Poemas neste tema
Esperança e Otimismo
Mônica Banderas
Medo
Enquanto esperamos
o nascer do dia,
acendemos fogueiras
para espantar fantasmas.
o nascer do dia,
acendemos fogueiras
para espantar fantasmas.
882
Manoel Messias Santiago
Eu Te Amo e Era Uma Vez um Beijing
Vivo contigo e tento te aprender,
me acostumar aos teus atrasos.
Outro dia chegaste madrugada.
Chovia gostoso, ouvia-se La Seguidiila,
de Carmen, e tu brilhavas nos acordes
e bailavas nos meus sentidos.
Se um dia eu não mais puder te ver
será como a "Primavera da China"
como a noite sem gosto, sem ar,
sem agasalho.
Como os tanques sinistros
de Tiananmen Square rangendo seus dentes de
aço.
Aço retirado das minas por homens
que acreditaram na vida, no trabalho;
aço que deveria arar a terra
em forma de lagartas e enxadas
para a colheita do trigo
mas insiste em atropelar cérebros
humanos mundo a fora e numa praça
em Beijing.
Se um dia eu não mais puder te ver
será noite de morcegos de metal
caçando meus olhos espavoridos
com seus incandescentes bicos-lasers;
bubônica noite de roedores obstinados
buscando com destrutiva lascívia
a humana carne. Ah, os ratos...
A Coca-Cola da China tem cor e sabor de sangue
jovem.
E o sangue humano tem todos os sabores.
A batalha é contra o prazer. O medo
banca a guerra.
Mas quando tu voltares
os canhões terão bocas imantadas
e dar-se-á o necessário incesto:
os petardos voltarão aos infaustos ventres
e explodirão as próprias ogivas.
Haverá água e comida farta para todos
flores e perfumes e música bela
e sonoras gargalhadas pelos campos.
As pessoas se tocarão pela carícia
e desfrutarão da liberdade
como um dom natural.
me acostumar aos teus atrasos.
Outro dia chegaste madrugada.
Chovia gostoso, ouvia-se La Seguidiila,
de Carmen, e tu brilhavas nos acordes
e bailavas nos meus sentidos.
Se um dia eu não mais puder te ver
será como a "Primavera da China"
como a noite sem gosto, sem ar,
sem agasalho.
Como os tanques sinistros
de Tiananmen Square rangendo seus dentes de
aço.
Aço retirado das minas por homens
que acreditaram na vida, no trabalho;
aço que deveria arar a terra
em forma de lagartas e enxadas
para a colheita do trigo
mas insiste em atropelar cérebros
humanos mundo a fora e numa praça
em Beijing.
Se um dia eu não mais puder te ver
será noite de morcegos de metal
caçando meus olhos espavoridos
com seus incandescentes bicos-lasers;
bubônica noite de roedores obstinados
buscando com destrutiva lascívia
a humana carne. Ah, os ratos...
A Coca-Cola da China tem cor e sabor de sangue
jovem.
E o sangue humano tem todos os sabores.
A batalha é contra o prazer. O medo
banca a guerra.
Mas quando tu voltares
os canhões terão bocas imantadas
e dar-se-á o necessário incesto:
os petardos voltarão aos infaustos ventres
e explodirão as próprias ogivas.
Haverá água e comida farta para todos
flores e perfumes e música bela
e sonoras gargalhadas pelos campos.
As pessoas se tocarão pela carícia
e desfrutarão da liberdade
como um dom natural.
363
Manuel João Mansos
Rosas de Sangue
Os passarinhos não cantam,
perderam sua alegria.
Já não canta a cotovia,
voando sobre o arado.
Alentejo abandonado
oh terra afogada em dor,
diz-me lá terra queimada,
onde está o teu valor?
«Hoje estou escravizada,
estão meus campos solitários,
aldeias em agonia:
vieram os mercenários,
Já não canta a cotovia
a sua doce canção.
