Poemas neste tema
Fé, Espiritualidade e Religião
Antônio Massa
Cartesianos
Cartesianos
desabados entre as fórmulas
confeccionadas sob encomenda
emendas nas vielas nossas
invadidas pelo prático ímpeto
de desnudar da vida
uma satisfação qualquer
Conhecemos os quadrantes
mas não vemos antes
de toda a metria
nem entendemos que o silêncio
foi criado a fim de ouvirmos seu doce pranto
e não para preenchê-lo
com formulações técnicas
étnicas
ásperas
Por demais acartesianados
não distinguimos o espírito
despido de números ou códigos
deveras quadrados
sem contornos nas arestas
sem astúcia para contornar
situações pontudas
oferecendo apenas
respostas pontiaguadas
aos ponteiros da vida
que ao acaso giram,
não para marcar hora
a outrora
ou demora
mas para manifestar
que avançam
dançam enquanto vivos
enquanto ventos
enquanto corpos
enquanto bichos
Cartesianos...
destituídos da vontade de crescer
almejando desvendar a vida
com o conhecimento obsoleto
por demais lógico e tétrico
objético
Queremos resgatar o saber
do monstro do Desconhecido
mas quem irá salvaguardar
nossas almas
se não concedemos
se não concebemos
se não compreendemos
se não empreendemos
o caminho para o Ninho
para nos entendermos
para nos perdoarmos
para nos conhecermos
ao invés de esquecermos
de nós
os homens
os lobisomens
os meta homens
os meio homens
Cartesianos...
demais para aceitarmos
Amor numa relação homossexual
demais para aceitarmos
o Amor que de cima nos é oferecido
nos ferimos
não podemos computar o Sentimento
então erguemos os muros
as fronhas
as frontes
os horizontes
separamos o homem
do bicho
do corpo
do vento
da vida
mas não separamos
o homem
do homem
lobisomem
meta homem
meio homens
mulheres
crianças
que não justificam nosso fim
nosso início
nosso concerto
nosso desconcerto
nossa cartesianidade
que é o precipício
a precipitação
a prece para a ação
desnutrida
desdentada
exaurida
Cartesianos...
nossas questões fúteis
inúteis
indagam quantos raios emite o sol
quantos pelos há na púbis
quantas vidas há na morte
mas não nos preocupamos
em tomar a quentura
da luz
do corpo
em viver esta vida
como se ela fosse única
como se ela fosse virgem
e fôssemos penetrando calor adentro
noite adentro
suspirando cada ponto de aurora
gemendo cada agora
germinando
curtindo
cultivando
cultuando
Cegos frente às cordas bambas
bombas para quem não as sente
com os dedos
o corpo
a alma
a calma
estamos caindo em nossos mapas
arquitetônicos
astrais
geométricos
geográficos
e os leões nos esperam no picadeiro
depois da queda
depois da morte
e sabe-se lá qual a sorte
de quem despenca
flácido
ácido
nas gargantas do felino
Cartesianos, infelizmente,
esperamos o Artesão
que venha cobrar os juros
construir os muros
edificar os matadouros
Arrancar de nós o couro
o ouro
os cofres
Estamos esperando
que a praia seque
e o mar se vá
para sentarmos, então, ao nada
e queixarmos academicamente
- Onde foi que erramos a conta?
desabados entre as fórmulas
confeccionadas sob encomenda
emendas nas vielas nossas
invadidas pelo prático ímpeto
de desnudar da vida
uma satisfação qualquer
Conhecemos os quadrantes
mas não vemos antes
de toda a metria
nem entendemos que o silêncio
foi criado a fim de ouvirmos seu doce pranto
e não para preenchê-lo
com formulações técnicas
étnicas
ásperas
Por demais acartesianados
não distinguimos o espírito
despido de números ou códigos
deveras quadrados
sem contornos nas arestas
sem astúcia para contornar
situações pontudas
oferecendo apenas
respostas pontiaguadas
aos ponteiros da vida
que ao acaso giram,
não para marcar hora
a outrora
ou demora
mas para manifestar
que avançam
dançam enquanto vivos
enquanto ventos
enquanto corpos
enquanto bichos
Cartesianos...
