Poemas neste tema
Infância
Marta Gonçalves
O Retrato de Biel
(Em memória do Poeta e Professor
Gabriel Archanjo de Mendonça)
Vestia o inverno, na foto marcando viagem. Os olhos vinham das águas, do rio, dos pássaros que voavam em seu corpo. A voz cantava uma canção. Canção embrenhada na distância. No silêncio, a risada de Biel. Existia um olhar aberto à procura dos seres que formavam o caule da vida. Reencontro de amigos. O mistério do espírito se preparando ao hiato da ausência. Biel desenhava no porão. Os olhos em vigília. Olhava os campos calcinados, onde borboletas secas dormiam. Biel, inflexão do corpo criando versos de origem, criando grãos no espaço. Biel menino. Ah, os cabelos de Biel! O canário nos dedos trazia o sol. Biel, viajante de tudo que já foi visto. Rindo, rindo, rindo, do barco à espera. Tantas flores chegando. A festa de Biel
O desamparo arrastando o sino. Formigas retalhando memórias. O desgaste no oco dos olhos. Poemas guardados em álbuns amarelados, trazendo emoções. Fazia frio no dia 31 de julho de 1996. Tarde de Biel. De poemas. À margem da praia distante vejo o texto crescendo. Uma flor azul entre as pedras dorme o fim. Biel menino, poeta, desenhista, cantor de canções perdidas. Nada explica o professor do vento da velha São João Nepomuceno.
Leio sua poesia, vejo o retrato vestido de inverno. Encarno a geografia de sua vida. O vôo não foi rasteiro. Plantaram a semente. Depois o pânico do silêncio. Lá fora a chuva marca o nascimento do poeta.
Gabriel Archanjo de Mendonça)
Vestia o inverno, na foto marcando viagem. Os olhos vinham das águas, do rio, dos pássaros que voavam em seu corpo. A voz cantava uma canção. Canção embrenhada na distância. No silêncio, a risada de Biel. Existia um olhar aberto à procura dos seres que formavam o caule da vida. Reencontro de amigos. O mistério do espírito se preparando ao hiato da ausência. Biel desenhava no porão. Os olhos em vigília. Olhava os campos calcinados, onde borboletas secas dormiam. Biel, inflexão do corpo criando versos de origem, criando grãos no espaço. Biel menino. Ah, os cabelos de Biel! O canário nos dedos trazia o sol. Biel, viajante de tudo que já foi visto. Rindo, rindo, rindo, do barco à espera. Tantas flores chegando. A festa de Biel
O desamparo arrastando o sino. Formigas retalhando memórias. O desgaste no oco dos olhos. Poemas guardados em álbuns amarelados, trazendo emoções. Fazia frio no dia 31 de julho de 1996. Tarde de Biel. De poemas. À margem da praia distante vejo o texto crescendo. Uma flor azul entre as pedras dorme o fim. Biel menino, poeta, desenhista, cantor de canções perdidas. Nada explica o professor do vento da velha São João Nepomuceno.
Leio sua poesia, vejo o retrato vestido de inverno. Encarno a geografia de sua vida. O vôo não foi rasteiro. Plantaram a semente. Depois o pânico do silêncio. Lá fora a chuva marca o nascimento do poeta.
1 190
Marta Gonçalves
O canário da Menina
Menina na calçada olhava os passarinhos
Seu Lolô, de gravata borboleta, descia a rua:
Vou trazer um canário pra menina.
Na avenida, o bonde passava, a enxurrada passava.
Tempo de manga, tempo de goiaba, tempo de papagaios.
Menina na calçada, seu Lolô descendo a rua.
No amor, a menina bateu asas.
Voou nos rostos. Beijou faces.
Sonhou com o mar. Descobriu o infinito vôo
da gaivota.
Tanto passarinho tantos vôos tanta saudade.
Seu Lolô, de gravata borboleta, descia a rua:
Vou trazer um canário pra menina.
Na avenida, o bonde passava, a enxurrada passava.
Tempo de manga, tempo de goiaba, tempo de papagaios.
Menina na calçada, seu Lolô descendo a rua.
No amor, a menina bateu asas.
Voou nos rostos. Beijou faces.
Sonhou com o mar. Descobriu o infinito vôo
da gaivota.
Tanto passarinho tantos vôos tanta saudade.
1 096
Marigê Quirino Marchini
Sonetos Noturnos
- III -
Outono lento em claras ventanias
prepara estas paisagens para a chuva,
de um silêncio aromal os foscos dias
- e deixamos o olhar, o mosto e a uva
madurarem seu claro vinho ameno,
o que preserve o fogo em sua lareira,
fetiche das luzernas no sereno,
o amor, do precipício à curta beira.
Os beirais das aldeias se anunciam
sem os murmúreos cantos do verão
e o seu vizinho inverno propiciam
- enche a espera de sombras o salão;
tão brando este calor se faz em mim
(leve perpassa o aroma em seu jardim).
- V -
Vertem seus suores líquidas lembranças
malvas, violetas de variáveis cores
sobre o tanque, peixes, limo e os rigores
da imutável água no seu ar de estrelas:
cabisbaixos olhos contam suas perdas.
Na alameda em frutos o acre persistente
e o medo de erguê-la viva sobre as quedas
onde brilha um sol noturno suavemente;
líquidas lembranças, tanque, violetas,
malvas em escamas nadam sobre o limo,
e era uma menina e a caça às borboletas,
e era uma paisagem e eram seus rumores,
já perdidos tempos, já desfeitas tranças,
vertem violetas vívidos suores.
- VII -
Esse arfar negro denso e misterioso
das janelas abertas para dentro,
onde o ar seco estala e se incendeia
na poeira dos úmidos incensos,
é um ar negro e de pálidas lembranças
que de interiores faz a sombra escura,
que sequer lá de fora se imagina,
ser, e que por ser dentro se inaugura
em sombria, opalíssima tristeza
e que sequer lá fora se imagina,
pensa-se que é de noite, e é de dia
e pensa-se que é triste o triste ser
olhando lá de dentro o claro escuro
- e se existe é por sombra e por não-ser.
Outono lento em claras ventanias
prepara estas paisagens para a chuva,
de um silêncio aromal os foscos dias
- e deixamos o olhar, o mosto e a uva
madurarem seu claro vinho ameno,
o que preserve o fogo em sua lareira,
fetiche das luzernas no sereno,
o amor, do precipício à curta beira.
Os beirais das aldeias se anunciam
sem os murmúreos cantos do verão
e o seu vizinho inverno propiciam
- enche a espera de sombras o salão;
tão brando este calor se faz em mim
(leve perpassa o aroma em seu jardim).
- V -
Vertem seus suores líquidas lembranças
malvas, violetas de variáveis cores
sobre o tanque, peixes, limo e os rigores
da imutável água no seu ar de estrelas:
cabisbaixos olhos contam suas perdas.
Na alameda em frutos o acre persistente
e o medo de erguê-la viva sobre as quedas
onde brilha um sol noturno suavemente;
líquidas lembranças, tanque, violetas,
malvas em escamas nadam sobre o limo,
e era uma menina e a caça às borboletas,
e era uma paisagem e eram seus rumores,
já perdidos tempos, já desfeitas tranças,
vertem violetas vívidos suores.
- VII -
Esse arfar negro denso e misterioso
das janelas abertas para dentro,
onde o ar seco estala e se incendeia
na poeira dos úmidos incensos,
é um ar negro e de pálidas lembranças
que de interiores faz a sombra escura,
que sequer lá de fora se imagina,
ser, e que por ser dentro se inaugura
em sombria, opalíssima tristeza
e que sequer lá fora se imagina,
pensa-se que é de noite, e é de dia
e pensa-se que é triste o triste ser
olhando lá de dentro o claro escuro
- e se existe é por sombra e por não-ser.
