Poemas neste tema
Coragem e Força
João Álvares Soares
Soneto
Com troféu sempre augusto, e relevante
Se vence a si quem nunca foi vencido;
Que a vencer a Alexandre é bem sabido
Só Alexandre pode ser bastante
De todos vencedor sempre triunfante,
Para alcançar renome mais subido,
Deixa-se a si de si mesmo rendido
Vencendo a quem venceu sempre arrogante.
Modesto, continente, e recatado
Se absteve de Cupido ao tenro pranto
E sem ver deixa ao Cego desarmado:
Assim vence com digno e novo espanto,
A Marte, quando encara o rosto irado,
A Vênus, quando evita o doce encanto.
Se vence a si quem nunca foi vencido;
Que a vencer a Alexandre é bem sabido
Só Alexandre pode ser bastante
De todos vencedor sempre triunfante,
Para alcançar renome mais subido,
Deixa-se a si de si mesmo rendido
Vencendo a quem venceu sempre arrogante.
Modesto, continente, e recatado
Se absteve de Cupido ao tenro pranto
E sem ver deixa ao Cego desarmado:
Assim vence com digno e novo espanto,
A Marte, quando encara o rosto irado,
A Vênus, quando evita o doce encanto.
477
José Eduardo Mendes Camargo
Propósito
Não quero viver sob o signo do medo
Que paralisa os abraços,
Nos desperta o temor à morte e, ao depois dela,
Como dizia o poeta Drummond,
E então morrermos de medo
E nascerem flores pálidas e medrosas
Em nossos túmulos.
Quero sentir o ar puro da manhã em meus pulmões,
E tocar a terra com a sola de meus pés.
E fascinar-me com o canto dos pássaros,
As cores da natureza, o perfume das flores
E a beleza das mulheres.
E saltar, gritar e dizer:
Estou vivo, não me importa o grau de loucura
Que se me atribuam.
Que paralisa os abraços,
Nos desperta o temor à morte e, ao depois dela,
Como dizia o poeta Drummond,
E então morrermos de medo
E nascerem flores pálidas e medrosas
Em nossos túmulos.
Quero sentir o ar puro da manhã em meus pulmões,
E tocar a terra com a sola de meus pés.
E fascinar-me com o canto dos pássaros,
As cores da natureza, o perfume das flores
E a beleza das mulheres.
E saltar, gritar e dizer:
Estou vivo, não me importa o grau de loucura
Que se me atribuam.
758
José Eduardo Mendes Camargo
Ouça
Quem silenciosamente
Provou o fel da dúvida,
Derramou lágrimas de tristeza,
Amargou longas esperas,
Sentiu-se só e abandonado,
Teve o descrédito de quase todos
E a tudo superou,
Hoje, nada assombra,
Tudo encanta,
Até mesmo os desencantos.
Provou o fel da dúvida,
Derramou lágrimas de tristeza,
Amargou longas esperas,
Sentiu-se só e abandonado,
Teve o descrédito de quase todos
E a tudo superou,
Hoje, nada assombra,
Tudo encanta,
Até mesmo os desencantos.
947
Juvenal Bucuane
O minuto que vem
Há medo
leio-o
nos rostos dos homens
medo do minuto que vem (?)
Que grande desgraça traz
o minuto que vem?
................................................................
Leio medo
nos rostos dos homens,
rostos que não falam,
mas têm nessa voz muda
o latejar do enigma que emprenha o minuto que vem!
................................................................
Criemos uma canção, homens,
criemos uma canção de luta e de amor
que será de triunfo
no minuto que vem,
sobre o medo e a resignação!
...............................................................
Cantemos sobre o medo
do minuto que vem!
leio-o
nos rostos dos homens
medo do minuto que vem (?)
Que grande desgraça traz
o minuto que vem?
................................................................
Leio medo
nos rostos dos homens,
rostos que não falam,
mas têm nessa voz muda
o latejar do enigma que emprenha o minuto que vem!
................................................................
Criemos uma canção, homens,
criemos uma canção de luta e de amor
que será de triunfo
no minuto que vem,
sobre o medo e a resignação!
...............................................................
Cantemos sobre o medo
do minuto que vem!
1 688
Myriam Fraga
Inquisição
Costuraram sua boca
Com alfinetes
E ele dizia que NÃO
E perguntavam.
