Poemas neste tema
Alma
Ives Gandra da Silva Martins
Olhar do Tempo
Olhar do tempo. Como eu sinto a messe,
Safra da terra, sem semente fora!
Ceifem a messe, que a safra apodrece,
Tempo de sempre, que se faz de agora.
Olhar do tempo. Como eu sinto o rio,
Estrada líquida, sem outra estrada!
Bebam a estrada, que desponta o estio,
Tempo de todos, que se faz de cada.
Olhar do tempo. Como eu sinto o espaço,
Tapete imenso, sem limite ao norte!
Durmam o norte, norteando o passo,
Tempo de vida que se faz de morte.
Olhar do tempo, como eu sinto a cruz!
Tempo de sombra, que se faz de luz.
Safra da terra, sem semente fora!
Ceifem a messe, que a safra apodrece,
Tempo de sempre, que se faz de agora.
Olhar do tempo. Como eu sinto o rio,
Estrada líquida, sem outra estrada!
Bebam a estrada, que desponta o estio,
Tempo de todos, que se faz de cada.
Olhar do tempo. Como eu sinto o espaço,
Tapete imenso, sem limite ao norte!
Durmam o norte, norteando o passo,
Tempo de vida que se faz de morte.
Olhar do tempo, como eu sinto a cruz!
Tempo de sombra, que se faz de luz.
872
1
Helena Parente Cunha
Percurso
Corolas
malogradas
defluímos na caudal
margens opostas
compõem horizonte
concedido ao que vamos
e o que vamos?
remota a fonte
de onde emanamos omitidos
malogradas
defluímos na caudal
margens opostas
compõem horizonte
concedido ao que vamos
e o que vamos?
remota a fonte
de onde emanamos omitidos
1 317
1
Leda Costa Lima
Trabalhando a Terra
Descendo o barranco,
trilhando o caminho
— caminho de barro,
poeira, cascalho,
vou rumo ao trabalho,
ó vale deserto,
ó vale coberto,
por nuvens de fé!
Porei grãos no seio
da terra-promessa,
da terra-esperança!
Meus campos cultivo,
eu planto, semeio,
trabalho cativo!
Enterro a semente
— semente tão frágil
que quer germinar!
Na minha labuta,
meu corpo na luta,
cavando, cavando,
assim vai jorrando,
suor do meu rosto!
Incrível batalha!
Trabalho com gosto,
o arado trabalha
a terra que geme,
a terra que trema,
que quer florescer!
E a máquina ágil
trabalha feroz,
febril, tão veloz!
O solo enobrece
e a planta floresce!
trilhando o caminho
— caminho de barro,
poeira, cascalho,
vou rumo ao trabalho,
ó vale deserto,
ó vale coberto,
por nuvens de fé!
Porei grãos no seio
da terra-promessa,
da terra-esperança!
Meus campos cultivo,
eu planto, semeio,
trabalho cativo!
Enterro a semente
— semente tão frágil
que quer germinar!
Na minha labuta,
meu corpo na luta,
cavando, cavando,
assim vai jorrando,
suor do meu rosto!
Incrível batalha!
Trabalho com gosto,
o arado trabalha
a terra que geme,
a terra que trema,
que quer florescer!
E a máquina ágil
trabalha feroz,
febril, tão veloz!
O solo enobrece
e a planta floresce!
1 192
1
Leila Cristina de Carvalho
Paradoxo
Meu coração partiu-se
Em duas partes iguais
Uma chora loucamente
Outra ri docemente
Uma é névoa negra
Outra nuvem cor-de-rosa
Uma é ferida que sangra
Outra riacho manso
Uma fez-se noite eterna
Outra repousa em silêncio.
Em duas partes iguais
Uma chora loucamente
Outra ri docemente
Uma é névoa negra
Outra nuvem cor-de-rosa
Uma é ferida que sangra
Outra riacho manso
Uma fez-se noite eterna
Outra repousa em silêncio.
950
1
Ilídio Rocha
Poema
Pés descalços
pisam caminhos de areia
Pés descalços
pisam sujos caminhos de areia
Pés cansados negros e descalços
pisam tristes sujos caminhos de areia
Pés negros
pisam tristes caminhos da vida
pisam caminhos de areia
Pés descalços
pisam sujos caminhos de areia
Pés cansados negros e descalços
pisam tristes sujos caminhos de areia
Pés negros
pisam tristes caminhos da vida
2 176
1
Leda Costa Lima
Meu Nome é Esperança
Eu sou aquela que afasta
a sombra que passa
para dar luz ao teu sonho.
Sou a mão que te conduz,
nos momentos mais sombrios,
em que se delineia
o quadro do desalento.
Sou a voz que te soergue
e faz assomar o teu riso.
Sou sussurro aos teus ouvidos,
murmurando a palavra mágica
no momento preciso.
Eu sou a taça
transbordante de vinho
de sabor inebriante.
