Temas
Poemas neste tema

Educação e Conhecimento

Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

Uma Honra, Perigosa Privilégio

Conta Serge Lifar que, ao receber um troféu de ouro, na Sagração da Primavera, Nijinski, Vaslav Fomitch Nijinski, o bailarino que dançava para dar glória a Deus e que escrevia no espaço a imagem efêmera e eterna de seus gestos e o sortilégio de seu corpo, recebeu a incubência de falar em nome dos demais agraciados. Ele, que não sabia fazer outra coisa, a não ser dançar, embaraçou-se, tropeçou, escorregou e caiu no palco. É o que temo que me aconteça aqui. Pois, além da emoção e da honra de receber pelas mãos fidalgas de Yolanda Queiroz, a Sereia de Ouro do Sistema Verdes Mares, nesta Sagração da Primavera de 1996, querem os ritos da cerimônia que eu fale também pelos outros contemplados. É uma honra. Um perigoso privilégio.
Como poderei expressar a graça e o encantamento de nossa grande Sinhá D’Amora? Ela é até minha prima distante — mas vamos nos aproximando. Pois, também eu pertenço ao clã daquela Dona Federalina Correia Lima. Sinhá D’Amora, hoje na adolescência pristina, de seus noventa anos, está no meu conhecimento e no meu bem-querer desde 1935 ou 36. Desde então, acostumei-me a encontrá-la no salão azul de minha doce e inesquecível amiga Julinha Galeno, que mantinha um verdadeiro Consulado do Ceará em sua bela casa de Ipanema. Guardo, daqueles tempos, a memória de sua leve estampa de mulher elegante e seus olhos sábios de ver as coisas e as pessoas, sempre ao lado da figura cavalheirisca e cordial de seu marido, Amora Maciel. Lembro-me de uma de suas primeiras exposições, creio que no salão mais conspícuo do Rio, no Palace Hotel. Seus pincéis, que já sugeriam um trânsito refinado entre o impressionismo francês e o expressionistas alemães, levaram depois suas cores e suas formas aos melhores espaços da Europa e dos Estados Unidos. O que ela recebe hoje é a gratidão do Ceará pelos momentos de beleza que nos traz. A mão e os olhos de um pintor, transfigurados em formas e cores, são sempre, como no verso de Keats, "a thing of beauty, a joy forever". Uma coisa de alegria, uma beleza para sempre. Por isso ela é hoje aqui agraciada, como na velha cantiga da infância, ao lado de três cavaleiros que a saúdam, todos três chapéu na mão.
Um deles é o meu velho amigo, o Dr. José Bonifácio da Silva Câmara, cheio de títulos e serviços na vida pública deste País. Mas o título maior, o que o traz a esta celebração, é o amor simultâneo pelo Ceará e pelos livros. Sou um velho rato de bibliotecas. As vivas e as mortas. Recebi, não faz muito tempo, um pequeno tratado de Umberto Eco sobre o corpo e a alma das bibliotecas. Com ele, percorri alguma delas. Como visitei, com Jorge Luis Borges, em seus delírios, no apartamento da Calle Maypu, em Buenos Aires, a Biblioteca de Babel e seu labirinto de livros, alguns em línguas que não existem mais. Como visitei, com Umberto Eco, as legendárias bibliotecas poligonais, de Nínive e de Samos, a de Pisístrato, em Atenas, e a de Alexandria que, com a de Serapion, tinha 700 mil volumes no século I. Vimos a de Pérgamo e a de Augusto e as 28 bibliotecas de Roma, do tempo de Constantino. E visitei, com minha mulher, as impressionantes bibliotecas de pedra na China e na Cochinchina, em Hanói e Xian, onde os livros são insculpidos na beleza rupestre das lâminas de granito. Mas a biblioteca que mais me comoveu, na verdade, foi aquela de mais de 6 mil volumes, na casa de José Bonifácio, todos eles escritos e editados no e sobre o Ceará. Como sabemos todos, a palavra biblioteca vem do grego — biblos — que quer dizer — livro — e — theke — que quer dizer — armário — e, pois, significa "armário de livros". A de José Bonifácio deveria se chamar "cardioteca" — é um armário do coração. Ou "pneumoteca". É um armário do coração e do espírito de nossa pátria cearense, de nosso País do Ceará. Naqueles livros e naquela biblioteca, faiscada em livrarias novas, em sebos de livros e nos empenhos de amigos, está assegurada a sobrevivência de cada um de nossos escritores. E a sobrevivência de nossas raízes.
