Poemas neste tema
Justiça e Igualdade
Bocage
Um procurador de causas
Um procurador de causas
Tinha na destra de harpia
Nojenta, incurável chaga,
Que até ossos lhe roía.
Exclama um taful ao vê-lo:
"Que pena de Talião!
Quem com a mão roeu tanto
Ficou roído na mão".
Tinha na destra de harpia
Nojenta, incurável chaga,
Que até ossos lhe roía.
Exclama um taful ao vê-lo:
"Que pena de Talião!
Quem com a mão roeu tanto
Ficou roído na mão".
1 193
Durvalino Filho
O Rei Estava Ensimesmado
O rei estava ensimesmado,
De sua boca nada se ouvia
— nenhuma ordem para hoje,
nenhum enforcamento.
Não foi cobrado o dízimo da noite.
Um escândalo arrebentou na economia
e não foi liberado o pensamento
porque o rei havia-se calado
e o país inteiro adormecia.
O enclausurado urrou por entre as grades.
Mil acidentes com os bóias-frias.
O bispo ficou celerado, possesso
e o diabo rezou a ordem do dia.
Na iniciativa privada
forjaram-se falências desastrosas
com a mudez do rei que só ouvia.
Mataram cães de estimação
em mansões de beira-rio.
Comunidades se desintegraram,
crianças tornaram-se desafio
e a nudez das mulheres
virou prato do dia,
Adeus, véus de Alexandria!
Não houve festas nas periferias
e as mentiras aumentaram em abril.
Até que o rei declarou
num assomo de agonia:
"Nada mudou no Brasil."
De sua boca nada se ouvia
— nenhuma ordem para hoje,
nenhum enforcamento.
Não foi cobrado o dízimo da noite.
Um escândalo arrebentou na economia
e não foi liberado o pensamento
porque o rei havia-se calado
e o país inteiro adormecia.
O enclausurado urrou por entre as grades.
Mil acidentes com os bóias-frias.
O bispo ficou celerado, possesso
e o diabo rezou a ordem do dia.
Na iniciativa privada
forjaram-se falências desastrosas
com a mudez do rei que só ouvia.
Mataram cães de estimação
em mansões de beira-rio.
Comunidades se desintegraram,
crianças tornaram-se desafio
e a nudez das mulheres
virou prato do dia,
Adeus, véus de Alexandria!
Não houve festas nas periferias
e as mentiras aumentaram em abril.
Até que o rei declarou
num assomo de agonia:
"Nada mudou no Brasil."
366
Vitor Casimiro
Só Não Seja um Mendigo
Um mendigo
Cruza meu caminho
Alguns o ignoram
Outros o amaldiçoam,
em silêncio.
Nenhuma palavra
Parece merecer
Só o desprezo
Basta
Por enfiar suas
Unhas sujas no pão
Que, por sorte,
Conseguiu.
Ou pelo cheiro
Que poucos narizes
Suportariam.
E aquelas, garrafas,
latas, coisas sem valor.
Lixo
O que ele quer?
Dinheiro?
Então Roube.
Quer Felicidade?
Se vire,
E beba álcool, durma
Desapareça.
Só não seja mais
Um mendigo
A cruzar meu caminho.
Cruza meu caminho
Alguns o ignoram
Outros o amaldiçoam,
em silêncio.
Nenhuma palavra
Parece merecer
Só o desprezo
Basta
Por enfiar suas
Unhas sujas no pão
Que, por sorte,
Conseguiu.
Ou pelo cheiro
Que poucos narizes
Suportariam.
E aquelas, garrafas,
latas, coisas sem valor.
Lixo
O que ele quer?
Dinheiro?
Então Roube.
Quer Felicidade?
Se vire,
E beba álcool, durma
Desapareça.
Só não seja mais
Um mendigo
A cruzar meu caminho.
1 010
Wanda Cristina
Poema-quero
Eu quero um poema da cor
da minha cor.
Um poema-pálido
que banhe na chuva.
Um poema-pobre
que more nos mangues.
Um poema-irmão
que tenha meu sangue.
Um poema-pão
que tenha minha fome.
Um poema-esmola
no chapéu do povo.
Um poema-rasgado
de vestir meu sujo.
Um poema-insensato
pra falar sentindo.
Um poema-tema
de televisão.
Um poema-jornal
para o imprevisto...
Um poema-planeta
para eu habitar,
quando não mais existir condição
para controlar a natalidade do absurdo.
da minha cor.
Um poema-pálido
que banhe na chuva.
Um poema-pobre
que more nos mangues.
Um poema-irmão
que tenha meu sangue.
Um poema-pão
que tenha minha fome.
Um poema-esmola
no chapéu do povo.
Um poema-rasgado
de vestir meu sujo.
Um poema-insensato
pra falar sentindo.
Um poema-tema
de televisão.
Um poema-jornal
para o imprevisto...
Um poema-planeta
para eu habitar,
quando não mais existir condição
para controlar a natalidade do absurdo.
1 416
Valdir L. Queiroz
Monalisa do Sertão
De cativante
só o aspecto mórbido e moribundo
de gente-bicho.
trazia consigo duas sementes
que parecia ser (ou seria?)
a humildade e a simplicidade
vítimas da peregrinação.
no estômago: asfalto molhado;
no coração: esperança de bicho-gente;
na cabeça: miolos doídos pelo sol
do sertão;
nos pés: a marca do chão que
um dia fez pão e a fome matou...
porque vives no anonimato
monalisa do sertão ?
teu pintor no porão te guardou ?
ou a seca tua paisagem
queimou ?
só o aspecto mórbido e moribundo
de gente-bicho.
trazia consigo duas sementes
que parecia ser (ou seria?)
a humildade e a simplicidade
vítimas da peregrinação.
no estômago: asfalto molhado;
no coração: esperança de bicho-gente;
na cabeça: miolos doídos pelo sol
do sertão;
nos pés: a marca do chão que
um dia fez pão e a fome matou...
porque vives no anonimato
monalisa do sertão ?
teu pintor no porão te guardou ?
ou a seca tua paisagem
queimou ?
1 117
Virgílio Fernandes Almeida
Crônica de Um Dia Digital
Sete horas da manhã: uma xícara de café, forte, cheiroso e real. É hora de começar o dia. Por onde? Pelo mundo material que conhecemos e estamos acostumados ou por um mundo novo, digital, regido pelos bits dos computadores? Um bit é o menor elemento da informação. Comparando com a matéria, é como se fosse o átomo da informação. Por razões práticas, um bit é representado pelos dígitos 0 ou 1. Números, nomes, livros, jornais, retratos de família, filmes românticos, CDs de rock, fitas de samba, vídeos violentos, programas de computador podem todos ser reduzidos a simples sequências de 0s e 1s. Por exemplo, o número 6 seria representado pela sequência 110. De maneira semelhante, todas as outras coisas mencionadas seriam codificadas em intermináveis sequências de bits, que podem ser transmitidos pelas linhas telefônicas e satélites por todo o planeta em poucos segundos. É o mundo digital, com novos termos e novos hábitos.
