Poemas neste tema
Esperança e Otimismo
Sílvio Péllico
O Suspiro
(Tradução de Luís Vicente Simoni)
O amor é suspiro
De uma alma gemente,
A qual só se sente
E quer compaixão.
A dor é suspiro
De uma alma oprimida
A qual acha a vida
Sem satisfação.
A esperança é suspiro
De uma alma, se aspira,
Se sonha, se ira
Risonho fuzil.
O medo é suspiro
De uma alma abatida,
Talvez por perdida
Lisonja gentil.
Dor, medo, esperança
E amor do leviano
Coração humano,
Suspiros vêm ser.
Suspiro são breve
A pena, o prazer,
São breve suspiro
A vida e o morrer.
Mas neste suspiro,
Meu Deus, breve assim,
Me deste o desejo
Que venhas a mim;
Deste-me uma luz
Que diva se sente,
Me deste uma mente
Que a ti me conduz.
O amor é suspiro
De uma alma gemente,
A qual só se sente
E quer compaixão.
A dor é suspiro
De uma alma oprimida
A qual acha a vida
Sem satisfação.
A esperança é suspiro
De uma alma, se aspira,
Se sonha, se ira
Risonho fuzil.
O medo é suspiro
De uma alma abatida,
Talvez por perdida
Lisonja gentil.
Dor, medo, esperança
E amor do leviano
Coração humano,
Suspiros vêm ser.
Suspiro são breve
A pena, o prazer,
São breve suspiro
A vida e o morrer.
Mas neste suspiro,
Meu Deus, breve assim,
Me deste o desejo
Que venhas a mim;
Deste-me uma luz
Que diva se sente,
Me deste uma mente
Que a ti me conduz.
1 406
José Carlos Souza Santos
O Romanceiro
Vinte e quatro sóis
acesos no meu caminho
um grito coagulado
na fuga desperto
e debruçada nos meus olhos
caminhaste o filho da noite
inteiro
Vinte e quatro sóis
acesos dentro de mim
um grito assassinado
no peito
deflorando o sono da fuga
nas imaturas distâncias
onde perdido deixei
o cântaro último da fé
Penetrando nos meus olhos
violentaste o aviso
da proibida entrada
perambulando
como se fosse quarta-feira
e colhendo
numa primavera de sonhos
nos jardins do que fui
vinte e quatro sóis azuis
que sem saber
p´ra você eu guardei
Na avenida de cantos
renasceste do meu peito no teu mundo
pisando as pedras do meu caminho
e lançaste o pregão ao vento :
- Ele está renascido
estive lá dentro dele
e vi flores e prantos
e notas e dores
e cantos
nos recantos escondidos
de não mostrar a ninguém
fui estranha em ruelas sem passado
conseguindo o norte encontrar
depois de caminhos tantos
- Sim, eu sei, tu descobriste
o grito há tanto escondido
Nasci em tempo de festival
meu mundo incompreendido
tem notas que são espinhos
tem flores embrutecidas
rebentadas no meu peito
tem cantos são sentidos
que às vezes eu mesmo sinto
ter tão estranho nascido
- Estranho, nasceste sim
estranho cantor eu sei
na estranheza do teu canto
existe um outro encanto
embora não saibas qual seja
é o encanto das flores mutiladas
na fronteira dos teus olhos
é a fuga dos teus lenços
num cais já vazio
é o grito acorrentado
no alagado do teu peito
O teu encanto é o gemido guardado
e nunca soluçado
nas tuas mãos de poeta !
- Sim, eu sei, tu descobriste
o meu grito
de vinte e quatro sóis
amanhecidos no peito,
e sei que nos limites
do que sou
ou nas amarras do meu verso
como pomba artesã
na minha lira te encontro
- Poeta, o meu nome é infortúnio
somos pó na mesma estrada
e nem assim nos encontramos
somos água de um só rio
que não corre o mesmo leito
no teu peito a esperança
é terra já amanhada
no meu corre a solidão
na roca do meu sonhar
- Teu suspiro não assino
nem teu pranto faço meu
no tear da esperança
há um riso que se alcança
quando o linho dá um nó
há um vento que levanta
do passado o areal
e um sol que o sepulta
quando o fuso entristecido
faz da curva o seu caminho
- A esperança rebentada no meu peito
poeta
é uma flor desesperada,
traz no seio o escarlate
das visões de fome e guerra,
nas veias abertas o choro
de crianças abandonadas
das farpas que me protegem
emanam dores e gritos
não há roca nem esperança
p´ra quem vive de amanhar
choro, dor, lamento e pranto
- Infortúnio, Infortúnio,
não há poço sem um fundo
nem túnel sem uma luz
a corda não é sempre
do enforcado o colar
nem a semente fenece
sem antes dela brotar
o fruto, a flor e a sombra
e mesmo nas mãos vermelhas
das abelhas lívidas
há um néctar
de esperança a ser sugado
- Poeta ! sonhas e deliras
quando esperanças alardeia
desespero é o cavalo
ao qual me encilhei
as abelhas de que falas
aninhadas se encontram
no ventre das minhas aranhas
minhas flores enlouquecidas
giram ao redor de um fuso
sem linha no meu tear
- Donde vens Infortúnio !
onde as sombras
que te abrigam
- Venho de longe e de perto
do tempo sou viajante
nas canaletas da dor
fui Sabra, Chatilla,
Treblinka, Sorbibor
Quem me viu Sabra
conhece o amontoado das minhas
fugas
e a profundidade da angústia
revelada na aspereza dos meus
cactos
mas sabia quanto eu era terna
e doce
Quem me conheceu Chatilla
sabia-me flor nascida em lodo,
de mãos desarmadas,
e vivendo como uma rosa
pelo espaço de uma manhã
Quando Sabra e Chatilla fui
tive os braços levantados
e os gestos inconclusos
e me vejo ainda nas flores
rebentadas
no peito daquelas mulheres
Não procures Poeta
o insondável com teu verso desvendar
somos do mesmo caminho as
pedras
e nem assim nos conhecemos
somos da mesma luz a cor
e nem assim tu me iluminas
- Infortúnio, Infortúnio !
há mil anos nossas palavras são sussurradas
e encalacradas ao peito
sem ouvidos a ouvi-las
e dizer que a tua voz me é conhecida
como a serra que me teve em berço,
e dizer que sei teu nome
embora de Infortúnio não a chamasse
nos meus sonhos, rota e triste
te chamava Liberdade ... Liberdade
- Morto o tempo Poeta
em que Liberdade fui chamada,
antes aurora brilhante
houve vácuo, mais nada,
daquela imagem altiva a sombra
se apagou
nem o eco, da solidão o amante,
guardou os meus passos, na poeira
desandados
- Infortúnio ou Liberdade
em dor também me vi envolto
passou como um vendaval
destruiu, arrancou,
renasci sem o riso
insensível ao pranto
e, com uma estrela
incrustada no peito
me fiz poeta do esquecimento
Como a fênix
das cinzas renascida
esbocei levantar-me do desespero
tentando esquecer as mãos que se estenderam
para apagar as minhas estrelas
As minhas asas
dilatadas
se enfunavam de sonho e fantasia
e no alto do meu horizonte
um rosto vagava, diluído
Eras tu Liberdade,
a pomba órfã
voluntária e sozinha
voando contra o Levante,
as esquecidas asas
não voavam em meu caminho
e o vento, meu irmão,
aprendeu a criar sombras e
nuvens de não ver
- E eu que queria uma luz acender
no ventre das estrelas
enlouquecidas de sombras
contentei-me em apagar a chama
que por meu nome o peito ardia
Cimentada nos meus passos
trago viva a esperança
de no galope azul do vento
nos quatro cantos do mundo
o meu nome ecoar .