E cortaram seus dedos
E o lançaram
Bem no fundo do poço
E ele dizia que não, que não, que não
E seus cabelos cresciam como chamas.
Com alfinetes
E ele dizia que NÃO
E perguntavam.
E cortaram seus dedos
E o lançaram
Bem no fundo do poço
E ele dizia que não, que não, que não
E seus cabelos cresciam como chamas.
1 374
Idalina de Carvalho
Sem Título
Quando a tarde
caía sobre nós
enegrecendo o céu
era como se a vida
nos fosse tirada
por momentos
que a crueldade
fazia eternos.
Mas amanhecia
sempre
e tínhamos o sol
o quintal
recheado de cenouras
e o balanço
na goiabeira
insistentes em nos
fazer crer que
sobrevivíamos.
caía sobre nós
enegrecendo o céu
era como se a vida
nos fosse tirada
por momentos
que a crueldade
fazia eternos.
Mas amanhecia
sempre
e tínhamos o sol
o quintal
recheado de cenouras
e o balanço
na goiabeira
insistentes em nos
fazer crer que
sobrevivíamos.
906
Myriam Fraga
Minogram
Não te mires no espelho
Côncavo das virtudes.
Esquece o labirinto.
Não cogites,
Devora
Côncavo das virtudes.
Esquece o labirinto.
Não cogites,
Devora
1 268
Isabel Machado
Estranha
Sou estranha
dentro do meu próprio espaço!
Como posso não estranhar-me
no teu?
Sou vaga nuvem
em noite de tempestade!
A ansiedade me crucifica
mas a paixão não se liberta...
Tenho as asas abertas
para o mundo
terrível mundo que eu enfrento
pelo buraco da fechadura!
Estranha é a coragem
aprisionada
Estranho é quando estou
apaixonada
Estranho-me tudo
Estranho-me nada...
dentro do meu próprio espaço!
Como posso não estranhar-me
no teu?
Sou vaga nuvem
em noite de tempestade!
A ansiedade me crucifica
mas a paixão não se liberta...
Tenho as asas abertas
para o mundo
terrível mundo que eu enfrento
pelo buraco da fechadura!
Estranha é a coragem
aprisionada
Estranho é quando estou
apaixonada
Estranho-me tudo
Estranho-me nada...
1 075
Gabriel Archanjo de Mendonça
Aclive
A montanha
é um convite obstinado
da consciência.
A antevisão da posse
compensa os sobressaltos
da escalada.
Oh, a vertigem do inusitado.
Os pés se ferem
na ferrugem de agulhas
regeladas.
Avalanchas de pranto
rolando estrepitosamente
entulham gargantas
escancaradas.
é um convite obstinado
da consciência.
A antevisão da posse
compensa os sobressaltos
da escalada.
Oh, a vertigem do inusitado.
Os pés se ferem
na ferrugem de agulhas
regeladas.
Avalanchas de pranto
rolando estrepitosamente
entulham gargantas
escancaradas.
867
Flávio Villa-Lobos
Norte
Minha fome é outra.
Não aquela que abre um buraco negro
no estômago
- vazio invisível,
que da boca algum alimento
lácteo - via esôfago -
cessa prontamente
até a próxima angústia.
Minha fome é outra.
Não um simples estar-no-mundo,
como disse Drummond
- o universo para mim
é pouco.
Minha fome salta como louca,
labareda intrépida
num incêndio grandioso.
Ela me devorará
ainda que eu entregue os pontos;
a eternidade é uma tosca
linha de partida
no horizonte, a cegar-me o olho.
Sim, minha fome é outra
- indigesta, não toca
as iguarias da estalagem.
Não tem nome,
nem forma, nem nada.
Apenas remove
montanhas, ajudando-me a vencer
o caminho penoso
sem jamais perder de vista
a paisagem.
Não aquela que abre um buraco negro
no estômago
- vazio invisível,
que da boca algum alimento
lácteo - via esôfago -
cessa prontamente
até a próxima angústia.
Minha fome é outra.
Não um simples estar-no-mundo,
como disse Drummond
- o universo para mim
é pouco.
Minha fome salta como louca,
labareda intrépida
num incêndio grandioso.
Ela me devorará
ainda que eu entregue os pontos;
a eternidade é uma tosca
linha de partida
no horizonte, a cegar-me o olho.