927
Marigê Quirino Marchini
Os lírios azuis
Os lírios azuis
florescerão nas fendas dos luares
e seus perfis serão portas
onde os duendes chamarão
a ronda mágica
das clareiras cintilantes.
Hansel e Gretel passearão em minha infância.
florescerão nas fendas dos luares
e seus perfis serão portas
onde os duendes chamarão
a ronda mágica
das clareiras cintilantes.
Hansel e Gretel passearão em minha infância.
857
Marcia Agrau
Praça Saenz Pena
Sou poeta
e posso ser chamada de maluca
mas nasci na Tijuca
e hoje evito vir aqui.
porque a Praça Sáenz Peña que conheci
era bem diferente.
Da infância me lembro
me estão vivos na mente
os filmes que assisti,
os cinemas daqui...
o Carioca,o América,
o Metro, o Olinda,
Tijuquinha,"o poeira"...
A praça era tão linda
que a Tijuca inteira
se orgulhava daqui.
A Sloper onde comprei
meu colar de continhas
continhas e correntinhas
pelo qual me apaixonei
e no qual gastei todinho
o primeiro dinheiro que ganhei...
A Bella Itália, o palheta,
o Éden lá na esquina
onde hoje é o Banerj..
A praça era branca, preta,
tanto cheirava a grã-fina
quanto a salgueiro poeta...
E a sinuca, no sobrado,
enlevava os rapazotes
num ar de maioridade
mesmo que uns piparotes
os trouxessem à realidade.
O comércio emgeral
se enfeitava no Natal
e as árvores dessa praça
que já tinham sua graça
no estado natural
ficavam engalanadas
bolas grandes,coloridas
festões, luzes, nossa vida
se animava por igual.
A mangueira centenária
agradecia orgulhosa
enfeitada e toda prosa
em seu jeitão solidária.
Evito vir aqui.
porque a Praça Sáez Peña que conheci
era bem outra.
Mas me orgulho de vê-la renascida.
Quem sabe inda algum dia
a vejo parecida
com a mesma em que vivi?
Apenas parecida,
só isso, não quero mais
que sei que o tempo é incapaz
de voltar para trás.
Essa praça tão querida
que faz parte da minha vida
e de tantos demais,
tem resistido há tanto tempo,
a tantas agressões, atanto assédio,
que penso
que o que tem vindo em seu socorro
é o samba que embala seu sono descendo do morro...
e a janelinha da Granado que, à meia-noite, se abre
pra lhe dar remédio...
e posso ser chamada de maluca
mas nasci na Tijuca
e hoje evito vir aqui.
porque a Praça Sáenz Peña que conheci
era bem diferente.
Da infância me lembro
me estão vivos na mente
os filmes que assisti,
os cinemas daqui...
o Carioca,o América,
o Metro, o Olinda,
Tijuquinha,"o poeira"...
A praça era tão linda
que a Tijuca inteira
se orgulhava daqui.
A Sloper onde comprei
meu colar de continhas
continhas e correntinhas
pelo qual me apaixonei
e no qual gastei todinho
o primeiro dinheiro que ganhei...
A Bella Itália, o palheta,
o Éden lá na esquina
onde hoje é o Banerj..
A praça era branca, preta,
tanto cheirava a grã-fina
quanto a salgueiro poeta...
E a sinuca, no sobrado,
enlevava os rapazotes
num ar de maioridade
mesmo que uns piparotes
os trouxessem à realidade.
O comércio emgeral
se enfeitava no Natal
e as árvores dessa praça
que já tinham sua graça
no estado natural
ficavam engalanadas
bolas grandes,coloridas
festões, luzes, nossa vida
se animava por igual.
A mangueira centenária
agradecia orgulhosa
enfeitada e toda prosa
em seu jeitão solidária.
Evito vir aqui.
porque a Praça Sáez Peña que conheci
era bem outra.
Mas me orgulho de vê-la renascida.
Quem sabe inda algum dia
a vejo parecida
com a mesma em que vivi?
Apenas parecida,
só isso, não quero mais
que sei que o tempo é incapaz
de voltar para trás.
Essa praça tão querida
que faz parte da minha vida
e de tantos demais,
tem resistido há tanto tempo,
a tantas agressões, atanto assédio,
que penso
que o que tem vindo em seu socorro
é o samba que embala seu sono descendo do morro...
e a janelinha da Granado que, à meia-noite, se abre
pra lhe dar remédio...
796
Marigê Quirino Marchini
Visão
Archotes sobre o mar, rude escalada,
o lais de guia alcança a procelária,
Nevoeiro marinho azul Santelmo,
rum no canto escarlate em nau lunária.
Piratas, signos já redescobertos,
um papagaio ébrio no mar acre
- e falam nele seus marinhos deuses,
na língua exata o incompreensível lacre.
Contigo irei à noite, meu irmão,
Outros irão ao mar. Outros irão,
Rumo às pontas e aos nervos das estrelas
juntos, menina e seu menino embarcam
no cais. Além o mar laça primeiro
Santelmo azul, piratas, nevoeiro
o lais de guia alcança a procelária,
Nevoeiro marinho azul Santelmo,
rum no canto escarlate em nau lunária.
Piratas, signos já redescobertos,
um papagaio ébrio no mar acre
- e falam nele seus marinhos deuses,
na língua exata o incompreensível lacre.
Contigo irei à noite, meu irmão,
Outros irão ao mar. Outros irão,
Rumo às pontas e aos nervos das estrelas
juntos, menina e seu menino embarcam
no cais. Além o mar laça primeiro
Santelmo azul, piratas, nevoeiro
789
Majela Colares
Poema da Improvável Véspera
Foi em vão a batalha da voz tensa
que findou na gagueira atormentada
mais em vão foi pensar que não se pensa
quanto a vida é promessa, só, mais nada
que se oculta na fala e se afugenta
na certeza da angústia aprofundada
nos suspiros da ânsia que alimenta
os desejos ambíguos desvendados
essa febre que a mente humana inventa
refúgio de mistérios confinados
pressentidos em gestos inconstantes
dos momentos agrestes exalados
entre os mitos dos sensos conflitantes
que a memória retarda quando ausente
o perfeito equilíbrio exposto e antes
da sensata mudez que se consente
no final da batalha a reticência
conspirando a cegueira do presente
em linguagem fingindo à evidência...
nos limites dos sons ecoa a infância
reescrita nos olhos da existência.
que findou na gagueira atormentada
mais em vão foi pensar que não se pensa
quanto a vida é promessa, só, mais nada
que se oculta na fala e se afugenta
na certeza da angústia aprofundada
nos suspiros da ânsia que alimenta
os desejos ambíguos desvendados
essa febre que a mente humana inventa
refúgio de mistérios confinados
pressentidos em gestos inconstantes
dos momentos agrestes exalados
entre os mitos dos sensos conflitantes
que a memória retarda quando ausente
o perfeito equilíbrio exposto e antes
da sensata mudez que se consente
no final da batalha a reticência
conspirando a cegueira do presente
em linguagem fingindo à evidência...
nos limites dos sons ecoa a infância
reescrita nos olhos da existência.
874
Marcelo Almeida de Oliveira
Paleta infeliz
Com suas tintas me pintaram criança,
da cor de seu céu,
de suas árvores,
da cor de seu ouro;
malditos reis gananciosos,
perceber não conseguem
que o céu é anil para todos,
as árvores não são de ninguém,
e seu ouro brilha para poucos.
Com suas tintas pintaram minha casa,
muito antes de eu nascer
num grande quarto sem janelas
e de portas fechadas por vocês;
conquistadores inconseqüentes,
nossos heróis de outrora,
negociando sofrimento por chão,
seus tons insanos são separados agora
pelo vermelho-sangue de meus irmãos.
