Poemas neste tema
Fé, Espiritualidade e Religião
Daniel Faria
Há uma palavra pessoa
Há uma palavra pessoa
Uma palavra pregada ao silêncio de dizer-se como nunca fora ouvida
E nela dizer-se posso existir.
Só posso viver cabendo nela.
Habito-a
Como Jonas o grande peixe.
Ela pronuncia-me
Traz-me em viagem do nada para o silêncio-exemplifico-o com a luz
de um homem que ressuscita-sustenta-me
Como o jejum alimentado em Nínive
Mas também posso ser um vaso para ela
-um vaso não,outra coisa qualquer que não consigo
comparar às coisas da terra-um lugar tão verdadeiro
Que mesmo a luz em suas praças,pátios e alpendres
Só imprecisamente é capaz de assinalar
E como salva a cinza em Nínive espalhando-se
Eu posso propagá-la
E posso amá-la até me transformar.
de Homens Que São Como Lugares Mal Situados(1998)
Uma palavra pregada ao silêncio de dizer-se como nunca fora ouvida
E nela dizer-se posso existir.
Só posso viver cabendo nela.
Habito-a
Como Jonas o grande peixe.
Ela pronuncia-me
Traz-me em viagem do nada para o silêncio-exemplifico-o com a luz
de um homem que ressuscita-sustenta-me
Como o jejum alimentado em Nínive
Mas também posso ser um vaso para ela
-um vaso não,outra coisa qualquer que não consigo
comparar às coisas da terra-um lugar tão verdadeiro
Que mesmo a luz em suas praças,pátios e alpendres
Só imprecisamente é capaz de assinalar
E como salva a cinza em Nínive espalhando-se
Eu posso propagá-la
E posso amá-la até me transformar.
de Homens Que São Como Lugares Mal Situados(1998)
1 897
Gilson Nascimento
Rosa imortal
Minha mãe, pálida e fria
Mudez no gesto, na fala
Minha mãe que já não reza
Minha mãe de olhar apagado
De mãos álgida, inúteis
Não acenam.
Não abençoam.
Riso sem cor – desbotado
Palavra inerte – não soa
Lábios murchos – não se abrem
Flores que o vento da morte
Despetalando, esboroa
Mãe partindo às horas mortas
Do porto alvo da aurora
Nos braços da madrugada
Sem despedida, sem laivo
De beijo, de abraço ou riso.
Mãe – flor que não emurchece
Não cresta, não perde o brilh
Rosa orvalhada de prece
No jardim da alma do filho.
Mudez no gesto, na fala
Minha mãe que já não reza
Minha mãe de olhar apagado
De mãos álgida, inúteis
Não acenam.
Não abençoam.
Riso sem cor – desbotado
Palavra inerte – não soa
Lábios murchos – não se abrem
Flores que o vento da morte
Despetalando, esboroa
Mãe partindo às horas mortas
Do porto alvo da aurora
Nos braços da madrugada
Sem despedida, sem laivo
De beijo, de abraço ou riso.
Mãe – flor que não emurchece
Não cresta, não perde o brilh
Rosa orvalhada de prece
No jardim da alma do filho.
755
Giselda Medeiros
Parábola do Amor Recém-Nascido
E disse-me a Noite:
"Cairá sobre ti o indizível da minha boca,
e as canções de ninar, que eu não tive, e
embalarão todos os teus medos
que dormirão na paz infinda dos segredos.
E não temas: serei a tua bússola
no frenesi afoito dos ocasos;
serei a mão de trevas que há de te guiar nos longes
dos meus domínios de negra majestade.
Carrego as chaves que abrem as alvoradas
onde as estrelas, precursoras de caminhos,
semeiam seus momentos de saudade.
Acordarei, de um sono milenar,
o deus dos deuses — o supremo Amor
e ordenarei que ele te alcance
com um só raio do seu olhar.
E tu, analfabeta diante das procuras,
hás de ser sábia na busca dos prazeres
e, no teu ventre estéril de esperança,
fecundarei a tua própria vida,
e nascerás do Amor em tuas próprias mãos."
"Cairá sobre ti o indizível da minha boca,
e as canções de ninar, que eu não tive, e
embalarão todos os teus medos
que dormirão na paz infinda dos segredos.
E não temas: serei a tua bússola
no frenesi afoito dos ocasos;
serei a mão de trevas que há de te guiar nos longes
dos meus domínios de negra majestade.
Carrego as chaves que abrem as alvoradas
onde as estrelas, precursoras de caminhos,
semeiam seus momentos de saudade.
Acordarei, de um sono milenar,
o deus dos deuses — o supremo Amor
e ordenarei que ele te alcance
com um só raio do seu olhar.
E tu, analfabeta diante das procuras,
hás de ser sábia na busca dos prazeres
e, no teu ventre estéril de esperança,
fecundarei a tua própria vida,
e nascerás do Amor em tuas próprias mãos."
1 145
Gustavo Luz
Vamos Torcer
O amor é palavra doentia.
É isso mesmo doentia!
Que enlouquece os jovens
Jovens ficam doentes de amor.
É um mal sem cura.
Mas quem quer ser curado?
Quem nunca enlouqueceu,
Nunca viveu de verdade!
Como são bons esses momentos.
Eu tô maluco!
É engraçado,
Esse verso faz parte de uma melodia.
É de outro poeta.
Mas que diz tudo.
Resume a minha dor,
Os meus pensamentos.
Como não pensei nisso antes?
Estou louco!
Louco de amor.
Estou confuso!
Confuso por estar louco.
Estou inseguro!
Inseguro por estar confuso.
Estou com medo!
Medo que um dia tudo acabe.
E agora?
Será que um dia vai tudo acabar?
Será que um dia vou me curar?
Quantas perguntas.
Não, não quero mais pensar nisso.
Vou deixar acontecer.
E torcer para que Deus,
Não tenha se esquecido,
Como se escreve certo,
Pelas linhas tortas.
Tomara que não!!!
É isso mesmo doentia!
Que enlouquece os jovens
Jovens ficam doentes de amor.
É um mal sem cura.
Mas quem quer ser curado?
Quem nunca enlouqueceu,
Nunca viveu de verdade!
Como são bons esses momentos.
Eu tô maluco!
É engraçado,
Esse verso faz parte de uma melodia.
É de outro poeta.
Mas que diz tudo.
Resume a minha dor,
Os meus pensamentos.
Como não pensei nisso antes?
Estou louco!
Louco de amor.
Estou confuso!
Confuso por estar louco.
Estou inseguro!
Inseguro por estar confuso.
Estou com medo!
Medo que um dia tudo acabe.
E agora?
Será que um dia vai tudo acabar?
Será que um dia vou me curar?
Quantas perguntas.
Não, não quero mais pensar nisso.
Vou deixar acontecer.
E torcer para que Deus,
Não tenha se esquecido,
Como se escreve certo,
Pelas linhas tortas.
Tomara que não!!!
943
Alex Brasil
Ci fi lização
A igreja está morta,
e os vermes se multiplicam sobre seu cadáver.
Deus está sendo cuspido no Oriente Médio,
na Índia, no Irã,
na boca do Papa,
nas Américas humilhadas por caciques de quepe e fuzil.
Está surgindo uma nova era de gerações sem causa,
sem destino,
acorrentadas e tangidas
por capitalistas tiranos;
por falsos profetas...