Agora só canta em mim
a Aldeia de Baleizão:
na sua voz derradeira
erguem-se clamores sem fim
àquela linda ceifeira;
Catarina,
que as tuas rosas de sangue
sejam um grito de alerta
por esta terra deserta
dos meus campos em ruína,
que os mercenários se vão!
Catarina,
das tuas rosas de sangue
as searas brotarão;
nascerá azeite e vinha
e voltará às avezinhas
a sua antiga alegria.
Então, soará de novo,
Alentejo, bem-amado,
a alta voz do teu povo:
— Esta é a Pátria minha,
onde canta a cotovia
voando sobre o arado!…»
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
perderam sua alegria.
Já não canta a cotovia,
voando sobre o arado.
Alentejo abandonado
oh terra afogada em dor,
diz-me lá terra queimada,
onde está o teu valor?
«Hoje estou escravizada,
estão meus campos solitários,
aldeias em agonia:
vieram os mercenários,
Já não canta a cotovia
a sua doce canção.
Agora só canta em mim
a Aldeia de Baleizão:
na sua voz derradeira
erguem-se clamores sem fim
àquela linda ceifeira;
Catarina,
que as tuas rosas de sangue
sejam um grito de alerta
por esta terra deserta
dos meus campos em ruína,
que os mercenários se vão!
Catarina,
das tuas rosas de sangue
as searas brotarão;
nascerá azeite e vinha
e voltará às avezinhas
a sua antiga alegria.
Então, soará de novo,
Alentejo, bem-amado,
a alta voz do teu povo:
— Esta é a Pátria minha,
onde canta a cotovia
voando sobre o arado!…»
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
1 035
Carlos Anísio Melhor
Retorno
Amadurecendo estão os frutos no silêncio
Enquanto a vida é segredo no fundo do corpo.
Naquele poço dormem as aves e no fundo
Do silêncio a vida é um segredo.
Pelos portais da varanda estão as flores em botão
E o silêncio é já flor no coração do corpo
Enquanto no alto, as aves partem em vôo inesperado
Para uma estação sem tempo ou penitências.
Senhora:as flores estão florindo no silêncio do poço,
Enquanto a vida dorme no fundo do corpo.
O barco que vai por sobre o mar
Traz no bojo a esperança de voltar.
Enquanto a vida é segredo no fundo do corpo.
Naquele poço dormem as aves e no fundo
Do silêncio a vida é um segredo.
Pelos portais da varanda estão as flores em botão
E o silêncio é já flor no coração do corpo
Enquanto no alto, as aves partem em vôo inesperado
Para uma estação sem tempo ou penitências.
Senhora:as flores estão florindo no silêncio do poço,
Enquanto a vida dorme no fundo do corpo.
O barco que vai por sobre o mar
Traz no bojo a esperança de voltar.
1 152
Maria de Lourdes Hortas
Estações
Poderia afogar-me
na silente cisterna de lágrimas
léguas de um longo tempo extraviado
quando o mar recua
para ermo horizonte
de incompletude e inesperança.
Todavia há marés que me resgatam
réstia de luz por instantes ferindo
a silente espessura da lembrança.
na silente cisterna de lágrimas
léguas de um longo tempo extraviado
quando o mar recua
para ermo horizonte
de incompletude e inesperança.
Todavia há marés que me resgatam
réstia de luz por instantes ferindo
a silente espessura da lembrança.
1 003
Mário Donizete Massari
Esperança
O menino
chupa laranjas
a dona de casa
sentada à varanda
contempla o fim de
mais um dia.
Um passarinho canta
no pomar
onde o menino
chupa laranja
às escondidas.
Fim de dia,
mas a esperança persiste
nos versos do poeta
no rosto do operário triste.
chupa laranjas
a dona de casa
sentada à varanda
contempla o fim de
mais um dia.
Um passarinho canta
no pomar
onde o menino
chupa laranja
às escondidas.
