Poemas neste tema
Consciência e autoconhecimento
Raimundo Fontenele
Poética
curvos e curvas
sopram mais que males
no cordão dos ares
da verdade nua
nua e crua como
a palidez do sono
quando a natureza
dos pés à cabeça
nos pergunta: como?
palha gralha linda
calvo favo aceso
lâmpada do nada
sobre o pó desfeito
de um chão fugido
por bicar um pássaro
maçã tarde e calma
Ah! eu adormeço...
longe e longo tomo
um farol sumido
nos confins da noite
grito, coração, que grito?
fala para a ala
dúbio alvorecer
fala parasia
antes de morrer
do capim dourado
morivigerando
no verdor da lua
salta o sol de quando
tudo era na erva
o fluxo de existir
vida-taça, gota
do ser no devir.
sopram mais que males
no cordão dos ares
da verdade nua
nua e crua como
a palidez do sono
quando a natureza
dos pés à cabeça
nos pergunta: como?
palha gralha linda
calvo favo aceso
lâmpada do nada
sobre o pó desfeito
de um chão fugido
por bicar um pássaro
maçã tarde e calma
Ah! eu adormeço...
longe e longo tomo
um farol sumido
nos confins da noite
grito, coração, que grito?
fala para a ala
dúbio alvorecer
fala parasia
antes de morrer
do capim dourado
morivigerando
no verdor da lua
salta o sol de quando
tudo era na erva
o fluxo de existir
vida-taça, gota
do ser no devir.
965
Renato Castelo Branco
O Instante
É um instante
esta sensação
de ter sido sempre,
de ser sempre.
Esta sensação
de ser poeira e cosmos,
finito e infinito,
segundo e eternidade.
É um instante
esta sensação
de momento já vivido,
de poesia já escrita,
de palavra enunciada,
De ser Verbo e plasma,
de além,
de ressurreição.
É um instante de glória,
esta sensação
de ter sido sempre,
de ser sempre.
Esta sensação
de ser poeira e cosmos,
finito e infinito,
segundo e eternidade.
É um instante
esta sensação
de momento já vivido,
de poesia já escrita,
de palavra enunciada,
De ser Verbo e plasma,
de além,
de ressurreição.
É um instante de glória,
1 139
Zito Batista
Monólogo de um Cego
Falaram-me do sol! Maravilhoso o sol
Refulgindo na altura...
Ah! se eu pudesse ver, assim como um farol
Imenso e inacessível
Em vertigens de luz sobre as nossas cabeças!...
E — eterna desventura —
Eu fiquei a pensar: por que o sol invencível
Não rasga o negro véu de minha noite espessa
Quando brilha na altura?
Falaram-me das florestas e das aves!
Das aves, cujo canto
Põe na minha alma em febre uns arrepios suaves
De vaga nostalgia...
Ah! se eu pudesse ver as aves e as florestas!
Soberbo o meu encanto!
Se eu pudesse aclarar a minha noite sombria,
Quando ouvisse enlevado em delírios e festas
Num soberbo canto
Todo poema de amor das aves nas florestas!
E o mar? Onde o mais belo símbolo da vida?
o mar é um rebelado!
Que vive noite e dia em soluços gemendo
De cólera incontida,
A investir contra o céu como um tigre esfaimado!
É lindo o mar no seu desespero tremendo!
Eu não o vejo não! Mas chega aos meus ouvidos
E escuto alucinado
A música fatal dos seus grandes gemidos!
Há toda uma história enorme a interpretar
Nesse choro convulsivo e incessante do mar...
Ah! que destino o meu! que desgraçada sorte
Me traçou, pela terra, a mão de um Deus Brutal!
Na vida, em vez da vida, anda comigo a morte,
A escuridão sem fim...
Tenho a envolver-me o corpo a asa torpe do mal.
E falam-me do céu, das aves e das flores;
E dizem que o mundo é um paraíso, assim,
Todo cheio de luz, de aroma, de esplendores!
E eu creio! Eu creio em tudo...
Os homens têm razão! eu creio e desejara
Vendo sumir-se ao longe a minha noite amara
Ver o mar, ver o sol no firmamento mudo
A brilhar!... a brilhar...
Mas o meu grande sonho, o meu sonho infinito
É outro, um outro ainda: o que me faz chorar
E há de, em fúria, arrancar-me o derradeiro grito
Quando eu daqui me for, aos trambolhões, a esmo,
É a ânsia indefinida, o desejo profundo
De conhecer o que há de mais original no mundo,
De conhecer a mim mesmo!
Porque a julgar, talvez, pelo mal que me oprime
Eu devo ser, por força, um monstro desconforme.
Na eterna expiação do mais nefando crime
Atado ao poste real de minha dor enorme!...
Refulgindo na altura...
Ah! se eu pudesse ver, assim como um farol
Imenso e inacessível
Em vertigens de luz sobre as nossas cabeças!...