Está surgindo a era
em que morrerão as baleias e os humanos,
e serão poucos, muito poucos o verde e os poetas.
e os vermes se multiplicam sobre seu cadáver.
Deus está sendo cuspido no Oriente Médio,
na Índia, no Irã,
na boca do Papa,
nas Américas humilhadas por caciques de quepe e fuzil.
Está surgindo uma nova era de gerações sem causa,
sem destino,
acorrentadas e tangidas
por capitalistas tiranos;
por falsos profetas...
Está surgindo a era
em que morrerão as baleias e os humanos,
e serão poucos, muito poucos o verde e os poetas.
980
Leonardo Aires Araujo
Se chorar é realmente olhar para o céu
Se chorar é realmente olhar para o céu
Se chorar é realmente olhar para o céu em direção de alívio
Ergue-se aos dividendos daqueles que proclamam
que viver é ignorar a arte dos atos de um caminho sem volta.
Diga uma só lembrança das voltas por entre buracos de cérebros carnais!
E valei-me de sua ignorância futilmente saborosa.
Porque aquele que disser que as metas estão levando nossas almas para certas
dádivas descompactas,
Achará que meus olhos são frutos de uma imaginação retórica,
Feitos de um sentimento mesquinho e inevitavelmente verdadeiro.
Sei, aqueles que estão, não são complexos e desejados àqueles que eu gostaria
ao estar dentro deles
Despojarei meus receios numa limiar de dor e raiva.
Serei uma resposta aos mistérios daquilo que inutimente lutei para não ser
E que as chaves perderam-se no infinito
Do local que se chama coração.
Se chorar é realmente olhar para o céu em direção de alívio
Ergue-se aos dividendos daqueles que proclamam
que viver é ignorar a arte dos atos de um caminho sem volta.
Diga uma só lembrança das voltas por entre buracos de cérebros carnais!
E valei-me de sua ignorância futilmente saborosa.
Porque aquele que disser que as metas estão levando nossas almas para certas
dádivas descompactas,
Achará que meus olhos são frutos de uma imaginação retórica,
Feitos de um sentimento mesquinho e inevitavelmente verdadeiro.
Sei, aqueles que estão, não são complexos e desejados àqueles que eu gostaria
ao estar dentro deles
Despojarei meus receios numa limiar de dor e raiva.
Serei uma resposta aos mistérios daquilo que inutimente lutei para não ser
E que as chaves perderam-se no infinito
Do local que se chama coração.
717
Raimundo Bento Sotero
Separação
Dá-me cedo, Senhor, humilde assento
Ao lado da que foi tão de repente,
Pois desde o dia em que se fez ausente
Que vivo entre um soluço e um Lamento.
Oh! Como dói, meu Deus, o sentimento
De perder quem a vida não consente
Que nem um só instante saia à mente,
Pois se eterniza cá no sofrimento!
Vou assim, por sol quente e noite fria,
Arrastando meu fardo de agonia
Como um doente já de "Sentinela".
Leva-me, Pai, também à tua presença.
A Morte para mim é recompensa:
Melhor morrer a viver longe Dela!
Ao lado da que foi tão de repente,
Pois desde o dia em que se fez ausente
Que vivo entre um soluço e um Lamento.
Oh! Como dói, meu Deus, o sentimento
De perder quem a vida não consente
Que nem um só instante saia à mente,
Pois se eterniza cá no sofrimento!
Vou assim, por sol quente e noite fria,
Arrastando meu fardo de agonia
Como um doente já de "Sentinela".
Leva-me, Pai, também à tua presença.
A Morte para mim é recompensa:
Melhor morrer a viver longe Dela!
952
Juscelino Vieira Mendes
O Salvador
Porque isto é bom e agradável
diante de Deus nosso Salvador,
Que quer que todos os homens
se salvem, e venham ao conhecimento da verdade.
I Timóteo 2:3,4
Silêncio!
Templos repletos.
Nesta hora,
oram por ti,
velam por ti,
clamam por ti....
Respeito!
Ouça!
Belos cantos.
Falam de ternura, amor, salvação;
cantam, cantam, por tantos!
Por ti.
Oram com ardor
e velam vivos para que tenham vida
no Salvador...
Por que anseiam que tenhas vida,
se muitos querem prosélitos?...
Já não lhes bastam a lida?
Oh! Não buscam méritos!
Obedecem por gratidão
um salvar pretérito.
Ouça!
Velam por ti
como se fora louça
Velam por ti
para que não te quebres...
Ouça!
Não querem que pereças;
que vagues como ninguém;
que, sem propósito, te desfaleças;
que fujas do além
que ignores o porvir,
que certamente vem.
Não querem que Zaratustra e o devir
busques para a tua definitiva
e horrenda perdição, que há de vir.
A doutrina destrutiva
do niilismo não combina
com a natureza humana sempre-viva.
Ouça!
Clamam por ti
para que tenhas tempo
de decidir...
se queres alento,
perene alegria,
ou tudo por breve momento...
Não tens no porvir alegoria!
E no céu não entrarás
por vã filosofia...
Quem te conduzirás?...
Nem mesmo por Virgílio
Poeta soberbo te guiarás
como se fora um idílio.
Ouça!
Clamam por ti
para que vejas...
(aqui e ali)
O sublime amor de Deus
e da Luz eterna possas gozar,
reservada aos filhos Seus.
Não te permitas desanimar!
Não te cerres a Porta da Mansão
que te farás sublime amor encontrar.
Sabes tu, criatura — em vão —,
que por lei não podes entrar
a despeito dos labores de tua mão?...
Nisto tens que pensar
pois na incerteza
não podes ficar.
Ouça!
Clamam por ti
para que, nesta vida incerta,
conheças...
A Verdade que liberta,
enaltece a coroa da criação
e te livra da segunda morte certa.
Abra teu coração
e permitas nele Jesus
entrar, e cante uma nova canção...
Por ti teve morte de cruz.
Não como um espetáculo teatral
mas para que recebas a luz.
Ah! Como obter a vida eternal
se Jesus no túmulo ficasse?
Seria o final...
Mas, num passe,
dentre os mortos ressurgiu
mostrando sua face.
Ouça!
Oram por ti
Velam por ti
Clamam por ti
Para que vivas a adorada
Pessoa de Cristo, e não a imagem
de uma figura desfigurada.
— "Disse-lhe Jesus: Eu sou a
ressurreição e a vida; quem
crê em mim, ainda que esteja
morto viverá, e todo aquele que vive
e crê em mim, nunca morrerá. Crês isto?" —
Silêncio!
Clamam por ti.
Domingo pascal, 30 de março de 1997.
Notas:
"Assim Falou Zaratustra" - Obra do filósofo alemão Friedrich W. Nietzsche.
Vide Carta de Paulo aos Colossenses, cap. 2:8
Referência à Divina Comédia - Inferno - Canto I - Durante Aldighiero.
"E temeu, e disse: Quão terrível é este lugar! Este não é outro lugar senão a casa de Deus; e esta é a porta dos céus." - Gênesis 28:17.
"E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará." - Palavras de Jesus Cristo - João 8:32.
Palavras de Jesus em João 11:25,26
diante de Deus nosso Salvador,
Que quer que todos os homens
se salvem, e venham ao conhecimento da verdade.