Fim de dia,
mas a esperança persiste
nos versos do poeta
no rosto do operário triste.
952
Mário Donizete Massari
Nascente
O sol nascia
por detrás
da nascente das águas
dos olhos da menina.
Da nascente dos olhos da menina
jorra uma esperança antiga,
semente fértil,
olhar fecundo
a se derramar
sobre o mundo.
E a nascente fertiliza
As águas se juntam,
a menina se entrega
e assume o fruto.
O sol se põe
e à menina resta
o fruto;
E nos olhos da menina
ainda reside a esperança antiga.
por detrás
da nascente das águas
dos olhos da menina.
Da nascente dos olhos da menina
jorra uma esperança antiga,
semente fértil,
olhar fecundo
a se derramar
sobre o mundo.
E a nascente fertiliza
As águas se juntam,
a menina se entrega
e assume o fruto.
O sol se põe
e à menina resta
o fruto;
E nos olhos da menina
ainda reside a esperança antiga.
1 014
Moniz Bandeira
Canto do Outubro
Que ficou de teu mundo?
Onde aqueles que te ajudaram a construí-lo?
Os muros tragaram balas e palavras
e a erva cresceu sobre os lábios dos mortos
que a noite ocultou.
Sempre noite, sempre inverno,
flocos de neve caindo
na memória dos que marcaram
as estradas do tempo.
Os mortos.
Sangue, pólvora, cinza, pedra,
e um século preso nos seus dentes.
Vê a alvorada,
a alvorada que vem,
que ainda vem,
que surgirá de lágrimas e de sonhos,
quando nos campos,
verdes campos,
hoje cobertos de neve,
as sementes brotarem e as árvores florescerem.
quando todas as vozes,
rasgando túmulos e quebrando espelhos,
vibrarem nos subterrâneos do mundo.
Vê quantos homens
caminham pela madrugada.
Eles esperam por ti.
Esperam que os relógios sangrem
à dor das horas.
Que os rios contidos
desemboquem pela boca dos mortos
despertados ao canto das aves
e dos clarins de fogo da alvorada.
E o sol,
O sol que tu levaste nas mãos,
será de todos.
Onde aqueles que te ajudaram a construí-lo?
Os muros tragaram balas e palavras
e a erva cresceu sobre os lábios dos mortos
que a noite ocultou.
Sempre noite, sempre inverno,
flocos de neve caindo
na memória dos que marcaram
as estradas do tempo.
Os mortos.
Sangue, pólvora, cinza, pedra,
e um século preso nos seus dentes.
Vê a alvorada,
a alvorada que vem,
que ainda vem,
que surgirá de lágrimas e de sonhos,
quando nos campos,
verdes campos,
hoje cobertos de neve,
as sementes brotarem e as árvores florescerem.
quando todas as vozes,
rasgando túmulos e quebrando espelhos,
vibrarem nos subterrâneos do mundo.
Vê quantos homens
caminham pela madrugada.
Eles esperam por ti.
Esperam que os relógios sangrem
à dor das horas.
Que os rios contidos
desemboquem pela boca dos mortos
despertados ao canto das aves
e dos clarins de fogo da alvorada.
E o sol,
O sol que tu levaste nas mãos,
será de todos.
972
Marta Gonçalves
Juízo Final
Segurando em minhas mãos
olhos prisioneiros, mudarei
o mundo, antes de um anjo de palha
anunciar o fim.
olhos prisioneiros, mudarei
o mundo, antes de um anjo de palha
anunciar o fim.
947
Sérgio Mattos
Caminho da Esperança
No simétrico caminho da esperança
meu barco rodeia o espaço
e quando a luz escassa
atrai um tempo frio,
meu sonho se acende,
alheio à própria vida,
e me impele sem artifícios,
para teu braços.
Minha dor se dilui
e, enquanto teus dedos deslizam
em meus cabelos,
renasce mais uma estrela infinita.
meu barco rodeia o espaço
e quando a luz escassa
atrai um tempo frio,
meu sonho se acende,
alheio à própria vida,
e me impele sem artifícios,
para teu braços.