Ligar o carro ou ``logar’’ no computador, isto é, dar seu nome e sua senha para entrar no sistema. Dirigir pela Avenida Afonso Pena, Antônio Carlos rumo ao campus da universidade ou, usando a nova linguagem, navegar pelas vias de informação da Internet. Sentar numa poltrona e ler os jornais no seu tradicional formato 45x57 cm em papel ou percorrer com os olhos a fria e pequena tela do computador em busca das notícias do dia. Conversar face-a-face com o colega de sala ou entabular uma diálogo eletrônico, através de mensagens pela Internet, com algum amigo digital, localizado a milhares de kilômetros daqui. Ir a uma loja, folhear livros, examinar presentes, enfrentar filas, conversar com os vendedores, comprar, pagar e levar ou conectar-se ao Internet Shoping Center e, solitariamente, vasculhar os catálogos de produtos, fechar a compra por cartão de crédito e aguardar alguns dias até a chegada da encomenda pelo correio. Fugir de um bando de pivetes que procura roubar uma bolsa ou se proteger dos piratas eletrônicos que navegam na Internet em busca de informações confidenciais de negócios ou de um simples número de cartão de crédito de algum desavisado. Participar de alguma associação comunitária de seu bairro ou envolver-se em uma comunidade eletrônica, onde os participantes digitais discutem através da Internet as políticas ambientais nos vários países do planeta. Assombrar-se com a variedade e riqueza das informações dos museus, bibliotecas, centros de pesquisa existentes nas infovias do espaço cibernético ou indignar-se com a pobreza absoluta de milhares de pessoas analfabetas que vagam pelas ruas e estradas do Brasil.
No mundo digital as noções de espaço e tempo tomam novas feições. Por exemplo, a Biblioteca Nacional de Medicina em Washington já não está tão longe assim e visitá-la na Internet requer apenas alguns segundos. Dia após dia, as tecnologias da informática e telecomunicação seguem silenciosamente alterando o estilo de vida de um número cada vez maior de pessoas. Basta ver como as crianças tratam de maneira tão natural palavras como computador, software, disquete, CD-ROM, e games. A Internet tornou-se capa de revistas, assunto de programas de televisão, notícia diária nos jornais e, no próximo carnaval, será tema de enredo de escola de samba. São os objetos e ícones desse novo mundo digital, que se constrói sobre o velho mundo material, repleto de divisões, contrastes e injustiças. Diante de tudo isso, vejo surgir uma versão moderna do dilema de Hamlet. Ser ou não ser digital, eis uma nova questão!
Ligar o carro ou ``logar’’ no computador, isto é, dar seu nome e sua senha para entrar no sistema. Dirigir pela Avenida Afonso Pena, Antônio Carlos rumo ao campus da universidade ou, usando a nova linguagem, navegar pelas vias de informação da Internet. Sentar numa poltrona e ler os jornais no seu tradicional formato 45x57 cm em papel ou percorrer com os olhos a fria e pequena tela do computador em busca das notícias do dia. Conversar face-a-face com o colega de sala ou entabular uma diálogo eletrônico, através de mensagens pela Internet, com algum amigo digital, localizado a milhares de kilômetros daqui. Ir a uma loja, folhear livros, examinar presentes, enfrentar filas, conversar com os vendedores, comprar, pagar e levar ou conectar-se ao Internet Shoping Center e, solitariamente, vasculhar os catálogos de produtos, fechar a compra por cartão de crédito e aguardar alguns dias até a chegada da encomenda pelo correio. Fugir de um bando de pivetes que procura roubar uma bolsa ou se proteger dos piratas eletrônicos que navegam na Internet em busca de informações confidenciais de negócios ou de um simples número de cartão de crédito de algum desavisado. Participar de alguma associação comunitária de seu bairro ou envolver-se em uma comunidade eletrônica, onde os participantes digitais discutem através da Internet as políticas ambientais nos vários países do planeta. Assombrar-se com a variedade e riqueza das informações dos museus, bibliotecas, centros de pesquisa existentes nas infovias do espaço cibernético ou indignar-se com a pobreza absoluta de milhares de pessoas analfabetas que vagam pelas ruas e estradas do Brasil.
No mundo digital as noções de espaço e tempo tomam novas feições. Por exemplo, a Biblioteca Nacional de Medicina em Washington já não está tão longe assim e visitá-la na Internet requer apenas alguns segundos. Dia após dia, as tecnologias da informática e telecomunicação seguem silenciosamente alterando o estilo de vida de um número cada vez maior de pessoas. Basta ver como as crianças tratam de maneira tão natural palavras como computador, software, disquete, CD-ROM, e games. A Internet tornou-se capa de revistas, assunto de programas de televisão, notícia diária nos jornais e, no próximo carnaval, será tema de enredo de escola de samba. São os objetos e ícones desse novo mundo digital, que se constrói sobre o velho mundo material, repleto de divisões, contrastes e injustiças. Diante de tudo isso, vejo surgir uma versão moderna do dilema de Hamlet. Ser ou não ser digital, eis uma nova questão!
1 144
Sérgio Milliet
Fotografia
Esse papel estragado de fotografia
Era branco dentro da caixa.
Bastou expô-lo ao sol para que se queimasse...
Assim os negros quando nascem.
Era branco dentro da caixa.
Bastou expô-lo ao sol para que se queimasse...
Assim os negros quando nascem.
1 674
Sidney Frattini
Poemeto Natural
Cada vez mais
me interessam menos
esses homens especiais,
com suas gravatas e bravatas,
esses arremedos de competência,
esses simulacros de sucesso,
esses pretensos dominadores do conhecimento.
Quem são, senão aqueles que pensam ser tudo?
Quem são, senão aqueles que pensam poder muito?
Quem são, senão aqueles que se julgam a salvo
de todo o maremoto que os rodeia,
apenas dispondo do recurso do remo?
Pensam enfrentar a borrasca à maneira dos
velhos curandeiros, que pensavam enfrentar as pestes
com suas danças e rituais.
Também eles, os homens especiais, cultivam seus rituais,
mas repelem com veemência qualquer menção a eles.
Estão imersos em fetiches - para viver precisam deles
com desespero e tentam manter uma dignidade espúria.
Assumem-se guerreiros. São apenas bardos.
Sabem-se entes mitológicos. São apenas obras de ficção.
Atribuem-se poderes miraculosos, oriundos da grande sapiência pragmática.
Estão nus, como o rei, mas julgam-se no mínimo vestidos de ouro e prata.
Sua vaidade ingênua é sintoma da pobreza real em que realmente se situam.
Perecerão e virarão pó, mas não julgam essa possibilidade.
Mesmo apenas pó, pensarão ser incenso com propriedades mágicas.
Serão apenas dispersos, mas julgar-se-ão as moléculas mais importantes.
Mas serão tão importantes quanto qualquer outra molécula.
Esquecerão a própria grandeza de ser iguais, porque, sendo parte
da natureza, não a considerarão.
Julgar-se-ão gigantes. Serão apenas duendes desprovidos de magia.
Serão, enfim, esquecidos.
Por isso, passam a vida tentando lembrar-se de si mesmos.
E merecerão pouco menos de, um dia, ter sido mencionados.
Terão, então, perdido a chance de ter olhado à própria volta e
enxergado o mundo como ele é. Porque se fecharam à vida
e principalmente a quem os rodeia, esses homens especiais...
me interessam menos
esses homens especiais,
com suas gravatas e bravatas,
esses arremedos de competência,
esses simulacros de sucesso,
esses pretensos dominadores do conhecimento.
Quem são, senão aqueles que pensam ser tudo?
Quem são, senão aqueles que pensam poder muito?
Quem são, senão aqueles que se julgam a salvo
de todo o maremoto que os rodeia,
apenas dispondo do recurso do remo?
Pensam enfrentar a borrasca à maneira dos
velhos curandeiros, que pensavam enfrentar as pestes
com suas danças e rituais.
Também eles, os homens especiais, cultivam seus rituais,
mas repelem com veemência qualquer menção a eles.
Estão imersos em fetiches - para viver precisam deles
com desespero e tentam manter uma dignidade espúria.
Assumem-se guerreiros. São apenas bardos.
Sabem-se entes mitológicos. São apenas obras de ficção.
Atribuem-se poderes miraculosos, oriundos da grande sapiência pragmática.
