Poemas neste tema
Destino e Superação
Renato Rezende
No Meio do Caminho
Um desses momentos
em lugar nenhum...
estás à beira da estrada...
e és novamente um recém-nascido.
Nunca fizestes nada.
O bordado
da tua vida
encontra o bordado
do teu destino.
Estás calado,
caminhas
entre pedras e pedregulhos,
flores silvestres, abelhas,
e uma pequena poça d'água....
Sob o sol eterno,
alheio aos carros que passam,
diante do teu futuro,
aqui estás,
presente—
ao mesmo tempo claro e escuro.
Nova York, 11 de julho 1995
em lugar nenhum...
estás à beira da estrada...
e és novamente um recém-nascido.
Nunca fizestes nada.
O bordado
da tua vida
encontra o bordado
do teu destino.
Estás calado,
caminhas
entre pedras e pedregulhos,
flores silvestres, abelhas,
e uma pequena poça d'água....
Sob o sol eterno,
alheio aos carros que passam,
diante do teu futuro,
aqui estás,
presente—
ao mesmo tempo claro e escuro.
Nova York, 11 de julho 1995
938
Renato Rezende
Formigas
Talvez isso ajude a compreender o Destino
ou a Graça:
Num pátio de mármore, duas formigas
tentam escalar uma pilastra.
Mas não conseguem.
Uma desiste.
A outra prossegue,
insiste.
Até que eu
pego essa formiga com a mão
e a coloco um palmo acima do chão.
Bombaím, novembro 1991
ou a Graça:
Num pátio de mármore, duas formigas
tentam escalar uma pilastra.
Mas não conseguem.
Uma desiste.
A outra prossegue,
insiste.
Até que eu
pego essa formiga com a mão
e a coloco um palmo acima do chão.
Bombaím, novembro 1991
991
Renato Rezende
As Moiras
Gostaria de estar lá, testemunha, bem na hora
quando as moiras tecem o destino dos homens.
-- Você (ainda apenas uma alma)
está condenado a caminhar de joelhos
por 35 anos
na cidade do Rio de Janeiro.
Essa foi boa! É o mendigo
que vi ontem sob o sol
na praia do Flamengo.
Levariam elas em conta a lei oriental do karma?
Compreenderiam elas que, afinal
a vida é sonho
e não importa nada?
Não é verdade que no fim das contas
todo destino é igual
e todo homem um expatriado de si mesmo?
Veja eu, por exemplo
Renato Rezende, 32 anos
e ainda não morri de fome e de sede
(este fato me surpreende).
Carrego um iceberg no peito
cuja minúscula ponta são todos os meus versos.
Parece mesmo que meu destino
é este gesto já quase desfeito
este desejo imenso de não sei bem o quê
este gigantesco amor-desatino
este aparente
bater a esmo.
As moiras, na sua Glória, eu sei, gostam dessa gente
que é torta, desses sem jeito
que descasam o fim do começo,
que são menos carne do que espírito.
Como o mendigo do Flamengo
eu sou um escolhido
e vivo de joelhos dentro de mim mesmo.
Todas as minhas vitórias sempre serão
maravilhosa, necessariamente um sinal de menos.
Rio de Janeiro, 15 de fevereiro 1997
quando as moiras tecem o destino dos homens.
-- Você (ainda apenas uma alma)
está condenado a caminhar de joelhos
por 35 anos
na cidade do Rio de Janeiro.
Essa foi boa! É o mendigo
que vi ontem sob o sol
na praia do Flamengo.
Levariam elas em conta a lei oriental do karma?
Compreenderiam elas que, afinal
a vida é sonho
e não importa nada?
Não é verdade que no fim das contas
todo destino é igual
e todo homem um expatriado de si mesmo?
Veja eu, por exemplo
Renato Rezende, 32 anos
e ainda não morri de fome e de sede
(este fato me surpreende).
Carrego um iceberg no peito
cuja minúscula ponta são todos os meus versos.
Parece mesmo que meu destino
é este gesto já quase desfeito
este desejo imenso de não sei bem o quê
este gigantesco amor-desatino
este aparente
bater a esmo.
As moiras, na sua Glória, eu sei, gostam dessa gente
que é torta, desses sem jeito
que descasam o fim do começo,
que são menos carne do que espírito.
Como o mendigo do Flamengo
eu sou um escolhido
e vivo de joelhos dentro de mim mesmo.
Todas as minhas vitórias sempre serão
maravilhosa, necessariamente um sinal de menos.
Rio de Janeiro, 15 de fevereiro 1997
769
Paulo Henriques Britto
MADRIGAL
Desista: não vai dar certo.
O mundo é o mesmo de sempre,
desejo é uma coisa cega.
Desista, enquanto é tempo.
As mãos não sabem o que pegam,
os pés vão aonde não sabem.
As cartas estão marcadas:
vai dar desgraça na certa.
O mundo é sempre a esmo,
desejo é uma porta aberta.
Desista, que a vida é incerta.
Ou insista. Dá no mesmo.
O mundo é o mesmo de sempre,
desejo é uma coisa cega.
Desista, enquanto é tempo.
As mãos não sabem o que pegam,
os pés vão aonde não sabem.
As cartas estão marcadas:
vai dar desgraça na certa.
O mundo é sempre a esmo,
desejo é uma porta aberta.
Desista, que a vida é incerta.
Ou insista. Dá no mesmo.
850
Paulo Henriques Britto
SEIS SONETOS SOTURNOS - III
E durma-se com um barulho desses,
engulam-se os sapos necessários.
Resolução? Final feliz? Esquece.
Por outro lado, tudo está bem claro,
nada é ambíguo, e nas entrelinhas
é só espaço em branco. Noves fora,
não há saída. A coisa não termina.
A hora chega, e ainda não é a hora,
ou já é tarde e Inês é morta. Não,
não adianta mais. E no entanto
há que seguir em frente, sempre. Mãos
à obra, sim. Conforme o combinado.
Igual à outra vez: táticas, planos,
metas. É claro que vai dar errado.
engulam-se os sapos necessários.
Resolução? Final feliz? Esquece.
Por outro lado, tudo está bem claro,
nada é ambíguo, e nas entrelinhas
é só espaço em branco. Noves fora,
não há saída. A coisa não termina.
A hora chega, e ainda não é a hora,
ou já é tarde e Inês é morta. Não,
não adianta mais. E no entanto
há que seguir em frente, sempre. Mãos
à obra, sim. Conforme o combinado.
Igual à outra vez: táticas, planos,
metas. É claro que vai dar errado.