E — eterna desventura —
Eu fiquei a pensar: por que o sol invencível
Não rasga o negro véu de minha noite espessa
Quando brilha na altura?
Falaram-me das florestas e das aves!
Das aves, cujo canto
Põe na minha alma em febre uns arrepios suaves
De vaga nostalgia...
Ah! se eu pudesse ver as aves e as florestas!
Soberbo o meu encanto!
Se eu pudesse aclarar a minha noite sombria,
Quando ouvisse enlevado em delírios e festas
Num soberbo canto
Todo poema de amor das aves nas florestas!
E o mar? Onde o mais belo símbolo da vida?
o mar é um rebelado!
Que vive noite e dia em soluços gemendo
De cólera incontida,
A investir contra o céu como um tigre esfaimado!
É lindo o mar no seu desespero tremendo!
Eu não o vejo não! Mas chega aos meus ouvidos
E escuto alucinado
A música fatal dos seus grandes gemidos!
Há toda uma história enorme a interpretar
Nesse choro convulsivo e incessante do mar...
Ah! que destino o meu! que desgraçada sorte
Me traçou, pela terra, a mão de um Deus Brutal!
Na vida, em vez da vida, anda comigo a morte,
A escuridão sem fim...
Tenho a envolver-me o corpo a asa torpe do mal.
E falam-me do céu, das aves e das flores;
E dizem que o mundo é um paraíso, assim,
Todo cheio de luz, de aroma, de esplendores!
E eu creio! Eu creio em tudo...
Os homens têm razão! eu creio e desejara
Vendo sumir-se ao longe a minha noite amara
Ver o mar, ver o sol no firmamento mudo
A brilhar!... a brilhar...
Mas o meu grande sonho, o meu sonho infinito
É outro, um outro ainda: o que me faz chorar
E há de, em fúria, arrancar-me o derradeiro grito
Quando eu daqui me for, aos trambolhões, a esmo,
É a ânsia indefinida, o desejo profundo
De conhecer o que há de mais original no mundo,
De conhecer a mim mesmo!
Porque a julgar, talvez, pelo mal que me oprime
Eu devo ser, por força, um monstro desconforme.
Na eterna expiação do mais nefando crime
Atado ao poste real de minha dor enorme!...
1 095
Nelson Motta
Noite Interna
ao longo da longa noite
luzem luas, lumem luzes
que no entanto não clareiam
minha busca da manhã.
faltam forças
frágil fraquejo e por fim
fujo da faceminha que me fita:
feroz figura, feia criatura,
fruta fenecida a me fitar no espelho.
luzem luas, lumem luzes
que no entanto não clareiam
minha busca da manhã.
faltam forças
frágil fraquejo e por fim
fujo da faceminha que me fita:
feroz figura, feia criatura,
fruta fenecida a me fitar no espelho.
1 201
Rogério Bessa
Do Canto VII:
Viagem de Retorno e Reencontro de SI, Seu Lenitivo:
A Cilada
o mar ruge assombroso,
o marujo rege o leme
e a estória do caramujo
semelha amor desses mares,
esses mares com seus homens,
esses homens caravelas
dizem desse amor de nada
com arestas sem avenas.
amor desconhece cláusulas
e cláusulas são clausuras,
que acerbam agudas arestas
no nascente amor de tudo.
A Cilada
o mar ruge assombroso,
o marujo rege o leme
e a estória do caramujo
semelha amor desses mares,
esses mares com seus homens,
esses homens caravelas
dizem desse amor de nada
com arestas sem avenas.
amor desconhece cláusulas
e cláusulas são clausuras,
que acerbam agudas arestas
no nascente amor de tudo.
986
Rogério Bessa
Do Canto III:
Onomatopéia e Cibernética; Orbitas do Homem:
Sua Aurora e Seu Ocaso
no princípio, não era o homem,
antes sonossexo, depois vigília,
o não-sono das coisas.
madrugada sono e sonho
com a descoberta de si,
fecha-se ao vir das sombras
e se despe homem vassalo
de sua mesma contextura
qual ode passada a limpo.
Sua Aurora e Seu Ocaso
no princípio, não era o homem,
antes sonossexo, depois vigília,
o não-sono das coisas.
madrugada sono e sonho
com a descoberta de si,
fecha-se ao vir das sombras
e se despe homem vassalo
de sua mesma contextura
qual ode passada a limpo.
915
Moranno Portela
Homem Moderno
Teus olhos míopes
ouvem a notícia do mundo;
teus ouvidos moucos
vêem o oco do mundo;
teu olfato cúpido
devora as fezes do mundo;
teu parvo paladar
aspira a essência do nada
e reténs, em tuas mãos vazias,
essa pacífica e tenebrosa
ilusão de realidade.
ouvem a notícia do mundo;
teus ouvidos moucos
vêem o oco do mundo;
teu olfato cúpido
devora as fezes do mundo;
teu parvo paladar
aspira a essência do nada
e reténs, em tuas mãos vazias,
essa pacífica e tenebrosa
ilusão de realidade.