destituídos da vontade de crescer
almejando desvendar a vida
com o conhecimento obsoleto
por demais lógico e tétrico
objético
Queremos resgatar o saber
do monstro do Desconhecido
mas quem irá salvaguardar
nossas almas
se não concedemos
se não concebemos
se não compreendemos
se não empreendemos
o caminho para o Ninho
para nos entendermos
para nos perdoarmos
para nos conhecermos
ao invés de esquecermos
de nós
os homens
os lobisomens
os meta homens
os meio homens
Cartesianos...
demais para aceitarmos
Amor numa relação homossexual
demais para aceitarmos
o Amor que de cima nos é oferecido
nos ferimos
não podemos computar o Sentimento
então erguemos os muros
as fronhas
as frontes
os horizontes
separamos o homem
do bicho
do corpo
do vento
da vida
mas não separamos
o homem
do homem
lobisomem
meta homem
meio homens
mulheres
crianças
que não justificam nosso fim
nosso início
nosso concerto
nosso desconcerto
nossa cartesianidade
que é o precipício
a precipitação
a prece para a ação
desnutrida
desdentada
exaurida
Cartesianos...
nossas questões fúteis
inúteis
indagam quantos raios emite o sol
quantos pelos há na púbis
quantas vidas há na morte
mas não nos preocupamos
em tomar a quentura
da luz
do corpo
em viver esta vida
como se ela fosse única
como se ela fosse virgem
e fôssemos penetrando calor adentro
noite adentro
suspirando cada ponto de aurora
gemendo cada agora
germinando
curtindo
cultivando
cultuando
Cegos frente às cordas bambas
bombas para quem não as sente
com os dedos
o corpo
a alma
a calma
estamos caindo em nossos mapas
arquitetônicos
astrais
geométricos
geográficos
e os leões nos esperam no picadeiro
depois da queda
depois da morte
e sabe-se lá qual a sorte
de quem despenca
flácido
ácido
nas gargantas do felino
Cartesianos, infelizmente,
esperamos o Artesão
que venha cobrar os juros
construir os muros
edificar os matadouros
Arrancar de nós o couro
o ouro
os cofres
Estamos esperando
que a praia seque
e o mar se vá
para sentarmos, então, ao nada
e queixarmos academicamente
- Onde foi que erramos a conta?
853
Antônio Massa
Enredos de Busca
Louvado seja
aquele que não existe
e não conflitua
as raízes da vida
com os pedaços de ventania
agarrados ao seu espírito
Louvado seja
aquele que se agarra
nos pedaços de conflitos
(ventanias de vida)
inexistentes
no espírito de suas raízes
Louvado seja
o espírito daquele
que existe nos pedaços
dos conflitos da vida
e agarra suas ventanias
com as raízes da pertinácia
aquele que não existe
e não conflitua
as raízes da vida
com os pedaços de ventania
agarrados ao seu espírito
Louvado seja
aquele que se agarra
nos pedaços de conflitos
(ventanias de vida)
inexistentes
no espírito de suas raízes
Louvado seja
o espírito daquele
que existe nos pedaços
dos conflitos da vida
e agarra suas ventanias
com as raízes da pertinácia
981
Anísio Melhor
Elegia para um Nascimento
Da noite em que, lúcidos, sonhamos
Pouca coisa resta a esquecer:
Do que sonhamos na extrema lucidez
Nada mais resta para se sofrer.
De um profundo silêncio
— Íntimo como o fundo do mar —
O sonho emergiu trazendo os vestígios de sangue e de linfa,
Onde antes o Ser repousava,
E a noite era um mundo fechado,
Era um ventre obscuro,
Gerando monstros ou deuses.
Lúcidos, de nossos sonhos, emersos,
Os fizemos nascer, monstros ou deuses,
Reais como nunca fomos
Ou pudéramos ser.
Da noite em que lúcidos sonhamos
Pouca coisa resta a esquecer.
fonte menor(Sanatório Ana Nery — março 1960)
Eu, sob o látego da fome e sede compelido,
Atado à roda de Krishna, paralisados, abúlicos dedos.
Eu,
Sem remorso ou maldição,
Agora
Bebo do copo que Fausto recusou.
(Hospital Juliano Moreira)
Pouca coisa resta a esquecer:
Do que sonhamos na extrema lucidez
Nada mais resta para se sofrer.