788
António Carlos Cortez
Ecos
Errar todo o discurso de teus anos
É errar de má sorte amor ausente
Erraste todo o discurso de teus anos
e és agora pedra para sempre
e o amor ausente já presente um dia
acabou por ser a rede do destino
A mão sinistra a mão mais fria
tece as malhas do naufrágio (gume fino)
Perguntas com razão o que fazer
Como ter de novo o verão antigo
Onde o casaco quente no Inverno…
Nem o vento te responde Resta escrever
os erros que trazes só contigo
na certeza de seres teu próprio inferno
É errar de má sorte amor ausente
Erraste todo o discurso de teus anos
e és agora pedra para sempre
e o amor ausente já presente um dia
acabou por ser a rede do destino
A mão sinistra a mão mais fria
tece as malhas do naufrágio (gume fino)
Perguntas com razão o que fazer
Como ter de novo o verão antigo
Onde o casaco quente no Inverno…
Nem o vento te responde Resta escrever
os erros que trazes só contigo
na certeza de seres teu próprio inferno
721
Golgona Anghel
O seu andar às voltas
O seu andar às voltas,
hesitante como qualquer principiante,
o epicentro das suas mentiras,
o campo magnético do seu prazer,
o pólo norte do seu sexo,
essa sua melancolia de magnólia
gravada no horizonte de tantas Hiroshimas
seriam um desastre em Mishima.
Mas esse dente à morcego
a provar a couraça da minha paciência, essa
mania de acordarmos todos os dias,
de não termos nada e possuir tudo,
eis o que nos une para a eternidade.
Para além dos complexos freudianos,
fora das restrições genéticas,
debaixo de qualquer suspeita
arrumada à pressa nos livros de cabeceira.
Quando me perguntam por nós
não hesito em fundamentar a minha resposta
invocando as musas gregas e os seus curadores,
dando exemplos pertinentes
como este:
ibamus obscuri sola sub nocte.
As milhares de mónadas da minha história psíquica
giram ciclicamente em torno da sua franja,
passam horas
contemplando a sua saia solar
no ondear ligeiro das searas.
Quando não há searas,
ligo a ventoinha e a saia flutua na mesma.
Haverá certamente uma altura em que
os anais do google irão disponibilizar on-line
os ficheiros secretos do nosso destino.
Alguém contará, então,
com a voz distorcida pela censura,
que me abandonava vezes sem conta
com o exagero das hipérboles,
que voltava depois
com o remorso tácito dos pontos suspensivos,
até quando?
que noite após noite me abastecia de requintados
pesadelos, flores de plástico e pastilhas Trident,
até que um dia,
pegou no tempo que nos restava juntos
e foi dar um passeio à parte mais negra da floresta.
hesitante como qualquer principiante,
o epicentro das suas mentiras,
o campo magnético do seu prazer,
o pólo norte do seu sexo,
essa sua melancolia de magnólia
gravada no horizonte de tantas Hiroshimas
seriam um desastre em Mishima.
Mas esse dente à morcego
a provar a couraça da minha paciência, essa
mania de acordarmos todos os dias,
de não termos nada e possuir tudo,
eis o que nos une para a eternidade.
Para além dos complexos freudianos,
fora das restrições genéticas,
debaixo de qualquer suspeita
arrumada à pressa nos livros de cabeceira.
Quando me perguntam por nós
não hesito em fundamentar a minha resposta
invocando as musas gregas e os seus curadores,
dando exemplos pertinentes
como este:
ibamus obscuri sola sub nocte.
As milhares de mónadas da minha história psíquica
giram ciclicamente em torno da sua franja,
passam horas
contemplando a sua saia solar
no ondear ligeiro das searas.
Quando não há searas,
ligo a ventoinha e a saia flutua na mesma.
Haverá certamente uma altura em que
os anais do google irão disponibilizar on-line
os ficheiros secretos do nosso destino.
Alguém contará, então,
com a voz distorcida pela censura,
que me abandonava vezes sem conta
com o exagero das hipérboles,
que voltava depois
com o remorso tácito dos pontos suspensivos,
até quando?
que noite após noite me abastecia de requintados
pesadelos, flores de plástico e pastilhas Trident,
até que um dia,
pegou no tempo que nos restava juntos
e foi dar um passeio à parte mais negra da floresta.
871
Luís Quintais
Psicogeografia
Como nos salvámos, ainda que só por instantes?
Recusando mapas, designando ocasos,
espreitando
a intransparência do vidro das casas
após a entropia que devora famílias.
Salvámo-nos por inquietação móvel,
por solidão contrafeita
e vigilante.
Recusando mapas, designando ocasos,
espreitando
a intransparência do vidro das casas
após a entropia que devora famílias.
Salvámo-nos por inquietação móvel,
por solidão contrafeita
e vigilante.
791
Mauro Mota
Miragem
Amigo:
A vida é um lago cristalino…
Ele guarda consigo
o segredo eternal do teu destino!
Vês? É uma noite de prata!
E, lá no fundo do lago,
a lua se retrata…
Numa atitude de cegonha,
sonhador, como quem sonha
um sonho vago,
contempla aquela imagem lá no fundo
do lago…
Ela é a felicidade deste mundo!
No entanto,
si a buscasses tocando a superfície quieta,
a água se turvaria! morreria o teu canto
de poeta…
É que, por culpa tua,
desvendando o segredo do destino,
jamais verias, no lago cristalino,
a imagem da lua! a imagem da lua!
A vida é um lago cristalino…
Ele guarda consigo
o segredo eternal do teu destino!
Vês? É uma noite de prata!
E, lá no fundo do lago,
a lua se retrata…
Numa atitude de cegonha,
sonhador, como quem sonha
um sonho vago,
contempla aquela imagem lá no fundo
do lago…
Ela é a felicidade deste mundo!
No entanto,
si a buscasses tocando a superfície quieta,
a água se turvaria! morreria o teu canto
de poeta…
É que, por culpa tua,
desvendando o segredo do destino,
jamais verias, no lago cristalino,
a imagem da lua! a imagem da lua!
753
Soares de Passos
A Camões
Ai do que a sorte assinalou no berço
Inspirado cantor, rei da harmonia!
Ai do que Deus às gerações envia
Dizendo – vai, padece, é teu fadário;
Como um astro brilhante o mundo o admira,
Mas não vê que essa chama abrasadora
Que o cerca d'esplendor, também devora
Seu peito solitário.
Pairar nos céus em alteroso adejo,
Buscando amor, e vida, e luz, e glórias;
E ver passar, quais sombras ilusórias,
Essas imagens de fulgor divino:
Tais s o vossos destinos, ó poetas,
Almas de fogo, que um vil mundo encerra;
Tal foi, grande Camões, tal foi na terra
Teu mísero destino.
A cruz levaste desde o berço à campa:
Esgotaste a amargura ate às fezes:
Parece que a fortuna em seus revezes
Te mediu pelo génio a desventura.
Combateste com ela como o cedro
Que provoca o rancor da tempestade,
Mas cuja inabalável majestade
Lhe resiste segura.
Foste grande na dor como na lira!
Quem soube mais sofrer, quem sofreu tanto?
Um anjo viste de celeste encanto,
E aos pés caíste da visão querida...
Engano! foi um astro passageiro,
Foi uma flor de perfumado alento
Que ao longe te sorriu, mas que sedento
Jamais colheste em vida.
Sob a couraça que cingiste ao peito
Do peito ansioso sufocaste a chama,
E foste ao longe procurar a fama,
Talvez, quem sabe? procurar a morte.
Mas, qual onda que o náufrago arremessa
Sobre inóspita praia sem guarida,
A morte crua te arrojou a vida,
E as injúrias da sorte.