Estão nus, como o rei, mas julgam-se no mínimo vestidos de ouro e prata.
Sua vaidade ingênua é sintoma da pobreza real em que realmente se situam.
Perecerão e virarão pó, mas não julgam essa possibilidade.
Mesmo apenas pó, pensarão ser incenso com propriedades mágicas.
Serão apenas dispersos, mas julgar-se-ão as moléculas mais importantes.
Mas serão tão importantes quanto qualquer outra molécula.
Esquecerão a própria grandeza de ser iguais, porque, sendo parte
da natureza, não a considerarão.
Julgar-se-ão gigantes. Serão apenas duendes desprovidos de magia.
Serão, enfim, esquecidos.
Por isso, passam a vida tentando lembrar-se de si mesmos.
E merecerão pouco menos de, um dia, ter sido mencionados.
Terão, então, perdido a chance de ter olhado à própria volta e
enxergado o mundo como ele é. Porque se fecharam à vida
e principalmente a quem os rodeia, esses homens especiais...
746
Silvestre Péricles de Góis Monteiro
Pátria
Vasto no solo, forte pela raça,
na livre América um país prospera.
E desde os Guararapes o encouraça
o nume do valor que retempera.
Os conceitos pacíficos abraça,
e no labor refaz a sua esfera.
Dando o exemplo benéfico, sem jaça,
na norma da igualdade persevera.
Altos cimos de luz que a fé redoura !
Do belo e verdadeiro na confiança,
a justiça reside, imorredoura.
É esse país, que a humanidade inteira
contem no coração e na esperança,
outro não é que a pátria brasileira.
na livre América um país prospera.
E desde os Guararapes o encouraça
o nume do valor que retempera.
Os conceitos pacíficos abraça,
e no labor refaz a sua esfera.
Dando o exemplo benéfico, sem jaça,
na norma da igualdade persevera.
Altos cimos de luz que a fé redoura !
Do belo e verdadeiro na confiança,
a justiça reside, imorredoura.
É esse país, que a humanidade inteira
contem no coração e na esperança,
outro não é que a pátria brasileira.
965
Sidney Frattini
Os Homens Especiais
Cada vez mais
me interessam menos
esses homens especiais,
com suas gravatas e bravatas,
esses arremedos de competência,
esses simulacros de sucesso,
esses pretensos dominadores do conhecimento.
Quem são, senão aqueles que pensam ser tudo?
Quem são, senão aqueles que pensam poder muito?
Quem são, senão aqueles que se julgam a salvo
de todo o maremoto que os rodeia,
apenas dispondo do recurso do remo?
Pensam enfrentar a borrasca à maneira dos
velhos curandeiros, que pensavam enfrentar as pestes
com suas danças e rituais.
Também eles, os homens especiais, cultivam seus rituais,
mas repelem com veemência qualquer menção a eles.
Estão imersos em fetiches - para viver precisam deles
com desespero e tentam manter uma dignidade espúria.
Assumem-se guerreiros. São apenas bardos.
Sabem-se entes mitológicos. São apenas obras de ficção.
Atribuem-se poderes miraculosos, oriundos da grande sapiência pragmática.
Estão nus, como o rei, mas julgam-se no mínimo vestidos de ouro e prata.
Sua vaidade ingênua é sintoma da pobreza real em que realmente se situam.
Perecerão e virarão pó, mas não julgam essa possibilidade.
Mesmo apenas pó, pensarão ser incenso com propriedades mágicas.
Serão apenas dispersos, mas julgar-se-ão as moléculas mais importantes.
Mas serão tão importantes quanto qualquer outra molécula.
Esquecerão a própria grandeza de ser iguais, porque, sendo parte
da natureza, não a considerarão.
Julgar-se-ão gigantes. Serão apenas duendes desprovidos de magia.
Serão, enfim, esquecidos.
Por isso, passam a vida tentando lembrar-se de si mesmos.
E merecerão pouco menos de, um dia, ter sido mencionados.
Terão, então, perdido a chance de ter olhado à própria volta e
enxergado o mundo como ele é. Porque se fecharam à vida
e principalmente a quem os rodeia, esses homens especiais...
me interessam menos
esses homens especiais,
com suas gravatas e bravatas,
esses arremedos de competência,
esses simulacros de sucesso,
esses pretensos dominadores do conhecimento.
Quem são, senão aqueles que pensam ser tudo?
Quem são, senão aqueles que pensam poder muito?
Quem são, senão aqueles que se julgam a salvo
de todo o maremoto que os rodeia,
apenas dispondo do recurso do remo?
Pensam enfrentar a borrasca à maneira dos
velhos curandeiros, que pensavam enfrentar as pestes
com suas danças e rituais.
Também eles, os homens especiais, cultivam seus rituais,
mas repelem com veemência qualquer menção a eles.
Estão imersos em fetiches - para viver precisam deles
com desespero e tentam manter uma dignidade espúria.
Assumem-se guerreiros. São apenas bardos.
Sabem-se entes mitológicos. São apenas obras de ficção.
Atribuem-se poderes miraculosos, oriundos da grande sapiência pragmática.
Estão nus, como o rei, mas julgam-se no mínimo vestidos de ouro e prata.
Sua vaidade ingênua é sintoma da pobreza real em que realmente se situam.
Perecerão e virarão pó, mas não julgam essa possibilidade.
Mesmo apenas pó, pensarão ser incenso com propriedades mágicas.
Serão apenas dispersos, mas julgar-se-ão as moléculas mais importantes.
Mas serão tão importantes quanto qualquer outra molécula.
Esquecerão a própria grandeza de ser iguais, porque, sendo parte
da natureza, não a considerarão.
Julgar-se-ão gigantes. Serão apenas duendes desprovidos de magia.
Serão, enfim, esquecidos.
Por isso, passam a vida tentando lembrar-se de si mesmos.
E merecerão pouco menos de, um dia, ter sido mencionados.
Terão, então, perdido a chance de ter olhado à própria volta e
enxergado o mundo como ele é. Porque se fecharam à vida
e principalmente a quem os rodeia, esses homens especiais...
775
Sá Júnior
Cinema Transcendental
Estou à janela
do fim de ano
pela enésima vez.
Meu coração dispara,
pensa coisas felizes.
O mundo passa
de mãos dadas com a justiça e a verdade.
Os homens irmanaram-se
num ritual de procura e discernimento.
Em toda parte,
distribuem-se abraços
a todos sem a menor distinção.
Sorrio com prazer
às pessoas com quem encontro,
e trocamos sinceras palavras
de ânimo e de graça.
Nossos anseios se encontram
e nossos gestos se completam,
num natural compromisso
de jamais querer tapear alguém.
Presencio a enésima
passagem de ano.
E mais uma vez
assisto
a esse filme tão distante...
do fim de ano
pela enésima vez.
Meu coração dispara,
pensa coisas felizes.
O mundo passa
de mãos dadas com a justiça e a verdade.
Os homens irmanaram-se
num ritual de procura e discernimento.
Em toda parte,
distribuem-se abraços
a todos sem a menor distinção.
Sorrio com prazer
às pessoas com quem encontro,
e trocamos sinceras palavras
de ânimo e de graça.
Nossos anseios se encontram
e nossos gestos se completam,
num natural compromisso
de jamais querer tapear alguém.
Presencio a enésima
passagem de ano.
E mais uma vez
assisto
a esse filme tão distante...
762
Sousa Caldas
Salmo I, de Davi
Feliz aquele que os ouvidos cerra
A malvados conselhos,
E não caminha pela estrada iníqua
Do pecador infame,
Nem se encosta orgulhoso na cadeira
Pelo vício empestada;
Mas na lei do Senhor fitando os olhos,
A revolve e medita,
Na tenebrosa noite e claro dia.
