Poemas neste tema
Literatura e Palavras
Nuno Guimarães
Palavras que Rebentam
Palavras
que rebentam. Aflorando
A pedra, a solidão, deslizam, vagas,
Gramaticais, roendo inconformadas
As arestas, o atrito, puras. Quando
Nos líquidos, no éter, na distancia,
Diluem-se e morrem acabadas.
Não nos corpos, nas rugas, nas arcadas:
Combatem, rumorosas, cal e cântico.
É dificil atarem corpo e vida
Aos que vivem e morrem subjacentes
Subjazendo, talhados para mina.
Mas despertadas, bem ou mal medidas,
Rebentam em ogiva, funcionais
Chamas supostamente adormecidas.
que rebentam. Aflorando
A pedra, a solidão, deslizam, vagas,
Gramaticais, roendo inconformadas
As arestas, o atrito, puras. Quando
Nos líquidos, no éter, na distancia,
Diluem-se e morrem acabadas.
Não nos corpos, nas rugas, nas arcadas:
Combatem, rumorosas, cal e cântico.
É dificil atarem corpo e vida
Aos que vivem e morrem subjacentes
Subjazendo, talhados para mina.
Mas despertadas, bem ou mal medidas,
Rebentam em ogiva, funcionais
Chamas supostamente adormecidas.
1 305
Marcial
Que sejam os meus versos pouco sérios
I,36
Que sejam os meus versos pouco sérios,
tais que o mestre os não pode ler na escola,
tu lamentas, Cornélio. Porém os meus livrinhos,
tal como às suas consortes os maridos,
não podem sem caralho dar prazer.
Como escrever lascivo canto nupcial
sem usar lascivos termos nupciais?
Quem com traje de jogos florais, às meretrizes
permite que tenham seriedade de matronas?
Estes ligeiros poemas a uma lei obedecem:
apenas dão prazer se forem excitantes.
Por isso dá ao demo a seriedade,
não condenes, te peço, as minhas brincadeiras,
e tira da ideia castrar os meus livrinhos.
Nada há mais torpe que um Priapo capado!
Que sejam os meus versos pouco sérios,
tais que o mestre os não pode ler na escola,
tu lamentas, Cornélio. Porém os meus livrinhos,
tal como às suas consortes os maridos,
não podem sem caralho dar prazer.
Como escrever lascivo canto nupcial
sem usar lascivos termos nupciais?
Quem com traje de jogos florais, às meretrizes
permite que tenham seriedade de matronas?
Estes ligeiros poemas a uma lei obedecem:
apenas dão prazer se forem excitantes.
Por isso dá ao demo a seriedade,
não condenes, te peço, as minhas brincadeiras,
e tira da ideia castrar os meus livrinhos.
Nada há mais torpe que um Priapo capado!
754
Renier Dias Pereira
Help!
Help!
-8 DE DEZEMBRO DE 1980-
Abra os seus olhos
para você mesmo e
verá que o sonho não acabou
continua resistente a todo tempo
O homem livre como um pássaro
que se esqueceu de lembrar que esquece
a poesia é apunhalada pelas costas
mas continua resistente a toda realidade
Viver com cada olhar oculto
ela é a mulher perfeita
está dentro de mim
e continua resistente as divisões
Parou de fazer poesia para
pertencer a ela. noite de
dias difíceis. ontem haverá
paz nesse mundo desfalque.
-8 DE DEZEMBRO DE 1980-
Abra os seus olhos
para você mesmo e
verá que o sonho não acabou
continua resistente a todo tempo
O homem livre como um pássaro
que se esqueceu de lembrar que esquece
a poesia é apunhalada pelas costas
mas continua resistente a toda realidade
Viver com cada olhar oculto
ela é a mulher perfeita
está dentro de mim
e continua resistente as divisões
Parou de fazer poesia para
pertencer a ela. noite de
dias difíceis. ontem haverá
paz nesse mundo desfalque.
1 095
Nuno Guimarães
Pela Escrita
Através dela somos divididos
E somos portadores da divisão.
Por ela aprendemos um país
Apreendido.
Dela passamos para nós:
Tornamo-nos, assim, subvertidos.
Por ela quebramos os limites
Do conhecimento.
Má consciência nas palavras.
E nos actos.
Do acto à escrita, intensidade:
A escrita é o acto mais atento.
E somos portadores da divisão.
Por ela aprendemos um país
Apreendido.
Dela passamos para nós:
Tornamo-nos, assim, subvertidos.
Por ela quebramos os limites
Do conhecimento.
Má consciência nas palavras.
E nos actos.
Do acto à escrita, intensidade:
A escrita é o acto mais atento.
1 281
Régis Bonvicino
Uma Idéia
palavras não matam
nem provocam inverno atômico
e na voz do poeta
(abelhas na colméia)
podem até conter uma idéia
nem provocam inverno atômico
e na voz do poeta
(abelhas na colméia)
podem até conter uma idéia
1 691
Renier Dias Pereira
Essência
Essência
Eu quero a rima pobre , paupérrimaEu quero os mais puros sentimentosEu quero o exagero , a língua erradaEu quero a dor , a alegria , o sofrimentoEu quero o íntimo , veias abertas Eu quero a sem-vergonhice , a poesia vivaEu quero o discurso em chamasEu quero o parto normal de uma vidasem limites...
Eu quero a rima pobre , paupérrimaEu quero os mais puros sentimentosEu quero o exagero , a língua erradaEu quero a dor , a alegria , o sofrimentoEu quero o íntimo , veias abertas Eu quero a sem-vergonhice , a poesia vivaEu quero o discurso em chamasEu quero o parto normal de uma vidasem limites...
1 230
Orlando Neves
E o desejo de amar
E o desejo de amar e o desejo de mar
no seu mais belo canto Safo cantava.
Oh, quanto no meu coração tarda
o que o seu canto louvava.
no seu mais belo canto Safo cantava.
Oh, quanto no meu coração tarda
o que o seu canto louvava.
1 340
Renier Dias Pereira
Automatismo Extraordinário
Automatismo Extraordinário
Escrevo através de
um impulso magnífico
ora espumante ora ingênuo
sempre transcendental
num transbordamento mágico
expresso minha poesia como
asas na amplitude do infinito
a vida não acaba, o tempo não
passa, a poesia permanece
livre. Escapo do insignificante
Escrevo através de
um impulso magnífico
ora espumante ora ingênuo
sempre transcendental
num transbordamento mágico
expresso minha poesia como
asas na amplitude do infinito
a vida não acaba, o tempo não
passa, a poesia permanece
livre. Escapo do insignificante
919
Luís António Cajazeira Ramos
Memórias da Casa dos Mortos
Mais parece um túmulo esse meu corpo de pedra.