De praia em praia divagando incerto
Tuas desditas ensinaste ao mundo:
A terra, os homens, 'té o mar profundo
Conspirados achavas em teu dano.
Ave canora em solidão gemendo,
Tiveste o génio por algoz ferino:
Teu alento imortal era divino,
Perdeste em ser humano:
Índicos vales, solidões do Ganges,
E tu, ó gruta de Macau, sombria,
Vós lhe ouvistes as queixas, e a harmonia
Desses hinos que o tempo não consome.
Foi lá, nessa rocha solitária,
Que o vate desterrado e perseguido,
À pátria, ingrata, que lhe dera o olvido,
Deu eterno renome.
"Cantemos!" disse, e triunfou da sorte.
"Cantemos!" disse, e recordando glórias,
Sobre o mesmo teatro das vitórias,
Bardo guerreiro, levantou seus hinos.
Os desastres da pátria, a sua queda,
Temendo já no meditar profundo,
Quis dar-lhe a voz do cisne moribundo
Em seus cantos divinos.
E que sentidos cantos! d'Inês triste
Se ouve mais triste o derradeiro alento,
Ensinando o que pode o sentimento
Quando um seio que amou d'amores canta:
No brado heróico da guerreira tuba
O valor português soa tremendo,
E o fero Adamastor com gesto horrendo
Inda hoje o mundo espanta!
Mas ai! a pátria não lhe ouvia o canto!
Da pátria e do cantor findava a sorte:
Aos dois juraram perdição e morte,
E os dois juntaram na mansão funérea...
Ingratos! ao que, alçando a voz do génio
Além dos astros nos erguera um sólio,
Decretaram por louro e capitólio
O leito da miséria!
Ninguém o pranto lhe enxugou piedoso...
Valeu-lhe o seu escravo, o seu amigo:
"Dai esmola a Camões, dai-lhe um abrigo!"
Dizia o triste a mendigar confuso!
Homero, Ovídio, Tasso, estranhos cisnes,
Vós, que sorvestes do infortúnio a taça,
Vinde depor as c'roas da desgraça
Aos pés do cisne luso!
Mas não tardava o derradeiro instante...
O raio ardente, que fulmina a rocha,
Também a flor que nela desabrocha,
Cresta, passando, coas etéreas lavas!
Que cena! enquanto ao longe a pátria exangue
Aos alfanges mouriscos dava o peito,
De mísero hospital num pobre leito,
Camões, tu expiravas!
Oh! quem me dera desse leito à beira
Sondar teu grande espírito nessa hora,
Por saber, quando a mágoa nos devora,
Que dor pode conter um peito humano;
Palpar teu seio, e nesse estreito espaço
Sentir a imensidade do tormento,
Combatendo-te n'alma, como o vento,
Nas ondas do Oceano!
O amor da pátria, a ingratidão dos homens,
Natércia, a glória, as ilusões passadas,
Entre as sombras da morte debuxadas,
Em teu pálido rosto já pendido;
E a pátria, oh! e a pátria que exaltaras
Nessas canções d'inspiração profunda,
Exalando contigo moribunda
Seu último gemido!
Expirou! como o nauta destemido,
Vendo a procela que o navio alaga,
E ouvindo em roda no bramir da vaga
D'horrenda morte o funeral presságio,
Aos entes corre que adorou na vida,
Em seguro baixel os põe a nado,
E esquecido de si morre abraçado
Aos restos do naufrágio:
Assim, da pátria que baixava à tumba,
Em cantos imortais salvando a pátria,
E entregando-a dos tempos à memória,
Como em gigante pedestal segura:
"Pátria querida, morreremos juntos!"
Murmurou em acento funerário,
E envolvido da pátria no sudário
Baixou à sepultura.
Quebrando a lousa do feral jazigo,
Portugal ressurgiu, vingando a afronta,
E inda hoje ao mundo sua glória aponta
Dos cantos de Camões no eterno brado;
Mas do vate imortal as frias cinzas
Esquecidas deixou na sepultura,
E o estrangeiro que passa, em vão procura
Seu túmulo ignorado.
Nenhuma pedra ou inscrição ligeira
Recorda o grã cantor... porém calemos!
Silêncio! do imortal não profanemos
Com tributos mortais a alta memória.
Camões, grande Camões; foste poeta!
Eu sei que tua sombra nos perdoa:
Que valem mausoléus antes a coroa
De tua eterna glória?
Inspirado cantor, rei da harmonia!
Ai do que Deus às gerações envia
Dizendo – vai, padece, é teu fadário;
Como um astro brilhante o mundo o admira,
Mas não vê que essa chama abrasadora
Que o cerca d'esplendor, também devora
Seu peito solitário.
Pairar nos céus em alteroso adejo,
Buscando amor, e vida, e luz, e glórias;
E ver passar, quais sombras ilusórias,
Essas imagens de fulgor divino:
Tais s o vossos destinos, ó poetas,
Almas de fogo, que um vil mundo encerra;
Tal foi, grande Camões, tal foi na terra
Teu mísero destino.
A cruz levaste desde o berço à campa:
Esgotaste a amargura ate às fezes:
Parece que a fortuna em seus revezes
Te mediu pelo génio a desventura.
Combateste com ela como o cedro
Que provoca o rancor da tempestade,
Mas cuja inabalável majestade
Lhe resiste segura.
Foste grande na dor como na lira!
Quem soube mais sofrer, quem sofreu tanto?
Um anjo viste de celeste encanto,
E aos pés caíste da visão querida...
Engano! foi um astro passageiro,
Foi uma flor de perfumado alento
Que ao longe te sorriu, mas que sedento
Jamais colheste em vida.
Sob a couraça que cingiste ao peito
Do peito ansioso sufocaste a chama,
E foste ao longe procurar a fama,
Talvez, quem sabe? procurar a morte.
Mas, qual onda que o náufrago arremessa
Sobre inóspita praia sem guarida,
A morte crua te arrojou a vida,
E as injúrias da sorte.
De praia em praia divagando incerto
Tuas desditas ensinaste ao mundo:
A terra, os homens, 'té o mar profundo
Conspirados achavas em teu dano.
Ave canora em solidão gemendo,
Tiveste o génio por algoz ferino:
Teu alento imortal era divino,
Perdeste em ser humano:
Índicos vales, solidões do Ganges,
E tu, ó gruta de Macau, sombria,
Vós lhe ouvistes as queixas, e a harmonia
Desses hinos que o tempo não consome.
Foi lá, nessa rocha solitária,
Que o vate desterrado e perseguido,
À pátria, ingrata, que lhe dera o olvido,
Deu eterno renome.
"Cantemos!" disse, e triunfou da sorte.
"Cantemos!" disse, e recordando glórias,
Sobre o mesmo teatro das vitórias,
Bardo guerreiro, levantou seus hinos.
Os desastres da pátria, a sua queda,
Temendo já no meditar profundo,
Quis dar-lhe a voz do cisne moribundo
Em seus cantos divinos.
E que sentidos cantos! d'Inês triste
Se ouve mais triste o derradeiro alento,
Ensinando o que pode o sentimento
Quando um seio que amou d'amores canta:
No brado heróico da guerreira tuba
O valor português soa tremendo,
E o fero Adamastor com gesto horrendo
Inda hoje o mundo espanta!
