Poemas neste tema
Infância
Carlos Nejar
Construção da Noite
No casulo
há um homem
Mas o fundo é o outro lado;
No casulo de seu tempo
Há um homem
Mas o fundo é o outro lado.
É o casulo
Onde o homem foi achado
Mas o fundo é o outro lado.
É o terreno
Onde o homem foi lavrado
Mas o fundo é o outro lado.
É a treva
onde o homem foi fechado
mas o fundo é o outro lado.
É o silêncio
De um homem soterrado
Mas o fundo é o outro lado
Mas o fundo é o outro lado.
É a infância que nasce sobre o morto
É a infância que cresce sobre o morto,
É o sol que madruga no seu rosto,
É um homem que salta do sol-posto
E convoca outros homens para o sonho.
E mistura-se á terra
E mistura-se ao sonho
E o canto recomeça além do sonho,
Além da escuridão, além do lago.
Mas o fundo é o outro lado.
Mas o fundo principia
Sem passado,
Sem os montes, sem os barcos,
Sem o lago.
Tua vida verdadeira é o outro lado,
Tua terra verdadeira é o outro lado,
Tua herança verdadeira é o outro lado.
Tudo cessa
Tudo cessa
Tudo cessa
Mas o mundo
é o outro lado
que começa
há um homem
Mas o fundo é o outro lado;
No casulo de seu tempo
Há um homem
Mas o fundo é o outro lado.
É o casulo
Onde o homem foi achado
Mas o fundo é o outro lado.
É o terreno
Onde o homem foi lavrado
Mas o fundo é o outro lado.
É a treva
onde o homem foi fechado
mas o fundo é o outro lado.
É o silêncio
De um homem soterrado
Mas o fundo é o outro lado
Mas o fundo é o outro lado.
É a infância que nasce sobre o morto
É a infância que cresce sobre o morto,
É o sol que madruga no seu rosto,
É um homem que salta do sol-posto
E convoca outros homens para o sonho.
E mistura-se á terra
E mistura-se ao sonho
E o canto recomeça além do sonho,
Além da escuridão, além do lago.
Mas o fundo é o outro lado.
Mas o fundo principia
Sem passado,
Sem os montes, sem os barcos,
Sem o lago.
Tua vida verdadeira é o outro lado,
Tua terra verdadeira é o outro lado,
Tua herança verdadeira é o outro lado.
Tudo cessa
Tudo cessa
Tudo cessa
Mas o mundo
é o outro lado
que começa
947
Andres Provi Pereira
Mia, Vulevo a ti
luego...
Mía, vuelvo
a tí luego de los años de ausencia camino por doquier mis pies me guien
y me hiere la nostalgia que piensa en el ayer, ese ayer de aventuras
y locuras juveniles que tejieron ilusiones en cada tarde de arena y
frente al mar cromado una vez más siento la brisa serena Mía, los días
y los años de milejanía te han cambiado, más hermosa y madura eres,
camino por tus calles llenas de recuerdos y las esquinas aún conservan
las travesuras de mi infancia y los días tempranos de la adolescensia.
Hoy te palpo y a los ojos puedo mirarte, tus lágrimas se confunden con
las mías y se que amas mi presencia. Mía, cómo no amarte, cómo estar
lejos y no adorarte si de ti mi vida está llena, mi vida está formada.
Llevo muy dentro el amor de tus raíces y tu dulce savia a hago mía y
me hago tuyo, se que amas mi presencia. Cómo olvidarte, en ti están
mis días de la secundaria, hoy recorro las aulas, hay tanto de mí y
los pupitres me recuerdan, mi lugar favorito, la cueva de rocas, hoy
está solitaria. Mía, tus palmeras y el sol ardiente me recuerdan las
tardes domingueras cuando tu mar me cubría de alegría, cuando sumergido
en tus aguas de colores buscaba la barracuda que Simón tantas veces
pregonaba, tiene ojos verdes, lágrimas azules y es hermosa, la busque
y nunca, nunca pude hallarla. Te amaré por siempre mía, perla del mar
olorosa.
Mía, vuelvo
a tí luego de los años de ausencia camino por doquier mis pies me guien
y me hiere la nostalgia que piensa en el ayer, ese ayer de aventuras
y locuras juveniles que tejieron ilusiones en cada tarde de arena y
frente al mar cromado una vez más siento la brisa serena Mía, los días
y los años de milejanía te han cambiado, más hermosa y madura eres,
camino por tus calles llenas de recuerdos y las esquinas aún conservan
las travesuras de mi infancia y los días tempranos de la adolescensia.
Hoy te palpo y a los ojos puedo mirarte, tus lágrimas se confunden con
las mías y se que amas mi presencia. Mía, cómo no amarte, cómo estar
lejos y no adorarte si de ti mi vida está llena, mi vida está formada.
Llevo muy dentro el amor de tus raíces y tu dulce savia a hago mía y
me hago tuyo, se que amas mi presencia. Cómo olvidarte, en ti están
mis días de la secundaria, hoy recorro las aulas, hay tanto de mí y
los pupitres me recuerdan, mi lugar favorito, la cueva de rocas, hoy
está solitaria. Mía, tus palmeras y el sol ardiente me recuerdan las
tardes domingueras cuando tu mar me cubría de alegría, cuando sumergido
en tus aguas de colores buscaba la barracuda que Simón tantas veces
pregonaba, tiene ojos verdes, lágrimas azules y es hermosa, la busque
y nunca, nunca pude hallarla. Te amaré por siempre mía, perla del mar
olorosa.
897
Silvaney Paes
Velho Moleque
Serei
menino de novo,
Criança pagã, nua de crenças tolas.
Meu credo será viver na molecagem,
Largarei meu velho na passagem.
Vestirei a roupagem da puerícia,
Deitando fora essa da velhice
E acharei hilário uns poucos tolos,
Que enxergarem em mim a caduquice.
E o tempo por demais zeloso,
Sabendo às vezes ser cioso
Gritará comigo um pouco,
Mas lhe farei ouvidos moços.
Ditoso, correrei pelos caminhos,
Desnudo tomarei banhos de riacho,
Andarei descalço pelos matos
E não conhecerei pudores ou receios.
Alguns se apressarão em alaridos:
- Lá vai o velho louco varrido!