Minha dor se dilui
e, enquanto teus dedos deslizam
em meus cabelos,
renasce mais uma estrela infinita.
928
Sérgio Mattos
Palavra Animada
Um dia animarei
meus sonhos com um sopro
criador.
Um dia moldarei
as palavras e os poemas
só vão tratar de amor.
meus sonhos com um sopro
criador.
Um dia moldarei
as palavras e os poemas
só vão tratar de amor.
1 052
Marcelo Almeida de Oliveira
Viagem
Enxuga o choro, amor
conserva a chama
enxerga a chance
enxagua o olho
no meu retorno
pro seu chamego.
conserva a chama
enxerga a chance
enxagua o olho
no meu retorno
pro seu chamego.
884
Marcelo Almeida de Oliveira
Só mais um
Mais um dia de concreto;
passos certos de quem tem destino;
olhos vão ao chão entre pés e sombras
que não ouvem a tempestade que ronda
na cabeça dos que são como eu,
ossos, carne e dor,
exalando palavras de amor
neste mundo que já se esqueceu
de quão bonito e perfeito poderia ser.
Mas no momento tenho que parar,
o sofrer agora é fadiga, e me consome.
Só nos braços dela encontro a cura.
Só os beijos dela podem me refazer.
Em passos tristes sigo
ao ver o irmão
que a fome roubou o orgulho;
por ele e por outros eu juro
que em breve retornarei mais forte;
mesmo que ainda me fira, ainda me corte,
deixar meu amor dormindo, no escuro,
depois de tudo...
Da esquina chegam notícias distantes,
do irmão que teve a paz tomada pela guerra;
que nem o silêncio nem a distância me deixem esquecer,
Mesmo depois de ser amado por ela,
muito perto agora, ouço você
me abre a porta e um sorriso
que me esquenta em paz e alegria;
a tempestade se vai salgada em teu colo;
agora sonho, sonho de seria, e será... um dia.
passos certos de quem tem destino;
olhos vão ao chão entre pés e sombras
que não ouvem a tempestade que ronda
na cabeça dos que são como eu,
ossos, carne e dor,
exalando palavras de amor
neste mundo que já se esqueceu
de quão bonito e perfeito poderia ser.
Mas no momento tenho que parar,
o sofrer agora é fadiga, e me consome.
Só nos braços dela encontro a cura.
Só os beijos dela podem me refazer.
Em passos tristes sigo
ao ver o irmão
que a fome roubou o orgulho;
por ele e por outros eu juro
que em breve retornarei mais forte;
mesmo que ainda me fira, ainda me corte,
deixar meu amor dormindo, no escuro,
depois de tudo...
Da esquina chegam notícias distantes,
do irmão que teve a paz tomada pela guerra;
que nem o silêncio nem a distância me deixem esquecer,
Mesmo depois de ser amado por ela,
muito perto agora, ouço você
me abre a porta e um sorriso
que me esquenta em paz e alegria;
a tempestade se vai salgada em teu colo;
agora sonho, sonho de seria, e será... um dia.
783
Mário Hélio
33-III-(Bird)
a fragata espera na porta do circo
lábicos tão fechados
bocas entreabertas a ponto de gritar
a fraca esperança espera na porta do coração
lábios tão fechados
bocas entreabertas a ponto de gritar
mas não há gritos
nem haverá
lábicos tão fechados
bocas entreabertas a ponto de gritar
a fraca esperança espera na porta do coração
lábios tão fechados
bocas entreabertas a ponto de gritar
mas não há gritos
nem haverá
1 001
Machado de Assis
O Dilúvio
(1863)
E caiu a chuva sobre a terra
quarenta dias e quarenta noites
Gênesis — c. VII, v. 12
Do sol ao raio esplêndido,
Fecundo, abençoado,
A terra exausta e úmida
Surge, revive já;
Que a morte inteira e rápida
Dos filhos do pecado
Pôs termo à imensa cólera
Do imenso Jeová!