Mas ai! a pátria não lhe ouvia o canto!
Da pátria e do cantor findava a sorte:
Aos dois juraram perdição e morte,
E os dois juntaram na mansão funérea...
Ingratos! ao que, alçando a voz do génio
Além dos astros nos erguera um sólio,
Decretaram por louro e capitólio
O leito da miséria!
Ninguém o pranto lhe enxugou piedoso...
Valeu-lhe o seu escravo, o seu amigo:
"Dai esmola a Camões, dai-lhe um abrigo!"
Dizia o triste a mendigar confuso!
Homero, Ovídio, Tasso, estranhos cisnes,
Vós, que sorvestes do infortúnio a taça,
Vinde depor as c'roas da desgraça
Aos pés do cisne luso!
Mas não tardava o derradeiro instante...
O raio ardente, que fulmina a rocha,
Também a flor que nela desabrocha,
Cresta, passando, coas etéreas lavas!
Que cena! enquanto ao longe a pátria exangue
Aos alfanges mouriscos dava o peito,
De mísero hospital num pobre leito,
Camões, tu expiravas!
Oh! quem me dera desse leito à beira
Sondar teu grande espírito nessa hora,
Por saber, quando a mágoa nos devora,
Que dor pode conter um peito humano;
Palpar teu seio, e nesse estreito espaço
Sentir a imensidade do tormento,
Combatendo-te n'alma, como o vento,
Nas ondas do Oceano!
O amor da pátria, a ingratidão dos homens,
Natércia, a glória, as ilusões passadas,
Entre as sombras da morte debuxadas,
Em teu pálido rosto já pendido;
E a pátria, oh! e a pátria que exaltaras
Nessas canções d'inspiração profunda,
Exalando contigo moribunda
Seu último gemido!
Expirou! como o nauta destemido,
Vendo a procela que o navio alaga,
E ouvindo em roda no bramir da vaga
D'horrenda morte o funeral presságio,
Aos entes corre que adorou na vida,
Em seguro baixel os põe a nado,
E esquecido de si morre abraçado
Aos restos do naufrágio:
Assim, da pátria que baixava à tumba,
Em cantos imortais salvando a pátria,
E entregando-a dos tempos à memória,
Como em gigante pedestal segura:
"Pátria querida, morreremos juntos!"
Murmurou em acento funerário,
E envolvido da pátria no sudário
Baixou à sepultura.
Quebrando a lousa do feral jazigo,
Portugal ressurgiu, vingando a afronta,
E inda hoje ao mundo sua glória aponta
Dos cantos de Camões no eterno brado;
Mas do vate imortal as frias cinzas
Esquecidas deixou na sepultura,
E o estrangeiro que passa, em vão procura
Seu túmulo ignorado.
Nenhuma pedra ou inscrição ligeira
Recorda o grã cantor... porém calemos!
Silêncio! do imortal não profanemos
Com tributos mortais a alta memória.
Camões, grande Camões; foste poeta!
Eu sei que tua sombra nos perdoa:
Que valem mausoléus antes a coroa
De tua eterna glória?
981
João Filho
Quase Gregas - Segunda
quele anônimo
(suado e sangrento,
mas não morto,
fugindo de Tebas sem Ílio que o zele),
só escapa da impiedade de Diomedes,
por ter rastejado entre cadáveres, rio e deserto,
e invisível ao aço cruel dos deuses inimigos;
não se acovarda,
procura, sim, reinos mais altos –
o fruto ofertado, apesar de severo.
Gratíssimo pelo respiro de tudo,
mais velho que o lume primeiro
e mais seguro que o lastro de Aquiles.
À sombra, já longe,
sob uma oliveira repousa,
olha a planície
– vida cristal, espantosa de tão óbvia –
e ri suas lágrimas.
A águia e a árvore,
voo e raiz,
os prodígios sem causa desse amoroso diário,
que incansável canta seu sol.
Dorme sem dores,
derrotas não há,
apesar das ruínas da cidade devastada,
do choro sem retorno de mães, filhos e sábios,
estirpe findada.
Endereça-se ao reino mais alto,
àquele,
que estampa em seu siclo confiança e perdão.
(suado e sangrento,
mas não morto,
fugindo de Tebas sem Ílio que o zele),
só escapa da impiedade de Diomedes,
por ter rastejado entre cadáveres, rio e deserto,
e invisível ao aço cruel dos deuses inimigos;
não se acovarda,
procura, sim, reinos mais altos –
o fruto ofertado, apesar de severo.
Gratíssimo pelo respiro de tudo,
mais velho que o lume primeiro
e mais seguro que o lastro de Aquiles.
À sombra, já longe,
sob uma oliveira repousa,
olha a planície
– vida cristal, espantosa de tão óbvia –
e ri suas lágrimas.
A águia e a árvore,
voo e raiz,
os prodígios sem causa desse amoroso diário,
que incansável canta seu sol.
Dorme sem dores,
derrotas não há,
apesar das ruínas da cidade devastada,
do choro sem retorno de mães, filhos e sábios,
estirpe findada.
Endereça-se ao reino mais alto,
àquele,
que estampa em seu siclo confiança e perdão.
507
Salgado Maranhão
Ladainha
Não secarás as raízes
do teu sopro
no abismo da noite púrpura;
não seguirás o fantasma
que atravessa os trilhos;
não cantarás aos muros de arrimo
tua fantasia de pássaro.
Escarpado é o chão
dos teus sapatos;
escarpado é o azul
rabiscado de estrelas;
escarpada é a rima
que lateja a alegoria
da palavra.
do teu sopro
no abismo da noite púrpura;
não seguirás o fantasma
que atravessa os trilhos;
não cantarás aos muros de arrimo
tua fantasia de pássaro.
Escarpado é o chão
dos teus sapatos;
escarpado é o azul
rabiscado de estrelas;
escarpada é a rima
que lateja a alegoria
da palavra.
816
Charles Bukowski
Dois Tipos de Inferno
frequentei o mesmo bar por 7 anos, das 6 da manhã
até as 2 da madrugada.
