Poemas neste tema
Coragem e Força
Raymond Carver
O Padeiro
Então Pancho Villa chegou à cidade,
enforcou o prefeito
e convocou o velho e trêmulo
Conde Vronski para jantar.
Pancho apresentou sua nova namorada,
junto com o marido em seu avental branco,
mostrou a Vronski sua pistola,
depois pediu ao Conde que lhe contasse
sobre seu infeliz exílio no México.
Mais tarde, a conversa foi sobre mulheres e cavalos.
Os dois eram especialistas.
A garota dava risadinhas
e mexia nos botões de pérola
da camisa de Pancho até que,
precisamente à meia-noite, Pancho pegou no sono
com a cabeça na mesa.
O marido fez o sinal da cruz
e deixou a casa segurando as botas
sem fazer um gesto
à mulher ou a Vronksy.
Esse marido anônimo, descalço,
humilhado, tentando salvar sua vida, ele
é o herói deste poema.
tradução de Angélica Freitas
enforcou o prefeito
e convocou o velho e trêmulo
Conde Vronski para jantar.
Pancho apresentou sua nova namorada,
junto com o marido em seu avental branco,
mostrou a Vronski sua pistola,
depois pediu ao Conde que lhe contasse
sobre seu infeliz exílio no México.
Mais tarde, a conversa foi sobre mulheres e cavalos.
Os dois eram especialistas.
A garota dava risadinhas
e mexia nos botões de pérola
da camisa de Pancho até que,
precisamente à meia-noite, Pancho pegou no sono
com a cabeça na mesa.
O marido fez o sinal da cruz
e deixou a casa segurando as botas
sem fazer um gesto
à mulher ou a Vronksy.
Esse marido anônimo, descalço,
humilhado, tentando salvar sua vida, ele
é o herói deste poema.
tradução de Angélica Freitas
1 378
Raymond Federman
Diga-lhes
Diga-lhes
àqueles de viagem
com você agora
milhas a-
dentro
do imperdoável
como fomos nós
(que sempre os
acompanhamos)
que com força
os afundamos
ainda mais longe
nas funduras
onde encontraram
nossos amaríssimos
sonhos
e também os
dulcíssimos
e como mais tarde
mais tarde
de um lado a outro
de um lado a outro
no oco de nossos
nomes inextinguíveis
aprendemos juntos
a voar de novo
juntos
em nosso nome
(tradução de Ricardo Domeneck)
àqueles de viagem
com você agora
milhas a-
dentro
do imperdoável
como fomos nós
(que sempre os
acompanhamos)
que com força
os afundamos
ainda mais longe
nas funduras
onde encontraram
nossos amaríssimos
sonhos
e também os
dulcíssimos
e como mais tarde
mais tarde
de um lado a outro
de um lado a outro
no oco de nossos
nomes inextinguíveis
aprendemos juntos
a voar de novo
juntos
em nosso nome
(tradução de Ricardo Domeneck)
941
Rose Ausländer
Ainda estás aqui
Lança teu medo
aos ares
Em breve
acaba teu tempo
em breve
cresce o céu
sob a grama
despencam teus sonhos
nenhures
Ainda
cheira o cravo
canta o melro
ainda tens um amante
e palavras para doar
ainda estás aqui
Sê o que és
Dá o que tens
Noch bist du da
Wirf deine Angst
in die Luft
Bald
ist deine Zeit um
bald
wächst der Himmel
unter dem Gras
fallen deine Träume
ins Nirgends
Noch
duftet die Nelke
singt die Drossel
noch darfst du lieben
Worte verschenken
noch bist du da
Sei was du bist
Gib was du hast
858
Kōtarō Takamura
Poema do louco (Kyôsha no shi)
Venha e sopre, venha e sopre
Vento frio e catabático de Chichibu
Venha e sopre, rolando montanha abaixo
O mundo está no final dos tempos, venha e sopre
Sopre contra minhas costas
Dentro da minha cabeça um gato melancólico mia
Em algum lugar, alguém se aproveita de Rodin
Coca-Cola, thank you very much
Nichô-me, sanchô-me, depois Owari-chô, em Ginza
Bonde elétrico, luz elétrica, fio elétrico, telefone
Triiim! triiim!
Até o galho do salgueiro, na neblina da noite
Cruza os braços pálidos e
Busca me aconselhar com carinho
Mais uma Coca-Cola
Sanatogen, Higiyama, balas para tosse
Acordo é proibido
Perfeição e paz são coisas secundárias
Eu persisto até o fim, persisto e realizo
Portanto, venha e sopre, venha e sopre
Vento frio e catabático de Chichibu
Venha e sopre, rolando montanha abaixo
Da minha pele jorrou sangue
Ah! Agora ficou divertido! Venha e sopre
Qual o critério para estimar uma pessoa?
Sério? Frívolo? Idiota? Sensato?
thank you very much, very very much
Ohana, Oume, jovens e notórias cortesãs da casa Kôchi
Sou o único que me conhece
Se há algo mais, é a alma, superior ao ser humano que me concebeu
Dentro da minha cabeça um gato melancólico mia
Teatro de macacos com figurinos ocidentais
Quando Kôichibee morde Teikurô
A platéia ovaciona
O mundo está no final dos tempos, venha e sopre
Vento frio e catabático de Chichibu
Venha e sopre, rolando montanha abaixo
Prólogo
Epílogo
“london bridge is broken down!”
Eu, afinal, estou em vias de enlouquecer
Ah! O perfume do cabelo!
Vem daquela mulher com grampo de chifre de cabra montês
Mais uma Coca-Cola
Louco, o que um louco pode fazer?