808
Madi
Cacto e Violeta
Cacto e Violeta
Ele se parece com as violetas, pela delicadeza
E eu com os cactos, mais pelos espinhos do que pela resistência
Não sabia que cactos pudessem amar tanto as violetas
Mas cacto, por amor, também muda a natureza
Aprende a podar seus espinhos
para encurtar o caminho entre ele e as violetas
Ele se parece com as violetas, pela delicadeza
E eu com os cactos, mais pelos espinhos do que pela resistência
Não sabia que cactos pudessem amar tanto as violetas
Mas cacto, por amor, também muda a natureza
Aprende a podar seus espinhos
para encurtar o caminho entre ele e as violetas
1 197
Ieda Estergilda
Apresentação
Como viva, aos vivos me apresento:
visível aos olhos, sensível ao tato.
Todos concordam, é a viva
diferente só dos animais, plantas e pedras
a quem chamo seres de outras espécies.
A quem falo? Ao vivo.
Quem me responde igual? O vivo.
Qualquer som ou movimento revelam
minha condição
até a morte me denunciará:
era a viva.
visível aos olhos, sensível ao tato.
Todos concordam, é a viva
diferente só dos animais, plantas e pedras
a quem chamo seres de outras espécies.
A quem falo? Ao vivo.
Quem me responde igual? O vivo.
Qualquer som ou movimento revelam
minha condição
até a morte me denunciará:
era a viva.
899
Iranildo Sampaio
Elogio da Pressa
Lanço o meu desafio.
Sou como o pássaro que fica de vigília no pomar
esperando que o fruto amadureça.
Hoje é dia de paz.
Acomodo-me na minha rouquidão e me calo de vez.
O anjo que me guarda não conhece este exílio
onde apodreço sozinho.
Sustento esta bengala.
Lá fora, a tarde protesta contra a minha trajetória
e muda de percurso.
Sufoco os efeitos de minha solidão e continuo alheio
aos meus propósitos.
Não sei recomeçar.
Melhor é ficar dentro do búzio e esperar que o
silêncio reabra novamente suas velhas cortinas.
Reduzo as minhas intenções a um quadro novo
e esbarro no irreal.
Cada instante é uma reta ligando a minha angústia
ao olho do universo.
Tudo me parece relativo.
A vida foge ao controle de minhas decisões
e me deixa perplexo.
Meus caminhos são amplos.
Apalpo a hora vagarosa em sua órbita em torno
do incriado.
Vivo o segredo dos ausentes sem teto.
Estou no centro geométrico de todas as idéias
e não sei o que penso.
Por enquanto, apenas a verdade me aproxima do que sou
e deste tema resumido.
Sou como o pássaro que fica de vigília no pomar
esperando que o fruto amadureça.
Hoje é dia de paz.
Acomodo-me na minha rouquidão e me calo de vez.
O anjo que me guarda não conhece este exílio
onde apodreço sozinho.
Sustento esta bengala.
Lá fora, a tarde protesta contra a minha trajetória
e muda de percurso.
Sufoco os efeitos de minha solidão e continuo alheio
aos meus propósitos.
Não sei recomeçar.
Melhor é ficar dentro do búzio e esperar que o
silêncio reabra novamente suas velhas cortinas.
Reduzo as minhas intenções a um quadro novo
e esbarro no irreal.
Cada instante é uma reta ligando a minha angústia
ao olho do universo.
Tudo me parece relativo.
A vida foge ao controle de minhas decisões
e me deixa perplexo.
Meus caminhos são amplos.
Apalpo a hora vagarosa em sua órbita em torno
do incriado.
Vivo o segredo dos ausentes sem teto.
Estou no centro geométrico de todas as idéias
e não sei o que penso.
Por enquanto, apenas a verdade me aproxima do que sou
e deste tema resumido.
779
João Luiz Pacheco Mendes
Travelling
Jejum de coca
maratona de yoga
serenata de Mantra
noite adentro, mundo afora
nas profundezas de Atlântida
sobre as cinzas de Tróia,
criatura sua
eu procurei o criador.
Será que ousei pouca aventura?
Empunhei armaduras
saqueei as sagradas escrituras
entrei em cruzadas homéricas
esotéricas, telúricas,
bebi do Daime, Graal,
Mahabharata, Alcorão
etc. e tal.
Mas fui condenado
à lei do eterno retorno.
Eis-me aqui de novo
com a mesma questão:
de onde vim, pra onde vôo?
Guiai-me Platão.
No fim do túnel há uma luz rude
que ofusca os sentidos da gente.
Tanta peregrinação
dava até um road-movie
(com direito a happy-end?)
