Poemas neste tema
Guerra e Paz
António Osório
O Sítio
O mundo sitiou o sonho, e o tem preso
em débeis cidadelas
— suas últimas guaridas.
Os soldados oníricos têm medo
sem armas
e suas caravelas
não têm velas.
Inúteis seus desvelos desarmados
até os sentinelas
fatigados
já estão cedendo ao peso das vigílias.
Vai longo o sítio, e já vão se esgotando
as frágeis provisões
dos sitiados.
O mundo tem seus ásperos soldados
nos dias
pontuais
que na luta não cedem nem recuam.
E nunca erram as duras cimitarras
os seus golpes
diretos e fatais.
O assédio continua, já inúteis os galopes
dos bravos cavaleiros sitiados.
Têm cavalos de mar
e o sítio é em terra.
Têm cavalos de paz
e sítio é guerra.
Fácil de prever o resultado
dos combates travados
desiguais.
Já se aprestam os dias, bons guerreiros
aos ataques certeiros
e finais.
em débeis cidadelas
— suas últimas guaridas.
Os soldados oníricos têm medo
sem armas
e suas caravelas
não têm velas.
Inúteis seus desvelos desarmados
até os sentinelas
fatigados
já estão cedendo ao peso das vigílias.
Vai longo o sítio, e já vão se esgotando
as frágeis provisões
dos sitiados.
O mundo tem seus ásperos soldados
nos dias
pontuais
que na luta não cedem nem recuam.
E nunca erram as duras cimitarras
os seus golpes
diretos e fatais.
O assédio continua, já inúteis os galopes
dos bravos cavaleiros sitiados.
Têm cavalos de mar
e o sítio é em terra.
Têm cavalos de paz
e sítio é guerra.
Fácil de prever o resultado
dos combates travados
desiguais.
Já se aprestam os dias, bons guerreiros
aos ataques certeiros
e finais.
1 990
Augusto de Campos
O monstro
Todo o exército repousava...
Nisto,
despontam, cautos, emergindo à ourela
do matagal rasteiro e trançado
de arbustos em esgalhos,
na clareira, no alto,
onde estaciona a artilharia,
doze rostos inquietos,
olhares
felinos, rápidos,
percorrendo todos os pontos.
Doze rostos apenas
de homens ainda jacentes,
de rastro,
nos tufos das bromélias.
Surgem lentamente.
Ninguém os vê; ninguém os pode ver.
Dão-lhes as costas
com indiferença soberana
vinte batalhões tranqüilos.
Adiante divisam a presa cobiçada.
Como um animal fantástico,
prestes a um bote repentino,
o canhão Withworth,
a matadeira,
empina-se
no reparo sólido.
Volta
para Belo Monte
a boca truculenta e rugidora
que tantas granadas revessou já
sobre as igrejas sacrossantas.
Caem-lhe sobre o dorso luzidio e negro os
raios do Sol,
ajaezando-a de lampejos.
Os
fanáticos
contemplam-na algum tempo.
Aprumam-se depois à borda da clareira.
Arrojam-se sobre o monstro.
Assaltam-no; aferram-no; jugulam-no.
Um traz uma alavanca rígida.
Ergue-a num gesto ameaçador e rápido...
E a pancada bate, estrídula e alta, retinindo...
E um brado de alarma
estala na mudez universal das coisas;
multiplica-se nas quebradas;
enche o espaço todo;
e detona em ecos
que atroando os vales
ressaltam pelos morros numa vibração
triunfal e estrugidora,
sacudindo num repelão violento
o acampamento inteiro...
Nisto,
despontam, cautos, emergindo à ourela
do matagal rasteiro e trançado
de arbustos em esgalhos,
na clareira, no alto,
onde estaciona a artilharia,
doze rostos inquietos,
olhares
felinos, rápidos,
percorrendo todos os pontos.
Doze rostos apenas
de homens ainda jacentes,
de rastro,
nos tufos das bromélias.
Surgem lentamente.
Ninguém os vê; ninguém os pode ver.
Dão-lhes as costas
com indiferença soberana
vinte batalhões tranqüilos.
Adiante divisam a presa cobiçada.
Como um animal fantástico,
prestes a um bote repentino,
o canhão Withworth,
a matadeira,
empina-se
no reparo sólido.
Volta
para Belo Monte
a boca truculenta e rugidora
que tantas granadas revessou já
sobre as igrejas sacrossantas.
Caem-lhe sobre o dorso luzidio e negro os
raios do Sol,
ajaezando-a de lampejos.
Os
fanáticos
contemplam-na algum tempo.
Aprumam-se depois à borda da clareira.
Arrojam-se sobre o monstro.
Assaltam-no; aferram-no; jugulam-no.
Um traz uma alavanca rígida.
Ergue-a num gesto ameaçador e rápido...
E a pancada bate, estrídula e alta, retinindo...
E um brado de alarma
estala na mudez universal das coisas;
multiplica-se nas quebradas;
enche o espaço todo;
e detona em ecos
que atroando os vales
ressaltam pelos morros numa vibração
triunfal e estrugidora,
sacudindo num repelão violento
o acampamento inteiro...
1 749
Antônio Brasileiro
Tempo
1.
Canto porque em mim
brotam quarenta mundos.
Quero cantar.
2.
Cantar os hímens rotos?
os amigos mortos?
Cantar o suor do rosto? a
dor nos rins?
o imposto de renda? a conta
da luz?
Não, não cantarei
as dores que não sofri.
Cheguei, irmãos, para
cantar os cantos
que sei.
3.
Sei do tédio, sei da mágoa, sei
de algum remorso esparso;
sei da difícil amada,
sei de meus olhos, meus braços.
Mas por demais me cant(s)ei:
agora busco outros cantos.
4.
Não cantarei os Andes de Neruda,
não cantarei Espanha de Picasso,
África de Cesaire, Pernambuco
de João Cabral de Melo Neto.
Nem China, vasto amor de Mao,
nem Itabira.
(Em boas mãos prossigam)
Cantar os tempos presentes
— estes áridos tempos —
eu cantarei.
5.
Vietnã, teu nome
jazerá escrito a ferro e pétalas.
Nós venceremos, Vietnã.
