amor
Construirei para ti uma casa terrestre,
feita de pão e luz e música,
onde caibas apenas tu
e não haja espaço para os intrusos
E quando, à noite nos amarmos,
como se amaram
o primeiro homem e a primeira mulher,
mandarei que repiquem os tambores
- para que saibam todos que voltaram ao mundo
o primeiro homem e a primeira mulher.
feita de pão e luz e música,
onde caibas apenas tu
e não haja espaço para os intrusos
E quando, à noite nos amarmos,
como se amaram
o primeiro homem e a primeira mulher,
mandarei que repiquem os tambores
- para que saibam todos que voltaram ao mundo
o primeiro homem e a primeira mulher.
1 092
Mário Donizete Massari
Quadrante
casa
pirâmide embalsamada
de cimento e cal
guardas o segredo
—de viver ao relento
Solidão
Nas ruínas de um templo
Nos becos e labirintos
No coração dos ateus
imagem
— mora a solidão
Um rosto pálido
se reflete
nesse espelho
refletindo a minha
transfigurada imagem
— o tempo passou e eu
nem percebi
face
tece na face
a outra face
não a quente
nem ardente
— a face fria
pirâmide embalsamada
de cimento e cal
guardas o segredo
—de viver ao relento
Solidão
Nas ruínas de um templo
Nos becos e labirintos
No coração dos ateus
imagem
— mora a solidão
Um rosto pálido
se reflete
nesse espelho
refletindo a minha
transfigurada imagem
— o tempo passou e eu
nem percebi
face
tece na face
a outra face
não a quente
nem ardente
— a face fria
884
Masako Akeho
Haicai
Casa de vespas
zunindo em círculos
palavras picantes
O morro iluminado
do barracão sem luz
choro de criança
zunindo em círculos
palavras picantes
O morro iluminado
do barracão sem luz
choro de criança
931
Marta Gonçalves
Cristaleira
Vamos abrir juntos a janela
escutar a conversa da cristaleira.
Quero sorver o vinho mas me agarro
ao cristal.
escutar a conversa da cristaleira.
Quero sorver o vinho mas me agarro
ao cristal.
1 010
Sérgio Mattos
Quando Sinto
Quando sinto o desencanto, procuro tuas mãos
que trazem o conforto e me fazem palpitar.
Permaneço disperso, sentindo teu perfume
e tua presença, suspensa nas nuvens da imaginação.
Do papel onde escrevo, tuas curvas tomam formas
e, como sombra, teu corpo nu, eu vejo.
Um sorriso va enche-me o rosto
e na tentativa de acariciar-te ouço longe,
muito longe, passos, vozes e o bater da máquina de escrever.
Teu corpo nu desaparece, enquanto o tempo volta a agir
e minhas mãos a trabalhar.
Um leve tremor invade-me a alma
e uma complacente esperança
consola-me, porque tenho certeza
de ao chegar em casa, sobre a cama,
encontrar teu corpo quente.
que trazem o conforto e me fazem palpitar.
Permaneço disperso, sentindo teu perfume
e tua presença, suspensa nas nuvens da imaginação.
Do papel onde escrevo, tuas curvas tomam formas
e, como sombra, teu corpo nu, eu vejo.
Um sorriso va enche-me o rosto
e na tentativa de acariciar-te ouço longe,
muito longe, passos, vozes e o bater da máquina de escrever.
Teu corpo nu desaparece, enquanto o tempo volta a agir
e minhas mãos a trabalhar.
Um leve tremor invade-me a alma
e uma complacente esperança
consola-me, porque tenho certeza
de ao chegar em casa, sobre a cama,
encontrar teu corpo quente.
935
Marigê Quirino Marchini
O Dialeto da Noite
Corto minha lenha, vivas toras
e empilho ao lado da casa em segurança
e um deus está sentado em meus tonéis
vigiando meu vinho,
em paz, menos esta alma
que é minha, com certeza, e que morna
olha seu côncavo verde e se descostura.
Já houve um tempo de baile
hoje me dependuro como um vestido antigo
semi-despedida
da noite e seu relento.
Oh! Como é duro na soleira
não ultrapassar o seu portal!
Tudo é um tempo só
o passado, essa luz sem pavio
existe porque estamos no presente
ou futuro imperfeito ou numa cilada.
Que paralelo portão se abre então
em que clã ou telhado desconhecido
me acho de novo em casa e descontraída
desabotôo o casaco e reclinada
posso olhar da janela um deus dormindo
o vinho entornado e a lenha consumida...
e empilho ao lado da casa em segurança
e um deus está sentado em meus tonéis
vigiando meu vinho,
em paz, menos esta alma
que é minha, com certeza, e que morna
olha seu côncavo verde e se descostura.
Já houve um tempo de baile
hoje me dependuro como um vestido antigo
semi-despedida
da noite e seu relento.
Oh! Como é duro na soleira
não ultrapassar o seu portal!
Tudo é um tempo só
o passado, essa luz sem pavio
existe porque estamos no presente
ou futuro imperfeito ou numa cilada.
Que paralelo portão se abre então
em que clã ou telhado desconhecido
me acho de novo em casa e descontraída
desabotôo o casaco e reclinada
posso olhar da janela um deus dormindo
o vinho entornado e a lenha consumida...
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