Help Thelma & Louise,
please,
não me largue nesta crise.
maratona de yoga
serenata de Mantra
noite adentro, mundo afora
nas profundezas de Atlântida
sobre as cinzas de Tróia,
criatura sua
eu procurei o criador.
Será que ousei pouca aventura?
Empunhei armaduras
saqueei as sagradas escrituras
entrei em cruzadas homéricas
esotéricas, telúricas,
bebi do Daime, Graal,
Mahabharata, Alcorão
etc. e tal.
Mas fui condenado
à lei do eterno retorno.
Eis-me aqui de novo
com a mesma questão:
de onde vim, pra onde vôo?
Guiai-me Platão.
No fim do túnel há uma luz rude
que ofusca os sentidos da gente.
Tanta peregrinação
dava até um road-movie
(com direito a happy-end?)
Help Thelma & Louise,
please,
não me largue nesta crise.
911
Iranildo Sampaio
Teoria da Última Ladeira
Nada tenho a dizer.
Deus está do outro lado, eu estou aqui, e o demônio,
astuto, talvez não tenha vindo.
Presto serviço a qualquer santo.
As circunstâncias de que me valho são neutras
e me fazem pensar noutras medidas.
Passo em revista as minhas incertezas.
Não sei refletir quando tudo me parece adverso.
Ninguém admite o efeito transitório do meu remédio abstrato.
Agora, vasculho as minhas intenções e me resumo a isto
que hoje sou.
Poeta de tantas agonias, divido-me em poemas comedidos,
e elaboro esse longo apocalipse de verdades esdrúxulas.
A certa altura, nem eu mesmo me entendo.
Meu quadro é irreversível.
Nunca violei qualquer segredo.
Ainda assim, dou graças ao meu Deus por tudo isto,
antes que o Diabo interceda em favor de seus súditos.
Meu horóscopo é outro.
O planeta que rege a minha sorte mudou de órbita.
De dia, arrumo estas idéias na cabeça em desordem.
De noite, desarrumo tudo e adormeço.
Se algo me aborrece, pouco importa.
O princípio é o meu.
Salgo a memória e corro novamente em busca do que quero.
Sei que tudo é inútil.
A ciência do bem é a mesma.
Tenho a força de minha gratidão a me amparar
diante do meu mundo.
Não posso aliciar as minhas mágoas.
No entanto, as cosias permanecem iguais, e eu saio
de casa a toda hora, com os mesmos propósitos.
Deus está do outro lado, eu estou aqui, e o demônio,
astuto, talvez não tenha vindo.
Presto serviço a qualquer santo.
As circunstâncias de que me valho são neutras
e me fazem pensar noutras medidas.
Passo em revista as minhas incertezas.
Não sei refletir quando tudo me parece adverso.
Ninguém admite o efeito transitório do meu remédio abstrato.
Agora, vasculho as minhas intenções e me resumo a isto
que hoje sou.
Poeta de tantas agonias, divido-me em poemas comedidos,
e elaboro esse longo apocalipse de verdades esdrúxulas.
A certa altura, nem eu mesmo me entendo.
Meu quadro é irreversível.
Nunca violei qualquer segredo.
Ainda assim, dou graças ao meu Deus por tudo isto,
antes que o Diabo interceda em favor de seus súditos.
Meu horóscopo é outro.
O planeta que rege a minha sorte mudou de órbita.
De dia, arrumo estas idéias na cabeça em desordem.
De noite, desarrumo tudo e adormeço.
Se algo me aborrece, pouco importa.
O princípio é o meu.
Salgo a memória e corro novamente em busca do que quero.
Sei que tudo é inútil.
A ciência do bem é a mesma.
Tenho a força de minha gratidão a me amparar
diante do meu mundo.
Não posso aliciar as minhas mágoas.
No entanto, as cosias permanecem iguais, e eu saio
de casa a toda hora, com os mesmos propósitos.
864
Cid Teixeira de Abreu
Soneto de Amor
o meu amor é só. como as gaivotas,
criei-o na aurora dos rochedos,
acima da impotência dos enredos,
na trilha insondável de outras rotas.
meu amor é meu ser e meus segredos,
a virtude trincada de revoltas.
se não há o querer de eras remotas,
ausência também há de velhos medos...
e cibório de nervos e memória
tensa, coberta de sangue — oh granito!
dólmans brancos nas páginas da história.
o meu amor... quem sabe compreendê-lo,
se a própria alma, na angústia do infinito,
é chama e cinza, é ternura e gelo?!...
criei-o na aurora dos rochedos,
acima da impotência dos enredos,
na trilha insondável de outras rotas.
meu amor é meu ser e meus segredos,
a virtude trincada de revoltas.
se não há o querer de eras remotas,
ausência também há de velhos medos...
e cibório de nervos e memória
tensa, coberta de sangue — oh granito!
dólmans brancos nas páginas da história.
o meu amor... quem sabe compreendê-lo,
se a própria alma, na angústia do infinito,
é chama e cinza, é ternura e gelo?!...