Com suas tintas pintam cabeças,
preto e branco formam palavras,
elos de correntes impressas
em mentes desavisadas;
deuses impuros ditando leis,
triste realidade pintada por vocês,
quero fazer o que estiver afim,
afastem seus pincéis de mim.
da cor de seu céu,
de suas árvores,
da cor de seu ouro;
malditos reis gananciosos,
perceber não conseguem
que o céu é anil para todos,
as árvores não são de ninguém,
e seu ouro brilha para poucos.
Com suas tintas pintaram minha casa,
muito antes de eu nascer
num grande quarto sem janelas
e de portas fechadas por vocês;
conquistadores inconseqüentes,
nossos heróis de outrora,
negociando sofrimento por chão,
seus tons insanos são separados agora
pelo vermelho-sangue de meus irmãos.
Com suas tintas pintam cabeças,
preto e branco formam palavras,
elos de correntes impressas
em mentes desavisadas;
deuses impuros ditando leis,
triste realidade pintada por vocês,
quero fazer o que estiver afim,
afastem seus pincéis de mim.
697
Luiz Pimenta
Nós
Nós
à minha namorada
Quando eu te vejo criança
e me vejo-
também criança-
nós dois brincamos
de viver a vida.
Teus olhos brilham
e eu te beijo,
profundamente,
apaixonado.
Belo Horizonte, natal de 93
à minha namorada
Quando eu te vejo criança
e me vejo-
também criança-
nós dois brincamos
de viver a vida.
Teus olhos brilham
e eu te beijo,
profundamente,
apaixonado.
Belo Horizonte, natal de 93
1 059
Luiz Guimarães
Visita a Casa Paterna
Como a ave que volta ao ninho antigo,
Depois de um longo e tenebroso inverno,
Eu quis também rever o lar paterno,
O meu primeiro e virginal abrigo.
Entrei. Um gênio carinhoso e amigo,
O fantasma talvez do amor materno,
Tomou-me as mãos — olhou-me grave e terno,
E, passo a passo, caminhou comigo.
Era esta sala... (Oh! se me lembro! e quanto!)
Em que da luz noturna à claridade,
Minhas irmãs e minha mãe... O pranto
Jorrou-me em ondas... Resistir quem há-de?
Uma ilusão gemia em cada canto,
Chorava em cada canto uma saudade.
Depois de um longo e tenebroso inverno,
Eu quis também rever o lar paterno,
O meu primeiro e virginal abrigo.
Entrei. Um gênio carinhoso e amigo,
O fantasma talvez do amor materno,
Tomou-me as mãos — olhou-me grave e terno,
E, passo a passo, caminhou comigo.
Era esta sala... (Oh! se me lembro! e quanto!)
Em que da luz noturna à claridade,
Minhas irmãs e minha mãe... O pranto
Jorrou-me em ondas... Resistir quem há-de?
Uma ilusão gemia em cada canto,
Chorava em cada canto uma saudade.
1 080
Luiz de Aquino
Discurso de posse
A cidade — era assim que a chamávamos — não era mais que meia dúzia de ruas casca-lhadas, vermelhas, determinadas por casas hu-mildes onde habitavam pessoas igualmente hu-mildes, além de uns poucos e austeros senhores que jamais imaginávamos em mangas de cami-sa. Na praça, a única praça, o maior edifício era a igreja, mutilada em uma das torres, presidindo o largo onde, poucos anos antes, um jovem prefeito começara a construir o jardim. Aborta-do o projeto pela redemocratização que se se-guiu ao término da Segunda Grande Guerra, fi-cou apenas um calçamento em quadrado, já de-lineadas as alas de travessia.
Aquele começo de urbanização do único logradouro público de convívio e lazer — início inevitável de dezenas de novas famílias e que se resumia ao quadrado de cimento, postes orna-mentais e mudas crescentes de fícus em cada canto — é o cartão-postal que mais evoca a in-fância na remota e esquecida Caldas Novas das boas imagens. O despertar para o turismo nos anos 20 de mim, ou, se preferirem, a casa do tempo que vai de 1965 a 1975, foi significativo. Amadureceu o homem, transfigurou a cidadela.
Hoje, a lembrança dos anos verdes não confere com o cartão-postal que lhe deveria equivaler. As lembranças da paisagem são re-motas. Ficou o recordar do modo de sentir, do jeito de crescer. Há a lembrança das histórias contadas por minha mãe e que serviam para evocar o sono, um livro de páginas amareladas e capa dura, os Contos da Carochinha lidos com voz de acalanto, o beijo na testa, a oração de pedir que Deus nos protegesse e de esperar per-dão pelo dia de alegrias, como se fosse pecado ser criança e feliz.
Desde os mais tenros anos, os acordes em saraus musicais e suas inevitáveis conseqüênci-as, as serenatas, mostravam a carícia dos versos, vestidos em vestes as mais nobres, quais sejam as linhas melódicas. Era ainda um tempo de re-viver preciosidades de Chiquinha Gonzaga, Er-nesto Nazaré, Zequinha de Abreu, Noel Rosa e Lamartine Babo, mas sem desprezar as novida-des, e a novidade mais interessante era Luiz Gonzaga, cantando versos de Humberto Teixei-ra.
A esse ambiente, atribuo a razão de fugir das escalações para o joguinho de bola ao lado da igreja, preferindo dedicar-me a um novo e solitário passatempo, a leitura de imensas pilhas de gibis, descobertos entre os tesouros do primo Rogério, estudante interno em Araguari. Aquele acervo me convenceria, anos depois, que seu dono não teria sido um aluno 0brilhante, mas sempre o respeitaria por ser o responsável, entre outras qualidades e valores morais, pelo prazer descoberto do manuseio dessas coisas feitas em papel e tinta, pelas inebriantes viagens pelo des-conhecido e pelo inusitado a partir das páginas dos livros.
Tanta delonga sobre a infância para tentar justificar o ofício de escriba, a qualidade que me permitiu a sobrevivência nesta terra em que o berro do boi e a extensão monótona dos arais e dos vergéis valem mais que o cultivo das letras.
Acredito nas letras e nas mulheres e ho-mens de letras. E essa crença remonta aos anos dos primeiros aprendizados. Sou do tempo em que estudar os versos era indispensável, mas versejar era considerado uma prática afeminada. Nos primórdios do curso ginasial, no sempre amado Colégio Pedro II, questionava esse con-ceito ao observar que os versos que nos davam de beber foram, em sua quase totalidade abso-luta, criados por homens. E homens que tiveram força na história e geraram famílias que deles se orgulhavam. Já naquela época, no chacoalhar do trem de todos os dias a caminho do colégio, o ritmo das rodas duras sobre os rijos trilhos e o jogar inquieto dos vagões insinuavam versos. Imaginava-me Bandeira a criar a onomotopéia: "Café-com-pão, café-com-pão, café-com-pão... Voa fumaça, corre cerca, ai, seu foguista, bota fogo na fornalha que eu preciso muita força, muita força, muita força..."
Sim, o menino precisava força. Não a for-ça dos tenazes conquistadores de espaços geo-gráficos, nem a força dos que erguem obras físi-cas ou constroem impérios. Geógrafo de forma-ção, parece que nasci para historiar. E como a força de que precisava não era para construir maravilhas da engenharia, o jornalismo foi cres-cendo como opção e prazer, tornando-se profis-são pouco após ter vindo a lume meu livro de estréia.