Túmulo de tantas sensações.
Pedra sem vida — pedra.
Mais parece um túmulo esse meu coração de pedra.
Túmulo de tantas paixões.
Pedra sem amor — pétrea.
Mais parece um túmulo esse meu espírito de pedra.
Túmulo de tantas idéias.
Pedra sem razão — petrificada.
Em visita a esse cemitério de jazigos e lápides,
levei uma pedrada,
e o único sangue possível foi
a palavra.
Túmulo de tantas sensações.
Pedra sem vida — pedra.
Mais parece um túmulo esse meu coração de pedra.
Túmulo de tantas paixões.
Pedra sem amor — pétrea.
Mais parece um túmulo esse meu espírito de pedra.
Túmulo de tantas idéias.
Pedra sem razão — petrificada.
Em visita a esse cemitério de jazigos e lápides,
levei uma pedrada,
e o único sangue possível foi
a palavra.
891
Raimundo Bento Sotero
O trágico destino das palavras
Outro dia encontrei, por mero acaso,
Um livro, um tanto velho, amarelado,
Carcomido do tempo, mui traçado.
Era um clássico entregue ao vil descaso.
Prontamente o peguei naquele azo,
Ia ler; mas fiquei embaraçado
No português há muito desusado.
Pensei comigo: tudo tem ocaso.
A palavra é tal qual a criatura.
Esta ao nascer já ganha a sepultura
E trás a extrema-unção no batistério.
Aquela também morre, entretanto,
Fica por lá jazendo no seu canto,
Pois o livro é o seu próprio cemitério.
Um livro, um tanto velho, amarelado,
Carcomido do tempo, mui traçado.
Era um clássico entregue ao vil descaso.
Prontamente o peguei naquele azo,
Ia ler; mas fiquei embaraçado
No português há muito desusado.
Pensei comigo: tudo tem ocaso.
A palavra é tal qual a criatura.
Esta ao nascer já ganha a sepultura
E trás a extrema-unção no batistério.
Aquela também morre, entretanto,
Fica por lá jazendo no seu canto,
Pois o livro é o seu próprio cemitério.
958
Kideniro Teixeira
Velhos Poemas
São estes velhos poemas os retraços
Onde viveu... e a ressonância e o pó
Que levantaram pelo mundo os passos
De um homem só, desprotegido e só.
Soturnos como as águas do igapó,
Molambolando em céus de ermos mormaços,
São de minha alma as cicatrizes e oh!,
Anjos-da-Guarda — meus irmãos colaços!.
Alameda de sonhos... velho aprisco
Onde dormem mendigos de pés nus,
Tão puros como as mãos de São Francisco!
Vale açoitado pelos remoinhos...
Paisagem erma onde os mandacarus
Frutificaram pelos meus caminhos!
Onde viveu... e a ressonância e o pó
Que levantaram pelo mundo os passos
De um homem só, desprotegido e só.
Soturnos como as águas do igapó,
Molambolando em céus de ermos mormaços,
São de minha alma as cicatrizes e oh!,
Anjos-da-Guarda — meus irmãos colaços!.
Alameda de sonhos... velho aprisco
Onde dormem mendigos de pés nus,
Tão puros como as mãos de São Francisco!
Vale açoitado pelos remoinhos...
Paisagem erma onde os mandacarus
Frutificaram pelos meus caminhos!
1 106
Cirstina Areias
A Palavra
Para Carlos Drummond de Andrade
Os meus olhos devoram a palavra que tua boca pronunciou,
O meu pensamento absorve o teu
Emoção flui do teu corpo ao meu,
Do meu tempo ao teu.
Ler teu poema é realizar um ato de amor mágico, cósmico...
Vens dos confins do Tempo
Espírito reencarnado e errante
E escarneces da minha agonia quando exibes, assim, à minha revelia, à exaustão,
A expressão lapidar de minha particular tragédia...
É teu espírito dentro de mim
Usurpando e definindo-me com precisão de ourives,
Travestindo o sentimento comum em fina literatura...
Tu, eu a bruxa e essa dança gêmea, incestuosa e louca.
Vens dos confins do Tempo
Espírito reencarnado e errante
E acusas, com genialidade o sentimento que eu entalo na garganta.
Pasmo, vexada, ouvindo que gargalhas do Além,
Quando vês, dentro do meu cristalino choro,
O desespero de que nos teríamos amado...
Os meus olhos devoram a palavra que tua boca pronunciou,
O meu pensamento absorve o teu
Emoção flui do teu corpo ao meu,
Do meu tempo ao teu.
Ler teu poema é realizar um ato de amor mágico, cósmico...
Vens dos confins do Tempo
Espírito reencarnado e errante
E escarneces da minha agonia quando exibes, assim, à minha revelia, à exaustão,
A expressão lapidar de minha particular tragédia...
É teu espírito dentro de mim
Usurpando e definindo-me com precisão de ourives,
Travestindo o sentimento comum em fina literatura...
Tu, eu a bruxa e essa dança gêmea, incestuosa e louca.
Vens dos confins do Tempo
Espírito reencarnado e errante
E acusas, com genialidade o sentimento que eu entalo na garganta.
Pasmo, vexada, ouvindo que gargalhas do Além,
Quando vês, dentro do meu cristalino choro,
O desespero de que nos teríamos amado...
891
Jaumir Valença da Silveira
Cumplicidade
"Give me your hands,
if we be friends."
Se eu vos disser que o mar que agora encaro
me faz um bem supremo ou mal me ampara,
é vero que o seu sal, de gosto extremo,
talvez vos teça a fé que me declara
ser tão feliz que a morte a mim me esqueça
ou sofrimento é só com que deparo.
Mas neste mesmo mar, se eu ponho o vento
vagando pelas crispas das marolas,
haveis de crer que sinto ser mais brando
o que já imaginais das priscas horas;
o que antes era júbilo é só paz,
não passa de um queixume o tal lamento.
E se eu não venho a por escuro ou lume
na tela que o sentido me extravasa,
é que vos trago a forma mais singela
de respeitar o céu que vos abrasa:
deixando, pra tintura do papel
o vosso sentimento que nos une.
if we be friends."
Se eu vos disser que o mar que agora encaro
me faz um bem supremo ou mal me ampara,
é vero que o seu sal, de gosto extremo,
talvez vos teça a fé que me declara
ser tão feliz que a morte a mim me esqueça
ou sofrimento é só com que deparo.