E eu explodirei em risos,
Pois no menino descobri que vivo.
Mas se o tempo em ardil com a morte,
Resolverem arrematar-me a sorte,
Levarão consigo apenas o senil,
Pois o menino que mim reside
Traz o alento de ser sempre vivo.
menino de novo,
Criança pagã, nua de crenças tolas.
Meu credo será viver na molecagem,
Largarei meu velho na passagem.
Vestirei a roupagem da puerícia,
Deitando fora essa da velhice
E acharei hilário uns poucos tolos,
Que enxergarem em mim a caduquice.
E o tempo por demais zeloso,
Sabendo às vezes ser cioso
Gritará comigo um pouco,
Mas lhe farei ouvidos moços.
Ditoso, correrei pelos caminhos,
Desnudo tomarei banhos de riacho,
Andarei descalço pelos matos
E não conhecerei pudores ou receios.
Alguns se apressarão em alaridos:
- Lá vai o velho louco varrido!
E eu explodirei em risos,
Pois no menino descobri que vivo.
Mas se o tempo em ardil com a morte,
Resolverem arrematar-me a sorte,
Levarão consigo apenas o senil,
Pois o menino que mim reside
Traz o alento de ser sempre vivo.
1 394
Susana Pestana
Uma Lágrima
Passou por mim uma voz
Um estoiro!
Equilibrado na luz do dia
derradeiras esperanças
mostradas pela realidade acordada
Um despertar sem aviso
Um olhar entreaberto nas metades agitadas.
de um dia adulto...
O brilho nos olhos
Infantilidades adormecidas!
Tu
Criança que espreitas às escondidas
dentro da minha vida num quarto pequeno.
De olhos arregalados
Congelados num momento de dor
em feridas que se deslizam
no despertar de uma lágrima que não rola.
Uma apenas!
Sabedora lágrima que és, minha amiga
foge desse olhar arranhado pelos anos
e sobrevoa por galhos rijos e carinhosos.
vultos aquecidos por momentos.
Cresce por fora
voa!
Um estoiro!
Equilibrado na luz do dia
derradeiras esperanças
mostradas pela realidade acordada
Um despertar sem aviso
Um olhar entreaberto nas metades agitadas.
de um dia adulto...
O brilho nos olhos
Infantilidades adormecidas!
Tu
Criança que espreitas às escondidas
dentro da minha vida num quarto pequeno.
De olhos arregalados
Congelados num momento de dor
em feridas que se deslizam
no despertar de uma lágrima que não rola.
Uma apenas!
Sabedora lágrima que és, minha amiga
foge desse olhar arranhado pelos anos
e sobrevoa por galhos rijos e carinhosos.
vultos aquecidos por momentos.
Cresce por fora
voa!
887
Luiz Felipe Coelho
Infância
Nuvens
da infância
se aglomeram a confabular
a ameaçar trovões, raios, inundações
a mudar de forma,
massinha de modelar amassada pelo vento,
nossos cúmplices a combinar travessuras.
Nas ruas alagadas,
nas poças dos quintais,
nos rios que surgiram nos meio-fios,
acontecem coisas interessantes, árvores caem
e todos se sujam de lama.
Talvez não haja aulas,
talvez falte luz
e possamos brincar acendendo velas
e fazendo sombras nas paredes.
da infância
se aglomeram a confabular
a ameaçar trovões, raios, inundações
a mudar de forma,
massinha de modelar amassada pelo vento,
nossos cúmplices a combinar travessuras.
Nas ruas alagadas,
nas poças dos quintais,
nos rios que surgiram nos meio-fios,
acontecem coisas interessantes, árvores caem
e todos se sujam de lama.
Talvez não haja aulas,
talvez falte luz
e possamos brincar acendendo velas
e fazendo sombras nas paredes.
835
Reinaldo Ferreira
Duma outra infância, inventada
Duma outra infância, inventada,
Guardo memórias que são
Reais reversos do nada
Que as verdadeiras me dão.
Estas, se acaso regressam,
Em tropel e confusão
Ao limiar-me, tropeçam
No corpo das que lá estão.
Assim, mentindo as raízes
Do meu confuso começo,
Segrego imagens felizes
Com que as funestas esqueço.
Guardo memórias que são
Reais reversos do nada
Que as verdadeiras me dão.
Estas, se acaso regressam,
Em tropel e confusão
Ao limiar-me, tropeçam
No corpo das que lá estão.
Assim, mentindo as raízes
Do meu confuso começo,
Segrego imagens felizes
Com que as funestas esqueço.
2 057
Reinaldo Ferreira
Menino só
Assim que o Anjo descer,
Hei-de sentar-me na estrada
Ao pé da hora marcada
Para o menino nascer.
E quando venha - sem mais
Porque o não quero também
Maculado -
Hei-de fitá-Lo e sorrir
Pensando no que podia
Mas não lhe quero ensinar:
Nem a ler,
Nem a contar,
Nem que requinte a mentir.
Depois - mas depressa,
Não lhe desponte um vislumbre
De lucidez na cabeça -
.......................
Hei-de sentar-me na estrada
Ao pé da hora marcada
Para o menino nascer.
E quando venha - sem mais
Porque o não quero também
Maculado -
Hei-de fitá-Lo e sorrir
Pensando no que podia
Mas não lhe quero ensinar:
Nem a ler,
Nem a contar,
Nem que requinte a mentir.
Depois - mas depressa,
Não lhe desponte um vislumbre
De lucidez na cabeça -
.......................
2 199
V. de Araújo
Menino de Rua
Em flagrante denúncia,
aquela criança sem teto,
sem nome, sem pai...
com saltos mortais
escreve sua história,
enquanto banha despida
nas águas poluídas
das fontes luminosas.
aquela criança sem teto,
sem nome, sem pai...
com saltos mortais
escreve sua história,
enquanto banha despida
nas águas poluídas
das fontes luminosas.
823
Rogério Bessa
Do Canto VIII:
O Cabo das Tormentas:
Minúsculos Adamastores e um Mundo Coberto de Pó
nesses olhos me revejo
na eterna insônia das noites,
giz me descreve letárgico
mundo coberto de pó.
povoe-me sonhos em sono,
mas não constitua herança,
pavana, espelho ou ocaso
aos olhos dessa criança.
momentos tredos e ledos
apascentam o giz nutriz
que me seduz como fora
trevo enredo ou flor-de-lis.