I Timóteo 2:3,4
Silêncio!
Templos repletos.
Nesta hora,
oram por ti,
velam por ti,
clamam por ti....
Respeito!
Ouça!
Belos cantos.
Falam de ternura, amor, salvação;
cantam, cantam, por tantos!
Por ti.
Oram com ardor
e velam vivos para que tenham vida
no Salvador...
Por que anseiam que tenhas vida,
se muitos querem prosélitos?...
Já não lhes bastam a lida?
Oh! Não buscam méritos!
Obedecem por gratidão
um salvar pretérito.
Ouça!
Velam por ti
como se fora louça
Velam por ti
para que não te quebres...
Ouça!
Não querem que pereças;
que vagues como ninguém;
que, sem propósito, te desfaleças;
que fujas do além
que ignores o porvir,
que certamente vem.
Não querem que Zaratustra e o devir
busques para a tua definitiva
e horrenda perdição, que há de vir.
A doutrina destrutiva
do niilismo não combina
com a natureza humana sempre-viva.
Ouça!
Clamam por ti
para que tenhas tempo
de decidir...
se queres alento,
perene alegria,
ou tudo por breve momento...
Não tens no porvir alegoria!
E no céu não entrarás
por vã filosofia...
Quem te conduzirás?...
Nem mesmo por Virgílio
Poeta soberbo te guiarás
como se fora um idílio.
Ouça!
Clamam por ti
para que vejas...
(aqui e ali)
O sublime amor de Deus
e da Luz eterna possas gozar,
reservada aos filhos Seus.
Não te permitas desanimar!
Não te cerres a Porta da Mansão
que te farás sublime amor encontrar.
Sabes tu, criatura — em vão —,
que por lei não podes entrar
a despeito dos labores de tua mão?...
Nisto tens que pensar
pois na incerteza
não podes ficar.
Ouça!
Clamam por ti
para que, nesta vida incerta,
conheças...
A Verdade que liberta,
enaltece a coroa da criação
e te livra da segunda morte certa.
Abra teu coração
e permitas nele Jesus
entrar, e cante uma nova canção...
Por ti teve morte de cruz.
Não como um espetáculo teatral
mas para que recebas a luz.
Ah! Como obter a vida eternal
se Jesus no túmulo ficasse?
Seria o final...
Mas, num passe,
dentre os mortos ressurgiu
mostrando sua face.
Ouça!
Oram por ti
Velam por ti
Clamam por ti
Para que vivas a adorada
Pessoa de Cristo, e não a imagem
de uma figura desfigurada.
— "Disse-lhe Jesus: Eu sou a
ressurreição e a vida; quem
crê em mim, ainda que esteja
morto viverá, e todo aquele que vive
e crê em mim, nunca morrerá. Crês isto?" —
Silêncio!
Clamam por ti.
Domingo pascal, 30 de março de 1997.
Notas:
"Assim Falou Zaratustra" - Obra do filósofo alemão Friedrich W. Nietzsche.
Vide Carta de Paulo aos Colossenses, cap. 2:8
Referência à Divina Comédia - Inferno - Canto I - Durante Aldighiero.
"E temeu, e disse: Quão terrível é este lugar! Este não é outro lugar senão a casa de Deus; e esta é a porta dos céus." - Gênesis 28:17.
"E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará." - Palavras de Jesus Cristo - João 8:32.
Palavras de Jesus em João 11:25,26
1 024
Jaumir Valença da Silveira
Iniciação
Diz-se que, quando menino,
Cristo brincava num vale,
moldando, em estátuas de argila,
as silhuetas das aves.
Era uma tarde de sábado.
O sol dourava as lembranças
mesclando ao frescor das águas
contornos da sua imagem.
Junto da argila molhada
colhida às margens do rio,
pingava o suor de uma fronte
crispada, tranqüila, estante,
como se o mundo parasse
- e há vezes que mesmo pára -
por doze estátuas de pó
que a gênese não contava.
Seu pai de carne esperava
cuidado com seus deveres.
Seu Pai, do Alto, esperava
que o seu fado se cumprisse.
Bem que o pequeno sabia
que o tempo ali era parco
e que furtar os segundos
era entregar-se de triste.
E não foi mais que um suspiro
amalgamado a um sorriso
que, ao levantar-se da terra,
deixou revelar o Cristo.
Mas já de costas pro rio,
criança que ainda era,
chorava que nem criança,
embora engolisse as águas.
E quando já caminhava,
tornou a fitar a margem,
dizendo, com o olhar perdido:
"Haveis de sofrer comigo".
E os passarinhos se foram,
sumindo à vista do vale.
Exceto por um que, antes,
suave, bicou sua face.
Cristo brincava num vale,
moldando, em estátuas de argila,
as silhuetas das aves.
Era uma tarde de sábado.
O sol dourava as lembranças
mesclando ao frescor das águas
contornos da sua imagem.
Junto da argila molhada
colhida às margens do rio,
pingava o suor de uma fronte
crispada, tranqüila, estante,
como se o mundo parasse
- e há vezes que mesmo pára -
por doze estátuas de pó
que a gênese não contava.
Seu pai de carne esperava
cuidado com seus deveres.
Seu Pai, do Alto, esperava
que o seu fado se cumprisse.
Bem que o pequeno sabia
que o tempo ali era parco
e que furtar os segundos
era entregar-se de triste.
E não foi mais que um suspiro
amalgamado a um sorriso
que, ao levantar-se da terra,
deixou revelar o Cristo.
Mas já de costas pro rio,
criança que ainda era,
chorava que nem criança,
embora engolisse as águas.
E quando já caminhava,
tornou a fitar a margem,
dizendo, com o olhar perdido:
"Haveis de sofrer comigo".
E os passarinhos se foram,
sumindo à vista do vale.
Exceto por um que, antes,
suave, bicou sua face.
945
Juscelino Vieira Mendes
Como será o céu?
Lá no céu, como seremos?
Estaremos a industriar, adorar
cantaremos,
ou vamos só amar?
Pensar no amanhã sem lida
é tão intrigante e fascinante
quanto pensar nesta vida
que nos é tão delirante
A vida é prêmio e felicidade
que recebemos num instante
a caminho da eternidade
É magnifico o céu antever
como lugar dos justificados
na ‘insustentável leveza do ser’.
Estaremos a industriar, adorar
cantaremos,
ou vamos só amar?
Pensar no amanhã sem lida
é tão intrigante e fascinante
quanto pensar nesta vida
que nos é tão delirante
A vida é prêmio e felicidade
que recebemos num instante
a caminho da eternidade
É magnifico o céu antever
como lugar dos justificados
na ‘insustentável leveza do ser’.
1 159
Juscelino Vieira Mendes
Pais Escolhidos
(para Lucas e Laura)
Madrugamos no desconhecido
Por ímpetos de felicidade
Em mundo hostil
Sem herdade
Inópia de tudo
Às escâncaras chegamos
Em busca de amor, inconscientemente
Sonhamos
Conheceríamos os verbos,
No imperativo
Por ato de amor, conhecemo-los
No futuro do subjuntivo
Amor
Não apenas amizade
Sem "ímpeto"
De sincera felicidade
De pais,
que no dizer de sumidade,
‘Trazem na retina
A alma da hospitalidade’
Pais escolhidos
Escolhidos por Deus
Com eterna candura
Dos filhos teus...
