Poemas neste tema
Coragem e Força
Regina Souza Vieira
NJINGA
Com três palavras granito
Componho o teu poema
Força de penedo
Vontade do silex
Diplomacia rochosa
Do teu reinado
Entre o sólido magma
Defendias sem sabê-lo
Um quadrado imenso
De águas diamantinas
Areias vivas dispersas
Abismos de petróleo ensolarado
E povos
Povos verdes de futuro
Um só azul o berço
Em teu robusto colo
Veludo negro
Mulher de pedra eterna.
Componho o teu poema
Força de penedo
Vontade do silex
Diplomacia rochosa
Do teu reinado
Entre o sólido magma
Defendias sem sabê-lo
Um quadrado imenso
De águas diamantinas
Areias vivas dispersas
Abismos de petróleo ensolarado
E povos
Povos verdes de futuro
Um só azul o berço
Em teu robusto colo
Veludo negro
Mulher de pedra eterna.
830
Cruz e Sousa
Visionários
Amam batalhas
pelo mundo adiante
Os que vagam no mundo visionários
Abrindo as áureas portas de sacrários
Do mistério soturno e palpitante
O coração flameja a cada instante
Com brilho estranho, com fervores vários,
Sente a febre dos bons missionários
Da ardente catequese fecundante
Os visionários vão buscar frescura
De água celeste na cisterna pura
Da esperança por horas nebulosas...
Buscam frescura, um outro novo encanto...
E livres , belos através do pranto,
Falam baixo com as almas misteriosas!
pelo mundo adiante
Os que vagam no mundo visionários
Abrindo as áureas portas de sacrários
Do mistério soturno e palpitante
O coração flameja a cada instante
Com brilho estranho, com fervores vários,
Sente a febre dos bons missionários
Da ardente catequese fecundante
Os visionários vão buscar frescura
De água celeste na cisterna pura
Da esperança por horas nebulosas...
Buscam frescura, um outro novo encanto...
E livres , belos através do pranto,
Falam baixo com as almas misteriosas!
1 524
Carlos Nejar
Cântico
Limarás
tua esperança
Até que a mó se desgaste;
Mesmo sem mó, limarás
Contra a sorte e o desespero.
Até que tudo te seja
Mais doloroso e profundo
Limarás sem mãos ou braços,
Com o coração resoluto.
Conhecerás a esperança,
Após a morte de tudo.
tua esperança
Até que a mó se desgaste;
Mesmo sem mó, limarás
Contra a sorte e o desespero.
Até que tudo te seja
Mais doloroso e profundo
Limarás sem mãos ou braços,
Com o coração resoluto.
Conhecerás a esperança,
Após a morte de tudo.
1 166
Carlos Nejar
Inscrição
Aqui estou,
aberto o pórtico.
Serei breve no amor e no transporte.
O óbolo está pago, o dia resgatado
E a barca pronta, com seu barqueiro amargo.
Aos deuses não ouso nada,
nem compro,
senão o intervalo
de meu próprio espanto.
Carregai-me, barca
E ainda canto.
aberto o pórtico.
Serei breve no amor e no transporte.
O óbolo está pago, o dia resgatado
E a barca pronta, com seu barqueiro amargo.
Aos deuses não ouso nada,
nem compro,
senão o intervalo
de meu próprio espanto.
Carregai-me, barca
E ainda canto.
915
Terezinha Rezende Moreira
Semear
Semeia,
o que importa é semear
pouco, muito, tudo,
a semente da esperança.
Semeia
tuas energias para poderes
enfrentar as lutas
Semeia tua coragem
para poderes encorajar
o outro.
Semeia teu entusiasmo,
tua fé, o teu amor.
Semeia coisas pequeninas,
Insignificantes
semeia e confia
Cada semente
há de enriquecer,
um pedaço de chão.
o que importa é semear
pouco, muito, tudo,
a semente da esperança.
Semeia
tuas energias para poderes
enfrentar as lutas
Semeia tua coragem
para poderes encorajar
o outro.
Semeia teu entusiasmo,
tua fé, o teu amor.
