Poemas neste tema
Literatura e Palavras
Manuel de Freitas
CODA
[...]
Hoje
parece mais triste, talvez por no seu íntimo
saber já que vai escrever um poema
sobre mim, mera ajudante de leitura
dos códigos fatais em que cada um se expõe.
Mas para que tantas palavras? Bastava
-lhe
ter dito que me chamo Isilda
e que a vida que tenho não presta. A dele,
suponho, não será muito mais feliz
Hoje
parece mais triste, talvez por no seu íntimo
saber já que vai escrever um poema
sobre mim, mera ajudante de leitura
dos códigos fatais em que cada um se expõe.
Mas para que tantas palavras? Bastava
-lhe
ter dito que me chamo Isilda
e que a vida que tenho não presta. A dele,
suponho, não será muito mais feliz
1 109
Ademir Assunção
ARMADURA EM CARNE MOLE
deus me salve da idade madura,
e me sirva o que passa, a brisa
que perdura, gesto escrito com
brasa, pintura além da moldura,
deus me salve, não me serve, o
amarelo que logo apodrece, a boca
coberta de musgo, não é isso
que almejo, os cravos de Cristo, o fraco
pulso do amortecido, persigo
o que persiste, no ontem,
no quando, no não-sei-onde, um
texto-percevejo, traça que rói
a couraça, torre de onde avisto
e percebo, o não-visto que sempre
provo, quanto menos prosa
trovo, a língua que travo
trinca, recolho vida em verso, e
transmuto treva em rosa
e me sirva o que passa, a brisa
que perdura, gesto escrito com
brasa, pintura além da moldura,
deus me salve, não me serve, o
amarelo que logo apodrece, a boca
coberta de musgo, não é isso
que almejo, os cravos de Cristo, o fraco
pulso do amortecido, persigo
o que persiste, no ontem,
no quando, no não-sei-onde, um
texto-percevejo, traça que rói
a couraça, torre de onde avisto
e percebo, o não-visto que sempre
provo, quanto menos prosa
trovo, a língua que travo
trinca, recolho vida em verso, e
transmuto treva em rosa
1 126
Vítor Silva Tavares
Como se alguém teimosamente mudo
Como se alguém teimosamente mudo
ante o esplendor que não se vê de dia
tivesse ignorado os livros de estudo
e saído porta fora da aula de poesia
Como se alguém falhasse a pontaria
frente às imagens raiadas de sonhos
e só tivesse olhos para aquela alegria
que mora dentro de espelhos medonhos
Como se alguém arrancasse a cabeça
e a escondesse no bolso das calças
de forma a que a luz esquecesse depressa
ter entrado sempre por janelas falsas
Como se alguém sem o saber dissesse
adeus muito antes da hora da verdade
e ficasse à esquina de tudo o que acontece
e a peste estourasse na cidade
ante o esplendor que não se vê de dia
tivesse ignorado os livros de estudo
e saído porta fora da aula de poesia
Como se alguém falhasse a pontaria
frente às imagens raiadas de sonhos
e só tivesse olhos para aquela alegria
que mora dentro de espelhos medonhos
Como se alguém arrancasse a cabeça
e a escondesse no bolso das calças
de forma a que a luz esquecesse depressa
ter entrado sempre por janelas falsas
Como se alguém sem o saber dissesse
adeus muito antes da hora da verdade
e ficasse à esquina de tudo o que acontece
e a peste estourasse na cidade
659
Manuel de Freitas
URINOL
As melhores horas da nossa vida,
as mais contentes, passámo-las
num urinol qualquer, vendo correr o mijo
capaz e fluente numa certeza de louça
branca, amarela ou cinzenta.
Instantes de pouca opressão,
cumprindo embora um estúpido dever,
desses do corpo, sob o silêncio infecto de Deus
- que talvez fosse aquele puxador
de autoclismo que um dia me ficou na mão,
numa taberna discreta ao Poço dos Negros.
Guardei-o ainda alguns meses, mas de Deus
como de um autoclismo, de tudo
acabamos por nos cansar. Até de poemas.
