Poemas neste tema
Ciúme e Inveja
Sergio Hartenberg
Gazela
O que desejo
quando entro em tua carne,
é te rasgar TODA
(pra acalmar
a imensa ANGÚSTIA
de você não ser minha).
Gemer de excitação,
com essas caras, línguas e bocas,
apenas aguça minha RAIVA.
INFINITA
desse gozo
tão efêmero...
quando entro em tua carne,
é te rasgar TODA
(pra acalmar
a imensa ANGÚSTIA
de você não ser minha).
Gemer de excitação,
com essas caras, línguas e bocas,
apenas aguça minha RAIVA.
INFINITA
desse gozo
tão efêmero...
1 299
1
Rui Nogar
Xicuembo
Eu bebeu suruma
dos teus ólho Ana Maria
eu bebeu suruma
e ficou mesmo maluco
agora eu quero dormir quer comer
mas não pode mais dormir
não pode mais comer
suruma dos teus olhos Ana Maria
matou sossego no meu coração
oh matou sossego no meu coração
eu bebeu suruma oh suruma suruma
dos teus ólho Ana Maria
com meu todo vontade
com meu todo coração
e agora Ana Maria minhamor
eu não pode mais viver
eu não pode mais saber
que meu Ana Maria minhamor
é mulher de todo gente
é mulher de todo gente
todo gente todo gente
menos meu minhamor.
dos teus ólho Ana Maria
eu bebeu suruma
e ficou mesmo maluco
agora eu quero dormir quer comer
mas não pode mais dormir
não pode mais comer
suruma dos teus olhos Ana Maria
matou sossego no meu coração
oh matou sossego no meu coração
eu bebeu suruma oh suruma suruma
dos teus ólho Ana Maria
com meu todo vontade
com meu todo coração
e agora Ana Maria minhamor
eu não pode mais viver
eu não pode mais saber
que meu Ana Maria minhamor
é mulher de todo gente
é mulher de todo gente
todo gente todo gente
menos meu minhamor.
1 536
1
Florbela Espanca
Supremo Enleio
Quanta mulher no teu passado, quanta!
Tanta sombra em redor! Mas que me importa?
Se delas veio o sonho que conforta,
A sua vinda foi três vezes santa!
Erva do chão que a mão de Deus levanta,
Folhas murchas de rojo à tua porta...
Quando eu for uma pobre coisa morta,
Quanta mulher ainda! Quanta! Quanta!
Mas eu sou a manhã: apago estrelas!
Hás de ver-me, beijar-me em todas elas,
Mesmo na boca da que for mais linda!
E quando a derradeira, enfim, vier,
Nesse corpo vibrante de mulher
Será o meu que hás de encontrar ainda...
Tanta sombra em redor! Mas que me importa?
Se delas veio o sonho que conforta,
A sua vinda foi três vezes santa!
Erva do chão que a mão de Deus levanta,
Folhas murchas de rojo à tua porta...
Quando eu for uma pobre coisa morta,
Quanta mulher ainda! Quanta! Quanta!
Mas eu sou a manhã: apago estrelas!
Hás de ver-me, beijar-me em todas elas,
Mesmo na boca da que for mais linda!
E quando a derradeira, enfim, vier,
Nesse corpo vibrante de mulher
Será o meu que hás de encontrar ainda...
5 798
1
Bocage
O Ciúme
Entre as tartáreas forjas, sempre acesas,
Jaz aos pés do tremendo, estígio nume (1),
O carrancudo, o rábido (2) Ciúme,
Ensanguentadas as corruptas presas.
Traçando o plano de cruéis empresas,
Fervendo em ondas de sulfúreo lume,
Vibra das fauces o letal cardume
De hórridos males, de hórridas tristezas.
Pelas terríveis Fúrias (3) instigado,
Lá sai do Inferno, e para mim se avança
O negro monstro, de áspides (4) toucado.
Olhos em brasa de revés me lança;
Oh dor! Oh raiva! Oh morte!... Ei-lo a meu lado
Ferrando as garras na vipérea (5) trança.
Jaz aos pés do tremendo, estígio nume (1),
O carrancudo, o rábido (2) Ciúme,
Ensanguentadas as corruptas presas.
Traçando o plano de cruéis empresas,
Fervendo em ondas de sulfúreo lume,
Vibra das fauces o letal cardume
De hórridos males, de hórridas tristezas.