A fortuna e a desgraça,
Tudo parece a seu sabor moldar-se:
Ele é, qual tenro arbusto,
Plantado à margem de um ribeiro ameno,
Que de virentes folhas
A erguida frente bem depressa ornando,
Na sazão oportuna,
De frutos curva os suculentos ramos.
Não sois assim. ó ímpios;
Mas qual o leve pó que o vento assopra,
Aos ares alevanta,
E abate, e espalha, e com furor dissipa.
Por isso, vos espera
O dia da vingança, e o frio sangue
Vos coalhará de susto;
Nem surgireis, de glória revestidos,
Na assembléia dos justos;
O Senhor da virtude é firme esteio,
Enquanto o ímpio corre,
De horríssonas procelas combatido,
A naufragar sem tino.
A malvados conselhos,
E não caminha pela estrada iníqua
Do pecador infame,
Nem se encosta orgulhoso na cadeira
Pelo vício empestada;
Mas na lei do Senhor fitando os olhos,
A revolve e medita,
Na tenebrosa noite e claro dia.
A fortuna e a desgraça,
Tudo parece a seu sabor moldar-se:
Ele é, qual tenro arbusto,
Plantado à margem de um ribeiro ameno,
Que de virentes folhas
A erguida frente bem depressa ornando,
Na sazão oportuna,
De frutos curva os suculentos ramos.
Não sois assim. ó ímpios;
Mas qual o leve pó que o vento assopra,
Aos ares alevanta,
E abate, e espalha, e com furor dissipa.
Por isso, vos espera
O dia da vingança, e o frio sangue
Vos coalhará de susto;
Nem surgireis, de glória revestidos,
Na assembléia dos justos;
O Senhor da virtude é firme esteio,
Enquanto o ímpio corre,
De horríssonas procelas combatido,
A naufragar sem tino.
1 167
Renato Russo
A Dança
Não sei o que é direito
Só vejo preconceito
E a sua roupa nova
É só uma roupa nova
Você não tem idéias
Prá acompanhar a moda
Tratando as meninas
Como se fossem lixo
Ou então uma espécie rara
Só a você pertence
Ou então uma espécie rara
Que é só um objeto
Prá usar e jogar fora
Depois de ter prazer
Você é tão moderno
Se acha tão moderno
Mas é igual a seus pais
É só questão de idade
Passando dessa fase
Tanto fez e tanto faz
Você com suas drogas
E as suas teorias
E a sua rebeldia
E a sua solidão
Vive com seus excessos
Mas não tem mais dinheiro
Prá comprar outra fuga
Sair de casa então
Então é outra festa
É outra sexta-feira
Que se dane o futuro
Você tem a vida inteira
Você é tão esperto
Se está tão certo
Mas você nunca dançou
Com ódio de verdade
Você é tão esperto
Você está tão certo
Que você nunca vai errar
Mas a vida deixa marcas
Tenha cuidado
Se um dia você dançar
Nós somos tão modernos
Só não somos sinceros
Nos escondemos mais e mais
É só questão de idade
Passando dessa fase
Tanto fez e tanto faz
Você é tão esperto
Você está tão certo
Que você nunca vai errar
Mas a vida deixa marcas
Tenha cuidado
Se um dia você dançar
Só vejo preconceito
E a sua roupa nova
É só uma roupa nova
Você não tem idéias
Prá acompanhar a moda
Tratando as meninas
Como se fossem lixo
Ou então uma espécie rara
Só a você pertence
Ou então uma espécie rara
Que é só um objeto
Prá usar e jogar fora
Depois de ter prazer
Você é tão moderno
Se acha tão moderno
Mas é igual a seus pais
É só questão de idade
Passando dessa fase
Tanto fez e tanto faz
Você com suas drogas
E as suas teorias
E a sua rebeldia
E a sua solidão
Vive com seus excessos
Mas não tem mais dinheiro
Prá comprar outra fuga
Sair de casa então
Então é outra festa
É outra sexta-feira
Que se dane o futuro
Você tem a vida inteira
Você é tão esperto
Se está tão certo
Mas você nunca dançou
Com ódio de verdade
Você é tão esperto
Você está tão certo
Que você nunca vai errar
Mas a vida deixa marcas
Tenha cuidado
Se um dia você dançar
Nós somos tão modernos
Só não somos sinceros
Nos escondemos mais e mais
É só questão de idade
Passando dessa fase
Tanto fez e tanto faz
Você é tão esperto
Você está tão certo
Que você nunca vai errar
Mas a vida deixa marcas
Tenha cuidado
Se um dia você dançar
1 463
Renato Russo
Metrópole
"É sangue mesmo, não é mertiolate".
E todos querem ver
E comentar a novidade
"É tão emocionante um acidente de verdade".
Estão todos satisfeitos
Com o sucesso do desastre
Vai passar na televisão.
"Por gentileza, aguarde um momento.
Sem carteirinha, não tem atendimento -
Carteira de trabalho assinada, sim senhor.
Olha o tumulto: façam fila por favor.
Todos com a documentação.
Quem não tem senha, não tem lugar marcado.
Eu sinto muito mas já passa do horário.
Entendo seu problema mas não posso resolver:
É contra o regulamento, está bem aqui, pode ver.
Ordens são ordens.
Em todo caso, já temos sua ficha.
Só falta o recibo comprovando residência.
Prá limpar todo esse sangue, chamei a faxineira -
E agora eu já vou indo senão eu perco a novela
E eu não quero ficar na mão".
E todos querem ver
E comentar a novidade
"É tão emocionante um acidente de verdade".
Estão todos satisfeitos
Com o sucesso do desastre
Vai passar na televisão.
"Por gentileza, aguarde um momento.
Sem carteirinha, não tem atendimento -
Carteira de trabalho assinada, sim senhor.
Olha o tumulto: façam fila por favor.
Todos com a documentação.
Quem não tem senha, não tem lugar marcado.
Eu sinto muito mas já passa do horário.
Entendo seu problema mas não posso resolver:
É contra o regulamento, está bem aqui, pode ver.
Ordens são ordens.
Em todo caso, já temos sua ficha.
Só falta o recibo comprovando residência.
Prá limpar todo esse sangue, chamei a faxineira -
E agora eu já vou indo senão eu perco a novela
E eu não quero ficar na mão".
905
Ruy Pereira e Alvim
Novíssimas Catacumbas
No fundo da vida
há vida diferente.
Há gente que sente
carência de amor.
Há gente que mente
para não se humilhar.
Há gente perdida
para não se encontrar.
Há gente que pede
para ser esquecida.
Há gente em silêncio
por ser oprimida.
Há gente que sofre
por ser esquecida.
Há gente sem nome
há gente escondida.
No fundo da vida
há vida ... também!...
há vida diferente.
Há gente que sente
carência de amor.
Há gente que mente
para não se humilhar.
Há gente perdida
para não se encontrar.
Há gente que pede
para ser esquecida.
Há gente em silêncio
por ser oprimida.
Há gente que sofre
por ser esquecida.
Há gente sem nome
há gente escondida.
No fundo da vida
há vida ... também!...
631
Renato Russo
Fábrica
Nosso dia vai chegar,
Teremos nossa vez,
Não é pedir demais:
Quero justiça,
Quero trabalhar em paz.
Não é muito o que lhe peço -
Eu quero trabalho honesto
Em vez de escravidão.
Deve haver algum lugar
Onde o mais forte
Não consegue escravizar
Quem não tem chance.
De onde vem a indiferença
Temperada a ferro e fogo ?
Quem guarda os portões da fábrica ?
O céu já foi azul, mas agora é cinza
E o que era verde aqui já não existe mais.