São ruas velhas assim, onde paira
a suposição grosseira de um urinol
divino e sombrio, que nos fazem aceitar
esta voraz forma de extermínio. O nosso,
incandescente, num apogeu de melancólicas
retretes onde os insetos e bactérias do acaso
nos distraem o olhar
embaciado pelo abuso da lixívia.
Uma lucidez pegajosa, toldando a idade
das mãos invariavelmente senis.
Como se bastassem, ou fossem mesmo
excessivas, certas baixas certezas de cão,
desastres menores. Sabendo-se de fonte
segura que o mijo pode ser um poema.
Um poema cansado do que antes foi vinho,
a suicidar-se agora - contente e tão triste -
no vazio evidente de uma louça
branca, amarela, sagrada.
Pequenas alegrias e no entanto as maiores,
essas mesmas que bastarão,
que terão de bastar,
no dia
em que formos
morrer.
as mais contentes, passámo-las
num urinol qualquer, vendo correr o mijo
capaz e fluente numa certeza de louça
branca, amarela ou cinzenta.
Instantes de pouca opressão,
cumprindo embora um estúpido dever,
desses do corpo, sob o silêncio infecto de Deus
- que talvez fosse aquele puxador
de autoclismo que um dia me ficou na mão,
numa taberna discreta ao Poço dos Negros.
Guardei-o ainda alguns meses, mas de Deus
como de um autoclismo, de tudo
acabamos por nos cansar. Até de poemas.
São ruas velhas assim, onde paira
a suposição grosseira de um urinol
divino e sombrio, que nos fazem aceitar
esta voraz forma de extermínio. O nosso,
incandescente, num apogeu de melancólicas
retretes onde os insetos e bactérias do acaso
nos distraem o olhar
embaciado pelo abuso da lixívia.
Uma lucidez pegajosa, toldando a idade
das mãos invariavelmente senis.
Como se bastassem, ou fossem mesmo
excessivas, certas baixas certezas de cão,
desastres menores. Sabendo-se de fonte
segura que o mijo pode ser um poema.
Um poema cansado do que antes foi vinho,
a suicidar-se agora - contente e tão triste -
no vazio evidente de uma louça
branca, amarela, sagrada.
Pequenas alegrias e no entanto as maiores,
essas mesmas que bastarão,
que terão de bastar,
no dia
em que formos
morrer.
1 198
Manuel de Freitas
SINIETÉ
Não vale a pena empurrar o discurso
até aos nulos e fulgurantes
limites da linguagem. Não vale a pena
nomear o vazio com palavras mais estéreis ainda.
Que pereça sozinho este mundo onde
por descuido regressamos a um corpo
e lhe ensinamos a ruína, os vários rostos da morte.
Por corpo diz-se talvez
uma matéria que não nos pertence,
embora possessa a morramos.
Um nome não vale a pena.
Tudo existe, mas nada é real,
nem sequer o vazio, Digamos adeus
à alma que se nos nega
como uma salsicha sem lata,
deixando o poema esquecido
a um canto de si, esquecido e atroz.
De nosso só temos a morte,
o que não vale a penas sabermos
até aos nulos e fulgurantes
limites da linguagem. Não vale a pena
nomear o vazio com palavras mais estéreis ainda.
Que pereça sozinho este mundo onde
por descuido regressamos a um corpo
e lhe ensinamos a ruína, os vários rostos da morte.
Por corpo diz-se talvez
uma matéria que não nos pertence,
embora possessa a morramos.
Um nome não vale a pena.
Tudo existe, mas nada é real,
nem sequer o vazio, Digamos adeus
à alma que se nos nega
como uma salsicha sem lata,
deixando o poema esquecido
a um canto de si, esquecido e atroz.
De nosso só temos a morte,
o que não vale a penas sabermos
1 195
Eucanaã Ferraz
SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN
Foi Gastão Cruz quem. em Lisboa, me levou
a ela. a velha senhora, a senhora bela;
era um dia diadema, de azul líquido e sim
simultaneamente matemático;
nenhum de nós morreria naquele outono
de arames claros: a hora como que se curvava
quando Sophia falava, e então
todas as palavras eram números mágicos.
a ela. a velha senhora, a senhora bela;
era um dia diadema, de azul líquido e sim
simultaneamente matemático;
nenhum de nós morreria naquele outono
de arames claros: a hora como que se curvava
quando Sophia falava, e então
todas as palavras eram números mágicos.