Mas neste mesmo mar, se eu ponho o vento
vagando pelas crispas das marolas,
haveis de crer que sinto ser mais brando
o que já imaginais das priscas horas;
o que antes era júbilo é só paz,
não passa de um queixume o tal lamento.
E se eu não venho a por escuro ou lume
na tela que o sentido me extravasa,
é que vos trago a forma mais singela
de respeitar o céu que vos abrasa:
deixando, pra tintura do papel
o vosso sentimento que nos une.
868
Amador Ribeiro Neto
Na Poesia de Frederico Barbosa
Ou: Nada Dessa Cica de Palavra Feito Flor
Frederico Barbosa publicou, até o momento, dois livros de poesia: Rarefato, em 1990, e Nada Feito Nada, em 1993. Uma média de um livro a cada 3 anos. Estatística essa que nos autoriza a supor que alguma coisa pode acontecer, ainda este ano, na esquina da dura poesia.
Rarefato foi publicado pela Iluminuras e Nada Feito Nada, pela Perspectiva, este integrando a prestigiosa Coleção Signos, dirigida por Haroldo de Campos.
Logo após o lançamento de Rarefato, publiquei no JORNAL DA TARDE uma resenha em que chamava a atenção dos leitores para a poesia do estreante Frederico Barbosa. Como uma das funções do crítico literário é apresentar ao leitor o talento de novos autores, a resenha terminava assim: "FB em Rarefato, não se satisfazendo com a busca empenhada pelos grandes poetas, inventa um modo particularíssimo de dizer o não-dito, o quase impossível. Com isso, corre o risco de transformar-se num dos mais importantes poetas de nossa década. Do ano, já o é, de longe". E finalizava: "É hora de o leitor verificar por si mesmo".
De fato, as matérias relativas aos melhores lançamentos do ano, feitas pelos jornais, no final do ano de 1990, destacaram o livro de Frederico Barbosa. Em 94 ele recebe o Prêmio Jabuti por Nada Feito Nada. Em 95 e 96 sua poesia aparece em livros didáticos do 2o. grau.
No entanto, não nos iludamos: sua poesia é "grão imastigável, de quebrar dente". Vale para ela estas palavras de Paul Valéry: "A literatura não tem para mim outro interesse que o exemplo ou a tentativa de dizer o que é difícil dizer". Ou estas: "Prefiro ser lido muitas vezes por um só do que uma só vez por muitos". Ou estas: "Minha ambição literária foi a escrita de precisão". Ou, finalizando: "O verdadeiro pecado é escrever para o público".
Como se deduz, a poesia de FB está anos-luz distante daquela missão catequética, de uma certa música popular, que propala que "o artista tem ir onde o povo está". Isto é: deve correr atrás do público, oferecendo-lhe seu produto a preços módicos (de linguagem). Nada disso. Tanto em Rarefato, com em Nada Feito Nada, o rigor para com a poesia começa na capa dos livros e se estende à diagramação e até à cor de suas páginas. Texto poético e projeto gráfico complementam-se admiravelmente.
O trabalho gráfico (capa, projeto e execução), dos dois livros, é de Carlos Fernando. Este exímio intérprete da música popular transfere, para a diagramação dos dois livros, toda a precisão e a beleza que impõe ao seu trabalho musical.
A capa de Rarefato exibe a reprodução em desenho da lápide do filho de Demétrios (séc IV a.C.), sob fundo compacto, margeado pelo reticulado de pontos. Na laje tumular uma personagem, misto de alguém que chora com o prenúncio do pensador de Rodin. Na dureza do mármore, a expressão de dor/pensamento da personagem da lápide, choca-se com a leveza do fundo reticulado. Os dois elementos plásticos (lápide sob fundo compacto e margem reticulada) sintetizam as linhas básicas deste livro: pensamento e sentimento, densidade e rarefação, fato e forma. Linhas estas que constituem, dialeticamente, a unidade da poesia de FB. Unidade que, por sua vez, reflete e refrata, a crise. Crise individual. Crise social. Crise da linguagem. Crise de representação. Em outras palavras, a própria modernidade. Afinal, FB é um autor antenado (a la Ezra Pound) com o nosso tempo. Faz do desafio da modernidade o ofício dos seus versos.
Daí o parentesco inevitável com poetas e pensadores do pouco, do magro, do miúdo, do minimal, do seco, do denso, do duro, do pó. Do nada. Do raro. Do fato. Do fato feito nada.
O mesmo nada que ressurgirá no título do segundo livro, ao lado do feito. Nada Feito Nada. A poesia que se faz do nada, da negação do feito fácil.
Os títulos dos dois livros apontam para o modo de fazer poesia e não para o que se dizer em poesia. A palavra rarefato, que é apenas um sinônimo, para o usual rarefeito, introduz a ambigüidade: Rarefato: fato raro ou fato rarefeito. Como nada. Ao modo de ser nada. É o nada trazendo a linguagem, em crise, feito nada. Nada Feito Nada. O poeta aceita, e faz, do poema, objeto da impossibilidade.
Impossibilidade que se corporifica na capa do segundo livro: um círculo vazando um quadrado, ou um quadrado vazando um círculo. O quadrado divide-se por 4 linhas diagonais que formam 4 ângulos retos. Em cada uma das quatro extremidades do quadrado, as linhas diagonais, associadas às do círculo, terminam formando setas, qual uma rosa-dos-ventos.
Rosa-dos-rumos poética, que aponta para nada. Sempre nada. Afinal, os pontos cardeais formam a palavra NADA.
O papel da capa, em sépia, com o desenho em tons de marrom, remete-nos à célebre representação das medidas do corpo humano, feita por da Vinci. Ali, as pernas do homem se abrem dentro dos limites do círculo e os braços, se abrem dentro dos limites do quadrado. Como estão, braços e pernas, em duas posições diferentes, sempre temos o número quatro como variante dos gestos. Quatro pernas, quatro braços. Quatro setas no desenho da capa de Nada Feito Nada. Nada: N-A-D-A: 4 letras. O mesmo princípio davinciano, com uma diferença radical: aqui a figura do homem é substituída pela língua: o título do livro repetido enésimas vezes. E o centro, um grande ZERO; quer seja, um grande nada.
A linguagem é tomada como a medida do mundo: somente ela fornece as verdadeiras referências do valor estético. O fato (o homem) se torna presente pela via da memória da linguagem. Memória histórica e cultural.