Leitor de colunistas como Adalgiza Nery, Stanislaw Ponte Preta e Nelson Rodrigues, em tempos da vivência adolescente na velha capital federal, encontrei em Anatole Ramos e Carmo Bernardes meus preferidos após o retorno ao Planalto Central, ambos cronistas no semanário Cinco de Março, depois no matutino O Popu-lar, teimosos em contestar o regime, hábeis em dizer pensamentos em letras de forma de modo a engambelar os censores.
Com o tempo, aprenderia a apreciar ou-tros notáveis homens de letras de nossa terra, em textos de jornais e de livros, e vou restringi-los aos membros desta Casa para não fazer desta peça, escrita para a fala, um enfadonho desfilar de nomes a que sou grato pelo bem que me fizeram ao espírito e pelo aprendizado. Fi-quemos, pois, em Bariani, Eli, Bernardo, Castro Quinta, os irmãos Mendonça Teles, meu velho amigo Coelho Vaz, meu quase irmão Brasigóis, Eliézer Penna — meu editor no já citado Cinco de Março —, Asmar e Bittencourt — compa-nheiros na Folha de Goiaz — e Eurico Barbosa — com quem convivi no Diário da Manhã.
A Carmo Bernardes atribuo o ato da pro-vocação para que me oferecesse ante as senho-ras e os senhores membros desta Academia. Demorei-me a tomar a decisão, e o fiz no mo-mento em que vagava a Cadeira número 8, do meu velho mestre José Sizenando Jayme, sendo vencido pelo notável Isócrates de Oliveira, vigá-rio de minha infância na pacata Caldas Novas. Naquela disputa, uma certeza nos norteava — assegurar um lampejo de continuidade na Cadei-ra, pois que o eleito, como seu antecessor, nas-ceram em Pirenópolis, cidade natal de meu pai e meu torrão preferido pelo sedimento das ori-gens.
Acredito que o fato de vir a ocupar a Ca-deira número 10, a mesma que ocupava Carmo Bernardes, cumpre uma ação de destino. Acom-panhei seus escritos de resistência desde os primórdios de 1963; preocupei-me quando de seu exílio nas lezírias do Araguaia, nos tempos tumultuados do golpe militar de 1964, e pude rir, feliz, ao ouvir que o general Riograndino Kruel, um dos líderes do sectário golpe, o teve por guia de pescaria, sem saber de sua vida. So-zinhos, na solidão dos lagos piscosos do Bana-nal, no limitado espaço de uma canoa, tendo entre ambos não mais que varas, linhas, iscas e molinete e uma espingarda. Talvez providencial, fosse Carmo sanguinário.
Carmo Bernardes trazia na índole a tradi-ção do bom mineiro, o homem da terra, o caipi-ra, na mais pura das acepções do termo, o ho-mem silencioso, observador, que pisa com segu-rança o terreno porque sabe que o mato reserva surpresas ao pé descalço. Mas corajoso o bas-tante para expor sua opinião, espalhar ao mundo sua indignação e mostrar aos que se julgam po-derosos que o poder de verdade é maior que a chance que conseguem alguns de manipular o patrimônio público a bel-prazer. A estes, a his-tória reserva a verdade de suas naturezas; a ho-mens como Carmo, fica assegurado o lugar que lhes cabe por direito de vida, qual seja o reco-nhecimento e o respeito de seus pósteros.
Não gostaria de biografá-lo; muito já se escreveu sobre ele.
Não tenho estatura crítica para apreciar sua obra, e isto já se fez no âmbito acadêmico, até mesmo em redações de mestrado e teses de doutorado. Nunca fui mais que um mero leitor , aprendiz de sua verve. Com ele, em suas crôni-cas e artigos da década de 60, tive excelentes lições de jornalismo — a principal delas talvez seja a prática que cultivo de não pôr em letras de forma o nome de quem não o mereça.
Por patrono, tenho o também jornalista Moisés Augusto de Santana. Vilaboense, nasci-do no dia 7 de fevereiro de 1879, quis ser mili-tar. O temperamento irrequieto e a indisciplina de homem
Aquele começo de urbanização do único logradouro público de convívio e lazer — início inevitável de dezenas de novas famílias e que se resumia ao quadrado de cimento, postes orna-mentais e mudas crescentes de fícus em cada canto — é o cartão-postal que mais evoca a in-fância na remota e esquecida Caldas Novas das boas imagens. O despertar para o turismo nos anos 20 de mim, ou, se preferirem, a casa do tempo que vai de 1965 a 1975, foi significativo. Amadureceu o homem, transfigurou a cidadela.
Hoje, a lembrança dos anos verdes não confere com o cartão-postal que lhe deveria equivaler. As lembranças da paisagem são re-motas. Ficou o recordar do modo de sentir, do jeito de crescer. Há a lembrança das histórias contadas por minha mãe e que serviam para evocar o sono, um livro de páginas amareladas e capa dura, os Contos da Carochinha lidos com voz de acalanto, o beijo na testa, a oração de pedir que Deus nos protegesse e de esperar per-dão pelo dia de alegrias, como se fosse pecado ser criança e feliz.
Desde os mais tenros anos, os acordes em saraus musicais e suas inevitáveis conseqüênci-as, as serenatas, mostravam a carícia dos versos, vestidos em vestes as mais nobres, quais sejam as linhas melódicas. Era ainda um tempo de re-viver preciosidades de Chiquinha Gonzaga, Er-nesto Nazaré, Zequinha de Abreu, Noel Rosa e Lamartine Babo, mas sem desprezar as novida-des, e a novidade mais interessante era Luiz Gonzaga, cantando versos de Humberto Teixei-ra.
A esse ambiente, atribuo a razão de fugir das escalações para o joguinho de bola ao lado da igreja, preferindo dedicar-me a um novo e solitário passatempo, a leitura de imensas pilhas de gibis, descobertos entre os tesouros do primo Rogério, estudante interno em Araguari. Aquele acervo me convenceria, anos depois, que seu dono não teria sido um aluno 0brilhante, mas sempre o respeitaria por ser o responsável, entre outras qualidades e valores morais, pelo prazer descoberto do manuseio dessas coisas feitas em papel e tinta, pelas inebriantes viagens pelo des-conhecido e pelo inusitado a partir das páginas dos livros.
Tanta delonga sobre a infância para tentar justificar o ofício de escriba, a qualidade que me permitiu a sobrevivência nesta terra em que o berro do boi e a extensão monótona dos arais e dos vergéis valem mais que o cultivo das letras.
Acredito nas letras e nas mulheres e ho-mens de letras. E essa crença remonta aos anos dos primeiros aprendizados. Sou do tempo em que estudar os versos era indispensável, mas versejar era considerado uma prática afeminada. Nos primórdios do curso ginasial, no sempre amado Colégio Pedro II, questionava esse con-ceito ao observar que os versos que nos davam de beber foram, em sua quase totalidade abso-luta, criados por homens. E homens que tiveram força na história e geraram famílias que deles se orgulhavam. Já naquela época, no chacoalhar do trem de todos os dias a caminho do colégio, o ritmo das rodas duras sobre os rijos trilhos e o jogar inquieto dos vagões insinuavam versos. Imaginava-me Bandeira a criar a onomotopéia: "Café-com-pão, café-com-pão, café-com-pão... Voa fumaça, corre cerca, ai, seu foguista, bota fogo na fornalha que eu preciso muita força, muita força, muita força..."
Sim, o menino precisava força. Não a for-ça dos tenazes conquistadores de espaços geo-gráficos, nem a força dos que erguem obras físi-cas ou constroem impérios. Geógrafo de forma-ção, parece que nasci para historiar. E como a força de que precisava não era para construir maravilhas da engenharia, o jornalismo foi cres-cendo como opção e prazer, tornando-se profis-são pouco após ter vindo a lume meu livro de estréia.