664
Joaquim Manuel Magalhães
Cru e de bergamota
Cru e de bergamota.
Semblante, engulho,
a calça, ui a calça, tenro tom
de alça toupeira,
cobiça.
Engoles, encanto,
o objecto humilhado.
Conquanto no anelar
correta aliança te finja.
Âmbito árido.
O novelo da demanda
uma trave,
cimitarra turba do olvido.
A ribalta um sigilo,
decrépito revés e desacato.
E se interpretou no aqui
um exercício de sintaxe,
uma retórica minada de prosódia,
independente de biografia,
por favor não atrapalhe.
Uma cápsula de arrependimento,
um bourbon e triplo.
Semblante, engulho,
a calça, ui a calça, tenro tom
de alça toupeira,
cobiça.
Engoles, encanto,
o objecto humilhado.
Conquanto no anelar
correta aliança te finja.
Âmbito árido.
O novelo da demanda
uma trave,
cimitarra turba do olvido.
A ribalta um sigilo,
decrépito revés e desacato.
E se interpretou no aqui
um exercício de sintaxe,
uma retórica minada de prosódia,
independente de biografia,
por favor não atrapalhe.
Uma cápsula de arrependimento,
um bourbon e triplo.
1 139
Ademir Assunção
JACK KEROUAC NA PRAIA BRAVA
sonhei com jack kerouac
sentado na varanda da casa
de waldemar cordeiro. eu acabara
de acordar e dei de cara
com aquele vulto imerso
na neblina. bem acima da copa
das árvores a lua cheia ardia
entre nuvens espessas, com sua
cara de gângster. eu disse: “ei, man,
onde é que vamos parar?” jack
deu uma longa tragada
no cigarro, fumaça branca na névoa
branca, e me estendeu
o copo de uísque.
continuou encarando a lua, pálido
como um fantasma. disse
que estava a bordo de um navio
mercante da marinha americana na costa
da indonésia até a semana passada.
perguntou se ainda havia hippies
nas ruas, feministas queimando sutiãs
em praça pública e negros
enforcados nos galhos de grossos carvalhos
no novo méxico. “oh, não, jack, isso
faz tanto tempo. agora eles mandam os jovens
negros pobres para a guerra no iraque.”
descemos até a mercearia da praia brava
atrás de umas latinhas de cerveja
e de uma garrafa de conhaque. no caminho
contei-lhe que leminski e itamar assumpção
estiveram nesta mesma casa no carnaval
de 1988. “oh, yeah”, disse jack. “os grandes
poetas são como as marés: engolem os
barcos dos imprudentes e lançam os destroços
na praia”. quando voltamos da mercearia,
minha filha de 16 anos lia jorge luis borges
e meu filho de 13 lia david goodis. nina
simone cantava just call me angel of the morning.
jack abriu uma lata de cerveja, bebeu
um longo gole olhando as folhas da mata
e disse a eles: “não deixem que os idiotas
calem sua voz. aquela voz que vem lá do fundo
de vocês mesmos. contem comigo
pro que der e vier”. minha filha
sussurrou no meu ouvido: “quem é esse
cara?” “jack kerouac”, eu respondi. “uau”,
ela balbuciou. meu filho levantou os olhos
do livro e gritou: “eddie acabou de acertar um
cruzado de direita na cara do leão de chácara”.
eu olhei para jack e em silêncio
fizemos um trato: “deixe-os viver. ainda é cedo
para contar-lhes sobre as mentiras do mundo”.
jack jogou pra dentro um bom gole
de conhaque e assentiu com a cabeça. a noite
estava fria. a lua continuava socando as nuvens
com sua cara de gângster mal-humorado.
sentado na varanda da casa
de waldemar cordeiro. eu acabara
de acordar e dei de cara
com aquele vulto imerso
na neblina. bem acima da copa
das árvores a lua cheia ardia
entre nuvens espessas, com sua
cara de gângster. eu disse: “ei, man,
onde é que vamos parar?” jack
deu uma longa tragada
no cigarro, fumaça branca na névoa
branca, e me estendeu
o copo de uísque.