Quem me dera acreditar
Que não acontece nada de tanto brincar com fogo.
Que venha o fogo então
Esse ar deixou minha vista cansada,
Nada demais.
Teremos nossa vez,
Não é pedir demais:
Quero justiça,
Quero trabalhar em paz.
Não é muito o que lhe peço -
Eu quero trabalho honesto
Em vez de escravidão.
Deve haver algum lugar
Onde o mais forte
Não consegue escravizar
Quem não tem chance.
De onde vem a indiferença
Temperada a ferro e fogo ?
Quem guarda os portões da fábrica ?
O céu já foi azul, mas agora é cinza
E o que era verde aqui já não existe mais.
Quem me dera acreditar
Que não acontece nada de tanto brincar com fogo.
Que venha o fogo então
Esse ar deixou minha vista cansada,
Nada demais.
1 335
Renato Russo
Música De Trabalho
Sem trabalho eu não sou nada
Não tenho dignidade
Não sinto o meu valor
Não tenho identidade
Mas o que eu tenho é só um emprego
E um salário miserável
Eu tenho o meu ofício
Que me cansa de verdade
Tem gente que não tem nada
E outros que têm mais do que precisam
Tem gente que não quer saber de trabalhar
Mas quando chega o fim do dia
Eu só penso em descansar
E voltar pra casa, pros teus braços
Quem sabe esquecer um pouco
Todo o meu cansaço
Nossa vida não é boa
E nem podemos reclamar
Sei que existe injustiça
Eu sei o que acontece
Tenho medo da polícia
Eu sei o que acontece
Se você não segue as ordens
Se você não obedece
E não suporta o sofrimento
Está destinado à miséria
Mas isso eu não aceito
Eu sei o que acontece
E quando chega o fim do dia
Eu só penso em descansar
E voltar pra casa, pros teus braços
Quem sabe esquecer um pouco
Do pouco que não temos
Quem sabe esquecer um pouco
De tudo que não sabemos
Não tenho dignidade
Não sinto o meu valor
Não tenho identidade
Mas o que eu tenho é só um emprego
E um salário miserável
Eu tenho o meu ofício
Que me cansa de verdade
Tem gente que não tem nada
E outros que têm mais do que precisam
Tem gente que não quer saber de trabalhar
Mas quando chega o fim do dia
Eu só penso em descansar
E voltar pra casa, pros teus braços
Quem sabe esquecer um pouco
Todo o meu cansaço
Nossa vida não é boa
E nem podemos reclamar
Sei que existe injustiça
Eu sei o que acontece
Tenho medo da polícia
Eu sei o que acontece
Se você não segue as ordens
Se você não obedece
E não suporta o sofrimento
Está destinado à miséria
Mas isso eu não aceito
Eu sei o que acontece
E quando chega o fim do dia
Eu só penso em descansar
E voltar pra casa, pros teus braços
Quem sabe esquecer um pouco
Do pouco que não temos
Quem sabe esquecer um pouco
De tudo que não sabemos
2 385
Renato Russo
Perfeição
1
Vamos celebrar a estupidez humana
A estupidez de todas as nações
O meu país com sua corja de assassinos
Covardes, estupradores e ladrões
Vamos celebrar a estupidez do povo
Nossa política e televisão
Vamos celebrar nosso governo
E nosso Estado que não é nação
Celebrar a juventude sem escola
As crianças mortas
Celebrar nossa desunião
Vamos celebrar Eros e Thanatos
Persephone e Hades
Vamos celebrar nossa tristeza
Vamos celebrar nossa vaidade
2
Vamos comemorar como idiotas
A cada fevereiro e feriado
Todos os mortos nas estradas
Os mortos por falta de hospitais
Vamos celebrar nossa justiça
A ganância e a difamação
Vamos celebrar os preconceitos
O voto dos analfabetos
Comemorar a água podre
E todos os impostos
Queimadas, mentiras e sequestros
Nosso castelo de cartas marcadas
O trabalho escravo
Nosso pequeno universo
Toda hipocrisia e toda a afetação
Todo roubo e toda indiferença
Vamos celebrar epidemias:
É a festa da torcida campeã
3
Vamos celebrar a fome
Não ter a quem ouvir
Não se ter a quem amar
Vamos alimentar o que é maldade
Vamos machucar um coração
Vamos celebrar nossa bandeira
Nosso passado de absurdos gloriosos
Tudo o que é gratuito e feio
Tudo que é normal
Vamos cantar juntos o Hino Nacional
( A lágrima é verdadeira )
Vamos celebrar nossa saudade
E comemorar a nossa solidão
4
Vamos festejar a inveja
A intolerância e a incompreensão
Vamos festejar a violência
E esquecer a nossa gente
Que trabalhou honestamente a vida inteira
E agora não tem mais direito a nada
Vamos celebrar a aberração
De toda a nossa falta de bom senso
Nosso descaso por educação
Vamos celebrar o horror
De tudo isso - com festa, velório e caixão
Está tudo morto e enterrado agora
Já que também podemos celebrar
A estupidez de quem cantou esta canção
5
Venha, meu coração está com pressa
Quando a esperança está dispersa
Só a verdade me liberta
Chega de maldade e ilusão
Venha, o amor tem sempre a porta aberta
E vem chegando a primavera
Nosso futuro recomeça
Venha, que o que tem é perfeição
Vamos celebrar a estupidez humana
A estupidez de todas as nações
O meu país com sua corja de assassinos
Covardes, estupradores e ladrões
Vamos celebrar a estupidez do povo
Nossa política e televisão
Vamos celebrar nosso governo
E nosso Estado que não é nação
Celebrar a juventude sem escola
As crianças mortas
Celebrar nossa desunião
Vamos celebrar Eros e Thanatos
Persephone e Hades
Vamos celebrar nossa tristeza
Vamos celebrar nossa vaidade
2
Vamos comemorar como idiotas
A cada fevereiro e feriado
Todos os mortos nas estradas
Os mortos por falta de hospitais
Vamos celebrar nossa justiça
A ganância e a difamação
Vamos celebrar os preconceitos
O voto dos analfabetos
Comemorar a água podre
E todos os impostos
Queimadas, mentiras e sequestros
Nosso castelo de cartas marcadas
O trabalho escravo
Nosso pequeno universo
Toda hipocrisia e toda a afetação
Todo roubo e toda indiferença
Vamos celebrar epidemias:
É a festa da torcida campeã
3
Vamos celebrar a fome
Não ter a quem ouvir
Não se ter a quem amar
Vamos alimentar o que é maldade
Vamos machucar um coração
Vamos celebrar nossa bandeira
Nosso passado de absurdos gloriosos
Tudo o que é gratuito e feio
Tudo que é normal
Vamos cantar juntos o Hino Nacional
( A lágrima é verdadeira )
Vamos celebrar nossa saudade
E comemorar a nossa solidão
4
Vamos festejar a inveja
A intolerância e a incompreensão
Vamos festejar a violência
E esquecer a nossa gente
Que trabalhou honestamente a vida inteira
E agora não tem mais direito a nada
Vamos celebrar a aberração
De toda a nossa falta de bom senso
Nosso descaso por educação
Vamos celebrar o horror
De tudo isso - com festa, velório e caixão
Está tudo morto e enterrado agora
Já que também podemos celebrar
A estupidez de quem cantou esta canção
5
Venha, meu coração está com pressa
Quando a esperança está dispersa
Só a verdade me liberta
Chega de maldade e ilusão
Venha, o amor tem sempre a porta aberta
E vem chegando a primavera
Nosso futuro recomeça
Venha, que o que tem é perfeição
1 633
Renato Russo
1965 (Duas Tribos)
Vou passar
Quero ver
Volta aqui
Vem você
Como foi
Nem sentiu
Se era falso
Ou fevereiro
Temos paz
Temos tempo
Chegou a hora
E agora é aqui
Cortaram meus braços
Cortaram minhas mãos
Cortaram minhas pernas
Num dia de verão
Num dia de verão
Num dia de verão
Podia ser meu pai
Podia ser meu irmão
Não se esqueça
Temos sorte
E agora é aqui
Quando querem transformar
Dignidade em doença
Quando querem transformar
Inteligência em traição
Quando querem transformar
Estupidez em recompensa
Quando querem transformar
Esperança em maldição:
É o bem que contra o mal
E você de que lado está ?