Semeia coisas pequeninas,
Insignificantes
semeia e confia
Cada semente
há de enriquecer,
um pedaço de chão.
2 462
Emídia Felipe
Os Muros
Deitado
no telhado vejo as estrelas
que as luzes da cidade escondem;
Com os pés no chão vou voando
Viajando só com o pensamento
Esbarrando nos montes de cimento;
A alma já acostumada com o breu;
O corpo já sabe de todas as dores;
A cabeça já cheia de tanta fumaça;
Os olhos já vacinados contra os horrores;
As mãos já grudadas na vidraça;
Olhe pra cima e agradeça;
È difícil buscar o que é bom;
Já basta de tanta maldade;
Pule os muros da cidade;
Vá buscar o que é bom;
Vá atrás do seu pássaro;
Vai menino do mundo;
Vai atrás do que é raro;
Vá buscar o que é bom.
no telhado vejo as estrelas
que as luzes da cidade escondem;
Com os pés no chão vou voando
Viajando só com o pensamento
Esbarrando nos montes de cimento;
A alma já acostumada com o breu;
O corpo já sabe de todas as dores;
A cabeça já cheia de tanta fumaça;
Os olhos já vacinados contra os horrores;
As mãos já grudadas na vidraça;
Olhe pra cima e agradeça;
È difícil buscar o que é bom;
Já basta de tanta maldade;
Pule os muros da cidade;
Vá buscar o que é bom;
Vá atrás do seu pássaro;
Vai menino do mundo;
Vai atrás do que é raro;
Vá buscar o que é bom.
1 066
Marcelo Ribeiro
Pássaro Ferido
Ferido
o pássaro que voa;
Bico entreaberto
Garras preparadas e penas eriçadas
O coração saltitando
Dentro do minúsculo peito
Coberto de penas alvas tingidas de rubro
O mais belo tom de rubro:
O vivo vermelho do sangue da liberdade
Ferido o pássaro que voa
Porém livre
o pássaro que voa;
Bico entreaberto
Garras preparadas e penas eriçadas
O coração saltitando
Dentro do minúsculo peito
Coberto de penas alvas tingidas de rubro
O mais belo tom de rubro:
O vivo vermelho do sangue da liberdade
Ferido o pássaro que voa
Porém livre
1 200
Mariana Ianelli
Reminiscência
Esquecemos
o tema.
Ele fende a madeira, bordando delicado as arestas,
eu trato a colheita debaixo do cordão da aragem.
Nada nos pertence - últimos mandamentos,
o dever e o tédio dos dias,
famílias lendárias, ironia.
Estamos de volta à beira dos mundos
e sob o pano se aquieta a razão
da nossa continuidade secreta.
A geada bate na terra, desatina as séries da fome
e nós não desanimamos.
Todo tempo pela coragem da maior renúncia,
todo tempo de hoje arrancado de falsas glórias.
Ele talha a madeira, aparando com bom jeito as margens,
eu escolho as raízes, separo a polpa da casca.
Alguma diferença estrita em nós
surpreende a imprudência da fuga,
um mistério não comentado,
uma ambição impedida de voltar ao passado
que tínhamos matado no tempo por um golpe de sorte.
Não perguntamos pela mãe deixada na ponta da história.
Assim foi resolvido.
Mortos, quebrados ao meio.
Revemos os exércitos calmos,
a conformação de milhares, o vírus temerário.
E nenhum reconhecimento é nosso,
a cela terrível dos anos, o verbo régio da tradição.
Na tarde isolada do terceiro dia,
nós renascemos do ácido.
o tema.
Ele fende a madeira, bordando delicado as arestas,
eu trato a colheita debaixo do cordão da aragem.
Nada nos pertence - últimos mandamentos,
o dever e o tédio dos dias,
famílias lendárias, ironia.
Estamos de volta à beira dos mundos
e sob o pano se aquieta a razão
da nossa continuidade secreta.
A geada bate na terra, desatina as séries da fome
e nós não desanimamos.
Todo tempo pela coragem da maior renúncia,
todo tempo de hoje arrancado de falsas glórias.