Madrugamos no desconhecido
Por ímpetos de felicidade
Em mundo hostil
Sem herdade
Inópia de tudo
Às escâncaras chegamos
Em busca de amor, inconscientemente
Sonhamos
Conheceríamos os verbos,
No imperativo
Por ato de amor, conhecemo-los
No futuro do subjuntivo
Amor
Não apenas amizade
Sem "ímpeto"
De sincera felicidade
De pais,
que no dizer de sumidade,
‘Trazem na retina
A alma da hospitalidade’
Pais escolhidos
Escolhidos por Deus
Com eterna candura
Dos filhos teus...
1 005
Jaumir Valença da Silveira
Matinal
Madrugada dada
ao firmamento.
O sol
vem trazido ao vento,
rosando o céu
e o roseiral.
Um tom maior
se eleva.
E leva, no colo,
o sonho dormido.
Manhã de novo,
o dia vem vindo.
Passa
o passaredo.
E o meu enredo
é passar
o passado
entre os dedos.
Dura a aurora
duradoura.
Doura
meu olhar.
Lacrimeja
o que a alma almeja.
Pois seja
o que Deus
desejar,
se é verdade
que Deus
deseja.
E apesar
de pesar
tanto a vida,
o meu canto
hoje eu vim
pra cantar.
ao firmamento.
O sol
vem trazido ao vento,
rosando o céu
e o roseiral.
Um tom maior
se eleva.
E leva, no colo,
o sonho dormido.
Manhã de novo,
o dia vem vindo.
Passa
o passaredo.
E o meu enredo
é passar
o passado
entre os dedos.
Dura a aurora
duradoura.
Doura
meu olhar.
Lacrimeja
o que a alma almeja.
Pois seja
o que Deus
desejar,
se é verdade
que Deus
deseja.
E apesar
de pesar
tanto a vida,
o meu canto
hoje eu vim
pra cantar.
1 075
Aloísio Miguel Marques
Sem Nome
A vida que a gente vive é um quadro que se pinta.
Depois da morte, passado o traumatismo
dos primeiros dias, daqueles que se foram,
largam-se os quadros, as longas galerias.
Quando nasci, recebi de Deus, Nosso Senhor,
material para pintar meu quadro.
Não quero julgar de inclemência
mas, por um descuido da Providência,
na palheta de tintas que me deu faltava o verde,
o verde da esperança.
Depois da morte, passado o traumatismo
dos primeiros dias, daqueles que se foram,
largam-se os quadros, as longas galerias.
Quando nasci, recebi de Deus, Nosso Senhor,
material para pintar meu quadro.
Não quero julgar de inclemência
mas, por um descuido da Providência,
na palheta de tintas que me deu faltava o verde,
o verde da esperança.
671
Juscelino Vieira Mendes
Sestina do Shema
I
São palavras ordenadas por Deus
para alcançar de Suas criaturas o coração
que está longe pós-queda sem poder,
com arrogância e tristeza nalma.
Portanto do único Senhor ouve
a fim de que possa ser
II
É suprema a graça daquele ser
que busca, na sapiência, e ouve;
que ama, com exaltação, ao único Deus;
que O adora de todo coração
e com profundidade e beleza de toda a sua alma
recebe Suas palavras de poder
III
e, intimando à prole desse poder,
assentado em casa e com o fervor do coração;
andando pelo caminho aberto por esse grande Deus;
deitando, para o descanso e ronovação do seu ser;
levantando de manhã, ouve!
E atando as palavras ordenadas por sinal na sua mão,
com alegria nalma
IV
entre os seus olhos, que são as portas dessa alma,
e por testeiras que identificam O Deus,
escritas serão nos umbrais de seu coração.
Da casa, cuja entrada, dignificará o seu ser;
nas portas, para que tenha poder.
Portanto, ouve!
V
Por que, Israel, não ouve,
para o bem de sua alma?
Se na boa terra o introduziu Deus,
que havia jurado a seus pais, poder!
Emanado de Seu Ser,
de Seu Coração!
VI
Quem amou dAbraão o coração?
Quem tornou a Isaque um ser?
Quem do Senhor recebeu poder?
Quem edificou a sua alma?
Portanto, Israel, Ouve!
Porque a tudo ordenou Deus...
VII
que o tornará um ser de poder
e de alma edificada para o bem do coração
se ouve, Israel, quem o tirou da casa da servidão: Deus.
2 de janeiro de 1997.
Poema baseado no texto bíblico de Deuteronômio 6:4-9 - "Por algum tempo durante o período do Segundo Templo, esta passagem bíblica foi escolhida para ser recitada duas vezes ao dia, pela manhã e à noite, por todos os judeus. Conhecida pela sua palavra inicial, Shemá, começa assim: "Escuta, ó Israel, o Senhor é nosso Deus, o Senhor é Um". Este versículo tornou-se o lema do judaísmo. É a primeira frase a ser ensinada a uma criança judia, e a última a ser pronunciada antes de morrer." Os Judeus e o Judaísmo, pág. 268, de David J. Goldberg e John D. Rayner - Trad. Paulo Geiger e Carlos André Oighenstein - Rio de Janeiro: Xenon Ed., 1989.
São palavras ordenadas por Deus
para alcançar de Suas criaturas o coração
que está longe pós-queda sem poder,
com arrogância e tristeza nalma.
Portanto do único Senhor ouve
a fim de que possa ser
II
É suprema a graça daquele ser
que busca, na sapiência, e ouve;
que ama, com exaltação, ao único Deus;
que O adora de todo coração
e com profundidade e beleza de toda a sua alma
recebe Suas palavras de poder
III
e, intimando à prole desse poder,
assentado em casa e com o fervor do coração;
andando pelo caminho aberto por esse grande Deus;
deitando, para o descanso e ronovação do seu ser;
levantando de manhã, ouve!
E atando as palavras ordenadas por sinal na sua mão,
com alegria nalma
IV
entre os seus olhos, que são as portas dessa alma,
e por testeiras que identificam O Deus,
escritas serão nos umbrais de seu coração.
Da casa, cuja entrada, dignificará o seu ser;
nas portas, para que tenha poder.
Portanto, ouve!
V
Por que, Israel, não ouve,
para o bem de sua alma?
Se na boa terra o introduziu Deus,
que havia jurado a seus pais, poder!
Emanado de Seu Ser,
de Seu Coração!
VI
Quem amou dAbraão o coração?
Quem tornou a Isaque um ser?
Quem do Senhor recebeu poder?
Quem edificou a sua alma?
Portanto, Israel, Ouve!
Porque a tudo ordenou Deus...
VII
que o tornará um ser de poder
e de alma edificada para o bem do coração
se ouve, Israel, quem o tirou da casa da servidão: Deus.
2 de janeiro de 1997.
Poema baseado no texto bíblico de Deuteronômio 6:4-9 - "Por algum tempo durante o período do Segundo Templo, esta passagem bíblica foi escolhida para ser recitada duas vezes ao dia, pela manhã e à noite, por todos os judeus. Conhecida pela sua palavra inicial, Shemá, começa assim: "Escuta, ó Israel, o Senhor é nosso Deus, o Senhor é Um". Este versículo tornou-se o lema do judaísmo. É a primeira frase a ser ensinada a uma criança judia, e a última a ser pronunciada antes de morrer." Os Judeus e o Judaísmo, pág. 268, de David J. Goldberg e John D. Rayner - Trad. Paulo Geiger e Carlos André Oighenstein - Rio de Janeiro: Xenon Ed., 1989.