Eu sou o bálsamo
para os corações vazios,
pobres de amor,
carentes de afeto,
de sonhos e de ilusões.
Eu sou o vitral translúcido,
música em compassos uníssonis.
Por onde passo
as luzes se acendem
e surge um arco-íris.
Expulso o desânimo
para os longes do infinito.
Sou o sopro vital energizante.
Enquanto há vida
estou sempre presente.
Meu nome é esperança!
a sombra que passa
para dar luz ao teu sonho.
Sou a mão que te conduz,
nos momentos mais sombrios,
em que se delineia
o quadro do desalento.
Sou a voz que te soergue
e faz assomar o teu riso.
Sou sussurro aos teus ouvidos,
murmurando a palavra mágica
no momento preciso.
Eu sou a taça
transbordante de vinho
de sabor inebriante.
Eu sou o bálsamo
para os corações vazios,
pobres de amor,
carentes de afeto,
de sonhos e de ilusões.
Eu sou o vitral translúcido,
música em compassos uníssonis.
Por onde passo
as luzes se acendem
e surge um arco-íris.
Expulso o desânimo
para os longes do infinito.
Sou o sopro vital energizante.
Enquanto há vida
estou sempre presente.
Meu nome é esperança!
1 003
1
José Blanc de Portugal
O Carpinteiro de Cenários
Sou um carpinteiro de cenários
Dum ballet russo ou doutro qualquer.
Guardo as ferramentas do ofício
Pregos, dobradiças, apetrechos vários;
Um ar canhestro de quem é sempre mandado
E a certeza do acaso quando quer
Que alguém nos tome pela mão numa aventura
Inesperada só do outro lado dessa pobre alma
("Pobre alma" vem do russo).
Ela ganha a certeza de que nada é por acaso
Perdendo a certeza de que nada dura
E alguma coisa fica do que era nada
Desespero da impossível calma
Esperança de que fique vício ou piedade
Em pedacinhos fragmentários
Pregos, dobradiças e a tinta escura ou viva
Que o sol ausente do teatro não comeu.
Cravo os pregos do amor por todo aquele armazém dos desperdícios
Que nenhuma vassoura limpará do pó das glórias mortas.
Fixo as dobradiças que me unirão pra sempre a tais memórias
Experimentando com cuidado e sem saber a serventia dessas portas
Que porão em cena novas glórias das ocasiões fatais
Pra eu sofrer do alto da urdidura.
Anos de acaso fizeram-me um perito
A que recorrem os que não têm coragem
De mostrarem que não se admiram a si próprios
Senão quando todos aplaudem
E se revoltam com a confiança dos maítres de ballet
que falam duro.
Mas, nos dias mornos, lhes é tudo indiferente.
A estrela untando as sapatilhas na resina
Olhou-me com os olhos a piscar, vermelhos.
Cairia se a não agarrasse e no escuro lhe dissesse
Porque atrasara o sexto fouetté do seu allegro.
Em cena todos os desculparam porque era estrela
Porque trinta e oito anos são uma idade perigosa
E amanhã não sucederia o mesmo
E há muitos anos não tinha amores a comentar e estava triste.
Mas eu sabia que onde ela passara o tablado tem sulcos que o tempo
Usou como fez para abrir as duas rugas
Que a pobre alma tem, como parênteses, em volta da pequena boca
Que floriu tantas Giselles e Odettes.
Não me casei porque vivo demais neste teatro
Que então já seria a minha casa que afinal não tenho.
Todos me tomam como uma parte desta casa.
E talvez sem o saberem me invejem
Tantos que nunca tiveram uma casa
Ou a que têm é apenas quanto dura
A Companhia ou a ligação de acaso.
As vezes é um grande sol de amor que a ilumina
Sol de teatro como os velhos arcos voltaicos
Choques e carvões sempre sujos que eu dantes ajudava a limpar.
Eu encontrei a casa que é minha por não ser.
Sabe-lo foi tudo o que encontrei.
Aquela rapariga que iria longe
E ao primeiro grand pas de deux classique
Partiu um braço porque julgara já poder esquivar-se
Aos desejos naturais do premier danseur
Foi pena ter esquecido depressa demais o tempo em que podia
Tomar comigo um café e achar-me um pouco filósofo.
É tarde. Tudo isto é escuro e amanhã
— Cedinho, é preciso que cá estejas... —
Bem sei. já não preciso dormir muito.
Guardo na caixa os pregos e as dobradiças.
Ao menos hoje a grande estrela
Aprendeu um segredo do palco.
Possa ela não se vingar aconselhando aquela diagonal
À pequena em que o diretor põe agora todas as esperanças
Só lhe direi o que ela quiser.
É tarde. É melhor ficar cá no teatro.
A única luz dá sobre a caixa da resina.
Basta-me apagá-la para adormecer.
Dum ballet russo ou doutro qualquer.