Pelas terríveis Fúrias (3) instigado,
Lá sai do Inferno, e para mim se avança
O negro monstro, de áspides (4) toucado.
Olhos em brasa de revés me lança;
Oh dor! Oh raiva! Oh morte!... Ei-lo a meu lado
Ferrando as garras na vipérea (5) trança.
4 347
1
Amália Bautista
Pecados capitais
Cada vez que tive vontade e pude
entreguei-me à gula e à luxúria.
Com a preguiça vivo amancebada.
Só fui seduzida pela avareza
como meio para outros desvios.
Sempre me mostrei irada e soberba,
orgulhosa, arbitrária e teimosa.
Talvez por isso não sentisse inveja.
Tão segura de mim, tão inflexível,
não podia invejar nada nem ninguém.
Hoje, contudo, derrotada e só,
sem esperança e vencida, tão inútil,
sinto inveja de mim quando me amavas.
entreguei-me à gula e à luxúria.
Com a preguiça vivo amancebada.
Só fui seduzida pela avareza
como meio para outros desvios.
Sempre me mostrei irada e soberba,
orgulhosa, arbitrária e teimosa.
Talvez por isso não sentisse inveja.
Tão segura de mim, tão inflexível,
não podia invejar nada nem ninguém.
Hoje, contudo, derrotada e só,
sem esperança e vencida, tão inútil,
sinto inveja de mim quando me amavas.
541
Rui Costa
O sonho: a escada aos pés da alegria
Ela queria dar maçãs mas sem saber porquê
e caber no chão e esquecer-se do seu nome
e de crescer. depois, ela queria ter um país
a rebentar na boca, um amante ciumento
a respirar cheio de medo. e poder fingir
que o esquece e queimar-se muito
nas palavras que lhe diz.
havia de mostrar-lhe as mãos cinzentas
e de cuspir o seu amor na água podre
dos caminhos. e havia de matá-lo,
com a mão de aço na coroa
da cabeça e o sangue a florir nas ruas de vermelho,
arrastando poemas, candeeiros,
a cama, o lençol branco, a mesa da cozinha,
um nome da alegria, o cesto para o pão,
e haviam de chegar à mesma casa, árvore, país,
corpo, sonho, vida, poema, como uma fonte
que regresse à própria boca
ainda com mais sede.
e caber no chão e esquecer-se do seu nome
e de crescer. depois, ela queria ter um país
a rebentar na boca, um amante ciumento
a respirar cheio de medo. e poder fingir
que o esquece e queimar-se muito
nas palavras que lhe diz.
havia de mostrar-lhe as mãos cinzentas
e de cuspir o seu amor na água podre
dos caminhos. e havia de matá-lo,
com a mão de aço na coroa
da cabeça e o sangue a florir nas ruas de vermelho,
arrastando poemas, candeeiros,
a cama, o lençol branco, a mesa da cozinha,
um nome da alegria, o cesto para o pão,
e haviam de chegar à mesma casa, árvore, país,
corpo, sonho, vida, poema, como uma fonte
que regresse à própria boca
ainda com mais sede.
514
Manoel Herzog
CIÚME LATINO EM TEMPOS DE INFORMÁTICA
Se você um dia se deixar compartilhar,
Se alguém comentar,
Nunca mais falo in box com você.
Nem tampouco, muito menos,
Tente puxar conversinha comigo nos comentários
Dos posts alheios.
Não vou mais querer papo.
Se você curtir qualquer coisa que não seja eu
Ou se eu souber, desconfiar, suspeitar
Que andou alguém curtindo você,
Vai dar merda,
Que eu me conheço.
Eu sei quem são todos os seus amigos
E visito a página de um por um atrás de pistas
Tem um, particularmente,
Que acho deveras filho da puta.
Se um dia nossa relação virtual for pro saco
Não me venha dizer que quer continuar
Sendo minha miguxa
Porque eu nunca mais que vou tc com vc
Passo mais é uma borracha etérea em cima de tudo
Apago da memória, danifico os bytes que um dia registraram tua doce presença na minha vida paralela,
E, por fim, desfaço a amizade,
Excluo você do meu facebook –
Não sem antes me matar de mentirinha.
Se alguém comentar,
Nunca mais falo in box com você.
Nem tampouco, muito menos,
Tente puxar conversinha comigo nos comentários
Dos posts alheios.
Não vou mais querer papo.