Invadindo os teus olhos
percebi a antiga chama
e no gemido guardado
e nunca soluçado nas tuas mãos
de poeta
aninho a esperança de brilhar
a minha luz
- Sim, eu sei, tu descobriste
o meu grito
de vinte e quatro sóis
amanhecidos no peito
acesos no meu caminho
um grito coagulado
na fuga desperto
e debruçada nos meus olhos
caminhaste o filho da noite
inteiro
Vinte e quatro sóis
acesos dentro de mim
um grito assassinado
no peito
deflorando o sono da fuga
nas imaturas distâncias
onde perdido deixei
o cântaro último da fé
Penetrando nos meus olhos
violentaste o aviso
da proibida entrada
perambulando
como se fosse quarta-feira
e colhendo
numa primavera de sonhos
nos jardins do que fui
vinte e quatro sóis azuis
que sem saber
p´ra você eu guardei
Na avenida de cantos
renasceste do meu peito no teu mundo
pisando as pedras do meu caminho
e lançaste o pregão ao vento :
- Ele está renascido
estive lá dentro dele
e vi flores e prantos
e notas e dores
e cantos
nos recantos escondidos
de não mostrar a ninguém
fui estranha em ruelas sem passado
conseguindo o norte encontrar
depois de caminhos tantos
- Sim, eu sei, tu descobriste
o grito há tanto escondido
Nasci em tempo de festival
meu mundo incompreendido
tem notas que são espinhos
tem flores embrutecidas
rebentadas no meu peito
tem cantos são sentidos
que às vezes eu mesmo sinto
ter tão estranho nascido
- Estranho, nasceste sim
estranho cantor eu sei
na estranheza do teu canto
existe um outro encanto
embora não saibas qual seja
é o encanto das flores mutiladas
na fronteira dos teus olhos
é a fuga dos teus lenços
num cais já vazio
é o grito acorrentado
no alagado do teu peito
O teu encanto é o gemido guardado
e nunca soluçado
nas tuas mãos de poeta !
- Sim, eu sei, tu descobriste
o meu grito
de vinte e quatro sóis
amanhecidos no peito,
e sei que nos limites
do que sou
ou nas amarras do meu verso
como pomba artesã
na minha lira te encontro
- Poeta, o meu nome é infortúnio
somos pó na mesma estrada
e nem assim nos encontramos
somos água de um só rio
que não corre o mesmo leito
no teu peito a esperança
é terra já amanhada
no meu corre a solidão
na roca do meu sonhar
- Teu suspiro não assino
nem teu pranto faço meu
no tear da esperança
há um riso que se alcança
quando o linho dá um nó
há um vento que levanta
do passado o areal
e um sol que o sepulta
quando o fuso entristecido
faz da curva o seu caminho
- A esperança rebentada no meu peito
poeta
é uma flor desesperada,
traz no seio o escarlate
das visões de fome e guerra,
nas veias abertas o choro
de crianças abandonadas
das farpas que me protegem
emanam dores e gritos
não há roca nem esperança
p´ra quem vive de amanhar
choro, dor, lamento e pranto
- Infortúnio, Infortúnio,
não há poço sem um fundo
nem túnel sem uma luz
a corda não é sempre
do enforcado o colar
nem a semente fenece
sem antes dela brotar
o fruto, a flor e a sombra
e mesmo nas mãos vermelhas
das abelhas lívidas
há um néctar
de esperança a ser sugado
- Poeta ! sonhas e deliras
quando esperanças alardeia
desespero é o cavalo
ao qual me encilhei
as abelhas de que falas
aninhadas se encontram
no ventre das minhas aranhas
minhas flores enlouquecidas
giram ao redor de um fuso
sem linha no meu tear
- Donde vens Infortúnio !
onde as sombras
que te abrigam
- Venho de longe e de perto
do tempo sou viajante
nas canaletas da dor
fui Sabra, Chatilla,
Treblinka, Sorbibor
Quem me viu Sabra
conhece o amontoado das minhas
fugas
e a profundidade da angústia
revelada na aspereza dos meus
cactos
mas sabia quanto eu era terna
e doce
Quem me conheceu Chatilla
sabia-me flor nascida em lodo,
de mãos desarmadas,
e vivendo como uma rosa
pelo espaço de uma manhã
Quando Sabra e Chatilla fui
tive os braços levantados
e os gestos inconclusos
e me vejo ainda nas flores
rebentadas
no peito daquelas mulheres
Não procures Poeta
o insondável com teu verso desvendar
somos do mesmo caminho as
pedras
e nem assim nos conhecemos
somos da mesma luz a cor
e nem assim tu me iluminas
- Infortúnio, Infortúnio !
há mil anos nossas palavras são sussurradas
e encalacradas ao peito
sem ouvidos a ouvi-las
e dizer que a tua voz me é conhecida
como a serra que me teve em berço,
e dizer que sei teu nome
embora de Infortúnio não a chamasse
nos meus sonhos, rota e triste
te chamava Liberdade ... Liberdade
- Morto o tempo Poeta
em que Liberdade fui chamada,
antes aurora brilhante
houve vácuo, mais nada,
daquela imagem altiva a sombra
se apagou
nem o eco, da solidão o amante,
guardou os meus passos, na poeira
desandados
- Infortúnio ou Liberdade
em dor também me vi envolto
passou como um vendaval
destruiu, arrancou,
renasci sem o riso
insensível ao pranto
e, com uma estrela
incrustada no peito
me fiz poeta do esquecimento
Como a fênix
das cinzas renascida
esbocei levantar-me do desespero
tentando esquecer as mãos que se estenderam
para apagar as minhas estrelas
As minhas asas
dilatadas
se enfunavam de sonho e fantasia
e no alto do meu horizonte
um rosto vagava, diluído
Eras tu Liberdade,
a pomba órfã
voluntária e sozinha
voando contra o Levante,
as esquecidas asas
não voavam em meu caminho
e o vento, meu irmão,
aprendeu a criar sombras e
nuvens de não ver
- E eu que queria uma luz acender
no ventre das estrelas
enlouquecidas de sombras
contentei-me em apagar a chama
que por meu nome o peito ardia
Cimentada nos meus passos
trago viva a esperança
de no galope azul do vento
nos quatro cantos do mundo
o meu nome ecoar .
Invadindo os teus olhos
percebi a antiga chama
e no gemido guardado
e nunca soluçado nas tuas mãos
de poeta
aninho a esperança de brilhar
a minha luz
- Sim, eu sei, tu descobriste
o meu grito
de vinte e quatro sóis
amanhecidos no peito
1 142
Sá Júnior
Cinema Transcendental
Estou à janela
do fim de ano
pela enésima vez.
Meu coração dispara,
pensa coisas felizes.
O mundo passa
de mãos dadas com a justiça e a verdade.
Os homens irmanaram-se
num ritual de procura e discernimento.
Em toda parte,
distribuem-se abraços
a todos sem a menor distinção.
Sorrio com prazer
às pessoas com quem encontro,
e trocamos sinceras palavras
de ânimo e de graça.