Congo, não foi em vão
o grito de Patrice.
Nós venceremos, Congo.
San Domingos Havana Bogotá
Buenos Aires Brasília:
nós venceremos!
Venceremos porque na pele
sentimos — demais — vergastas.
Duras vergastas na carne,
na sombra que se projeta.
Duras vergastas na cara.
6.
E após meu canto, escutarei apenas
— como se escuta passar o vento —
o amor brotando das palmas
de nossas mãos.
Escutemos!!
Canto porque em mim
brotam quarenta mundos.
Quero cantar.
2.
Cantar os hímens rotos?
os amigos mortos?
Cantar o suor do rosto? a
dor nos rins?
o imposto de renda? a conta
da luz?
Não, não cantarei
as dores que não sofri.
Cheguei, irmãos, para
cantar os cantos
que sei.
3.
Sei do tédio, sei da mágoa, sei
de algum remorso esparso;
sei da difícil amada,
sei de meus olhos, meus braços.
Mas por demais me cant(s)ei:
agora busco outros cantos.
4.
Não cantarei os Andes de Neruda,
não cantarei Espanha de Picasso,
África de Cesaire, Pernambuco
de João Cabral de Melo Neto.
Nem China, vasto amor de Mao,
nem Itabira.
(Em boas mãos prossigam)
Cantar os tempos presentes
— estes áridos tempos —
eu cantarei.
5.
Vietnã, teu nome
jazerá escrito a ferro e pétalas.
Nós venceremos, Vietnã.
Congo, não foi em vão
o grito de Patrice.
Nós venceremos, Congo.
San Domingos Havana Bogotá
Buenos Aires Brasília:
nós venceremos!
Venceremos porque na pele
sentimos — demais — vergastas.
Duras vergastas na carne,
na sombra que se projeta.
Duras vergastas na cara.
6.
E após meu canto, escutarei apenas
— como se escuta passar o vento —
o amor brotando das palmas
de nossas mãos.
Escutemos!!
1 048
Gabriela Mistral
RONDA DA PAZ
As mães, recordando batalhas,
sentadas se encontram no umbral.
Os meninos foram ao campo
colher as frutas do ananás.
Ao pé de seu cerro alemão
com o eco se põem a brincar.
Meninos de França respondem
sem rosto no vento do mar.
Palavra e refrão não entendem
mas logo buscam se avistar.
E não haverá mais segredo
quando nos olhos se mirarem.
Agora no mundo o suspiro,
O sopro se pode escutar.
E a cada estribilho as cirandas
se aproximam um pouco mais.
As mães, subindo a vereda
de odores que leva ao pinhal,
chegando à ciranda, começam
colhidas pelo vento a voar.
Os homens procuram por elas
e, sentindo a terra girar
e o canto dos montes ouvindo,
a volta do mundo vão dar.
sentadas se encontram no umbral.
Os meninos foram ao campo
colher as frutas do ananás.
Ao pé de seu cerro alemão
com o eco se põem a brincar.
Meninos de França respondem
sem rosto no vento do mar.
Palavra e refrão não entendem
mas logo buscam se avistar.
E não haverá mais segredo
quando nos olhos se mirarem.
Agora no mundo o suspiro,
O sopro se pode escutar.
E a cada estribilho as cirandas
se aproximam um pouco mais.
As mães, subindo a vereda
de odores que leva ao pinhal,
chegando à ciranda, começam
colhidas pelo vento a voar.
Os homens procuram por elas
e, sentindo a terra girar
e o canto dos montes ouvindo,
a volta do mundo vão dar.
2 110
Augusto de Campos
Soldado
I
O sol poente desatava, longa,
a sua sombra pelo chão
e
protegido por ela -
braços longamente abertos,
face volvida para os céus -
- um soldado descansava.
Descansava...
havia três meses.
II
- braços longamente abertos,
rosto voltado para os céus,
para os sóis ardentes,
para os luares claros,
para as estrelas fulgurantes...
O sol poente desatava, longa,
a sua sombra pelo chão
e
protegido por ela -
braços longamente abertos,
face volvida para os céus -
- um soldado descansava.
Descansava...
havia três meses.
II
- braços longamente abertos,
rosto voltado para os céus,
para os sóis ardentes,
para os luares claros,
para as estrelas fulgurantes...
1 659
Alfred Edward Housman
EPITÁFIO PARA UM EXÉRCITO DE MERCENÁRIOS
Estes, no dia em qual o céu tombava,
E os pedestais do mundo se perderam,
O serem mercenários os chamava,
Receberam seus soldos e morreram.
Por seus ombros, os céus se suspendiam;
Firmes, e firme o pedestral inteiro;
Quão Deus abandonava, defendiam-
E salvaram as Coisas por dinheiro.
E os pedestais do mundo se perderam,
O serem mercenários os chamava,
Receberam seus soldos e morreram.
Por seus ombros, os céus se suspendiam;
Firmes, e firme o pedestral inteiro;
Quão Deus abandonava, defendiam-
E salvaram as Coisas por dinheiro.
1 431
Alfred Edward Housman
FAREWELL TO A NAME
Adeus a um número e um nome
Que foi chamado
À treva, silêncio e sono
Do sangue derramado.
Assim cessa em acto
E volta ao fim.
Soldado à pátria barato
E caro para mim.
Assim em sangue se afoga
O chamejante açoite
De uma verdade que volta
Ao pó e à noite.
Que foi chamado
À treva, silêncio e sono
Do sangue derramado.
Assim cessa em acto
E volta ao fim.
Soldado à pátria barato
E caro para mim.
Assim em sangue se afoga
O chamejante açoite
De uma verdade que volta
Ao pó e à noite.
1 250
Robert Graves
BOMBARDEAMENTO NA ALVORADA
Canhões do mar atiram sobre nós:
Na casamata o fumo oscila opaco
E um clamor de perdição ascende.
Contamos, bendizemos cada novo abalo -
Cativos aguardando ser libertos.
Anjo visitador de cabeleira em fogo,
O qual em sonhos vinha às noites consolar-nos
Lá onde éramos a ferros,
De nós se ri, ao acordarmos - rostos
Tão tensos de esperança: as lágrimas os descem.