Que mar não foi! que túmidas
As águas não rolavam!
Montanhas e planícies
Tudo tornou-se mar;
E nesta cena lúgubre
Os gritos que soavam
Era um clamor uníssono
Que a terra ia acabar.
Em vão, ó pai atônito,
Ao seio o filho estreitas;
Filhos, esposos, míseros,
Em vão tentais fugir!
Que as águas do dilúvio
Crescidas e refeitas,
Vão da planície aos píncaros
Subir, subir, subir!
Só, como a idéia única
De um mundo que se acaba,
Erma, boiava intrépida,
A arca de Noé;
Pura das velhas nódoas
De tudo o que desaba,
Leva no seio incólumes
A virgindade e a fé.
Lá vai! Que um vento alígero,
Entre os contrários ventos,
Ao lenho calmo e impávido
Abre caminho além . . .
Lá vai! Em torno angústias,
Clamores, lamentos;
Dentro a esperança, os cânticos,
A calma, a paz e o bem.
Cheio de amor, solícito,
O olhar da divindade,
Vela aos escapos náufragos
Da imensa aluvião.
Assim, por sobre o túmulo
Da extinta humanidade
Salva-se um berço; o vínculo
Da nova creação.
Íris, da paz o núncio,
O núncio do concerto,
Riso do Eterno em júbilo,
Nuvens do céu rasgou;
E a pomba, a pomba mística,
Volando ao lenho aberto,
Do arbusto da planície
Um ramo despencou.
Ao sol e às brisas tépidas
Respira a terra um hausto,
Viçam de novo as árvores,
Brota de novo a flor;
E ao som de nossos cânticos,
Ao fumo do holocausto
Desaparece a cólera
Do rosto do Senhor.
E caiu a chuva sobre a terra
quarenta dias e quarenta noites
Gênesis — c. VII, v. 12
Do sol ao raio esplêndido,
Fecundo, abençoado,
A terra exausta e úmida
Surge, revive já;
Que a morte inteira e rápida
Dos filhos do pecado
Pôs termo à imensa cólera
Do imenso Jeová!
Que mar não foi! que túmidas
As águas não rolavam!
Montanhas e planícies
Tudo tornou-se mar;
E nesta cena lúgubre
Os gritos que soavam
Era um clamor uníssono
Que a terra ia acabar.
Em vão, ó pai atônito,
Ao seio o filho estreitas;
Filhos, esposos, míseros,
Em vão tentais fugir!
Que as águas do dilúvio
Crescidas e refeitas,
Vão da planície aos píncaros
Subir, subir, subir!
Só, como a idéia única
De um mundo que se acaba,
Erma, boiava intrépida,
A arca de Noé;
Pura das velhas nódoas
De tudo o que desaba,
Leva no seio incólumes
A virgindade e a fé.
Lá vai! Que um vento alígero,
Entre os contrários ventos,
Ao lenho calmo e impávido
Abre caminho além . . .
Lá vai! Em torno angústias,
Clamores, lamentos;
Dentro a esperança, os cânticos,
A calma, a paz e o bem.
Cheio de amor, solícito,
O olhar da divindade,
Vela aos escapos náufragos
Da imensa aluvião.
Assim, por sobre o túmulo
Da extinta humanidade
Salva-se um berço; o vínculo
Da nova creação.
Íris, da paz o núncio,
O núncio do concerto,
Riso do Eterno em júbilo,
Nuvens do céu rasgou;
E a pomba, a pomba mística,
Volando ao lenho aberto,
Do arbusto da planície
Um ramo despencou.
Ao sol e às brisas tépidas
Respira a terra um hausto,
Viçam de novo as árvores,
Brota de novo a flor;
E ao som de nossos cânticos,
Ao fumo do holocausto
Desaparece a cólera
Do rosto do Senhor.
