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Poemas neste tema

Criatividade e Inspiração

Marcus Accioly

Marcus Accioly

Da Prosa e da Poesia

A prosa e a poesia se diferem
pelo mistério:
a casa era sem portas e janelas (...)
isto é prosa
a casa era de vidros e silêncios (...)
isto é poesia
pela música:
era uma vez um eco que dizia (...)
isto é prosa
era uma vez a vez a vez a vez (...)
isto é poesia
pela forma:
sob a luz apagada ele dormia (...)
isto é prosa
sob o peso da treva era o seu sono (...)
isto é poesia
pelo motivo:
a infância veio visitá-lo um dia (...)
isto é prosa
a infância acordou-se nos seus olhos (...)
isto é poesia
pela pintura:
o seu rosto era branco como o mármore (...)
isto é prosa
o seu rosto era um pássaro de nuvem (...)
isto é poesia
pelo equilíbrio:
o sol estava vertical no céu (...)
isto é prosa
o sol caía sobre a própria sombra (...)
isto é poesia
pelo movimento:
a flecha arremessada pelo arco (...)
isto é prosa
a flecha além do arco era uma asa (...)
isto é poesia
pelo ritmo:
era no dia o sol — na noite a lua (...)
isto é prosa
era no sol o sol — na lua a lua (...)
isto é poesia
pela força:
a lâmina brilhou sobre seus olhos (...)
isto é prosa
a lâmina de luz cegou seus olhos (...)
isto é poesia
pelo assombro:
o chicote vibrou como uma cobra (...)
isto é prosa
o chicote vibrou como um relâmpago (...)
isto é poesia
pela imagem:
dentro do rio era canção das águas (...)
isto é prosa
dentro do rio era a canção dos peixes (...)
isto é poesia
etc etc etc
(...)


In: ACCIOLY, Marcus. Poética: pré-manifesto ou anteprojeto do Realismo Épico (época-épica). Recife: Ed. Universitária, 1977

NOTA: Poema composto de 3 partes
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Fontoura Xavier

Fontoura Xavier

CXV - Faróis

Rubens, jardim do ócio e rio do esquecimento,
Estranho ser carnal que ninguém sabe amar,
Mas onde a vida ferve e flui n'um firmamento
Como o ar pelo céu, como o mar sobre o mar;

Leonardo da Vinci, espelho posto ao muro,
Onde arcanjos e gnomos riem de passagem
E cheios de mistério, abrem num claro-escuro
Geleiras e pinhais que encantam a paisagem;

Rembrandt, triste hospital de dor e de gemidos
Que um crucifixo de marfim orna pendente,
Onde o pranto e a oração se exalam dos feridos,
E um branco céu de inverno abre-se bruscamente;

Miguel Ângelo, aonde os Hércules os músculos
Misturam aos de Cristo, e assombra-nos de medo
Quando os fantasmas vêm por volta dos crepúsculos
Esgarçando o sudário apontar-nos o dedo;

Puget, imperador do box e das prisões,
Corpo farto de orgulho, alma de almas inquietas,
Que sabe reviver nas grandes criações
Impudências de fauno e toraxes de atletas;

Watteau, Carnaval de corações desconexos
Que voam como ao sol borboletas errantes
Numa orgia de luz, de lâmpadas, reflexos
De cristais, ao furor de danças delirantes;

Goya, sempre a sonhar de coisas desumanas,
De ceias de sabbat, onde, armadas de figas,
As bruxas de mantons à moda das gitanas
Para tentar o Diabo afivelavam as ligas;

(...)

Todos esses heróis cheios de maldições,
Hinos, êxtases, fés, de vulcões não extintos,
São o ópio ideal dos nossos corações,
Eco que enche de vez todos os labirintos.

(...)


In: XAVIER, Fontoura. Opalas. 4.ed. Rio de Janeiro: Gráf. Sauer, 1928.

NOTA: Tradução do poema "Les Phares", do livro LES FLEURS DU MAL (AS FLORES DO MAL), de Baudelair
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Ronald de Carvalho

Ronald de Carvalho

Entre Buenos Aires e Mendoza

(...)

Onde estão os teus poetas, América?

Onde estão eles que não vêem o alarido
construtor dos teus portos,
onde estão eles que não vêem essas bocas
marítimas que te alimentam de
homens,
que atulham de combustível as fornalhas
dos teus caldeamentos,
onde estão eles que não vêem todas essas
proas entusiasmadas,
e esses guindastes e essas gruas que se
cruzam,
e essas bandeiras que trazem a maresia
dos fiordes e dos golfos,
e essas quilhas e esses cascos veteranos
que romperam ciclones e pampeiros,
e esses mastros que se desarticulam,
e essas cabeças nórdicas e mediterrânicas,
que os teus mormaços vão fundir em
bronze,
e esses olhos boreais encharcados de luz
e de verdura,
e esses cabelos muito finos que procriarão
cabelos muito crespos,
e todos esses pés que fecundarão os teus
desertos!

Teus poetas não são dessa raça de servos
que dançam no compasso de gregos
e latinos,
teus poetas devem ter as mãos sujas de
terra, de seiva e limo,
as mãos da criação!
E inocência para adivinhar os teus
prodígios.
e agilidade para correr por todo o teu
corpo de ferro, de carvão, de cobre, de
ouro, de trigais, milharais e cafezais!

Teu poeta será ágil e inocente, América!
a alegria será a sua sabedoria,
a liberdade será a sua sabedoria,
e sua poesia será o vagido da tua própria
substância, América, da tua própria
substância lírica e numerosa.

Do teu tumulto ele arrancará uma energia
submissa,
e no seu molde múltiplo todas as formas
caberão,
e tudo será poesia na força da sua
inocência.

América, teus poetas não são dessa raça
de servos que dançam no compasso de
gregos e latinos!

(...)

Imagem - 01650002


Publicado no livro Toda a América (1926).

In: CARVALHO, Ronald. Poesia e prosa. Org. Peregrino Júnior. 2.ed. Rio de Janeiro: Agir, 1977. p.52-60. (Nossos clássicos, 45
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