Sim, minha fome é outra
- indigesta, não toca
as iguarias da estalagem.
Não tem nome,
nem forma, nem nada.
Apenas remove
montanhas, ajudando-me a vencer
o caminho penoso
sem jamais perder de vista
a paisagem.
879
Francisco Carvalho
Domingo
É domingo no bosque dos sargaços
constelado de vento e de ardentia.
As ondas se agasalham nos rochedos
ou vão dormir na concha dos teus braços.
Tudo celebra a glória deste dia
em que brotam orquídeas dos teus dedos
e o mistério incendeia a tua nuca.
É domingo no mar. Todas as fúrias
acendem seus penachos de martírio
O coração se veste para a luta
como um herói de impávidas centúrias
que não sucumbe à febre do delírio.
É domingo nas angras, nas retinas
dos peixes e no delta das meninas.
constelado de vento e de ardentia.
As ondas se agasalham nos rochedos
ou vão dormir na concha dos teus braços.
Tudo celebra a glória deste dia
em que brotam orquídeas dos teus dedos
e o mistério incendeia a tua nuca.
É domingo no mar. Todas as fúrias
acendem seus penachos de martírio
O coração se veste para a luta
como um herói de impávidas centúrias
que não sucumbe à febre do delírio.
É domingo nas angras, nas retinas
dos peixes e no delta das meninas.
1 085
Fabio Valor Caldas
Soneto a um Amigo
Só a amizade possui um poder singular assim,
E mesmo em um temporal envenenado,
Ou durante a queda em um abismo sem fim,
É confortante ter um braço forte ao seu lado.
Por mais que minhas palavras lhe pareçam distantes,
Ou minha virtude se torne ausente,
São nos momentos em que mais sofrer, no mais precioso instante,
Que sentirá o valor de ter uma mão que te acalente.
E o desconhecido nada mais é do que uma cumplicidade,
Que vigora tanto nas alegrias como na dor,
E respeita toda forma de se reagir ao desafio.
E afinal, basta querer com desejo, com anseio...
Aquele pote de ouro ao final do arco-íris
Está, muito mais do que imagina, ao alcance de sua mãos.
E mesmo em um temporal envenenado,
Ou durante a queda em um abismo sem fim,
É confortante ter um braço forte ao seu lado.
Por mais que minhas palavras lhe pareçam distantes,
Ou minha virtude se torne ausente,
São nos momentos em que mais sofrer, no mais precioso instante,
Que sentirá o valor de ter uma mão que te acalente.
E o desconhecido nada mais é do que uma cumplicidade,
Que vigora tanto nas alegrias como na dor,
E respeita toda forma de se reagir ao desafio.
E afinal, basta querer com desejo, com anseio...
Aquele pote de ouro ao final do arco-íris
Está, muito mais do que imagina, ao alcance de sua mãos.
874
Everaldo Ygor
Somos Estranhos
Somos estranhos
Estranhos ao tempo
Mas vamos sentir
Os versos da liberdade
Abraçar o vôo no Azul
Amar
Os amantes da liberdade
Beber desse suor
E não vamos errar
Não vamos viver a impunidade
Chega de perversidade
Apenas tocar
Vamos seguir os passos
E o rastro dos pássaros
E voar para o Horizonte
E deixar o grito de espanto
Morrer nos lábios
E voar...
Estranhos ao tempo
Mas vamos sentir
Os versos da liberdade
Abraçar o vôo no Azul
Amar
Os amantes da liberdade
Beber desse suor
E não vamos errar
Não vamos viver a impunidade
Chega de perversidade
Apenas tocar
Vamos seguir os passos
E o rastro dos pássaros
E voar para o Horizonte
E deixar o grito de espanto
Morrer nos lábios
E voar...
848
Everaldo Ygor
Pensar o Próprio Pensamento
Pensar o próprio pensamento
Manejar a intuição
Comum é nossa fome
Complexa é nossa liberdade
Estão fixando a vista entre si
Mas não fitaram-se com ternura
Estão apenas
Fingindo sentimentos que não possuem
Já estamos em tempo
De discursar o pensamento
De resgatar a Coragem
Oculta na imaginação
Vamos transformar
O que chama de utopia
Na verdadeira força do sonho
Manejar a intuição
Comum é nossa fome
Complexa é nossa liberdade
Estão fixando a vista entre si
Mas não fitaram-se com ternura
Estão apenas
Fingindo sentimentos que não possuem
Já estamos em tempo
De discursar o pensamento
De resgatar a Coragem
Oculta na imaginação
Vamos transformar
O que chama de utopia
Na verdadeira força do sonho
827
Fanny Luíza Dupré
Verão
Sobe a piracema
desafiando a correnteza
do rio caudaloso.