Eu, em todo caso, caminho
Nichô-me, sanchô-me, depois Owari-chô, em Ginza
A lua aparece sobre o telhado do teatro Kabuki
Sopre contra minhas costas
Vento frio e catabático de Chichibu
Venha e sopre, rolando montanha abaixo
836
Pedro Casariego Córdoba
16de julho
mãe
arranque a partir de hoje a coroa
de rainha da insônia
porque é uma coroa falsa
nem uma única pedra preciosa
e mesmo assim
quando não pode dormir
você se converte na enfermeira do céu
médico de cabeceira dos cometas
nuvens sensíveis
estrelas que têm febre
como se compadece o sonho
aquele que congela suas mãos
suas mãos fundas de beleza
de rastelo
de tesouras de duas luas
dois jardins suas mãos quando regam
dez flores seus dedos quando plantam
algo um bulbo?
que parece uma toupeira
tão fechada em si
como uma noz
e que
com certeza
se abrirá amanhã
para soltar um pássaro de pétalas
o pássaro há de tossir um pouco
pedirá um cigarro
e dirá
que lhe observa quando você não pode dormir
e que
bem no momento em que consegue domir
aparece no calor do céu de verão
uma estrela nova e fraquíssima
talvez por isso lhe custe tanto dormir
iluminar uma estrela ferida
fazer curativos na perna quebrada de uma estrela acrobata demais
não está ao alcance dos que dormem como pedras
dos que se esquecem das pernas alheias
as penas alheias
as próprias penas
mãe
creio em sua coragem
creio
:
16DE JULIO // madre / quítate desde hoy la corona / de reina delinsomnio / porque es una corona falsa / ni una sola piedra preciosa /y sin embargo / cuando no puedes dormirte / te conviertes en laenfermera del cielo / médico de cabecera de los cometas / nubesdelicadas / estrellas que tienen fiebre // qué compasivo es el sueño/ el que congela tus manos / tus manos hondas de belleza / derastrillo / de tijeras de dos lunas // dos jardines tus manos cuandoriegan / diez flores tus dedos cuando plantam / algo ¿un bulbo? /que parece un topo / tan encerrado en sí mismo / como una nuez / yque / seguro / mañana se abrirá / para soltar un pájaro de pétalos/ el pájaro toserá un poco / te pedirá un cigarrillo / y te dirá/ que te mira cuando no puedes dormir / y que / justo cuandoconsigues dormirte / aparece entre el calor del cielo de verano / unaestrella nueva y debilísima // quizá por eso te cueste tantodormirte / alumbrar una estrella herida / vendar la pierna rota deuna estrella demasiado saltimbanqui / no está al alcance de los queduermen a pierna suelta / de los que olvidan las piernas de los otros/ las penas de los otros / sus propias penas / madre / creo en tucoraje / creo
.
.
.
687
Zbigniew Herbert
Crônica de uma cidade sitiada
Demasiado velho para pegar em armas e combater como os demais
foi-me generosamente atribuído o cargo inferior de cronista
e registro – sem saber para quem – a história do cerco
tenho de ser rigoroso mas não sei quando teve início a invasão
há duzentos anos em Dezembro Setembro ontem de manhã
aqui todos perdemos a noção do tempo
só nos deixaram este lugar a ligação a este lugar
governamos sobre ruínas de templos de fantasmas de casas e jardins
se perdêssemos as nossas ruínas ficaríamos sem nada
escrevo como posso ao ritmo de semanas sem fim
Segunda-feira: as lojas estão vazias o rato converteu-se em unidade monetária
Terça-feira: o presidente da câmara foi assassinado por desconhecidos
Quarta-feira: rumores de armistício o inimigo pôs a ferros os nossos enviados
não sabemos onde eles os têm presos isto é onde os mataram
Quinta-feira: após uma assembleia tempestuosa a maioria votou contra
a proposta de rendição incondicional apresentada pelos mercadores
Sexta-feira: a investida da peste Sábado: suicidou-se N. N.
o valoroso guerreiro Domingo: não há água repelimos
o ataque até à porta oriental chamada a Porta da Aliança
eu sei que é monótono tudo isto não vai comover ninguém
evito comentários mantenho sob controle as emoções descrevo fatos
parece que só os fatos têm valor nos mercados estrangeiros
com uma espécie de orgulho quero dizer ao mundo
que graças à guerra criamos uma nova raça de crianças
as nossas crianças não gostam de contos de fadas brincam aos tiros
dia e noite sonham com sopa pão ossos
tal como os cães e os gatos
gosto ao entardecer de passear nos limites da cidade
ao longo das fronteiras da nossa incerta liberdade
olho de cima a multidão de soldados com as suas luzes
ouço o rufar dos tambores e os gritos dos bárbaros
é incrível que a cidade continue a resistir
o cerco dura há muito os inimigos atacam-nos à vez
nada os une a não ser a vontade de nos destruírem
os Godos os Tártaros os Suecos as tropas do Imperador regimentos
da Transfiguração do Senhor
quem os pode enumerar
as cores dos estandartes mudam como as duma floresta ao longe
de um delicado amarelo de ave na primavera até ao preto invernal
passando pelo verde
e assim à noitinha libertado dos fatos posso meditar
em longínquos assuntos passados por exemplo nos nossos
aliados de além-mar cuja compaixão é sincera eu sei
enviam-nos sacos de farinha conforto toucinho e bons conselhos
sem sequer se aperceberem que foram os seus pais quem nos traiu
os nossos antigos aliados do tempo do segundo Apocalipse
mas os filhos não têm culpa merecem a nossa gratidão e por isso agradecemos
eles nunca passaram pela eternidade de um cerco
as pessoas marcadas pelo infortúnio estão sempre sozinhas
defensores do Dalai Lama dos Curdos e dos afegãos
no momento em que escrevo estas palavras os partidários do compromisso
ganham uma ligeira vantagem sobre a facção dos destemidos
habituais são as oscilações de ânimo o nosso destino está ainda a ser pesado
os cemitérios tornam-se maiores diminui o número dos defensores
mas a defesa continua e continuará até ao final
e se a Cidade cair e apenas um de nós sobreviver
esse levará dentro de si a Cidade pela estrada do exílio
será ele a Cidade
olhamos para o rosto da fome o rosto do fogo o rosto da morte
e o pior de todos – o rosto da traição
e só os nossos sonhos nunca foram humilhados
(Versão, do inglês, de José Miguel Silva).