Ele talha a madeira, aparando com bom jeito as margens,
eu escolho as raízes, separo a polpa da casca.
Alguma diferença estrita em nós
surpreende a imprudência da fuga,
um mistério não comentado,
uma ambição impedida de voltar ao passado
que tínhamos matado no tempo por um golpe de sorte.
Não perguntamos pela mãe deixada na ponta da história.
Assim foi resolvido.
Mortos, quebrados ao meio.
Revemos os exércitos calmos,
a conformação de milhares, o vírus temerário.
E nenhum reconhecimento é nosso,
a cela terrível dos anos, o verbo régio da tradição.
Na tarde isolada do terceiro dia,
nós renascemos do ácido.
790
Emídia Felipe
A Meu Pai
Cansado
de lutar, o guerreiro subiu ao monte mais alto e disse: " – Mestre,
não quero me entregar, mas sou fraco. Quero acreditar, mas minha
fé é pouca.
Quero vencer, mas estou cansado. Não quero ser covarde, mas tenho
medo."
Depois, sentou-se em uma pedra, baixou a cabeça e viu como sua
espada
reluzia apesar dos arranhões. Lembrou-se de cada combate que
havia trazido
cada arranhão. Levantou-se, tomou a espada em suas mãos,
empunhou-a com
firmeza e, vendo o sol refletir na sua lâmina, olhou ao redor
... Viu muito
até a linha do horizonte, viu muitas coisas. Seu pensamento,
porém, viajou
muito além de onde seu olhar podia alcançar. Refez então
a sua fala: "-
Mestre, é preciso pensar ser forte para continuar? É preciso
pensar ser
grande a fé para acreditar? É preciso estar intacto para
vencer? É preciso
ter coragem para enfrentar a escuridão?"
Certo de que havia encontrado a resposta, o guerreiro desceu o monte
com a
certeza de que bastava a ele confiar em si e em seu Senhor para seguir
em
frente e cumprir sua jornada.
de lutar, o guerreiro subiu ao monte mais alto e disse: " – Mestre,
não quero me entregar, mas sou fraco. Quero acreditar, mas minha
fé é pouca.
Quero vencer, mas estou cansado. Não quero ser covarde, mas tenho
medo."
Depois, sentou-se em uma pedra, baixou a cabeça e viu como sua
espada
reluzia apesar dos arranhões. Lembrou-se de cada combate que
havia trazido
cada arranhão. Levantou-se, tomou a espada em suas mãos,
empunhou-a com
firmeza e, vendo o sol refletir na sua lâmina, olhou ao redor
... Viu muito
até a linha do horizonte, viu muitas coisas. Seu pensamento,
porém, viajou
muito além de onde seu olhar podia alcançar. Refez então
a sua fala: "-
Mestre, é preciso pensar ser forte para continuar? É preciso
pensar ser
grande a fé para acreditar? É preciso estar intacto para
vencer? É preciso
ter coragem para enfrentar a escuridão?"
Certo de que havia encontrado a resposta, o guerreiro desceu o monte
com a
certeza de que bastava a ele confiar em si e em seu Senhor para seguir
em
frente e cumprir sua jornada.
907
José Paulo Moreira da Fonseca
Buscar a Rosa
Buscar a rosa no cimo dos penhascos,
a rosa supérflua e essencial,
perdida pelos ventos agrestes,
pelas grimpas sem-fim,
uma rosa dádiva —
e desprezares a morte
sob o céu azul.
a rosa supérflua e essencial,
perdida pelos ventos agrestes,
pelas grimpas sem-fim,
uma rosa dádiva —
e desprezares a morte
sob o céu azul.