Vestibular...
Entra para a faculdade
o candidato cego.
desafiando a correnteza
do rio caudaloso.
Vestibular...
Entra para a faculdade
o candidato cego.
835
Fernanda Benevides
O Plantador de Sonhos
O lavrador prepara a terra, lentamente.
Cultiva o solo com amor.
Alimenta o chão com carinho e devoção.
Cuidadoso, escolhe a semente.
E faz a plantação.
Semeia o trigo e nasce o joio.
Paciente, reinicia.
Planta roseira e brota baobá.
Cauteloso, extirpa-o.
E recomeça.
A vegetação viça.
Súbito, vem o estio.
As plantas secam.
E continua...
A flor renasce.
E vem a inundação.
Não desiste.
Rega a poesia.
Na certeza de um dia,
colher a flor tardia.
(in, A ROSA - FÊNIX)
Fortaleza - Ce, 1997
Cultiva o solo com amor.
Alimenta o chão com carinho e devoção.
Cuidadoso, escolhe a semente.
E faz a plantação.
Semeia o trigo e nasce o joio.
Paciente, reinicia.
Planta roseira e brota baobá.
Cauteloso, extirpa-o.
E recomeça.
A vegetação viça.
Súbito, vem o estio.
As plantas secam.
E continua...
A flor renasce.
E vem a inundação.
Não desiste.
Rega a poesia.
Na certeza de um dia,
colher a flor tardia.
(in, A ROSA - FÊNIX)
Fortaleza - Ce, 1997
1 084
Edielson Pereira
Sertão
Por acaso nunca viste
Uma seca no sertão?
O sol indo dormir triste
Por ter queimado o chão.
Num córrego, lama rachando,
Galinhas cacarejando,
E um velho de enxada na mão;
Um fogareiro, uma panela
Um pote d’água, uma tigela
À luz do lampião.
O nascimento da lua
Prateando a terra cinzenta;
Amarrada numa estaca
Uma magricela vaca
E a fome que a arrebenta;
Sem chuvas um inverno indo
Mais um dia quente findo
Uma forte fé nos sustenta.
À mesa uma família triste
Faz sua lamentação;
Por acaso nunca viste
Uma seca no sertão?
804
Edmundo de Bettencourt
Canção
Não te deites, coração,
A sombra dos teus amores.
Não durmas, olha por eles,
Com alegrias e dores.
Não tenhas medo. O calor
Que vem das serras ao mar,
Erguendo incêndios, não queima
O que não é de queimar.
Agradece ao vento frio
Que traz chuva miudinha:
É neve que se aproxima,
Tormenta que se avizinha...
Nos incêndios naturais
Queima ramos de saudades
E faz a tua canção
Do grito das tempestades!
A sombra dos teus amores.
Não durmas, olha por eles,
Com alegrias e dores.
Não tenhas medo. O calor
Que vem das serras ao mar,
Erguendo incêndios, não queima
O que não é de queimar.
Agradece ao vento frio
Que traz chuva miudinha:
É neve que se aproxima,
Tormenta que se avizinha...
Nos incêndios naturais
Queima ramos de saudades
E faz a tua canção
Do grito das tempestades!
1 163
Donizete Galvão
Silêncio
De pedra ser.
Da pedra ter
o duro desejo de durar.
Passem as legiões
com seus ossos expostos.
Chorem os velhos
com casacos de naftalina.
A nave branca chega ao porto
e tinge de vinho o azul do mar.
O maciço de rocha,
de costas para a cidade
sete vezes destruída,
celebra o silêncio.
A pedra cala
o que nela dói.
Da pedra ter
o duro desejo de durar.
Passem as legiões
com seus ossos expostos.
Chorem os velhos
com casacos de naftalina.
A nave branca chega ao porto
e tinge de vinho o azul do mar.
O maciço de rocha,
de costas para a cidade
sete vezes destruída,
celebra o silêncio.