1 453
Bessie Head
Coisas de que não gosto
Eu sou negra.
Tá bem?
Sol forte e disposição geográfica
Fizeram-me negra;
E através de minha pele
Muita coisa acontece comigo
DE QUE NÃO GOSTO
E acordo toda manhã
Com sangue homicida nos olhos
Porque um malandro me roubou de novo,
Levando o pouco que tinha nas mãos
Com todo o mundo assistindo
E fazendo nada
Tá bem?
Ah, não.
Hoje é meu dia.
Vou recuperar tintim por tintim,
Tudo o que me roubaste.
Vou à briga até que tu e eu
Estejamos no chão esvaindo-nos em sangue,
E não me importa quem morra, tu ou eu,
Mas vou para a briga -
Tá bem?
:
Things I Don't Like
I am Black.
Okay?
Hot sun and the geographical set-up
Made me Black;
And through my skin
A lot of things happen to me
THAT I DON'T LIKE
And I wake each morning
Red murder in my eyes
'Cause some crook's robbed me again,
Taken what little I had right out of my hands
With the whole world standing by
And doing nothing
Okay?
Oh no.
Today is my day.
Going to get back tit-for-tat,
All you stole.
Going to fight you till you or I
Lie smashed and bleeding dead
And don't care who dies, You or I,
But going to fight -
Okay?
721
Isabel Câmara
Fim (13° volume)
Você me falou
que me mandasse porta afora
Eu vou
Vou com força total
esta porta não é metal
é o nosso mental
transparente
correndo da corrente
que pega gente exigente.
Vou enxugando a alma.
na palma que segura
a espada.
Vou pedindo calma.
que me mandasse porta afora
Eu vou
Vou com força total
esta porta não é metal
é o nosso mental
transparente
correndo da corrente
que pega gente exigente.
Vou enxugando a alma.
na palma que segura
a espada.
Vou pedindo calma.
809
Paulo Colina
Algum Conceito de Movimento
A troca rápida e precisa de máscaras
atendendo a situação da cena,
não é, companheiro, um movimento.
A impulsão nos braços fraternos
para um salto vertical, em busca do poder ao nada,
menos é, companheiro, um movimento.
O sibilar da língua bifurcada da serpente,
prefaciando uma canção dolorida e amarga,
tampouco é, meu irmão, um movimento.
A demolição das casas da mente,
antes que se trabalhe a massa e o concreto,
muito menos é, companheiro, um movimento.
Ao que me consta, meu irmão,
movimento é:
logo ao primeiro encontro,
ao primeiro aperto de mão,
um sorrir sorrindo claro e aberto
com todos os dentes dos dedos
e do peito;
um mergulhar nessa angústia
que te disseca
e sairmos prenhes da mais pura
esperança, aos tropeços, pela cidade;
os soluços calmos do suicídio
no vórtice em fogo
entre as raízes das coxas
da mulher que te completa;
a liberdade do pensamento aflito
de esquadrinhar todos, mas todos todos
os quadrantes do firmamento.
Por isso, mano velho, companheiro em luta,
continuo ao passo do meu coração armado.
atendendo a situação da cena,
não é, companheiro, um movimento.
A impulsão nos braços fraternos
para um salto vertical, em busca do poder ao nada,
menos é, companheiro, um movimento.
O sibilar da língua bifurcada da serpente,
prefaciando uma canção dolorida e amarga,
tampouco é, meu irmão, um movimento.
A demolição das casas da mente,
antes que se trabalhe a massa e o concreto,
muito menos é, companheiro, um movimento.
Ao que me consta, meu irmão,
movimento é:
logo ao primeiro encontro,
ao primeiro aperto de mão,
um sorrir sorrindo claro e aberto
com todos os dentes dos dedos
e do peito;
um mergulhar nessa angústia
que te disseca
e sairmos prenhes da mais pura
esperança, aos tropeços, pela cidade;
os soluços calmos do suicídio
no vórtice em fogo
entre as raízes das coxas
da mulher que te completa;
a liberdade do pensamento aflito
de esquadrinhar todos, mas todos todos
os quadrantes do firmamento.
Por isso, mano velho, companheiro em luta,
continuo ao passo do meu coração armado.
928
Henriqueta Lisboa
Não a face dos mortos
Não a face dos mortos.
Nem a face
dos que não coram
aos açoites
da vida.
Porém a face
lívida
dos que resistem
pelo espanto.
Não a face da madrugada
na exaustão
dos soluços.
Mas a face do lago
sem reflexos
quando as águas
entranha.
Não a face da estátua
fria de lua e zéfiro.
Mas a face do círio
que se consome
lívida
no ardor.
de A face lívida (1945)
Nem a face
dos que não coram
aos açoites
da vida.
Porém a face
lívida
dos que resistem
pelo espanto.
Não a face da madrugada
na exaustão
dos soluços.
Mas a face do lago
sem reflexos
quando as águas
entranha.
Não a face da estátua
fria de lua e zéfiro.