Guardo as ferramentas do ofício
Pregos, dobradiças, apetrechos vários;
Um ar canhestro de quem é sempre mandado
E a certeza do acaso quando quer
Que alguém nos tome pela mão numa aventura
Inesperada só do outro lado dessa pobre alma
("Pobre alma" vem do russo).
Ela ganha a certeza de que nada é por acaso
Perdendo a certeza de que nada dura
E alguma coisa fica do que era nada
Desespero da impossível calma
Esperança de que fique vício ou piedade
Em pedacinhos fragmentários
Pregos, dobradiças e a tinta escura ou viva
Que o sol ausente do teatro não comeu.
Cravo os pregos do amor por todo aquele armazém dos desperdícios
Que nenhuma vassoura limpará do pó das glórias mortas.
Fixo as dobradiças que me unirão pra sempre a tais memórias
Experimentando com cuidado e sem saber a serventia dessas portas
Que porão em cena novas glórias das ocasiões fatais
Pra eu sofrer do alto da urdidura.
Anos de acaso fizeram-me um perito
A que recorrem os que não têm coragem
De mostrarem que não se admiram a si próprios
Senão quando todos aplaudem
E se revoltam com a confiança dos maítres de ballet
que falam duro.
Mas, nos dias mornos, lhes é tudo indiferente.
A estrela untando as sapatilhas na resina
Olhou-me com os olhos a piscar, vermelhos.
Cairia se a não agarrasse e no escuro lhe dissesse
Porque atrasara o sexto fouetté do seu allegro.
Em cena todos os desculparam porque era estrela
Porque trinta e oito anos são uma idade perigosa
E amanhã não sucederia o mesmo
E há muitos anos não tinha amores a comentar e estava triste.
Mas eu sabia que onde ela passara o tablado tem sulcos que o tempo
Usou como fez para abrir as duas rugas
Que a pobre alma tem, como parênteses, em volta da pequena boca
Que floriu tantas Giselles e Odettes.
Não me casei porque vivo demais neste teatro
Que então já seria a minha casa que afinal não tenho.
Todos me tomam como uma parte desta casa.
E talvez sem o saberem me invejem
Tantos que nunca tiveram uma casa
Ou a que têm é apenas quanto dura
A Companhia ou a ligação de acaso.
As vezes é um grande sol de amor que a ilumina
Sol de teatro como os velhos arcos voltaicos
Choques e carvões sempre sujos que eu dantes ajudava a limpar.
Eu encontrei a casa que é minha por não ser.
Sabe-lo foi tudo o que encontrei.
Aquela rapariga que iria longe
E ao primeiro grand pas de deux classique
Partiu um braço porque julgara já poder esquivar-se
Aos desejos naturais do premier danseur
Foi pena ter esquecido depressa demais o tempo em que podia
Tomar comigo um café e achar-me um pouco filósofo.
É tarde. Tudo isto é escuro e amanhã
— Cedinho, é preciso que cá estejas... —
Bem sei. já não preciso dormir muito.
Guardo na caixa os pregos e as dobradiças.
Ao menos hoje a grande estrela
Aprendeu um segredo do palco.
Possa ela não se vingar aconselhando aquela diagonal
À pequena em que o diretor põe agora todas as esperanças
Só lhe direi o que ela quiser.
É tarde. É melhor ficar cá no teatro.
A única luz dá sobre a caixa da resina.
Basta-me apagá-la para adormecer.
1 747
1
Isabel Vilhena
A Árvore
O pequenino vegetal que agora
Acabas de plantar, a vida encerra.
Sob as carícias maternais da aurora,
Ele há de erguer-se, em flores, sobre a terra.
Plantaste o lume e o mastro das bandeiras,
Plantaste o fruto, a sombra dos caminhos
E o repouso das horas derradeiras!...
Deste um novo aposento aos passarinhos!
Plantaste o berço. E, assim, essa alegria
Que à nossa vida todo o encanto empresta,
E até mesmo, o perfume que, num dia,
Hás de levar no lenço para a festa.
E quanta coisa mais há de te dar,
Pedindo em paga, apenas que a protejas!
Sob as bênçãos do céu, a farfalhar,
Tesouro vegetal, bendito sejas!
Acabas de plantar, a vida encerra.
Sob as carícias maternais da aurora,
Ele há de erguer-se, em flores, sobre a terra.
Plantaste o lume e o mastro das bandeiras,
Plantaste o fruto, a sombra dos caminhos
E o repouso das horas derradeiras!...
Deste um novo aposento aos passarinhos!
Plantaste o berço. E, assim, essa alegria
Que à nossa vida todo o encanto empresta,
E até mesmo, o perfume que, num dia,
Hás de levar no lenço para a festa.
E quanta coisa mais há de te dar,
Pedindo em paga, apenas que a protejas!
Sob as bênçãos do céu, a farfalhar,
Tesouro vegetal, bendito sejas!