968
Kideniro Teixeira
Velhos Poemas
São estes velhos poemas os retraços
Onde viveu... e a ressonância e o pó
Que levantaram pelo mundo os passos
De um homem só, desprotegido e só.
Soturnos como as águas do igapó,
Molambolando em céus de ermos mormaços,
São de minha alma as cicatrizes e oh!,
Anjos-da-Guarda — meus irmãos colaços!.
Alameda de sonhos... velho aprisco
Onde dormem mendigos de pés nus,
Tão puros como as mãos de São Francisco!
Vale açoitado pelos remoinhos...
Paisagem erma onde os mandacarus
Frutificaram pelos meus caminhos!
Onde viveu... e a ressonância e o pó
Que levantaram pelo mundo os passos
De um homem só, desprotegido e só.
Soturnos como as águas do igapó,
Molambolando em céus de ermos mormaços,
São de minha alma as cicatrizes e oh!,
Anjos-da-Guarda — meus irmãos colaços!.
Alameda de sonhos... velho aprisco
Onde dormem mendigos de pés nus,
Tão puros como as mãos de São Francisco!
Vale açoitado pelos remoinhos...
Paisagem erma onde os mandacarus
Frutificaram pelos meus caminhos!
1 104
Jaumir Valença da Silveira
Da Natureza Dos Anjos
Na casa, o coração era a lareira
e perto, eu descansava os pés gelados.
Não pude achar lembrança mais acesa:
lareira e pés. Sorri - fechava os olhos.
A vista curta de visão extensa - fogo;
a visão curta da vida extensa - negro.
As pálpebras contidas soluçavam.
Lá fora o vento frio uivava assombro.
Os olhos refletiam as labaredas,
as lágrimas ardiam manchas negras.
O fogo era maior fora de mim...
me lembro muito bem que há tanto fora.
Um dia foste parte do brinquedo.
É mesmo séria a história sobre os anjos?
Não posso dormir mesmo sem camisa?
O fogo me guardava - era preciso.
E tinha duas sombras o tapete.
Que voz ouvi atento, e fiquei quieto.
Que as asas não comportam ser tão leve,
os anjos não têm corpo e nem têm forma:
Que quando neste mundo quem precisa
encontra amparo e afeto nos teus ombros
e só por isto torna-te alegria
e a alma é como um fogo que não queima,
um anjo tomou conta do teu corpo
e fez pousada. E dele são teus atos.
Mas anjos não têm asas, é verdade,
portanto não se pode haver quem tolha.
E vai-se embora em busca de outro vivo.
(Mas dizem que, não raro, ele demora
o tempo que demora a vida inteira;
a etérea substância se confina).
e perto, eu descansava os pés gelados.
Não pude achar lembrança mais acesa:
lareira e pés. Sorri - fechava os olhos.
A vista curta de visão extensa - fogo;
a visão curta da vida extensa - negro.
As pálpebras contidas soluçavam.
Lá fora o vento frio uivava assombro.
Os olhos refletiam as labaredas,
as lágrimas ardiam manchas negras.
O fogo era maior fora de mim...
me lembro muito bem que há tanto fora.
Um dia foste parte do brinquedo.
É mesmo séria a história sobre os anjos?
Não posso dormir mesmo sem camisa?
O fogo me guardava - era preciso.
E tinha duas sombras o tapete.
Que voz ouvi atento, e fiquei quieto.
Que as asas não comportam ser tão leve,
os anjos não têm corpo e nem têm forma:
Que quando neste mundo quem precisa
encontra amparo e afeto nos teus ombros
e só por isto torna-te alegria
e a alma é como um fogo que não queima,
um anjo tomou conta do teu corpo
e fez pousada. E dele são teus atos.
Mas anjos não têm asas, é verdade,
portanto não se pode haver quem tolha.
E vai-se embora em busca de outro vivo.
(Mas dizem que, não raro, ele demora
o tempo que demora a vida inteira;
a etérea substância se confina).
987
Carlos Saraiva Pinto
valerá a pena escrever a neve
valerá a pena escrever a neve
em carreiros de água,
como se a noite fosse o líquido
que obedece às películas da distância.
a impressão ágil da sombra
que produz o efeito das tílias
e o sossego longínquo
do nada iluminado.
sobre a boca encontrarás
o sinal do silêncio
a sua mãe terrestre
que esquece as ervas,
os socalcos leves
que chegam ao rio
mortos em verbo.
valerá a pena
a asa envolvente do jasmim
o anjo insubmisso do trigo,
ou o espelho sonoro
que guarda a metafísica dos caminhos.
como o céu e o carvalho milenar,
o leito é isento de mágoa,
e a porta dos peregrinos
busca a religião da luz.
ouve e repara a teimosia
do vinhático
em perfumar o ar.
é inútil o tacto da boca.
descerás
pelos campos subterrâneos da névoa
e crescerá em ti
o profano esquecimento de tudo.
de Escrever Foi um Engano(2000)
em carreiros de água,
como se a noite fosse o líquido
que obedece às películas da distância.
a impressão ágil da sombra
que produz o efeito das tílias
e o sossego longínquo
do nada iluminado.
sobre a boca encontrarás
o sinal do silêncio
a sua mãe terrestre
que esquece as ervas,
os socalcos leves
que chegam ao rio
mortos em verbo.
valerá a pena
a asa envolvente do jasmim
o anjo insubmisso do trigo,
ou o espelho sonoro
que guarda a metafísica dos caminhos.
como o céu e o carvalho milenar,
o leito é isento de mágoa,
e a porta dos peregrinos
busca a religião da luz.
ouve e repara a teimosia
do vinhático
em perfumar o ar.
é inútil o tacto da boca.
descerás
pelos campos subterrâneos da névoa
e crescerá em ti
o profano esquecimento de tudo.
de Escrever Foi um Engano(2000)
1 056
António Gancho
Sobre Uma Manhã Qualquer
Manhã de ouro lhe poderíamos chamar se de ouro fora a primeira manhã
Adão inconfessado, e nada saberemos da primeira manhã
se afinal de ouro se afinal de prata.
Ainda possível ter sido de estanho?
A primeira manhã assim imaginada estanho e a cena desenrolar-se-á
com maçãs de estanho, aves de estanho, rios de estanho...
Adão não seria de estanho?
Adão inconfessado, e nada se saberá da manhã original.
A primeira manhã, a primeira luz, a primeira vida, a primeira lua
Tu, querida, o desejarias saber, o sei,
era teu desejo saber de que metal fora a primeira manhã!
Evidentemente que (e aqui sente-se já um cansaço a obcecar a caneta)
evidentemente que dizia
etc., etc.
e a respeito da primeira manhã afinal
que não interessa sabê-lo.
Olha, morre como o cigano, o pior é ires à escola.
Ah, os poetas são decididamente afectados.
Que raio de ideia esta de saber da primeira manhã?
Londrina a de hoje, e basta para tomar um excelente duche quente
com a água a pôr fervura na pele
e mais nada.