1 082
Álvaro Viana
Eu
Eu tenho amor pelo meu tipo feio,
Esguio e magro, muito magro e alto.
Às vezes fico embevecido e creio
Que o meu semblante é de terroso asfalto.
E noite adentro sonho um lago e em meio
Às águas calmas que em meu sonho exalto,
Vejo entre os astros, a mim próprio alheio,
O meu perfil tristonho de pernalto.
Entre os dois céus iguais em que me perco,
De um grande amor pelo meu Ser me cerco
Abrindo as asas deste Ideal que é meu.
E assim perdido na quimera, absorto,
Espera pela paz, depois de morto,
Quem nunca soube para quê nasceu.
Esguio e magro, muito magro e alto.
Às vezes fico embevecido e creio
Que o meu semblante é de terroso asfalto.
E noite adentro sonho um lago e em meio
Às águas calmas que em meu sonho exalto,
Vejo entre os astros, a mim próprio alheio,
O meu perfil tristonho de pernalto.
Entre os dois céus iguais em que me perco,
De um grande amor pelo meu Ser me cerco
Abrindo as asas deste Ideal que é meu.
E assim perdido na quimera, absorto,
Espera pela paz, depois de morto,
Quem nunca soube para quê nasceu.
927
Ana Maria Ramiro
Navegando a Poesia
Quem diz que o poeta mente
é alguém em distonia
Cá estou eu sinceramente
Navegando a poesia.
Poesia é viagem
pelo subconsciente,
pelo sonho,
pela alma,
pela lira de um valente.
O poeta é maestro,
rege a pena com destreza
Mas também é timoneiro
no Universo da tristeza.
Navegar a poesia
é conhecer toda a gente
As de hoje, as de outrora
e as que virão pela frente.
Quem diz que o poeta mente?
Pouco deve conhecer
sobre antropologia e sobre a busca do ser:
Por amor, fraternidade,
conhecimento e alegria
Que o poema é a saga do homem
em forma de antologia.
é alguém em distonia
Cá estou eu sinceramente
Navegando a poesia.
Poesia é viagem
pelo subconsciente,
pelo sonho,
pela alma,
pela lira de um valente.
O poeta é maestro,
rege a pena com destreza
Mas também é timoneiro
no Universo da tristeza.
Navegar a poesia
é conhecer toda a gente
As de hoje, as de outrora
e as que virão pela frente.
Quem diz que o poeta mente?
Pouco deve conhecer
sobre antropologia e sobre a busca do ser:
Por amor, fraternidade,
conhecimento e alegria
Que o poema é a saga do homem
em forma de antologia.
973
Alcides Freitas
Hamlet
Não sei que estranha dor meu peito dilacera,
Que esquisito negror meu espírito ensombra!
Tenho sorrisos de anjo e arreganhes de fera,
Sinto chamas de inferno e frescuras de alfombra!
Sou malvado e sou bom! Minhalma ora é sincera,
ora de ser traidora ela própria se assombra!
Que clamores de inverno e paz de primavera!...
Escarneço da morte e temo a minha sombra!
Nervo a nervo, a vibrar, misteriosa e vaga,
Anda-me o corpo todo a nevrose de um tédio,
Que dos pés à cabeça atrozmente me alaga...
Onde um recurso ao mal que me banha e transborda?
Minha dor é sem fim! Eu só tenho um remédio:
o suicídio — uma bala... um punhal... uma corda!...
Que esquisito negror meu espírito ensombra!
Tenho sorrisos de anjo e arreganhes de fera,
Sinto chamas de inferno e frescuras de alfombra!
Sou malvado e sou bom! Minhalma ora é sincera,
ora de ser traidora ela própria se assombra!
Que clamores de inverno e paz de primavera!...
Escarneço da morte e temo a minha sombra!
Nervo a nervo, a vibrar, misteriosa e vaga,
Anda-me o corpo todo a nevrose de um tédio,
Que dos pés à cabeça atrozmente me alaga...
Onde um recurso ao mal que me banha e transborda?
Minha dor é sem fim! Eu só tenho um remédio:
o suicídio — uma bala... um punhal... uma corda!...
849
Ana Maria Ramiro
Iniciação
Oráculos em sonhos,
Inconscientes rituais,
Como posso possuir alma cigana,
se me prendo a tantas convenções?
Procuro um mago, um alquimista,
um pai, um guru, um artista,
Que me instrua na ciência inexata,
mas absoluta das transformações.
Que através de sua abstrata teoria,
Possa eu, luz em redoma,
transformar, não mais vil metal em ouro,
mas em amor, as paixões.
Inconscientes rituais,
Como posso possuir alma cigana,
se me prendo a tantas convenções?
Procuro um mago, um alquimista,
um pai, um guru, um artista,
Que me instrua na ciência inexata,
mas absoluta das transformações.