Se você curtir qualquer coisa que não seja eu
Ou se eu souber, desconfiar, suspeitar
Que andou alguém curtindo você,
Vai dar merda,
Que eu me conheço.
Eu sei quem são todos os seus amigos
E visito a página de um por um atrás de pistas
Tem um, particularmente,
Que acho deveras filho da puta.
Se um dia nossa relação virtual for pro saco
Não me venha dizer que quer continuar
Sendo minha miguxa
Porque eu nunca mais que vou tc com vc
Passo mais é uma borracha etérea em cima de tudo
Apago da memória, danifico os bytes que um dia registraram tua doce presença na minha vida paralela,
E, por fim, desfaço a amizade,
Excluo você do meu facebook –
Não sem antes me matar de mentirinha.
743
Herberto Helder
Poemas do Antigo Egipto - Exorcismo
Oh vai, vai dormir, e vai aonde estão as tuas belas mulheres,
sobre cujos cabelos se verteu a mirra
e sobre cujos ombros se verteu o incenso fresco.
sobre cujos cabelos se verteu a mirra
e sobre cujos ombros se verteu o incenso fresco.
1 078
Rui Queimado
Dize[M]-Mi Ora Que Nom Verrá
Dize[m]-mi ora que nom verrá
o meu amigo, porque quer
mui gram bem a outra molher,
mais esto quen'o creerá:
que nunca el de coraçom
molher muit'ame, se mim nom?
Pode meu amigo dizer
que ama ou[t]rem mais ca si
nem que outra rem nem ca mi,
mais esto nom é de creer:
que nunca el de coraçom
molher muit'ame, se mim nom.
Enfinta faz el, eu o sei,
que morre por outra d'amor
e que nom há mim por senhor;
mais eu esto nom creerei:
que nunca el de coraçom
molher muit'ame, se mim nom.
o meu amigo, porque quer
mui gram bem a outra molher,
mais esto quen'o creerá:
que nunca el de coraçom
molher muit'ame, se mim nom?
Pode meu amigo dizer
que ama ou[t]rem mais ca si
nem que outra rem nem ca mi,
mais esto nom é de creer:
que nunca el de coraçom
molher muit'ame, se mim nom.
Enfinta faz el, eu o sei,
que morre por outra d'amor
e que nom há mim por senhor;
mais eu esto nom creerei:
que nunca el de coraçom
molher muit'ame, se mim nom.
458
Pedro Amigo de Sevilha
Disserom-Vos, Meu Amigo
Disserom-vos, meu amigo,
que, por vos fazer pesar,
fui eu com outrem falar;
mais nom faledes vós migo
se o poderdes saber
por alguen'o entender.
E bem vos per vingaredes
de mi, se eu com alguém
falei por vos pesar en;
mais vós nunca mi faledes
se o poderdes saber
por alguen'o entender.
Se vós por verdad'achardes,
meu amigo, que é assi,
confonda Deus log'i mi
muit', e vós, se mi falardes,
se o poderdes saber
por alguen'o entender.
que, por vos fazer pesar,
fui eu com outrem falar;
mais nom faledes vós migo
se o poderdes saber
por alguen'o entender.
E bem vos per vingaredes
de mi, se eu com alguém
falei por vos pesar en;
mais vós nunca mi faledes
se o poderdes saber
por alguen'o entender.
Se vós por verdad'achardes,
meu amigo, que é assi,
confonda Deus log'i mi
muit', e vós, se mi falardes,
se o poderdes saber
por alguen'o entender.
740
Pedro Amigo de Sevilha
Amiga, Voss'amigo Vi Falar
- Amiga, voss'amigo vi falar
hoje com outra, mais nom sei em qual
razom falavam, assi Deus m'empar,
nem se falavam por bem, se por mal.
- Amiga, fale com quem x'el quiser,
enquant'eu del, com'estou, estever;
ca 'ssi tenh'eu meu amigo em poder
que quantas donas eno mundo som
punhem ora de lhi fazer prazer,
ca mi o nom tolherám, se morte nom.
- Amiga, med'hei de prenderdes i
pesar, ca já m'eu vi quem fez assi
e vós faredes pois: em voss'amor
vos esforçades tanto [e]no seu,
[qu]e vós vos acharedes en peior
ca vós cuidades, e digo-vo-l'eu.