A pedra cala
o que nela dói.
1 239
Corrêa de Araújo
Na arena
Sou cavalheiro e menestrel, chorosas,
Notas desfiro no arrabil das dores;
Brando a lança de lendas luminosas
E a guitarra imortal dos trovadores.
Buscando justas e buscando amores,
Vêm-me em sonhos todas as formosas,
Com uma harpa de pétalas de flores,
Com uma espada de jasmins e rosas.
Seguirei combatendo destemido,
E quando um dia em chagas escarlates
Entre agonias eu tombar vencido,
Oh! bando loiro em sonhos absorto!
Ponde este gládio tosco dos combates
Na tumba azul do cavalheiro morto.
Notas desfiro no arrabil das dores;
Brando a lança de lendas luminosas
E a guitarra imortal dos trovadores.
Buscando justas e buscando amores,
Vêm-me em sonhos todas as formosas,
Com uma harpa de pétalas de flores,
Com uma espada de jasmins e rosas.
Seguirei combatendo destemido,
E quando um dia em chagas escarlates
Entre agonias eu tombar vencido,
Oh! bando loiro em sonhos absorto!
Ponde este gládio tosco dos combates
Na tumba azul do cavalheiro morto.
972
Olympia Mahu
Mamãe
Viver é uma luta constatnte
Um desafio, a cada instante
Desafios de vida e de sobrvivência
Em embates de angústias, de felicidades...
E tu, mamãe
Oitenta anos de lutas
De bravas lutas...
Tua vida foi sempre uma constante batalha
Um exemplo gratificante de tenacidade,
De aplicação, determinação e paciência,
Muita paciência...
Lembro-me muito bem de tuas lutas
Como mãe, trabalhadora, cidadã.
Deixando em cada uma delas a tua marca,
De garra e resignação.
Como fiel da balança
Trazias sempre o equilíbrio
Com o teu sábio silêncio...
Cada dia mais eu te admiro
Ao te lembrar em exemplos singelos
Tão ricos de sabedoria.
Sei que muitas vezes erraste,
Assim, aprimoravas a vida...
Mas, tenho cereteza,
Erraste pouco
Para os muitos desafios que enfrentaste...
Olimpya Mahu, 10/09/94
Um desafio, a cada instante
Desafios de vida e de sobrvivência
Em embates de angústias, de felicidades...
E tu, mamãe
Oitenta anos de lutas
De bravas lutas...
Tua vida foi sempre uma constante batalha
Um exemplo gratificante de tenacidade,
De aplicação, determinação e paciência,
Muita paciência...
Lembro-me muito bem de tuas lutas
Como mãe, trabalhadora, cidadã.
Deixando em cada uma delas a tua marca,
De garra e resignação.
Como fiel da balança
Trazias sempre o equilíbrio
Com o teu sábio silêncio...
Cada dia mais eu te admiro
Ao te lembrar em exemplos singelos
Tão ricos de sabedoria.
Sei que muitas vezes erraste,
Assim, aprimoravas a vida...
Mas, tenho cereteza,
Erraste pouco
Para os muitos desafios que enfrentaste...
Olimpya Mahu, 10/09/94
878
Castro Alves
Pesadelo de Humaitá
Poesia recitada no Rio de Janeiro.
I
Ao som dos rinchos dos cavalos bravos,
Que soltos passam nos sertões remotos,
Ao múrmur triste do cativo rio
Que solta gritos sepulcrais, ignotos;
Acorda um dia Humaitá sentindo
Que a morte vibra-lhe o pesado arnês.
Treme-lhe o manto dos gerais extensos,
E o vil tirano se lhe agarra aos pés.
II
"Quem é que acorda a cidadela enorme
Que a testa cinge de fatais ameias?"
Brada arrogante do deserto a esposa,
Sentindo o sangue lhe correr nas veias.
"Dizei, condores, que voais do norte!
Dizei, ó ventos, que do céu rompeis!
Por que é que a brisa em seu broquei soluça
E o vil tirano se me agarra aos pés?"
III
"Silêncio! Escuta! lhe responde trêmulo.
Silêncio! diz-lhe do deserto a voz.
Silêncio! É ele. . . — o Brasileiro Atlante,
De um grande povo a legião feroz.
Desceu dos Andes... da Bahia altiva...
De Guanabara — esta mansão de reis...