Nossos anseios se encontram
e nossos gestos se completam,
num natural compromisso
de jamais querer tapear alguém.
Presencio a enésima
passagem de ano.
E mais uma vez
assisto
a esse filme tão distante...
do fim de ano
pela enésima vez.
Meu coração dispara,
pensa coisas felizes.
O mundo passa
de mãos dadas com a justiça e a verdade.
Os homens irmanaram-se
num ritual de procura e discernimento.
Em toda parte,
distribuem-se abraços
a todos sem a menor distinção.
Sorrio com prazer
às pessoas com quem encontro,
e trocamos sinceras palavras
de ânimo e de graça.
Nossos anseios se encontram
e nossos gestos se completam,
num natural compromisso
de jamais querer tapear alguém.
Presencio a enésima
passagem de ano.
E mais uma vez
assisto
a esse filme tão distante...
762
Ruy Pereira e Alvim
Cada esperança é uma estrela
Com um gesto
ou um risco
muda a geografia
muda o leito do rio
e o destino é cisco
que flutua
nas águas represadas.
Não grito nem resisto.
Minha voz cansada
flutua no ar,
abafada
pela multidão
solidária
que me devolve a solidão
das noites sem destino.
No meu universo de exilados
cada esperança é uma estrela
solitária
que precede os três Reis Magos.
ou um risco
muda a geografia
muda o leito do rio
e o destino é cisco
que flutua
nas águas represadas.
Não grito nem resisto.
Minha voz cansada
flutua no ar,
abafada
pela multidão
solidária
que me devolve a solidão
das noites sem destino.
No meu universo de exilados
cada esperança é uma estrela
solitária
que precede os três Reis Magos.
885
Renato Russo
Natália
Vamos falar de pesticidas
E de tragédias radioativas
De doenças incuráveis
Vamos falar de sua vida
Preste atenção ao que eles dizem
Ter esperança é hipocrisia
A felicidade é uma mentira
E a mentira é a salvação
Beba desse sangue imundo
E você conseguirá dinheiro
E quando o circo pega fogo
Somos os animais na jaula
Mas você só quer algodão-doce
Não confunda ética com éter
Quando penso em você eu tenho febre
Mas quem sabe um dia eu escrevo
Uma canção pra você
É complicado estar só
Quem está sozinho que o diga
Quando a tristeza é sempre o ponto de partida
Quanto tudo é solidão
É preciso acreditar num novo dia
Na nossa grande geração perdida
Nos meninos e meninas
Nos trevos de uqtro folhas
A escuridão ainda é pior que essa luz cinza
Mas estamos vivos ainda
E quem sabe um dia
Eu escrervo uma canção pra você
E de tragédias radioativas
De doenças incuráveis
Vamos falar de sua vida
Preste atenção ao que eles dizem
Ter esperança é hipocrisia
A felicidade é uma mentira
E a mentira é a salvação
Beba desse sangue imundo
E você conseguirá dinheiro
E quando o circo pega fogo
Somos os animais na jaula
Mas você só quer algodão-doce
Não confunda ética com éter
Quando penso em você eu tenho febre
Mas quem sabe um dia eu escrevo
Uma canção pra você
É complicado estar só
Quem está sozinho que o diga
Quando a tristeza é sempre o ponto de partida
Quanto tudo é solidão
É preciso acreditar num novo dia
Na nossa grande geração perdida
Nos meninos e meninas
Nos trevos de uqtro folhas
A escuridão ainda é pior que essa luz cinza
Mas estamos vivos ainda
E quem sabe um dia
Eu escrervo uma canção pra você
1 232
Ruy Pereira e Alvim
Despertar
Sonhei com barcos
e velas
navegando no meu quarto.
Em cada vela a promessa
de novos sonhos
no mar...
e velas
navegando no meu quarto.
Em cada vela a promessa
de novos sonhos
no mar...
1 042
Renato Russo
Quando o sol bater na janela do seu quarto
Quando o sol bater na janela do seu quarto
Lembra e vê que o caminho é um só
Porque esperar se podemos começar tudo de novo
Agora mesmo
A humanidade é desumana
Mas ainda temos chance
O sol nasce pra todos
Só não sabe quem não quer
Quando o sol bater na janela do seu quarto
Lembra e vê que o caminho é um só
Até bem pouco tempo atrás
Poderíamos mudar o mundo
Quem roubou nossa coragem ?
Tudo é dor
E toda dor vem do desejo
De não sentirmos dor
Quando o sol bater na janela do seu quarto
Lembra e vê que o caminho é um só
Lembra e vê que o caminho é um só
Porque esperar se podemos começar tudo de novo
Agora mesmo
A humanidade é desumana
Mas ainda temos chance
O sol nasce pra todos
Só não sabe quem não quer
Quando o sol bater na janela do seu quarto
Lembra e vê que o caminho é um só
Até bem pouco tempo atrás
Poderíamos mudar o mundo
Quem roubou nossa coragem ?
Tudo é dor
E toda dor vem do desejo
De não sentirmos dor
Quando o sol bater na janela do seu quarto
Lembra e vê que o caminho é um só
1 629
Renato Russo
Tempo perdido
Todos os dias quando acordo,
Não tenho mais o tempo que passou
Mas tenho muito tempo:
Temos todo o tempo do mundo.
Todos os dias antes de dormir,
Lembro e esqueço como foi o dia:
"Sempre em frente,
Não temos tempo a perder".
Nosso suor sagrado
É bem mais belo que esse sangue amargo
E tão sério
E selvagem.
Veja o sol dessa manhã tão cinza:
A tempestade que chega é da cor dos teus olhos castanhos.
Então me abraça forte e me diz mais uma vez
Que já estamos distantes de tudo:
Temos nosso próprio tempo.
Não tenho medo do escuro, mas deixe as luzes acesas agora.
O que foi escondido é o que se escondeu
E o que foi prometido, ninguém prometeu.
Nem foi tempo perdido;
Somos tão jovens.
Não tenho mais o tempo que passou
Mas tenho muito tempo:
Temos todo o tempo do mundo.
Todos os dias antes de dormir,
Lembro e esqueço como foi o dia:
"Sempre em frente,
Não temos tempo a perder".
Nosso suor sagrado
É bem mais belo que esse sangue amargo
E tão sério
E selvagem.
Veja o sol dessa manhã tão cinza:
A tempestade que chega é da cor dos teus olhos castanhos.
Então me abraça forte e me diz mais uma vez
Que já estamos distantes de tudo:
Temos nosso próprio tempo.
Não tenho medo do escuro, mas deixe as luzes acesas agora.
O que foi escondido é o que se escondeu
E o que foi prometido, ninguém prometeu.
Nem foi tempo perdido;
Somos tão jovens.