Minúsculos Adamastores e um Mundo Coberto de Pó
nesses olhos me revejo
na eterna insônia das noites,
giz me descreve letárgico
mundo coberto de pó.
povoe-me sonhos em sono,
mas não constitua herança,
pavana, espelho ou ocaso
aos olhos dessa criança.
momentos tredos e ledos
apascentam o giz nutriz
que me seduz como fora
trevo enredo ou flor-de-lis.
871
Ribamar Feitosa
Cantiga de Ninar Mamãe
Dorme, mamãe,
do meu coração,
o bicho papão
não vem te comer.
Dorme, mamãe,
que eu vou vigiar
e a cuca
maluca
não vem te pegar.
Dorme, mamãe,
não tenhas mais medo
de tudo e de nada,
de bruxa malvada
que faz a careta,
de bois perigosos
de cara bem preta.
Dorme, mamãe,
é tão bom ver você
nesta cama deitada.
Eu sou pequenina,
mas posso ficar
um instante acordada.
Dorme, mamãe,
um anjo chegou
e, devagar,
nos beijou.
E você, mamãezinha,
mais bonita ficou.
do meu coração,
o bicho papão
não vem te comer.
Dorme, mamãe,
que eu vou vigiar
e a cuca
maluca
não vem te pegar.
Dorme, mamãe,
não tenhas mais medo
de tudo e de nada,
de bruxa malvada
que faz a careta,
de bois perigosos
de cara bem preta.
Dorme, mamãe,
é tão bom ver você
nesta cama deitada.
Eu sou pequenina,
mas posso ficar
um instante acordada.
Dorme, mamãe,
um anjo chegou
e, devagar,
nos beijou.
E você, mamãezinha,
mais bonita ficou.
691
Taumaturgo Vaz
Ri
Não conheces da vida o negro drama...
Não conheces a dor jamais vencida...
Viver rindo?! cuidado que na lida
Não te queime do amor a ardente chama.
Nunca sintas o fel que nos derrama
Dentro do peito essa ilusão perdida...
Ai! nunca saibas como dói a vida
Quando a gente é distante de quem ama.
Nunca saibas que o mundo é feito apenas
De amarguras cruéis, de duras penas
E de espinhos que a gente vão ferindo...
Sim! que a vida te corra sempre mansa!
Que tu sejas assim, sempre criança
E passes neste mundo sempre rindo!...
Não conheces a dor jamais vencida...
Viver rindo?! cuidado que na lida
Não te queime do amor a ardente chama.
Nunca sintas o fel que nos derrama
Dentro do peito essa ilusão perdida...
Ai! nunca saibas como dói a vida
Quando a gente é distante de quem ama.
Nunca saibas que o mundo é feito apenas
De amarguras cruéis, de duras penas
E de espinhos que a gente vão ferindo...
Sim! que a vida te corra sempre mansa!
Que tu sejas assim, sempre criança
E passes neste mundo sempre rindo!...
1 027
Paulo Véras
Marujo
Dentro da minha casa
acolho uma velhice
que me acompanha desde que nasci
O copo de prata de vovó
com seus lábios bordados na borda
Os olhos de uma tia morta
a vigiar-me da moldura oval
A bengala de meu avô
incentivando-me o passeio na calçada
A fruteira de vidro verde
(com frutas de cera)
a decepar-me o apetite
O aparelho de jantar azul
a fornecer-me a penumbra e a sopa
das seis da tarde
Na beira do rio
tem quermesse e eu não posso ir
tem bingo e leilão de peru assado
tem barquinho e rolete de cana
Estou vestido de marinheiro
e só posso navegar no jardim
acolho uma velhice
que me acompanha desde que nasci
O copo de prata de vovó
com seus lábios bordados na borda
Os olhos de uma tia morta
a vigiar-me da moldura oval
A bengala de meu avô
incentivando-me o passeio na calçada
A fruteira de vidro verde
(com frutas de cera)
a decepar-me o apetite
O aparelho de jantar azul
a fornecer-me a penumbra e a sopa
das seis da tarde
Na beira do rio
tem quermesse e eu não posso ir
tem bingo e leilão de peru assado
tem barquinho e rolete de cana
Estou vestido de marinheiro
e só posso navegar no jardim
1 121
Hardi Filho
Esdrúxulo
A prata, o caviar, a mesa elástica,
riem do pobre
e lhe pesam no vazio estômago.
O lustre, o veludo, o mármore,
esbofeteiam
a face do menino pálido.
Dói no seu corpo o sacrifício
da ingênua espera:
aberta mão ao desviado prêmio
De tanto conviver com áscaris
morre o menino
de alma e coração imáculos.
Uma paixão antiga, hoje única,
domina o mundo.
É torturante a dor sem número.
riem do pobre
e lhe pesam no vazio estômago.
O lustre, o veludo, o mármore,
esbofeteiam
a face do menino pálido.
Dói no seu corpo o sacrifício
da ingênua espera:
aberta mão ao desviado prêmio
De tanto conviver com áscaris
morre o menino
de alma e coração imáculos.
Uma paixão antiga, hoje única,
domina o mundo.
É torturante a dor sem número.
1 333
João Quental
Certa Vez de Manhã Cedo
Certa vez, de manhã cedo, o verão é um inseto morto
no parapeito, buscava entrar? Não havia entre ti e o mundo
nada além do mundo. Ruas tranqüilas, nada pretendia acabar,
mesmo as cidades eram seguras naquele tempo tão seu,
mesmo os sete anos de leituras não podiam conter seu nome.
Nós, não.
Certa vez de manhã cedo, com as janelas abertas a vento nenhum,
no sono púnhamos a dormir a palidez cristalina, tarefa
inacabada, crianças diligentes e contornadas, voltando
da escolha noturna, os compromissos, fome vigiada,
não porque precisassem dormir, mas nunca mais voltar a sonhar.
Se nossas vidas abrissem os olhos no escuro, se agora
não compreendemos o que é velejar pela morte,
se os muros das casas estão quentes e já consentimos,
na verdade não importa. É manhã. E, desta vez pelo menos,
estamos certos.