Na casamata o fumo oscila opaco
E um clamor de perdição ascende.
Contamos, bendizemos cada novo abalo -
Cativos aguardando ser libertos.
Anjo visitador de cabeleira em fogo,
O qual em sonhos vinha às noites consolar-nos
Lá onde éramos a ferros,
De nós se ri, ao acordarmos - rostos
Tão tensos de esperança: as lágrimas os descem.
1 048
João Maimona
As Muralhas da Noite
A mão ia para as costas da madrugada.
As mulheres estendiam as janelas da alegria
nos ouvidos onde não se apagavam as alegrias.
Entre os dentes do mar acendiam-se braços.
Os dias namoravam sob a barca do espelho.
Havia uma chuva de barcos enquanto o dia tossia.
E da chuva de barcos chegavam colchões,
camas, cadeiras, manadas de estradas perdidas
onde cantavam soldados de capacetes
por pintar no coração da meia-noite.
Eram os barcos que guardavam as muralhas
da noite que a mão ouvia nas costas
da madrugada entre os dentes do mar.
As mulheres estendiam as janelas da alegria
nos ouvidos onde não se apagavam as alegrias.
Entre os dentes do mar acendiam-se braços.
Os dias namoravam sob a barca do espelho.
Havia uma chuva de barcos enquanto o dia tossia.
E da chuva de barcos chegavam colchões,
camas, cadeiras, manadas de estradas perdidas
onde cantavam soldados de capacetes
por pintar no coração da meia-noite.
Eram os barcos que guardavam as muralhas
da noite que a mão ouvia nas costas
da madrugada entre os dentes do mar.
1 246
João Maimona
Prostitutas Misérias entre Mar e Janelas
Prostitutas Misérias entre Mar e Janelas
no quadragésimo aniversário
da explosão de Hiroshima
1. Nascemos quase pelas horas quase
iluminadas pelas cortinas que
ocultam a ausência humana. E
falecemos entre as sombras da
presença humana. A palavra sentida
há de calar a dor. Devíamos ter dito
duas vezes a oração bordada - a
estreita oração que nos ensinou a
bíblia de pedra. Da palavra sentida
há de nascer o amor. As avenidas
cantam e dizem lagartos para
escurecer as noites que nos vêm da
madrugada. Na palavra sentida há de
crescer a flor. Os leões inventam
microfones que em duas línguas
dizem tudo em duas palavras para os
ouvidos de dois mundos que se
ajoelham em dois caminhos. Temos
de conhecer o mar. Temos de dançar
ao pé das janelas. E crepúsculo
estará na neve do crepúsculo que há
de vir congregado em pedras do
crepúsculo.
2. O velho continente acordou e
deixou de sonhar com as estátuas de
cinza. A América se levantou e se
contorce de recessão espacial nos
pastos que enchem os peitos do gado
com o qual havemos de alimentar os
silêncios da África. As Américas
colecionam lembranças da
escravatura. E África coleciona
lábios para beijar folhas e árvores
perdidas no deserto por habitar. Aqui
os dias caem no chão e ninguém os
quer contar. Mas de noite cantamos
os dias que se abrem. Estendidos no
chão. Espiados pela mão que para a
noite vai. A carne, a flor, o sal, o
sangue e a água se misturam para
soprar felicidade ao mar e às
janelas. Temos de conhecer o mar.
Temos de dançar ao pé das janelas.
E o crepúsculo estará na neve do
crepúsculo que há de vir congregado
em pedras de crepúsculo.
no quadragésimo aniversário
da explosão de Hiroshima
1. Nascemos quase pelas horas quase
iluminadas pelas cortinas que
ocultam a ausência humana. E
falecemos entre as sombras da
presença humana. A palavra sentida
há de calar a dor. Devíamos ter dito
duas vezes a oração bordada - a
estreita oração que nos ensinou a
bíblia de pedra. Da palavra sentida
há de nascer o amor. As avenidas
cantam e dizem lagartos para
escurecer as noites que nos vêm da
madrugada. Na palavra sentida há de
crescer a flor. Os leões inventam
microfones que em duas línguas
dizem tudo em duas palavras para os
ouvidos de dois mundos que se
ajoelham em dois caminhos. Temos
de conhecer o mar. Temos de dançar
ao pé das janelas. E crepúsculo
estará na neve do crepúsculo que há
de vir congregado em pedras do
crepúsculo.
2. O velho continente acordou e
deixou de sonhar com as estátuas de
cinza. A América se levantou e se
contorce de recessão espacial nos
pastos que enchem os peitos do gado
com o qual havemos de alimentar os
silêncios da África. As Américas
colecionam lembranças da
escravatura. E África coleciona
lábios para beijar folhas e árvores
perdidas no deserto por habitar. Aqui
os dias caem no chão e ninguém os
quer contar. Mas de noite cantamos
os dias que se abrem. Estendidos no
chão. Espiados pela mão que para a
noite vai. A carne, a flor, o sal, o
sangue e a água se misturam para
soprar felicidade ao mar e às
janelas. Temos de conhecer o mar.
Temos de dançar ao pé das janelas.
E o crepúsculo estará na neve do
crepúsculo que há de vir congregado
em pedras de crepúsculo.
1 092
João Maimona
A Nelson Mandela
(Descer os degraus da Humanidade. Ver o mar escuro do fenómeno
errante do atrito de armas. Sentir com as palavras presas nos lábios
o perfume da discriminação distribuído a preço derrisório em Durban,
Pretória, Soweto...Olhar na propagação de sinais sombrios o desenho
da desunião e de outras dores inspiradas que nos vigiam enquanto
os homens degrau a degrau sobem o horizonte cruel. E assim surgimos
na árvore do quotidiano, quotidiano vivo, ingrediente da nossa tragédia.)
errante do atrito de armas. Sentir com as palavras presas nos lábios
o perfume da discriminação distribuído a preço derrisório em Durban,
Pretória, Soweto...Olhar na propagação de sinais sombrios o desenho
da desunião e de outras dores inspiradas que nos vigiam enquanto
os homens degrau a degrau sobem o horizonte cruel. E assim surgimos
na árvore do quotidiano, quotidiano vivo, ingrediente da nossa tragédia.)