Treme, ó cidade!... Se o Brasil caminha
O vil tirano se lhe agarra aos pés...
IV
Como o viajante da legenda Hebraica,
Na terra imprime o gigantesco passo
DÁtila monta no ginete fero...
São-lhe as batalhas do caminho o traço
Se pisa o Prata - Riachuelo brilha,
Se estende o braço - Uruguaiana fez
Oh! vibre o pulso o derradeiro golpe,
E o vil tirano se lhe agarra aos pés".
V
Eis já no fumo os batalhões sentestam,
Solto o estandarte no combate novo...
Trincheiras, fortes, baluartes quebram-se,
Ao férreo embate de um potente povo
É um raio — a esquadra... As legiões retumbam,
Ruge a refrega com seus mil tropéis...
... Bravo!... Vitória!... Viva o povo imenso,
O vil tirano há de beijar-lhe os pés!
VI
Fere estes ares, estandarte invicto!
Povo, abre o peito para nova vida!
Talvez agora o pavilhão da pátria
Açoite altivo Humaitá rendida.
Sim! pela campa dos soldados mortos;
Sim! pelo trono dos heróis, dos reis;
Sim! peio berço dos futuros bravos,
O vil tirano há de beijar-lhes os pés.
I
Ao som dos rinchos dos cavalos bravos,
Que soltos passam nos sertões remotos,
Ao múrmur triste do cativo rio
Que solta gritos sepulcrais, ignotos;
Acorda um dia Humaitá sentindo
Que a morte vibra-lhe o pesado arnês.
Treme-lhe o manto dos gerais extensos,
E o vil tirano se lhe agarra aos pés.
II
"Quem é que acorda a cidadela enorme
Que a testa cinge de fatais ameias?"
Brada arrogante do deserto a esposa,
Sentindo o sangue lhe correr nas veias.
"Dizei, condores, que voais do norte!
Dizei, ó ventos, que do céu rompeis!
Por que é que a brisa em seu broquei soluça
E o vil tirano se me agarra aos pés?"
III
"Silêncio! Escuta! lhe responde trêmulo.
Silêncio! diz-lhe do deserto a voz.
Silêncio! É ele. . . — o Brasileiro Atlante,
De um grande povo a legião feroz.
Desceu dos Andes... da Bahia altiva...
De Guanabara — esta mansão de reis...
Treme, ó cidade!... Se o Brasil caminha
O vil tirano se lhe agarra aos pés...
IV
Como o viajante da legenda Hebraica,
Na terra imprime o gigantesco passo
DÁtila monta no ginete fero...
São-lhe as batalhas do caminho o traço
Se pisa o Prata - Riachuelo brilha,
Se estende o braço - Uruguaiana fez
Oh! vibre o pulso o derradeiro golpe,
E o vil tirano se lhe agarra aos pés".
V
Eis já no fumo os batalhões sentestam,
Solto o estandarte no combate novo...
Trincheiras, fortes, baluartes quebram-se,
Ao férreo embate de um potente povo
É um raio — a esquadra... As legiões retumbam,
Ruge a refrega com seus mil tropéis...
... Bravo!... Vitória!... Viva o povo imenso,
O vil tirano há de beijar-lhe os pés!
VI
Fere estes ares, estandarte invicto!
Povo, abre o peito para nova vida!
Talvez agora o pavilhão da pátria
Açoite altivo Humaitá rendida.
Sim! pela campa dos soldados mortos;
Sim! pelo trono dos heróis, dos reis;
Sim! peio berço dos futuros bravos,
O vil tirano há de beijar-lhes os pés.
2 170
Castro Alves
Aos Estudantes Voluntários
(RECITATIVO)
Poesia recitada no Teatro Santa Isabel
na noite do oferecimento da Academia.
O CÉU é alma... O relâmpago
É uma idéia de luz,
Que pelo crânio do espaço
Perpassa, brilha e reluz...
Depois o trovão — é o verbo.
Segue-o o raio — gládio acerbo,
Que se desdobra soberbo
Pelos páramos azuis.
Ação e idéia — são gêmeos,
Quem as pudera apartar?...
O fato — é a vaga agitada
Do pensamento — que é o mar...
Cisma o oceano curvado,
Mas da procela vibrado,
Solta as crinas indomado,
Parece o espaço escalar.