2 325
Renato Russo
Perfeição
1
Vamos celebrar a estupidez humana
A estupidez de todas as nações
O meu país com sua corja de assassinos
Covardes, estupradores e ladrões
Vamos celebrar a estupidez do povo
Nossa política e televisão
Vamos celebrar nosso governo
E nosso Estado que não é nação
Celebrar a juventude sem escola
As crianças mortas
Celebrar nossa desunião
Vamos celebrar Eros e Thanatos
Persephone e Hades
Vamos celebrar nossa tristeza
Vamos celebrar nossa vaidade
2
Vamos comemorar como idiotas
A cada fevereiro e feriado
Todos os mortos nas estradas
Os mortos por falta de hospitais
Vamos celebrar nossa justiça
A ganância e a difamação
Vamos celebrar os preconceitos
O voto dos analfabetos
Comemorar a água podre
E todos os impostos
Queimadas, mentiras e sequestros
Nosso castelo de cartas marcadas
O trabalho escravo
Nosso pequeno universo
Toda hipocrisia e toda a afetação
Todo roubo e toda indiferença
Vamos celebrar epidemias:
É a festa da torcida campeã
3
Vamos celebrar a fome
Não ter a quem ouvir
Não se ter a quem amar
Vamos alimentar o que é maldade
Vamos machucar um coração
Vamos celebrar nossa bandeira
Nosso passado de absurdos gloriosos
Tudo o que é gratuito e feio
Tudo que é normal
Vamos cantar juntos o Hino Nacional
( A lágrima é verdadeira )
Vamos celebrar nossa saudade
E comemorar a nossa solidão
4
Vamos festejar a inveja
A intolerância e a incompreensão
Vamos festejar a violência
E esquecer a nossa gente
Que trabalhou honestamente a vida inteira
E agora não tem mais direito a nada
Vamos celebrar a aberração
De toda a nossa falta de bom senso
Nosso descaso por educação
Vamos celebrar o horror
De tudo isso - com festa, velório e caixão
Está tudo morto e enterrado agora
Já que também podemos celebrar
A estupidez de quem cantou esta canção
5
Venha, meu coração está com pressa
Quando a esperança está dispersa
Só a verdade me liberta
Chega de maldade e ilusão
Venha, o amor tem sempre a porta aberta
E vem chegando a primavera
Nosso futuro recomeça
Venha, que o que tem é perfeição
Vamos celebrar a estupidez humana
A estupidez de todas as nações
O meu país com sua corja de assassinos
Covardes, estupradores e ladrões
Vamos celebrar a estupidez do povo
Nossa política e televisão
Vamos celebrar nosso governo
E nosso Estado que não é nação
Celebrar a juventude sem escola
As crianças mortas
Celebrar nossa desunião
Vamos celebrar Eros e Thanatos
Persephone e Hades
Vamos celebrar nossa tristeza
Vamos celebrar nossa vaidade
2
Vamos comemorar como idiotas
A cada fevereiro e feriado
Todos os mortos nas estradas
Os mortos por falta de hospitais
Vamos celebrar nossa justiça
A ganância e a difamação
Vamos celebrar os preconceitos
O voto dos analfabetos
Comemorar a água podre
E todos os impostos
Queimadas, mentiras e sequestros
Nosso castelo de cartas marcadas
O trabalho escravo
Nosso pequeno universo
Toda hipocrisia e toda a afetação
Todo roubo e toda indiferença
Vamos celebrar epidemias:
É a festa da torcida campeã
3
Vamos celebrar a fome
Não ter a quem ouvir
Não se ter a quem amar
Vamos alimentar o que é maldade
Vamos machucar um coração
Vamos celebrar nossa bandeira
Nosso passado de absurdos gloriosos
Tudo o que é gratuito e feio
Tudo que é normal
Vamos cantar juntos o Hino Nacional
( A lágrima é verdadeira )
Vamos celebrar nossa saudade
E comemorar a nossa solidão
4
Vamos festejar a inveja
A intolerância e a incompreensão
Vamos festejar a violência
E esquecer a nossa gente
Que trabalhou honestamente a vida inteira
E agora não tem mais direito a nada
Vamos celebrar a aberração
De toda a nossa falta de bom senso
Nosso descaso por educação
Vamos celebrar o horror
De tudo isso - com festa, velório e caixão
Está tudo morto e enterrado agora
Já que também podemos celebrar
A estupidez de quem cantou esta canção
5
Venha, meu coração está com pressa
Quando a esperança está dispersa
Só a verdade me liberta
Chega de maldade e ilusão
Venha, o amor tem sempre a porta aberta
E vem chegando a primavera
Nosso futuro recomeça
Venha, que o que tem é perfeição
1 633
Renato Russo
Um dia perfeito
Quase morri
Há menos de trinta e duas horas atrás
Hoje a gente fica na varanda
Um dia perfeito com as crianças
São as pequenas coisas que valem mais
É tão bom estarmos juntos
E tão simples: um dia perfeito
Corre corre corre
Que vai chover
Olha a chuva !
Não vou me deixar embrutecer
Eu acredito nos meus ideais
Podem até maltratar meu coração
Que meu espírito
Ninguém vai conseguir quebrar
Há menos de trinta e duas horas atrás
Hoje a gente fica na varanda
Um dia perfeito com as crianças
São as pequenas coisas que valem mais
É tão bom estarmos juntos
E tão simples: um dia perfeito
Corre corre corre
Que vai chover
Olha a chuva !
Não vou me deixar embrutecer
Eu acredito nos meus ideais
Podem até maltratar meu coração
Que meu espírito
Ninguém vai conseguir quebrar
1 296
Roberto Pontes
E O Verbo Se Fez Carne
por Margarida Maria Moreira Rodrigues
Verbalizar é transformar o inexistente, o abstrato e o vago em matéria viva e pulsante. Não foi dessa forma que Deus criou o mundo e os homens? O homem é linguagem. É preciso atribuir sentido ao desconhecido e angustiante mundo que o abarca e, ao mesmo tempo, o liberta. Como bem assinalou Wilhelm von Humboldt: "O homem vive com seus objetos relação fundamental, tal como a linguagem lhos apresenta, pois nele o sentir e o atuar dependem de suas representações."
A poesia não é nada senão uma das tantas tentativas desesperadas de ordenar e significar o mundo. Nos versos de Verbo Encarnado, podemos vislumbrar essa tentativa desesperada de compreender o homem e o mundo:
Que sentido tem o céu?
Tingir os olhos de azul.
Deixar voar qualquer asa.
[...]
Que sentido tem o homem?
[...]
Homem, o homem terá sentido?
(VE, p. 41)
No entanto, o Verbo não se limita apenas a construir uma semântica da vida. Ele também se torna um eficaz instrumento de denúncia, uma arma que tem por objetivo o lançar-se e ferir as consciências:
A palavra há de trazer
o peso do chumbo
a quentura
a explosão do peito
enquanto o amor
não for reconhecido.
(VE, p. 21)
A poesia de Roberto Pontes vergasta e acalenta. A leitura de cada verso perpassa paradoxalmente o desconforto e o consolo. Há uma crítica mordaz a todo tipo de opressão e de miséria. Quando o poeta se apropria da gemedeira – forma popular nordestina – é evidente que sua intenção além de valorizar a cultura do Nordeste – é a de colocar em foco a condição miserável das vendedoras de flores do Ceará. Assim, a gemedeira representa a dor e o sofrimento dessas mulheres. E o que aparece de mais belo no lamento da florista é a maneira como seu trabalho é descrito:
Florista fabrica flores
e seu ritual de rua
é um bailado sem som
um triste cantar de loa...
(VE, p. 31)
A poesia oferece ao leitor a imagem triste dessas singulares mulheres que são tão frágeis e belas quanto as flores que produzem. Nesse momento, a sensação de desconforto é inevitável: o leitor não consegue permanecer isento de certa culpa. Entretanto, logo em seguida, após a chamada de consciência para os problemas sociais, o poeta vem afagar e consolar o leitor, porque o sonho ainda é possível: "o amanhã é sempre diferente" (VE, p. 55):
Não desesperes nunca.