3 481
Maria do Carmo Volpi de Freitas
Libertação
Itinerário de nuvens
azulescendo
a estrada-sonho
do peregrino.
Hastes ao alto
beijos de brisa
e asas
para o encontro
possível.
in No Remanso das Horas - Achiamê - RJ
azulescendo
a estrada-sonho
do peregrino.
Hastes ao alto
beijos de brisa
e asas
para o encontro
possível.
in No Remanso das Horas - Achiamê - RJ
837
Leny Mara Souza
Suas Dores, Meus Gemidos
A um amigo
Estou querendo lhe ajudar,
Busco pessoas para ajudar-me,
Para ajudar você.
Você!
Cheio de vida,esperanças e sonhos...
... Tenha dentro de sí a fé
E a esperança,
De uma realização pessoal e lógica.
Estou querendo lhe ajudar,
Busco pessoas para ajudar-me,
Para ajudar você.
Você!
Cheio de vida,esperanças e sonhos...
... Tenha dentro de sí a fé
E a esperança,
De uma realização pessoal e lógica.
945
Luiz Nogueira Barros
Eu
Eu sou aquele
das esperanças eternas:
peregrino entre a humanidade,
com mão de carícias
plantando sementes de sonhos.
Pedinte das ruas
vejo as pessoas:
de olhares aflitos,
de passos trôpegos,
de ouvidos magoados,
de almas dilaceradas,
de corações partidos,
e ainda lhes suplico
irem adiante
que a vida é tênue
e denso é o sonho !...
Eu sou aquele
que sempre chega
e que sempre parte
de mão vazias
sem ver os frutos
do seu trabalho :
- sou a utopia !...
O JORNAL - 14.04.96
das esperanças eternas:
peregrino entre a humanidade,
com mão de carícias
plantando sementes de sonhos.
Pedinte das ruas
vejo as pessoas:
de olhares aflitos,
de passos trôpegos,
de ouvidos magoados,
de almas dilaceradas,
de corações partidos,
e ainda lhes suplico
irem adiante
que a vida é tênue
e denso é o sonho !...
Eu sou aquele
que sempre chega
e que sempre parte
de mão vazias
sem ver os frutos
do seu trabalho :
- sou a utopia !...
O JORNAL - 14.04.96
945
Tânia Regina
Amor Impossível
Hoje você está impassível
tornando o nosso amor
Algo tão impossível
que nem em sonho
Podemos mais sonhar...
Nossos pensamentos impelidos
contra o tempo
Mostrando o quanto
é grande nossas diferenças
nossa idade, nossa cabeça...
Eu então fico aqui nessa melancolia
Espraiando-me pela praia
Sendo tocada pela maviosa água
Matizada pelo toque em meu corpo...
Não sei se tenho forças pra continuar
Só saberei se tentar
Se tento posso perder
Se não chego a tentar
nunca saberei se não arriscar...
Apenas fico na esperança
De que algum dia
Você olhe para trás
E veja com alegria
O que você deixou passar
Todos aqueles dias...
tornando o nosso amor
Algo tão impossível
que nem em sonho
Podemos mais sonhar...
Nossos pensamentos impelidos
contra o tempo
Mostrando o quanto
é grande nossas diferenças
nossa idade, nossa cabeça...
Eu então fico aqui nessa melancolia
Espraiando-me pela praia
Sendo tocada pela maviosa água
Matizada pelo toque em meu corpo...
Não sei se tenho forças pra continuar
Só saberei se tentar
Se tento posso perder
Se não chego a tentar
nunca saberei se não arriscar...
Apenas fico na esperança
De que algum dia
Você olhe para trás
E veja com alegria
O que você deixou passar
Todos aqueles dias...
938
Tomáz Kim
Ladainha Para Qualquer Natal
Não seja esta noite, agora e sempre,
Igual às outras noites.