1 065
1
Ildásio Tavares
Canto do Homem Cotidiano
Eu canto o homem vulgar, desconhecido
Da imprensa, do sucesso, da evidência
O herói da rotina,
O rei do pijama,
O magnata
Do décimo terceiro mês,
O play-boy das mariposas
O imperador da contabilidade.
Esse que passa por mim
Que nunca vi outro assim.
Esse que toma cerveja
E cheira mal quando beija.
Esse que nunca é elegante
E fede a desodorante.
Esse que compra fiado
E paga sempre atrasado.
Esse que joga no bicho
E atira a pule no lixo.
Esse que sai no jornal
Por atropelo fatal.
Esse que vai ao cinema
Para esquecer seu problema.
Esse que tem aventuras
Dentro do beco às escuras.
Esse que ensina na escola
E sempre sofre da bola.
Esse que joga pelada
E é craque da canelada.
Esse que luta e se humilha
Pra casar bem sua filha.
Esse que agüenta o rojão
Pro filho ter instrução.
Esse que só se aposenta
Quando tem mais de setenta.
Esse que vejo na rua
Falando da ida a lua.
Eu canto esse mesmo, exatamente
Esse que sonhou em, mas nunca vai
Ser:
Acrobata,
Magnata,
Psiquiatra,
Diplomata,
Astronauta,
Aristocrata.
(É simplesmente democrata)
Almirante,
Traficante,
Viajante,
Caçador de
Elefante
(Vive só como aspirante)
Pintor, compositor
Senador, sabotador
Escritor ou Diretor
(É apenas sonhador)
Pistoleiro,
Costureiro,
Terrorista,
Vigarista
Delegado,
Deputado,
Galã na tela
Ou mesmo em telenovela,
Marechal,
Industrial,
Presidente,
Onipotente,
(Ele é simplesmente gente)
E, inconsciente marcha pela vida
buscando no seu bairro
Na cidade lá do interior,
No escritório, consultório
No ginásio,
Na repartição,
Na rua, no mercado, em toda a parte
Somente uma razão
Para poder dormir com a esperança
E de manhã, na hora do encontro
Com o espelho, ao fazer a barba,
Ver o reflexo do campeão,
Mas que, na frustração cotidiana,
Vai encontrando aos poucos sua glória
Por isso eu canto a luta sem memória
Desse homem que perde, e não se ufana
De no rosário de derrotas várias
E de omissões, e condições precárias
Poder contar com uma só vitória
Que não se exprime nas mentiras tantas
Espirradas sem medo das gargantas
Mas sim no que ele vence sem saber
E não se orgulha, campeão na história
Da eterna luta de sobreviver.
Da imprensa, do sucesso, da evidência
O herói da rotina,
O rei do pijama,
O magnata
Do décimo terceiro mês,
O play-boy das mariposas
O imperador da contabilidade.
Esse que passa por mim
Que nunca vi outro assim.
Esse que toma cerveja
E cheira mal quando beija.
Esse que nunca é elegante
E fede a desodorante.
Esse que compra fiado
E paga sempre atrasado.
Esse que joga no bicho
E atira a pule no lixo.
Esse que sai no jornal
Por atropelo fatal.
Esse que vai ao cinema
Para esquecer seu problema.
Esse que tem aventuras
Dentro do beco às escuras.
Esse que ensina na escola
E sempre sofre da bola.
Esse que joga pelada
E é craque da canelada.
Esse que luta e se humilha
Pra casar bem sua filha.
Esse que agüenta o rojão
Pro filho ter instrução.
Esse que só se aposenta
Quando tem mais de setenta.
Esse que vejo na rua
Falando da ida a lua.
Eu canto esse mesmo, exatamente
Esse que sonhou em, mas nunca vai
Ser:
Acrobata,
Magnata,
Psiquiatra,
Diplomata,
Astronauta,
Aristocrata.
(É simplesmente democrata)
Almirante,
Traficante,
Viajante,
Caçador de
Elefante
(Vive só como aspirante)
Pintor, compositor
Senador, sabotador
Escritor ou Diretor
(É apenas sonhador)
Pistoleiro,
Costureiro,
Terrorista,
Vigarista
Delegado,
Deputado,
Galã na tela
Ou mesmo em telenovela,
Marechal,
Industrial,
Presidente,
Onipotente,
(Ele é simplesmente gente)
E, inconsciente marcha pela vida
buscando no seu bairro
Na cidade lá do interior,
No escritório, consultório
No ginásio,
Na repartição,
Na rua, no mercado, em toda a parte
Somente uma razão
Para poder dormir com a esperança
E de manhã, na hora do encontro
Com o espelho, ao fazer a barba,
Ver o reflexo do campeão,
Mas que, na frustração cotidiana,
Vai encontrando aos poucos sua glória
Por isso eu canto a luta sem memória
Desse homem que perde, e não se ufana
De no rosário de derrotas várias
E de omissões, e condições precárias
Poder contar com uma só vitória
Que não se exprime nas mentiras tantas
Espirradas sem medo das gargantas
Mas sim no que ele vence sem saber
E não se orgulha, campeão na história
Da eterna luta de sobreviver.