Porém, não exageremos. Não se trata do nada absoluto, pois, então, nem a poesia sobreviveria a tanto niilismo, levando a linguagem à aporia. Ou seja, às afirmações decididamente contrárias e categóricas.
Vejamos o que é este fato rarefeito, este fato raro, este nada feito nada, este cabralino "fazer o que seja é inútil".
A imagem do círculo, tal como a do mitológico uroboru, constrói e formata o primeiro livro. Ali a forma circular não é viciosa. Nem poderia ser. Para esta estirpe de poetas, à qual Frederico Barbosa pertence, não há espaço para redundâncias, adiposidades e rabeiras. A poesia pó, é rarefação, grão e nada. Nada enquanto inutensílio leminskiano.
A linguagem percorre uma via que vai de "nenhuma voz humana", "do amplo nada", "tudo que escoa em silêncio em tempo ecoa" (do poema que dá título e abre o primeiro livro), até a busca da co-autoria com o leitor, em versos tais como: "Virar a chave, / como quem lê uma página / (.....) / Como quem se envolve na personagem, / lento" ("Como quem lê"). Ou: "sua leitura minha / do seu meu poema /Meus olhos buscando / nos seus / um outro poema" ("Ao leitor")
Poesia interativa? Se o leitor for "aquele de Baudelaire", por que não?
O segundo livro inicia-se com um poema malcriadamente visual - herança concreta do Barroco. O título: "Labyrintho Difficultoso". A grafia imperial do título, com y, th e f duplicado firma, uma vez mais, o sentido da poesia para este poeta: labirinto. Labirinto, diz o Aurélio, é coisa complicada, confusa, obscura. Não se satisfazendo com esta acepção da palavra, o poeta insiste em adjetivá-la, tornando-a ainda mais borgeana: labirinto dificultoso. Último verso deste primeiro poema: "é nada é nada é nada".
O livro fecha-se com um poema intitulado "All or nothing at all". (Tudo ou nada para todos), título de uma das canções clássicas do Jazz. Mesmo na música popular, como se vê, o poeta só consome "o magro dos pratos". Últimos versos deste poema: "Nada feito nada, / no poema / não há termo meio, / meio-amor, meia-palavra.// Do sem / sentido intenso / se faz / um tudo atento./ feito a palavra / em / cantada, // nada / feito / nada".
Neste segundo livro, FB incorpora o humor, pela via da tradição sterniana: biscoito fino. Nos caminhos da História ele vasculha os jornais de Recife, publicados no Império. Agindo como um antropóf
Frederico Barbosa publicou, até o momento, dois livros de poesia: Rarefato, em 1990, e Nada Feito Nada, em 1993. Uma média de um livro a cada 3 anos. Estatística essa que nos autoriza a supor que alguma coisa pode acontecer, ainda este ano, na esquina da dura poesia.
Rarefato foi publicado pela Iluminuras e Nada Feito Nada, pela Perspectiva, este integrando a prestigiosa Coleção Signos, dirigida por Haroldo de Campos.
Logo após o lançamento de Rarefato, publiquei no JORNAL DA TARDE uma resenha em que chamava a atenção dos leitores para a poesia do estreante Frederico Barbosa. Como uma das funções do crítico literário é apresentar ao leitor o talento de novos autores, a resenha terminava assim: "FB em Rarefato, não se satisfazendo com a busca empenhada pelos grandes poetas, inventa um modo particularíssimo de dizer o não-dito, o quase impossível. Com isso, corre o risco de transformar-se num dos mais importantes poetas de nossa década. Do ano, já o é, de longe". E finalizava: "É hora de o leitor verificar por si mesmo".
De fato, as matérias relativas aos melhores lançamentos do ano, feitas pelos jornais, no final do ano de 1990, destacaram o livro de Frederico Barbosa. Em 94 ele recebe o Prêmio Jabuti por Nada Feito Nada. Em 95 e 96 sua poesia aparece em livros didáticos do 2o. grau.
No entanto, não nos iludamos: sua poesia é "grão imastigável, de quebrar dente". Vale para ela estas palavras de Paul Valéry: "A literatura não tem para mim outro interesse que o exemplo ou a tentativa de dizer o que é difícil dizer". Ou estas: "Prefiro ser lido muitas vezes por um só do que uma só vez por muitos". Ou estas: "Minha ambição literária foi a escrita de precisão". Ou, finalizando: "O verdadeiro pecado é escrever para o público".
Como se deduz, a poesia de FB está anos-luz distante daquela missão catequética, de uma certa música popular, que propala que "o artista tem ir onde o povo está". Isto é: deve correr atrás do público, oferecendo-lhe seu produto a preços módicos (de linguagem). Nada disso. Tanto em Rarefato, com em Nada Feito Nada, o rigor para com a poesia começa na capa dos livros e se estende à diagramação e até à cor de suas páginas. Texto poético e projeto gráfico complementam-se admiravelmente.
O trabalho gráfico (capa, projeto e execução), dos dois livros, é de Carlos Fernando. Este exímio intérprete da música popular transfere, para a diagramação dos dois livros, toda a precisão e a beleza que impõe ao seu trabalho musical.
A capa de Rarefato exibe a reprodução em desenho da lápide do filho de Demétrios (séc IV a.C.), sob fundo compacto, margeado pelo reticulado de pontos. Na laje tumular uma personagem, misto de alguém que chora com o prenúncio do pensador de Rodin. Na dureza do mármore, a expressão de dor/pensamento da personagem da lápide, choca-se com a leveza do fundo reticulado. Os dois elementos plásticos (lápide sob fundo compacto e margem reticulada) sintetizam as linhas básicas deste livro: pensamento e sentimento, densidade e rarefação, fato e forma. Linhas estas que constituem, dialeticamente, a unidade da poesia de FB. Unidade que, por sua vez, reflete e refrata, a crise. Crise individual. Crise social. Crise da linguagem. Crise de representação. Em outras palavras, a própria modernidade. Afinal, FB é um autor antenado (a la Ezra Pound) com o nosso tempo. Faz do desafio da modernidade o ofício dos seus versos.
Daí o parentesco inevitável com poetas e pensadores do pouco, do magro, do miúdo, do minimal, do seco, do denso, do duro, do pó. Do nada. Do raro. Do fato. Do fato feito nada.
O mesmo nada que ressurgirá no título do segundo livro, ao lado do feito. Nada Feito Nada. A poesia que se faz do nada, da negação do feito fácil.