Não seja esta noite, agora e sempre,
Igual às outras noites:
Tumba de carne viva em ódio amortalhada,
Anunciando sangue e pranto e morte.
Não seja esta noite, agora e sempre,
Igual às outras noites.
Que esta noite não seja para sempre
De fome pra lá de tantas portas
Como flor viçosa em campa rasa.
Que esta noite não seja para sempre
De amor vendido a horas mortas
E o pudor lembrando e a raiva queimando.
Não seja esta noite, agora e sempre,
Igual às outras noites.
Não seja esta noite, agora e sempre,
Igual às outras noites:
Chaga aberta, como rubra flor de pesadelo,
Escorrendo sangue e pranto e morte.
Não seja esta noite, agora e sempre,
Igual às outras noites.
E seja para sempre esta noite
Cheia de graça na terra dos homens.
Assim seja
Igual às outras noites.
Não seja esta noite, agora e sempre,
Igual às outras noites:
Tumba de carne viva em ódio amortalhada,
Anunciando sangue e pranto e morte.
Não seja esta noite, agora e sempre,
Igual às outras noites.
Que esta noite não seja para sempre
De fome pra lá de tantas portas
Como flor viçosa em campa rasa.
Que esta noite não seja para sempre
De amor vendido a horas mortas
E o pudor lembrando e a raiva queimando.
Não seja esta noite, agora e sempre,
Igual às outras noites.
Não seja esta noite, agora e sempre,
Igual às outras noites:
Chaga aberta, como rubra flor de pesadelo,
Escorrendo sangue e pranto e morte.
Não seja esta noite, agora e sempre,
Igual às outras noites.
E seja para sempre esta noite
Cheia de graça na terra dos homens.
Assim seja
2 291
Gláucia Lemos
Poema ao Amor Recém-Nascido
Vê, é crescente,
quarto de lua crescente.
No universo inteiro
tudo chegou ao tempo de crescer.
Deixa que cresça
deixa que amadureça
como o sol faz crescerem os trigais.
Deixa que nasça o pão
das espigas crescidas
e o alimente qual se nutre um corpo
na bandeja da emoção.
Deixa que cresça indomável.
Seja rebentação nos quebra-mares
das marés de enchente.
Faça-se grande qual só é grande a vida
invencível como só assim a morte.
Que seja um deus nos concedendo a graça
de escrevermos nós, nosso destino.
Deixa que cresça.
Que cresça e se mature
e multiplique qual no ventre térreo
planetário de sementes.
E depois, como chuva,
deixa que se esparrame
no universo
dos universos aonde possa ir,
maravilhado da própria grandeza.
Deixa que cresça e nos cubra.
E nos proteja como anjo-de-guarda
e nos leve pelas mãos
nas mãos da vida
que ele faz ressuscitar.
Deixa em silêncio,
deixa em canto suave,
deixa no toque de ternura nova,
deixa crescer em ti
que não deixaste
perder-se sem razão nossa verdade.
Vê. é crescente.
Quarto de lua crescente!
Doce criança, deixa-o crescer!
Em uma lua crescente de 1996.
quarto de lua crescente.
No universo inteiro
tudo chegou ao tempo de crescer.
Deixa que cresça
deixa que amadureça
como o sol faz crescerem os trigais.
Deixa que nasça o pão
das espigas crescidas
e o alimente qual se nutre um corpo
na bandeja da emoção.
Deixa que cresça indomável.
Seja rebentação nos quebra-mares
das marés de enchente.
Faça-se grande qual só é grande a vida
invencível como só assim a morte.
Que seja um deus nos concedendo a graça
de escrevermos nós, nosso destino.
Deixa que cresça.
Que cresça e se mature
e multiplique qual no ventre térreo
planetário de sementes.
E depois, como chuva,
deixa que se esparrame
no universo
dos universos aonde possa ir,
maravilhado da própria grandeza.
Deixa que cresça e nos cubra.