1 552
Gomes de Sousa
Henrique Dias
Do Norte a gentil sultana
Cedeu, pela prima vez,
Sua cerviz soberana
Ao férreo jugo holandês.
Ai! pobre da malfadada,
Tão cruamente algemada,
Ao cepo do servilismo
Que triste que foi-lhe a sinal
Nem uma luz a ilumina
Nas profundezas do abismos
Seus lindos rios saudosos
Seus frescos, flóreos palmares,
Seus passarinhos formosos
De harmonia enchendo os ares,
Suas campinas de flores,
Seus matizes, seus verdores
Vão ser bens dum outro dono!
E tu, sultana do Norte,
Pelos caprichos da sorte,
Vais dormir de escrava o sono!
Nem mais a lua te banha
Com seus arroios de prata,
Quando da etérea montanha
Nos lagos teus se retrata;
Que se expira a liberdade
No seio de uma cidade
Tu aí também expira,
Como da moça, os encantos
Vão morrer nos frios prantos,
Nos tristes ais que suspira.
Porém não! Ao longe soa
O grito horrendo da guerra,
E ao som, que ao longe reboa,
O fero holandês se aterra!
Erguem-se as vastas bandeiras,
Marcham avante as fileiras,
Que em seu socorro Já vêm;
Pois que do Norte a sultana
Sua cerviz soberana
Nunca curvou a ninguém.
Ao retroar das metralhas,
Da guerra ao tufão que soa,
Como o gênio das batalhas,
Henrique Dias lá voa!
Da larga mão bronzeada
Vai pendente a nua espada,
— Raio que os mandões fulmina!
E cada golpe que vibra
Faz quebrar fibra por fibra
Dos mandões a raça indiana.
Preto, mais nobre que um nobre,
Ou nobre como um Bragança,
Sob a epiderme de cobre
Uma alma de ouro descansa
E, se as coroas coubessem
Àqueles que se expusessem
Da sua pátria em defesa,
Seria o rei mais perfeito...
Se é que a púrpura — do peito
Não faz murchar a nobreza ...
Matando a todos de inveja
Com sua nobre altivez,
Temeu-o então na peleja
O fero povo holandês.
E tu, valente soldado,
Corajoso e denodado
Despedes golpes de morte;
Por teu denodo guerreiro
Livraste do cativeiro
A linda filha do Norte.
Então a gentil cativa
Sua beleza assumiu,
E erguendo a cerviz altiva
Ao seu guerreiro sorriu:
Assim a virgem formosa
Expõe as faces de rosa
Aos beijos do amante seu,
Tão satisfeita e contente
Do rico e lindo presente
Que pela festa lhe deu.
Feliz quem leva da espada
Em prol de sua nação!
Ou quem, vendo-a escravizada,
Expira, como Catão!
Catão! Ainda parece
Que o Capitólio estremece
À voz do grande Romano!
Catão! Com quanta saudade
Viu calcada a liberdade,
Aos pés do César tirano!
Foi assim Henrique Dias,
Valente como ninguém!
De sua nobre ousadia
Deu-lhe o Brasil parabém.
Oh! Bayard da liberdade,
Teu nome famoso há de
Afrontar do tempo a ação;
E a par dos nobres guerreiros
E dos heróis brasileiros
Terás a tua oblação.
Cedeu, pela prima vez,
Sua cerviz soberana
Ao férreo jugo holandês.
Ai! pobre da malfadada,
Tão cruamente algemada,
Ao cepo do servilismo
Que triste que foi-lhe a sinal
Nem uma luz a ilumina
Nas profundezas do abismos
Seus lindos rios saudosos
Seus frescos, flóreos palmares,
Seus passarinhos formosos
De harmonia enchendo os ares,
Suas campinas de flores,
Seus matizes, seus verdores
Vão ser bens dum outro dono!
E tu, sultana do Norte,
Pelos caprichos da sorte,
Vais dormir de escrava o sono!
Nem mais a lua te banha
Com seus arroios de prata,
Quando da etérea montanha
Nos lagos teus se retrata;
Que se expira a liberdade
No seio de uma cidade
Tu aí também expira,
Como da moça, os encantos
Vão morrer nos frios prantos,
Nos tristes ais que suspira.
Porém não! Ao longe soa
O grito horrendo da guerra,
E ao som, que ao longe reboa,
O fero holandês se aterra!
Erguem-se as vastas bandeiras,
Marcham avante as fileiras,
Que em seu socorro Já vêm;
Pois que do Norte a sultana
Sua cerviz soberana
Nunca curvou a ninguém.
Ao retroar das metralhas,
Da guerra ao tufão que soa,
Como o gênio das batalhas,
Henrique Dias lá voa!
Da larga mão bronzeada
Vai pendente a nua espada,
— Raio que os mandões fulmina!
E cada golpe que vibra
Faz quebrar fibra por fibra
Dos mandões a raça indiana.
Preto, mais nobre que um nobre,
Ou nobre como um Bragança,
Sob a epiderme de cobre
Uma alma de ouro descansa
E, se as coroas coubessem
Àqueles que se expusessem
Da sua pátria em defesa,
Seria o rei mais perfeito...
Se é que a púrpura — do peito
Não faz murchar a nobreza ...
Matando a todos de inveja
Com sua nobre altivez,
Temeu-o então na peleja
O fero povo holandês.
E tu, valente soldado,
Corajoso e denodado
Despedes golpes de morte;
Por teu denodo guerreiro
Livraste do cativeiro
A linda filha do Norte.
Então a gentil cativa
Sua beleza assumiu,
E erguendo a cerviz altiva
Ao seu guerreiro sorriu:
Assim a virgem formosa
Expõe as faces de rosa
Aos beijos do amante seu,
Tão satisfeita e contente
Do rico e lindo presente
Que pela festa lhe deu.
Feliz quem leva da espada
Em prol de sua nação!
Ou quem, vendo-a escravizada,
Expira, como Catão!
Catão! Ainda parece
Que o Capitólio estremece
À voz do grande Romano!
Catão! Com quanta saudade
Viu calcada a liberdade,
Aos pés do César tirano!