- Amiga, nom, ca mi quer mui gram bem
e sei que tenh'e[m] el e el que tem
em mim, ca nunca nos partirám já,
senom per morte nos podem partir;
e, pois eu esto sei, u al nom há,
mando-me-lh'eu falar com quantas vir.
- Com voss'esforç', amiga, pavor hei
de perderdes voss'amigo, ca sei,
per bõa fé, outras donas que ham
falad'em como vo-lo tolherám.
- Amiga, nom, ca o poder nom é
seu nem delas, mais meu, per bõa fé.
hoje com outra, mais nom sei em qual
razom falavam, assi Deus m'empar,
nem se falavam por bem, se por mal.
- Amiga, fale com quem x'el quiser,
enquant'eu del, com'estou, estever;
ca 'ssi tenh'eu meu amigo em poder
que quantas donas eno mundo som
punhem ora de lhi fazer prazer,
ca mi o nom tolherám, se morte nom.
- Amiga, med'hei de prenderdes i
pesar, ca já m'eu vi quem fez assi
e vós faredes pois: em voss'amor
vos esforçades tanto [e]no seu,
[qu]e vós vos acharedes en peior
ca vós cuidades, e digo-vo-l'eu.
- Amiga, nom, ca mi quer mui gram bem
e sei que tenh'e[m] el e el que tem
em mim, ca nunca nos partirám já,
senom per morte nos podem partir;
e, pois eu esto sei, u al nom há,
mando-me-lh'eu falar com quantas vir.
- Com voss'esforç', amiga, pavor hei
de perderdes voss'amigo, ca sei,
per bõa fé, outras donas que ham
falad'em como vo-lo tolherám.
- Amiga, nom, ca o poder nom é
seu nem delas, mais meu, per bõa fé.
714
Rui Queimado
Fiz Meu Cantar E Loei Mia Senhor
Fiz meu cantar e loei mia senhor,
mais de quantas outras donas eu vi;
e se por est'ham queixume de mi
as outras donas, ou mi ham desamor,
hajam de seu quem delas diga bem
e a quem façam muito mal por en:
ca bem assi faz a mim mia senhor,
a mais fremosa dona nem melhor
de quantas hoj'eu sei, per bõa fé.
E vejam que farám, ca já 'si é.
E se me por aquest'ham desamor,
hajam de seu quen'as lo', e entom
nunca lhes por en façam se mal nom:
ca nom faz a mim a minha melhor!
E se m'eu hei, de mi a loar, sabor,
nom ham por en por que se mi assanhar,
mais ar hajam de seu quen'as loar
e a quem hajam por en desamor,
com'a mim faz aquela que eu já
loarei sempr'e sei bem que nom há,
de fazer a mim bem, nẽum sabor.
Ca se m'algum bem quisesse fazer,
já que que[r] m'en fezera entender,
des quant'há que a filhei por senhor.
mais de quantas outras donas eu vi;
e se por est'ham queixume de mi
as outras donas, ou mi ham desamor,
hajam de seu quem delas diga bem
e a quem façam muito mal por en:
ca bem assi faz a mim mia senhor,
a mais fremosa dona nem melhor
de quantas hoj'eu sei, per bõa fé.
E vejam que farám, ca já 'si é.
E se me por aquest'ham desamor,
hajam de seu quen'as lo', e entom
nunca lhes por en façam se mal nom:
ca nom faz a mim a minha melhor!
E se m'eu hei, de mi a loar, sabor,
nom ham por en por que se mi assanhar,
mais ar hajam de seu quen'as loar
e a quem hajam por en desamor,
com'a mim faz aquela que eu já
loarei sempr'e sei bem que nom há,
de fazer a mim bem, nẽum sabor.
Ca se m'algum bem quisesse fazer,
já que que[r] m'en fezera entender,
des quant'há que a filhei por senhor.
585
Juião Bolseiro
Ai Madre, Nunca Mal Sentiu
Ai madre, nunca mal senti[u],
nem soubi que x'era pesar,
a que seu amigo nom viu,
com'hoj'eu vi o meu, falar
com outra, mais poilo eu vi,
com pesar houvi a morrer i.
E, se molher houve d'haver
sabor d'amigo, u lho Deus deu,
sei eu que lho nom fez veer,
com'a mi fez vee'lo meu,
com outra, mais poilo eu vi,
com pesar houvi a morrer i.
nem soubi que x'era pesar,
a que seu amigo nom viu,
com'hoj'eu vi o meu, falar
com outra, mais poilo eu vi,
com pesar houvi a morrer i.