Estou do lado do bem
Com a luz e com os anjos
Mataram um menino
Tinha arma de verdade
Tinha arma nenhuma
Tinha arma de brinquedo
Eu tenho autorama
Eu tenho Hanna-Barbera
Eu tenho pêra, uva e maçã
Eu tenho Guanabara
E modelos Revell
O Brasil é o país do futuro
O Brasil é o país do futuro
O Brasil é o país do futuro
Em toda e qualquer situação
Eu quero tudo prá cima
Prá cima
Prá cima
Quero ver
Volta aqui
Vem você
Como foi
Nem sentiu
Se era falso
Ou fevereiro
Temos paz
Temos tempo
Chegou a hora
E agora é aqui
Cortaram meus braços
Cortaram minhas mãos
Cortaram minhas pernas
Num dia de verão
Num dia de verão
Num dia de verão
Podia ser meu pai
Podia ser meu irmão
Não se esqueça
Temos sorte
E agora é aqui
Quando querem transformar
Dignidade em doença
Quando querem transformar
Inteligência em traição
Quando querem transformar
Estupidez em recompensa
Quando querem transformar
Esperança em maldição:
É o bem que contra o mal
E você de que lado está ?
Estou do lado do bem
Com a luz e com os anjos
Mataram um menino
Tinha arma de verdade
Tinha arma nenhuma
Tinha arma de brinquedo
Eu tenho autorama
Eu tenho Hanna-Barbera
Eu tenho pêra, uva e maçã
Eu tenho Guanabara
E modelos Revell
O Brasil é o país do futuro
O Brasil é o país do futuro
O Brasil é o país do futuro
Em toda e qualquer situação
Eu quero tudo prá cima
Prá cima
Prá cima
1 339
Renato Russo
Faroeste Caboclo
- Não tinha medo, o tal João de Santo Cristo,
Era o que todos diziam quando se perdeu.
Deixou prá trás todo o marasmo da fazenda
Só para sentir no seu sangue o ódio que Jesus lhe deu.
Quando criança só pensava em ser bandido,
Ainda mais quando com tiro de um soldado o pai morreu
Era o terror da cercania onde morava
E na escola até o professor com ele aprendeu.
Ia prá igreja só prá roubar o dinheiro
Que as velhinhas colocavam na caixinha do altar.
Sentia mesmo que era diferente
E sentia que aquilo ali não era o seu lugar.
Ele queria sair para ver o mar
E as coisas que ele via na televisão
Juntou dinheiro para poder viajar
E de escolha própria, escolheu a solidão
Comia todas as menininhas da cidade
De tanto brincar de médico, aos doze era professor.
Aos quinze, foi mandado para o reformatório
Onde aumentou seu ódio diante de tanto terror.
Não entendia como a vida funcionava -
Discriminação por causa da sua classe ou sua cor
Ficou cansado de tentar achar resposta
E comprou uma passagem, foi direto a Salvador.
E lá chegando foi tomar um cafezinho
E encontrou um boiadeiro com quem foi falar
E o boiadeiro tinha uma passagem e eia perder a viagem
Mas João foi lhe salvar
Dizia ele: - Estou indo prá Brasília,
Neste país lugar melhor não há.
Estou precisando visitar a minha filha
Então fico aqui e você vai no meu lugar.
E João aceitou sua proposta e num ônibus entrou no Planalto Central
Ele ficou bestificado com a cidade
Saindo da rodoviária, viu as luzes de natal
- Meu Deus, mas que cidade linda,
No ano-novo eu começo a trabalhar.
Cortar madeira, aprendiz de carpinteiro
Ganhava três mil por mês em Taguatinga
Na sexta-feira ia prá zona da cidade
Gastar todo o seu dinheiro de rapaz trabalhador
E conhecia muita gente interessante
Até um neto bastardo de seu bisavô:
Um peruano que vivia na Bolívia
E muitas coisas trazia de lá
Seu nome era Pablo e ele dizia
Que um negócio ia começar
E o Santo Cristo até a morte trabalhava
Mas o dinheiro não dava prá ele se alimentar
E ouvia às sete horas o noticiário
Que sempre dizia que o seu ministro ia ajudar
Mas ele não queria mais conversa e decidiu que,
Como Pablo, ele ia se virar
Elaborou mais uma vez seu plano santo
E, sem ser crucificado, a plantação foi começar
Logo logo os malucos da cidade souberam da novidade:
- Tem bagulho bom aí !
E João de Santo Cristo ficou rico
E acabou com todos os traficantes dali.
Fez amigos, frequentava a Asa Norte
E ia prá festa de rock, prá se libertar
Mas de repente
Sob uma má influência dos boyzinhos da cidade
Começou a roubar
Já no primeiro roubo ele dançou
E pro inferno ele foi pela primeira vez
Violência e estupro do seu corpo
- Vocês vão ver, eu vou pegar vocês.
Agora o Santo Cristo era bandido
Destemido e temido no Distrito Federal.
Não tinha nenhum medo de polícia
Capitão ou traficante, playboy ou general.
Foi quando conehceu uma menina
E de todos seus pecados ele se arrependeu.
Maria Lúcia era uma menina linda
E o coração dele
Prá ela o Santo Cristo prometeu
Ele dizia que queria se casar
E carpinteiro ele voltou a ser
- Maria Lúcia prá sempre vou te amar
E um filho seu eu quero ter.
O tempo passa e um dia vem à porta um senhor de alta classe
com dinheiro na mão
E ele faz uma proposta indecorosa e diz que espera uma resposta.
Uma resposta de João:
- Não boto bomba em banca de jornal nem em colégio de criança
Isso eu não faço não
E não protejo general de dez estrelas, que fica atrás da mesa
Com o cu na mão
E é melhor o senhor sair da minha casa
Nunca brinque com um Peixes de ascendente Escorpião.
Mas antes de sair, com um ódio no olhar, o velho disse:
- Você perdeu sua vida, meu irmão.
Você perdeu a sua vida meu irmão. Você perdeu a sua vida meu irmão.
Essas palavras vão entrar no coração
E eu vou sofrer as consequências como um cão.
Não é que o Santo Cristo estava certo
E seu futuro era incerto e ele não foi trabalhar
Se embebedou e no meio da bebedeira descobriu que tinha outro
Trabalhando em seu lugar
Falou com Pablo que queria um parceiro
E também tinha dinheiro e queria se armar
Pablo trazia o contrabando da Bolívia e Santo Cristo revendia em Planaltina.
Mas acontece que um tal de Jeremias, traficante de renome,
Apareceu por lá
Ficou sabendo dos planos de Santo Cristo
E decidiu que, com João ele ia acabar.
Mas Pablo trouxe uma Winchester-22
E Santo Cristo já sabia atirar
E decidiu usar a arma só depois
Que o Jeremias começasse a brigar.
(O Jeremias, maconheiro sem-vergonha,
organizou a Rockonha
E fez todo mundo dançar.)
Desvirginava mocinhas inocentes
E dizia que era crente mas não sabia rezar
E Santo Cristo há muito não ia prá casa
E a saudade começou a apertar
- Eu vou embora, eu vou ver Maria Lúcia
Já está em tempo da gente se casar.