De um profundo silêncio
— Íntimo como o fundo do mar —
O sonho emergiu trazendo os vestígios de sangue e de linfa,
Onde antes o Ser repousava,
E a noite era um mundo fechado,
Era um ventre obscuro,
Gerando monstros ou deuses.
Lúcidos, de nossos sonhos, emersos,
Os fizemos nascer, monstros ou deuses,
Reais como nunca fomos
Ou pudéramos ser.
Da noite em que lúcidos sonhamos
Pouca coisa resta a esquecer.
fonte menor(Sanatório Ana Nery — março 1960)
Eu, sob o látego da fome e sede compelido,
Atado à roda de Krishna, paralisados, abúlicos dedos.
Eu,
Sem remorso ou maldição,
Agora
Bebo do copo que Fausto recusou.
(Hospital Juliano Moreira)
861
Adão José Pereira
A Vida
A vida é um poema mui lindo
Que o Pai Celeste assinou,
E com habilidade infinda
Afeto e ternura expressou.
Porém ela é veloz e passageira,
Corre tão rapidamente!
E qual uma águia ligeira,
Passa e nos leva de repente.
Ma enquanto existe há esperança
De que melhores dias virão!
Trazendo paz, amor e bonança,
Fartura, prosperidade e realização.
Que o Pai Celeste assinou,
E com habilidade infinda
Afeto e ternura expressou.
Porém ela é veloz e passageira,
Corre tão rapidamente!
E qual uma águia ligeira,
Passa e nos leva de repente.
Ma enquanto existe há esperança
De que melhores dias virão!
Trazendo paz, amor e bonança,
Fartura, prosperidade e realização.
953
Augusto de Campos
Os crentes
Não inquiriram para onde seguiam.
E atravessaram serranias íngremes,
tabuleiros estéreis e chapadas rasas
na marcha cadenciada pelo toar das ladainhas
e pelo passo tardo do profeta...
TOCAIA
Dentre as frinchas,
dentre os esconderijos,
dentre as moitas esparsas, aprumados
no alto dos muramentos rudes,
ou em despenhos ao viés das vertentes
—apareceram os jagunços,
num repentino deflagrar de tiros.
Toda a expedição caiu, de ponta a ponta,
debaixo das trincheiras do Cambaio.
E atravessaram serranias íngremes,
tabuleiros estéreis e chapadas rasas
na marcha cadenciada pelo toar das ladainhas
e pelo passo tardo do profeta...
TOCAIA
Dentre as frinchas,
dentre os esconderijos,
dentre as moitas esparsas, aprumados
no alto dos muramentos rudes,
ou em despenhos ao viés das vertentes
—apareceram os jagunços,
num repentino deflagrar de tiros.
Toda a expedição caiu, de ponta a ponta,
debaixo das trincheiras do Cambaio.
1 285
Adriana Lustosa
Como uma Ovelha
Como uma ovelha
rondo os pastos da boa vontade
enquanto o pastor
saltando de estrela em estrela
propicia o absurdo:
o abismo que era mudo
engole meu grito.
rondo os pastos da boa vontade
enquanto o pastor
saltando de estrela em estrela
propicia o absurdo:
o abismo que era mudo
engole meu grito.
1 081
António Osório
Perguntas a Várias Mãos
Há tanto tempo em busca daquela alegria para sempre
Há de se manter a fé de achar ainda a thing of beauty
Ou de construí-la.
Más hélas! parece há muito que la chair est triste et jai lu tous les livres
Por onde afinal poderemos começar a façonar o mundo?
Recusamo-nos obstinadamente a crer, apesar de tantas evidências
que a vida é um passo na alfombra de um quarto
que jaz vazio
que a vida é um gesto inútil, como disse o amigo
na hora turva de dia já antigo
será uma seta solta no espaço?
entre duas trevas breve clarão?
Le vent se lève. Il faut tenter de vivre!
Há que resistir
Há que resistir ao tempo
Há que resistir ao nada em galope lancinante
neste tropel bravio de angústias e esquivanças.
Quando virás, demiurgo, promover a libertação?
Onde estás Deus, que te escondes?
Quando chegará o ponto ômega, o momento crístico, a parusia?
Quando a cidade do povo, a nova humanidade?