Que através de sua abstrata teoria,
Possa eu, luz em redoma,
transformar, não mais vil metal em ouro,
mas em amor, as paixões.
841
Weydson Barros Leal
Noite
Docemente o tempo soava, ela contou como a noite que habitava seu corpo.
(as meninas choram quando perdem teorias,
os meninos também criam teorias,
as meninas e os meninos choram)
Não sei se agora é acordada a menina,
pareceu mulher.
Doce mulher de pele noturna e olhos de amêndoa madura,
não voltará a vê-la o beijo que imaginei...
Pintamos o outro com o que chamamos afinidade — ela falou —
e há pessoas em que vivemos, em quem sabemos
a cumplicidade — lhe falei.
(há os olhos e os dentes por se tocar — a música dos gestos é sempre incerta
como os corpos — esta sinfonia de cores e de líquidos...)
É assim que lhe desperta sua fragilidade de deusa ou amêndoa colhida.
É assim sua teoria.
Nota:
Este poema inspirou "Buscando a Teoria", de Soares Feitosa.
(as meninas choram quando perdem teorias,
os meninos também criam teorias,
as meninas e os meninos choram)
Não sei se agora é acordada a menina,
pareceu mulher.
Doce mulher de pele noturna e olhos de amêndoa madura,
não voltará a vê-la o beijo que imaginei...
Pintamos o outro com o que chamamos afinidade — ela falou —
e há pessoas em que vivemos, em quem sabemos
a cumplicidade — lhe falei.
(há os olhos e os dentes por se tocar — a música dos gestos é sempre incerta
como os corpos — esta sinfonia de cores e de líquidos...)
É assim que lhe desperta sua fragilidade de deusa ou amêndoa colhida.
É assim sua teoria.
Nota:
Este poema inspirou "Buscando a Teoria", de Soares Feitosa.
871
Weydson Barros Leal
E Deusas não Aravam Rosas
conto fantopoético ou
noturno em 6 movimentos
I. sonho
há hipnoses que podemos estudar
Para o entendimento do mundo, —
a paixão é uma delas.
haver os sentimentos
como relíquia do homem de sempre
e desnudá-los ao fogo para anotar as reações...
pintá-las nas pedras
que perseguem as ruas
e não haverá mais pedras —
a música dos olhos
é a única prisão
que mantemos em nós
II. madrugada da tarde
Conhecera uma mulher que criara teorias...
Doce mulher de olhos de amêndoa magoada e pele
noturna, que sobressegredos recriara o amor, o mal e o perdão.
Era um tempo antigo como os segredos...
Em seus olhos conhecera outra mulher. Era ouvi-la dizer de
um verde em que era a vida, que podia avistá-las na luz
consumida...
(talvez seja o equilíbrio — como a beleza ou uma amêndoa
— e precise tempo ao criá-las e destruí-las todas)
Duramente nua sua língua alimentava a palavra
que lentamente morria —
a morte como uma aula de rios ou
uma queda —
a alma e milhões de teorias —
a alma
e sua língua de sonhos...
III. note elementar
Todo mistério humano repousara em suas mãos quando
encontraram suas almas aprisionadas como pássaros.
Ficaram cegos.
O terceiro dia nos devora como um cárcere ou uma fome.
Sob suas unhas nasciam violetas: todas as conquistas de
seu pecado foram erguidas como uma água sobre a terra.
Havia um peito a semear outra vez.
A sua espada era uma planta renascida.
Há numa mulher algo que sufoca a eternidade
fazendo-a dormente.
Doce mulher, dizia, em que os lábios eram a cor
de sua alma,
passara rebelde em seu sorriso...
IV. noite fundamental
imaginarem sua noite
uma estrela que se desprenda
como uma confissão, e traze-la para perto
onde eu possa beber de suas mãos.
Há incertezas de trilhas como um trem na hora noturna; um
trem que despedaça a luz ou um beijo — mas eu serei entendido
como uma água que imanta os olhos.
Sua fala de lúcida beleza trago em mim como um retrato.
Fiz o seu corpo encoberto de cores como bandeiras que
houvesse tomado em batalhas — sua roupa é o despojo de
derrotados.
Partirei ainda por descrevê-la em sua pátria de pássara e
mulher — há tantos mortos sob cada trincheira que veste sua
intimidade, que é aqui onde deposito todos os algozes para
combatê-la.
O seu nome aprendi com uma rosa roubada e guardei em
meu melhor lugar.
Sinto-a perto corra uma coisa roubada.
Sinto-a roubada por mim.
V. noite
Docemente o tempo soava, ela contou, como a noite que
habitara seu corpo.
(as meninas choram quando perdem teorias.
os meninos também criam teorias.
as meninas e os meninos choram.)
Não sei se agora é acordada a menina,
pareceu mulher.