Chegando em casa então ele chorou
E pro inferno ele foi pela segunda vez
Com Maria Lúcia, Jeremias se casou
E um filho nela ele fez
Santo Cristo era só ódio por dentro
e então o Jeremias prá um duelo ele chamou
Amanhã às duas horas na Ceilândia,
em frente ao lote 14, é prá lá que eu vou
E você pode escolher as suas armas que eu acabo mesmo com você,
seu porco traidor
E mato também Maria Lúcia, aquela menina falsa prá quem jurei o meu amor
Santo Cristo não sabia o que fazer
Quando viu o repórter na televisão
Que deu notícia do duelo na TV
Dizendo a hora e o local e a razão
No sábado então, às duas horas, todo o povo
Sem demora foi lá só prá assistir
Um homem que atirava pelas costas e acertou o Santo Cristo
E começou a sorrir.
Sentindo o sangue na garganta,
João olhou prás bandeirinhas e pro povo a aplaudir
E olhou pro sorveteiro e prás câmeras e
A gente da TV que filmava tudo ali.
E se lembrou de quando era uma criança e de tudo que vivera até ali
E decidiu entrar de vez naquela dança
- Se a via-crucis virou circo, estou aqui
E nisso o sol cegou seus olhos e então Maria Lúcia ele reconheceu.
Ela trazia a Winchester-22
A arma que Pablo lhe deu.
- Jeremias, eu sou homem, coisa que você não é.
E não atiro pelas costas não
Olha prá cá filha-da-puta sem-vergonha,
dá uma olhada no meu sangue
E vem sentir o seu perdão
E Santo Cristo com a Winchester-22
Deu cinco tiros no bandido traidor
Maria Lúcia se arrependeu depois
E morreu junto com João, seu protetor.
E o povo declarava que João de Santo Cristo era santo porque sabia morrer
E a alta burguesia da cidade não acreditou na história que eles viram na TV
E João não conseguiu o que queria quando veio prá Brasília, com o diabo ter
Ele queria era falar pro presidente,
Prá ajudar toda essa gente
Que só faz sofrer.
Era o que todos diziam quando se perdeu.
Deixou prá trás todo o marasmo da fazenda
Só para sentir no seu sangue o ódio que Jesus lhe deu.
Quando criança só pensava em ser bandido,
Ainda mais quando com tiro de um soldado o pai morreu
Era o terror da cercania onde morava
E na escola até o professor com ele aprendeu.
Ia prá igreja só prá roubar o dinheiro
Que as velhinhas colocavam na caixinha do altar.
Sentia mesmo que era diferente
E sentia que aquilo ali não era o seu lugar.
Ele queria sair para ver o mar
E as coisas que ele via na televisão
Juntou dinheiro para poder viajar
E de escolha própria, escolheu a solidão
Comia todas as menininhas da cidade
De tanto brincar de médico, aos doze era professor.
Aos quinze, foi mandado para o reformatório
Onde aumentou seu ódio diante de tanto terror.
Não entendia como a vida funcionava -
Discriminação por causa da sua classe ou sua cor
Ficou cansado de tentar achar resposta
E comprou uma passagem, foi direto a Salvador.
E lá chegando foi tomar um cafezinho
E encontrou um boiadeiro com quem foi falar
E o boiadeiro tinha uma passagem e eia perder a viagem
Mas João foi lhe salvar
Dizia ele: - Estou indo prá Brasília,
Neste país lugar melhor não há.
Estou precisando visitar a minha filha
Então fico aqui e você vai no meu lugar.
E João aceitou sua proposta e num ônibus entrou no Planalto Central
Ele ficou bestificado com a cidade
Saindo da rodoviária, viu as luzes de natal
- Meu Deus, mas que cidade linda,
No ano-novo eu começo a trabalhar.
Cortar madeira, aprendiz de carpinteiro
Ganhava três mil por mês em Taguatinga
Na sexta-feira ia prá zona da cidade
Gastar todo o seu dinheiro de rapaz trabalhador
E conhecia muita gente interessante
Até um neto bastardo de seu bisavô:
Um peruano que vivia na Bolívia
E muitas coisas trazia de lá
Seu nome era Pablo e ele dizia
Que um negócio ia começar
E o Santo Cristo até a morte trabalhava
Mas o dinheiro não dava prá ele se alimentar
E ouvia às sete horas o noticiário
Que sempre dizia que o seu ministro ia ajudar
Mas ele não queria mais conversa e decidiu que,
Como Pablo, ele ia se virar
Elaborou mais uma vez seu plano santo
E, sem ser crucificado, a plantação foi começar
Logo logo os malucos da cidade souberam da novidade:
- Tem bagulho bom aí !
E João de Santo Cristo ficou rico
E acabou com todos os traficantes dali.
Fez amigos, frequentava a Asa Norte
E ia prá festa de rock, prá se libertar
Mas de repente
Sob uma má influência dos boyzinhos da cidade
Começou a roubar
Já no primeiro roubo ele dançou
E pro inferno ele foi pela primeira vez
Violência e estupro do seu corpo
- Vocês vão ver, eu vou pegar vocês.
Agora o Santo Cristo era bandido
Destemido e temido no Distrito Federal.
Não tinha nenhum medo de polícia
Capitão ou traficante, playboy ou general.
Foi quando conehceu uma menina
E de todos seus pecados ele se arrependeu.
Maria Lúcia era uma menina linda
E o coração dele
Prá ela o Santo Cristo prometeu
Ele dizia que queria se casar
E carpinteiro ele voltou a ser
- Maria Lúcia prá sempre vou te amar
E um filho seu eu quero ter.
O tempo passa e um dia vem à porta um senhor de alta classe
com dinheiro na mão
E ele faz uma proposta indecorosa e diz que espera uma resposta.
Uma resposta de João:
- Não boto bomba em banca de jornal nem em colégio de criança
Isso eu não faço não
E não protejo general de dez estrelas, que fica atrás da mesa
Com o cu na mão
E é melhor o senhor sair da minha casa
Nunca brinque com um Peixes de ascendente Escorpião.
Mas antes de sair, com um ódio no olhar, o velho disse:
- Você perdeu sua vida, meu irmão.
Você perdeu a sua vida meu irmão. Você perdeu a sua vida meu irmão.
Essas palavras vão entrar no coração
E eu vou sofrer as consequências como um cão.
Não é que o Santo Cristo estava certo
E seu futuro era incerto e ele não foi trabalhar
Se embebedou e no meio da bebedeira descobriu que tinha outro
Trabalhando em seu lugar
Falou com Pablo que queria um parceiro
E também tinha dinheiro e queria se armar
Pablo trazia o contrabando da Bolívia e Santo Cristo revendia em Planaltina.
Mas acontece que um tal de Jeremias, traficante de renome,
Apareceu por lá
Ficou sabendo dos planos de Santo Cristo
E decidiu que, com João ele ia acabar.
Mas Pablo trouxe uma Winchester-22
E Santo Cristo já sabia atirar
E decidiu usar a arma só depois
Que o Jeremias começasse a brigar.
(O Jeremias, maconheiro sem-vergonha,
organizou a Rockonha
E fez todo mundo dançar.)
Desvirginava mocinhas inocentes
E dizia que era crente mas não sabia rezar
E Santo Cristo há muito não ia prá casa
E a saudade começou a apertar
- Eu vou embora, eu vou ver Maria Lúcia
Já está em tempo da gente se casar.