O grito selvagem do sol faz ainda a cada manhã estremecer a terra
E as línguas largas das águas continuam amorosas a relambê-la
não sabemos ainda, soturnos habitantes às vezes afoitos
Quando virá o libertador
Nem o seu nome.
Será que um dia, e quando, os cânticos jubilares do homem
acordarão as potências telárgicas?
Quando afinal o estronho de tantos prantos e blasfêmias
trará Deus de volta a tem?
Ou aqui O criará à imagem de seu barro?
Será que um dia a semente apodrecida de tantas esperanças
fecundará o velho ventre de Demeter?
Não se sabem respostas
Nem as queremos talvez.
Ser homem é perguntar quem sabe
neste solilóquio máquina de tempo
de caixas de músicas esquecidas de suas melodias
manobradas marionetes por um saltimbanco maneta.
Há de se manter a fé de achar ainda a thing of beauty
Ou de construí-la.
Más hélas! parece há muito que la chair est triste et jai lu tous les livres
Por onde afinal poderemos começar a façonar o mundo?
Recusamo-nos obstinadamente a crer, apesar de tantas evidências
que a vida é um passo na alfombra de um quarto
que jaz vazio
que a vida é um gesto inútil, como disse o amigo
na hora turva de dia já antigo
será uma seta solta no espaço?
entre duas trevas breve clarão?
Le vent se lève. Il faut tenter de vivre!
Há que resistir
Há que resistir ao tempo
Há que resistir ao nada em galope lancinante
neste tropel bravio de angústias e esquivanças.
Quando virás, demiurgo, promover a libertação?
Onde estás Deus, que te escondes?
Quando chegará o ponto ômega, o momento crístico, a parusia?
Quando a cidade do povo, a nova humanidade?
O grito selvagem do sol faz ainda a cada manhã estremecer a terra
E as línguas largas das águas continuam amorosas a relambê-la
não sabemos ainda, soturnos habitantes às vezes afoitos
Quando virá o libertador
Nem o seu nome.
Será que um dia, e quando, os cânticos jubilares do homem
acordarão as potências telárgicas?
Quando afinal o estronho de tantos prantos e blasfêmias
trará Deus de volta a tem?
Ou aqui O criará à imagem de seu barro?
Será que um dia a semente apodrecida de tantas esperanças
fecundará o velho ventre de Demeter?
Não se sabem respostas
Nem as queremos talvez.
Ser homem é perguntar quem sabe
neste solilóquio máquina de tempo
de caixas de músicas esquecidas de suas melodias
manobradas marionetes por um saltimbanco maneta.
1 247
Antero Coelho Neto
O Início?
Há uma coisa longe,
bem longe, atrás do horizonte
que vem não sei de onde.
Parece luz parece raio.
Lembra tudo e não lembra nada.
Agora é verde, logo amarelo.
Ou é vermelho?
Súbito torna-se opaca.
Volatiliza-se e fica sombra.
Será nossa Origem, nosso Começo?
Há uma coisa longe,
bem longe, não seio que seja.
Parece luz, mas não é.
É muito mais... talvez o Início...
Eu só sei que é longe,
muito longe, muito longe mesmo.
Parece luz, parece raio,
mas não é...
bem longe, atrás do horizonte
que vem não sei de onde.
Parece luz parece raio.
Lembra tudo e não lembra nada.
Agora é verde, logo amarelo.
Ou é vermelho?
Súbito torna-se opaca.
Volatiliza-se e fica sombra.
Será nossa Origem, nosso Começo?
Há uma coisa longe,
bem longe, não seio que seja.
Parece luz, mas não é.
É muito mais... talvez o Início...
Eu só sei que é longe,
muito longe, muito longe mesmo.
Parece luz, parece raio,
mas não é...
1 295
Augusto de Campos
Monte Santo
I
É que em um de seus flancos,
escritas em caligrafia ciclópica
com grandes pedras arrumadas,
apareciam letras singulares
—um A, um L e um S—
ladeadas por uma cruz,
de modo a
fazerem crer
que estava ali e não avante,
para o ocidente ou para o sul,
o eldorado apetecido.
II
E fez-se o templo prodigioso,
monumento
erguido pela natureza e pela fé,
mais alto que as mais altas catedrais da terra.