Da primeira manhã. Adão que se faça poeta e no-lo diga que metal
Adão inconfessado, e nada saberemos da primeira manhã
se afinal de ouro se afinal de prata.
Ainda possível ter sido de estanho?
A primeira manhã assim imaginada estanho e a cena desenrolar-se-á
com maçãs de estanho, aves de estanho, rios de estanho...
Adão não seria de estanho?
Adão inconfessado, e nada se saberá da manhã original.
A primeira manhã, a primeira luz, a primeira vida, a primeira lua
Tu, querida, o desejarias saber, o sei,
era teu desejo saber de que metal fora a primeira manhã!
Evidentemente que (e aqui sente-se já um cansaço a obcecar a caneta)
evidentemente que dizia
etc., etc.
e a respeito da primeira manhã afinal
que não interessa sabê-lo.
Olha, morre como o cigano, o pior é ires à escola.
Ah, os poetas são decididamente afectados.
Que raio de ideia esta de saber da primeira manhã?
Londrina a de hoje, e basta para tomar um excelente duche quente
com a água a pôr fervura na pele
e mais nada.
Da primeira manhã. Adão que se faça poeta e no-lo diga que metal
1 268
João Monge
Aerograma
Deus queira que esta
Vos mate a fome aos sentidos
Por agora
Deus queira que esta
Vos guarde a dor aos gemidos
Noite fora
Dançamos fandangos
Sobre uma navalha
Pássaros em bando
Em nuvens de limalha
E assim eu cá vou indo.
Vem-me o fel à boca
As tripas ao coração
A noite trás a forca pela sua mão
Sonho com fantasmas
De pele preta e luzidia
Com manuais de coragem e cobardia
Dizem que há sempre
Um barco azul para partir
Nosso hino
Embarca a alma
E os restos de um rosto a sorrir
Do destino
Põe o meu retrato
No altar de S. João
E uma vela com formato de canhão
Cansa-se esta escrita
Com dois dedos num baraço
Assim o quis a desdita
Vai um abraço.
Vos mate a fome aos sentidos
Por agora
Deus queira que esta
Vos guarde a dor aos gemidos
Noite fora
Dançamos fandangos
Sobre uma navalha
Pássaros em bando
Em nuvens de limalha
E assim eu cá vou indo.
Vem-me o fel à boca
As tripas ao coração
A noite trás a forca pela sua mão
Sonho com fantasmas
De pele preta e luzidia
Com manuais de coragem e cobardia
Dizem que há sempre
Um barco azul para partir
Nosso hino
Embarca a alma
E os restos de um rosto a sorrir
Do destino
Põe o meu retrato
No altar de S. João
E uma vela com formato de canhão
Cansa-se esta escrita
Com dois dedos num baraço
Assim o quis a desdita
Vai um abraço.
1 287
Luís de Camões
Quem presumir, Senhora, de louvar-vos
Quem presumir, Senhora, de louvar-vos
Com humano saber, e não divino,
Ficará de tamanha culpa dino
Quamanha ficais sendo em contemplar-vos.
Não pretenda ninguém de louvor dar-vos,
Por mais que raro seja, e peregrino:
Que vossa fermosura eu imagino
Que Deus a ele só quis comparar-vos.
Ditosa esta alma vossa, que quisestes
Em posse pôr de prenda tão subida,
Como, Senhora, foi a que me destes.
Melhor a guardarei que a própria vida;
Que, pois mercê tamanha me fizestes,
De mim será jamais nunca esquecida.
Com humano saber, e não divino,
Ficará de tamanha culpa dino
Quamanha ficais sendo em contemplar-vos.
Não pretenda ninguém de louvor dar-vos,
Por mais que raro seja, e peregrino:
Que vossa fermosura eu imagino
Que Deus a ele só quis comparar-vos.
Ditosa esta alma vossa, que quisestes
Em posse pôr de prenda tão subida,
Como, Senhora, foi a que me destes.
Melhor a guardarei que a própria vida;
Que, pois mercê tamanha me fizestes,
De mim será jamais nunca esquecida.
5 651
Gil Vicente
Assi como foi cousa
Assi como foi cousa muito necessária haver nos caminhos estalagens, pera repouso e refeição dos cansados caminhantes, assi foi cousa conveniente que nesta caminhante vida houvesse uma estalajadeira, pera refeição e descanso das almas que vão caminhantes pera a eternal morada de Deus. Esta estalajadeira das almas é a Madre Santa Igreja, a mesa é o altar, os manjares as insígnias da Paixão. E desta perfiguração trata a obra seguinte.
Figuras: Alma, Anjo Custódio, Igreja, Santo Agostinho, Santo Ambrósio, S. Jerónimo, S. Tomás, Dous Diabos.
Este Auto presente foi feito à muito devota Rainha D.#Leonor e representado ao mui poderoso e nobre Rei Dom#Emanuel, seu irmão, por seu mandado, na cidade de Lisboa, nos Paços da Ribeira, em a noite de Endoenças. Era do Senhor de 1518.
Está posta uma mesa com uma cadeira. Vem a Madre Santa Igreja com seus quatro doutores: S.#Tomás, S.#Jerónimo, Santo#Ambrósio e Santo#Agostinho. E diz Agostinho:
AGOSTINHO Necessário foi, amigos,
que nesta triste carreira
desta vida,
pera os mui p'rigosos p'rigos
dos imigos,
houvesse alguma maneira
de guarida.
Porque a humana transitória
natureza vai cansada
em várias calmas;
nesta carreira da glória
meritória,
foi necessário pousada
pera as almas.
Pousada com mantimentos,
mesa posta em clara luz,
sempre esperando
com dobrados mantimentos
dos tormentos
que o Filho de Deus, na Cruz,
comprou, penando.
Sua morte foi avença,
dando, por dar-nos paraíso,
a sua vida
apreçada, sem detença,
por sentença,
julgada a paga em proviso,
e recebida.
A Sua mortal empresa
foi santa estalajadeira
Igreja Madre:
consolar à sua despesa,
nesta mesa,
qualquer alma caminheira,
com o Padre
e o Anjo Custódio aio.
Alma que lhe é encomendada,
se enfraquece
e lhe vai tomando raio
de desmaio,
se chegando a esta pousada,
se guarece.
Vem o Anjo Custódio, com a Alma, e diz:
ANJO Alma humana, formada
de nenhüa cousa feita,
mui preciosa,
de corrupção separada,
e esmaltada
naquela frágoa perfeita,
gloriosa!
Planta neste vale posta
pera dar celestes flores
olorosas,
e pera serdes tresposta
em a alta costa,
onde se criam primores
mais que rosas!
Planta sois e caminheira,
que ainda que estais, vos is
donde viestes.
Vossa pátria verdadeira
é ser herdei
da glória que conseguis:
andai prestes.
Alma bem-aventurada,
dos anjos tanto querida,
não durmais!
Um ponto não esteis parada,
que a jornada
muito em breve é fenecida,
se atentais.
ALMA Anjo que sois minha guarda,
olhai por minha fraqueza
terreal!
de toda a parte haja resguarda,
que não arda
a minha preciosa riqueza
principal.
Cercai-me sempre ò redor
porque vou mui temerosa
de contenda.
Ó precioso defensor
meu favor!