1 315
1
Capinan
Navegação Didática
Quis conhecer o rio, habituei-me às navegações.
(Se à curva não propões o barco, a preferência reta
vai dar em margens de flor ou pedra,
paralisando o curso.
Ao vôo se necessita consciência de muros.
Anterior a ser livre é experimentar limites
e daí ser projeto que se auto-edificasse
em corpo bomba que os destruísse
ou se descendo um rio, corpo sensível
que os evitasse) .
Viajando assim, vai surgir, limpa e forte,
a cidade, como nasce um dente: inevitável.
(Se à curva não propões o barco, a preferência reta
vai dar em margens de flor ou pedra,
paralisando o curso.
Ao vôo se necessita consciência de muros.
Anterior a ser livre é experimentar limites
e daí ser projeto que se auto-edificasse
em corpo bomba que os destruísse
ou se descendo um rio, corpo sensível
que os evitasse) .
Viajando assim, vai surgir, limpa e forte,
a cidade, como nasce um dente: inevitável.
1 361
1
Hélio Pellegrino
Plenitude
A pedra, o vento, a luz alteada,
o salso mar eterno, o grito
do mergulhão, sob o infinito
azul:
— Deus não me deve nada.
o salso mar eterno, o grito
do mergulhão, sob o infinito
azul:
— Deus não me deve nada.
1 696
1
Hélio Pellegrino
Pai Trinitário
Pai trinitário que me salvaste
Do descaminho, da treva escura,
Perdoa o filho que ainda perdura
Na sua confusa perversidade.
Perdoa o filho, a sua loucura,
Feito de barro, de luz impura,
Perdoa o Filho, de humanidade
Manchado, aflito, na sua cidade
Feita de asfalto, de aço e guindaste.
Todo pecado, levando-o em rubro
Sangue perene, no qual descubro
Meu nome e origem, minha futura
Rede onde, à noite, submerso em sono,
Hei de encontrar-me de novo, dono
Da eternidade, da eternidade.
Do descaminho, da treva escura,
Perdoa o filho que ainda perdura
Na sua confusa perversidade.
Perdoa o filho, a sua loucura,
Feito de barro, de luz impura,
Perdoa o Filho, de humanidade
Manchado, aflito, na sua cidade
Feita de asfalto, de aço e guindaste.
Todo pecado, levando-o em rubro
Sangue perene, no qual descubro
Meu nome e origem, minha futura
Rede onde, à noite, submerso em sono,
Hei de encontrar-me de novo, dono
Da eternidade, da eternidade.
1 247
1
Ildásio Tavares
Restos
Há um resto de noite pela rua
Que se dissolve em bruma e madrugada.
Há um resto de tédio inevitável
Que se evola na tênue antemanhã.
Há um resto de sonho em cada passo
Que antes de ser se foi, já não existe.
Há um resto de ontem nas calçadas
Que foi dia de festa e fantasia.
Há um resto de mim em toda a parte
Que nunca pude ser inteiramente.
Que se dissolve em bruma e madrugada.
Há um resto de tédio inevitável
Que se evola na tênue antemanhã.
Há um resto de sonho em cada passo
Que antes de ser se foi, já não existe.
Há um resto de ontem nas calçadas
Que foi dia de festa e fantasia.
Há um resto de mim em toda a parte
Que nunca pude ser inteiramente.
1 251
1
José Blanc de Portugal
Oração Final
Poesia! Sem esperar voltei meu canto que é teu
As coisas de meu Pai que são as pobres criaturas
Caminhando a par de mim pelas ruas da amargura
Disfarçando mais do que eu a certeza que as leis tuas
Nada têm que ver com a minha piedade de evitarem
Cada maior dor seguindo à menos dura.
Deus Pai pudesse eu como Vosso Filho
Como irmão de Cristo, imolar-se só sem perder alguém
— Sem ter que fechar ouvidos ao Espírito Vosso
Cada instante inundando-me de luz! —
Sem vós tudo é impossível.
Sem mim tudo seria igual,
Mas fazei que meus iguais
Não sejam como eu tão miseráveis:
Crendo em Vós, sabendo-vos as provas,
mostro-me pior que os que vos esquecem!
A vossa Lei, a vossa marca não se
apagou de cada poro da minha pele
Dai-me a força de ajudar a todos com
um sopro do teu Ser que bastará
Pra todos e pra mim.
Fico na angústia da vossa perdida Graça.
Perdoai-me! Perdoai como eu devo perdoar!!
Fazei que eu perdoe!
Fazei-nos os Santos que Vos devemos!