III
Amparada por muros capeados;
calcada, em certos trechos;
tendo, noutros,
como leito,
a rocha viva talhada em degraus,
ou rampeada,
aquela estrada branca, de quartzito,
onde ressoam, há cem anos,
as litanias das procissões da quaresma
e têm passado legiões de penitentes,
é um prodígio
de engenharia rude e audaciosa.
IV
A religiosidade ingênua dos matutos
ali talhou, em milhares de degraus,
coleante,
em caracol
pelas ladeiras sucessivas,
aquela vereda branca de sílica,
longa de mais de dois quilômetros,
como se construísse
uma estrada para os céus...
É que em um de seus flancos,
escritas em caligrafia ciclópica
com grandes pedras arrumadas,
apareciam letras singulares
—um A, um L e um S—
ladeadas por uma cruz,
de modo a
fazerem crer
que estava ali e não avante,
para o ocidente ou para o sul,
o eldorado apetecido.
II
E fez-se o templo prodigioso,
monumento
erguido pela natureza e pela fé,
mais alto que as mais altas catedrais da terra.
III
Amparada por muros capeados;
calcada, em certos trechos;
tendo, noutros,
como leito,
a rocha viva talhada em degraus,
ou rampeada,
aquela estrada branca, de quartzito,
onde ressoam, há cem anos,
as litanias das procissões da quaresma
e têm passado legiões de penitentes,
é um prodígio
de engenharia rude e audaciosa.
IV
A religiosidade ingênua dos matutos
ali talhou, em milhares de degraus,
coleante,
em caracol
pelas ladeiras sucessivas,
aquela vereda branca de sílica,
longa de mais de dois quilômetros,
como se construísse
uma estrada para os céus...
1 280
Torquato Tasso
NA MORTE DE MARGARIDA BENTIVOGLIO
Não é isto um morrer,
imortal Margarida,
ma, um passa,, mais cedo a uma, outra vida;
nem dessa ignota via
dor te descore ou prema,
mas só piedade na partida extrema.
De nós penosa e pia,
de ti feliz, segura,
te despedes do mundo, ó alma pura.
imortal Margarida,
ma, um passa,, mais cedo a uma, outra vida;
nem dessa ignota via
dor te descore ou prema,
mas só piedade na partida extrema.
De nós penosa e pia,
de ti feliz, segura,
te despedes do mundo, ó alma pura.
1 157
Augusto de Campos
A igreja nova
A antiga capela não bastava.
Mal sobranceava os colmos achatados.
Começou a erigir-se a igreja nova.
Delineara-a o próprio Conselheiro,
sem módulos, sem proporções, sem regras.
Frisos grosseiros e volutas impossíveis
cabriolando
num delírio de curvas incorretas.
Era sua obra-prima.
Ali passava os dias,
sobre os andaimes altos e bailéus bamboantes.
O povo enxameando embaixo
estremecia muita vez ao vê-lo
passar, lentamente,
sobre as tábuas flexuosas e oscilantes,
impassível,
sem um tremor no rosto bronzeado e rígido,
feito uma cariátide errante
sobre o edifício monstruoso.
Mal sobranceava os colmos achatados.
Começou a erigir-se a igreja nova.
Delineara-a o próprio Conselheiro,
sem módulos, sem proporções, sem regras.
Frisos grosseiros e volutas impossíveis
cabriolando
num delírio de curvas incorretas.
Era sua obra-prima.
Ali passava os dias,
sobre os andaimes altos e bailéus bamboantes.
O povo enxameando embaixo
estremecia muita vez ao vê-lo
passar, lentamente,
sobre as tábuas flexuosas e oscilantes,
impassível,
sem um tremor no rosto bronzeado e rígido,
feito uma cariátide errante
sobre o edifício monstruoso.
1 683
Emily Dickinson
NUNCA VI UM CAMPO DE URZES
Nunca vi um campo de urzes.
Também nunca vi o mar.
No entanto sei o urze como é,
Posso a onda imaginar.
Nunca estive no Céu.
Nem vi Deus. Todavia
Conheço o sítio como se
Tivesse em mãos um guia.
Também nunca vi o mar.
No entanto sei o urze como é,
Posso a onda imaginar.
Nunca estive no Céu.
Nem vi Deus. Todavia
Conheço o sítio como se
Tivesse em mãos um guia.
2 185
Emily Dickinson
À PORTA DE DEUS
Duas vezes perdi tudo
E foi debaixo da terra.