Mas a face do círio
que se consome
lívida
no ardor.
de A face lívida (1945)
1 026
Christine Lavant
Eu quero partir com os loucos o pão,
Eu quero partir com os loucos o pão,
migalhas diárias do desespero grande,
também o sino em meio ao peito,
ali onde o pombo aninha-se
e tem seu refúgio minúsculo
no ermo sobre as águas.
Residi por anos como pedra
no chão das coisas.
Eu ouvi, porém, o sino
sussurrar teu segredo
nos peixes com asas.
Hei-de aprender a voar e nadar,
deixar o pedregoso sob as pedras,
aconchegar em madrepérola
a melancolia, elevar aflição, ira.
Minhas asas são mais velhas
que tua paciência, minhas asas
vão à frente da coragem
que tomou sobre os ombros o louco.
Eu quero partir com os loucos o pão,
ali no ermo assustador do pombo,
onde o sino triparte o maior desespero
ao som tríplice do teu nome.
706
Paulo Colina
Esboço
O meu braço
laço e corte
é machado-foice
pau
o meu braço
é cimento
é concreto-britadeira
é parada infernal
sou a fome em sua porta
sou tocaia nas esquinas
olha o cano
olha o punhal
sou o asco
sou só casca
sou o nó que não desata
sou notícia de jornal
não aceito mais açoite
sou orgulho sou bravata
sou açúcar sou o sal
sou o suor pelota e grama
sou cansaço coração
sou a válvula de escape
pro seu ódio emoção
eu sou ginga melodia
berro couro alegria
todo ano carnaval
sou madeira que não verga
sou o dia sou a noite
não faz mal
1 260
Leónidas Lamborghini
Dados
Como aquele que no café
gira com fúria
os dados
no escuro do copo
para juntar coragem
contra o contra da sorte.
Como aquele que concentra
todo o esforço
ali no alto
fazendo rugir os dados
no escuro
para juntar coragem
contra o contra da sorte.
Como aquele que do alto
vai descarregar
os dados
e vocifera com fúria
para juntar coragem
contra o contra da sorte.
Como aquele que com todas
as forças
agita os dados no alto
e dali
descarrega com fúria
na mesa
o copo
como esse
como esse
para juntar coragem
contra o contra da sorte.
753
Orpingalik
Meu fôlego
Esta é minha canção: canção poderosa.
Unaija-unaija.
Desde o outono deito-me aqui,
desamparado e doente,
como se fosse filho de mim mesmo.
Em angústia, desejaria que minha mulher
tivesse outra cabana,
outro homem por refúgio,
firme e seguro como o gelo do inverno.
Unaija-unaija.
E desejaria que minha mulher
encontrasse protetor melhor,
agora que me faltam as forças
para erguer-me da cama.
Unaija-unaija.
Você conhece a si mesmo?
Como você entende pouco de si!
Estirado e débil sobre meu banco,
minha única força está em minha memória.
Unaija-unaija.
Caça! Grande caça,
correndo adiante de mim,
permita-me reviver aquilo.
Deixe-me esquecer minha fraqueza
remembrando o passado.
Unaija-unaija.
Eu trago à memória aquele grande branco,
o urso polar,
aproximando-se com patas erguidas,
seu focinho na neve -
convencido, enquanto me atacava,
que entre nós dois
ele era o único macho.
Unaija-unaija.
Lançou-me ao solo repetidamente:
mas exausto por fim,
sentou-se sobre um banco de gelo,
e lá descansaria
insciente de que eu o terminaria.
Ele pensava ser o único macho em redor.
Mas eu estava ali,
Unaija-unaija.
Nem hei de esquecer o grande oleoso,
o leão-marinho que matei
em uma placa de gelo antes da aurora,
enquanto meus amigos em casa
deitavam-se como com os mortos,
frágeis com a fome,
famintos na má sorte.
Apressei-me para casa,
carregado de carne e óleo,
como se estivesse correndo sobre o gelo
em busca de uma fenda para respirar.
Era porém leão-marinho experiente
que me cheirara imediatamente -
mas antes que pudesse fugir
minha lança enterrava-se
em sua garganta.
É como foi.
Agora deito-me em meu banco,
doente demais para sequer
conseguir óleo para a lâmpada de minha mulher.
O tempo, o tempo mal parece passar,
mesmo que aurora siga aurora,
e a primavera aproxime-se da vila.
Unaija-unaija.
Quanto tempo mais devo deitar-me aqui?
Quanto tempo? Quanto tempo ela terá
que implorar por óleo para sua lâmpada,
peles de rena para seu corpo,
e carne para sua comida?
Eu, desastre débil:
ela, mulher indefesa.
Unaija-unaija.
Você conhece a si mesmo?
Como você entende pouco de si!
Aurora segue aurora,
e a primavera aproxima-se da vila.
Unaija-unaija.
.
.
.
820
José Augusto de Carvalho
A recusa!
Recuso ser, na noite, a sombra que desenha
a angústia indefinida e fria deste cais.
O que tiver de vir, se mais houver, que venha,
Mostrengo, Adamastor e Fim do Nunca Mais!
O leme se quebrou. Ao vento, as rotas velas
ensaiam os sinais das barcas à deriva.
Que velhas perdições?! Na consciência delas,
assombram predições doendo em carne viva.
Que venham os pinhais gritar o desafio
do tempo por haver que acena o amanhecer
além deste torpor indefinido e frio!
Que venha a tentação sortílega tecer,
com arte com engenho, o já lendário fio
da espera que germina um novo acontecer!...