Leitor de colunistas como Adalgiza Nery, Stanislaw Ponte Preta e Nelson Rodrigues, em tempos da vivência adolescente na velha capital federal, encontrei em Anatole Ramos e Carmo Bernardes meus preferidos após o retorno ao Planalto Central, ambos cronistas no semanário Cinco de Março, depois no matutino O Popu-lar, teimosos em contestar o regime, hábeis em dizer pensamentos em letras de forma de modo a engambelar os censores.
Com o tempo, aprenderia a apreciar ou-tros notáveis homens de letras de nossa terra, em textos de jornais e de livros, e vou restringi-los aos membros desta Casa para não fazer desta peça, escrita para a fala, um enfadonho desfilar de nomes a que sou grato pelo bem que me fizeram ao espírito e pelo aprendizado. Fi-quemos, pois, em Bariani, Eli, Bernardo, Castro Quinta, os irmãos Mendonça Teles, meu velho amigo Coelho Vaz, meu quase irmão Brasigóis, Eliézer Penna — meu editor no já citado Cinco de Março —, Asmar e Bittencourt — compa-nheiros na Folha de Goiaz — e Eurico Barbosa — com quem convivi no Diário da Manhã.
A Carmo Bernardes atribuo o ato da pro-vocação para que me oferecesse ante as senho-ras e os senhores membros desta Academia. Demorei-me a tomar a decisão, e o fiz no mo-mento em que vagava a Cadeira número 8, do meu velho mestre José Sizenando Jayme, sendo vencido pelo notável Isócrates de Oliveira, vigá-rio de minha infância na pacata Caldas Novas. Naquela disputa, uma certeza nos norteava — assegurar um lampejo de continuidade na Cadei-ra, pois que o eleito, como seu antecessor, nas-ceram em Pirenópolis, cidade natal de meu pai e meu torrão preferido pelo sedimento das ori-gens.
Acredito que o fato de vir a ocupar a Ca-deira número 10, a mesma que ocupava Carmo Bernardes, cumpre uma ação de destino. Acom-panhei seus escritos de resistência desde os primórdios de 1963; preocupei-me quando de seu exílio nas lezírias do Araguaia, nos tempos tumultuados do golpe militar de 1964, e pude rir, feliz, ao ouvir que o general Riograndino Kruel, um dos líderes do sectário golpe, o teve por guia de pescaria, sem saber de sua vida. So-zinhos, na solidão dos lagos piscosos do Bana-nal, no limitado espaço de uma canoa, tendo entre ambos não mais que varas, linhas, iscas e molinete e uma espingarda. Talvez providencial, fosse Carmo sanguinário.
Carmo Bernardes trazia na índole a tradi-ção do bom mineiro, o homem da terra, o caipi-ra, na mais pura das acepções do termo, o ho-mem silencioso, observador, que pisa com segu-rança o terreno porque sabe que o mato reserva surpresas ao pé descalço. Mas corajoso o bas-tante para expor sua opinião, espalhar ao mundo sua indignação e mostrar aos que se julgam po-derosos que o poder de verdade é maior que a chance que conseguem alguns de manipular o patrimônio público a bel-prazer. A estes, a his-tória reserva a verdade de suas naturezas; a ho-mens como Carmo, fica assegurado o lugar que lhes cabe por direito de vida, qual seja o reco-nhecimento e o respeito de seus pósteros.
Não gostaria de biografá-lo; muito já se escreveu sobre ele.
Não tenho estatura crítica para apreciar sua obra, e isto já se fez no âmbito acadêmico, até mesmo em redações de mestrado e teses de doutorado. Nunca fui mais que um mero leitor , aprendiz de sua verve. Com ele, em suas crôni-cas e artigos da década de 60, tive excelentes lições de jornalismo — a principal delas talvez seja a prática que cultivo de não pôr em letras de forma o nome de quem não o mereça.
Por patrono, tenho o também jornalista Moisés Augusto de Santana. Vilaboense, nasci-do no dia 7 de fevereiro de 1879, quis ser mili-tar. O temperamento irrequieto e a indisciplina de homem
914
Luiz Nogueira Barros
Viagem
Parto pleno de ventura e na aventura
da viagem empreendida levo o que sobrou
da infância, da juventude e do agora :
fantasia que um dia foi futuro.
Palavras ditas e juradas serão tolas
quando os momentos são de indiferenças.
Mas se o pensar a fala justifica
o tempo é grave amigo e jamais falha.
Hei de seguir assim a antevisão do olhar
e no desenho das paisagens presumidas
serei tudo o que vi, sofri e aprendi.
E tudo será novo como o sempre:
que os sonhos inatingidos não abortam,
pois são gestações que sabem esperar.
da viagem empreendida levo o que sobrou
da infância, da juventude e do agora :
fantasia que um dia foi futuro.
Palavras ditas e juradas serão tolas
quando os momentos são de indiferenças.
Mas se o pensar a fala justifica
o tempo é grave amigo e jamais falha.
Hei de seguir assim a antevisão do olhar
e no desenho das paisagens presumidas
serei tudo o que vi, sofri e aprendi.
E tudo será novo como o sempre:
que os sonhos inatingidos não abortam,
pois são gestações que sabem esperar.
854
Loyola Rodrigues
Menino no Mundo
O homem no mundo é sempre um menino
tão perdido em meio ao mundo vão;
o homem no mundo cumpre o destino
de andar buscando em vão a razão.
O homem no mundo é pois descontente:
perde o que tem, não acha o que busca,
ora se perde na escuridão,
ora é a luz fortíssima que o ofusca.
Umas vezes rindo, outras chorando,
tão perdido em meio ao mundo vão,
o homem no mundo cumpre o destino
de buscar a idade da razão.
O homem no mundo é sempre um menino
tão perdido em meio ao mundo vão.
tão perdido em meio ao mundo vão;
o homem no mundo cumpre o destino
de andar buscando em vão a razão.
O homem no mundo é pois descontente:
perde o que tem, não acha o que busca,
ora se perde na escuridão,
ora é a luz fortíssima que o ofusca.
Umas vezes rindo, outras chorando,
tão perdido em meio ao mundo vão,
o homem no mundo cumpre o destino
de buscar a idade da razão.
O homem no mundo é sempre um menino
tão perdido em meio ao mundo vão.
899
Luiz Pimenta
Barcos e Sonhos
Barcos & Sonhos
Menino,
os barcos de papel
são como os sonhos:
uma vez naufragados
não podem mais
ser sonhados
ou navegados.
Por isso,
faça-os
fortes,
firmes,
ágeis e
livres.
Os barcos, menino,
são como os sonhos...
Ouro Preto, fevereiro de 89
Menino,
os barcos de papel
são como os sonhos:
uma vez naufragados
não podem mais
ser sonhados
ou navegados.
Por isso,
faça-os
fortes,
firmes,
ágeis e
livres.
Os barcos, menino,
são como os sonhos...
Ouro Preto, fevereiro de 89
1 007
Leopoldo Neto
Coreaú
Coreaú , minha terra querida
Do mesmo nome, te banha um rio ,
Onde muito tomei banho e senti frio ,
Na aurora da minha vida !...
És tu bela, és forte, mas traída ,
Por alguém que há muito, viste nascer
Mas , ainda tem , quem te dê guarida
Para quem te traiu , te ver crescer !...
És tão bela, que trouxeste inspiração ,
Para com versos, partidos do coração
Teu filho humilde te ofertar.
Estes versos, são para ti, terra nobre
De um filho , que nasceu em berço pobre...
Mas não te traiu , nem te trairá jamais !...
Do mesmo nome, te banha um rio ,
Onde muito tomei banho e senti frio ,
Na aurora da minha vida !...
És tu bela, és forte, mas traída ,
Por alguém que há muito, viste nascer
Mas , ainda tem , quem te dê guarida
Para quem te traiu , te ver crescer !...