Assim sois vós!... Nem se pense
Que o livro enfraquece a mão.
Troca-se a pena com o sabre,
Ontem — Numa... Hoje — Catão...
É o mesmo... Se a pena é espada
Por mão de Homero vibrada,
Com o gládio — epopéia ousada
Traça mundos — Napoleão...
Que importa os raios trovejem
Nas florestas do existir
Parti, pois! Homens do livro!
Podeis ousados partir!
Pois sereis. . ., vindo com glória,
Ou morrendo na vitória...
Homens do livro da História
Dessa Bíblia do porvir!
Poesia recitada no Teatro Santa Isabel
na noite do oferecimento da Academia.
O CÉU é alma... O relâmpago
É uma idéia de luz,
Que pelo crânio do espaço
Perpassa, brilha e reluz...
Depois o trovão — é o verbo.
Segue-o o raio — gládio acerbo,
Que se desdobra soberbo
Pelos páramos azuis.
Ação e idéia — são gêmeos,
Quem as pudera apartar?...
O fato — é a vaga agitada
Do pensamento — que é o mar...
Cisma o oceano curvado,
Mas da procela vibrado,
Solta as crinas indomado,
Parece o espaço escalar.
Assim sois vós!... Nem se pense
Que o livro enfraquece a mão.
Troca-se a pena com o sabre,
Ontem — Numa... Hoje — Catão...
É o mesmo... Se a pena é espada
Por mão de Homero vibrada,
Com o gládio — epopéia ousada
Traça mundos — Napoleão...
Que importa os raios trovejem
Nas florestas do existir
Parti, pois! Homens do livro!
Podeis ousados partir!
Pois sereis. . ., vindo com glória,
Ou morrendo na vitória...
Homens do livro da História
Dessa Bíblia do porvir!
1 914
Castro Alves
A Eugênia Câmara
AINDA UMA VEZ tu brilhas sobre o palco,
Ainda uma vez eu venho te saudar...
Também o povo vem rolando aplausos
Às tuas plantas mil troféus lançar...
Após a noite, que passou sombria,
A estrela-dalva pelo céu rasgou...
Errante estrela, se lutaste um dia,
Vê como o povo o teu sofrer pagou...
Lutar!... que importa, se afinal venceste?
Chorar!... que importa, se afinal sorris?
A tempestade se não rompe a estátua
Lava-lhe os pés e a triunfal cerviz.
Ouves o aplauso deste povo imenso,
Lava, que irrompe do poplar vulcão?
É o bronze rubro, que ao fundir dos bustos
Referve ardente do porvir na mão.
O povo o povo
Maldiz as trevas, abençoa a luz
Sentiu teu gênio e rebramiu soberbo:
— Pra ti altares, não do poste a cruz.
Que queres? Ouve! — são mil palmas férvidas,
Olha! — é o delírio, que prorrompe audaz.
Pisa! — são flores, que tu tens às plantas,
Toca no fronte — coroada estás.
Descansa, pois, como o condor nos Andes,
Pairando altivo sobre terra e mar,
Pousa nas nuvens pra arrogante em breve
Distante ... longe ... mais além voar.
Ainda uma vez eu venho te saudar...
Também o povo vem rolando aplausos
Às tuas plantas mil troféus lançar...
Após a noite, que passou sombria,
A estrela-dalva pelo céu rasgou...
Errante estrela, se lutaste um dia,
Vê como o povo o teu sofrer pagou...
Lutar!... que importa, se afinal venceste?
Chorar!... que importa, se afinal sorris?
A tempestade se não rompe a estátua
Lava-lhe os pés e a triunfal cerviz.
Ouves o aplauso deste povo imenso,
Lava, que irrompe do poplar vulcão?
É o bronze rubro, que ao fundir dos bustos
Referve ardente do porvir na mão.
O povo o povo
Maldiz as trevas, abençoa a luz
Sentiu teu gênio e rebramiu soberbo:
— Pra ti altares, não do poste a cruz.
Que queres? Ouve! — são mil palmas férvidas,
Olha! — é o delírio, que prorrompe audaz.
Pisa! — são flores, que tu tens às plantas,
Toca no fronte — coroada estás.
Descansa, pois, como o condor nos Andes,
Pairando altivo sobre terra e mar,
Pousa nas nuvens pra arrogante em breve
Distante ... longe ... mais além voar.
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