às vezes eu não me lembrava de haver voltado
para meu quarto.
era como se eu ficasse sentado naquela banqueta do bar
continuamente.
eu não tinha dinheiro mas de algum modo os drinques iam
chegando.
eu não era o palhaço do bar mas sim o
louco do bar.
mas com frequência um louco pode encontrar alguém ainda mais
louco para
lhe oferecer bebidas.
afortunadamente,
era um lugar
cheio de gente.
mas eu tinha um objetivo: eu estava esperando que
algo extraordinário
acontecesse.
mas enquanto os anos se passavam à deriva
nada acontecia a não ser que eu
provocasse.
um espelho de bar quebrado, uma luta com um gigante
de mais de dois metros, um flerte com uma lésbica,
a habilidade de dar nome aos bois e de
resolver discussões que eu não havia
começado etc.
um dia eu simplesmente me levantei e caí fora.
simples assim.
e quando comecei a beber sozinho achei minha própria companhia
mais que satisfatória.
então, como se os deuses estivessem chateados por minha paz de
espírito, as mulheres começaram a bater à minha porta.
os deuses estavam mandando mulheres para o
louco!
as mulheres chegavam uma por vez e quando uma ia embora
os deuses imediatamente - sem dar nenhuma folga - me mandavam
outra.
e cada uma delas parecia à primeira vista ser um milagre renovado, mas
então tudo
que à primeira vista parecia maravilhoso acabava
mal.
minha culpa, é claro, era o que elas habitualmente me
diziam
os deuses simplesmente não deixarão um homem beber sozinho; eles têm
ciúmes dos
prazeres simples; assim eles mandam que uma mulher vá
bater em sua porta.
lembro todos aqueles hotéis baratos; era como se todas as mulheres
fossem uma; a primeira batida delicada na madeira e então,
"oh, ouvi você tocando aquela música adorável em seu rádio. somos
vizinhos. moro aqui no 603 mas nunca o vi
no saguão antes!"
"entre?
e lá se foi sua reclusão.
você também se lembra da vez em que
subiu atrás do gigante de 2 metros e derrubou seu
chapéu de caubói, berrando,
"aposto que você é alto demais para chupar os
peitos da sua mãe!"
e alguém no bar dizendo, "ei, senhor, esqueça, ele é um caso
psiquiátrico, é um chato, ele não sabe o que está
dizendo!"
"sei EXATAMENTE o que eu estou dizendo e vou dizer de novo,
"aposto que você é alto demais...""
ele ganhou a briga mas você não morreu, não do modo como você
morreu por dentro depois
de os deuses arranjarem para que todas aquelas mulheres viessem bater à
sua porta.
a troca de socos foi mais justa: ele era lento, estúpido e estava até um
pouco
assustado e a batalha foi a seu favor por algum tempo
do mesmo modo como aconteceu no começo com aquelas mulheres que
os deuses
lhe mandaram.
a diferença sendo, eu resolvi, que ao menos tive uma chance com as
mulheres.
até as 2 da madrugada.
às vezes eu não me lembrava de haver voltado
para meu quarto.
era como se eu ficasse sentado naquela banqueta do bar
continuamente.
eu não tinha dinheiro mas de algum modo os drinques iam
chegando.
eu não era o palhaço do bar mas sim o
louco do bar.
mas com frequência um louco pode encontrar alguém ainda mais
louco para
lhe oferecer bebidas.
afortunadamente,
era um lugar
cheio de gente.
mas eu tinha um objetivo: eu estava esperando que
algo extraordinário
acontecesse.
mas enquanto os anos se passavam à deriva
nada acontecia a não ser que eu
provocasse.
um espelho de bar quebrado, uma luta com um gigante
de mais de dois metros, um flerte com uma lésbica,
a habilidade de dar nome aos bois e de
resolver discussões que eu não havia
começado etc.
um dia eu simplesmente me levantei e caí fora.
simples assim.
e quando comecei a beber sozinho achei minha própria companhia
mais que satisfatória.
então, como se os deuses estivessem chateados por minha paz de
espírito, as mulheres começaram a bater à minha porta.
os deuses estavam mandando mulheres para o
louco!
as mulheres chegavam uma por vez e quando uma ia embora
os deuses imediatamente - sem dar nenhuma folga - me mandavam
outra.
e cada uma delas parecia à primeira vista ser um milagre renovado, mas
então tudo
que à primeira vista parecia maravilhoso acabava
mal.
minha culpa, é claro, era o que elas habitualmente me
diziam
os deuses simplesmente não deixarão um homem beber sozinho; eles têm
ciúmes dos
prazeres simples; assim eles mandam que uma mulher vá
bater em sua porta.
lembro todos aqueles hotéis baratos; era como se todas as mulheres
fossem uma; a primeira batida delicada na madeira e então,
"oh, ouvi você tocando aquela música adorável em seu rádio. somos
vizinhos. moro aqui no 603 mas nunca o vi
no saguão antes!"
"entre?
e lá se foi sua reclusão.
você também se lembra da vez em que
subiu atrás do gigante de 2 metros e derrubou seu
chapéu de caubói, berrando,
"aposto que você é alto demais para chupar os
peitos da sua mãe!"
e alguém no bar dizendo, "ei, senhor, esqueça, ele é um caso
psiquiátrico, é um chato, ele não sabe o que está
dizendo!"
"sei EXATAMENTE o que eu estou dizendo e vou dizer de novo,
"aposto que você é alto demais...""
ele ganhou a briga mas você não morreu, não do modo como você
morreu por dentro depois
de os deuses arranjarem para que todas aquelas mulheres viessem bater à
sua porta.
a troca de socos foi mais justa: ele era lento, estúpido e estava até um
pouco
assustado e a batalha foi a seu favor por algum tempo
do mesmo modo como aconteceu no começo com aquelas mulheres que
os deuses
lhe mandaram.
a diferença sendo, eu resolvi, que ao menos tive uma chance com as
mulheres.
1 237
Charles Bukowski
Minha Própria Triste História
este é um modo terrível de viver:
cercado pelos
sempre-
irados,
desalmados e
alucinados.
mas minhas experiências de juventude foram
muito parecidas.
eu deveria ter-me ajustado a isso
nessa altura.
desde meu raivoso e furioso
e mesquinho pai
até
o montão de mulheres
que veio depois
todas elas consumidas pela
depressão,
raiva inútil,
gritaria e
piedade de si
sem
sentido.
felicidade e simples alegria
pareciam a todas elas serem
apenas doenças a
erradicar.
minha própria
história:
este modo terrível de
viver.
mas sinto que agora agarrei
a vitória
sobre toda essa inútil
negra e furiosa
histeria.
sobrevivi a tudo
isso e
podem me dar porradas com suas
vidas raivosas e
me queimar em meu
leito de morte.
mas de algum modo
encontrei uma paz
perpétua
que nunca conseguirão
tirar
de mim.
cercado pelos
sempre-
irados,
desalmados e
alucinados.
mas minhas experiências de juventude foram
muito parecidas.
eu deveria ter-me ajustado a isso
nessa altura.
desde meu raivoso e furioso
e mesquinho pai
até
o montão de mulheres
que veio depois
todas elas consumidas pela
depressão,
raiva inútil,
gritaria e
piedade de si
sem
sentido.
felicidade e simples alegria
pareciam a todas elas serem
apenas doenças a
erradicar.
minha própria
história:
este modo terrível de
viver.
mas sinto que agora agarrei
a vitória
sobre toda essa inútil
negra e furiosa
histeria.
sobrevivi a tudo
isso e
podem me dar porradas com suas
vidas raivosas e
me queimar em meu
leito de morte.
mas de algum modo
encontrei uma paz
perpétua
que nunca conseguirão
tirar
de mim.