És tão bela, que trouxeste inspiração ,
Para com versos, partidos do coração
Teu filho humilde te ofertar.
Estes versos, são para ti, terra nobre
De um filho , que nasceu em berço pobre...
Mas não te traiu , nem te trairá jamais !...
1 292
Antero de Quental
Pequenina
Eu bem
sei que te chamam pequenina
É ténue como o véu solto na dança
Que és no juízo apenas a criança,
Pouco mais , nos vestidos , que a menina...
Que és o regato de água mansa e fina,
A folhinha do til que se balança,
O peito que em correndo logo cansa,
A fronte que ao sofrer logo se inclina...
Mas, filha, lá nos montes onde andei
Tanto me enchi de angústia e de receio
Ouvindo do infinito os fundos ecos,
Que não quero imperar nem já ser rei
Senão tendo meus reinos em teu seio
E súbditos, criança, em teus bonecos.
sei que te chamam pequenina
É ténue como o véu solto na dança
Que és no juízo apenas a criança,
Pouco mais , nos vestidos , que a menina...
Que és o regato de água mansa e fina,
A folhinha do til que se balança,
O peito que em correndo logo cansa,
A fronte que ao sofrer logo se inclina...
Mas, filha, lá nos montes onde andei
Tanto me enchi de angústia e de receio
Ouvindo do infinito os fundos ecos,
Que não quero imperar nem já ser rei
Senão tendo meus reinos em teu seio
E súbditos, criança, em teus bonecos.
1 857
Washington Queiroz
O Xamã e os Deuses
O xamã era um menino;
um menino que guardava
os deuses em um laço;
que criava estrelas,
que era jaguar e azul;
bebia fumaça
e a esparzia sobre a terra,
carinhosamente alisando-a.
Mas era bem velho o xamã:
o tempo - redomoinho de ancestrais -
vergava-o, fazendo-lhe rugas
e paciência,
para poder guardar
em seu laço os deuses
que, segundo ele me contara,
são todos meninos e meninas
como ele.
um menino que guardava
os deuses em um laço;
que criava estrelas,
que era jaguar e azul;
bebia fumaça
e a esparzia sobre a terra,
carinhosamente alisando-a.
Mas era bem velho o xamã:
o tempo - redomoinho de ancestrais -
vergava-o, fazendo-lhe rugas
e paciência,
para poder guardar
em seu laço os deuses
que, segundo ele me contara,
são todos meninos e meninas
como ele.
858
Al Berto
Vigílias
pernoito
no interior do corpo desarrumado
o medo invade o penumbroso corredor
descubro uma cintilação de água no estuque
uma cicatriz de cristais de bolor abre-se
porosa ao contacto dos dedos indica
que não haverá esquecimento ou brisa
para limpar o tempo imemorial da casa
deste simulado sono ficou-lhe o amargo iodo
as madeiras enceradas cobertas de poeira
ervas secas à chuva molhos de rosmaninho
junquilhos, bocas de lobo silenas, trevo
mas nenhuma fuga foi recomeçada
a infância permanece triste onde a abandonei
quase não vive
no entanto ouço-a respirar dentro de mim
agora tudo é diferente
recomeço a viver a partir do vazio
da treva dos dias em silêncio
por entre a pele e um feixe de magnificas veias
sinto o pássaro da velhice arrastando as asas
onde desenvolve o calmo voo lunar
enumero cuidadosamente os objectos, classifico-os
por tamanhos por texturas, por funções
quero deixar tudo arrumado quando a loucura vier
da extremidade aguçada do corpo alado
e o rosto for devassado por um estilhaço de asa
então a vida abater-se-á sobre a folha de papel
onde verso a verso
me ilumino e me desgasto.
no interior do corpo desarrumado
o medo invade o penumbroso corredor
descubro uma cintilação de água no estuque
uma cicatriz de cristais de bolor abre-se
porosa ao contacto dos dedos indica
que não haverá esquecimento ou brisa
para limpar o tempo imemorial da casa
deste simulado sono ficou-lhe o amargo iodo
as madeiras enceradas cobertas de poeira
ervas secas à chuva molhos de rosmaninho
junquilhos, bocas de lobo silenas, trevo
mas nenhuma fuga foi recomeçada
a infância permanece triste onde a abandonei
quase não vive
no entanto ouço-a respirar dentro de mim
agora tudo é diferente
recomeço a viver a partir do vazio
da treva dos dias em silêncio
por entre a pele e um feixe de magnificas veias
sinto o pássaro da velhice arrastando as asas
onde desenvolve o calmo voo lunar
enumero cuidadosamente os objectos, classifico-os
por tamanhos por texturas, por funções
quero deixar tudo arrumado quando a loucura vier
da extremidade aguçada do corpo alado
e o rosto for devassado por um estilhaço de asa
então a vida abater-se-á sobre a folha de papel
onde verso a verso
me ilumino e me desgasto.
6 287
Luiz Fernandes da Silva
Carrossel
Em cada rodada
o frio de lembrança
dos dias de infância.
Em cada cavalinho
as reminiscências da fantasia.
Em cada curva
novas ânsias e
enigma da sorte.
Em cada olhar
a liberdade e
o adeus aos sonhos.
Em cada salto,
o impacto, a queda
o frio de lembrança
dos dias de infância.
Em cada cavalinho
as reminiscências da fantasia.
Em cada curva
novas ânsias e
enigma da sorte.
Em cada olhar
a liberdade e
o adeus aos sonhos.
Em cada salto,
o impacto, a queda
1 173
Lucídio Freitas
Teresina Apagou-se
Teresina apagou-se na distância,
Ficou longe de mim, adormecida,
Guardando a alma de sol da minha infância
E o minuto melhor da minha vida.
E eu sigo, e eu vou para a perpétua lida.
Espera-me, distante, uma outra estância...
É a parada da luta indefinida,
É a minha febre, minha dor, minha ânsia...
Como são infinitos os caminhos!
E como agora estou tão diferente,
Carregado de angústias e de espinhos!...
Tudo me desconhece. Ingrata é a terra.
O céu é feio. Eu eu sigo para a frente
Como quem vai seguindo para a guerra...
Ficou longe de mim, adormecida,
Guardando a alma de sol da minha infância
E o minuto melhor da minha vida.
E eu sigo, e eu vou para a perpétua lida.
Espera-me, distante, uma outra estância...
É a parada da luta indefinida,
É a minha febre, minha dor, minha ânsia...
Como são infinitos os caminhos!
E como agora estou tão diferente,
Carregado de angústias e de espinhos!...
Tudo me desconhece. Ingrata é a terra.
O céu é feio. Eu eu sigo para a frente
Como quem vai seguindo para a guerra...
1 323
Jorge Lescano
Verão
Estrelas cadentes?
Em torno do abajur
as mariposinhas.
Saudades da infância
nos longos dia de verão.
À noite, insônia.
Em torno do abajur
as mariposinhas.
Saudades da infância
nos longos dia de verão.
À noite, insônia.