Outro agraciado é o Dr. Luiz Esteves Neto. Sua vocação o transformou numa presença humana, exemplar e fecunda, na vida da sociedade cearense. Talvez não tenha nunca pintado quadros, como Sinhá D’Amora, nem guardado livros como José Bonifácio, nem escrito elegias, como este vosso cantador. Mas sem homens como ele nenhum de nós estaria aqui. Participante efetivo das atividades sociais, seu nome é um emblema da vida econômica e da vida associativa. Industrial, presidente da Federação das Indústrias do Estado do Ceará, sua representatividade o levou aos órgãos de direção da Confederação Nacional da Indústria, para onde levou a fibra e o vigor dos capitães de empresa de nossa terra. Seu nome figura na nominata egrégia dos clubes sociais e dos grupos de construção da riqueza e do desenvolvimento. Luiz Esteves Neto é para nós, aquilo que nosso filósofo maior, Farias Brito, chamava "a base física do espírito". Homem de formação universitária, ele poderia ter escolhido qualquer outro tipo de ocupação, nas áreas da inteligência. Escolheu esta, para dar à sociedade que pertencemos, horizontes melhores à esperança do desenvolvimento.
Quanto a mim, pobre cantador das Ipueiras, do pé-da-serra da Ibiapaba, aqui estou com único cabedal maior que mereservou a vida: — a riqueza de ser cearense. No país do sul, nas opulentas babilônias de São Paulo, com seus milhões de descendentes de primeira geração de imigrantes, algumas pessoas invocam a nobreza de suas origens, como na exclamação famosa de Alcântara Machado: — "Paulista eu sou, há quatrocentos anos".
Em nossa terra, aonde quase não chegou a vaga de imigrações da segunda metade do século passado e das primeiras décadas dos novecentos, todos nós, quase todos nós, podemos proclamar, como eu mesmo o faço: — "Cearense eu sou há quatrocentos anos". O que em outras terras é privilégio de uns poucos, aqui é patrimônio de todos. A este patrimônio, devo as vigências mais profundas que me nutriram ao longo da vida.
Teria eu de seis para sete anos, quando minha mãe, pobre professora primária do interior, me fazia decorar páginas inteiras do romance lírico de José de Alencar, cantando os verdes mares bravios e, ao mesmo tempo, um poema grandiloqüente, ufanista e saborosamente ingênuo, de nosso poeta popular, Juvenal Galeno, que ainda hoje sei de cor: "sou cearense e me ufano"...
Estas foram as primeiras plantas enraizadas no chão de minha alma. Depois, foram os cantadores de feira, especialmente o cantador Anselmo Vieira, das Ipueiras, catalogado por Leonardo Mota. Com eles aprendi o ritmo cantante das redondilhas maiores, dos decassílabos de gabinete e dos hendecassílabos sonoros, cantando galope na beira do mar. E aqui lembro — e rendo-lhe uma homenagem — um agraciado da Sereia de Ouro, desaparecido este ano, meu saudoso amigo Eleazar de Carvalho, o egrégio mestre-de-capela, que teve entre seus discípulos até mesmo o mais famoso maestro do mundo em nossos dias, Zumbin Mehta. Eleazar de Carvalho também me dizia um dia que toda a sua disciplina musical se edificara no metro escandido dos cantores de viola e de rabeca nas feiras do Ceará. Afinal, Homero também foi um cantador de lira nas feiras da Jônia.
Nos labirintos do saber e da cultura erudita, varando o oco do mundo, por Europas, Ásias, Áfricas e Américas, peregrino de todas as vicissitudes, talvez eu possa dizer como Keats: — acho que meu nome constará depois da minha morte entre os poetas de meu tempo". Se isto ocorrrer, à uma coisa eu o devo — à fidelidade obstinada à minha terra, aos seus valores primitivos.
Ainda recentemente o Presidente da República se queixava do caráter provinciano de nosso povo. Aprendi com meu saudoso amigo, o presidente Eduardo Frei, do Chile, uma linção fundamental: a distinção entre provincial e provinciano. Ser provinciano é uma coisa negativa. O provinciano é o homem sem perspectiva, que não conhece e não imagina nada além da pobre cerca de seu quintal. O resto do mundo não existe
1 333
Maria Braga Horta