Os títulos dos dois livros apontam para o modo de fazer poesia e não para o que se dizer em poesia. A palavra rarefato, que é apenas um sinônimo, para o usual rarefeito, introduz a ambigüidade: Rarefato: fato raro ou fato rarefeito. Como nada. Ao modo de ser nada. É o nada trazendo a linguagem, em crise, feito nada. Nada Feito Nada. O poeta aceita, e faz, do poema, objeto da impossibilidade.
Impossibilidade que se corporifica na capa do segundo livro: um círculo vazando um quadrado, ou um quadrado vazando um círculo. O quadrado divide-se por 4 linhas diagonais que formam 4 ângulos retos. Em cada uma das quatro extremidades do quadrado, as linhas diagonais, associadas às do círculo, terminam formando setas, qual uma rosa-dos-ventos.
Rosa-dos-rumos poética, que aponta para nada. Sempre nada. Afinal, os pontos cardeais formam a palavra NADA.
O papel da capa, em sépia, com o desenho em tons de marrom, remete-nos à célebre representação das medidas do corpo humano, feita por da Vinci. Ali, as pernas do homem se abrem dentro dos limites do círculo e os braços, se abrem dentro dos limites do quadrado. Como estão, braços e pernas, em duas posições diferentes, sempre temos o número quatro como variante dos gestos. Quatro pernas, quatro braços. Quatro setas no desenho da capa de Nada Feito Nada. Nada: N-A-D-A: 4 letras. O mesmo princípio davinciano, com uma diferença radical: aqui a figura do homem é substituída pela língua: o título do livro repetido enésimas vezes. E o centro, um grande ZERO; quer seja, um grande nada.
A linguagem é tomada como a medida do mundo: somente ela fornece as verdadeiras referências do valor estético. O fato (o homem) se torna presente pela via da memória da linguagem. Memória histórica e cultural.
Porém, não exageremos. Não se trata do nada absoluto, pois, então, nem a poesia sobreviveria a tanto niilismo, levando a linguagem à aporia. Ou seja, às afirmações decididamente contrárias e categóricas.
Vejamos o que é este fato rarefeito, este fato raro, este nada feito nada, este cabralino "fazer o que seja é inútil".
A imagem do círculo, tal como a do mitológico uroboru, constrói e formata o primeiro livro. Ali a forma circular não é viciosa. Nem poderia ser. Para esta estirpe de poetas, à qual Frederico Barbosa pertence, não há espaço para redundâncias, adiposidades e rabeiras. A poesia pó, é rarefação, grão e nada. Nada enquanto inutensílio leminskiano.
A linguagem percorre uma via que vai de "nenhuma voz humana", "do amplo nada", "tudo que escoa em silêncio em tempo ecoa" (do poema que dá título e abre o primeiro livro), até a busca da co-autoria com o leitor, em versos tais como: "Virar a chave, / como quem lê uma página / (.....) / Como quem se envolve na personagem, / lento" ("Como quem lê"). Ou: "sua leitura minha / do seu meu poema /Meus olhos buscando / nos seus / um outro poema" ("Ao leitor")
Poesia interativa? Se o leitor for "aquele de Baudelaire", por que não?
O segundo livro inicia-se com um poema malcriadamente visual - herança concreta do Barroco. O título: "Labyrintho Difficultoso". A grafia imperial do título, com y, th e f duplicado firma, uma vez mais, o sentido da poesia para este poeta: labirinto. Labirinto, diz o Aurélio, é coisa complicada, confusa, obscura. Não se satisfazendo com esta acepção da palavra, o poeta insiste em adjetivá-la, tornando-a ainda mais borgeana: labirinto dificultoso. Último verso deste primeiro poema: "é nada é nada é nada".
O livro fecha-se com um poema intitulado "All or nothing at all". (Tudo ou nada para todos), título de uma das canções clássicas do Jazz. Mesmo na música popular, como se vê, o poeta só consome "o magro dos pratos". Últimos versos deste poema: "Nada feito nada, / no poema / não há termo meio, / meio-amor, meia-palavra.// Do sem / sentido intenso / se faz / um tudo atento./ feito a palavra / em / cantada, // nada / feito / nada".
Neste segundo livro, FB incorpora o humor, pela via da tradição sterniana: biscoito fino. Nos caminhos da História ele vasculha os jornais de Recife, publicados no Império. Agindo como um antropóf
1 234
Juscelino Vieira Mendes
Paris
"As an artist, a man has no home in europe save in Paris"
Vi-a de relance
de soslaio, como um triz
Visão de um romance,
em sonho, era Paris
Aprazível é ver exposição no Petit Palais
É caminhar por montparnasse
Sentir Les Fleurs Du Mal, Baudelaire
Bom seria se não passasse!
Como definir? Se quimeras
Se real
Se teus bulevares, deveras
te engalanam de modo abissal?
És o próprio sonho, Paris
cuja fragrância lembra a do anis.
Vi-a de relance
de soslaio, como um triz
Visão de um romance,
em sonho, era Paris
Aprazível é ver exposição no Petit Palais
É caminhar por montparnasse
Sentir Les Fleurs Du Mal, Baudelaire
Bom seria se não passasse!
Como definir? Se quimeras
Se real
Se teus bulevares, deveras
te engalanam de modo abissal?
És o próprio sonho, Paris
cuja fragrância lembra a do anis.
1 088
Amador Ribeiro Neto
Poesia de Nêumanne é seca e exuberante
O jornalista e poeta reúne em livro seus melhores poemas e traduções de poesia
O jornalista e poeta José Nêumanne, paraibano de Uiraúna, acaba de publicar Solos do Silêncio - Poesia Reunida, uma antologia - em que pese o subtítulo - organizada pelo próprio poeta, com seus melhores poemas. Uma obra repleta de dedicatórias e de referências, evidenciando, de imediato, as ligações biobibliográficas do autor. Direto do sertão para o mundo, numa fala de muitas línguas. Ao final do volume, uma antologia bilíngüe, selecionada e traduzida pelo poeta. Yeats, Rimbaud, René Char, Joan Brossa, Octavio Paz. E até Bob Dylan. Aliás, o poeta publica poemas que ele mesmo chama de "letras", uma clara alusão à música popular. Um poeta em busca de parcerias musicais? Por que não?
Entre as referências de sua poesia, aquelas feitas à Paraíba, em particular, são muito importantes. O Estado possui uma respeitável produção artística, infelizmente, quase sempre, à margem da produção cultural do País. Convém lembrar que são nomes de destaque na Paraíba de hoje, por exemplo, Ariano Suassuna (teatro e literatura), Ascendino Leite (literatura), Antônio Dias (artes plásticas), Bráulio Tavares (literatura e música popular), Elba Ramalho, Zé Ramalho, Herbert Vianna, Vital Farias (música popular), entre outros. Além da unanimidade de crítica e público, o compositor e intérprete "revelação" Chico César.