A vida é asssim mesmo.
Um dia para a dor
Um outro pra esperança.
(VE, p. 55)
O poeta acredita que o mundo possa renascer, mas, antes de tudo, deve "merecer o flagelo". Somente a dor é capaz de libertar o homem dos mecanismos de opressão que ele próprio constrói. Para isso importa desconstruir o mundo para reconstruí-lo, de tal modo, que o homem, em sua breve existência reconheça a relevância de transformar a sociedade, a fim de que a felicidade não seja somente privilégio de poucos que detêm o poder pelo poder – como nos admoesta Aristóteles – e sim patrimônio dos corações mais puros e das inteligências mais brilhantes.
MARGARIDA MARIA MOREIRA RODRIGUES é do Curso de Letras
da Universidade do Estado do Rio de Janeiro–UERJ. Participa do
Núcleo de Literatura Comparada e colabora no jornal Comunicando
do Instituto de Letras da mesma Instituição.
Verbalizar é transformar o inexistente, o abstrato e o vago em matéria viva e pulsante. Não foi dessa forma que Deus criou o mundo e os homens? O homem é linguagem. É preciso atribuir sentido ao desconhecido e angustiante mundo que o abarca e, ao mesmo tempo, o liberta. Como bem assinalou Wilhelm von Humboldt: "O homem vive com seus objetos relação fundamental, tal como a linguagem lhos apresenta, pois nele o sentir e o atuar dependem de suas representações."
A poesia não é nada senão uma das tantas tentativas desesperadas de ordenar e significar o mundo. Nos versos de Verbo Encarnado, podemos vislumbrar essa tentativa desesperada de compreender o homem e o mundo:
Que sentido tem o céu?
Tingir os olhos de azul.
Deixar voar qualquer asa.
[...]
Que sentido tem o homem?
[...]
Homem, o homem terá sentido?
(VE, p. 41)
No entanto, o Verbo não se limita apenas a construir uma semântica da vida. Ele também se torna um eficaz instrumento de denúncia, uma arma que tem por objetivo o lançar-se e ferir as consciências:
A palavra há de trazer
o peso do chumbo
a quentura
a explosão do peito
enquanto o amor
não for reconhecido.
(VE, p. 21)
A poesia de Roberto Pontes vergasta e acalenta. A leitura de cada verso perpassa paradoxalmente o desconforto e o consolo. Há uma crítica mordaz a todo tipo de opressão e de miséria. Quando o poeta se apropria da gemedeira – forma popular nordestina – é evidente que sua intenção além de valorizar a cultura do Nordeste – é a de colocar em foco a condição miserável das vendedoras de flores do Ceará. Assim, a gemedeira representa a dor e o sofrimento dessas mulheres. E o que aparece de mais belo no lamento da florista é a maneira como seu trabalho é descrito:
Florista fabrica flores
e seu ritual de rua
é um bailado sem som
um triste cantar de loa...
(VE, p. 31)
A poesia oferece ao leitor a imagem triste dessas singulares mulheres que são tão frágeis e belas quanto as flores que produzem. Nesse momento, a sensação de desconforto é inevitável: o leitor não consegue permanecer isento de certa culpa. Entretanto, logo em seguida, após a chamada de consciência para os problemas sociais, o poeta vem afagar e consolar o leitor, porque o sonho ainda é possível: "o amanhã é sempre diferente" (VE, p. 55):
Não desesperes nunca.
A vida é asssim mesmo.
Um dia para a dor
Um outro pra esperança.
(VE, p. 55)
O poeta acredita que o mundo possa renascer, mas, antes de tudo, deve "merecer o flagelo". Somente a dor é capaz de libertar o homem dos mecanismos de opressão que ele próprio constrói. Para isso importa desconstruir o mundo para reconstruí-lo, de tal modo, que o homem, em sua breve existência reconheça a relevância de transformar a sociedade, a fim de que a felicidade não seja somente privilégio de poucos que detêm o poder pelo poder – como nos admoesta Aristóteles – e sim patrimônio dos corações mais puros e das inteligências mais brilhantes.
MARGARIDA MARIA MOREIRA RODRIGUES é do Curso de Letras
da Universidade do Estado do Rio de Janeiro–UERJ. Participa do
Núcleo de Literatura Comparada e colabora no jornal Comunicando
do Instituto de Letras da mesma Instituição.
1 443
Renata Trocoli
Teu Amor
Como uma luz aquecida e suave
Senti teu amor chegando para me presentear.
Teus olhos transmitem carinho.
Tua boca me fala de mansinho
tudo que eu sempre quis escutar.
Tuas m2os me tocam com ternura,
meu rosto, meus cabelos, minhas m2os.
Teu doce beijo acaricia meus l5bios
com teus olhos fixos aos meus.
Esse amor 0 novo e puro.
Chegou devagar, me conquistou com ternura.
Tu me envolves com teus abraTos
apertados e amorosos.
E me enche de medo de perder-te ainda mais uma vez.
Perder teus carinhos,
teus olhares,
tua boca,
tuas palavras
e teu amor ...
Amor este que me renova a alma,
e me d5 esperanTas de viver alegre
e sonhando sempre com tua doce presenTa.
A vida nem sempre atende nossos pedidos
de amor e felicidade.
Mas peTo com todo coraT2o que ela me abenToe
com tua presenTa a meu lado sempre.
Me dando carinho e um amor t2o puro
e doce que sentimentos juntos dentro de nossos coraTes.
Este amor vem de longe,
vem do alto e 0 benT2o dos c0us.
+ perfeito e verdadeiro,
0 sentimento que n2o se sente por qualquer um,
que n2o brinca com o coraT2o
mas que envolve a alma e o corpo
como brisa suave e morna que sopra do mar.
Senti teu amor chegando para me presentear.
Teus olhos transmitem carinho.
Tua boca me fala de mansinho
tudo que eu sempre quis escutar.
Tuas m2os me tocam com ternura,
meu rosto, meus cabelos, minhas m2os.
Teu doce beijo acaricia meus l5bios
com teus olhos fixos aos meus.
Esse amor 0 novo e puro.
Chegou devagar, me conquistou com ternura.
Tu me envolves com teus abraTos
apertados e amorosos.
E me enche de medo de perder-te ainda mais uma vez.
Perder teus carinhos,
teus olhares,
tua boca,
tuas palavras
e teu amor ...
Amor este que me renova a alma,
e me d5 esperanTas de viver alegre
e sonhando sempre com tua doce presenTa.
A vida nem sempre atende nossos pedidos
de amor e felicidade.
Mas peTo com todo coraT2o que ela me abenToe
com tua presenTa a meu lado sempre.
Me dando carinho e um amor t2o puro
e doce que sentimentos juntos dentro de nossos coraTes.
Este amor vem de longe,
vem do alto e 0 benT2o dos c0us.
+ perfeito e verdadeiro,
0 sentimento que n2o se sente por qualquer um,
que n2o brinca com o coraT2o
mas que envolve a alma e o corpo
como brisa suave e morna que sopra do mar.
992
Antônio Rogério de Lima
Inverno
Saudando a manhã
cunhantã colhe no campo
a flor da suinã.
Menino solta o balão
Iansã leva sua esperança
pra Xangô São João
cunhantã colhe no campo
a flor da suinã.