(1989)
no parapeito, buscava entrar? Não havia entre ti e o mundo
nada além do mundo. Ruas tranqüilas, nada pretendia acabar,
mesmo as cidades eram seguras naquele tempo tão seu,
mesmo os sete anos de leituras não podiam conter seu nome.
Nós, não.
Certa vez de manhã cedo, com as janelas abertas a vento nenhum,
no sono púnhamos a dormir a palidez cristalina, tarefa
inacabada, crianças diligentes e contornadas, voltando
da escolha noturna, os compromissos, fome vigiada,
não porque precisassem dormir, mas nunca mais voltar a sonhar.
Se nossas vidas abrissem os olhos no escuro, se agora
não compreendemos o que é velejar pela morte,
se os muros das casas estão quentes e já consentimos,
na verdade não importa. É manhã. E, desta vez pelo menos,
estamos certos.
(1989)
808
João Quental
A Idade Exigida
Sim, o barro vermelho das estradas que não sei...
Havia um tempo em que todos os vãos das portas
das casas, do mundo, de nada,
eram repletos de olhos de meninos
a espiar
a obscuridade.
Hoje não.
Ja não há mais casas,
nem meninos
nem vãos
obscuros...
Hoje é um dia em que me descubro sumido
na boca dos homens que perderam a vida a partir
tornar
seguir
rosnar
não quero que os dias sejam assim.
Pois não quero, nunca,
ter a idade exigida
para morrer, só, na poeira
do barro vermelho das estradas que não segui...
(1984)
Havia um tempo em que todos os vãos das portas
das casas, do mundo, de nada,
eram repletos de olhos de meninos
a espiar
a obscuridade.
Hoje não.
Ja não há mais casas,
nem meninos
nem vãos
obscuros...
Hoje é um dia em que me descubro sumido
na boca dos homens que perderam a vida a partir
tornar
seguir
rosnar
não quero que os dias sejam assim.
Pois não quero, nunca,
ter a idade exigida
para morrer, só, na poeira
do barro vermelho das estradas que não segui...
(1984)
921
Francisco Miguel de Moura
Três
Não lhe contarei minha história.
a da vaquinha morta,
e não me deu o leite da vida:
urubus pastaram seus olhos.
E pastarão sobre mim.
Nem a história de mamãe-titia,
de meu pai-pequeno-e-feio,
de meu nascer-Chico
por simples fuxico.
Não houve melhor jeito.
Depois, morreremos de comer, de beber:
— o sono-inanição era todo nosso.
E o medo do outro (e de nós?)
e os desejos menos preciosos
que morriam?
o mundo antes de mim,
do alto do descaso,
jogou-me na grande roleta.
E bicho permaneço.
Não me deram nem carne nem osso,
nem cabeça — mundo deus, mundo diabo.
Deram-me tripa
muita tripa
e coração.
Assim subvivi para este sonho
entre aves de rapina
e frutos escassos,
cactos, espinhos, trapos,
despetalando a vida que não quis.
a da vaquinha morta,
e não me deu o leite da vida:
urubus pastaram seus olhos.
E pastarão sobre mim.
Nem a história de mamãe-titia,
de meu pai-pequeno-e-feio,
de meu nascer-Chico
por simples fuxico.
Não houve melhor jeito.
Depois, morreremos de comer, de beber:
— o sono-inanição era todo nosso.
E o medo do outro (e de nós?)
e os desejos menos preciosos
que morriam?
o mundo antes de mim,
do alto do descaso,
jogou-me na grande roleta.
E bicho permaneço.
Não me deram nem carne nem osso,
nem cabeça — mundo deus, mundo diabo.
Deram-me tripa
muita tripa
e coração.
Assim subvivi para este sonho
entre aves de rapina
e frutos escassos,
cactos, espinhos, trapos,
despetalando a vida que não quis.
886
Francilda Costa
A Poesia na Literatura Infantil
Em princípio, a priori, assim como não há, na verdade uma Literatura Infantil, direcionada no ato de criação, pelo autor, não existe, a bem da verdade, uma Poesia Infantil. Duas hipóteses parecem justificar esta conclusão, a qual apenas é endosso meu, do pensamento lúcido de Carlos Drummond de Andrade e Cecília Meireles. A poesia para crianças, é, em essência, a mesma obra de arte para o adulto. Ou temos vergonha, diante de um momento poético despojado de complexidade, vergonha de assumir que ele nos impressionou, ou ainda temos aquela idéia velhíssima de que criança é criatura em grau diminutivo, dotada de pouca percepção, limitada em recursos, um homúnculo a quem se deve minimizar conteúdos e reduzir os obstáculos.
A simplicidade de linguagem e um repasse cristalino de mensagem não impedem a feitura de um grande poema (e não um poema grande) nem comprometem a verticalidade de uma abordagem.
O que não me parece viável nem honesto é adaptar, construir uma "simplicidade" falsa, denotativa pela falta de coragem de trabalhar um caminho de acesso ou por acreditar seja a criança um ser reprodutivo, um claudicante observador, incapaz de direcionar sua própria descoberta.
O simples nunca foi o fácil, e nisto reside a confusão maior deste questionamento. Ninguém pode imaginar quanto sofre um poeta, quanto exige de si mesmo para alcançar o que Drummond chama de estado de simplicidade.
A simplicidade, e não a simplificação, brota da depuração, da eliminação difícil da sedução formal (coisa espetacular) e funciona como uma centrífuga que de uma fruta tirasse apenas o suco, sem resíduos adicionais. O preconceituoso erudito, muitas vezes, não sabe que persegue acessório e não o essencial. Como afirma Drummond, quanto mais pura é a obra, mais perplexa a indagação: "Mas é somente isso? Não há mais nada? É o caso de se dizer: haveria, mas o gato comeu. (e ninguém viu o gato).
A criança apenas não tem acesso a determinadas construções do verso, mas é perfeitamente capaz de compreendê-las , bem entendido, se já tem domínio lógico. Daí não existirem poemas infantis para menores de 7 anos. Apenas gravuras das quais se extrai um texto.