A poesia de Nêumanne nasce do sertão e se desenvolve na cidade. Traz as marcas da vida do poeta, mescladas nas memórias da infância e nas vivências jornalísticas da cidade grande.
Vivências que vão do silêncio fumegante do sertão ao farfalhar sereno das árvores das serras e da beira-mar. Das páginas nervosas do jornalismo ao mundo mágico dos deuses da mitologia clássica.
Das incursões líricas de um eu amoroso às denúncias sociais de um eu engajado.
Assim se apresenta a poesia de Nêumanne: seca e exuberante. Sempre acompanhando os movimentos da natureza nordestina e das cidades mundo afora. Na Espanha de Gaudí o poeta ouve as vozes da Serra da Borborema e vê desdobrarem-se os passos ritmados dos seus dançarinos, mundialmente conhecidos.
Os nomes mais expressivos da arte paraibana são lembrados pelo poeta com muita propriedade. Destaco dois, a título de ilustração: o do renomado poeta Sérgio de Castro Pinto, autor de O Cerco da Memória, comemorando 25 anos de poesia, e o de Carlos Aranha, ativista cultural que integrou as fileiras do Tropicalismo e hoje é uma das inteligências mais inquietas do jornalismo da Paraíba.
A poesia de Nêumanne é assim: de um lado a dicção coloquial dos repentistas, generosa e fluente. De outro, os versos econômicos, quase monossilábicos, à semelhança dos cacos de fala do personagem Fabiano, de Vidas Secas.
Para José Paulo Paes, os poemas de José Nêumanne, na sua grande maioria, são verbais, mas "nunca são verbosos". Por isso mesmo prefere os marcados por "certa concisão epigramática".
De fato, a veia incisiva do jornalista pulsa também no poeta. Versos-cactos irrompem em chicotadas rápidas e secas. Poemas explodem na cara do leitor. O tiro certeiro ganha o alvo. Um exemplo encontramos no poema In Love, que é quase um Catulo revisitado com a irreverência oswaldiana: "- Juro amar-te./- Tesconjuro!".
Ivan Junqueira não tem dúvidas. Diz: "O que li é bom. É bom sobretudo porque me presta uma informação essencial: Nêumanne é poeta."
O título do livro pede mais de uma leitura. Solos, referindo-se ao chão, à terra. Solos, referindo-se ao ato de solar em música: uma só voz ou um só instrumento. Sempre, como denominador comum, o silêncio. No chão, na música. Na terra esturricada, áspera. Na delicadeza e no virtuosismo de um destaque musical. Um chão. Uma música. O grotesco e o sublime. Ou vice-versa.
Amador Ribeiro Neto é mestre em Teoria Literária pela USP, doutorando em Semiótica na PUC-SP e professor do Departamento de Letras da UFPB
(in Caderno 2, O Estado de São Paulo, 10.10.96)
Leia obra poética de Frederico Barbosa
O jornalista e poeta José Nêumanne, paraibano de Uiraúna, acaba de publicar Solos do Silêncio - Poesia Reunida, uma antologia - em que pese o subtítulo - organizada pelo próprio poeta, com seus melhores poemas. Uma obra repleta de dedicatórias e de referências, evidenciando, de imediato, as ligações biobibliográficas do autor. Direto do sertão para o mundo, numa fala de muitas línguas. Ao final do volume, uma antologia bilíngüe, selecionada e traduzida pelo poeta. Yeats, Rimbaud, René Char, Joan Brossa, Octavio Paz. E até Bob Dylan. Aliás, o poeta publica poemas que ele mesmo chama de "letras", uma clara alusão à música popular. Um poeta em busca de parcerias musicais? Por que não?
Entre as referências de sua poesia, aquelas feitas à Paraíba, em particular, são muito importantes. O Estado possui uma respeitável produção artística, infelizmente, quase sempre, à margem da produção cultural do País. Convém lembrar que são nomes de destaque na Paraíba de hoje, por exemplo, Ariano Suassuna (teatro e literatura), Ascendino Leite (literatura), Antônio Dias (artes plásticas), Bráulio Tavares (literatura e música popular), Elba Ramalho, Zé Ramalho, Herbert Vianna, Vital Farias (música popular), entre outros. Além da unanimidade de crítica e público, o compositor e intérprete "revelação" Chico César.
A poesia de Nêumanne nasce do sertão e se desenvolve na cidade. Traz as marcas da vida do poeta, mescladas nas memórias da infância e nas vivências jornalísticas da cidade grande.
Vivências que vão do silêncio fumegante do sertão ao farfalhar sereno das árvores das serras e da beira-mar. Das páginas nervosas do jornalismo ao mundo mágico dos deuses da mitologia clássica.
Das incursões líricas de um eu amoroso às denúncias sociais de um eu engajado.
Assim se apresenta a poesia de Nêumanne: seca e exuberante. Sempre acompanhando os movimentos da natureza nordestina e das cidades mundo afora. Na Espanha de Gaudí o poeta ouve as vozes da Serra da Borborema e vê desdobrarem-se os passos ritmados dos seus dançarinos, mundialmente conhecidos.
Os nomes mais expressivos da arte paraibana são lembrados pelo poeta com muita propriedade. Destaco dois, a título de ilustração: o do renomado poeta Sérgio de Castro Pinto, autor de O Cerco da Memória, comemorando 25 anos de poesia, e o de Carlos Aranha, ativista cultural que integrou as fileiras do Tropicalismo e hoje é uma das inteligências mais inquietas do jornalismo da Paraíba.
A poesia de Nêumanne é assim: de um lado a dicção coloquial dos repentistas, generosa e fluente. De outro, os versos econômicos, quase monossilábicos, à semelhança dos cacos de fala do personagem Fabiano, de Vidas Secas.
Para José Paulo Paes, os poemas de José Nêumanne, na sua grande maioria, são verbais, mas "nunca são verbosos". Por isso mesmo prefere os marcados por "certa concisão epigramática".
De fato, a veia incisiva do jornalista pulsa também no poeta. Versos-cactos irrompem em chicotadas rápidas e secas. Poemas explodem na cara do leitor. O tiro certeiro ganha o alvo. Um exemplo encontramos no poema In Love, que é quase um Catulo revisitado com a irreverência oswaldiana: "- Juro amar-te./- Tesconjuro!".