966
Madi
Eu sei
Eu sei
Toda mulher sabe os limites do seu amor
O meu é daqueles que parece não ter fim
Sobrevive a mares, tempestades, invernadas
e a longos períodos de estiagem
Toda mulher sabe os limites do seu amor
E o meu é daqueles que resiste à luz ou à escuridão,
à paz ou à guerra
Não é um amor resignado
É daqueles que a gente carrega anos e anos a fio e nem sente o fardo
Toda mulher sabe os limites do seu amor
O meu é daqueles que parece não ter fim
Sobrevive a mares, tempestades, invernadas
e a longos períodos de estiagem
Toda mulher sabe os limites do seu amor
E o meu é daqueles que resiste à luz ou à escuridão,
à paz ou à guerra
Não é um amor resignado
É daqueles que a gente carrega anos e anos a fio e nem sente o fardo
669
Carlos Fernandes
Urbs Mea
Ergue-te, que já vem repontando a alvorada.
Quem trouxe o fado teu, tarde ou nunca descansa.
Eis-te na guerra, sus, alma tantalizada!
Cavalga o teu corcel, pega na tua lança.
Recomeça de novo a intérmina Cruzada,
Põe no teu amuleto as asas da Esperança;
Beija em face de Deus a cruz da tua espada
E de encontro à legião dos bárbaros avança.
É um assédios Vês: — Mouros por toda parte;
O Reino de Aragão dos teus nobres cuidados
Presa dos Infiéis... Rompe-se o baluarte;
Entra a mourama hostil... Solta ao vento os teus brados
E morre, proclamando o teu Símbolo de Arte,
Na trágica invasão dos muros derrocadas.
Quem trouxe o fado teu, tarde ou nunca descansa.
Eis-te na guerra, sus, alma tantalizada!
Cavalga o teu corcel, pega na tua lança.
Recomeça de novo a intérmina Cruzada,
Põe no teu amuleto as asas da Esperança;
Beija em face de Deus a cruz da tua espada
E de encontro à legião dos bárbaros avança.
É um assédios Vês: — Mouros por toda parte;
O Reino de Aragão dos teus nobres cuidados
Presa dos Infiéis... Rompe-se o baluarte;
Entra a mourama hostil... Solta ao vento os teus brados
E morre, proclamando o teu Símbolo de Arte,
Na trágica invasão dos muros derrocadas.
975
Carvalho Neto
Chamamento
rouba da gaivota ao vôo a musicalidade
e na cidade faz a partitura de tuas dores
criatura com mãos de todos os andores
encharcadas de suor, de mil licores
constrói a nova poesia
guarda a solidão da praça vazia
no bolso do casaco
e com pés e direitos feridos, abre estradas
amadas, demais amadas, marcadas
como versos na rocha
rouba aos olhos todos os rancores
que os senhores não abaterão teu brio
teu amanhã será depois de amanhã
e não ficarás na outra margem do rio.
e na cidade faz a partitura de tuas dores
criatura com mãos de todos os andores
encharcadas de suor, de mil licores
constrói a nova poesia
guarda a solidão da praça vazia
no bolso do casaco
e com pés e direitos feridos, abre estradas
amadas, demais amadas, marcadas
como versos na rocha
rouba aos olhos todos os rancores
que os senhores não abaterão teu brio
teu amanhã será depois de amanhã
e não ficarás na outra margem do rio.
1 002
Vitor Casimiro
Ciclo Vicioso
O início
Não me esqueço
O vício
Só tem começo.
O trauma,
Que perfura
A alma
De que procura
Com toda calma
Perder o medo
Essa mania
De que ainda é cedo
De que ainda é dia
E seja o que aconteça
Não há mais perigo
Mesmo que desapareça
O meu amigo
Encontrarei a cura
Para a insensatez
Talvez loucura
De se perder de vez,
De um vez por todas.
Não me esqueço
O vício
Só tem começo.
O trauma,
Que perfura
A alma
De que procura
Com toda calma
Perder o medo
Essa mania
De que ainda é cedo
De que ainda é dia
E seja o que aconteça
Não há mais perigo
Mesmo que desapareça
O meu amigo
Encontrarei a cura
Para a insensatez
Talvez loucura
De se perder de vez,
De um vez por todas.