Maria Braga Horta

Infância

Pelos caminhos da minha infância
sigo os teus passos na manhã
do teu ofício e meus deveres.
Ora encurtas teus passos, me esperando,
ora apresso os meus passos e te alcanço.
O importante é que se combinem como o corpo
e a sombra, e não importa qual dos dois
tem que ceder para acertar o compasso.

No percurso me ensinas uma flor
pousada como um pássaro num ramo
ou me explicas os pássaros no vôo
e me respondes o porquê das coisas.
Por quê? — vou sempre perguntando.
E descubro que atrás de cada mistério
há outro mistério e outro mistério.

Mistérios que nenhum de nós jamais desvendará.
Ninguém.
O homem poderá descobrir o universo,
voar entre as estrelas,
mas jamais descobrirá o que deseja descobrir.

Mas tudo se aclara, enfim, quando chegamos.
Esquecidos os mistérios,
enfrentamos a nossa lúcida rotina:
a tua — a de ensinar,
a minha — esta miscelânea de pequenos deveres
e grandes interesses,
esta vontade de descobrir o mundo
e inventar o céu.

Salpico o chão da escola com a água
de uma garrafa de rolha recortada;
varro, espano, encho de água a grande talha de barro
vermelho.
Enquanto isso, lá fora, as crianças em fila cantam.

II
Desço correndo
o morro-do-meio:
o sol me ofusca e o sangue do nariz salpica
o meu vestido branco.
Só consigo parar ao pé da ponte.
Lá vem seu Totonho-benzedor rodeado de gente
e seu Totonho e a gente que o rodeia
me rodeia.
Um lenço branco se tinge de vermelho
sob meu nariz.
Seu Totonho benze e diz:
"Mais vale o poder de Deus
do que o poder deste mal."
Uma prima me leva e empresta outro vestido.
Saio de azul da casa
e entro na venda de seu Roldão:
— Mamãe mandou buscar uma réstia de cebolas.

Havia poesia no sol, no morro, na ponte,
naquele deslumbramento de liberdade
na descida do morro,
no sentimento de importância de ver o povo
aglomerado em volta da menina
que veio voando com asas brancas
salpicadas de sangue.

De volta, passo a passo, subo o morro.
Ninguém mais nas janelas ou na rua.
Trago a réstia de cebolas como uma coroa de louros
conquistada no escuro.

992
Castro Alves

Castro Alves

O Livro e a América

ao grêmio literário

Talhado para as grandezas,
Pra crescer, criar, subir,
O Novo Mundo nos músculos
Sente a seiva do porvir.
— Estatuário de colossos —
Cansado doutros esboços
Disse um dia Jeová:
"Vai, Colombo, abre a cortina
"Da minha eterna oficina...
"Tira a América de lá".

Molhado inda do dilúvio,
Qual Tritão descomunal,
O continente desperta
No concerto universal.
Dos oceanos em tropa
Um — traz-lhe as artes da Europa,
Outro — as bagas de Ceilão...
E os Andes petrificados,
Como braços levantados,
Lhe apontam para a amplidão.

Olhando em torno então brada:
"Tudo marcha!... Ó grande Deus!
As cataratas — pra terra,
As estrelas — para os céus
Lá, do pólo sobre as plagas,
O seu rebanho de vagas
Vai o mar apascentar...
Eu quero marchar com os ventos,
Corn os mundos... coos firmamentos!!!"
E Deus responde — "Marchar!"

"Marchar! ... Mas como?... Da Grécia
Nos dóricos Partenons
A mil deuses levantando
Mil marmóreos Panteons?...
Marchar coa espada de Roma
— Leoa de ruiva coma
De presa enorme no chão,
Saciando o ódio profundo. . .
— Com as garras nas mãos do mundo,
— Com os dentes no coração?...

"Marchar!... Mas como a Alemanha
Na tirania feudal,
Levantando uma montanha
Em cada uma catedral?...
Não!... Nem templos feitos de ossos,
Nem gládios a cavar fossos
São degraus do progredir...
Lá brada César morrendo:
"No pugilato tremendo
"Quem sempre vence é o porvir!"

Filhos do sec’lo das luzes!
Filhos da Grande nação!
Quando ante Deus vos mostrardes,
Tereis um livro na mão:
O livro — esse audaz guerreiro
Que conquista o mundo inteiro
Sem nunca ter Waterloo...
Eólo de pensamentos,
Que abrira a gruta dos ventos
Donde a Igualdade vooul...

Por uma fatalidade
Dessas que descem de além,
O seclo, que viu Colombo,
Viu Guttenberg também.
Quando no tosco estaleiro
Da Alemanha o velho obreiro
A ave da imprensa gerou...
O Genovês salta os mares...
Busca um ninho entre os palmares
E a pátria da imprensa achou...

Por isso na impaciência
Desta sede de saber,
Como as aves do deserto
As almas buscam beber...
Oh! Bendito o que semeia
Livros... livros à mão cheia...
E manda o povo pensar!
O livro caindo nalma
É germe — que faz a palma,
É chuva — que faz o mar,

Vós, que o templo das idéias
Largo — abris às multidões,
Pra o batismo luminoso
Das grandes revoluções,
Agora que o trem de ferro
Acorda o tigre no cerro
E espanta os caboclos nus,
Fazei desse "rei dos ventos"
— Ginete dos pensamentos,
— Arauto da grande luz! ...