continuou encarando a lua, pálido
como um fantasma. disse
que estava a bordo de um navio
mercante da marinha americana na costa
da indonésia até a semana passada.
perguntou se ainda havia hippies
nas ruas, feministas queimando sutiãs
em praça pública e negros
enforcados nos galhos de grossos carvalhos
no novo méxico. “oh, não, jack, isso
faz tanto tempo. agora eles mandam os jovens
negros pobres para a guerra no iraque.”
descemos até a mercearia da praia brava
atrás de umas latinhas de cerveja
e de uma garrafa de conhaque. no caminho
contei-lhe que leminski e itamar assumpção
estiveram nesta mesma casa no carnaval
de 1988. “oh, yeah”, disse jack. “os grandes
poetas são como as marés: engolem os
barcos dos imprudentes e lançam os destroços
na praia”. quando voltamos da mercearia,
minha filha de 16 anos lia jorge luis borges
e meu filho de 13 lia david goodis. nina
simone cantava just call me angel of the morning.
jack abriu uma lata de cerveja, bebeu
um longo gole olhando as folhas da mata
e disse a eles: “não deixem que os idiotas
calem sua voz. aquela voz que vem lá do fundo
de vocês mesmos. contem comigo
pro que der e vier”. minha filha
sussurrou no meu ouvido: “quem é esse
cara?” “jack kerouac”, eu respondi. “uau”,
ela balbuciou. meu filho levantou os olhos
do livro e gritou: “eddie acabou de acertar um
cruzado de direita na cara do leão de chácara”.
eu olhei para jack e em silêncio
fizemos um trato: “deixe-os viver. ainda é cedo
para contar-lhes sobre as mentiras do mundo”.
jack jogou pra dentro um bom gole
de conhaque e assentiu com a cabeça. a noite
estava fria. a lua continuava socando as nuvens
com sua cara de gângster mal-humorado.
1 006
Manuel de Freitas
QUANDO SÓS À BOLEIA DO CREPÚSCULO
Não mais a literatura, os seus
fúteis e imperiosos desígnios
- julgamos dizer, insistindo
numa ourivesaria do terror
e em gestos que sabem o quanto
chegam tarde. Quando sós,
à boleia do crepúsculo, dizemos
coisas assim, mentimos com
os dentes todos que não temos.
E a mentira (a literatura)
é ainda a improvável derrota
de que não nos salvaremos
nunca. Tão igual à vida, portanto:
pouso o copo, recupero o fôlego,
fumo uma silepse. Sei que vou morrer.
E isso que - talvez- nos diz
é uma evidência que escurece
(tivemos por amigo o desconforto).
Quanto ao mais, vamos andando.
Casados ou sozinhos. Mortos
fúteis e imperiosos desígnios
- julgamos dizer, insistindo
numa ourivesaria do terror
e em gestos que sabem o quanto
chegam tarde. Quando sós,
à boleia do crepúsculo, dizemos
coisas assim, mentimos com
os dentes todos que não temos.
E a mentira (a literatura)
é ainda a improvável derrota
de que não nos salvaremos
nunca. Tão igual à vida, portanto:
pouso o copo, recupero o fôlego,
fumo uma silepse. Sei que vou morrer.
E isso que - talvez- nos diz
é uma evidência que escurece
(tivemos por amigo o desconforto).
Quanto ao mais, vamos andando.
Casados ou sozinhos. Mortos
935
Manuel de Freitas
5 010509 001229
É o que se chama um “higiênico”: latas,
comida feita e embalada, whisky,
cerveja ou vinho (quando não três).
Deve beber-lhe bem e mudar pelo menos
duas vezes por semana a areia do gato.
é tímido, inseguro e– por isso mesmo–
extremamente rápido a arrumar as compras.
Vai pagar outra vez com o cartão. Hoje
parece mais triste, talvez por no seu íntimo
saber já que vai escrever um poema
sobre mim, mera ajudante da leitura
dos códigos fatais em que cada um se expõe.
Mas para que tantas palavras? Bastava-lhe
ter dito que me chamo Isilda
e que a vida que tenho não presta. A dele,
suponho, não será muito mais feliz.
escusava era de maçar a gente
com o que sofre ou deixa de sofrer.