E, se molher houve d'haver
sabor d'amigo, u lho Deus deu,
sei eu que lho nom fez veer,
com'a mi fez vee'lo meu,
com outra, mais poilo eu vi,
com pesar houvi a morrer i.
775
João Soares Coelho
Falei Um Dia, Por Me Baralhar
Falei um dia, por me baralhar
com meu amigo, com outr', u m'el visse
e direi-vos que lhi dix', u m'el disse
por que lhi fezera tam gram pesar:
"Se vos i, meu amigo, pesar fiz,
nom foi por al senom porque me quis".
Por baralhar com el e por al nom
falei com outr', em tal que o provasse,
e pesou-lhi mais ca se o matasse
e preguntou-m'e dixi-lh'eu entom:
"Se vos i, meu amigo, pesar fiz,
nom foi por al senom porque me quis".
Ali u eu com outr'ant'el falei,
preguntou-m'el e por que lhi fazia
tam gram pesar ou se o entendia;
e direi-vos como me lhi salvei:
"Se vos i, meu amigo, pesar fiz,
nom foi por al senom porque me quis".
com meu amigo, com outr', u m'el visse
e direi-vos que lhi dix', u m'el disse
por que lhi fezera tam gram pesar:
"Se vos i, meu amigo, pesar fiz,
nom foi por al senom porque me quis".
Por baralhar com el e por al nom
falei com outr', em tal que o provasse,
e pesou-lhi mais ca se o matasse
e preguntou-m'e dixi-lh'eu entom:
"Se vos i, meu amigo, pesar fiz,
nom foi por al senom porque me quis".
Ali u eu com outr'ant'el falei,
preguntou-m'el e por que lhi fazia
tam gram pesar ou se o entendia;
e direi-vos como me lhi salvei:
"Se vos i, meu amigo, pesar fiz,
nom foi por al senom porque me quis".
508
João Garcia de Guilhade
A Dom Foam Quer'eu Gram Mal
A Dom Foam quer'eu gram mal
e quer'a sa molher gram bem;
gram sazom há que m'est'avém
e nunca i já farei al;
ca, des quand'eu sa molher vi,
se púdi, sempre a servi
e sempr'a ele busquei mal.
Quero-me já maenfestar,
e pesará muit'[a] alguém,
mais, sequer que moira por en,
dizer quer'eu do mao mal
e bem da que mui bõa for,
qual nom há no mundo melhor,
quero-[o] já maenfestar.
De parecer e de falar
e de bõas manhas haver,
ela, nõn'a pode vencer
dona no mund', a meu cuidar;
ca ela fez Nostro Senhor
e el fez o Demo maior,
e o Demo o faz falar.
E pois ambos ataes som,
como eu tenho no coraçom,
os julg'Aquel que pod'e val.
e quer'a sa molher gram bem;
gram sazom há que m'est'avém
e nunca i já farei al;
ca, des quand'eu sa molher vi,
se púdi, sempre a servi
e sempr'a ele busquei mal.
Quero-me já maenfestar,
e pesará muit'[a] alguém,
mais, sequer que moira por en,
dizer quer'eu do mao mal
e bem da que mui bõa for,
qual nom há no mundo melhor,
quero-[o] já maenfestar.
De parecer e de falar
e de bõas manhas haver,
ela, nõn'a pode vencer
dona no mund', a meu cuidar;
ca ela fez Nostro Senhor
e el fez o Demo maior,
e o Demo o faz falar.
E pois ambos ataes som,
como eu tenho no coraçom,
os julg'Aquel que pod'e val.
1 446
João Garcia de Guilhade
Martim Jograr, Ai Dona Maria
Martim jograr, ai Dona Maria,
jeita-se vosco já cada dia,
e lazero-m'eu mal.
And'eu morrend'e morrendo sejo,
e el tem sempr'o cono sobejo,
e lazero-m'eu mal.
Da mia lazeira pouco se sente;
fod'el bom con[o] e jaz caente,
e lazero-m'eu mal.
jeita-se vosco já cada dia,
e lazero-m'eu mal.
And'eu morrend'e morrendo sejo,
e el tem sempr'o cono sobejo,
e lazero-m'eu mal.
Da mia lazeira pouco se sente;
fod'el bom con[o] e jaz caente,
e lazero-m'eu mal.