O tom moralizador numa poesia, como também uma carga didática, não só intolerável para o adulto, mas para a criança também e sua repugnância mostra-se até bem mais acentuada. Qualquer poesia que tolha o melhor dos bens, a liberdade, é anti-literária e nunca deve ser encaminhada àqueles que se pode moldar, segundo a tradição, no caso a criança.
Deve ser realmente um suplício, tortura chinesa, agüentar dizer, no meio de um palco, em cima de uma cadeira ou a frente da classe:
"Sou pequenina, das pernas grossas
Vestido curto papai não gosta
Fui na cozinha comer salada
Mamãe me viu, me deu palmada
Fui na despensa roubar um queijo
Papai me viu, me deu um beijo"
Esses direcionamentos ideológicos da mamãe carrasca e do papai herói, tem sustentado muitas das idéias sobre equilíbrio familiar. Se não analisarmos poemas assim questionando sua filosofia e sim a título de mera informação reprodutiva, estaremos bloqueando o avanço de uma futura geração na direção de um mundo menos hipócrita e mais justo em seu senso comum.
Lobato propunha que se usasse a poesia para ensinar todas as áreas de conhecimento do currículo da Escola Básica. A poesia tem o dom de aguçar a sensibilidade e pelo seu processo de síntese forçar desdobramentos do raciocínio.
Grotesco era dizer às crianças, no catecismo infantil a linearidade de coisas assim: "Maria, a mãe de Jesus foi virgem antes do parto no parto e depois do parto." Patativa do Assaré rompe o hermetismo dogmático, utilizando-se tão somente da função poética: "Jesus entrou em Maria como o sol pela vidraça."
Por que não se aproveitam os versos de Juca Chaves para cantar a história do descobrimento? Medo do tom de sátira, de uma possível queda no fervor cívico? O objeto amado que não resiste a uma radiografia, não adquire sustentação permanente e profunda.
Se não vejamos os versos à guisa de um estilo trovadoresco, talvez até um misto de cantiga de amor e escárnio.
"Então partiu Cabral
comandando as caravelas
oh cara, oh cara,
oh cara, oh caravelas.
Bem no meio do oceano
Encontraram calmaria BIS
Oh calma, oh calma,
Oh calma, oh calmaria.
Enxergaram logo um monte
que chamaram de Pascoal
era dia 21 de abril
2 meses depois do carnaval."
O esforço para arrolar como infantil alguns poemas da lavra de poetas maiores, como é o caso de Mário Quintana, Vinícius de Moraes e Cecília Meireles é evidente nos exercícios de interpretação de texto, contidos nos livros didáticos, os quais drenam o que há de mais importante no sub-texto do poema, tornando-o um mero referencial que atende apenas o elemento instrutivo (o educare) deixando de lado o educare, o elemento provocador de descobertas, que perfaz o educar e diverte pela aventura de, com ele, alcançar-se a compreensão maior, a chave que abre o mundo "não dito do poema".
Vejamos o poema "O Cavalinho Branco" de Cecília Meireles e a ficha de leitura que se lhe segue:
"À tarde, o cavalinho branco
está muito cansado:
mas há um pedacinho de campo
onde é sempre feriado,
O cavalo sacode a crina
loura e comprida,
e nas verdes ervas atira
sua branca vida.
Seu relincho estremece as raízes
e ele ensina aos ventos
a alegria de sentir livres
seus movimentos.
Trabalhou todo o dia tanto
desde a madrugada!
descansa entre as flores, cavalinho branco
de crina dourada."
Atente-se agora para o questionamento que é aplicado ao poema:
l - Qual é a cor do cavalinho?
2 - Onde ele está?
3 - Como é sua crina?
4 - Ele está dormindo ou acordado?
5 - Que ele come?
Sabemos que, desta maneira dois desastres didático-literários acontecem: primeiramente, o poético foi inviabilizado; segundo, a criança e condicionada a manter-se nas informações secundárias, superficiais, impedida de se emocionar ou recriar o poema, numa co-autoria.
O mesmo acontece com o poema "Pedro" de Bartolomeu Campos Queiroz.
"Pedro é um nome que agente conhece em muitas línguas:
Pedro, Pierre, Pietro, Peter, Pether, Petrus.
Pedro pintou, um dia, em alguma parte do mundo, o retrato
de uma borboleta.
O papel tinha o tamanho de sua intenção.
As cores, as de seu desejo.
Pintou ainda, sobre o papel, flores para a borboleta se esconder
e galhos para descansar.
É mesmo fácil imaginar sua pintura ou faze-la, mas a
conseqüência não foi tão simples.
É melhor saber toda a história.
Pierre acordou com o coração cheio de domingo.
Domingo é dia em que a gente não quer nada e por isso
acontece quase tudo.
Não era domingo, mas ele se sentia em paz com o mundo.
Nesse dia ele viu o vôo de uma borboleta (vôo de borboleta
pode transformar qualquer dia em domingo)."
Com relação a este poema, uma professora sofreu admoestações do supervisar por colocar um estudo das idéias do texto, acima da compreensão dos alunos, de acordo com reclamações das mães e não dos garotos, que estavam gostando do desafio da dificuldade. Vejamos as perguntas:
l - Por que será que Pedro é um nome tão comum?
2 - Pedro é um nome forte ou fraco? Fica bem acompanhado de
outro nome sozinho? Explique sua escolha.
3 - Por que as flores serviam para a borboleta se esconder
e não para delas sugar o mel?
4 - O coração da gente muda quando o domingo
se transforma em 2a feira?
5 - Qualquer dia pode ser domingo? Como?
O adulto, via de regra, tem em mente que fazer a criança pensar ou conflita
A simplicidade de linguagem e um repasse cristalino de mensagem não impedem a feitura de um grande poema (e não um poema grande) nem comprometem a verticalidade de uma abordagem.
O que não me parece viável nem honesto é adaptar, construir uma "simplicidade" falsa, denotativa pela falta de coragem de trabalhar um caminho de acesso ou por acreditar seja a criança um ser reprodutivo, um claudicante observador, incapaz de direcionar sua própria descoberta.
O simples nunca foi o fácil, e nisto reside a confusão maior deste questionamento. Ninguém pode imaginar quanto sofre um poeta, quanto exige de si mesmo para alcançar o que Drummond chama de estado de simplicidade.