688
Charles Bukowski
A Leitura de Poesia
ao meio-dia em ponto
numa pequena faculdade próxima à praia
sóbrio
o suor me escorrendo pelos braços
uma gota de suor sobre a mesa
esmagada por um de meus dedos
maldito dinheiro maldito dinheiro
meu deus eles devem achar que eu adoro isso aqui tanto quanto os outros
mas é apenas pra pagar o pão e a cerveja e o aluguel
maldito dinheiro
estou nervoso enojado sinto-me mal
pobres diabos estou caindo estou caindo
uma mulher se levanta
sai da sala
bate a porta
um poema sujo
alguém tinha me dito para não ler poemas sujos
por aqui
é tarde demais.
meus olhos não conseguem ver alguns versos
leio mesmo
assim
desesperado tremendo
enojado
eles não conseguem ouvir minha voz
e eu digo,
desisto, não dá mais, já
era.
e mais tarde no meu quarto
lá estão a cerveja e o uísque
o sangue de um covarde.
isto então
será meu destino:
arrastar-me atrás de uns trocados em auditórios pequenos e escuros
lendo poemas de que há muito já me
cansei.
e então me acostumei a pensar
que os homens que dirigem nossos ônibus
ou limpam nossas privadas
ou matam outros homens aí pelos becos não passam de uns
otários.
numa pequena faculdade próxima à praia
sóbrio
o suor me escorrendo pelos braços
uma gota de suor sobre a mesa
esmagada por um de meus dedos
maldito dinheiro maldito dinheiro
meu deus eles devem achar que eu adoro isso aqui tanto quanto os outros
mas é apenas pra pagar o pão e a cerveja e o aluguel
maldito dinheiro
estou nervoso enojado sinto-me mal
pobres diabos estou caindo estou caindo
uma mulher se levanta
sai da sala
bate a porta
um poema sujo
alguém tinha me dito para não ler poemas sujos
por aqui
é tarde demais.
meus olhos não conseguem ver alguns versos
leio mesmo
assim
desesperado tremendo
enojado
eles não conseguem ouvir minha voz
e eu digo,
desisto, não dá mais, já
era.
e mais tarde no meu quarto
lá estão a cerveja e o uísque
o sangue de um covarde.
isto então
será meu destino:
arrastar-me atrás de uns trocados em auditórios pequenos e escuros
lendo poemas de que há muito já me
cansei.
e então me acostumei a pensar
que os homens que dirigem nossos ônibus
ou limpam nossas privadas
ou matam outros homens aí pelos becos não passam de uns
otários.
1 215
Charles Bukowski
Um Para a Dente-Acavalado
conheço uma mulher
que fica comprando quebra-cabeças
quebra-cabeças
chineses
blocos
arames
peças que afinal se encaixam
numa espécie de ordem.
ela monta tudo
matematicamente
resolve todos os seus
quebra-cabeças
vive junto ao mar
deixa açúcar fora para as formigas
e acredita
fundamentalmente
num mundo melhor.
seu cabelo é branco
ela raras vezes o penteia
seus dentes são acavalados
e ela usa macacões frouxos e disformes
sobre um corpo que a maioria
das mulheres desejaria ter.
por vários anos ela me irritou
com aquilo que eu considerava como sendo
suas excentricidades –
tipo mergulhar cascas de ovo na água
(alimentando as plantas para que
absorvessem cálcio).
mas afinal quando penso em sua
vida
e a comparo com outras vidas
mais deslumbrantes, originais
e belas
percebo que ela machucou menos
gente do que qualquer pessoa que conheço
(e com machucar quero dizer simplesmente machucar).
ela teve alguns momentos terríveis,
momentos em que talvez eu devesse tê-la
ajudado mais
pois ela é a mãe da minha única
filha
e outrora fomos grandes amantes,
mas ela superou os obstáculos
como eu disse
ela machucou menos gente do que
qualquer pessoa que conheço,
e se você olhar por esse ângulo,
bem,
ela criou um mundo melhor.
ela venceu.
Frances, este poema é pra
você.
que fica comprando quebra-cabeças
quebra-cabeças
chineses
blocos
arames
peças que afinal se encaixam
numa espécie de ordem.
ela monta tudo
matematicamente
resolve todos os seus
quebra-cabeças
vive junto ao mar
deixa açúcar fora para as formigas
e acredita
fundamentalmente
num mundo melhor.
seu cabelo é branco
ela raras vezes o penteia
seus dentes são acavalados
e ela usa macacões frouxos e disformes
sobre um corpo que a maioria
das mulheres desejaria ter.
por vários anos ela me irritou
com aquilo que eu considerava como sendo
suas excentricidades –
tipo mergulhar cascas de ovo na água
(alimentando as plantas para que
absorvessem cálcio).
mas afinal quando penso em sua
vida
e a comparo com outras vidas
mais deslumbrantes, originais
e belas
percebo que ela machucou menos
gente do que qualquer pessoa que conheço
(e com machucar quero dizer simplesmente machucar).
ela teve alguns momentos terríveis,
momentos em que talvez eu devesse tê-la
ajudado mais
pois ela é a mãe da minha única
filha
e outrora fomos grandes amantes,
mas ela superou os obstáculos
como eu disse
ela machucou menos gente do que
qualquer pessoa que conheço,
e se você olhar por esse ângulo,
bem,
ela criou um mundo melhor.
ela venceu.
Frances, este poema é pra
você.
594
Charles Bukowski
O Furúnculo
eu estava me dando bem com as garotas na linha de montagem na
Nabisco, eu tinha pouco antes arrebentado a cara do valentão da
empresa
no meu horário de almoço,
as coisas estavam indo bem, eu era de outra
cidade, o estranho que raramente conversava com
alguém, eu era o personagem misterioso, eu era o
fodão,
quase todas aquelas mocinhas tinham interesse
por mim
e os caras não sabiam
que diabos.
aí certa manhã eu acordei no meu
quarto
com um vasto furúnculo num lado da
minha cabeça (bochecha direita)
e
a desgraça tinha quase o tamanho de uma
bola de golfe.
eu devia ter tirado licença médica
mas
não tive o bom senso e
fui trabalhar
mesmo assim.
aquilo fez a diferença: os olhos das mulheres
evitavam os meus, e os caras
já não se comportavam com temor
e eu me senti derrotado pelo
destino.
o furúnculo permaneceu
por
2 dias
3 dias
4 dias.
no quinto dia o capataz me entregou
meus documentos: “estamos cortando pessoal, você
já era”.
isso foi uma hora antes
do almoço.
eu fui até o meu armário, abri,
tirei meu avental e meu quepe
joguei os dois ali dentro
junto com a
chave e saí
caminhando
uma caminhada verdadeiramente horrível
até a rua
onde me virei
para trás e olhei o prédio
com a sensação de que eles haviam
descoberto
algo
medonhamente indecente
a meu respeito.