847
Walter Queiroz
Formação
Nem pétala nem pano
corpo
embora rosa
breve
sopro
resiste à cruz
e vive
nem posse nem plano
sonho
embora sombra
queda
o caos
evola em verde
canta
nem arma nem arte
sentido
embora pasmo
amplo
e alvo
inventa a ponte
passa
nem torna nem tarda
noturna
embora estrela
nova
dalva
assume a cruz
e sangra
nem luto nem lírio
cicatriz
embora marca
funda
e grave
explode em grito
batalha
corpo
embora rosa
breve
sopro
resiste à cruz
e vive
nem posse nem plano
sonho
embora sombra
queda
o caos
evola em verde
canta
nem arma nem arte
sentido
embora pasmo
amplo
e alvo
inventa a ponte
passa
nem torna nem tarda
noturna
embora estrela
nova
dalva
assume a cruz
e sangra
nem luto nem lírio
cicatriz
embora marca
funda
e grave
explode em grito
batalha
865
Valentim Magalhães
Íntimo
Esta alegria loura, corajosa,
Que é como um grande escudo, de ouro feito,
E faz que à Vida a escada pedregosa
Eu suba sem pavor, calmo e direito,
Me vem da tua boca perfumosa,
Arqueada, como um céu, sobre o meu peito:
Constelando-o de beijos cor de rosa,
Ungindo-o de um sorriso satisfeito...
A imaculada pomba da Ventura
Espreita-nos, o verde olhar abrindo,
Aninhada em teu cesto de costura;
Trina um canário na gaiola, inquieto;
A cambraia sutil feres, sorrindo,
E eu, sorrindo, desenho este soneto.
Que é como um grande escudo, de ouro feito,
E faz que à Vida a escada pedregosa
Eu suba sem pavor, calmo e direito,
Me vem da tua boca perfumosa,
Arqueada, como um céu, sobre o meu peito:
Constelando-o de beijos cor de rosa,
Ungindo-o de um sorriso satisfeito...
A imaculada pomba da Ventura
Espreita-nos, o verde olhar abrindo,
Aninhada em teu cesto de costura;
Trina um canário na gaiola, inquieto;
A cambraia sutil feres, sorrindo,
E eu, sorrindo, desenho este soneto.
972
Valeria Braga
Sobre a Página em Branco
Sobre a Página em Branco
Persisto em alguns minutos.
Persisto também nas palavras e sílabas
inconjuntas - o risco de conjugar.
Ainda mora dentro das minhas vísceras
um ruminar laborioso de tecer caminhos
e meu estômago se corrói: desejo alcalino
de gritar.
Mansa, a quietude da noite no dorso de um corcel
emerge e crava os dentes em minha face.
Quem sou eu pra contestar os teus delírios?
Na mesa, o ser pronta, o ser aceite
de todas as delícias e dilaceramentos.
Parir um sonho a cada dia - há que ser mãe.
Mãe inconteste, mãe entregue, seio exposto.
Leite, suor e lágrimas pra cria.
A renúncia extrema de ser livre a cada letra
ou a cada despertar da coragem.
Não morre a luta - guerreira, amazona
infatigável.
Contemplo e celebro. Rendo-me.
Há que ser mãe e mulher,
criança e dona do abandono.
Persisto em alguns minutos.
Persisto também nas palavras e sílabas
inconjuntas - o risco de conjugar.
Ainda mora dentro das minhas vísceras
um ruminar laborioso de tecer caminhos
e meu estômago se corrói: desejo alcalino
de gritar.
Mansa, a quietude da noite no dorso de um corcel
emerge e crava os dentes em minha face.
Quem sou eu pra contestar os teus delírios?
Na mesa, o ser pronta, o ser aceite
de todas as delícias e dilaceramentos.
Parir um sonho a cada dia - há que ser mãe.
Mãe inconteste, mãe entregue, seio exposto.
Leite, suor e lágrimas pra cria.
A renúncia extrema de ser livre a cada letra
ou a cada despertar da coragem.
Não morre a luta - guerreira, amazona
infatigável.
Contemplo e celebro. Rendo-me.
Há que ser mãe e mulher,
criança e dona do abandono.