524
João Garcia de Guilhade
Amigas, Tamanha Coita
Amigas, tamanha coita
nunca sofri pois foi nada,
e direi-vo'la gram coita
com que eu sejo coitada:
amigas, tem meu amigo
amiga na terra sigo.
Nunca vós vejades coita,
amigas, qual m'hoj'eu vejo,
e direi-vos a mia coita
com que eu coitada sejo:
amigas, tem meu amigo
amiga na terra sigo.
Sej'eu morrendo com coita,
tamanha coita me filha,
e d[irei]: mia coit'é coita
que trag'e que maravilha:
amigas, tem meu amigo
amiga na terra sigo.
nunca sofri pois foi nada,
e direi-vo'la gram coita
com que eu sejo coitada:
amigas, tem meu amigo
amiga na terra sigo.
Nunca vós vejades coita,
amigas, qual m'hoj'eu vejo,
e direi-vos a mia coita
com que eu coitada sejo:
amigas, tem meu amigo
amiga na terra sigo.
Sej'eu morrendo com coita,
tamanha coita me filha,
e d[irei]: mia coit'é coita
que trag'e que maravilha:
amigas, tem meu amigo
amiga na terra sigo.
857
João Airas de Santiago
A Que Mi a Mi Meu Amigo Filhou
A que mi a mi meu amigo filhou
mui sem meu grad', e nom me tev'em rem
que me servi'e mi queria bem,
e nom mi o disse nem mi o preguntou,
mal [l]hi será, quando lho eu filhar
mui sem seu grad', e non'a preguntar.
E, se m'ela mui gram torto fez i,
Deus me leixe dereito dela haver,
ca o levou de mim sem meu prazer;
e ora tem que o levará assi,
mal [l]hi será, quando lh'o eu filhar
mui sem seu grad', e non'a preguntar.
E bem sei eu dela que [vos] dirá
que nom fiz eu por el quant'ela fez;
mais quiçai mi o fezera outra vez,
e, pero tem bem que o haverá,
mal [l]hi será, quando lh'o eu filhar
mui sem seu grad', e non'a preguntar.
Entom veeredes molher andar
pós mim chorand', e nom lho querrei dar.
mui sem meu grad', e nom me tev'em rem
que me servi'e mi queria bem,
e nom mi o disse nem mi o preguntou,
mal [l]hi será, quando lho eu filhar
mui sem seu grad', e non'a preguntar.
E, se m'ela mui gram torto fez i,
Deus me leixe dereito dela haver,
ca o levou de mim sem meu prazer;
e ora tem que o levará assi,
mal [l]hi será, quando lh'o eu filhar
mui sem seu grad', e non'a preguntar.
E bem sei eu dela que [vos] dirá
que nom fiz eu por el quant'ela fez;
mais quiçai mi o fezera outra vez,
e, pero tem bem que o haverá,
mal [l]hi será, quando lh'o eu filhar
mui sem seu grad', e non'a preguntar.
Entom veeredes molher andar
pós mim chorand', e nom lho querrei dar.
586
João Airas de Santiago
Meu Amig'e Meu Bem E Meu Amor
Meu amig'e meu bem e meu amor,
disserom-vos que me virom falar
com outr'home por vos fazer pesar,
e por en rog'eu a Nostro Senhor
que confonda quem vo-lo foi dizer,
e vós, se o assi fostes creer,
e mim, se end'eu fui merecedor.
Já vos disserom por mi que falei
com outr'hom'e que vos nom tiv'em rem,
e, se o fiz, nunca mi venha bem;
mais rog'a Deus sempr'e rogá-Lo-ei
que confonda quem vo-lo diss'assi,
e vós, se tam gram mentira de mim
crevestes, e mim, se o eu cuidei.
Sei que vos disserom, per bõa fé,
que falei com outr'hom', e nom foi al
senom que vo-lo disserom por mal;
mais rog'a Deus, que [e]no ceo sé,
que confonda quem vos atal razom
diss', e vós, se a crevestes entom,
e que confonda mim, se verdad'é.
E confonda quem há tam gram sabor
d'antre mim e vós meter desamor
- ca [o] maior amor do mund[o] é.
disserom-vos que me virom falar
com outr'home por vos fazer pesar,
e por en rog'eu a Nostro Senhor
que confonda quem vo-lo foi dizer,
e vós, se o assi fostes creer,
e mim, se end'eu fui merecedor.