Ivan Junqueira não tem dúvidas. Diz: "O que li é bom. É bom sobretudo porque me presta uma informação essencial: Nêumanne é poeta."
O título do livro pede mais de uma leitura. Solos, referindo-se ao chão, à terra. Solos, referindo-se ao ato de solar em música: uma só voz ou um só instrumento. Sempre, como denominador comum, o silêncio. No chão, na música. Na terra esturricada, áspera. Na delicadeza e no virtuosismo de um destaque musical. Um chão. Uma música. O grotesco e o sublime. Ou vice-versa.
Amador Ribeiro Neto é mestre em Teoria Literária pela USP, doutorando em Semiótica na PUC-SP e professor do Departamento de Letras da UFPB
(in Caderno 2, O Estado de São Paulo, 10.10.96)
Leia obra poética de Frederico Barbosa
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Amador Ribeiro Neto
A Poesia de Mário de Andrade: Pé Dentro, Pé Fora
A poesia de Mário de Andrade é importante mas muito desigual. Importante na multiplicidade técnica e na variedade temática, espelhando nosso país histórica, estética e socialmente. Desigual porque a qualidade estética de seus livros oscila de um poema para o outro, ao longo de toda a sua produção poética.
Comumente marcado por um subjetivismo que várias vezes escorrega para o mero romântico, Mário de Andrade deixa passar-lhe pelos vãos dos dedos a contundência que caracteriza a grande poesia. À exceção de alguns poemas, ou parte de outros, não conseguiu manter o vigor poético de um Cabral, de um Augusto de Campos, ou mesmo de um certo Drummond. Sem dúvida ficou aquém destes. Mas é dono de uma obra tão variada e instigante que ainda hoje é uma pedra no sapato/no caminho dos estudiosos de literatura.
Sua narrativa, p. ex., contém obras primas da nossa literatura como Macunaíma (1928) e Contos Novos (1946). Isso, sem falar de profundos mergulhos no campo da cultura popular, legando-nos obras indispensáveis nas áreas de música, dança, etc. E aí não cabe compará-lo a Cabral, Augusto ou Drummond. Nenhum dos três produziu, p. ex., uma obra tão ricamente diversificada quanto ele.
Por isso, ouvintes, perdão, leitores, por isso leitores, apaguemos a comparação. Todo eu estou comparativo. Ainda há pouco, falando do caráter desigual de sua poesia, cheguei a escrever: chinfrim. Risquei chinfrim. Risquemos a comparação. Digamos somente um poeta desigual. E vamos à poesia de Mário. Sem comparações, abramos nova página. (Nova, não! A primeira. Afinal, estamos iniciando). Vamos lá.
Comumente marcado por um subjetivismo que várias vezes escorrega para o mero romântico, Mário de Andrade deixa passar-lhe pelos vãos dos dedos a contundência que caracteriza a grande poesia. À exceção de alguns poemas, ou parte de outros, não conseguiu manter o vigor poético de um Cabral, de um Augusto de Campos, ou mesmo de um certo Drummond. Sem dúvida ficou aquém destes. Mas é dono de uma obra tão variada e instigante que ainda hoje é uma pedra no sapato/no caminho dos estudiosos de literatura.
Sua narrativa, p. ex., contém obras primas da nossa literatura como Macunaíma (1928) e Contos Novos (1946). Isso, sem falar de profundos mergulhos no campo da cultura popular, legando-nos obras indispensáveis nas áreas de música, dança, etc. E aí não cabe compará-lo a Cabral, Augusto ou Drummond. Nenhum dos três produziu, p. ex., uma obra tão ricamente diversificada quanto ele.
Por isso, ouvintes, perdão, leitores, por isso leitores, apaguemos a comparação. Todo eu estou comparativo. Ainda há pouco, falando do caráter desigual de sua poesia, cheguei a escrever: chinfrim. Risquei chinfrim. Risquemos a comparação. Digamos somente um poeta desigual. E vamos à poesia de Mário. Sem comparações, abramos nova página. (Nova, não! A primeira. Afinal, estamos iniciando). Vamos lá.
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Jaumir Valença da Silveira
Faraó
Escavo ideológico deserto
o chão de escorpião, brilho e serpente.
Pegada o vento leva a areia enterra;
um rei sufoca à tumba de meus dentes.
Palavra que te dou minha palavra
e lavro o sal que levo no meu colo.
Mortalha de lençóis me escondem a cara
e já não mais me ocorre haver outonos.
Ressuscitar no sono dos reversos?
Ofusquem-se amuletos nos olvidos
dos sacrifícios da Kabbalah morta
e do meu sangue o bálsamo retiro.
Um universo escapa-me aos sentidos
e todo um mar revolto em mim revolve
a porta, a chave, a clava e não a clave,
solstícios que aprisionam diamantes.
Dormentes que meus músculos palpitam
no verso dos papiros amarelos.
Estranha a lividez que esconde estrelas
e evola-se nos ecos de meus gritos.
Ó noite que te sei hoje acidente,
acúmulo de enganos perpetuados!
Tivesse achado um poço em vez de um templo,
a sede não teria me levado.
Houvesse inda o elixir que a morte cura,
sucumbiria ao medo da amargura.
o chão de escorpião, brilho e serpente.
Pegada o vento leva a areia enterra;
um rei sufoca à tumba de meus dentes.
Palavra que te dou minha palavra
e lavro o sal que levo no meu colo.
Mortalha de lençóis me escondem a cara
e já não mais me ocorre haver outonos.
Ressuscitar no sono dos reversos?
Ofusquem-se amuletos nos olvidos
dos sacrifícios da Kabbalah morta
e do meu sangue o bálsamo retiro.
Um universo escapa-me aos sentidos
e todo um mar revolto em mim revolve
a porta, a chave, a clava e não a clave,
solstícios que aprisionam diamantes.
Dormentes que meus músculos palpitam
no verso dos papiros amarelos.
Estranha a lividez que esconde estrelas
e evola-se nos ecos de meus gritos.
Ó noite que te sei hoje acidente,
acúmulo de enganos perpetuados!
Tivesse achado um poço em vez de um templo,
a sede não teria me levado.
Houvesse inda o elixir que a morte cura,
sucumbiria ao medo da amargura.
992
Albano Dias Martins
Folheamos
agora dicionários
cada vez mais breves.
De noite,
os teus cabelos emigram
como espigas de incenso. Há gerânios
pisados entre os dedos, dálias
virgens sufocadas
na epiderme.
As palavras
só conhecem o limbo, a rigorosa
película da sede.
in:Uma colina
para os lábios(1993)
cada vez mais breves.