20 de Abril de 2010
Viana do Alentejo
907
Oswaldo Osório
Cavalos de silex
ainda estávamos em guerra quando fomos à lua
e tínhamos fome e feridas nos olhos de cegar
agarrávamos o futuro com a luz do laser
e as flores gelavam aqui donde partíamos com carbúnculos nos braços
pássaros de pio futuro por onde andávamos
deixámos a terra grávida de salamandras esventradas
ganhávamos o pão nosso cada dia com medidas de suor
e um inverno de vómito estarrecia sob as raizes
as galáxias mediam-se por braçadas de legumes ou milho ou arroz
que no-las distanciavam e as estrelas fugiam perseguidas
por cavalos de sílex
o sonho criava lodo cada manhã
as palavras mal nasciam apodreciam em limo
nesta situação-limite os seios o sexo o sémen
convenceram os homens nas suas fábricas
de cavalos de sílex
tarde
peitos punhos pulsos resolvemos ousar nosso pão
e tínhamos fome e feridas nos olhos de cegar
agarrávamos o futuro com a luz do laser
e as flores gelavam aqui donde partíamos com carbúnculos nos braços
pássaros de pio futuro por onde andávamos
deixámos a terra grávida de salamandras esventradas
ganhávamos o pão nosso cada dia com medidas de suor
e um inverno de vómito estarrecia sob as raizes
as galáxias mediam-se por braçadas de legumes ou milho ou arroz
que no-las distanciavam e as estrelas fugiam perseguidas
por cavalos de sílex
o sonho criava lodo cada manhã
as palavras mal nasciam apodreciam em limo
nesta situação-limite os seios o sexo o sémen
convenceram os homens nas suas fábricas
de cavalos de sílex
tarde
peitos punhos pulsos resolvemos ousar nosso pão
1 163
Zeto Cunha Gonçalves
Escorraçados da morte
Escorraçados da morte
soletram
a nómada caligrafia dos pássaros.
Soletram - e soletram:
alfabeto de passos, um linguajar de setas
envenenadas petras.
Da Lua viemos, nascemos - obrigado,
Paizinho. Escorraçados da morte
a terra nos levará à água?
Sem mapas nem sentido
do regresso - nosso è o fogo
passo a passo em rições guardado.
E as matas - para ainda sobreviver.
Escorraçados da morte
soletram
a nómada caligrafia dos pássaros.
Soletram - e soletram:
alfabeto de passos, um linguajar
de setas
envenenadas pedras.
soletram
a nómada caligrafia dos pássaros.
Soletram - e soletram:
alfabeto de passos, um linguajar de setas
envenenadas petras.
Da Lua viemos, nascemos - obrigado,
Paizinho. Escorraçados da morte
a terra nos levará à água?
Sem mapas nem sentido
do regresso - nosso è o fogo
passo a passo em rições guardado.
E as matas - para ainda sobreviver.
Escorraçados da morte
soletram
a nómada caligrafia dos pássaros.
Soletram - e soletram:
alfabeto de passos, um linguajar
de setas
envenenadas pedras.
979
Zeto Cunha Gonçalves
Os ombros modulam o vento
Entristece
a tua tristeza - e canta
(os ombros modulam o vento
modulam a noite
a soberana voz
dos horizontes)
entristece
a tua tristeza - e canta
a tua tristeza - e canta
(os ombros modulam o vento
modulam a noite
a soberana voz
dos horizontes)
entristece
a tua tristeza - e canta
1 015
Augusto dos Anjos
O Negro
Oh! Negro, oh! filho da Hotentotia ufana
Teus braços brônzeos como dois escudos,
São dois colossos, dois gigantes mudos,
Representando a integridade humana!
Nesses braços de força soberana
Gloriosamente à luz do sol desnudos
Ao bruto encontro dos ferrões agudos
Gemeu por muito tempo a alma africana!
No colorido dos teus brônzeos braços,
Fulge o fogo mordente dos mormaços
E a chama fulge do solar brasido...
E eu cuido ver os múltiplos produtos
Da Terra — as flores e os metais e os frutos
Simbolizados nesse colorido!
O Comércio, 24-V-1905
Publicado no livro Eu: poesias completas (1963). Poema integrante da série Poemas Esquecidos.
In: REIS, Zenir Campos. Augusto dos Anjos: poesia e prosa. São Paulo: Ática, 1977. p.225-226. (Ensaios, 32)
NOTA: Poema composto de 5 parte
Teus braços brônzeos como dois escudos,
São dois colossos, dois gigantes mudos,
Representando a integridade humana!
Nesses braços de força soberana
Gloriosamente à luz do sol desnudos
Ao bruto encontro dos ferrões agudos
Gemeu por muito tempo a alma africana!
No colorido dos teus brônzeos braços,
Fulge o fogo mordente dos mormaços
E a chama fulge do solar brasido...
E eu cuido ver os múltiplos produtos
Da Terra — as flores e os metais e os frutos
Simbolizados nesse colorido!
O Comércio, 24-V-1905
Publicado no livro Eu: poesias completas (1963). Poema integrante da série Poemas Esquecidos.
In: REIS, Zenir Campos. Augusto dos Anjos: poesia e prosa. São Paulo: Ática, 1977. p.225-226. (Ensaios, 32)
NOTA: Poema composto de 5 parte
4 661
Basílio da Gama
Canto Terceiro (I)
(...)
Respirava descanso a natureza.
Só na outra margem não podia em tanto
O inquieto Cacambo achar sossego.
No perturbado interrompido sono,
Talvez fosse ilusão, se lhe apresenta
A triste imagem de Cepé despido,
Pintado o rosto do temor da morte,
Banhado em negro sangue, que corria
Do peito aberto, e nos pisados braços
Inda os sinais da mísera caída.
Sem adorno à cabeça, e aos pés calcada
A rota aljava, e as descompostas penas.
Quanto diverso do Cepé valente,
Que no meio dos nossos espalhava,
De pó, de sangue, e de suor coberto,
O espanto, a morte! E diz-lhe em tristes vozes:
Foge, foge, Cacambo. E tu descansas,
Tendo tão perto os inimigos? Torna,
Torna aos teus bosques, e nas pátrias grutas
Tua fraqueza, e desventura encobre.