A minha sabedoria é muda, desumana:
um dia enlouqueço ou fico para sempre presa
a um pesadelo sentado, com barras transparentes.
comida feita e embalada, whisky,
cerveja ou vinho (quando não três).
Deve beber-lhe bem e mudar pelo menos
duas vezes por semana a areia do gato.
é tímido, inseguro e– por isso mesmo–
extremamente rápido a arrumar as compras.
Vai pagar outra vez com o cartão. Hoje
parece mais triste, talvez por no seu íntimo
saber já que vai escrever um poema
sobre mim, mera ajudante da leitura
dos códigos fatais em que cada um se expõe.
Mas para que tantas palavras? Bastava-lhe
ter dito que me chamo Isilda
e que a vida que tenho não presta. A dele,
suponho, não será muito mais feliz.
escusava era de maçar a gente
com o que sofre ou deixa de sofrer.
A minha sabedoria é muda, desumana:
um dia enlouqueço ou fico para sempre presa
a um pesadelo sentado, com barras transparentes.
1 043
Manuel de Freitas
CÉLINE BLUES
Estas coisas perdem-se. Primeiro
a disponibilidade para a paixão, depois
a própria capacidade de alguém
se vir noutro alguém. Estas coisas
estão sempre a perder-se – e não faz mal,
contanto que nos reste para isso
uma canção decadente.
Falo de órgãos, artérias, tendões.
Do mesmo modo que a alma
é um órgão proscrito que sem vigor
assediamos, adivinhando talvez
que o vazio saberá devorar os traços
que de si próprio deixou: bagatelas,
massacres e aflitas circuncisões
de sentido. Paga-se nisso tudo,
de costas para a retórica,
e faz-se uma canção decadente e sem vigor
E é ainda para ninguém
que estamos a falar coisa nenhuma, supostamente evidente porque
estas coisas se perdem, como dizia
no primeiro verso o arrogante sujeito
poético que em boa hora se cala.
a disponibilidade para a paixão, depois
a própria capacidade de alguém
se vir noutro alguém. Estas coisas
estão sempre a perder-se – e não faz mal,
contanto que nos reste para isso
uma canção decadente.
Falo de órgãos, artérias, tendões.
Do mesmo modo que a alma
é um órgão proscrito que sem vigor
assediamos, adivinhando talvez
que o vazio saberá devorar os traços
que de si próprio deixou: bagatelas,
massacres e aflitas circuncisões
de sentido. Paga-se nisso tudo,
de costas para a retórica,
e faz-se uma canção decadente e sem vigor
E é ainda para ninguém
que estamos a falar coisa nenhuma, supostamente evidente porque
estas coisas se perdem, como dizia
no primeiro verso o arrogante sujeito
poético que em boa hora se cala.
1 095
Carlito Azevedo
NOVA PASSANTE
1. sobre
esta pele branca
um calígrafo oriental
teria gravado sua escrita
luminosa
— sem esquecer entanto
a boca: um
ícone em rubro
tornando mais fogo
suor e susto
tornando mais ácida e
insana a sede
(sede de dilúvio)
2. talvez
um poeta afogado num
danúbio imaginário dissesse
que seus olhos são duas
machadinhas de jade escavando o
constelário noturno:
a partir do que comporia
duzentas odes cromáticas
— mas eu que venero (mais que o ouro verde
raríssimo) o marfim em
alta-alvura de teu andar em
desmesura sobre uma passarela de
relâmpagos súbitos, sei que
tua pele pálida de papel
pede palavras
de luz
3. algum
mozárabe ou andaluz
decerto
te dedicaria
um concerto
para guitarras mouriscas
e cimitarras suicidas
(mas eu te dedico quando passas
no istmo de mim a isto
este tiroteio de silêncios
esta salva de arrepios)
esta pele branca
um calígrafo oriental
teria gravado sua escrita
luminosa
— sem esquecer entanto
a boca: um
ícone em rubro
tornando mais fogo
suor e susto
tornando mais ácida e
insana a sede
(sede de dilúvio)
2. talvez
um poeta afogado num
danúbio imaginário dissesse
que seus olhos são duas
machadinhas de jade escavando o
constelário noturno:
a partir do que comporia
duzentas odes cromáticas
— mas eu que venero (mais que o ouro verde
raríssimo) o marfim em
alta-alvura de teu andar em
desmesura sobre uma passarela de
relâmpagos súbitos, sei que
tua pele pálida de papel
pede palavras
de luz
3. algum
mozárabe ou andaluz
decerto
te dedicaria
um concerto
para guitarras mouriscas
e cimitarras suicidas
(mas eu te dedico quando passas
no istmo de mim a isto
este tiroteio de silêncios
esta salva de arrepios)
720
Manuel de Freitas
CANSADA DE SERVIR NINGUÉM
A primeira e talvez a única
condição da poesia: a falsidade.