Vossa espada lumiosa
me defenda!
Tende sempre mão em mim,
porque hei medo de empeçar,
e de cair
ANJO Pera isso sam e a isso vim;
mas enfim,
cumpre-vos de me ajudar
a resistir
Não vos ocupem vaidades,
riquezas, nem seus debates.
Olhai por vós;
que pompas, honras, herdades
e vaidades,
são embates e combates
pera vós.
Vosso livre alvedrio,
isento, forro, poderoso
vos é dado
polo divinal poderio
e senhorio,
que possais fazer glorioso
vosso estado.
Deu-vos livre entendimento,
e vontade libertada
e a memória,
que tenhais em vosso tento
fundamento,
que sois por Ele criada
pera a glória.
E vendo Deus que o metal
em que vos pôs a estilar,
pera merecer,
que era muito fraco e mortal,
e, por tal,
me manda a vos ajudar
e defender.
Andemos a estrada nossa;
olhai: não torneis atrás,
que o imigo
à vossa vida gloriosa
porá grosa,
Não creiais a Satanás,
vosso perigo!
Continuai ter o cuidado
no fim de vossa jornada,
e a memória,
que o espírito atalaiado
do pecado
caminha sem temer nada
pera a Glória.
E nos laços infernais,
e nas redes de tristura
tenebrosas
da carreira, que passais,
não caiais:
siga vossa fermosura
as gloriosas.
Adianta-se o Anjo, e vem o Diabo a ela e diz:
DIABO Tão depressa, ó delicada,
alva pomba, pera onde isso?
Quem vos engana,
e vos leva tão cansada
por estrada,
que somente não sentis
se sois humana?
Não cureis de vos matar
que ainda estais em idade
de crecer
Tempo há i pera folgar
e caminhar
Vivei à vossa vontade
e havei prazer.
Gozai, gozai dos bens da terra,
Procurai por senhorios
e haveres.
Quem da vida vos desterra
à triste serra?
Quem vos fala em desvarios
por prazeres?
Esta vida é descanso,
doce e manso,
não cureis doutro paraíso.
Quem vos põe em vosso siso
outro remanso?
ALMA Não me detenhais aqui,
leixai-me ir que em al me fundo.
DIABO Oh! Descansai neste mundo
que todos fazem assi:
Não são em#balde os haveres.
não são em balde os deleites,
e fortunas;
não são debalde os prazeres
e comeres:
tudo são puros afeites
das criaturas:
Pera os homens se criaram.
Dai folga à vossa passagem
d'hoje a mais:
descansai, pois descansaram
os que passaram
por esta mesma romagem
que levais.
O que a vontade quiser
quanto o corpo desejar,
tudo se faça.
Zombai de quem vos quiser
reprender
querendo-vos marteirar
tão de graça.
Tornara-me, se a vós fora.
Is tão triste, atribulada,
que é tormenta.
Senhora, vós sois senhora
emperadora,
não deveis a ninguém nada.
Sede isenta.
ANJO Oh! andai; quem vos detém?
Como vindes pera a Glória
devagar!
Ó meu Deus! Ó sumo bem!
Já ninguém
não se preza da vitória
em se salvar!
Já cansais, alma preciosa?
Tão asinha desmaiais?
Sede esforçada!
Oh! Como viríeis trigosa
e desejosa,
se vísseis quanto ganhais
nesta jornada!
Caminhemos, caminhemos.
Esforçai ora, Alma santa,
esclarecida!
Adianta-se o Anjo, e torna Satanás:
DIABO Que vaidades e que extremos
tão supremos!
Pera que é essa pressa tanta?
tende vida.
Is muito desautorizada,
descalça, pobre, perdida,
de remate:
Figuras: Alma, Anjo Custódio, Igreja, Santo Agostinho, Santo Ambrósio, S. Jerónimo, S. Tomás, Dous Diabos.
Este Auto presente foi feito à muito devota Rainha D.#Leonor e representado ao mui poderoso e nobre Rei Dom#Emanuel, seu irmão, por seu mandado, na cidade de Lisboa, nos Paços da Ribeira, em a noite de Endoenças. Era do Senhor de 1518.
Está posta uma mesa com uma cadeira. Vem a Madre Santa Igreja com seus quatro doutores: S.#Tomás, S.#Jerónimo, Santo#Ambrósio e Santo#Agostinho. E diz Agostinho:
AGOSTINHO Necessário foi, amigos,
que nesta triste carreira
desta vida,
pera os mui p'rigosos p'rigos
dos imigos,
houvesse alguma maneira
de guarida.
Porque a humana transitória
natureza vai cansada
em várias calmas;
nesta carreira da glória
meritória,
foi necessário pousada
pera as almas.
Pousada com mantimentos,
mesa posta em clara luz,
sempre esperando
com dobrados mantimentos
dos tormentos
que o Filho de Deus, na Cruz,
comprou, penando.
Sua morte foi avença,
dando, por dar-nos paraíso,
a sua vida
apreçada, sem detença,
por sentença,
julgada a paga em proviso,
e recebida.
A Sua mortal empresa
foi santa estalajadeira
Igreja Madre:
consolar à sua despesa,
nesta mesa,
qualquer alma caminheira,
com o Padre
e o Anjo Custódio aio.
Alma que lhe é encomendada,
se enfraquece
e lhe vai tomando raio
de desmaio,
se chegando a esta pousada,
se guarece.
Vem o Anjo Custódio, com a Alma, e diz:
ANJO Alma humana, formada
de nenhüa cousa feita,
mui preciosa,
de corrupção separada,
e esmaltada
naquela frágoa perfeita,
gloriosa!
Planta neste vale posta
pera dar celestes flores
olorosas,
e pera serdes tresposta
em a alta costa,
onde se criam primores
mais que rosas!
Planta sois e caminheira,
que ainda que estais, vos is
donde viestes.
Vossa pátria verdadeira
é ser herdei
da glória que conseguis:
andai prestes.
Alma bem-aventurada,
dos anjos tanto querida,
não durmais!
Um ponto não esteis parada,
que a jornada
muito em breve é fenecida,
se atentais.
ALMA Anjo que sois minha guarda,
olhai por minha fraqueza
terreal!
de toda a parte haja resguarda,
que não arda
a minha preciosa riqueza
principal.
Cercai-me sempre ò redor
porque vou mui temerosa
de contenda.
Ó precioso defensor
meu favor!
Vossa espada lumiosa
me defenda!
Tende sempre mão em mim,
porque hei medo de empeçar,
e de cair
ANJO Pera isso sam e a isso vim;
mas enfim,
cumpre-vos de me ajudar
a resistir
Não vos ocupem vaidades,
riquezas, nem seus debates.
Olhai por vós;
que pompas, honras, herdades
e vaidades,
são embates e combates
pera vós.
Vosso livre alvedrio,
isento, forro, poderoso
vos é dado
polo divinal poderio
e senhorio,
que possais fazer glorioso
vosso estado.
Deu-vos livre entendimento,
e vontade libertada
e a memória,
que tenhais em vosso tento
fundamento,
que sois por Ele criada
pera a glória.
E vendo Deus que o metal
em que vos pôs a estilar,
pera merecer,
que era muito fraco e mortal,
e, por tal,
me manda a vos ajudar
e defender.