Menino solta o balão
Iansã leva sua esperança
pra Xangô São João
951
Romulo Gouvêa
Eu estou aqui
Eu estou aqui
sentado, pensando
do mesmo jeito que antes
nas mesmas coisas que antes
eu ficava, eu pensava.
Do jeito que você deixou
mas com uma coisa diferente
a certeza de não estar doente
foi só isto que mudou.
Eu estou aqui
te amando, te observando
do mesmo jeito que antes
nas mesmas coisas que antes
eu te amava, eu te observava.
Da forma que você largou
nada nasce de repente
há muita coisa entre a gente
o meu amor aumentou.
Eu estou aqui
sentado, te amando,
pensando, te observando.
Esperando.
sentado, pensando
do mesmo jeito que antes
nas mesmas coisas que antes
eu ficava, eu pensava.
Do jeito que você deixou
mas com uma coisa diferente
a certeza de não estar doente
foi só isto que mudou.
Eu estou aqui
te amando, te observando
do mesmo jeito que antes
nas mesmas coisas que antes
eu te amava, eu te observava.
Da forma que você largou
nada nasce de repente
há muita coisa entre a gente
o meu amor aumentou.
Eu estou aqui
sentado, te amando,
pensando, te observando.
Esperando.
1 059
Renata Trocoli
Teu Amor
Teu Amor
Como uma luz aquecida e suave
Senti teu amor chegando para me presentear.
Teus olhos transmitem carinho.
Tua boca me fala de mansinho
tudo que eu sempre quis escutar.
Tuas mãos me tocam com ternura,
meu rosto, meus cabelos, minhas mãos.
Teu doce beijo acaricia meus lábios
com teus olhos fixos aos meus.
Esse amor é novo e puro.
Chegou devagar, me conquistou com ternura.
Tu me envolves com teus abraços
apertados e amorosos.
E me enche de medo de perder-te ainda mais uma vez.
Perder teus carinhos,
teus olhares,
tua boca,
tuas palavras
e teu amor ...
Amor este que me renova a alma,
e me dá esperanças de viver alegre
e sonhando sempre com tua doce presença.
A vida nem sempre atende nossos pedidos
de amor e felicidade.
Mas peço com todo coração que ela me abençoe
com tua presença a meu lado sempre.
Me dando carinho e um amor tão puro
e doce que sentimentos juntos dentro de nossos corações.
Este amor vem de longe,
vem do alto e é benção dos céus.
É perfeito e verdadeiro,
é sentimento que não se sente por qualquer um,
que não brinca com o coração
mas que envolve a alma e o corpo
como brisa suave e morna que sopra do mar.
Como uma luz aquecida e suave
Senti teu amor chegando para me presentear.
Teus olhos transmitem carinho.
Tua boca me fala de mansinho
tudo que eu sempre quis escutar.
Tuas mãos me tocam com ternura,
meu rosto, meus cabelos, minhas mãos.
Teu doce beijo acaricia meus lábios
com teus olhos fixos aos meus.
Esse amor é novo e puro.
Chegou devagar, me conquistou com ternura.
Tu me envolves com teus abraços
apertados e amorosos.
E me enche de medo de perder-te ainda mais uma vez.
Perder teus carinhos,
teus olhares,
tua boca,
tuas palavras
e teu amor ...
Amor este que me renova a alma,
e me dá esperanças de viver alegre
e sonhando sempre com tua doce presença.
A vida nem sempre atende nossos pedidos
de amor e felicidade.
Mas peço com todo coração que ela me abençoe
com tua presença a meu lado sempre.
Me dando carinho e um amor tão puro
e doce que sentimentos juntos dentro de nossos corações.
Este amor vem de longe,
vem do alto e é benção dos céus.
É perfeito e verdadeiro,
é sentimento que não se sente por qualquer um,
que não brinca com o coração
mas que envolve a alma e o corpo
como brisa suave e morna que sopra do mar.
949
Perillo Doliveira
Conselho
Se és triste, ergue para o alto a tua taça
e canta, pois cantando
farás com que o sofrer seja mais brando
e esquecerás, talvez, tua desgraça.
Se és infeliz, não chores. Ao contrário,
deves sorrir, porque, sorrindo,
verás teu sonho se tornar mais lindo,
mais amplo, iluminando o teu Calvário.
Se és só, procura amar sem interesse,
amar a tudo e a todos, sem egoísmo,
e encontrarás neste teu grande altruísmo
o fim da solidão que te entristece.
E, assim, na própria angústia que te invade,
na mesma dor que te crucia,
desvenderás, entre hinos de alegria,
o grande enigma da Felicidade.
e canta, pois cantando
farás com que o sofrer seja mais brando
e esquecerás, talvez, tua desgraça.
Se és infeliz, não chores. Ao contrário,
deves sorrir, porque, sorrindo,
verás teu sonho se tornar mais lindo,
mais amplo, iluminando o teu Calvário.
Se és só, procura amar sem interesse,
amar a tudo e a todos, sem egoísmo,
e encontrarás neste teu grande altruísmo
o fim da solidão que te entristece.
E, assim, na própria angústia que te invade,
na mesma dor que te crucia,
desvenderás, entre hinos de alegria,
o grande enigma da Felicidade.
913
Ona Gaia
Não sei qual a forma
Não sei qual a forma
da sorte que me aguarda
mas o desejo é tanto
que sem sonhar já canto
a matéria da minha visão.
da sorte que me aguarda
mas o desejo é tanto
que sem sonhar já canto
a matéria da minha visão.
782
Oliveira Roma
Avante!
Ao operário brasileiro
Operário, tem fé! Na oficina modesta
Em que vivo isolado e esquecido, moirejo,
Paciente mas tenaz, preso do alto desejo
De, como tu, ser bom e ter sempre a alma em festa.
Operário também, cheio de crença, nesta
Ânsia de progredir, humílimo, antevejo
A paz universal — o luminoso beijo
Em que o Infinito Amor, puro, se manifesta.
Não te causem vexame esses calos, que são
Em tuas mãos de herói, os emblemas fecundos
Do Labor, da Honradez e da Resignação.
Bendize o teu destino intenso, extraordinário.
Bendize-o porque Deus, arquitetando mundos,
Foi Ele — o próprio Deus — o primeiro operário.
Operário, tem fé! Na oficina modesta
Em que vivo isolado e esquecido, moirejo,
Paciente mas tenaz, preso do alto desejo
De, como tu, ser bom e ter sempre a alma em festa.
Operário também, cheio de crença, nesta
Ânsia de progredir, humílimo, antevejo
A paz universal — o luminoso beijo
Em que o Infinito Amor, puro, se manifesta.
Não te causem vexame esses calos, que são
Em tuas mãos de herói, os emblemas fecundos
Do Labor, da Honradez e da Resignação.
Bendize o teu destino intenso, extraordinário.
Bendize-o porque Deus, arquitetando mundos,
Foi Ele — o próprio Deus — o primeiro operário.
972
Ona Gaia
Evolução
As armas sangram açaí
de risos ariscos e roxos
mas na décima parte
de toda a vida
a ida não encontrará fim
porque se num dia foram muitos
na eterna abóbada celeste sim
pras estrelas só haverá um
mais poderoso que todos eles
quando tudo parecer perdido
quando tudo parecer nenhum.
de risos ariscos e roxos
mas na décima parte
de toda a vida
a ida não encontrará fim
porque se num dia foram muitos
na eterna abóbada celeste sim
pras estrelas só haverá um
mais poderoso que todos eles
quando tudo parecer perdido
quando tudo parecer nenhum.