Duas vezes parei mendiga
Á porta de Deus.
Duas vezes os anjos, descendo dos céus,
Reembolsaram-me de minhas provisões.
Ladrão, banqueiro, pai,
Estou pobre mais uma vez!
E foi debaixo da terra.
Duas vezes parei mendiga
Á porta de Deus.
Duas vezes os anjos, descendo dos céus,
Reembolsaram-me de minhas provisões.
Ladrão, banqueiro, pai,
Estou pobre mais uma vez!
1 926
Antonio Machado
PARÁBOLAS
VI
O Deus que todos levamos,
o Deus que todos fazemos,
o Deus que todos buscamos
e que nunca encontraremos:
três deuses e três pessoas
do único Deus verdadeiro.
O Deus que todos levamos,
o Deus que todos fazemos,
o Deus que todos buscamos
e que nunca encontraremos:
três deuses e três pessoas
do único Deus verdadeiro.
1 612
John Keats
SONETO ESCRITO EM REPULSA
DA VULGAR SUPERSTIÇÃO
Os sinos dobram com melancolia
Chamando o povo para as devoções,
Outras tristezas, outras contrições,
E o hórrido sermão que o padre esfia.
Sem dúvida que os homens por magia
Sinistra estão vencidos: se as visões
Ao canto do seu lar ou as canções
Pagãs els trocam por tal fantasia.
E dobram, dobram... Mas não me estremece
Funéreo calafrio, pois que os sei
Morrendo aos poucos qual candeia finda.
São els quem chora a morte que os empece.
Há-de florir de novo a humana grei
Em pura glória mais eterna ainda.
Os sinos dobram com melancolia
Chamando o povo para as devoções,
Outras tristezas, outras contrições,
E o hórrido sermão que o padre esfia.
Sem dúvida que os homens por magia
Sinistra estão vencidos: se as visões
Ao canto do seu lar ou as canções
Pagãs els trocam por tal fantasia.
E dobram, dobram... Mas não me estremece
Funéreo calafrio, pois que os sei
Morrendo aos poucos qual candeia finda.
São els quem chora a morte que os empece.
Há-de florir de novo a humana grei
Em pura glória mais eterna ainda.
1 487
Jonathan Griffin
O CREDO AGNÓSTICO
Meu timbre a dúvida. Acredito
no credo agnóstico - duvidar até estar morto
e contudo viver para acolher
não fugir ao dar-se do acto da fé,
não fugir a desconfiar dele, até que a morte
aqui está, alisou a fé e a dúvida.
no credo agnóstico - duvidar até estar morto
e contudo viver para acolher
não fugir ao dar-se do acto da fé,
não fugir a desconfiar dele, até que a morte
aqui está, alisou a fé e a dúvida.
940
Castro Alves
HEBRÉIA
Flos campi et lilium
convallium
(Cântico
dos Cânticos)
Pomba desprança sobre um mar descolhos!
Lírio do vale oriental, brilhante!
Estrela vésper do pastor errante!
Ramo de murta a recender cheirosa!. ..
Tu és, ó filha de Israel formosa...
Tu és, ó linda, sedutora Hebréia...
Pálida rosa da infeliz Judéia
Sem ter o orvalho, que do céu deriva!
Por que descoras, quando a tarde esquiva
Mira-se triste sobre o azul das vagas?
Serão saudades das infindas plagas,
Onde a oliveira no Jordão se inclina?
Sonhas acaso, quando o sol declina,
A terra santa do Oriente imenso?
E as caravanas no deserto extenso?
E os pegureiros da palmeira à sombra?!...
Sim, fora belo na relvosa alfombra,
Junto da fonte, onde Raquel gemera,
Viver contigo qual Jacó vivera
Guiando escravo teu feliz rebanho..
Depois nas águas de cheiroso banho
Como Susana a estremecer de frio --
Fitar-te, ó flor do babilônio rio,
Fitar-te a medo no salgueiro oculto...
Vem pois!... Contigo no deserto inculto,
Fugindo às iras de Saul embora,
Davi eu fora, -- se Micol tu foras,
Vibrando na harpa do profeta o canto...
Não vês?... Do seio me goteja o pranto
Qual da torrente do Cédron deserto!...