Doce mulher de pele noturna e olhos de amêndoa madura,
não voltará a vê-la o beijo que imaginei...
Pintamos o outro com o que chamamos afinidade — ela
falou — e há pessoas em que vivemos, em quem sabemos a cumplicida
de — lhe falei.
(há os olhos e os dentes ) por se tocar.
— a música dos gestos é sempre incerta como os corpos — esta
sinfonia de sons e de líquidos...)
É assim que lhe desperta sua fragilidade de deusa ou
amêndoa colhida.
É assim sua teoria.
VI. manhã
Dormirei uma noite
aos pés de Medusa
e pedirei seu perdão.
Sobre seus braços deitarei o meu sono
de arma esquecida,
e não usarei nem um sonho.
Cometi o pior dos amores. Cometi a paixão.
E todas as deusas em seu tribunal foram seus olhos.
Fora acusado por Euríale de adorar os segredos
que alimentam o negro: o verde, dissera, será tua pena, e o azul,
teu perdão.
Contará que foi pouco a todas as cores que serviu sob
exércitos de mares e noites, e que por fim, foi levado.
Soube Medusa as armas do Amor em seu reino de espadas,
e recordou as batalhas que se lançara sem seu ermo de deusa.
— Tantas vezes tivesse encontrado o teu sangue outorgado
sob a esfinge de um nome — ela disse — seriam mil pedras
teus olhos de homem!
Esteno sorria de seu último sonho...
Acordara num jardim de canteiros de górgones, e deusas
não aravam rosas como um dia pensou...
noturno em 6 movimentos
I. sonho
há hipnoses que podemos estudar
Para o entendimento do mundo, —
a paixão é uma delas.
haver os sentimentos
como relíquia do homem de sempre
e desnudá-los ao fogo para anotar as reações...
pintá-las nas pedras
que perseguem as ruas
e não haverá mais pedras —
a música dos olhos
é a única prisão
que mantemos em nós
II. madrugada da tarde
Conhecera uma mulher que criara teorias...
Doce mulher de olhos de amêndoa magoada e pele
noturna, que sobressegredos recriara o amor, o mal e o perdão.
Era um tempo antigo como os segredos...
Em seus olhos conhecera outra mulher. Era ouvi-la dizer de
um verde em que era a vida, que podia avistá-las na luz
consumida...
(talvez seja o equilíbrio — como a beleza ou uma amêndoa
— e precise tempo ao criá-las e destruí-las todas)
Duramente nua sua língua alimentava a palavra
que lentamente morria —
a morte como uma aula de rios ou
uma queda —
a alma e milhões de teorias —
a alma
e sua língua de sonhos...
III. note elementar
Todo mistério humano repousara em suas mãos quando
encontraram suas almas aprisionadas como pássaros.
Ficaram cegos.
O terceiro dia nos devora como um cárcere ou uma fome.
Sob suas unhas nasciam violetas: todas as conquistas de
seu pecado foram erguidas como uma água sobre a terra.
Havia um peito a semear outra vez.
A sua espada era uma planta renascida.
Há numa mulher algo que sufoca a eternidade
fazendo-a dormente.
Doce mulher, dizia, em que os lábios eram a cor
de sua alma,
passara rebelde em seu sorriso...
IV. noite fundamental
imaginarem sua noite
uma estrela que se desprenda
como uma confissão, e traze-la para perto
onde eu possa beber de suas mãos.
Há incertezas de trilhas como um trem na hora noturna; um
trem que despedaça a luz ou um beijo — mas eu serei entendido
como uma água que imanta os olhos.
Sua fala de lúcida beleza trago em mim como um retrato.
Fiz o seu corpo encoberto de cores como bandeiras que
houvesse tomado em batalhas — sua roupa é o despojo de
derrotados.
Partirei ainda por descrevê-la em sua pátria de pássara e
mulher — há tantos mortos sob cada trincheira que veste sua
intimidade, que é aqui onde deposito todos os algozes para
combatê-la.
O seu nome aprendi com uma rosa roubada e guardei em
meu melhor lugar.
Sinto-a perto corra uma coisa roubada.
Sinto-a roubada por mim.
V. noite
Docemente o tempo soava, ela contou, como a noite que
habitara seu corpo.
(as meninas choram quando perdem teorias.
os meninos também criam teorias.
as meninas e os meninos choram.)
Não sei se agora é acordada a menina,
pareceu mulher.
Doce mulher de pele noturna e olhos de amêndoa madura,
não voltará a vê-la o beijo que imaginei...
Pintamos o outro com o que chamamos afinidade — ela
falou — e há pessoas em que vivemos, em quem sabemos a cumplicida
de — lhe falei.
(há os olhos e os dentes ) por se tocar.
— a música dos gestos é sempre incerta como os corpos — esta
sinfonia de sons e de líquidos...)
É assim que lhe desperta sua fragilidade de deusa ou
amêndoa colhida.