841
Oddone Marsiaj
Haicai
Campos queimados
Voltarão o verde e
As borboletas?
Vento nas ilhas
Gaivotas sobre o mar
Imitam veleiros
Voltarão o verde e
As borboletas?
Vento nas ilhas
Gaivotas sobre o mar
Imitam veleiros
1 063
Marco Valadares
Nossos Caminhos Pela Vida
Eu não saberia da vida
Muito que dela aprendi
Se por caminhos passados
Passasse por longe de ti
E nesses caminhos vividos...
Com amor, mágoa e paixão
Certas vezes eu era sozinho
Mas longe da solidão
Pois solidão é nunca ter tido
Nada pra pensar ou sentir
Mas desde que te conheço
Não me conheço longe de ti
E nesse novo caminho que estamos
Ando com muito cuidado
Pois estou tendo que aprender
A não andar mais do teu lado
Mas quero ter sempre em mente
Que isso é coisa passageira
Pois quero viver novamente
Daquela velha maneira
Como quando numa praia deserta
Ficamos juntos por dez dias
Dias de amor, carinho, amizade,
E um sentimento que crescia
Ou mesmo de um carnaval
Que muitas tristezas senti
Mas quando voltamos pra casa
Podia estar perto de ti
Queria muito me desculpar
Por aquele nosso passado
Mas é de se compreender
Pelo caminho que começou errado
E a vida que desejávamos
Lhe digo com muito amor
Que está mais perto do que pensas
Se reconhecer nosso valor
Pois a tua falta pra mim
Faz com que viver pareça
Semanas durarem anos
E faz, com isso, que eu cresça
Faz com que eu me arrependa
Da liberdade que não lhe dei
Mas foi tão inconsciente
Que fui eu quem me aprisionei
Tanto que não lhe devo desculpas
Pois me sinto em igual situação
Mas devo com muita esperança
Propor-lhe uma solução
De que nossas pegadas na areia
Pelos caminhos que passamos
Não sejam jamais esquecidas
Pra não esquecermos que erramos
Mas que sejam deixadas expostas
Nossas pegadas na vida
Para que o vento possa fechá-las
Fechando nossas feridas
E, nesse dia, finalmente
No meu ombro se deitarás
Como era antigamente
E não deixará de ser mais...
Muito que dela aprendi
Se por caminhos passados
Passasse por longe de ti
E nesses caminhos vividos...
Com amor, mágoa e paixão
Certas vezes eu era sozinho
Mas longe da solidão
Pois solidão é nunca ter tido
Nada pra pensar ou sentir
Mas desde que te conheço
Não me conheço longe de ti
E nesse novo caminho que estamos
Ando com muito cuidado
Pois estou tendo que aprender
A não andar mais do teu lado
Mas quero ter sempre em mente
Que isso é coisa passageira
Pois quero viver novamente
Daquela velha maneira
Como quando numa praia deserta
Ficamos juntos por dez dias
Dias de amor, carinho, amizade,
E um sentimento que crescia
Ou mesmo de um carnaval
Que muitas tristezas senti
Mas quando voltamos pra casa
Podia estar perto de ti
Queria muito me desculpar
Por aquele nosso passado
Mas é de se compreender
Pelo caminho que começou errado
E a vida que desejávamos
Lhe digo com muito amor
Que está mais perto do que pensas
Se reconhecer nosso valor
Pois a tua falta pra mim
Faz com que viver pareça
Semanas durarem anos
E faz, com isso, que eu cresça
Faz com que eu me arrependa
Da liberdade que não lhe dei
Mas foi tão inconsciente
Que fui eu quem me aprisionei
Tanto que não lhe devo desculpas
Pois me sinto em igual situação
Mas devo com muita esperança
Propor-lhe uma solução
De que nossas pegadas na areia
Pelos caminhos que passamos
Não sejam jamais esquecidas
Pra não esquecermos que erramos
Mas que sejam deixadas expostas
Nossas pegadas na vida
Para que o vento possa fechá-las
Fechando nossas feridas
E, nesse dia, finalmente
No meu ombro se deitarás
Como era antigamente
E não deixará de ser mais...
354
Joaquim Namorado
ARS
Os muros brancos da indiferença
desafiam os pintores
a pintar neles a esperança
amarelos sóis girando
roxos violetas azuis
gente animais árvores flores
como há e não há inventados
largas janelas abertas
para a vida e para o sonho
vermelhos entusiasmos
castanhos terra serenos
verdes e verdes terrenos
de horizontes rasgados
onde caibam os países
e os continentes e os mares ainda por descobrir
e o homem caiba inteiro
na verdadeira grandeza
em profundas perspectivas
tudo o que é grande e pequeno
dos outros o que a nós pertence
de nós o que a todos damos
a noite intensa povoada de sóis
que outros dias iluminam
a esperança neles pintada
a Paz o Pão o Amor.
E nas mansardas escuras
com os brancos muros em frente
da gelada indiferença
os artistas febris
esboçam em traços difusos
a própria morte do sonho.
Mas já na sombra da sombra
que sobre os brancos muros se estende
O coro das carpideiras
tece flores de retórica
para coroar-lhes as caveiras
e os conservadores misantropos
dos museus do que já foi
fazem o espólio das artes
com requintes de molduras.
Nos muros brancos da indiferença
gela o frio esquecimento…
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
desafiam os pintores
a pintar neles a esperança
amarelos sóis girando
roxos violetas azuis
gente animais árvores flores
como há e não há inventados
largas janelas abertas
para a vida e para o sonho
vermelhos entusiasmos
castanhos terra serenos
verdes e verdes terrenos
de horizontes rasgados
onde caibam os países
e os continentes e os mares ainda por descobrir
e o homem caiba inteiro
na verdadeira grandeza
em profundas perspectivas
tudo o que é grande e pequeno
dos outros o que a nós pertence
de nós o que a todos damos
a noite intensa povoada de sóis
que outros dias iluminam
a esperança neles pintada
a Paz o Pão o Amor.
E nas mansardas escuras
com os brancos muros em frente
da gelada indiferença
os artistas febris
esboçam em traços difusos
a própria morte do sonho.
Mas já na sombra da sombra
que sobre os brancos muros se estende
O coro das carpideiras
tece flores de retórica
para coroar-lhes as caveiras
e os conservadores misantropos
dos museus do que já foi
fazem o espólio das artes
com requintes de molduras.