As coisas de meu Pai que são as pobres criaturas
Caminhando a par de mim pelas ruas da amargura
Disfarçando mais do que eu a certeza que as leis tuas
Nada têm que ver com a minha piedade de evitarem
Cada maior dor seguindo à menos dura.
Deus Pai pudesse eu como Vosso Filho
Como irmão de Cristo, imolar-se só sem perder alguém
— Sem ter que fechar ouvidos ao Espírito Vosso
Cada instante inundando-me de luz! —
Sem vós tudo é impossível.
Sem mim tudo seria igual,
Mas fazei que meus iguais
Não sejam como eu tão miseráveis:
Crendo em Vós, sabendo-vos as provas,
mostro-me pior que os que vos esquecem!
A vossa Lei, a vossa marca não se
apagou de cada poro da minha pele
Dai-me a força de ajudar a todos com
um sopro do teu Ser que bastará
Pra todos e pra mim.
Fico na angústia da vossa perdida Graça.
Perdoai-me! Perdoai como eu devo perdoar!!
Fazei que eu perdoe!
Fazei-nos os Santos que Vos devemos!
1 362
1
José Eustáquio da Silva
Opinião
opinião do poeta sem letras:
a poesia começa quando a sentimos e termina quando a escrevemos
opinião do poeta letrado:
a poesia começa quando a sentimos e se eterniza quando a escrevemos
opinião da poesia:
eu não começo, não termino e não eternizo.
sou apenas poesia...
opinião do leitor:
a poesia começa quando a sentimos e termina quando a escrevemos
opinião do poeta letrado:
a poesia começa quando a sentimos e se eterniza quando a escrevemos
opinião da poesia:
eu não começo, não termino e não eternizo.
sou apenas poesia...
opinião do leitor:
868
1
Capinan
Poema Intencional
Há em cada substância a sua negativa
e a possibilidade de processo.
Processo inexorável a ir ao fim
meta a ser de pão e flores:
A rosa será uma outra rosa
e nós já não seremos
vejo nos olhos tristes
um filho possível
vejo na árvore antiga do parque,
uma cadeira, uma muleta, mas sobretudo um aríete
descubro na boca angustiada
o hino pronto e pesado:
é inevitável o acontecimento
mas procuro ser um elemento,
Carrego em mim a utilidade
sei que posso dar existência
e na minha total renúncia
utilizo-me para um bem maior:
tenho que colher a rosa
e transformá-la
tenho que possuir Maria
e dar-lhe um filho
tenho que transformar a árvore do parque
em cadeira, em muleta mas, sobretudo em aríete.
e a possibilidade de processo.
Processo inexorável a ir ao fim
meta a ser de pão e flores:
A rosa será uma outra rosa
e nós já não seremos
vejo nos olhos tristes
um filho possível
vejo na árvore antiga do parque,
uma cadeira, uma muleta, mas sobretudo um aríete
descubro na boca angustiada
o hino pronto e pesado:
é inevitável o acontecimento
mas procuro ser um elemento,
Carrego em mim a utilidade
sei que posso dar existência
e na minha total renúncia
utilizo-me para um bem maior:
tenho que colher a rosa
e transformá-la
tenho que possuir Maria
e dar-lhe um filho
tenho que transformar a árvore do parque
em cadeira, em muleta mas, sobretudo em aríete.
1 349
1
Hélio Pellegrino
La Vida es Sueño
A pedra
a pedra como o fogo
com suas resinas e ramas
a pedra como o fogo
é um sonho
de pálpebras abertas.
O sonho é quando
no veludo íntimo da noite
fogo e pedra se sonham:
— as pálpebras cerradas.
a pedra como o fogo
com suas resinas e ramas
a pedra como o fogo
é um sonho
de pálpebras abertas.
O sonho é quando
no veludo íntimo da noite
fogo e pedra se sonham:
— as pálpebras cerradas.
1 241
1
José Chagas
O Apito do Passado
O Mearim derrama na distância
uma água que em sonhos nos invade,
como fio invisível que se lance a
separar em duas a cidade.
E essa água vem banhar sem que se canse a
vida inteira que no rio nade,
porquanto água de amor que lava infância
lava também velhice e mocidade.
Mearim — rio velho e rio novo,
alegria e aflição de um mesmo povo —
um mar se afoga nos mistérios teus.
Mas preservas em ti, para Pedreiras,
vibrando no ar, o apito das primeiras
lanchas que nos deixaram seu adeus.
uma água que em sonhos nos invade,
como fio invisível que se lance a
separar em duas a cidade.
E essa água vem banhar sem que se canse a
vida inteira que no rio nade,
porquanto água de amor que lava infância
lava também velhice e mocidade.
Mearim — rio velho e rio novo,
alegria e aflição de um mesmo povo —
um mar se afoga nos mistérios teus.
Mas preservas em ti, para Pedreiras,
vibrando no ar, o apito das primeiras
lanchas que nos deixaram seu adeus.