Já vos disserom por mi que falei
com outr'hom'e que vos nom tiv'em rem,
e, se o fiz, nunca mi venha bem;
mais rog'a Deus sempr'e rogá-Lo-ei
que confonda quem vo-lo diss'assi,
e vós, se tam gram mentira de mim
crevestes, e mim, se o eu cuidei.
Sei que vos disserom, per bõa fé,
que falei com outr'hom', e nom foi al
senom que vo-lo disserom por mal;
mais rog'a Deus, que [e]no ceo sé,
que confonda quem vos atal razom
diss', e vós, se a crevestes entom,
e que confonda mim, se verdad'é.
E confonda quem há tam gram sabor
d'antre mim e vós meter desamor
- ca [o] maior amor do mund[o] é.
794
João Airas de Santiago
Dizem, Amigo, Que Outra Senhor
Dizem, amigo, que outra senhor
queredes vós sem meu grado filhar
por mi fazerdes com ela pesar,
mais, a la fé, nom hei end'eu pavor,
ca já todas sabem que sodes meu
e nẽũa nom vos querrá por seu.
Faríades-mi vós de coraçom
este pesar, mais nom sei hoj'eu quem
me vos filhass', e já vos nom val rem,
ai meu amigo, vedes por que nom:
ca já todas sabem que sodes meu
e nẽũa nom vos querrá por seu.
E quem vos a vós esto conselhou
mui bem sei [eu] ca vos conselhou mal
e com tod'esso já vos rem nom val,
ai meu amigo, tardi vos nembrou:
ca já todas sabem que sodes meu
e nẽũa nom vos querrá por seu.
Cofonda Deus a que filhar o meu
amig', e mim, se eu filhar o seu.
queredes vós sem meu grado filhar
por mi fazerdes com ela pesar,
mais, a la fé, nom hei end'eu pavor,
ca já todas sabem que sodes meu
e nẽũa nom vos querrá por seu.
Faríades-mi vós de coraçom
este pesar, mais nom sei hoj'eu quem
me vos filhass', e já vos nom val rem,
ai meu amigo, vedes por que nom:
ca já todas sabem que sodes meu
e nẽũa nom vos querrá por seu.
E quem vos a vós esto conselhou
mui bem sei [eu] ca vos conselhou mal
e com tod'esso já vos rem nom val,
ai meu amigo, tardi vos nembrou:
ca já todas sabem que sodes meu
e nẽũa nom vos querrá por seu.
Cofonda Deus a que filhar o meu
amig', e mim, se eu filhar o seu.
328
João Airas de Santiago
O Que Soía, Mia Filha, Morrer
O que soía, mia filha, morrer
por vós, dizem que já nom morr'assi,
e moir'eu, filha, porque o oí;
mais, se o queredes veer morrer,
dizede que morre por vós alguém
e veredes home morrer por en.
O que morria, mia filha, por vós
como nunca vi morrer por molher
home no mundo, já morrer nom quer,
mais, se queredes que moira por vós,
dizede que morre por vós alguém
e veredes home morrer por en.
O que morria, mia filha, d'amor
por vós nom morre nem quer i cuidar,
e moir'end'eu, mia filha, com pesar,
mais, se queredes que moira d'amor,
dizede que morre por vós alguém
e veredes home morrer por en.
Ca, se souber que por vós morr'alguém,
morrerá, filha, querendo-vos bem.
por vós, dizem que já nom morr'assi,
e moir'eu, filha, porque o oí;
mais, se o queredes veer morrer,
dizede que morre por vós alguém
e veredes home morrer por en.
O que morria, mia filha, por vós
como nunca vi morrer por molher
home no mundo, já morrer nom quer,
mais, se queredes que moira por vós,
dizede que morre por vós alguém
e veredes home morrer por en.
O que morria, mia filha, d'amor
por vós nom morre nem quer i cuidar,
e moir'end'eu, mia filha, com pesar,
mais, se queredes que moira d'amor,
dizede que morre por vós alguém
e veredes home morrer por en.
Ca, se souber que por vós morr'alguém,
morrerá, filha, querendo-vos bem.
552
D. Dinis
O Voss'amig', Ai Amiga,
O voss'amig', ai amiga,
de que vos muito fiades,
tanto quer'eu que sabiades:
que ũa, que Deus maldiga,
vo-lo tem louc'e tolheito,
e moir'end'eu com despeito.