Nabisco, eu tinha pouco antes arrebentado a cara do valentão da
empresa
no meu horário de almoço,
as coisas estavam indo bem, eu era de outra
cidade, o estranho que raramente conversava com
alguém, eu era o personagem misterioso, eu era o
fodão,
quase todas aquelas mocinhas tinham interesse
por mim
e os caras não sabiam
que diabos.
aí certa manhã eu acordei no meu
quarto
com um vasto furúnculo num lado da
minha cabeça (bochecha direita)
e
a desgraça tinha quase o tamanho de uma
bola de golfe.
eu devia ter tirado licença médica
mas
não tive o bom senso e
fui trabalhar
mesmo assim.
aquilo fez a diferença: os olhos das mulheres
evitavam os meus, e os caras
já não se comportavam com temor
e eu me senti derrotado pelo
destino.
o furúnculo permaneceu
por
2 dias
3 dias
4 dias.
no quinto dia o capataz me entregou
meus documentos: “estamos cortando pessoal, você
já era”.
isso foi uma hora antes
do almoço.
eu fui até o meu armário, abri,
tirei meu avental e meu quepe
joguei os dois ali dentro
junto com a
chave e saí
caminhando
uma caminhada verdadeiramente horrível
até a rua
onde me virei
para trás e olhei o prédio
com a sensação de que eles haviam
descoberto
algo
medonhamente indecente
a meu respeito.
1 230
Charles Bukowski
Não Registrado
meu cavalo era o cinza
com chance de 4 para um
com largada veloz
e ele tinha um comprimento e
meio
na reta final
com três quartos percorridos
quando sua perna dianteira esquerda
estalou
e ele tombou
arremessando seu jóquei
por cima do pescoço e da
cabeça.
por sorte
os corredores se esquivaram tanto
do cavalo quanto do
jóquei – que
se levantou e se afastou mancando
dos coices do
animal.
potencial de acidente:
eis algo
não registrado
no Programa das Corridas.
no clube
eu vi Harry
parado num canto
distante.
ele era um ex-
agente de jóqueis
agora trabalhando como
treinador
mas não tendo
lá muitas montarias
para treinar.
estava escondido atrás dos
óculos escuros
com aspecto
terrível.
“você foi no cinza?”,
eu perguntei.
“é”, ele disse,
“pesado...”
“você precisa de uma transfusão,
não é muito, mas...”
eu enfiei
3 notas dobradas
de 20 no bolso do
casaco dele.
“valeu”, ele
disse.
“aposta num bom.”
Harry já tinha feito
coisas legais por mim
e de todo modo
ele era um dos
melhores
batalhando uma pequena vantagem
numa das mais sangrentas
atividades
que há: estamos tentando
vencer as porcentagens
e a cada dia
alguns precisam cair
de modo que
outros possam
avançar. (o hipódromo é igual
a qualquer outro lugar
só que ali
isso costuma acontecer
mais
depressa.)
eu fui pegar
um café.
gostei da corrida seguinte
uma disputa de três quartos de milha para
não vencedores de
duas.
um bom acerto
colocaria os deuses no
lugar
e curaria
tudo
num clarão
glorioso...
com chance de 4 para um
com largada veloz
e ele tinha um comprimento e
meio
na reta final
com três quartos percorridos
quando sua perna dianteira esquerda
estalou
e ele tombou
arremessando seu jóquei
por cima do pescoço e da
cabeça.
por sorte
os corredores se esquivaram tanto
do cavalo quanto do
jóquei – que
se levantou e se afastou mancando
dos coices do
animal.
potencial de acidente:
eis algo
não registrado
no Programa das Corridas.
no clube
eu vi Harry
parado num canto
distante.
ele era um ex-
agente de jóqueis
agora trabalhando como
treinador
mas não tendo
lá muitas montarias
para treinar.
estava escondido atrás dos
óculos escuros
com aspecto
terrível.
“você foi no cinza?”,
eu perguntei.
“é”, ele disse,
“pesado...”
“você precisa de uma transfusão,
não é muito, mas...”
eu enfiei
3 notas dobradas
de 20 no bolso do
casaco dele.
“valeu”, ele
disse.
“aposta num bom.”
Harry já tinha feito
coisas legais por mim
e de todo modo
ele era um dos
melhores
batalhando uma pequena vantagem
numa das mais sangrentas
atividades
que há: estamos tentando
vencer as porcentagens
e a cada dia
alguns precisam cair
de modo que
outros possam
avançar. (o hipódromo é igual
a qualquer outro lugar
só que ali
isso costuma acontecer
mais
depressa.)
eu fui pegar
um café.
gostei da corrida seguinte
uma disputa de três quartos de milha para
não vencedores de
duas.
um bom acerto
colocaria os deuses no
lugar
e curaria
tudo
num clarão
glorioso...
1 193
Charles Bukowski
Saia Antes do Sol
vire à esquerda na Moscow ou
me encontre na Enchilada House.
os cães me arrastaram até
aqui.
estou entorpecido pelo Destino
mas disposto a jogar como um linebacker no
quarto tempo.
beber?
ou pensar?
melhor beber.
nós viramos o filósofo
da pedra
por falta de coisas melhores.
costumávamos destruir, agora notamos
o que resta:
nós, eles, nós e a
maquinaria.
perfeitamente unidos como a lesma e
a folha.
que tenebrosa fraude são essas
regras!
quem inventou isso?
peguem o desgraçado, assem com o
carneiro!
engraçado falar, o quê?
tipo Mary tinha um carneirinho e saiu
da cidade às
9:15.
coisa de pedra.
coisa de perda, com um sorriso
cabisbaixo.
bebida?
não importa,
e importa.
o que mais importa é o que acontece com
outra pessoa, não
com você.
que curioso que tenha chegado a
isso.
água de nascente alpina não diria
melhor.
ou a contagem até dez.
a inesperada mágica de um argumento
bem apresentado
pode te levar de fogo para fogo,
de inferno para inferno.
tudo diz respeito a isso, ali ao
lado da
pedra.
vire à esquerda na Moscow, desça
pela Denver.
beba.
me encontre na Enchilada House.
os cães me arrastaram até
aqui.
estou entorpecido pelo Destino
mas disposto a jogar como um linebacker no
quarto tempo.
beber?
ou pensar?
melhor beber.
nós viramos o filósofo
da pedra
por falta de coisas melhores.
costumávamos destruir, agora notamos
o que resta:
nós, eles, nós e a
maquinaria.
perfeitamente unidos como a lesma e
a folha.
que tenebrosa fraude são essas
regras!
quem inventou isso?
peguem o desgraçado, assem com o
carneiro!
engraçado falar, o quê?
tipo Mary tinha um carneirinho e saiu
da cidade às
9:15.
coisa de pedra.
coisa de perda, com um sorriso
cabisbaixo.
bebida?
não importa,
e importa.
o que mais importa é o que acontece com
outra pessoa, não
com você.
que curioso que tenha chegado a
isso.
água de nascente alpina não diria
melhor.
ou a contagem até dez.
a inesperada mágica de um argumento
bem apresentado
pode te levar de fogo para fogo,
de inferno para inferno.
tudo diz respeito a isso, ali ao
lado da
pedra.
vire à esquerda na Moscow, desça
pela Denver.
beba.