Foi assim Henrique Dias,
Valente como ninguém!
De sua nobre ousadia
Deu-lhe o Brasil parabém.
Oh! Bayard da liberdade,
Teu nome famoso há de
Afrontar do tempo a ação;
E a par dos nobres guerreiros
E dos heróis brasileiros
Terás a tua oblação.
964
Alex Brasil
Ci fi lização
A igreja está morta,
e os vermes se multiplicam sobre seu cadáver.
Deus está sendo cuspido no Oriente Médio,
na Índia, no Irã,
na boca do Papa,
nas Américas humilhadas por caciques de quepe e fuzil.
Está surgindo uma nova era de gerações sem causa,
sem destino,
acorrentadas e tangidas
por capitalistas tiranos;
por falsos profetas...
Está surgindo a era
em que morrerão as baleias e os humanos,
e serão poucos, muito poucos o verde e os poetas.
e os vermes se multiplicam sobre seu cadáver.
Deus está sendo cuspido no Oriente Médio,
na Índia, no Irã,
na boca do Papa,
nas Américas humilhadas por caciques de quepe e fuzil.
Está surgindo uma nova era de gerações sem causa,
sem destino,
acorrentadas e tangidas
por capitalistas tiranos;
por falsos profetas...
Está surgindo a era
em que morrerão as baleias e os humanos,
e serão poucos, muito poucos o verde e os poetas.
979
Cirstina Areias
O Mapa de coxilha do fogo
Na luta pela minha terra,
Deitei nela suor, e sangue,
E todos os músculos meus retesados...
Reconheço, agora,
Em suas verdes coxilhas,
Meus nervos, antes em afã de fogo de batalha,
Agora, lassos...
No vento doce da acácia-negra,
Meu hálito, antes bafejando gládio
Verti a mim mesmo, nesta terra...
Seu grão percorre minhas veias
Num raizame de abraço estreito
Meu sangue encharca seu leito em arroios tortuosos e soberbos
E, o do inimigo de antes, cala nos olhos do povo um pavor de fogo-fátuo,
De mula-sem-cabeça...
Ouço canções e falas que plagiam seus sons...
E, hoje, nem sei se sou Barro ou Homem,
Tamanha a fraternidade que viceja em nós dois...
Ou então...
Suponho que a terra é fêmea...
E andei defendendo princesas!
Sento à noite, na campanha,
E, num misto de Guerra e Paz,
Eu e ela olhamos para a Lua
Com desejos obscenos de conquista!
E assim, traçamos, cúmplices os dois,
Um curioso mapa
Que vai do grão ao coração,
E do coração ao Universo...
Deitei nela suor, e sangue,
E todos os músculos meus retesados...
Reconheço, agora,
Em suas verdes coxilhas,
Meus nervos, antes em afã de fogo de batalha,
Agora, lassos...
No vento doce da acácia-negra,
Meu hálito, antes bafejando gládio
Verti a mim mesmo, nesta terra...
Seu grão percorre minhas veias
Num raizame de abraço estreito
Meu sangue encharca seu leito em arroios tortuosos e soberbos
E, o do inimigo de antes, cala nos olhos do povo um pavor de fogo-fátuo,
De mula-sem-cabeça...
Ouço canções e falas que plagiam seus sons...
E, hoje, nem sei se sou Barro ou Homem,
Tamanha a fraternidade que viceja em nós dois...
Ou então...
Suponho que a terra é fêmea...
E andei defendendo princesas!
Sento à noite, na campanha,
E, num misto de Guerra e Paz,
Eu e ela olhamos para a Lua
Com desejos obscenos de conquista!
E assim, traçamos, cúmplices os dois,
Um curioso mapa
Que vai do grão ao coração,
E do coração ao Universo...
861
Manuel Alegre
Flores para Coimbra
Que mil flores desabrochem. Que mil flores
(outras nenhumas) onde amores fenecem
que mil flores floresçam onde só dores
florescem.
Que mil flores desabrochem. Que mil espadas
(outras nenhumas não)
onde mil flores com espadas são cortadas
que mil espadas floresçam em cada mão.
Que mil espadas floresçam
onde só penas são.
Antes que amores feneçam
que mil flores desabrochem. E outras nenhumas não.
(outras nenhumas) onde amores fenecem
que mil flores floresçam onde só dores
florescem.
Que mil flores desabrochem. Que mil espadas
(outras nenhumas não)
onde mil flores com espadas são cortadas
que mil espadas floresçam em cada mão.
Que mil espadas floresçam
onde só penas são.
Antes que amores feneçam
que mil flores desabrochem. E outras nenhumas não.
5 632
Pedro Ayres de Magalhães
Timor
Andam lá sem descançar
Nas montanhas a lutar
Iluminam todo o mar
De Timor
Nas montanhas sem dormir
Uma luz a resistir
Arde sem se apagar
Em Timor
Andorinha de asa negra
Se o teu voo lá passar
Faz chegar um grande abraço
Dá saudades a Timor
Eles não podem escrever
Porque vão a combater
Vão de manhã defender
A Timor
As crianças a chorar
Não as posso consolar
Que eu nunca cheguei a ver
A Timor
Andorinha de asa negra
Vem ouvir o meu cantar
Ai que dor rasga o meu peito
Sem notícias de Timor
Nunca mais hei-de voltar
Já não posso lá voltar
À idade de lembrar
A Timor
Nas montanhas a lutar
Iluminam todo o mar
De Timor
Nas montanhas sem dormir
Uma luz a resistir
Arde sem se apagar
Em Timor
Andorinha de asa negra
Se o teu voo lá passar
Faz chegar um grande abraço
Dá saudades a Timor
Eles não podem escrever
Porque vão a combater
Vão de manhã defender
A Timor
As crianças a chorar
Não as posso consolar
Que eu nunca cheguei a ver
A Timor
Andorinha de asa negra
Vem ouvir o meu cantar
Ai que dor rasga o meu peito
Sem notícias de Timor
Nunca mais hei-de voltar
Já não posso lá voltar
À idade de lembrar
A Timor
1 029
Carlos Nogueira Fino
um grito de raiva por timor lorosae
depois de tudo isto é obrigatório que existas
deus
para que sejas tu a julgar os assassinos que vão ficar impunes
envelhecendo anonimamente por toda a indonésia
até cairem podres
e os que dão ao diabo o benefício da dúvida
e tempo adicional à morte
para que o silêncio desça imperturbável sobre os mártires
e os rios de sangue se evaporem
porque os mandantes
esses já os consome apesar da tua contumaz ausência
terem compreendido que não são humanos
e lhes queima as entranhas o veneno de não ter futuro
deus
para que sejas tu a julgar os assassinos que vão ficar impunes
envelhecendo anonimamente por toda a indonésia
até cairem podres
e os que dão ao diabo o benefício da dúvida
e tempo adicional à morte
para que o silêncio desça imperturbável sobre os mártires
e os rios de sangue se evaporem
porque os mandantes
esses já os consome apesar da tua contumaz ausência
terem compreendido que não são humanos
e lhes queima as entranhas o veneno de não ter futuro
920
Leonel Neves
LEMBRANÇA DA SEGUNDA GRANDE GUERRA
Uma manhã chegou a guerra. Do Japão.