1 457
1
J.Cardia
Neste sol de sempre
Neste sol de sempre
folhas se acastanham
e chegam ao chão.
Todo instante, toda estação.
Eu não. Outono.
folhas se acastanham
e chegam ao chão.
Todo instante, toda estação.
Eu não. Outono.
739
1
Valéry Larbaud
Amnésia
Perdi toda memória do presente.
Não sei quem sou, nem sei por onde mora
A mente que seguia vida afora
Contando para mim o que se sente.
Fugi de toda rua. Estou ausente
De mim, daqui e deste tempo agora.
Meu corpo disse adeus e foi-se embora
Deixando-me um soneto tão somente.
Recordo-me de mim: eu era louco,
Não costumava rir, falava pouco,
Mas foge-me o momento e o endereço.
E como não me lembro o que isso fosse,
Habito este papel, em que eu me trouxe
A mim, num me lembrar que logo esqueço.
Não sei quem sou, nem sei por onde mora
A mente que seguia vida afora
Contando para mim o que se sente.
Fugi de toda rua. Estou ausente
De mim, daqui e deste tempo agora.
Meu corpo disse adeus e foi-se embora
Deixando-me um soneto tão somente.
Recordo-me de mim: eu era louco,
Não costumava rir, falava pouco,
Mas foge-me o momento e o endereço.
E como não me lembro o que isso fosse,
Habito este papel, em que eu me trouxe
A mim, num me lembrar que logo esqueço.
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1
Ildásio Tavares
Água Brusca
Eis que de dentro de mim
Jorrou uma água brusca,
Ladeira abaixo, sem sonho,
Morrendo sem ter vivido, —
E eu, no espelho crucente
Das hortas de sempre fuga,
Tentei por detrás da fuga
Remover o meu retrato,
O resolver sempre falho,
Enxergar o que não via;
Mas cansado, sem relíquias,
Deixei que escorresse plena,
Que fosse na doida arena
Da areia se dissolver.
Jorrou uma água brusca,
Ladeira abaixo, sem sonho,
Morrendo sem ter vivido, —
E eu, no espelho crucente
Das hortas de sempre fuga,
Tentei por detrás da fuga
Remover o meu retrato,
O resolver sempre falho,
Enxergar o que não via;
Mas cansado, sem relíquias,
Deixei que escorresse plena,
Que fosse na doida arena
Da areia se dissolver.
956
1
Lígia Diniz
Livre
Fechei a porta
Finalmente o vento parou de bater
O monstro alado parou de lutar
Fechei a porta no último minuto
Nem precisei usar força
Talvez nem mesmo a tenha fechado
Ela se fechou sozinha
Como quando o vento muda de direção.
Saí para ver o céu
Finalmente a chuva parou de cair
As gotas grossas pararam de me machucar
Saí para ver o céu no último dia
Nem precisei esperar
Talvez nem mesmo tenha saído
O céu entrou em mim
Como quando fechamos os olhos e ainda vemos a luz.
Finalmente o vento parou de bater
O monstro alado parou de lutar
Fechei a porta no último minuto
Nem precisei usar força
Talvez nem mesmo a tenha fechado
Ela se fechou sozinha
Como quando o vento muda de direção.
Saí para ver o céu
Finalmente a chuva parou de cair
As gotas grossas pararam de me machucar
Saí para ver o céu no último dia
Nem precisei esperar
Talvez nem mesmo tenha saído
O céu entrou em mim
Como quando fechamos os olhos e ainda vemos a luz.
911
1
Ildásio Tavares
Partida ao Vento
Soltei meus braços ao vento
Numa noite ventivosa;
Esperei, sem ver o tempo,
Partir sem busca de volta.
Difíceis são as raízes,
Essas que sempre sugam,
Que se penetram nos mitos
Consolidados sem luta.
O vento, ventando força
Pelos tendões dos meus braços,
Irrompeu de muito arrojo,
Invadiu meu corpo, alçando.
Da partida, de repente,
Me senti no certo arranco,
As asas me deu o vento e
Se esfuracou vendavando.
Mas mil anos de raízes
Ficando ficaram surdas
Esmiuçando seus cílios
Na profundeza do inculto.
Numa noite ventivosa;
Esperei, sem ver o tempo,
Partir sem busca de volta.
Difíceis são as raízes,
Essas que sempre sugam,
Que se penetram nos mitos
Consolidados sem luta.
O vento, ventando força
Pelos tendões dos meus braços,
Irrompeu de muito arrojo,
Invadiu meu corpo, alçando.
Da partida, de repente,
Me senti no certo arranco,
As asas me deu o vento e
Se esfuracou vendavando.
Mas mil anos de raízes
Ficando ficaram surdas
Esmiuçando seus cílios
Na profundeza do inculto.