De noite,
os teus cabelos emigram
como espigas de incenso. Há gerânios
pisados entre os dedos, dálias
virgens sufocadas
na epiderme.
As palavras
só conhecem o limbo, a rigorosa
película da sede.
in:Uma colina
para os lábios(1993)
1 160
Carlos de Oliveira
Estalactite
IV
Localizar
na frágil espessura
do tempo,
que a linguagem
pôs
em vibração
o ponto morto
onde a velocidade
se fractura
e aí
determinar
com exactidão
o foco
do silêncio.
VI
Algures
o poema sonha
o arquétipo
do voo
inutilmente
porque repete
apenas
o signo, o desenho
do Outono
aéreo
onde se perde a asa
quando vier
o instante
de voar
VIII
Caem
do céu calcário,
acordam flores
milénios depois,
rolam de verso
em verso
fechadas
como gotas,
e ouve-se
ao fim da página
um murmúrio
orvalhado.
de Micropaisagem
Localizar
na frágil espessura
do tempo,
que a linguagem
pôs
em vibração
o ponto morto
onde a velocidade
se fractura
e aí
determinar
com exactidão
o foco
do silêncio.
VI
Algures
o poema sonha
o arquétipo
do voo
inutilmente
porque repete
apenas
o signo, o desenho
do Outono
aéreo
onde se perde a asa
quando vier
o instante
de voar
VIII
Caem
do céu calcário,
acordam flores
milénios depois,
rolam de verso
em verso
fechadas
como gotas,
e ouve-se
ao fim da página
um murmúrio
orvalhado.
de Micropaisagem
2 757
António Maria Lisboa
Conjugação
A construção dos poemas é uma vela aberta ao meio e coberta de bolor
é a suspensão momentânea dum arrepio num dente fino
Como Uma Agulha
A construção dos poemas
A CONS
TRU
ÇÃO DOS
POEMAS
é como matar muitas pulgas com unhas de oiro azul
é como amar formigas brancas obsessivamente junto ao peito
olhar uma paisagem em frente e ver um abismo
ver o abismo e sentir uma pedrada nas costas
sentir a pedrada e imaginar-se sem pensar de repente
NUM TÚMULO EXAUSTIVO.
é a suspensão momentânea dum arrepio num dente fino
Como Uma Agulha
A construção dos poemas
A CONS
TRU
ÇÃO DOS
POEMAS
é como matar muitas pulgas com unhas de oiro azul
é como amar formigas brancas obsessivamente junto ao peito
olhar uma paisagem em frente e ver um abismo
ver o abismo e sentir uma pedrada nas costas
sentir a pedrada e imaginar-se sem pensar de repente
NUM TÚMULO EXAUSTIVO.
1 994
Carlos de Oliveira
Edgar Allan Poe
O inverno em Boston foi breve.Ele bebia.Sílabas
abriam-se uma a uma pelos cantos do quarto.Gotas
de álcool.Quem se lembra da chuva caída no seu
nome?
Folheou toda a noite os livros ancestrais e encon-
trou qualquer coisa,ninguém sabe o quê,talvez o
retrato de Annabel Lee.Esboçou-o na vidraça car-
regada de sombra e o quarto amanheceu.
"Mais isso pouco vale(diz a magia negra),o filtro
apenas decompôs mais cedo o horror em luz,não
alterou a solidão dos dias,que a noite separa uns
dos outros para sempre".
de Sobre o Lado Esquerdo
abriam-se uma a uma pelos cantos do quarto.Gotas
de álcool.Quem se lembra da chuva caída no seu
nome?
Folheou toda a noite os livros ancestrais e encon-
trou qualquer coisa,ninguém sabe o quê,talvez o
retrato de Annabel Lee.Esboçou-o na vidraça car-
regada de sombra e o quarto amanheceu.
"Mais isso pouco vale(diz a magia negra),o filtro
apenas decompôs mais cedo o horror em luz,não
alterou a solidão dos dias,que a noite separa uns
dos outros para sempre".
de Sobre o Lado Esquerdo
1 633
Albano Dias Martins
Quatro
Perguntas,seguidas de um epílogo ao escultor José Rodrigues
1. Tens na
ponta do lápis uma chave
para abrir o poema.
Por onde é que ela o abre?
2. Se um besouro de asas
translúcidas entrasse
agora no poema
– tu deixavas?
3. Sabes
como se esculpe um poema
fechado a sete chaves?
4. E se uma pomba
roçasse o ângulo
raso do poema
– prendê-la-ias?
Tu que esculpes
com mãos de água o corpo
e a sombra dos dias.
in:Entre
a Cicuta e o Mosto(1992)
1. Tens na
ponta do lápis uma chave
para abrir o poema.
Por onde é que ela o abre?
2. Se um besouro de asas
translúcidas entrasse
agora no poema
– tu deixavas?
3. Sabes
como se esculpe um poema
fechado a sete chaves?
4. E se uma pomba
roçasse o ângulo
raso do poema
– prendê-la-ias?
Tu que esculpes
com mãos de água o corpo
e a sombra dos dias.
in:Entre
a Cicuta e o Mosto(1992)
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Albano Dias Martins
Alegoria
Segunda
De poetas
e filósofos tu sabes,
sabes também por ti. Por isso eu digo :
esta pedra é vermelha, esta pedra é sangue.
Toca-lhe : saberás
como em segredo florescem as acácias
ao redor dos muros, como fluem
suas concêntricas artérias. Acaricia-as : tocas
a parte mais sensível de ti mesmo.
Dizias ontem
que o verão ardia
nesta pedra. Nela
queimavas tuas mãos. Onde
as aqueces hoje? Eu digo :
o verão não morreu, esta pedra é o verão.
E tudo permanece.
E tudo é teu.
Tu és o sangue, o verão e a pedra.
in:Paralelo
Ao Vento(1979)
De poetas
e filósofos tu sabes,
sabes também por ti. Por isso eu digo :
esta pedra é vermelha, esta pedra é sangue.
Toca-lhe : saberás
como em segredo florescem as acácias
ao redor dos muros, como fluem
suas concêntricas artérias. Acaricia-as : tocas
a parte mais sensível de ti mesmo.
Dizias ontem
que o verão ardia
nesta pedra. Nela
queimavas tuas mãos. Onde
as aqueces hoje? Eu digo :
o verão não morreu, esta pedra é o verão.
E tudo permanece.
E tudo é teu.
Tu és o sangue, o verão e a pedra.
in:Paralelo
Ao Vento(1979)
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