Veio e aqui ficou talvez dois ou três anos.
De japoneses havia uma divisão;
julgo que só trezentos, dos australianos.
Como eram poucos, eram bons. Os outros, não:
mataram-me vizinhos, o meu pai, dois manos.
O meu homem fugiu e ajudou no Subão
dois loiros a afogar cem dos mais desumanos.
Naquela noite, entrou-me em casa uma baioneta.
Um soldado amarelo e súbito agarrou-me
- eu estava sozinha - e deitou-me depressa.
Deixei-o possuir-me, silenciosa e quieta;
e, quando adormeceu, sem perguntar-me o nome,
peguei numa catana e cortei-lhe a cabeça.
Veio e aqui ficou talvez dois ou três anos.
De japoneses havia uma divisão;
julgo que só trezentos, dos australianos.
Como eram poucos, eram bons. Os outros, não:
mataram-me vizinhos, o meu pai, dois manos.
O meu homem fugiu e ajudou no Subão
dois loiros a afogar cem dos mais desumanos.
Naquela noite, entrou-me em casa uma baioneta.
Um soldado amarelo e súbito agarrou-me
- eu estava sozinha - e deitou-me depressa.
Deixei-o possuir-me, silenciosa e quieta;
e, quando adormeceu, sem perguntar-me o nome,
peguei numa catana e cortei-lhe a cabeça.
436
Fernando Pessoa
XI - I for my city's want fought far and fell.
I for my city's want fought far and fell.
I could not tell
What she did want, that knew she wanted me.
Her walls be free,
Her speech keep such as I spoke, and men die,
That she die not, as I.
I could not tell
What she did want, that knew she wanted me.
Her walls be free,
Her speech keep such as I spoke, and men die,
That she die not, as I.
4 357
Fernando Pessoa
TOMÁMOS A VILA DEPOIS DUM INTENSO BOMBARDEAMENTO
TOMÁMOS A VILA DEPOIS DUM INTENSO BOMBARDEAMENTO
A criança loura
Jaz no meio da rua.
Tem as tripas de fora
E por uma corda sua
Um comboio que ignora.
A cara está um feixe
De sangue e de nada.
Luz um pequeno peixe
– Dos que bóiam nas banheiras –
À beira da estrada.
Cai sobre a estrada o escuro.
Longe, ainda uma luz doura
A criação do futuro...
E o da criança loura?
A criança loura
Jaz no meio da rua.
Tem as tripas de fora
E por uma corda sua
Um comboio que ignora.
A cara está um feixe
De sangue e de nada.
Luz um pequeno peixe
– Dos que bóiam nas banheiras –
À beira da estrada.
Cai sobre a estrada o escuro.
Longe, ainda uma luz doura
A criação do futuro...
E o da criança loura?
4 278
Fernando Pessoa
ODE MARCIAL
ODE MARCIAL
Inúmero rio sem água – só gente e coisas,
Pavorosamente sem água!
Soam tambores longínquos no meu ouvido,
E eu não sei se vejo o rio se ouço os tambores,
Como se não pudesse ouvir e ver ao mesmo tempo!
Helahoho! helahoho!
A máquina de costura da pobre viúva morta à baioneta...
Ela cosia à tarde indeterminadamente...
A mesa onde jogavam os velhos,
Tudo misturado, tudo misturado com corpos, com sangues,
Tudo um só rio, uma só onda, um só arrastado horror.
Helahoho! Helahoho!
Desenterrei o comboio de lata da criança calcado no meio da estrada,
E chorei como todas as mães do mundo sobre o horror da vida.
Os meus pés panteístas tropeçaram na máquina de costura da viúva que mataram à baioneta
E esse pobre instrumento de paz meteu uma lança no meu coração.
Sim, fui eu o culpado de tudo, fui eu o soldado todos eles
Que matou, violou, queimou e quebrou.
Fui eu e a minha vergonha e o meu remorso com uma sombra disforme
Passeiam por todo o mundo como Ashavero,
Mas atrás dos meus passos soam passos do tamanho do infinito.
E um pavor físico de encontrar Deus faz-me fechar os olhos de repente.
Cristo absurdo da expiação de todos os crimes e de todas as violências,
A minha cruz está dentro de mim, hirta, a escaldar, a quebrar,
E tudo dói na minha alma extensa como um Universo.
Arranquei o pobre brinquedo das mãos da criança e bati-lhe.
Os seus olhos assustados do meu filho que talvez terei e que matarão também
Pediram-me sem saber como toda a piedade por todos.
Do quarto da velha arranquei o retrato do filho e rasguei-o,
Ela, cheia de medo, chorou e não fez nada...
Senti de repente que ela era minha mãe e pela espinha abaixo passou-me o sopro de Deus.
Quebrei a máquina de costura da viúva pobre.
Ela chorava a um canto sem pensar na máquina de costura.
Haverá outro mundo onde eu tenha que ter uma filha que enviúve e a quem aconteça isto?
Mandei, capitão, fuzilar os camponeses trémulos,
Deixei violar as filhas de todos os pais atados a árvores,
Agora vi que foi dentro de meu coração que tudo isso se passou,
E tudo escalda e sufoca e eu não me posso mexer sem que tudo seja o mesmo.