990
1
José Duro
Alvíssima
(Oração)
Como a Noite, Senhor,é linda
Com seus cabelos de luar…
Não chores mais, Lua bemvinda
Que me fazes também chorar…
Sorrisos do luar d’uma Caveira oca,
Sorrisos do luar enfeitiçando os brejos
Sorrisos do luar a angelizar a boca,
Sorrisos do luar onde escondi meus beijos…
Orações do luar dos lábios de nós ambos,
Orações do luar que os astros não rezaram,
Orações do luar a consagrar os tambos,
Orações do luar, das almas que noivaram.
Cabelos do luar, aveludados, frios,
Cabelos do luar em tranças latescentes;
Cabelos do luar — alvíssimas serpentes,
Cabelos do luar banhando-se nos rios…
Aromas do luar em revoadas francas,
Aromas do luar, a perfumar o céu…
Aromas do luar, sonâmbulos ao léu,
Aromas do luar, por noites todas brancas…
Brancuras do luar dispersas pelos montes…
Brancuras do luar — finos lençois de gelo…
Brancuras do luar, olhai o sete estrelo,
Brancuras do luar, a namorar as fontes…
Veludos do luar tecidos pela lua,
Veludos do luar, de lírios e de rosas…
Veludos do luar, ó vestes preciosas
Veludos do luar vestindo a noite nua…
Trémulos de luar — litanias peregrinas,
Trémulos de luar — ó harmonias cérulas,
Trémulos de luar, nas bocas aspérulas
Trémulos de luar, e lábios das boninas…
Tristezas do luar caindo-nos no peito,
Tristezas do luar, como um dobrar profundo…
Tristezas do luar anestisiando o Mundo,
Tristezas do luar, em lágrimas desfeito…
Lágrimas do luar da Lua aventureira,
Lágrimas do luar, da débil flor dos linhos…
Lágrimas do luar da mágua derradeira,
Lágrimas do luar, de moços e velhimhos…
Saudades do luar, na rama dos ciprestes,
Saudades do luar, há mochos a cantar…
Saudades do luar, são almas a chorar…
Saudades do luar, as podridões agrestes…
Velhinhos corações a verter sangue e máguas,
Velhinhos corações de mocidade negras,
Velhinhos corações — doridas toutinegras,
Velhinhos corações aos tombos pelas frágoas.
Vamos todos pedir à Lua sacrossanta
Na aspiração do Amor, na comunhão do Bem
Que o seu bendito olhar, o seu olhar de Santa,
Nos abençõe agora e para sempre amén!
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
Como a Noite, Senhor,é linda
Com seus cabelos de luar…
Não chores mais, Lua bemvinda
Que me fazes também chorar…
Sorrisos do luar d’uma Caveira oca,
Sorrisos do luar enfeitiçando os brejos
Sorrisos do luar a angelizar a boca,
Sorrisos do luar onde escondi meus beijos…
Orações do luar dos lábios de nós ambos,
Orações do luar que os astros não rezaram,
Orações do luar a consagrar os tambos,
Orações do luar, das almas que noivaram.
Cabelos do luar, aveludados, frios,
Cabelos do luar em tranças latescentes;
Cabelos do luar — alvíssimas serpentes,
Cabelos do luar banhando-se nos rios…
Aromas do luar em revoadas francas,
Aromas do luar, a perfumar o céu…
Aromas do luar, sonâmbulos ao léu,
Aromas do luar, por noites todas brancas…
Brancuras do luar dispersas pelos montes…
Brancuras do luar — finos lençois de gelo…
Brancuras do luar, olhai o sete estrelo,
Brancuras do luar, a namorar as fontes…
Veludos do luar tecidos pela lua,
Veludos do luar, de lírios e de rosas…
Veludos do luar, ó vestes preciosas
Veludos do luar vestindo a noite nua…
Trémulos de luar — litanias peregrinas,
Trémulos de luar — ó harmonias cérulas,
Trémulos de luar, nas bocas aspérulas
Trémulos de luar, e lábios das boninas…
Tristezas do luar caindo-nos no peito,
Tristezas do luar, como um dobrar profundo…
Tristezas do luar anestisiando o Mundo,
Tristezas do luar, em lágrimas desfeito…
Lágrimas do luar da Lua aventureira,
Lágrimas do luar, da débil flor dos linhos…
Lágrimas do luar da mágua derradeira,
Lágrimas do luar, de moços e velhimhos…
Saudades do luar, na rama dos ciprestes,
Saudades do luar, há mochos a cantar…
Saudades do luar, são almas a chorar…
Saudades do luar, as podridões agrestes…
Velhinhos corações a verter sangue e máguas,
Velhinhos corações de mocidade negras,
Velhinhos corações — doridas toutinegras,
Velhinhos corações aos tombos pelas frágoas.
Vamos todos pedir à Lua sacrossanta
Na aspiração do Amor, na comunhão do Bem
Que o seu bendito olhar, o seu olhar de Santa,
Nos abençõe agora e para sempre amén!
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
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