Posso no entanto jurar que foi
hoje mesmo, pelo fim da tarde, que
ela entrou desconexa, com um anel rutilante
em cada dedo, na taberna de praça das Flores.
O velho, sentado à minha mesa, teve
de ouvir uma canção de marinheiros,
inevitavelmente triste. Só então
me apercebi, como ele, de que trazia ao colo
uma pomba. Pediu-lhe que voasse
- e ela voou, contornando as moscas
deste Verão precoce, em direcção ao jardim
(sempre tiveram jeito para voar, as pombas).
Quase não vi aquelas mãos caírem sobre
uns seios gastos, a pretexto do colar.
Benilde, sentada, apenas viu nisso tudo
uma espécie de loucura mansa,
o modo como a tarde docilmente se despede,
à sombra parada do relógio. Sessenta
anos de balcão pesavam-lhe hoje mais nas pernas,
indiferentes aos poemas que nunca lerá,
enquanto um último refrão, entre muletas
e copos vazios, nos volta a impor a única verdade.
A pomba - de um branco acastanhado -
parecia não se importar muito.
condição da poesia: a falsidade.
Posso no entanto jurar que foi
hoje mesmo, pelo fim da tarde, que
ela entrou desconexa, com um anel rutilante
em cada dedo, na taberna de praça das Flores.
O velho, sentado à minha mesa, teve
de ouvir uma canção de marinheiros,
inevitavelmente triste. Só então
me apercebi, como ele, de que trazia ao colo
uma pomba. Pediu-lhe que voasse
- e ela voou, contornando as moscas
deste Verão precoce, em direcção ao jardim
(sempre tiveram jeito para voar, as pombas).
Quase não vi aquelas mãos caírem sobre
uns seios gastos, a pretexto do colar.
Benilde, sentada, apenas viu nisso tudo
uma espécie de loucura mansa,
o modo como a tarde docilmente se despede,
à sombra parada do relógio. Sessenta
anos de balcão pesavam-lhe hoje mais nas pernas,
indiferentes aos poemas que nunca lerá,
enquanto um último refrão, entre muletas
e copos vazios, nos volta a impor a única verdade.
A pomba - de um branco acastanhado -
parecia não se importar muito.
1 130
Everardo Norões
TUA FALA
ua fala parecia
uma rede de varandas,
branca,
no meio da sala.
(Uma coisa que envolve
e, ao mesmo tempo, se esquiva):
gesto seco de uma chama,
morrendo,
e sempre mais viva.
Era assim, tua palavra:
escorreita, sem medida.
Falas como pés descalços,
presos à relva macia.
Ou um cheiro de curral
quando a manhã principia.
(Tua fala parecia
a rede, toda bordada,
onde a noite amanhecia).
De A Rua do Padre Inglês (2006)
uma rede de varandas,
branca,
no meio da sala.
(Uma coisa que envolve
e, ao mesmo tempo, se esquiva):
gesto seco de uma chama,
morrendo,
e sempre mais viva.
Era assim, tua palavra:
escorreita, sem medida.
Falas como pés descalços,
presos à relva macia.
Ou um cheiro de curral
quando a manhã principia.
(Tua fala parecia
a rede, toda bordada,
onde a noite amanhecia).
De A Rua do Padre Inglês (2006)
701
Everardo Norões
A RUA DO PADRE INGLÊS
Na rua do Padre Inglês
um louco joga xadrez.