Deus tenha piedade de mim que a não tive de ninguém!
Inúmero rio sem água – só gente e coisas,
Pavorosamente sem água!
Soam tambores longínquos no meu ouvido,
E eu não sei se vejo o rio se ouço os tambores,
Como se não pudesse ouvir e ver ao mesmo tempo!
Helahoho! helahoho!
A máquina de costura da pobre viúva morta à baioneta...
Ela cosia à tarde indeterminadamente...
A mesa onde jogavam os velhos,
Tudo misturado, tudo misturado com corpos, com sangues,
Tudo um só rio, uma só onda, um só arrastado horror.
Helahoho! Helahoho!
Desenterrei o comboio de lata da criança calcado no meio da estrada,
E chorei como todas as mães do mundo sobre o horror da vida.
Os meus pés panteístas tropeçaram na máquina de costura da viúva que mataram à baioneta
E esse pobre instrumento de paz meteu uma lança no meu coração.
Sim, fui eu o culpado de tudo, fui eu o soldado todos eles
Que matou, violou, queimou e quebrou.
Fui eu e a minha vergonha e o meu remorso com uma sombra disforme
Passeiam por todo o mundo como Ashavero,
Mas atrás dos meus passos soam passos do tamanho do infinito.
E um pavor físico de encontrar Deus faz-me fechar os olhos de repente.
Cristo absurdo da expiação de todos os crimes e de todas as violências,
A minha cruz está dentro de mim, hirta, a escaldar, a quebrar,
E tudo dói na minha alma extensa como um Universo.
Arranquei o pobre brinquedo das mãos da criança e bati-lhe.
Os seus olhos assustados do meu filho que talvez terei e que matarão também
Pediram-me sem saber como toda a piedade por todos.
Do quarto da velha arranquei o retrato do filho e rasguei-o,
Ela, cheia de medo, chorou e não fez nada...
Senti de repente que ela era minha mãe e pela espinha abaixo passou-me o sopro de Deus.
Quebrei a máquina de costura da viúva pobre.
Ela chorava a um canto sem pensar na máquina de costura.
Haverá outro mundo onde eu tenha que ter uma filha que enviúve e a quem aconteça isto?
Mandei, capitão, fuzilar os camponeses trémulos,
Deixei violar as filhas de todos os pais atados a árvores,
Agora vi que foi dentro de meu coração que tudo isso se passou,
E tudo escalda e sufoca e eu não me posso mexer sem que tudo seja o mesmo.
Deus tenha piedade de mim que a não tive de ninguém!
2 358
Fernando Pessoa
Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia
Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia
Tinha não sei qual guerra,
Quando a invasão ardia na Cidade
E as mulheres gritavam,
Dois jogadores de xadrez jogavam
O seu jogo contínuo.
À sombra de ampla árvore fitavam
O tabuleiro antigo,
E, ao lado de cada um, esperando os seus
Momentos mais folgados,
Quando havia movido a pedra, e agora
Esperava o adversário,
Um púcaro com vinho refrescava
Sobriamente a sua sede.
Ardiam casas, saqueadas eram
As arcas e as paredes,
Violadas, as mulheres eram postas
Contra os muros caídos,
Traspassadas de lanças, as crianças
Eram sangue nas ruas...
Mas onde estavam, perto da cidade,
E longe do seu ruído,
Os jogadores de xadrez jogavam
O jogo do xadrez.
Inda que nas mensagens do ermo vento
Lhes viessem os gritos,
E, ao reflectir, soubessem desde a alma
Que por certo as mulheres
E as tenras filhas violadas eram
Nessa distância próxima,
Inda que, no momento que o pensavam,
Uma sombra ligeira
Lhes passasse na fronte alheada e vaga,
Breve seus olhos calmos
Volviam sua atenta confiança
Ao tabuleiro velho.
Quando o rei de marfim está em perigo,
Que importa a carne e o osso
Das irmãs e das mães e das crianças?
Quando a torre não cobre
A retirada da rainha branca,
O saque pouco importa.
E quando a mão confiada leva o xeque
Ao rei do adversário,
Pouco pesa na alma que lá longe
Estejam morrendo filhos.
Mesmo que, de repente, sobre o muro
Surja a sanhuda face
Dum guerreiro invasor, e breve deva
Em sangue ali cair
O jogador solene de xadrez,
O momento antes desse
(É ainda dado ao cálculo dum lance
Pra a efeito horas depois)
É ainda entregue ao jogo predilecto
Dos grandes indif'rentes.
Caiam cidades, sofram povos, cesse
A liberdade e a vida,
Os haveres tranquilos e avitos
Ardem e que se arranquem,
Mas quando a guerra os jogos interrompa,
Esteja o rei sem xeque,
E o de marfim peão mais avançado
Pronto a comprar a torre.
Meus irmãos em amarmos Epicuro
E o entendermos mais
De acordo com nós-próprios que com ele,
Aprendamos na história
Dos calmos jogadores de xadrez
Como passar a vida.
Tudo o que é sério pouco nos importe,
O grave pouco pese,
O natural impulso dos instintos
Que ceda ao inútil gozo
(Sob a sombra tranquila do arvoredo)
De jogar um bom jogo.
O que levamos desta vida inútil
Tanto vale se é
A glória, a fama, o amor, a ciência, a vida,
Como se fosse apenas
A memória de um jogo bem jogado
E uma partida ganha
A um jogador melhor.
A glória pesa como um fardo rico,
A fama como a febre,
O amor cansa, porque é a sério e busca,
A ciência nunca encontra,
E a vida passa e dói porque o conhece...
O jogo do xadrez
Prende a alma toda, mas, perdido, pouco
Pesa, pois não é nada.
Ah! sob as sombras que sem qu'rer nos amam,
Com um púcaro de vinho
Ao lado, e atentos só à inútil faina
Do jogo do xadrez,
Mesmo que o jogo seja apenas sonho
E não haja parceiro,
Imitemos os persas desta história,
E, enquanto lá por fora,
Ou perto ou longe, a guerra e a pátria e a vida
Chamam por nós, deixemos
Que em vão nos chamem, cada um de nós
Sob as sombras amigas
Sonhando, ele os parceiros, e o xadrez
A sua indiferença.