Andemos a estrada nossa;
olhai: não torneis atrás,
que o imigo
à vossa vida gloriosa
porá grosa,
Não creiais a Satanás,
vosso perigo!
Continuai ter o cuidado
no fim de vossa jornada,
e a memória,
que o espírito atalaiado
do pecado
caminha sem temer nada
pera a Glória.
E nos laços infernais,
e nas redes de tristura
tenebrosas
da carreira, que passais,
não caiais:
siga vossa fermosura
as gloriosas.
Adianta-se o Anjo, e vem o Diabo a ela e diz:
DIABO Tão depressa, ó delicada,
alva pomba, pera onde isso?
Quem vos engana,
e vos leva tão cansada
por estrada,
que somente não sentis
se sois humana?
Não cureis de vos matar
que ainda estais em idade
de crecer
Tempo há i pera folgar
e caminhar
Vivei à vossa vontade
e havei prazer.
Gozai, gozai dos bens da terra,
Procurai por senhorios
e haveres.
Quem da vida vos desterra
à triste serra?
Quem vos fala em desvarios
por prazeres?
Esta vida é descanso,
doce e manso,
não cureis doutro paraíso.
Quem vos põe em vosso siso
outro remanso?
ALMA Não me detenhais aqui,
leixai-me ir que em al me fundo.
DIABO Oh! Descansai neste mundo
que todos fazem assi:
Não são em#balde os haveres.
não são em balde os deleites,
e fortunas;
não são debalde os prazeres
e comeres:
tudo são puros afeites
das criaturas:
Pera os homens se criaram.
Dai folga à vossa passagem
d'hoje a mais:
descansai, pois descansaram
os que passaram
por esta mesma romagem
que levais.
O que a vontade quiser
quanto o corpo desejar,
tudo se faça.
Zombai de quem vos quiser
reprender
querendo-vos marteirar
tão de graça.
Tornara-me, se a vós fora.
Is tão triste, atribulada,
que é tormenta.
Senhora, vós sois senhora
emperadora,
não deveis a ninguém nada.
Sede isenta.
ANJO Oh! andai; quem vos detém?
Como vindes pera a Glória
devagar!
Ó meu Deus! Ó sumo bem!
Já ninguém
não se preza da vitória
em se salvar!
Já cansais, alma preciosa?
Tão asinha desmaiais?
Sede esforçada!
Oh! Como viríeis trigosa
e desejosa,
se vísseis quanto ganhais
nesta jornada!
Caminhemos, caminhemos.
Esforçai ora, Alma santa,
esclarecida!
Adianta-se o Anjo, e torna Satanás:
DIABO Que vaidades e que extremos
tão supremos!
Pera que é essa pressa tanta?
tende vida.
Is muito desautorizada,
descalça, pobre, perdida,
de remate:
1 653
Carlos Nogueira Fino
um grito de raiva por timor lorosae
depois de tudo isto é obrigatório que existas
deus
para que sejas tu a julgar os assassinos que vão ficar impunes
envelhecendo anonimamente por toda a indonésia
até cairem podres
e os que dão ao diabo o benefício da dúvida
e tempo adicional à morte
para que o silêncio desça imperturbável sobre os mártires
e os rios de sangue se evaporem
porque os mandantes
esses já os consome apesar da tua contumaz ausência
terem compreendido que não são humanos
e lhes queima as entranhas o veneno de não ter futuro
deus
para que sejas tu a julgar os assassinos que vão ficar impunes
envelhecendo anonimamente por toda a indonésia
até cairem podres
e os que dão ao diabo o benefício da dúvida
e tempo adicional à morte
para que o silêncio desça imperturbável sobre os mártires
e os rios de sangue se evaporem
porque os mandantes
esses já os consome apesar da tua contumaz ausência
terem compreendido que não são humanos
e lhes queima as entranhas o veneno de não ter futuro
920
Leonel Neves
UM ROMANCE DE REGRESSO
Vindo do Mundo Perdido,
Mau-Máli foi à Missão,
por acaso ou a pedido
ensinar sua lição,
fazer o que em qualquer parte
faria como artesão:
trabalhar na sua arte
de bonecos de latão.
Depois, ou por ter gostado
desta ou daquela oração,
ou por ter-se enamorado
de algum Cristo de latão,
fosse lá pelo que fosse,
Mau-Máli fez-se cristão,
dentro e fora baptizou-se,
Mau-Máli virou João.
E, como João, guardou
dentro do seu coração
não palavras que escutou
mas toda a sua intenção.
Pecados mortais e tudo
ouviu com muita atenção...
mas, guerreiro sobretudo,
que lá matar, isso não!
Tendo assim acontecido,
dada e tomada a lição,
voltou ao Mundo Perdido,
não Mau-Máli, mas João.
E a mulher barlaqueada
com Mau-Máli artesão
já com outro tinha aramada
sua esteira de traição.
Um timor que assim se engana
sabe a sua obrigação,
a que só uma catana
pode dar satisfação.
Uma adúltera confessa
merece tanto perdão
como o outro: sem cabeça,
o seu crime pagarão.
Mas o que Mau-Máli sabe,
o que manda a tradição,
é coisa que já não cabe
na cabeça de João.
Poderia esquecer tudo,
Cristo, baptismo, oração,
mas lembra-se sobretudo
que lá matar, isso não!
Ora já foi cumprido
o seu tempo na Missão,
já só no Mundo Perdido
há bonecos de latão,
não há lugar onde ponha
sua vida de artesão.
Sem lavar sua vergonha
como há-de viver João?
Por isso decapitou-se
com um só golpe de mão.
Mas... João suicidou-se?
- Mau-Máli matou João!
Mau-Máli foi à Missão,
por acaso ou a pedido
ensinar sua lição,
fazer o que em qualquer parte
faria como artesão:
trabalhar na sua arte
de bonecos de latão.
Depois, ou por ter gostado
desta ou daquela oração,
ou por ter-se enamorado
de algum Cristo de latão,
fosse lá pelo que fosse,
Mau-Máli fez-se cristão,
dentro e fora baptizou-se,
Mau-Máli virou João.
E, como João, guardou
dentro do seu coração
não palavras que escutou
mas toda a sua intenção.
Pecados mortais e tudo
ouviu com muita atenção...
mas, guerreiro sobretudo,
que lá matar, isso não!
Tendo assim acontecido,
dada e tomada a lição,
voltou ao Mundo Perdido,
não Mau-Máli, mas João.
E a mulher barlaqueada
com Mau-Máli artesão
já com outro tinha aramada
sua esteira de traição.
Um timor que assim se engana
sabe a sua obrigação,
a que só uma catana
pode dar satisfação.
Uma adúltera confessa
merece tanto perdão
como o outro: sem cabeça,
o seu crime pagarão.
Mas o que Mau-Máli sabe,
o que manda a tradição,
é coisa que já não cabe
na cabeça de João.
Poderia esquecer tudo,
Cristo, baptismo, oração,
mas lembra-se sobretudo
que lá matar, isso não!
Ora já foi cumprido
o seu tempo na Missão,
já só no Mundo Perdido
há bonecos de latão,
não há lugar onde ponha
sua vida de artesão.
Sem lavar sua vergonha
como há-de viver João?
Por isso decapitou-se
com um só golpe de mão.
Mas... João suicidou-se?
- Mau-Máli matou João!
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