Nos muros brancos da indiferença
gela o frio esquecimento…
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
1 896
Gerardo Mello Mourão
Digo o que vi — pois vi os anjos
Digo o que vi — pois vi os anjos
montados no lombo das poldras azuis
galopando nos potreiros ao redor da cidade — e digo
o que ouvi —
pois ouvi dizer que as deusas moribundas
voltavam à adolescência no crepúsculo
e se entregavam aos anjos
no lombo das poldras azuis
e muitas outras coisas sei
de ver e de ouvir dizer
sobre anjos e deuses
alguns deuses:
subi à montante do rio dos jaguares
no dorso dos crocodilos e achei
a nascente das águas — e escanchado
no espinhado dos sáurios
passei a divisa das águas — perguntei
todos os caminhos do mar
ao abismo à espuma à latitude
e à longitude — pois habitei
minha própria lonjura
e meu álibi:
a corrente das águas carregando
a imagem de meu rosto por onde
a figura se configura — pois habito
meus próprios álibis:
ali estou onde desejo estar — e desejo
o caminho de teus rastros onde
confinado e livre
confino o mundo — pois o prisioneiro
engenha a liberdade —
engenheiro
do dia e da noite
aloeste a sudeste a nornordeste
e quem queira encontrar-me há de seguir
a rota dos abismos — pois
incola do abismo — o abismo
é meu porto e minha pátria
ego poeta cidadão do abismo
pois mordi, Apolo, a fruta de teu nome
e, conheci o sal e o mel e o vinagre e a pimenta
da palavra — o sangue
dos seres e das coisas e seu vinho e sou
o bêbado dos abismos onde
veraneio os meses entre
demônios cartomantes:
— um moço louro a traição periga há uns
papéis confusos longas viagens dinheiros
curtos a mulher morena em lágrimas uma solteira
uma casada e lágrimas pela porta da rua
outra mulher mais outra
empalidece e treme o valete de espadas
uma ruiva pela porta da. rua por onde as já
citadas lágrimas risco de morte uma herança uma estrela
seus astres e desastres:
— "embaralhe o baralho" — e a mão astuta
arqueava as cartas e embaralhava os naipes
descia
ao abismo de seus signos cercado
de profecias por todos os lados
pois enxergava sempre a musa ali
e o coração estremecia aos olhos
da pythia alcovitada — e às vezes
fulgurei em seus olhos e em meus olhos
conheci minha verônica
— pois o que sei de mim
sei por uma sibila, pelas cartomantes
pelas ciganas rastreando as linhas
de minha mão
e o que sei do mundo
é o que sei de mim pelos profetas
é o que sei de mim
por ouvir dizer
é o que sei dos defuntos
na lívida escritura de seus rostos hirtos
entre cravos e rosas quando
meus olhos se agoniam sobre
seus pergaminhos — entre
o hieróglifo de seus dedos rúnicos
e o silêncio pulcro de seus lábios rupestres
Mas um dia rompo o meu silêncio — e as rosas
começam a cair de minha boca
as rosas e as estrelas
e os circunstantes atônitos
me tiram reverentes o chapéu
e dobram os joelhos e me beijam os pés
e quando se erguem
escarnecem de mim e de si mesmos
pois já não se vê mais
que a poeira de um rastro
a aparição e a desaparição — e as rosas
voltam a fechar-se em seus botões de silêncio diante
das estejas apagadas pelo sopro do vento
e sou apenas o que fui — e fui
apenas o que serei na boca dos profetas
dos contadores de lendas
eterno
toda vez que as cartomantes inventem
ao olhar de uma trêmula mulher
o perigo de um príncipe a caminho
e na palma da mão entre o monte de Vênus
e a linha do destino — o presságio
de meu nome alegrará um coração que espera
a chegada da esperança.
Não sou — já fui
não fui — serei
serei o que teria sido
num país que carrego nas pupilas
ego, poeta, Pigafetta
meus olhos pisam meu chão
e caminho pisando os próprios olhos
meus pés escrevem no celeste espaço
com o coruscante stil nuovo
do pentestrelo
minha bitácora — pois escrivão
de Capricórnio tenho por nome
meu pseudônimo
—Caramuru
ou Monteverde? —
montados no lombo das poldras azuis
galopando nos potreiros ao redor da cidade — e digo
o que ouvi —
pois ouvi dizer que as deusas moribundas
voltavam à adolescência no crepúsculo
e se entregavam aos anjos
no lombo das poldras azuis
e muitas outras coisas sei
de ver e de ouvir dizer
sobre anjos e deuses
alguns deuses:
subi à montante do rio dos jaguares
no dorso dos crocodilos e achei
a nascente das águas — e escanchado
no espinhado dos sáurios
passei a divisa das águas — perguntei
todos os caminhos do mar
ao abismo à espuma à latitude
e à longitude — pois habitei
minha própria lonjura
e meu álibi:
a corrente das águas carregando
a imagem de meu rosto por onde
a figura se configura — pois habito
meus próprios álibis:
ali estou onde desejo estar — e desejo
o caminho de teus rastros onde
confinado e livre
confino o mundo — pois o prisioneiro
engenha a liberdade —
engenheiro
do dia e da noite
aloeste a sudeste a nornordeste
e quem queira encontrar-me há de seguir
a rota dos abismos — pois
incola do abismo — o abismo
é meu porto e minha pátria
ego poeta cidadão do abismo
pois mordi, Apolo, a fruta de teu nome
e, conheci o sal e o mel e o vinagre e a pimenta
da palavra — o sangue
dos seres e das coisas e seu vinho e sou
o bêbado dos abismos onde
veraneio os meses entre
demônios cartomantes:
— um moço louro a traição periga há uns
papéis confusos longas viagens dinheiros
curtos a mulher morena em lágrimas uma solteira
uma casada e lágrimas pela porta da rua
outra mulher mais outra
empalidece e treme o valete de espadas
uma ruiva pela porta da. rua por onde as já
citadas lágrimas risco de morte uma herança uma estrela
seus astres e desastres:
— "embaralhe o baralho" — e a mão astuta
arqueava as cartas e embaralhava os naipes
descia
ao abismo de seus signos cercado
de profecias por todos os lados
pois enxergava sempre a musa ali
e o coração estremecia aos olhos
da pythia alcovitada — e às vezes
fulgurei em seus olhos e em meus olhos
conheci minha verônica
— pois o que sei de mim
sei por uma sibila, pelas cartomantes
pelas ciganas rastreando as linhas
de minha mão
e o que sei do mundo
é o que sei de mim pelos profetas
é o que sei de mim
por ouvir dizer
é o que sei dos defuntos
na lívida escritura de seus rostos hirtos
entre cravos e rosas quando
meus olhos se agoniam sobre
seus pergaminhos — entre
o hieróglifo de seus dedos rúnicos
e o silêncio pulcro de seus lábios rupestres
Mas um dia rompo o meu silêncio — e as rosas
começam a cair de minha boca
as rosas e as estrelas
e os circunstantes atônitos
me tiram reverentes o chapéu
e dobram os joelhos e me beijam os pés
e quando se erguem
escarnecem de mim e de si mesmos
pois já não se vê mais
que a poeira de um rastro
a aparição e a desaparição — e as rosas
voltam a fechar-se em seus botões de silêncio diante
das estejas apagadas pelo sopro do vento
e sou apenas o que fui — e fui
apenas o que serei na boca dos profetas
dos contadores de lendas
eterno
toda vez que as cartomantes inventem
ao olhar de uma trêmula mulher
o perigo de um príncipe a caminho
e na palma da mão entre o monte de Vênus
e a linha do destino — o presságio
de meu nome alegrará um coração que espera
a chegada da esperança.
Não sou — já fui
não fui — serei
serei o que teria sido
num país que carrego nas pupilas
ego, poeta, Pigafetta
meus olhos pisam meu chão
e caminho pisando os próprios olhos
meus pés escrevem no celeste espaço
com o coruscante stil nuovo
do pentestrelo
minha bitácora — pois escrivão
de Capricórnio tenho por nome
meu pseudônimo
—Caramuru
ou Monteverde? —
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