Nom hei rem que vos asconda
nem vos será encoberto,
mais sabede bem por certo
que ũa, que Deus cofonda,
vo-lo tem louc'e tolheito,
e moir'end'eu com despeito.
Nom sei molher que se pague
de lh'outras o seu amigo
filhar, e por en vos digo
que ũa, que Deus estrague,
vo-lo tem louc'e tolheito,
e moir'end'eu com despeito.
E faço mui gram dereito,
pois quero vosso proveito.
de que vos muito fiades,
tanto quer'eu que sabiades:
que ũa, que Deus maldiga,
vo-lo tem louc'e tolheito,
e moir'end'eu com despeito.
Nom hei rem que vos asconda
nem vos será encoberto,
mais sabede bem por certo
que ũa, que Deus cofonda,
vo-lo tem louc'e tolheito,
e moir'end'eu com despeito.
Nom sei molher que se pague
de lh'outras o seu amigo
filhar, e por en vos digo
que ũa, que Deus estrague,
vo-lo tem louc'e tolheito,
e moir'end'eu com despeito.
E faço mui gram dereito,
pois quero vosso proveito.
340
D. Dinis
Amiga, Sei Eu Bem D'ua Molher
Amiga, sei eu bem d'ũa molher
que se trabalha de vosco buscar
mal a voss'amigo, polo matar,
mais tod'aquest', amiga, ela quer
porque nunca com el pôde põer
que o podesse por amig'haver.
E busca-lhi convosco quanto mal
ela mais pode, aquesto sei eu,
e tod'aquest'ela faz polo seu,
e por este preit[o] e nom por al:
porque nunca com el pôde põer
que o podesse por amig'haver.
Ela trabalha-se, há gram sazom,
de lhi fazer o vosso desamor
haver, e há ende mui gram sabor,
e tod'est', amiga, nom é senom
porque nunca com el pôde põer
que o podesse por amig'haver.
[E] por esto faz ela seu poder
pera fazê-lo convosco perder.
que se trabalha de vosco buscar
mal a voss'amigo, polo matar,
mais tod'aquest', amiga, ela quer
porque nunca com el pôde põer
que o podesse por amig'haver.
E busca-lhi convosco quanto mal
ela mais pode, aquesto sei eu,
e tod'aquest'ela faz polo seu,
e por este preit[o] e nom por al:
porque nunca com el pôde põer
que o podesse por amig'haver.
Ela trabalha-se, há gram sazom,
de lhi fazer o vosso desamor
haver, e há ende mui gram sabor,
e tod'est', amiga, nom é senom
porque nunca com el pôde põer
que o podesse por amig'haver.
[E] por esto faz ela seu poder
pera fazê-lo convosco perder.
330
D. Dinis
Nostro Senhor, Hajades Bom Grado
Nostro Senhor, hajades bom grado
por quanto m'hoje mia senhor falou;
e tod'esto foi porque se cuidou
que andava doutra namorado;
ca sei eu bem que mi nom falara,
se de qual bem lh'eu quero cuidara.
Porque mi falou hoj'este dia,
hajades bom grado, Nostro Senhor;
e tod'esto foi porque mia senhor
cuidou que eu por outra morria;
ca sei eu bem que mi nom falara,
se de qual bem lh'eu quero cuidara.
Porque m'hoje falou, haja Deus
bom grado, mais desto nom fora rem
senom porque mia senhor cuidou bem
que doutra eram os desejos meus;
ca sei eu bem que mi nom falara,
se de qual bem lh'eu quero cuidara.
Ca tal é que ante se matara
ca mi falar, se o sol cuidara.
por quanto m'hoje mia senhor falou;
e tod'esto foi porque se cuidou
que andava doutra namorado;
ca sei eu bem que mi nom falara,
se de qual bem lh'eu quero cuidara.
Porque mi falou hoj'este dia,
hajades bom grado, Nostro Senhor;
e tod'esto foi porque mia senhor
cuidou que eu por outra morria;
ca sei eu bem que mi nom falara,
se de qual bem lh'eu quero cuidara.
Porque m'hoje falou, haja Deus
bom grado, mais desto nom fora rem
senom porque mia senhor cuidou bem
que doutra eram os desejos meus;
ca sei eu bem que mi nom falara,
se de qual bem lh'eu quero cuidara.
Ca tal é que ante se matara
ca mi falar, se o sol cuidara.
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