Como lutara o patriarca incerto
Lutei, meu anjo, mas caí vencido.
Eu sou o lótus para o chão pendido.
Vem ser o orvalho oriental, brilhante!.
Ai! guia o passo ao viajor perdido,
Estrela vésper do pastor errante!...
convallium
(Cântico
dos Cânticos)
Pomba desprança sobre um mar descolhos!
Lírio do vale oriental, brilhante!
Estrela vésper do pastor errante!
Ramo de murta a recender cheirosa!. ..
Tu és, ó filha de Israel formosa...
Tu és, ó linda, sedutora Hebréia...
Pálida rosa da infeliz Judéia
Sem ter o orvalho, que do céu deriva!
Por que descoras, quando a tarde esquiva
Mira-se triste sobre o azul das vagas?
Serão saudades das infindas plagas,
Onde a oliveira no Jordão se inclina?
Sonhas acaso, quando o sol declina,
A terra santa do Oriente imenso?
E as caravanas no deserto extenso?
E os pegureiros da palmeira à sombra?!...
Sim, fora belo na relvosa alfombra,
Junto da fonte, onde Raquel gemera,
Viver contigo qual Jacó vivera
Guiando escravo teu feliz rebanho..
Depois nas águas de cheiroso banho
Como Susana a estremecer de frio --
Fitar-te, ó flor do babilônio rio,
Fitar-te a medo no salgueiro oculto...
Vem pois!... Contigo no deserto inculto,
Fugindo às iras de Saul embora,
Davi eu fora, -- se Micol tu foras,
Vibrando na harpa do profeta o canto...
Não vês?... Do seio me goteja o pranto
Qual da torrente do Cédron deserto!...
Como lutara o patriarca incerto
Lutei, meu anjo, mas caí vencido.
Eu sou o lótus para o chão pendido.
Vem ser o orvalho oriental, brilhante!.
Ai! guia o passo ao viajor perdido,
Estrela vésper do pastor errante!...
1 691
Anónimo Francês do Século IX
A MORTE DE ROLANDO
À sombra de um pinheiro, estende-se Rolando,
E volta para Espanha a sua face.
Muitas coisas começa a recordar:
As terras que, barão, tem conquistado,
A doce França, os seus iguais no sangue,
O Imperador, que proteção lhe deu,
Os franceses, dos quais é tanto amado.
E contra o seu querer, chora e suspira;
De si, porém, deseja se lembrar:
Bate no peito e pede a Deus perdão:
Ó verdadeiro Pai, que nunca mentes,
Que Lázaro da morte libertaste
E, dos leões, salvaste Daniel,
A minha alma preserva do perigo,
Pelos pecados que na vida fiz!
A Deus entrega a luva da direita,
São Gabriel a toma em sua mão.
A cabeça, no braço, reclinando,
De mãos postas, chegou ao fim da vida.
lhe envia Deus seu anjo querubim
E São Miguel-Arcanjo-do-Perigo;
Juntamente com ele vem Gabriel
E a alma do conde levam para o céu.
E volta para Espanha a sua face.
Muitas coisas começa a recordar:
As terras que, barão, tem conquistado,
A doce França, os seus iguais no sangue,
O Imperador, que proteção lhe deu,
Os franceses, dos quais é tanto amado.
E contra o seu querer, chora e suspira;
De si, porém, deseja se lembrar:
Bate no peito e pede a Deus perdão:
Ó verdadeiro Pai, que nunca mentes,
Que Lázaro da morte libertaste
E, dos leões, salvaste Daniel,
A minha alma preserva do perigo,
Pelos pecados que na vida fiz!
A Deus entrega a luva da direita,
São Gabriel a toma em sua mão.
A cabeça, no braço, reclinando,
De mãos postas, chegou ao fim da vida.
lhe envia Deus seu anjo querubim
E São Miguel-Arcanjo-do-Perigo;
Juntamente com ele vem Gabriel
E a alma do conde levam para o céu.
933
Virna G. Teixeira
Visita
criado-mudo:
bíblia e
rosário de contas
na cama, ao lado
a nudez
sem nome
bíblia e
rosário de contas
na cama, ao lado
a nudez
sem nome
355
Maria do Carmo Lobato
Fusão
É este sentimento que a mim me une a ti, Ana,
E que brame no imenso mar infinito do meu ser,
Que a mim me sacode o peito e a mim me acende e inflama
E com ele a mim me deleito pelo teu querer.