A simplicidade, e não a simplificação, brota da depuração, da eliminação difícil da sedução formal (coisa espetacular) e funciona como uma centrífuga que de uma fruta tirasse apenas o suco, sem resíduos adicionais. O preconceituoso erudito, muitas vezes, não sabe que persegue acessório e não o essencial. Como afirma Drummond, quanto mais pura é a obra, mais perplexa a indagação: "Mas é somente isso? Não há mais nada? É o caso de se dizer: haveria, mas o gato comeu. (e ninguém viu o gato).
A criança apenas não tem acesso a determinadas construções do verso, mas é perfeitamente capaz de compreendê-las , bem entendido, se já tem domínio lógico. Daí não existirem poemas infantis para menores de 7 anos. Apenas gravuras das quais se extrai um texto.
O tom moralizador numa poesia, como também uma carga didática, não só intolerável para o adulto, mas para a criança também e sua repugnância mostra-se até bem mais acentuada. Qualquer poesia que tolha o melhor dos bens, a liberdade, é anti-literária e nunca deve ser encaminhada àqueles que se pode moldar, segundo a tradição, no caso a criança.
Deve ser realmente um suplício, tortura chinesa, agüentar dizer, no meio de um palco, em cima de uma cadeira ou a frente da classe:
"Sou pequenina, das pernas grossas
Vestido curto papai não gosta
Fui na cozinha comer salada
Mamãe me viu, me deu palmada
Fui na despensa roubar um queijo
Papai me viu, me deu um beijo"
Esses direcionamentos ideológicos da mamãe carrasca e do papai herói, tem sustentado muitas das idéias sobre equilíbrio familiar. Se não analisarmos poemas assim questionando sua filosofia e sim a título de mera informação reprodutiva, estaremos bloqueando o avanço de uma futura geração na direção de um mundo menos hipócrita e mais justo em seu senso comum.
Lobato propunha que se usasse a poesia para ensinar todas as áreas de conhecimento do currículo da Escola Básica. A poesia tem o dom de aguçar a sensibilidade e pelo seu processo de síntese forçar desdobramentos do raciocínio.
Grotesco era dizer às crianças, no catecismo infantil a linearidade de coisas assim: "Maria, a mãe de Jesus foi virgem antes do parto no parto e depois do parto." Patativa do Assaré rompe o hermetismo dogmático, utilizando-se tão somente da função poética: "Jesus entrou em Maria como o sol pela vidraça."
Por que não se aproveitam os versos de Juca Chaves para cantar a história do descobrimento? Medo do tom de sátira, de uma possível queda no fervor cívico? O objeto amado que não resiste a uma radiografia, não adquire sustentação permanente e profunda.
Se não vejamos os versos à guisa de um estilo trovadoresco, talvez até um misto de cantiga de amor e escárnio.
"Então partiu Cabral
comandando as caravelas
oh cara, oh cara,
oh cara, oh caravelas.
Bem no meio do oceano
Encontraram calmaria BIS
Oh calma, oh calma,
Oh calma, oh calmaria.
Enxergaram logo um monte
que chamaram de Pascoal
era dia 21 de abril
2 meses depois do carnaval."
O esforço para arrolar como infantil alguns poemas da lavra de poetas maiores, como é o caso de Mário Quintana, Vinícius de Moraes e Cecília Meireles é evidente nos exercícios de interpretação de texto, contidos nos livros didáticos, os quais drenam o que há de mais importante no sub-texto do poema, tornando-o um mero referencial que atende apenas o elemento instrutivo (o educare) deixando de lado o educare, o elemento provocador de descobertas, que perfaz o educar e diverte pela aventura de, com ele, alcançar-se a compreensão maior, a chave que abre o mundo "não dito do poema".
Vejamos o poema "O Cavalinho Branco" de Cecília Meireles e a ficha de leitura que se lhe segue:
"À tarde, o cavalinho branco
está muito cansado:
mas há um pedacinho de campo
onde é sempre feriado,
O cavalo sacode a crina
loura e comprida,
e nas verdes ervas atira
sua branca vida.
Seu relincho estremece as raízes
e ele ensina aos ventos
a alegria de sentir livres
seus movimentos.
Trabalhou todo o dia tanto
desde a madrugada!
descansa entre as flores, cavalinho branco
de crina dourada."
Atente-se agora para o questionamento que é aplicado ao poema:
l - Qual é a cor do cavalinho?
2 - Onde ele está?
3 - Como é sua crina?
4 - Ele está dormindo ou acordado?
5 - Que ele come?
Sabemos que, desta maneira dois desastres didático-literários acontecem: primeiramente, o poético foi inviabilizado; segundo, a criança e condicionada a manter-se nas informações secundárias, superficiais, impedida de se emocionar ou recriar o poema, numa co-autoria.
O mesmo acontece com o poema "Pedro" de Bartolomeu Campos Queiroz.
"Pedro é um nome que agente conhece em muitas línguas:
Pedro, Pierre, Pietro, Peter, Pether, Petrus.
Pedro pintou, um dia, em alguma parte do mundo, o retrato
de uma borboleta.
O papel tinha o tamanho de sua intenção.
As cores, as de seu desejo.
Pintou ainda, sobre o papel, flores para a borboleta se esconder
e galhos para descansar.
É mesmo fácil imaginar sua pintura ou faze-la, mas a
conseqüência não foi tão simples.
É melhor saber toda a história.
Pierre acordou com o coração cheio de domingo.
Domingo é dia em que a gente não quer nada e por isso
acontece quase tudo.
Não era domingo, mas ele se sentia em paz com o mundo.
Nesse dia ele viu o vôo de uma borboleta (vôo de borboleta
pode transformar qualquer dia em domingo)."
Com relação a este poema, uma professora sofreu admoestações do supervisar por colocar um estudo das idéias do texto, acima da compreensão dos alunos, de acordo com reclamações das mães e não dos garotos, que estavam gostando do desafio da dificuldade. Vejamos as perguntas:
l - Por que será que Pedro é um nome tão comum?
2 - Pedro é um nome forte ou fraco? Fica bem acompanhado de
outro nome sozinho? Explique sua escolha.
3 - Por que as flores serviam para a borboleta se esconder
e não para delas sugar o mel?