Chegando em casa então ele chorou
E pro inferno ele foi pela segunda vez
Com Maria Lúcia, Jeremias se casou
E um filho nela ele fez
Santo Cristo era só ódio por dentro
e então o Jeremias prá um duelo ele chamou
Amanhã às duas horas na Ceilândia,
em frente ao lote 14, é prá lá que eu vou
E você pode escolher as suas armas que eu acabo mesmo com você,
seu porco traidor
E mato também Maria Lúcia, aquela menina falsa prá quem jurei o meu amor
Santo Cristo não sabia o que fazer
Quando viu o repórter na televisão
Que deu notícia do duelo na TV
Dizendo a hora e o local e a razão
No sábado então, às duas horas, todo o povo
Sem demora foi lá só prá assistir
Um homem que atirava pelas costas e acertou o Santo Cristo
E começou a sorrir.
Sentindo o sangue na garganta,
João olhou prás bandeirinhas e pro povo a aplaudir
E olhou pro sorveteiro e prás câmeras e
A gente da TV que filmava tudo ali.
E se lembrou de quando era uma criança e de tudo que vivera até ali
E decidiu entrar de vez naquela dança
- Se a via-crucis virou circo, estou aqui
E nisso o sol cegou seus olhos e então Maria Lúcia ele reconheceu.
Ela trazia a Winchester-22
A arma que Pablo lhe deu.
- Jeremias, eu sou homem, coisa que você não é.
E não atiro pelas costas não
Olha prá cá filha-da-puta sem-vergonha,
dá uma olhada no meu sangue
E vem sentir o seu perdão
E Santo Cristo com a Winchester-22
Deu cinco tiros no bandido traidor
Maria Lúcia se arrependeu depois
E morreu junto com João, seu protetor.
E o povo declarava que João de Santo Cristo era santo porque sabia morrer
E a alta burguesia da cidade não acreditou na história que eles viram na TV
E João não conseguiu o que queria quando veio prá Brasília, com o diabo ter
Ele queria era falar pro presidente,
Prá ajudar toda essa gente
Que só faz sofrer.
2 436
Renato Russo
Mais do mesmo
Ei menino branco o que é que você faz aqui
Subindo o morro prá tentar se divertir
Mas já disse que não tem
E você ainda quer mais
Por que você não me deixa em paz ?
Desses vinte anos nenhum foi feito prá mim
E agora você quer que eu fique assim igual a você
É mesmo, como vou crescer se nada cresce por aqui ?
Quem vai tomar conta dos doentes ?
E quando tem chacina de adolescentes
Como é que você se sente ?
Em vez de luz tem tiroteio no fim do túnel
Sempre mais do mesmo
Não era isso que você queria ouvir ?
Bondade sua me explicar com tanta determinação
Exatamente o que eu sinto, como penso e como sou
Eu realmente não sabia que eu pensava assim
E agora você quer um retrato do país
Mas queimaram o filme
E enquanto isso, na enfermaria
Todos os doentes estão cantando sucessos populares
(e todos os índios foram mortos).
Subindo o morro prá tentar se divertir
Mas já disse que não tem
E você ainda quer mais
Por que você não me deixa em paz ?
Desses vinte anos nenhum foi feito prá mim
E agora você quer que eu fique assim igual a você
É mesmo, como vou crescer se nada cresce por aqui ?
Quem vai tomar conta dos doentes ?
E quando tem chacina de adolescentes
Como é que você se sente ?
Em vez de luz tem tiroteio no fim do túnel
Sempre mais do mesmo
Não era isso que você queria ouvir ?
Bondade sua me explicar com tanta determinação
Exatamente o que eu sinto, como penso e como sou
Eu realmente não sabia que eu pensava assim
E agora você quer um retrato do país
Mas queimaram o filme
E enquanto isso, na enfermaria
Todos os doentes estão cantando sucessos populares
(e todos os índios foram mortos).
2 015
Renato Russo
Que país é este
Nas favelas, no Senado
Sujeira prá todo lado
Ninguém respeita a Constituição
Mas todos acreditam no futuro da nação
Que país é este
No Amazonas, no Araguaia, na Baixada Fluminense
Mato Grosso, nas Geraes e no Nordeste tudo em paz
Na morte eu descanso mas o sangue anda solto
Manchondo os papéis, documentos fiéis
Ao descanso do patrão
Que país é este
Terceiro mundo se for
Piada no exterior
Mas o Brasil vai ficar rico
Vamos faturar um milhão
Quando vendermos todas as almas
Dos nossos índios num leilão.
Que país é este
Sujeira prá todo lado
Ninguém respeita a Constituição
Mas todos acreditam no futuro da nação
Que país é este
No Amazonas, no Araguaia, na Baixada Fluminense
Mato Grosso, nas Geraes e no Nordeste tudo em paz
Na morte eu descanso mas o sangue anda solto
Manchondo os papéis, documentos fiéis
Ao descanso do patrão
Que país é este
Terceiro mundo se for
Piada no exterior
Mas o Brasil vai ficar rico
Vamos faturar um milhão
Quando vendermos todas as almas
Dos nossos índios num leilão.
Que país é este
707
Roberto Pontes
Gemedeira da Floreira
Encovados olhos negros
por detrás duma touceira
de arame, cola e papel
e cores que estão na feira
para alimentar um filho
ai! ai! ui! ui!
da filha desta floreira.
Florista fabrica flores
para as jarras de alto luxo
para os bolsos de alta venda
e oferta flor de cartuxo
estendendo os dedinhos
ai! ai! ui! ui!
mais roxos que o próprio roxo.
Florista fabrica flores
e seu ritual de rua
é um bailado sem som
um triste cantar de loa
a Estrela d’Alva sem luz
ai! ai! ui! ui!
e a borboleta na lua.
por detrás duma touceira
de arame, cola e papel
e cores que estão na feira
para alimentar um filho
ai! ai! ui! ui!
da filha desta floreira.
Florista fabrica flores
para as jarras de alto luxo
para os bolsos de alta venda
e oferta flor de cartuxo
estendendo os dedinhos
ai! ai! ui! ui!
mais roxos que o próprio roxo.
Florista fabrica flores
e seu ritual de rua
é um bailado sem som
um triste cantar de loa
a Estrela d’Alva sem luz
ai! ai! ui! ui!
e a borboleta na lua.
1 636
Roberto Pontes
Olhe a Poça
Há quem olhe a poça e veja a lua
Numa noite de intenso tremedal
Nela viaja a sede acre, insaciável
Do homem que trabalha, mas não vive
Daquele que não sabe já quem é
A sede é de tudo e de justiça
E o sedento não vê flores no caminho
A não ser nos canteiros do futuro
Mas como o advir não lhe pertence
Sendo a certeza um fruto de amanhã
Pisar na poça talvez não lhe pareça
Senão mero obstáculo a vencer
Um passo a mais do corpo que carrega
E enquanto a vida for seus dias de alugado
O seu suor, o seu sangue, o excremento
Para ele todo o céu será cinzento
Ter nascido foi ganhar uma sentença
Vai o homem, pisa a poça na calçada
E há quem olhe a mesma poça e veja a lua
Numa noite de intenso tremedal
Nela viaja a sede acre, insaciável
Do homem que trabalha, mas não vive
Daquele que não sabe já quem é
A sede é de tudo e de justiça
E o sedento não vê flores no caminho
A não ser nos canteiros do futuro
Mas como o advir não lhe pertence
Sendo a certeza um fruto de amanhã
Pisar na poça talvez não lhe pareça
Senão mero obstáculo a vencer
Um passo a mais do corpo que carrega
E enquanto a vida for seus dias de alugado
O seu suor, o seu sangue, o excremento
Para ele todo o céu será cinzento
Ter nascido foi ganhar uma sentença
Vai o homem, pisa a poça na calçada
E há quem olhe a mesma poça e veja a lua
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