Bravo! a quem salva o futuro
Fecundando a multidão! ...
Num poema amortalhada
Nunca morre uma nação.
Como Goethe moribundo
Brada "Luz!" o Novo Mundo
Num brado de Briaréu...
Luz! pois, no vale e na serra...
Que, se a luz rola na terra,
Deus colhe gênios no céu!...

2 018
Castro Alves

Castro Alves

Partida do meu Mestre do Coração

O Exmo. Sr. D. Antônio de Macedo Costa, Bispo do Pará

Oh! Que silêncio expressivo!
Que triste melancolia!
Tudo nos diz dores;
Tudo nos diz agonia!
Chora terno o caro mestre,
O disciplo também chora;
Que todos sofrem agora!

Apenas ouço soluços
Arrancados dentre prantos!
Tristes ais, filhos da dor,
Partidos de peitos tantos!
Frases puras que bem dizem
O sofrer, as aflições,
Que pungem tais corações!...

Mas por que todos conjuntos,
Estais assim a chorar?
Que motivo vossas almas
Pôde assim sensibilizar?
Que motivo vossos peitos
Faz assim starem sofrendo;
Tantas dores padecendo?

Ai! É que a ausência penosa
Já pouco tarda a chegar!
É que impiedoso o destino
Dos olhos vai nos roubar
O mestre, o mestre querido,
Que nos sabia ensinar
A nosso Deus adorar!

Ai! É que dentro em breve
(Talvez pra sempre, oh! meu Deus!)
Não possamos mais ouvir
Os santos conselhos seus!
Ele tão bom nos guiava
A salvo por entre a lida
Desta tão custosa vida!

Chora, bem triste, Ginásio,
Derrama pranto sem fim!
Ah! Chora que isto consola
A quem sofre dor assim!.
Chora, que não mais verás
Unido alegre contigo
O teu mestre, o teu amigo!

Chora, chora, meu Ginásio.
Eis a hora de partir,
Dhora em diante saudades
Cruéis vos hão de ferir!
Que a nós juntos como agora
Não mais há de alumiar
Este sol, que vês brilhar.

A pátria nos tira o mestre
É — nos preciso ceder;
Mas nos não proíbe o pranto,
Nem no-lo pode tolher;
Que então seria matar
Fé de amigo os sentimentos
E aumentar-nos os tormentos!...

Ginásio Baiano. 14 de julho de 1861.
O discípulo amigo do coração

1 772
Castro Alves

Castro Alves

Jesuítas e Frades

Que o mundo antigo serga e lance a maldição
Sobre vós... remembrando a negra lnquisição,
A hidra escura e vil da vil Teocracia,
O Santo Ofício, as provas, o azeite, a gemonia ...
Lisboa, Tours, Sevilha e Nantes na tortura,
Na fogueira Grandier, João Huss na sepultura,
Colombo a soluçar, a gemer Galileu...
De mil autos-da-fé o fumo enchendo o céu...
Que a maldição vos lance a pena do Gaulês
Tendo por tinta a borra das caldeiras de pez...
Que o Germano a sangrar maldiz em férreos hinos.

É justo! . . .

A História cega, aquentando o estilete
Nas brasas que apagar não pôde o Guadalete,
Tem jus de vos marcar com o ferro do labéu,
Como queima o carrasco o ombro nu do réu ...

Mas enquanto existir o grande, o novo mundo,
Ó Filhos de Jesus!... um cântico profundo
Irá vos embalar do sepulcro no solo...
A América por vós reza de pólo a pólo!
Dizei-o, vós, dizei, Tamoios, Guaranis,
Iroqueses, Tapuias, Incas, e Tupis...

A santa abnegação, o heroísmo, a doçura,
O amor paternal, a castidade pura
Destes homens que vinham, envoltos no burel,
A derramar dos lábios o amor — divino mel,
O perdão — óleo santo, a fé — mística luz,
E o Deus da caridade - o pródigo Jesus! ...

Oh! não! Mil vezes não! O poeta Americano
Vos deve sepultar no verso soberano
— Pano negro que tem por lágrimas de prata
As lágrimas que a Musa inspirada desata!!!

Se aqui houve cativos — eles os libertaram.
Se aqui houve selvagens — eles os educaram.
Se aqui houve fogueiras — eles nelas sofreram.
Se lá carrascos foram — cá mártires morreram.
Em vez do Inquisidor — tivemos a vedeta.
Loiola — aqui foi Nóbrega, Arbues — foi Anchieta!

Oh! Não! Mil vezes nãol O poeta Americano
Vos deve amortalhar no verso soberano
— Pano negro que tem por lágrimas de prata
As lágrimas que a musa inspirada desata!...

1 675