1 007
Charles Bukowski
Estar Aqui
quando chega o pior, não há nada a se
fazer, é quase caso de você rir, vestir suas roupas
de novo, sair, ver rostos, máquinas,
ruas, prédios, o desenrolar do
mundo.
eu expresso gestos, troco somas de dinheiro, respondo a
perguntas, pouco pergunto, com as horas marchando,
me seguindo, elas não são sempre constantemente
terríveis – por vezes sou acometido por uma louca
alegria e rio, mal sabendo
por quê.
talvez o pior truque que aprendi seja o de
resistir; preciso aprender a ceder, isso não é
algo suspeito.
somos sérios demais, precisamos aprender a lograr
nossos céus e nossos infernos – a brincadeira está jogando
conosco, precisamos jogar de volta.
nossos sapatos vão andando, carregando-
nos.
quando chega o pior, nada deveria ser
pior.
a exatidão é a liberdade: cem
mil muros ou mais
e mais
de nada, seus ossos sabem mais do que a sua
mente.
fazer, é quase caso de você rir, vestir suas roupas
de novo, sair, ver rostos, máquinas,
ruas, prédios, o desenrolar do
mundo.
eu expresso gestos, troco somas de dinheiro, respondo a
perguntas, pouco pergunto, com as horas marchando,
me seguindo, elas não são sempre constantemente
terríveis – por vezes sou acometido por uma louca
alegria e rio, mal sabendo
por quê.
talvez o pior truque que aprendi seja o de
resistir; preciso aprender a ceder, isso não é
algo suspeito.
somos sérios demais, precisamos aprender a lograr
nossos céus e nossos infernos – a brincadeira está jogando
conosco, precisamos jogar de volta.
nossos sapatos vão andando, carregando-
nos.
quando chega o pior, nada deveria ser
pior.
a exatidão é a liberdade: cem
mil muros ou mais
e mais
de nada, seus ossos sabem mais do que a sua
mente.
998
Charles Bukowski
Querido Papai
uma das coisas mais venturosas
que me aconteceram
foi ter um pai cruel e
sádico.
depois dele
as piores coisas que as Moiras
lançaram sobre mim
nem de longe pareceram tão
terríveis –
coisas que a outros homens
causariam
raiva, desespero, desgosto,
loucura, pensamentos suicidas
e
assim por diante
tiveram efeitos irrelevantes
sobre mim
graças à minha
criação:
depois do meu pai
praticamente tudo parecia
bom.
eu deveria realmente ser
grato àquele
velho de merda
morto há tanto tempo
agora
ele me preparou
para todos os numerosos
infernos
me levando lá
bem antes
do tempo
através dos inescapáveis
anos.
que me aconteceram
foi ter um pai cruel e
sádico.
depois dele
as piores coisas que as Moiras
lançaram sobre mim
nem de longe pareceram tão
terríveis –
coisas que a outros homens
causariam
raiva, desespero, desgosto,
loucura, pensamentos suicidas
e
assim por diante
tiveram efeitos irrelevantes
sobre mim
graças à minha
criação:
depois do meu pai
praticamente tudo parecia
bom.
eu deveria realmente ser
grato àquele
velho de merda
morto há tanto tempo
agora
ele me preparou
para todos os numerosos
infernos
me levando lá
bem antes
do tempo
através dos inescapáveis
anos.
998
Charles Bukowski
Canção Para Este Pesar Suavemente Arrebatador...
é preciso subir
além de toda essa merda,
continuar crescendo...
o destino só é uma puta se fizermos com que
seja.
acendamos luzes
soframos em grande estilo –
palito na boca, dentes arreganhados.
podemos fazer.
nascemos fortes e morreremos
fortes.
nosso modo de viver
como transatlânticos na névoa...
espinhos em rosas...
garotos blasés trotando nos parques em trajes de banho...
tem sido muito
bom.
nossos ossos
como caules que furam o céu
para sempre vão gritar
vitória.
além de toda essa merda,
continuar crescendo...
o destino só é uma puta se fizermos com que
seja.
acendamos luzes
soframos em grande estilo –
palito na boca, dentes arreganhados.
podemos fazer.
nascemos fortes e morreremos
fortes.
nosso modo de viver
como transatlânticos na névoa...
espinhos em rosas...
garotos blasés trotando nos parques em trajes de banho...
tem sido muito
bom.
nossos ossos
como caules que furam o céu
para sempre vão gritar
vitória.
1 038
Charles Bukowski
Garrafa de Cerveja
uma coisa de fato miraculosa acaba de acontecer:
minha garrafa de cerveja girou e caiu
e aterrissou com a parte do fundo no chão,
e eu a coloquei de volta na mesa para baixar a espuma,
mas as fotos não estavam lá essas coisas hoje
e havia uma pequena fenda no couro
do meu sapato esquerdo, mas é tudo muito simples:
não podemos adquirir muita coisa: há leis
que desconhecemos de todo, todo tipo de cutucão
para nos queimar ou congelar; o que faz com que
o melro se encaixe na boca do gato
não nos cabe dizer, ou por que certos homens
terminam enjaulados como esquilos de estimação
enquanto outros se espremem contra peitos enormes
ao longo de infindáveis noites – esta é a
missão e o terror, e não nos é dito
por quê. ainda assim, que sorte a garrafa
ter aterrissado direito, e embora
eu tivesse uma de vinho e uma de uísque,
isto prediz, de algum modo, uma noite boa,
e talvez amanhã meu nariz esteja mais comprido:
novos sapatos, menos chuva, mais poemas.
minha garrafa de cerveja girou e caiu
e aterrissou com a parte do fundo no chão,
e eu a coloquei de volta na mesa para baixar a espuma,
mas as fotos não estavam lá essas coisas hoje
e havia uma pequena fenda no couro
do meu sapato esquerdo, mas é tudo muito simples:
não podemos adquirir muita coisa: há leis
que desconhecemos de todo, todo tipo de cutucão
para nos queimar ou congelar; o que faz com que
o melro se encaixe na boca do gato
não nos cabe dizer, ou por que certos homens
terminam enjaulados como esquilos de estimação
enquanto outros se espremem contra peitos enormes
ao longo de infindáveis noites – esta é a
missão e o terror, e não nos é dito
por quê. ainda assim, que sorte a garrafa
ter aterrissado direito, e embora
eu tivesse uma de vinho e uma de uísque,
isto prediz, de algum modo, uma noite boa,
e talvez amanhã meu nariz esteja mais comprido:
novos sapatos, menos chuva, mais poemas.
1 096
Charles Bukowski
Sobre Guindastes
às vezes, após você ter recebido
das forças um belo chute no rabo
você costuma desejar ser um guindaste
estendido sobre uma perna
na água azul
mas há sempre
a
velha questão
que você conhece:
você não quer ser
um guindaste
estendido sobre uma perna
na água azul
o infortúnio não é
suficiente
e
a vitória
claudica
um guindaste não pode
pagar por um rabo
ou
vadiar às tardes
em Monterey
essas são algumas
das coisas
que os humanos podem fazer
além de
ficar sobre uma perna só
das forças um belo chute no rabo
você costuma desejar ser um guindaste
estendido sobre uma perna
na água azul
mas há sempre
a
velha questão
que você conhece:
você não quer ser
um guindaste
estendido sobre uma perna
na água azul
o infortúnio não é
suficiente
e
a vitória
claudica
um guindaste não pode
pagar por um rabo
ou
vadiar às tardes
em Monterey
essas são algumas
das coisas
que os humanos podem fazer
além de
ficar sobre uma perna só
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