01/06/1916
Tinha não sei qual guerra,
Quando a invasão ardia na Cidade
E as mulheres gritavam,
Dois jogadores de xadrez jogavam
O seu jogo contínuo.
À sombra de ampla árvore fitavam
O tabuleiro antigo,
E, ao lado de cada um, esperando os seus
Momentos mais folgados,
Quando havia movido a pedra, e agora
Esperava o adversário,
Um púcaro com vinho refrescava
Sobriamente a sua sede.
Ardiam casas, saqueadas eram
As arcas e as paredes,
Violadas, as mulheres eram postas
Contra os muros caídos,
Traspassadas de lanças, as crianças
Eram sangue nas ruas...
Mas onde estavam, perto da cidade,
E longe do seu ruído,
Os jogadores de xadrez jogavam
O jogo do xadrez.
Inda que nas mensagens do ermo vento
Lhes viessem os gritos,
E, ao reflectir, soubessem desde a alma
Que por certo as mulheres
E as tenras filhas violadas eram
Nessa distância próxima,
Inda que, no momento que o pensavam,
Uma sombra ligeira
Lhes passasse na fronte alheada e vaga,
Breve seus olhos calmos
Volviam sua atenta confiança
Ao tabuleiro velho.
Quando o rei de marfim está em perigo,
Que importa a carne e o osso
Das irmãs e das mães e das crianças?
Quando a torre não cobre
A retirada da rainha branca,
O saque pouco importa.
E quando a mão confiada leva o xeque
Ao rei do adversário,
Pouco pesa na alma que lá longe
Estejam morrendo filhos.
Mesmo que, de repente, sobre o muro
Surja a sanhuda face
Dum guerreiro invasor, e breve deva
Em sangue ali cair
O jogador solene de xadrez,
O momento antes desse
(É ainda dado ao cálculo dum lance
Pra a efeito horas depois)
É ainda entregue ao jogo predilecto
Dos grandes indif'rentes.
Caiam cidades, sofram povos, cesse
A liberdade e a vida,
Os haveres tranquilos e avitos
Ardem e que se arranquem,
Mas quando a guerra os jogos interrompa,
Esteja o rei sem xeque,
E o de marfim peão mais avançado
Pronto a comprar a torre.
Meus irmãos em amarmos Epicuro
E o entendermos mais
De acordo com nós-próprios que com ele,
Aprendamos na história
Dos calmos jogadores de xadrez
Como passar a vida.
Tudo o que é sério pouco nos importe,
O grave pouco pese,
O natural impulso dos instintos
Que ceda ao inútil gozo
(Sob a sombra tranquila do arvoredo)
De jogar um bom jogo.
O que levamos desta vida inútil
Tanto vale se é
A glória, a fama, o amor, a ciência, a vida,
Como se fosse apenas
A memória de um jogo bem jogado
E uma partida ganha
A um jogador melhor.
A glória pesa como um fardo rico,
A fama como a febre,
O amor cansa, porque é a sério e busca,
A ciência nunca encontra,
E a vida passa e dói porque o conhece...
O jogo do xadrez
Prende a alma toda, mas, perdido, pouco
Pesa, pois não é nada.
Ah! sob as sombras que sem qu'rer nos amam,
Com um púcaro de vinho
Ao lado, e atentos só à inútil faina
Do jogo do xadrez,
Mesmo que o jogo seja apenas sonho
E não haja parceiro,
Imitemos os persas desta história,
E, enquanto lá por fora,
Ou perto ou longe, a guerra e a pátria e a vida
Chamam por nós, deixemos
Que em vão nos chamem, cada um de nós
Sob as sombras amigas
Sonhando, ele os parceiros, e o xadrez
A sua indiferença.
01/06/1916
2 137
Fernando Pessoa
A guerra que aflige com os seus esquadrões o Mundo,
A guerra, que aflige com os seus esquadrões o mundo,
É o tipo perfeito do erro da filosofia.
A guerra, como tudo humano, quer alterar.
Mas a guerra, mais do que tudo, quer alterar e alterar muito
E alterar depressa.
Mas a guerra inflige a morte.
E a morte é o desprezo do Universo por nós.
Tendo por consequência a morte, a guerra prova que é falsa.
Sendo falsa, prova que é falso todo o querer-alterar.
Deixemos o universo exterior e os outros homens onde a Natureza os pôs.
Tudo é orgulho e inconsciência.
Tudo é querer mexer-se, fazer coisas, deixar rasto.
Para o coração e o comandante dos esquadrões
Regressa aos bocados o universo exterior.
A química directa da Natureza
Não deixa lugar vago para o pensamento.
A humanidade é uma revolta de escravos.
A humanidade é um governo usurpado pelo povo.
Existe porque usurpou, mas erra porque usurpar é não ter direito.
Deixai existir o mundo exterior e a humanidade natural!
Paz a todas as coisas pré-humanas, mesmo no homem,
Paz à essência inteiramente exterior do Universo!
24/10/1917
É o tipo perfeito do erro da filosofia.
A guerra, como tudo humano, quer alterar.
Mas a guerra, mais do que tudo, quer alterar e alterar muito
E alterar depressa.
Mas a guerra inflige a morte.
E a morte é o desprezo do Universo por nós.
Tendo por consequência a morte, a guerra prova que é falsa.
Sendo falsa, prova que é falso todo o querer-alterar.
Deixemos o universo exterior e os outros homens onde a Natureza os pôs.
Tudo é orgulho e inconsciência.
Tudo é querer mexer-se, fazer coisas, deixar rasto.
Para o coração e o comandante dos esquadrões
Regressa aos bocados o universo exterior.
A química directa da Natureza
Não deixa lugar vago para o pensamento.
A humanidade é uma revolta de escravos.
A humanidade é um governo usurpado pelo povo.
Existe porque usurpou, mas erra porque usurpar é não ter direito.
Deixai existir o mundo exterior e a humanidade natural!
Paz a todas as coisas pré-humanas, mesmo no homem,
Paz à essência inteiramente exterior do Universo!
24/10/1917
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