771
Silvestre Péricles de Góis Monteiro
Das montanhas
As montanhas, que vês, são rasgos de conquistas,
- o arroubo mineral às alturas supremas.
Elas trazem no seio a centêlha imprevista
da persistência ideal a refulgir em poemas.
E sempre as convulsiona o gênio imperialista
do domínio rochaz as ascensões extremas.
Daí, por elas só - armas que a força enrista -
a audácia dos vulcões, dos aludes, das gemas...
As montanhas - palor nevado, a espaços... longes
branqueamentos sem fim nas cristas milenárias:
a sombra dos heróis, dos mártires, dos monges...
E, ao vencer a distância, o mistério da morte,
ei-las dentro do Sonho, altivas, legendárias,
ensinando a ser nobre, a ser grande, a ser forte !
.
- o arroubo mineral às alturas supremas.
Elas trazem no seio a centêlha imprevista
da persistência ideal a refulgir em poemas.
E sempre as convulsiona o gênio imperialista
do domínio rochaz as ascensões extremas.
Daí, por elas só - armas que a força enrista -
a audácia dos vulcões, dos aludes, das gemas...
As montanhas - palor nevado, a espaços... longes
branqueamentos sem fim nas cristas milenárias:
a sombra dos heróis, dos mártires, dos monges...
E, ao vencer a distância, o mistério da morte,
ei-las dentro do Sonho, altivas, legendárias,
ensinando a ser nobre, a ser grande, a ser forte !
.
759
Rodrigo Carvalho
Libertação
É. . .
Dizem por aí que nasci para viver sozinho.
Eternamente sozinho.
Que importa? O que importa é viver!
Tenho pressa de viver! Viver no meu mundo!
Estou farto da vida estupidamente cotidiana!
Não quero mais saber de regras insuportáveis!
Eu insulto as pessoas-máquinas! Sempiternamente cautelosas!
Que importam as regras, as infâmias?
Que importam?
Recuso-me a aceitar o absurdo daqueles que acreditam
na impossibilidade de crer que viver,
é só isso aí. . .
Queimem de raiva contra mim os que acreditam no sistema!
Morram de dor as atitudes impostas!
Destilem seus venenos,
que eu beberei. . .
Tenho nervos de aço, onde não corre sangue nas veias,
ou mesmo no coração.
No meu coração correm vastas emoções,
e o fluxo de pensamentos.
Se tens as regras, cumpra-as!
Se tens a subordinação, humilhe-se!
Se tens tudo, fazes!
Eu, tenho a minha loucura!
Porque, vocês que dizem possuir o direito,
acham que podem ignorar tudo aquilo que sinto em meu peito?
Ah! Que ninguém me defina!
Que ninguém me questione!
Eu, que não vivo sem a minha loucura,
não me questiono!
Eu faço!
Vocês, miseráveis e desprezíveis,
só vão ter o respeito que querem,
no dia em que souberem — e quiserem ! —
respeitar a minha vontade.
Se não for assim. . .
Unam-se todos contra mim!
Alimentem-se do meu ódio!
Mas, não aliem-se ao inimigo. . .
Costumo andar sozinho. Não acompanho ninguém.
Prefiro seguir aos lamentos, machucar-me, arrastar-me,
a seguir todas estas regras insuportáveis.
Mas, viver!
A dor é uma coisa real, sim, mas que estou
aprendendo a abraçar.
E assim vou vivendo. . .
Sozinho. . .
Dizem por aí que nasci para viver sozinho.
Eternamente sozinho.
Que importa? O que importa é viver!
Tenho pressa de viver! Viver no meu mundo!
Estou farto da vida estupidamente cotidiana!
Não quero mais saber de regras insuportáveis!
Eu insulto as pessoas-máquinas! Sempiternamente cautelosas!
Que importam as regras, as infâmias?
Que importam?
Recuso-me a aceitar o absurdo daqueles que acreditam
na impossibilidade de crer que viver,
é só isso aí. . .
Queimem de raiva contra mim os que acreditam no sistema!
Morram de dor as atitudes impostas!
Destilem seus venenos,
que eu beberei. . .