956
Lago Burnett
A Última Canção da Ilha
Trarei sempre verde
gaivotas e sal:
a lembrança não perde
a ilha inicial
Nem descuido as brisas
o mar de imundícies
(minhas pesquisas
bóiam às superfícies)
A obsessão do cerco
por ínvias águas
é o em que me perco
entre — agora — mágoas
Autêntico Atlântico
aleou-me todo
quanto de romântico
mergulhou-me em lodo
Oh! velas belas
ao ritmo transeunte
vosso, belas velas
que eu me unte
Trago-me à retina
de mastros e quilhas
cheia a sina
de todas as ilhas
Código pressago
de pássaro marítimo
na alma trago
canto e ritmo
Que é quanto me sobre
por ter-me feliz
ao sol que encobre
minha São Luís
Onde era só
com hábil engenho
quanto virou pó
tudo que não tenho
Idéias descalças
desfiando saias
longas como valsas
pelas praias
A primeira estância
ao céu abstrato
coisas como infância
ritmando com mato
Outros poucos casos
como águas insípidas
Nos olhos rasos
saudades liquidas
(Os Elementos do Mito / l953)
gaivotas e sal:
a lembrança não perde
a ilha inicial
Nem descuido as brisas
o mar de imundícies
(minhas pesquisas
bóiam às superfícies)
A obsessão do cerco
por ínvias águas
é o em que me perco
entre — agora — mágoas
Autêntico Atlântico
aleou-me todo
quanto de romântico
mergulhou-me em lodo
Oh! velas belas
ao ritmo transeunte
vosso, belas velas
que eu me unte
Trago-me à retina
de mastros e quilhas
cheia a sina
de todas as ilhas
Código pressago
de pássaro marítimo
na alma trago
canto e ritmo
Que é quanto me sobre
por ter-me feliz
ao sol que encobre
minha São Luís
Onde era só
com hábil engenho
quanto virou pó
tudo que não tenho
Idéias descalças
desfiando saias
longas como valsas
pelas praias
A primeira estância
ao céu abstrato
coisas como infância
ritmando com mato
Outros poucos casos
como águas insípidas
Nos olhos rasos
saudades liquidas
(Os Elementos do Mito / l953)
954
Luiz Augusto Kehl
O Fantasma
Olhar branco que teu ficara numa cara sem fundo
duma carne sem peso como a lua,
carne tua branca na memória tocada
por uma língua sem gosto no beijo chupado
etéreo pairando no lábio murcho da lembrança,
toda a realidade que foste tornada
no tom mais claro do pálido
e a luz de uma vela que eu não acendia
e o fogo morto do teu sexo enterrado
nalgum passado remoto
em outras noites, que eu chorara outrora,
natureza morta,
tu como todas as outras,
tu como a primeira professora,
tu como a foto sépia da coisa um dia tida,
ou aquele dia na infância um dia,
ou aquela praça sonhada, a língua mamada da namorada cega,
saliva passada como água de rio,
como rio, tudo, indo, tu náufraga corrente,
vendo-te eu te tornares água, onda, marola, espuma, nada,
apenas ida, afogada em teus cabelos de yara,
teu canto doce apagando-se sob o muzak dos novos dias,
tu, fantasma tantas vezes inacabado,
roçando-me a pele num hálito gelado e transparente,
brisa tremulante, ar
que reverbera e não se vê, seda sem vida,
tu -- viva ainda nalguma parte e que há de estar sorrindo--
viúvo de ti morta em mim te beijo o quadro rasgado
e olho no papel amarelo rabiscado teu telefone
lentamente desbotando
e me despeço de ti para sempre em tua campa sem esperança
plantada perenemente em minha alma,
e juro-te que virei visitar-te, minha querida,
sempre, sempre, todo dia.
duma carne sem peso como a lua,
carne tua branca na memória tocada
por uma língua sem gosto no beijo chupado
etéreo pairando no lábio murcho da lembrança,
toda a realidade que foste tornada
no tom mais claro do pálido
e a luz de uma vela que eu não acendia
e o fogo morto do teu sexo enterrado
nalgum passado remoto
em outras noites, que eu chorara outrora,
natureza morta,
tu como todas as outras,
tu como a primeira professora,
tu como a foto sépia da coisa um dia tida,
ou aquele dia na infância um dia,
ou aquela praça sonhada, a língua mamada da namorada cega,
saliva passada como água de rio,
como rio, tudo, indo, tu náufraga corrente,
vendo-te eu te tornares água, onda, marola, espuma, nada,
apenas ida, afogada em teus cabelos de yara,
teu canto doce apagando-se sob o muzak dos novos dias,
tu, fantasma tantas vezes inacabado,
roçando-me a pele num hálito gelado e transparente,
brisa tremulante, ar
que reverbera e não se vê, seda sem vida,
tu -- viva ainda nalguma parte e que há de estar sorrindo--
viúvo de ti morta em mim te beijo o quadro rasgado
e olho no papel amarelo rabiscado teu telefone
lentamente desbotando
e me despeço de ti para sempre em tua campa sem esperança
plantada perenemente em minha alma,
e juro-te que virei visitar-te, minha querida,
sempre, sempre, todo dia.
579
José Sarney
Carta do Anti-Santo José
aos seus tristes
EU, de nome José,
rasguei os olhos da vida
em cinza manhã de abril.
Chorei e o campo chovia
onde a cidade pedia
tempos, clemência e amor.
BENDITO sejais chão Pinheiro
com o canto dos bois
e os patos selvagens
que deixam as nuvens
e os ventos gigantes
que lhe guiaram as asas
cruzando oceanos
e pousaram
à beira dos Defuntos
onde sacodem a viagem
e fazem ninhos
na folha das plantas aquáticas
que flutuam como anjos deitados
na mansidão dos lagos.
IRMÃOS:
NÃO me julgueis pelo abandono dessa sombra
que prometeu entregar-me o corpo
de pelúcias de carne para que eu o amasse
com a força de todas as tempestades
e eu nunca o amei.
NÃO me julgueis por haver
começado o meu caminho
naquela canoa de toldos
e ramos que cantavam,
"bendito é o santo nome".
EU fui ferido pelos vampiros gigantes
que esmagaram a sunga de chita colegial
feita de flores pequenas e alças de rendas
onde ficou sepultado para sempre
o seu sexo pequenino
e o meu primeiro olhar
que eu carregava nas mãos
como o cálice
daquele vinho
do corpo de Deus que eu não bebi
para embriagar-me
na fome de amar a pronta carne,
o pão, o fruto, a vida e
os peixes que habitavam os lagos desse campo
que me abriu os olhos numa manhã de abril.
IRMÃOS:
NÃO me julgueis pelo que fui
e jamais fui e sempre serei,
pois de não ser vou sendo
esta noite que não teve pôr de sol.
EU juro que a cadela que latia
junto de tuas mãos e eu dizia que era raiva
devia ter morrido
para que hoje eu não a lembrasse
para matar o meu ódio e ressuscitar o meu nojo
de pensar que eu fui capaz de amar
e os ventos da minha vida
não têm mais velas a empurrar
nem barcos para sair do Rio Pericumã e chegar
ao mar alto da Ponta de Itacolomi
e ali afundar
como afundaram
nas pedras eternas de moluscos
tantas navegações e tantos monstros.
IRMÃOS:
Eu habitei a Rua da Madre de Deus
onde os teares funcionavam dia e noite, no número 127.
Dona Sérgia! eu te beijo cerzideira
que me carregou de amor quando os outros me cuspiam
e as estátuas de porcelana branca que vieram de Portugal
guardavam vigilantes as cumeeiras largas do casario da Fábrica
onde batiam algodão branco e doce
da velha indústria Santa Amélia
e as operárias furtavam
os casulos
para higiene do ciclo menstrual
naquele mundo de louças
fusos, caldeiras e fardos.
A Fonte das Pedras
que de pedras tinha a água que escorria como sangue
das carrancas que jamais aceitaram o suor dos escravos
que Dona Ana Jansen fazia atirar nos poços de lanças
para serem espetados e se transformarem em fantasmas que
enchiam de gemidos todos os becos desta cidade que
nasceu para ser possuída em coitos de agonia e pecado
e em virgindades com cheiro de alfazema
entre o amor e as picadas de arraia.
IRMÃOS:
NÃO me julgueis pelo bonde de minha infância que matei
porque eu o amava e o matei,
como se não mata o amor, mas
pelo indesejo da morte.