4 - O coração da gente muda quando o domingo
se transforma em 2a feira?
5 - Qualquer dia pode ser domingo? Como?
O adulto, via de regra, tem em mente que fazer a criança pensar ou conflita
1 854
Ana Maria Ramiro
Monólogo
Anseio por uma infância perdida.
Foi-se a sinceridade encontrada apenas
nos gestos imaturos,
e com ela minha alegria.
Almejo uma loucura incoerentemente sóbria,
que finalmente traga minha alma à tona
e desatole tantas emoções contidas.
Cultivo pequenos momentos de minha existência
e não sou exigente, pois sei que a mediocridade
é inerente a todos os sonhadores.
Busco minha própria sombra,
alguém que me complete.
Que me faça ver que valeu a pena encarar o desconhecido,
descobrir que não há nenhum prêmio
por bom comportamento...falsos ícones.
Só um jovem do outro lado da linha.
Foi-se a sinceridade encontrada apenas
nos gestos imaturos,
e com ela minha alegria.
Almejo uma loucura incoerentemente sóbria,
que finalmente traga minha alma à tona
e desatole tantas emoções contidas.
Cultivo pequenos momentos de minha existência
e não sou exigente, pois sei que a mediocridade
é inerente a todos os sonhadores.
Busco minha própria sombra,
alguém que me complete.
Que me faça ver que valeu a pena encarar o desconhecido,
descobrir que não há nenhum prêmio
por bom comportamento...falsos ícones.
Só um jovem do outro lado da linha.
1 004
Adelino Fontoura
Celeste
É tão divina a angélica aparência
E a graça que ilumina o rosto dela,
Que eu concebera o tipo da inocência
Nessa criança imaculada e bela.
Peregrina do céu, pálida estrela,
Exilada da etérea transparência,
Sua origem não pode ser aquela
Da nossa triste e mísera existência.
Tem a celeste e ingênua formosura
E a luminosa auréola sacrossanta
De uma visão do céu, cândida e pura.
E quando os olhos para o céu levanta,
Inundados de mística doçura,
Nem parece mulher — parece santa.
E a graça que ilumina o rosto dela,
Que eu concebera o tipo da inocência
Nessa criança imaculada e bela.
Peregrina do céu, pálida estrela,
Exilada da etérea transparência,
Sua origem não pode ser aquela
Da nossa triste e mísera existência.
Tem a celeste e ingênua formosura
E a luminosa auréola sacrossanta
De uma visão do céu, cândida e pura.
E quando os olhos para o céu levanta,
Inundados de mística doçura,
Nem parece mulher — parece santa.
2 507
Vivaldo Beldade
Menina de Saia Encarnada
Menina bonitaDe saia encarnada
Que passas na rua
Correndo apressada
Corre contente
Que a vida é ligeira
Menina bonita
De saia encarnada
Os teus pensamentos
E os teus caracóis
Parece que bailam
Contigo na lua,
E a tua cabeça,
ligeira dóninha
Parece mais leve
Que uma andorinha
Corre menina
De saia encarnada
Que a vida pra ti
É sonho e mais nada
Menina bonita
De saia encarnada
Dos lindos cabelos
Das faces rosadas
Corre ligeira
No mundo que sonhas
Que o mundo real
É doutra maneira
Corre menina
Dos cabelos louros
Dos sonhos doirados
Alegre e feliz
Porque este mundo
É mais infeliz
Menina bonita
De saia encarnada
O mundo pra ti
É sonho e mais nada
Que passas na rua
Correndo apressada
Corre contente
Que a vida é ligeira
Menina bonita
De saia encarnada
Os teus pensamentos
E os teus caracóis
Parece que bailam
Contigo na lua,
E a tua cabeça,
ligeira dóninha
Parece mais leve
Que uma andorinha
Corre menina
De saia encarnada
Que a vida pra ti
É sonho e mais nada
Menina bonita
De saia encarnada
Dos lindos cabelos
Das faces rosadas
Corre ligeira
No mundo que sonhas
Que o mundo real
É doutra maneira
Corre menina
Dos cabelos louros
Dos sonhos doirados
Alegre e feliz
Porque este mundo
É mais infeliz
Menina bonita
De saia encarnada
O mundo pra ti
É sonho e mais nada
1 129
Carlos Vogt
Sabedoria Infantil
Para falar a verdade,
esta cheia de meandros, meios, caminhos,
pântanos, voltas e volteios,
a verdade, enfim, que conhecemos clara
como se vista através de um biombo disfarçando intimidades.
Para falar a verdade
nua, crua, transparente e limpa
nada mais próprio que um sonho de menina.
(1991)
esta cheia de meandros, meios, caminhos,
pântanos, voltas e volteios,
a verdade, enfim, que conhecemos clara
como se vista através de um biombo disfarçando intimidades.
Para falar a verdade
nua, crua, transparente e limpa
nada mais próprio que um sonho de menina.
(1991)
1 198
Waldy Sombra
Meu Chão, Minha Canção
Chão dos meus avós e dos meus pais!
Chão do meu nascimento e
da minha infância!
Quis a neurose cearense da peregrinação
que eu me afastasse de ti,
mas, qual árvore arrancada,
levei nas raízes
o massapê das tuas várzeas.
Nasceste, limoeiro, Terra minha,
do abraço molhado de dois rios
num parênteses de amor.
Por isso, decerto, o feitiço
que exerces sobre os teus filhos.
Em mim, operas o milagre da transfiguração,
porque és força,
és vida,
és canção.
Basta-me pensar em ti,
para que me transporte à felicidade.
Vejo-me, então, pelo terreiro da Gangorra,
chispando no meu cavalo-de-talo,
fogoso, olhos faiscantes
de cacos de garrafa...
No cavalete de, mulungu, sinto-me artista,
e desafio espumas, balseiros e funis
do Riacho Seco e do Banabuiú
nos anos de águas grandes.
Enternece-me
a doce cantilena do bê-a-bá e da tabuada
da escola de Maria Sombra,
e chega-me
o vibrante tropel,
o baralhador ritmado do Cavalo Preto do meu pai.
Vêm-me aos ouvidos as vozes da várzea,
com o vento vespertino Aracati,
farfalhando palhas, varrendo tudo
e debulhando cachos de carnaúba madura.