E nos proteja como anjo-de-guarda
e nos leve pelas mãos
nas mãos da vida
que ele faz ressuscitar.
Deixa em silêncio,
deixa em canto suave,
deixa no toque de ternura nova,
deixa crescer em ti
que não deixaste
perder-se sem razão nossa verdade.
Vê. é crescente.
Quarto de lua crescente!
Doce criança, deixa-o crescer!
Em uma lua crescente de 1996.
1 966
João Rui de Sousa
Roteiro
Meu jeito visionário — meu astrolábio.
Meu ser mirabolante — um alcatruz.
De variadas coisas fiz a minha esperança
e sempre em várias coisas vi a minha cruz.
Aos padrões que em vários pontos encontrei
na rota íntima de vestes tropicais
eu dei as mãos, serenas e intactas,
as minhas dores mais certas e reais.
Nos vários sítios que — abismos —
toldaram minha voz por um olhar,
eu evitei o perigo e os prejuízos
à voz feita de calma, meu cantar.
Aos rasgos que, de outrora, evocados
foram sempre pelo seu valor,
eu dei a minha tez de dúvida e de espanto,
o meu silêncio amargo, o meu calor,
E aos pontos cardeais que em volta, vacilantes,
desalentavam já meu ser cativo,
parei o gesto, roubei o pólo sul da esperança
como lembrança para um dia altivo.
Meu ser mirabolante — um alcatruz.
De variadas coisas fiz a minha esperança
e sempre em várias coisas vi a minha cruz.
Aos padrões que em vários pontos encontrei
na rota íntima de vestes tropicais
eu dei as mãos, serenas e intactas,
as minhas dores mais certas e reais.
Nos vários sítios que — abismos —
toldaram minha voz por um olhar,
eu evitei o perigo e os prejuízos
à voz feita de calma, meu cantar.
Aos rasgos que, de outrora, evocados
foram sempre pelo seu valor,
eu dei a minha tez de dúvida e de espanto,
o meu silêncio amargo, o meu calor,
E aos pontos cardeais que em volta, vacilantes,
desalentavam já meu ser cativo,
parei o gesto, roubei o pólo sul da esperança
como lembrança para um dia altivo.
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José Eustáquio da Silva
Psicograma
já estou morto de viver
basta-me ver a lua
não tem rua onde moro
nem motivo porque choro
existem espinhos demais
não quero mais
chega de poesia
bastam-me as estrelas
quando eu puder sorrir
a lua será cheia
a rua será alegre
motivo não terá motivo
e as estrelas
sorriram também
basta-me ver a lua
não tem rua onde moro
nem motivo porque choro
existem espinhos demais
não quero mais
chega de poesia
bastam-me as estrelas
quando eu puder sorrir
a lua será cheia
a rua será alegre
motivo não terá motivo
e as estrelas
sorriram também
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José Chagas
Soneto da Manhã Primeira
Quero a manhã exata, a manhã viva,
pois estas luzes e estes vôos na aurora,
são só ensaios de manhãs. E agora
o que eu quero é a manhã definitiva,
a autêntica manhã pura, exclusiva,
manhã nascida de si mesma e fora
desta jubilação falsa e sonora
que só por um momento nos cativa.
Ah, a manhã da última promessa,
manhã de um novo mundo que começa,
mais acessível, mais humano e bom.
Meu Deus, seria como chegasse
a manhã do primeiro sol que nasce,
a cor primeira e do primeiro som.
pois estas luzes e estes vôos na aurora,
são só ensaios de manhãs. E agora
o que eu quero é a manhã definitiva,
a autêntica manhã pura, exclusiva,
manhã nascida de si mesma e fora
desta jubilação falsa e sonora
que só por um momento nos cativa.
Ah, a manhã da última promessa,
manhã de um novo mundo que começa,
mais acessível, mais humano e bom.
Meu Deus, seria como chegasse
a manhã do primeiro sol que nasce,
a cor primeira e do primeiro som.
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