Joga o xadrez da desgraça:
uma sombra na vidraça
é o seu parceiro demente.
(Entre a dama e o cavalo,
corre um rio de afogados).
De sua cama, ainda quente,
um bafo de nicotina.
Vem um cheiro de latrina
da cela defronte à sua.
Na rua do Padre Inglês
um louco fala francês
com acentos de Baudelaire...
(O flamboyant encarnado
se mistura ao espetáculo
da esquizofrênica rua).
O bispo toma o cavalo
das mãos da dama de preto.
(São cinco horas da tarde:
as luzes se apagam cedo.)
Batente do meio-fio:
vem vindo a sombra da noiva,
sozinha, morta de medo.
(O louco avista das grades
as andorinhas azuis
que voam feito morcegos.)
Na rua do Padre Inglês,
um cheiro de gasolina.
{O louco engendra seu mate
contra a sombra na vidraça.}
São cinco em ponto da tarde
(cinco de Ignacio Mejías,
pensa o louco em sua cela)
— dos girassóis de Van Gogh
à solidão amarela...
O cavalo solta as crinas,
a noiva voa na rua
e nas vozes de um menino
acordes de um violino.
O louco sabe que o tempo
de dormir já vem chegando...
(Corujas soltas na cela
bicam as flores de papel
e uma boneca de pano).
Corre, corre, vem depressa,
Que a noite já vem chegando!
Na rua do Padre Inglês
um louco joga xadrez...
um louco joga xadrez.
Joga o xadrez da desgraça:
uma sombra na vidraça
é o seu parceiro demente.
(Entre a dama e o cavalo,
corre um rio de afogados).
De sua cama, ainda quente,
um bafo de nicotina.
Vem um cheiro de latrina
da cela defronte à sua.
Na rua do Padre Inglês
um louco fala francês
com acentos de Baudelaire...
(O flamboyant encarnado
se mistura ao espetáculo
da esquizofrênica rua).
O bispo toma o cavalo
das mãos da dama de preto.
(São cinco horas da tarde:
as luzes se apagam cedo.)
Batente do meio-fio:
vem vindo a sombra da noiva,
sozinha, morta de medo.
(O louco avista das grades
as andorinhas azuis
que voam feito morcegos.)
Na rua do Padre Inglês,
um cheiro de gasolina.
{O louco engendra seu mate
contra a sombra na vidraça.}
São cinco em ponto da tarde
(cinco de Ignacio Mejías,
pensa o louco em sua cela)
— dos girassóis de Van Gogh
à solidão amarela...
O cavalo solta as crinas,
a noiva voa na rua
e nas vozes de um menino
acordes de um violino.
O louco sabe que o tempo
de dormir já vem chegando...
(Corujas soltas na cela
bicam as flores de papel
e uma boneca de pano).
Corre, corre, vem depressa,
Que a noite já vem chegando!
Na rua do Padre Inglês
um louco joga xadrez...
744
João Filho
UMA MULHER TODA MÚSICA
Eu pretendi colhê-la num só gesto,
que fosse imaterial, também tangível,
tentei a forma livro, o sonho aberto,
estive atento ao peso do invisível.
Busquei coisas menores, mais modesto,
— uma manhã urbana, a luz possível.
Tudo inútil, desejo o cerne e aperto
o escuro, mesmo sendo tão legível
o corpo branco, nu, dentro da tarde.
Agora me concentro em não fixá-la
em pauta ou pensamento para dar-lhe
o ritmo necessário de quem cala,
a música a envolvê-la sem alarde
enquanto ela caminha pela sala.
que fosse imaterial, também tangível,
tentei a forma livro, o sonho aberto,
estive atento ao peso do invisível.
Busquei coisas menores, mais modesto,
— uma manhã urbana, a luz possível.
Tudo inútil, desejo o cerne e aperto
o escuro, mesmo sendo tão legível
o corpo branco, nu, dentro da tarde.
Agora me concentro em não fixá-la
em pauta ou pensamento para dar-lhe
o ritmo necessário de quem cala,
a música a envolvê-la sem alarde
enquanto ela caminha pela sala.
585
Everardo Norões
TRISTÃO
Em pé, ao sol e ao vento do sertão,
ele não se decompôs.