É este sentimento enorme que em mim se derrama
E punge no meu peito e arde e por ti chama
E em chama ardente queima e eu mim fogoso chama
Teu vigoroso nome, Ana, na conclama do meu ser que o pronuncia,
E a mim transcende o corpo e a mim me invade o espírito
E me unifico em ritos e grito com tua voz,
Que cala no meu peito urdido em grã silêncio,
Quem grã fala eloqüêntica me grita nossos nós,
Fundidos em fusão catártica e autêntica,
Silêntica unifico no seio nossos sós.
E que brame no imenso mar infinito do meu ser,
Que a mim me sacode o peito e a mim me acende e inflama
E com ele a mim me deleito pelo teu querer.
É este sentimento enorme que em mim se derrama
E punge no meu peito e arde e por ti chama
E em chama ardente queima e eu mim fogoso chama
Teu vigoroso nome, Ana, na conclama do meu ser que o pronuncia,
E a mim transcende o corpo e a mim me invade o espírito
E me unifico em ritos e grito com tua voz,
Que cala no meu peito urdido em grã silêncio,
Quem grã fala eloqüêntica me grita nossos nós,
Fundidos em fusão catártica e autêntica,
Silêntica unifico no seio nossos sós.
1 103
Douglas Mondo
Puta-Maria
Infeliz vai sentida:
mal sabe o papel
que tem na vida.
Dar prazer e guarida;
do amor ser sossego
a quem nunca teve partida.
Do suor fazer tempero,
e da flor nunca ter afago;
doutro corpo o acre-cheiro.
O gozo presente negado,
e na pele o rasgo nu;
por amor algum trocado.
Infeliz vai adormecida;
pela paga não tem fome,
é gruta santa da forte cuspida.
É Maria,
é Puta-Maria,
é santa
da putaria.
mal sabe o papel
que tem na vida.
Dar prazer e guarida;
do amor ser sossego
a quem nunca teve partida.
Do suor fazer tempero,
e da flor nunca ter afago;
doutro corpo o acre-cheiro.
O gozo presente negado,
e na pele o rasgo nu;
por amor algum trocado.
Infeliz vai adormecida;
pela paga não tem fome,
é gruta santa da forte cuspida.
É Maria,
é Puta-Maria,
é santa
da putaria.
1 165
Anjo Hazel
Adoração
Como beato, ajoelho-me por teu corpo...
Perdoai-me porque te desejo tanto.
Temo em ver tua boca evocar anjos caindo sobre Gomorra...
Bem aventurados os que amam, porque o céu é o limite.
Transforme meu sangue em vinho
e nele te embriague.
Beija meu rosto perante àqueles que me perseguem.
Negue que me amas três vezes antes do amanhecer.
O Senhor é mais que meu Pastor.
Ele me crucifica...
Cometi um pecado nada original.
Ao fechar os olhos em prece me é revelado...
Não sou tua fé.
Não és minha Messias.
Perdoai-me porque te desejo tanto.
Temo em ver tua boca evocar anjos caindo sobre Gomorra...
Bem aventurados os que amam, porque o céu é o limite.
Transforme meu sangue em vinho
e nele te embriague.
Beija meu rosto perante àqueles que me perseguem.
Negue que me amas três vezes antes do amanhecer.
O Senhor é mais que meu Pastor.
Ele me crucifica...
Cometi um pecado nada original.
Ao fechar os olhos em prece me é revelado...
Não sou tua fé.
Não és minha Messias.
1 091
Cristiane Neder
Águas de Forestier
O vinho que toca seus lábios
desperta o pecado
em um pobre pagão
que sonha com o paraíso,
onde todas as águas
se transformam em vinho,
dos rios, lagos, marés e cachoeiras,
salgadas, doces, porém todas vermelhas.
Lavando seus pés,
molhando os seus seios,
escorrendo sobre todo seu corpo
o doce veneno,
que nos embriaga a sede de outras paixões.
Pequenos Bacos
brincando de serem anões,
e todo pecado será desculpado
por todo motivo impulsionado por prazer.
Toda musa será deusa,
todo ateu será josé,
e o pecado é não beber
da fonte das águas de Forestier.
935