(...)
(...) Assim dizendo
Se perdeu entre as nuvens, sacudindo
Sobre as tendas no ar fumante tocha;
E assinala com chamas o caminho.
Acorda o Índio valeroso, e salta
Longe da curva rede, e sem demora
O arco, e as setas arrebata, e fere
O chão com o pé: quer sobre o largo rio
Ir peito a peito a contrastar co'a morte.
Tem diante dos olhos a figura
Do caro amigo, e inda lhe escuta as vozes.
Pendura a um verde tronco as várias penas,
E o arco, e as setas, e a sonora aljava;
E onde mais manso, e mais quieto o rio
Se estende, e espraia sobre a ruiva areia,
Pensativo, e turbado entra; e com água
Já por cima do peito as mãos, e os olhos
Levanta ao Céu, que ele não via, e às ondas
O corpo entrega. (...)
(...)
Lá, como é uso do país, roçando
Dous lenhos entre si, desperta a chama,
Que já se ateia nas ligeiras palhas,
E velozmente se propaga. Ao vento
Deixa Cacambo o resto, e foge a tempo
Da perigosa luz; porém na margem
Do rio, quando a chama abrasadora
Começa a alumiar a noite escura,
Já sentido dos Guardas não se assusta,
E temerária, e venturosamente,
Fiando a vida aos animosos braços,
De um alto precipício às negras ondas
Outra vez se lançou, e foi de um salto
Ao fundo rio a visitar a areia.
Debalde gritam, e debalde às margens
Corre a gente apressada. Ele entretanto
Sacode as pernas, e os nervosos braços:
Rompe as escumas assoprando, e a um tempo
Suspendido nas mãos, voltando o rosto,
Via nas águas trêmulas a imagem
Do arrebatado incêndio, e se alegrava.
Não de outra sorte o cauteloso Ulisses,
Vaidoso da ruína, que causara,
Viu abrasar de Tróia os altos muros,
E a perjura Cidade envolta em fumo
Encostar-se no chão, e pouco a pouco
Desmaiar sobre as cinzas. (...)
Imagem - 00250004
In: GAMA, Basílio da. O Uraguai. Anot. Afrânio Peixoto, Rodolfo Garcia e Osvaldo Braga. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 1941
NOTA: Poema composto de 5 canto
Respirava descanso a natureza.
Só na outra margem não podia em tanto
O inquieto Cacambo achar sossego.
No perturbado interrompido sono,
Talvez fosse ilusão, se lhe apresenta
A triste imagem de Cepé despido,
Pintado o rosto do temor da morte,
Banhado em negro sangue, que corria
Do peito aberto, e nos pisados braços
Inda os sinais da mísera caída.
Sem adorno à cabeça, e aos pés calcada
A rota aljava, e as descompostas penas.
Quanto diverso do Cepé valente,
Que no meio dos nossos espalhava,
De pó, de sangue, e de suor coberto,
O espanto, a morte! E diz-lhe em tristes vozes:
Foge, foge, Cacambo. E tu descansas,
Tendo tão perto os inimigos? Torna,
Torna aos teus bosques, e nas pátrias grutas
Tua fraqueza, e desventura encobre.
(...)
(...) Assim dizendo
Se perdeu entre as nuvens, sacudindo
Sobre as tendas no ar fumante tocha;
E assinala com chamas o caminho.
Acorda o Índio valeroso, e salta
Longe da curva rede, e sem demora
O arco, e as setas arrebata, e fere
O chão com o pé: quer sobre o largo rio
Ir peito a peito a contrastar co'a morte.
Tem diante dos olhos a figura
Do caro amigo, e inda lhe escuta as vozes.
Pendura a um verde tronco as várias penas,
E o arco, e as setas, e a sonora aljava;
E onde mais manso, e mais quieto o rio
Se estende, e espraia sobre a ruiva areia,
Pensativo, e turbado entra; e com água
Já por cima do peito as mãos, e os olhos
Levanta ao Céu, que ele não via, e às ondas
O corpo entrega. (...)
(...)
Lá, como é uso do país, roçando
Dous lenhos entre si, desperta a chama,
Que já se ateia nas ligeiras palhas,
E velozmente se propaga. Ao vento
Deixa Cacambo o resto, e foge a tempo
Da perigosa luz; porém na margem
Do rio, quando a chama abrasadora
Começa a alumiar a noite escura,
Já sentido dos Guardas não se assusta,
E temerária, e venturosamente,
Fiando a vida aos animosos braços,
De um alto precipício às negras ondas
Outra vez se lançou, e foi de um salto
Ao fundo rio a visitar a areia.
Debalde gritam, e debalde às margens
Corre a gente apressada. Ele entretanto
Sacode as pernas, e os nervosos braços:
Rompe as escumas assoprando, e a um tempo
Suspendido nas mãos, voltando o rosto,
Via nas águas trêmulas a imagem
Do arrebatado incêndio, e se alegrava.
Não de outra sorte o cauteloso Ulisses,
Vaidoso da ruína, que causara,
Viu abrasar de Tróia os altos muros,
E a perjura Cidade envolta em fumo
Encostar-se no chão, e pouco a pouco
Desmaiar sobre as cinzas. (...)
Imagem - 00250004
In: GAMA, Basílio da. O Uraguai. Anot. Afrânio Peixoto, Rodolfo Garcia e Osvaldo Braga. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 1941
NOTA: Poema composto de 5 canto
2 815
José de Anchieta
Quando, no Esp Sto
Diabo
Temos embargos, donzela,
a serdes deste lugar.
Não me queirais agravar,
que, com espada e rodela,
vos hei de fazer voltar.