Tenho nervos de aço, onde não corre sangue nas veias,
ou mesmo no coração.
No meu coração correm vastas emoções,
e o fluxo de pensamentos.
Se tens as regras, cumpra-as!
Se tens a subordinação, humilhe-se!
Se tens tudo, fazes!
Eu, tenho a minha loucura!
Porque, vocês que dizem possuir o direito,
acham que podem ignorar tudo aquilo que sinto em meu peito?
Ah! Que ninguém me defina!
Que ninguém me questione!
Eu, que não vivo sem a minha loucura,
não me questiono!
Eu faço!
Vocês, miseráveis e desprezíveis,
só vão ter o respeito que querem,
no dia em que souberem — e quiserem ! —
respeitar a minha vontade.
Se não for assim. . .
Unam-se todos contra mim!
Alimentem-se do meu ódio!
Mas, não aliem-se ao inimigo. . .
Costumo andar sozinho. Não acompanho ninguém.
Prefiro seguir aos lamentos, machucar-me, arrastar-me,
a seguir todas estas regras insuportáveis.
Mas, viver!
A dor é uma coisa real, sim, mas que estou
aprendendo a abraçar.
E assim vou vivendo. . .
Sozinho. . .
862
João Augusto Sampaio
Guerra é guerra?
Leio Fernando Pessoa à beira-mar.
Um helicóptero da FAB incomoda-me dando um rasante sobre a praia sem qualquer motivo.
(Vingança por estar a serviço no Reveillon?)
.....................................................................................................................
Memórias de há dez anos são remexidas instantaneamente no fundo do baú da memória:
Cena dos helicópteros de Apocalypse Now,
Cavalgada das Valquírias ao fundo.
O garotão da Califórnia dispara mais um foguete contra os kongs magros.
Fogo, cheiro de carne humana queimada pelo napalm,
E o comandante cow boy desce na praia e proclama:
"Adoro este cheiro de vitória!".
O recrutinha havaiano surfa nas ondas dos kongs já queimados.
Transponho a cena para minha praia e lembro-me de um político baiano que também adora lutar com adversários desiguais,
Mais fracos sempre...
Chama-se a isso atualmente na Bahia de coragem.
Coragem.
Agir com o coração?
Castro Alves revira-se no túmulo no anno do seu sesquicentenário de nascimento.
Um helicóptero da FAB incomoda-me dando um rasante sobre a praia sem qualquer motivo.
(Vingança por estar a serviço no Reveillon?)
.....................................................................................................................
Memórias de há dez anos são remexidas instantaneamente no fundo do baú da memória:
Cena dos helicópteros de Apocalypse Now,
Cavalgada das Valquírias ao fundo.
O garotão da Califórnia dispara mais um foguete contra os kongs magros.
Fogo, cheiro de carne humana queimada pelo napalm,
E o comandante cow boy desce na praia e proclama:
"Adoro este cheiro de vitória!".
O recrutinha havaiano surfa nas ondas dos kongs já queimados.
Transponho a cena para minha praia e lembro-me de um político baiano que também adora lutar com adversários desiguais,
Mais fracos sempre...
Chama-se a isso atualmente na Bahia de coragem.
Coragem.
Agir com o coração?
Castro Alves revira-se no túmulo no anno do seu sesquicentenário de nascimento.
826
Ruy Pereira e Alvim
Manifesto I - Contra o Vento
Príncipe,
cavaleiro audaz
espada cingida
ao pensamento;
Lança erguida
pelo advento
da Nação que faz.
Nem dúvida nem vento
que afaste o braço
criador do evento.
A História
é vontade
de ser
em movimento.
cavaleiro audaz
espada cingida
ao pensamento;
Lança erguida
pelo advento
da Nação que faz.
Nem dúvida nem vento
que afaste o braço
criador do evento.
A História
é vontade
de ser
em movimento.
852
Renata Trocoli
Sem Titulo II
Ás vezes a gente se pergunta
o porquê de tanta coisa...
o porquê de amar e não ser amado,
talvez ser mas não saber lidar com ele.