Surgem-me, iluminadas,
as hóstias de zinco dos cata-ventos
da ilha do meu avó Zé Sombra
zunindo, zunindo,
puxando água, puxando água,
para a sede das bananeiras.
Subo à torre da Matriz,
escondido de Deolindo,
puxo a corda do sino e
encho de badaladas
a luz branca e morna da manhã.
Na saudade, a alegria da Noite de Festas!
Mastigo os cavalos-de-broa e as fogosas
de João Jaguaribe,
os tijolinhos e mariolas de Eugeninho,
bebo aluá de milho
do pote suado
debaixo da tamarineira
de Maria Pernambucana
e rezo, enfim, minha gulodice
num rosário-de-catolé
em frente ao portão grande do Mercado.
Apoteoticamente lá vem desfilando
a Banda de Música do Maestro Odílio,
com as zabumbadas dos bombos
de João de Carminha
e Antônio Rapadura
— Tum-dum ... tum-dum.. tum-dum ... —
marcando o festivo compasso
do meu coração.
Que outra terra, que outra gente
me trariam de volta
esses sons,
essas imagens?
Por isso e por muito mais,
Limoeiro, tu és para mim
o chão mais valioso do mundo!
Chão dos meus avós e dos meus pais!
Chão do meu nascimento e da minha infância!
Chão que, um dia, me receberá
para o último sono.
Chão do meu nascimento e
da minha infância!
Quis a neurose cearense da peregrinação
que eu me afastasse de ti,
mas, qual árvore arrancada,
levei nas raízes
o massapê das tuas várzeas.
Nasceste, limoeiro, Terra minha,
do abraço molhado de dois rios
num parênteses de amor.
Por isso, decerto, o feitiço
que exerces sobre os teus filhos.
Em mim, operas o milagre da transfiguração,
porque és força,
és vida,
és canção.
Basta-me pensar em ti,
para que me transporte à felicidade.
Vejo-me, então, pelo terreiro da Gangorra,
chispando no meu cavalo-de-talo,
fogoso, olhos faiscantes
de cacos de garrafa...
No cavalete de, mulungu, sinto-me artista,
e desafio espumas, balseiros e funis
do Riacho Seco e do Banabuiú
nos anos de águas grandes.
Enternece-me
a doce cantilena do bê-a-bá e da tabuada
da escola de Maria Sombra,
e chega-me
o vibrante tropel,
o baralhador ritmado do Cavalo Preto do meu pai.
Vêm-me aos ouvidos as vozes da várzea,
com o vento vespertino Aracati,
farfalhando palhas, varrendo tudo
e debulhando cachos de carnaúba madura.
Surgem-me, iluminadas,
as hóstias de zinco dos cata-ventos
da ilha do meu avó Zé Sombra
zunindo, zunindo,
puxando água, puxando água,
para a sede das bananeiras.
Subo à torre da Matriz,
escondido de Deolindo,
puxo a corda do sino e
encho de badaladas
a luz branca e morna da manhã.
Na saudade, a alegria da Noite de Festas!
Mastigo os cavalos-de-broa e as fogosas
de João Jaguaribe,
os tijolinhos e mariolas de Eugeninho,
bebo aluá de milho
do pote suado
debaixo da tamarineira
de Maria Pernambucana
e rezo, enfim, minha gulodice
num rosário-de-catolé
em frente ao portão grande do Mercado.
Apoteoticamente lá vem desfilando
a Banda de Música do Maestro Odílio,
com as zabumbadas dos bombos
de João de Carminha
e Antônio Rapadura
— Tum-dum ... tum-dum.. tum-dum ... —
marcando o festivo compasso
do meu coração.
Que outra terra, que outra gente
me trariam de volta
esses sons,
essas imagens?
Por isso e por muito mais,
Limoeiro, tu és para mim
o chão mais valioso do mundo!
Chão dos meus avós e dos meus pais!
Chão do meu nascimento e da minha infância!
Chão que, um dia, me receberá
para o último sono.
460
Walter Queiroz
O Susto
O susto era o céu
violento nos olhos
a mancha de fogo
cidade de nuvens
O susto era o sonho
na festa da noite
pastando lembranças
do último espanto
O susto era a tarde
passando carreira
girando a criança
pião na varanda
O susto foi grito
um gesto sem jeito
a lança de anúncios
no alvo do peito
O susto de agora
no tempo de hoje
folia de pranto
no canto das armas
violento nos olhos
a mancha de fogo
cidade de nuvens
O susto era o sonho
na festa da noite
pastando lembranças
do último espanto
O susto era a tarde
passando carreira
girando a criança
pião na varanda
O susto foi grito
um gesto sem jeito
a lança de anúncios
no alvo do peito
O susto de agora
no tempo de hoje
folia de pranto
no canto das armas
949
Valeria Braga
Moderna
Moderna
Na sala, o piano toca um som de silêncio.
Pra quê serve um piano sem som?
Pra nada ou pra alguma coisa
que ainda não conseguimos descobrir -
além de adorno cultural.
Mas isso não importa ao piano,
nada lhe acontece por sua inutilidade.
Ele continua lá, toquem-no ou não.
Ele continua guardando sua propriedade
de ser tocado e ouvido.
As crianças crescem ao silêncio do piano
e à fala do arbítrio.
Nada interfere na vida e no crescimento
das crianças.
O piano não interfere na existência das crianças.
A não existência do piano também não interfere
na vida de ninguém.
Ambos - piano e pessoas - existem independentes.
Cada qual, isoladamente.
O piano só é.
Na sala, o piano toca um som de silêncio.
Pra quê serve um piano sem som?
Pra nada ou pra alguma coisa
que ainda não conseguimos descobrir -
além de adorno cultural.
Mas isso não importa ao piano,
nada lhe acontece por sua inutilidade.
Ele continua lá, toquem-no ou não.
Ele continua guardando sua propriedade
de ser tocado e ouvido.
As crianças crescem ao silêncio do piano
e à fala do arbítrio.
Nada interfere na vida e no crescimento
das crianças.
O piano não interfere na existência das crianças.
A não existência do piano também não interfere
na vida de ninguém.
Ambos - piano e pessoas - existem independentes.
Cada qual, isoladamente.
O piano só é.
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