Se lá na batalha do mar
me pisastes,
quando as onze mil juntastes,
que fizestes em Deus crer,
não há agora assim de ser.
Se, então, de mim triunfastes,
hoje vos hei de vencer.
Não tenho contradição
em toda a Capitania.
Antes, ela, sem porfia,
debaixo de minha mão
se rendeu com alegria.
Cuido que errastes a via
e o sol tomastes mal.
Tornai-vos a Portugal,
que não tendes sol nem dia,
senão a noite infernal
de pecados,
em que os homens, ensopados,
aborrecem sempre a luz.
Se lhes falardes na Cruz,
dar-vos-ão, mui agastados,
no peito, c'um arcabuz.
(Aqui dispara um arcabuz.)
Anjo
Ó peçonhento dragão
e pai de toda a mentira,
que procuras perdição,
com mui furiosa ira,
contra a humana geração!
Tu, nesta povoação,
não tens mando nem poder,
pois todos pretendem ser,
de todo seu coração,
imigos de Lucifer.
Diabo
Ó que valentes soldados!
Agora me quero rir!...
Mal me podem resistir
os que fracos, com pecados,
não fazem senão cair!
Anjo
Se caem, logo se levantam,
e outros ficam em pé.
Os quais, com armas da fé,
te resistem e te espantam,
porque Deus com eles é.
Que com execessivo amor
lhes manda suas esposas
— onze mil virgens formosas —,
cujo contínuo favor
dará palmas gloriosas.
E para te dar maior pena,
a tua soberba inchada
quer que seja derribada
por u'a mulher pequena.
Diabo
Ó que cruel estocada
m'atiraste
quando a mulher nomeaste!
Porque mulher me matou,
mulher meu poder tirou,
e, dando comigo ao traste,
a cabeça me quebrou.
Anjo
Pois agora essa mulher
traz consigo estas mulheres,
que nesta terra hão de ser
as que lhe alcançam poder
para vencer teus poderes.
Diabo
Ai de mim, desventurado!
(Acolhe-se Satanás.)
Imagem - 00570009
In: ANCHIETA. Poesias: manuscrito do século XVI, em português, castelhano, latim e tupi. Transcrições, trad. e notas M. de L. de Paula Martins. São Paulo: Comissão do IV Centenário da Cidade, 1954
Temos embargos, donzela,
a serdes deste lugar.
Não me queirais agravar,
que, com espada e rodela,
vos hei de fazer voltar.
Se lá na batalha do mar
me pisastes,
quando as onze mil juntastes,
que fizestes em Deus crer,
não há agora assim de ser.
Se, então, de mim triunfastes,
hoje vos hei de vencer.
Não tenho contradição
em toda a Capitania.
Antes, ela, sem porfia,
debaixo de minha mão
se rendeu com alegria.
Cuido que errastes a via
e o sol tomastes mal.
Tornai-vos a Portugal,
que não tendes sol nem dia,
senão a noite infernal
de pecados,
em que os homens, ensopados,
aborrecem sempre a luz.
Se lhes falardes na Cruz,
dar-vos-ão, mui agastados,
no peito, c'um arcabuz.
(Aqui dispara um arcabuz.)
Anjo
Ó peçonhento dragão
e pai de toda a mentira,
que procuras perdição,
com mui furiosa ira,
contra a humana geração!
Tu, nesta povoação,
não tens mando nem poder,
pois todos pretendem ser,
de todo seu coração,
imigos de Lucifer.
Diabo
Ó que valentes soldados!
Agora me quero rir!...
Mal me podem resistir
os que fracos, com pecados,
não fazem senão cair!
Anjo
Se caem, logo se levantam,
e outros ficam em pé.
Os quais, com armas da fé,
te resistem e te espantam,
porque Deus com eles é.
Que com execessivo amor
lhes manda suas esposas
— onze mil virgens formosas —,
cujo contínuo favor
dará palmas gloriosas.
E para te dar maior pena,
a tua soberba inchada
quer que seja derribada
por u'a mulher pequena.
Diabo
Ó que cruel estocada
m'atiraste
quando a mulher nomeaste!
Porque mulher me matou,
mulher meu poder tirou,
e, dando comigo ao traste,
a cabeça me quebrou.
Anjo
Pois agora essa mulher
traz consigo estas mulheres,
que nesta terra hão de ser
as que lhe alcançam poder
para vencer teus poderes.
Diabo
Ai de mim, desventurado!
(Acolhe-se Satanás.)
Imagem - 00570009
In: ANCHIETA. Poesias: manuscrito do século XVI, em português, castelhano, latim e tupi. Transcrições, trad. e notas M. de L. de Paula Martins. São Paulo: Comissão do IV Centenário da Cidade, 1954
2 518
Murillo Mendes
Murilograma a Graciliano Ramos
1
Brabo. Olhofaca. Difícil.
Cacto já se humanizando,
Deriva de um solo sáfaro
Que não junta, antes retira,
Desacontece, desquer.
2
Funda o estilo à sua imagem:
Na tábua seca do livro
Nenhuma voluta inútil.
Rejeita qualquer lirismo.
Tachando a flor de feroz.
3
Tem desejos amarelos.
Quer amar, o sol ulula,
Leva o homem do deserto
(Graciliano-Fabiano)
Ao limite irrespirável.
4
Em dimensão de grandeza
Onde o conforto é vacante,
Seu passo trágico escreve
A épica real do BR
Que desintegrado explode.
Roma, 1963
Poema integrante da série Convergência.
In: MENDES, Murilo. Convergência, 1963/1966: 1 — convergência; 2 — sintaxe. São Paulo: Duas Cidades, 1970
Brabo. Olhofaca. Difícil.