Sofrer profundamente quando a situação
que nos envolve é tão clara,
tudo e todos nos mostram que motivos
não temos para sofrer assim.
Envolver-se com alguém desconhecido,
se entregar, abrir as portas do coração
e perceber que tudo valeu à pena,
que a vida é isso ai, arriscar, amar, envolver,
deixar-se conquistar e sofre para aprender
que tudo na vida vale à pena,
que amar é cair e levantar
e sempre ter força para continuar acreditando nele.
o porquê de tanta coisa...
o porquê de amar e não ser amado,
talvez ser mas não saber lidar com ele.
Sofrer profundamente quando a situação
que nos envolve é tão clara,
tudo e todos nos mostram que motivos
não temos para sofrer assim.
Envolver-se com alguém desconhecido,
se entregar, abrir as portas do coração
e perceber que tudo valeu à pena,
que a vida é isso ai, arriscar, amar, envolver,
deixar-se conquistar e sofre para aprender
que tudo na vida vale à pena,
que amar é cair e levantar
e sempre ter força para continuar acreditando nele.
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Renato Russo
Há Tempos
Parece cocaína mas é só tristeza
Talvez tua cidade
Muitos temores nascem do cansaço e da solidão
E o descompasso e o desperdício herdeiros são
Agora da virtude que perdemos
Há tempos tive um sonho
Não me lembro não me lembro
Tua tristeza é tão exata
E hoje o dia é tão bonito
Já estamos acostumados
A não termos mais nem isso
Os sonhos vêm
E os sonhos vão
O resto é imperfeito
Disseste que se tua voz tivesse força igual
À imensa dor que sentes
Teu grito acordaria
Não só a tua casa
Mas a vizinhança inteira
E há tempos nem os santos têm ao certo a medida da maldade
Há tempos são os jovens que adoecem
Há tempos o encanto está ausente
E há ferrugem nos sorrisos
E só acaso estende os braços
A quem procura abrigo e proteção
Meu amor, disciplina é liberdade
Compaixão é fortaleza
Ter bondade é ter coragem
E ela disse: - Lá em casa tem um poço mas a água é muito limpa
Talvez tua cidade
Muitos temores nascem do cansaço e da solidão
E o descompasso e o desperdício herdeiros são
Agora da virtude que perdemos
Há tempos tive um sonho
Não me lembro não me lembro
Tua tristeza é tão exata
E hoje o dia é tão bonito
Já estamos acostumados
A não termos mais nem isso
Os sonhos vêm
E os sonhos vão
O resto é imperfeito
Disseste que se tua voz tivesse força igual
À imensa dor que sentes
Teu grito acordaria
Não só a tua casa
Mas a vizinhança inteira
E há tempos nem os santos têm ao certo a medida da maldade
Há tempos são os jovens que adoecem
Há tempos o encanto está ausente
E há ferrugem nos sorrisos
E só acaso estende os braços
A quem procura abrigo e proteção
Meu amor, disciplina é liberdade
Compaixão é fortaleza
Ter bondade é ter coragem
E ela disse: - Lá em casa tem um poço mas a água é muito limpa
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Renato Russo
Um dia perfeito
Quase morri
Há menos de trinta e duas horas atrás
Hoje a gente fica na varanda
Um dia perfeito com as crianças
São as pequenas coisas que valem mais
É tão bom estarmos juntos
E tão simples: um dia perfeito
Corre corre corre
Que vai chover
Olha a chuva !
Não vou me deixar embrutecer
Eu acredito nos meus ideais
Podem até maltratar meu coração
Que meu espírito
Ninguém vai conseguir quebrar
Há menos de trinta e duas horas atrás
Hoje a gente fica na varanda
Um dia perfeito com as crianças
São as pequenas coisas que valem mais
É tão bom estarmos juntos
E tão simples: um dia perfeito
Corre corre corre
Que vai chover
Olha a chuva !
Não vou me deixar embrutecer
Eu acredito nos meus ideais
Podem até maltratar meu coração
Que meu espírito
Ninguém vai conseguir quebrar
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