ELE não corre e foram minhas mãos
que o trucidaram e trucidaram com ele
as moças todas que estavam na janela
e eu desejava casar para fazer filhos que
de novo pegassem o bonde
e fossem até o fim dos caminhos
e de novo fizessem outros filhos e outros mais
para que o bonde fosse o trilho eterno
e não o fim do filho.
..............................................
IRMÃOS:
NÃO me julguei por não haver fugido
com a trapezista do circo mambembe,
com que todos os meninos
das cidades de cavalos e cabeças-de-cuia
pensam fugir para viver em
acrobacias e picadeiros.
Eu a reencontrei em Brooklin, num janeiro de neve
nessa cidade de Nova Iorque que eu também amei
como se ama a prostituta pintada
que nos acena com uma noite de orgia.
O táxi amarelo parou. De repente ao meu lado
a trapezista que eu tinha amado
e ali repousava de sandálias e tranças.
Ao meu espanto apenas disse:
José!
De repente o mundo voltou ao princípio e eu senti
que os passarinhos podem cantar em Manhatan como
na mangueira velha do quintal da casa do velho José Costa,
meu avô,
que me disse um dia:
Guarda a tua alma e o teu corpo em vinha-dalho,
porque a vida é feita de postas azedas
em que os figos e as melancias não têm nem gosto nem cor.
IRMÃOS:
EU, José,
vos digo que a vida é um bando de itãs
que gritam histéricas
na beira do lago de Viana à espera
da terra parar de repente
e de repente a canarana ter flores eternas
as mangueiras terem galhos de meia légua e
debaixo de sua sombra
os índios pedirem amor com os anjos,
plantando rosas de capim de marreca
e o homem Senhor do destino
possa descansar os seus lábios vermelhos
nos seios das deusas jovens,
adormecidas nas aguadas de ventos,
novilhas de todos os mundos.
IRMÃOS:
PERDOAI-ME de dizer a Deus
que ele não pode pisar meus caminhos
com os pés de cardos
que romperam de sangue a coroa fria e sem glória
desses dias que ele me deu e eu esmaguei.
IRMÃOS:
perdoai-me.
o sonho da morte é uma nuvem
que não cobre as eternas noites da vida.
(Os Maribondos de Fogo / 1978)
EU, de nome José,
rasguei os olhos da vida
em cinza manhã de abril.
Chorei e o campo chovia
onde a cidade pedia
tempos, clemência e amor.
BENDITO sejais chão Pinheiro
com o canto dos bois
e os patos selvagens
que deixam as nuvens
e os ventos gigantes
que lhe guiaram as asas
cruzando oceanos
e pousaram
à beira dos Defuntos
onde sacodem a viagem
e fazem ninhos
na folha das plantas aquáticas
que flutuam como anjos deitados
na mansidão dos lagos.
IRMÃOS:
NÃO me julgueis pelo abandono dessa sombra
que prometeu entregar-me o corpo
de pelúcias de carne para que eu o amasse
com a força de todas as tempestades
e eu nunca o amei.
NÃO me julgueis por haver
começado o meu caminho
naquela canoa de toldos
e ramos que cantavam,
"bendito é o santo nome".
EU fui ferido pelos vampiros gigantes
que esmagaram a sunga de chita colegial
feita de flores pequenas e alças de rendas
onde ficou sepultado para sempre
o seu sexo pequenino
e o meu primeiro olhar
que eu carregava nas mãos
como o cálice
daquele vinho
do corpo de Deus que eu não bebi
para embriagar-me
na fome de amar a pronta carne,
o pão, o fruto, a vida e
os peixes que habitavam os lagos desse campo
que me abriu os olhos numa manhã de abril.
IRMÃOS:
NÃO me julgueis pelo que fui
e jamais fui e sempre serei,
pois de não ser vou sendo
esta noite que não teve pôr de sol.
EU juro que a cadela que latia
junto de tuas mãos e eu dizia que era raiva
devia ter morrido
para que hoje eu não a lembrasse
para matar o meu ódio e ressuscitar o meu nojo
de pensar que eu fui capaz de amar
e os ventos da minha vida
não têm mais velas a empurrar
nem barcos para sair do Rio Pericumã e chegar
ao mar alto da Ponta de Itacolomi
e ali afundar
como afundaram
nas pedras eternas de moluscos
tantas navegações e tantos monstros.
IRMÃOS:
Eu habitei a Rua da Madre de Deus
onde os teares funcionavam dia e noite, no número 127.
Dona Sérgia! eu te beijo cerzideira
que me carregou de amor quando os outros me cuspiam
e as estátuas de porcelana branca que vieram de Portugal
guardavam vigilantes as cumeeiras largas do casario da Fábrica
onde batiam algodão branco e doce
da velha indústria Santa Amélia
e as operárias furtavam
os casulos
para higiene do ciclo menstrual
naquele mundo de louças
fusos, caldeiras e fardos.
A Fonte das Pedras
que de pedras tinha a água que escorria como sangue
das carrancas que jamais aceitaram o suor dos escravos
que Dona Ana Jansen fazia atirar nos poços de lanças
para serem espetados e se transformarem em fantasmas que
enchiam de gemidos todos os becos desta cidade que
nasceu para ser possuída em coitos de agonia e pecado
e em virgindades com cheiro de alfazema
entre o amor e as picadas de arraia.
IRMÃOS:
NÃO me julgueis pelo bonde de minha infância que matei
porque eu o amava e o matei,
como se não mata o amor, mas
pelo indesejo da morte.
ELE não corre e foram minhas mãos
que o trucidaram e trucidaram com ele
as moças todas que estavam na janela
e eu desejava casar para fazer filhos que
de novo pegassem o bonde
e fossem até o fim dos caminhos
e de novo fizessem outros filhos e outros mais
para que o bonde fosse o trilho eterno
e não o fim do filho.
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IRMÃOS:
NÃO me julguei por não haver fugido
com a trapezista do circo mambembe,
com que todos os meninos
das cidades de cavalos e cabeças-de-cuia
pensam fugir para viver em
acrobacias e picadeiros.
Eu a reencontrei em Brooklin, num janeiro de neve
nessa cidade de Nova Iorque que eu também amei
como se ama a prostituta pintada
que nos acena com uma noite de orgia.
O táxi amarelo parou. De repente ao meu lado
a trapezista que eu tinha amado
e ali repousava de sandálias e tranças.
Ao meu espanto apenas disse:
José!
De repente o mundo voltou ao princípio e eu senti
que os passarinhos podem cantar em Manhatan como
na mangueira velha do quintal da casa do velho José Costa,
meu avô,
que me disse um dia:
Guarda a tua alma e o teu corpo em vinha-dalho,
porque a vida é feita de postas azedas
em que os figos e as melancias não têm nem gosto nem cor.
IRMÃOS:
EU, José,
vos digo que a vida é um bando de itãs
que gritam histéricas
na beira do lago de Viana à espera
da terra parar de repente
e de repente a canarana ter flores eternas
as mangueiras terem galhos de meia légua e
debaixo de sua sombra
os índios pedirem amor com os anjos,
plantando rosas de capim de marreca
e o homem Senhor do destino
possa descansar os seus lábios vermelhos
nos seios das deusas jovens,
adormecidas nas aguadas de ventos,
novilhas de todos os mundos.
IRMÃOS:
PERDOAI-ME de dizer a Deus
que ele não pode pisar meus caminhos
com os pés de cardos
que romperam de sangue a coroa fria e sem glória
desses dias que ele me deu e eu esmaguei.
IRMÃOS:
perdoai-me.
o sonho da morte é uma nuvem
que não cobre as eternas noites da vida.
(Os Maribondos de Fogo / 1978)
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