Cacto já se humanizando,
Deriva de um solo sáfaro
Que não junta, antes retira,
Desacontece, desquer.
2
Funda o estilo à sua imagem:
Na tábua seca do livro
Nenhuma voluta inútil.
Rejeita qualquer lirismo.
Tachando a flor de feroz.
3
Tem desejos amarelos.
Quer amar, o sol ulula,
Leva o homem do deserto
(Graciliano-Fabiano)
Ao limite irrespirável.
4
Em dimensão de grandeza
Onde o conforto é vacante,
Seu passo trágico escreve
A épica real do BR
Que desintegrado explode.
Roma, 1963
Poema integrante da série Convergência.
In: MENDES, Murilo. Convergência, 1963/1966: 1 — convergência; 2 — sintaxe. São Paulo: Duas Cidades, 1970
3 212
Lindolf Bell
Exercício para Garcia Lorca
Quando o vento das primaveras anuncia as florações
anuncia os girassóis, os araçás, as madressilvas, teus
versos tuas granadas abrindo as veredas de meu país
livre quando não sei, tu és a lua clara obscura lua
clara, as noites que maduram o coração da terra, os
líricos olhos dos touros da saudade, o mar vejo as
estrelas os limões, és tessitura das manhãs, o amado
guia do reino no bosque das virgílias, floresces e
perduras onde o amor perdura, é frágil a terra do
esquecimento, os ventos da primavera voltam sempre
e as palavras tecem teu canto e teu corpo e tua viagem,
e os híbridos frutos de meu país livre quando não sei
esplendem nos olhos do pássaro teu irmão, para sempre
os cardos os pomos, os selvagens rosais dos invernos e
as novas estações dos povos da coragem, as embiras as
timboranas o vento sul as auroras, abriga-me em tua
paisagem onde tudo se anuncia, tu és o dia tu és o dia,
a fava, o fauno, a fala, a festa não fixa de viver e
conviver, o móvel calendário de amar para sempre, tu
és a samambaia nas varandas, o seixo dentro do rio de dentro
o sangue, o fuzil das guerrilhas interiores, e se nos
montes e nos pantanais e nos corações agitas as ervas e
os navios de verdades largas, tu Federico Garcia Lorca,
eu te chamo uma vez só, e isto basta para quem tem
antenas e ouvidos e sabe que o mundo está aqui dentro
mas está lá fora de meu país livre quando não sei, tu
és o gravatá do campo, a flor verde, a bravura de meu
país livre quando não sei, guarida onde me abrigo, rio
dos minérios das minas da manhã, argila das florescências,
espiga dos tempos claros, fruto aberto no esquema
silvestre dos corações, há um solução na garganta
de meu país livre quando não sei.
Poema integrante da série Incorporação.
In: BELL, Lindolf. Incorporação: doze anos de poesia, 1962/1973. São Paulo: Quíron, 1974. (Sélesis, 3)
anuncia os girassóis, os araçás, as madressilvas, teus
versos tuas granadas abrindo as veredas de meu país
livre quando não sei, tu és a lua clara obscura lua
clara, as noites que maduram o coração da terra, os
líricos olhos dos touros da saudade, o mar vejo as
estrelas os limões, és tessitura das manhãs, o amado
guia do reino no bosque das virgílias, floresces e
perduras onde o amor perdura, é frágil a terra do
esquecimento, os ventos da primavera voltam sempre
e as palavras tecem teu canto e teu corpo e tua viagem,
e os híbridos frutos de meu país livre quando não sei
esplendem nos olhos do pássaro teu irmão, para sempre
os cardos os pomos, os selvagens rosais dos invernos e
as novas estações dos povos da coragem, as embiras as
timboranas o vento sul as auroras, abriga-me em tua
paisagem onde tudo se anuncia, tu és o dia tu és o dia,
a fava, o fauno, a fala, a festa não fixa de viver e
conviver, o móvel calendário de amar para sempre, tu
és a samambaia nas varandas, o seixo dentro do rio de dentro
o sangue, o fuzil das guerrilhas interiores, e se nos
montes e nos pantanais e nos corações agitas as ervas e
os navios de verdades largas, tu Federico Garcia Lorca,
eu te chamo uma vez só, e isto basta para quem tem
antenas e ouvidos e sabe que o mundo está aqui dentro
mas está lá fora de meu país livre quando não sei, tu
és o gravatá do campo, a flor verde, a bravura de meu
país livre quando não sei, guarida onde me abrigo, rio
dos minérios das minas da manhã, argila das florescências,
espiga dos tempos claros, fruto aberto no esquema
silvestre dos corações, há um solução na garganta
de meu país livre quando não sei.
Poema integrante da série Incorporação.
In: BELL, Lindolf. Incorporação: doze anos de poesia, 1962/1973. São Paulo: Quíron, 1974. (Sélesis, 3)
1 963
Carlos Nejar
Cântico
Limarás tua esperança
até que a mó se desgaste;
mesmo sem mó, limarás
contra a sorte e o desespero.
Até que tudo te seja
mais doloroso e profundo.
Limarás sem mãos ou braços,
com o coração resoluto.
Conhecerás a esperança,
após a morte de tudo.
Publicado no livro Canga: Jesualdo Monte (1971). Poema integrante da série Demarcação.
In: NEJAR, Carlos. Obra poética I. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p.353. (Poiesis
até que a mó se desgaste;
mesmo sem mó, limarás
contra a sorte e o desespero.
Até que tudo te seja
mais doloroso e profundo.
Limarás sem mãos ou braços,
com o coração resoluto.
Conhecerás a esperança,
após a morte de tudo.
Publicado no livro Canga: Jesualdo Monte (1971). Poema integrante da série Demarcação.
In: NEJAR, Carlos. Obra poética I. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p.353. (Poiesis
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