É assim sua teoria.
VI. manhã
Dormirei uma noite
aos pés de Medusa
e pedirei seu perdão.
Sobre seus braços deitarei o meu sono
de arma esquecida,
e não usarei nem um sonho.
Cometi o pior dos amores. Cometi a paixão.
E todas as deusas em seu tribunal foram seus olhos.
Fora acusado por Euríale de adorar os segredos
que alimentam o negro: o verde, dissera, será tua pena, e o azul,
teu perdão.
Contará que foi pouco a todas as cores que serviu sob
exércitos de mares e noites, e que por fim, foi levado.
Soube Medusa as armas do Amor em seu reino de espadas,
e recordou as batalhas que se lançara sem seu ermo de deusa.
— Tantas vezes tivesse encontrado o teu sangue outorgado
sob a esfinge de um nome — ela disse — seriam mil pedras
teus olhos de homem!
Esteno sorria de seu último sonho...
Acordara num jardim de canteiros de górgones, e deusas
não aravam rosas como um dia pensou...
959
Wanda Cristina
Poema do Ser Assim
Você precisa conhecer a solidão.
Ela é baixinha como eu,
e é magra, e é triste
e fuma todas as melancolias
que, um dia, alguém fumou.
E faz poesia em espírito gonçalvino,
e adentra o Modernismo sem saber inglês...
Já foi boêmia como Baudelaire,
e bebeu a multidão de um gole,
embriagando-se do perdido
pra nunca mais deixar de ser
a bêbada predileta
dos bares de todos os homens.
Você precisa conhecer a solidão.
....................................................
Ela é a consciência,
o abrigo, a chave de todas as portas
que guardam o segredo do SER ASSIM...
Ela nunca morreu em alguém,
antes desse alguém ter morrido.
Ela é baixinha como eu,
e é magra, e é triste
e fuma todas as melancolias
que, um dia, alguém fumou.
E faz poesia em espírito gonçalvino,
e adentra o Modernismo sem saber inglês...
Já foi boêmia como Baudelaire,
e bebeu a multidão de um gole,
embriagando-se do perdido
pra nunca mais deixar de ser
a bêbada predileta
dos bares de todos os homens.
Você precisa conhecer a solidão.
....................................................
Ela é a consciência,
o abrigo, a chave de todas as portas
que guardam o segredo do SER ASSIM...
Ela nunca morreu em alguém,
antes desse alguém ter morrido.
932
Tatiana Ramminger
Só o olhar do outro
Só o olhar do outro
Só o olhar do outro
para delinear
este meu corpo tão sem limites
tão esparramado...
Preso na inconstância do fogo
Descendo cachoeiras
Brotando da terra
Perdido no infinito do céu...
Só o olhar do outro
para delinear
este meu corpo tão sem limites
tão esparramado...
Preso na inconstância do fogo
Descendo cachoeiras
Brotando da terra
Perdido no infinito do céu...
1 309
Teresa Tenório
Medida
a medida do amor é ser deserto
e retomar a ausência inicial
de parte da memória devorada
do inconsciente profundo
axial
porque o real do amor é fragmentar-se
No decorrer do ciclo indefinido
em espirais do tempo diluído
à lembrança inconsútil
desvelar-se
e retomar a ausência inicial
de parte da memória devorada
do inconsciente profundo
axial
porque o real do amor é fragmentar-se
No decorrer do ciclo indefinido
em espirais do tempo diluído
à lembrança inconsútil
desvelar-se
319
Marcelo Tápia
meia-treva
a meia-lua do céu se punha
como a meia-íris sua:
metade luz, metade treva
(metade bela, metade fera)
reflexo contíguo ao profundo
brilho anteposto ao túnel
universo em partes
nosso mundo partido
figura e fundo, dois sentidos
meio ao vazio
como a meia-íris sua:
metade luz, metade treva
(metade bela, metade fera)
reflexo contíguo ao profundo
brilho anteposto ao túnel
universo em partes
nosso mundo partido
figura e fundo, dois sentidos
meio ao vazio
1 014
Valdir L. Queiroz
Dissertação III
Também te vi sobre a colisão
dos desejos;
te vi com aspecto de
amor imoral
te vi corroendo o orgulho
e alcançando a incógnita
te vi de sol pintada
de penumbra coberta e
de orgasmo sofrido
te vi de vontade imperfeita
e de amor engolida
também te vi, no meu espelho
inacabado naquela noite de sol
sem pincel e luar qual gaivota
sem mar.
te vi.
dos desejos;
te vi com aspecto de
amor imoral
te vi corroendo o orgulho
e alcançando a incógnita
te vi de sol pintada
de penumbra coberta e
de orgasmo sofrido
te vi de vontade imperfeita
e de amor engolida
também te vi, no meu espelho
inacabado naquela noite de sol
sem pincel e luar qual gaivota
sem mar.
te vi.
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