Pedro Nava (Baú de Ossos)
As palavras no alforje. E o rosário,
a escorrer das penas e dos dias.
O azul da barba lembra uma paisagem
onde campeiam cabras. E ramagens
desatam-se em sombras nas janelas.
A morrinha dos bichos. O mormaço,
trazendo o desespero, em vez de março:
um luto atravancando as taramelas.
A sela desapeada. E na garupa
do cavalo, a sentença das esporas.
Pendentes dos estribos, estão as horas,
relampejos de facas. E o sono da jurema.
O braço descarnado, o giz dos dentes,
e o olho além do corpo do poema.
No chão do meu degredo, sempre chão,
sete frases do ofício e um bordão.
ele não se decompôs.
Pedro Nava (Baú de Ossos)
As palavras no alforje. E o rosário,
a escorrer das penas e dos dias.
O azul da barba lembra uma paisagem
onde campeiam cabras. E ramagens
desatam-se em sombras nas janelas.
A morrinha dos bichos. O mormaço,
trazendo o desespero, em vez de março:
um luto atravancando as taramelas.
A sela desapeada. E na garupa
do cavalo, a sentença das esporas.
Pendentes dos estribos, estão as horas,
relampejos de facas. E o sono da jurema.
O braço descarnado, o giz dos dentes,
e o olho além do corpo do poema.
No chão do meu degredo, sempre chão,
sete frases do ofício e um bordão.
660
Everardo Norões
fractais
Pelo mergulho
das sombras,
calculo
o itinerário da luz.
Meço
os contornos de nossas ruínas
na matemática particular
dos desesperos.
Abro a janela
da página do sonho:
soletro, devagar, o Aywu rapitá:
o ser do ser da palavra,
(flor pronunciada
entre as estrelas).
A noite
desaba sobre as telhas
na explosão de um meteoro.
Conto estilhaços,
recomponho parábolas:
um mínimo do que sou
lembra as fronteiras
do Universo.
das sombras,
calculo
o itinerário da luz.
Meço
os contornos de nossas ruínas
na matemática particular
dos desesperos.
Abro a janela
da página do sonho:
soletro, devagar, o Aywu rapitá:
o ser do ser da palavra,
(flor pronunciada
entre as estrelas).
A noite
desaba sobre as telhas
na explosão de um meteoro.
Conto estilhaços,
recomponho parábolas:
um mínimo do que sou
lembra as fronteiras
do Universo.
657
Ademir Assunção
O OLHO AZUL DO MISTÉRIO
desço dos céus para beijar
os lábios quentes da fera — desço,
vejo dragões pastando na grama
azul, incêndio nas cortinas
dos apartamentos — desço,
escuto um coro de crianças
bêbadas, vozes batendo no casco
do navio fantasma ancorado
no Cais da Última Utopia — vejo,
sinto na pele os dedos de uma androide
aflita, quase em pânico, mãos
de neblina, pálpebras que se fecham
toda vez que toco o bico dos seios — escuto,
encaro olho no olho o olho
do Grande Gavião Terena, leopardos
lambem o leite da Via Láctea, saltam
com garras envenenadas sobre
as penugens de Vênus, penetram
o cu da lua, pregas se rompem,
espelhos se estilhaçam e rasgam a carne
dos banqueiros que sugam o vinho
da vida com canudinhos cedidos
pelo senhor McDonald — sinto,
e por isso escrevo, e por isso deixo aqui
palavras escritas na água, na carne
dos que sofrem, escrevo com sangue, escrevo
com porra nas paredes das salas
iluminadas com a luz monótona dos aparelhos
de televisão, escrevo com mijo nos muros
das cidades do Ocidente, convoco hidras,
provoco tumulto, estrelas sentam-se no sofá
e tomam café marroquino, os sentidos
mixam o onde e o quando na câmara
oca de ecos, a pele se arrepia, relógios
praticam saltos ornamentais em piscinas
vazias, neve ao redor dos cabelos, chove
na terra inteira, dedos de açúcar tocam
a escama dos peixes, o corpo todo pressente
a presença de um deus, e você finalmente encara
o úmido olho azul do mistério
os lábios quentes da fera — desço,
vejo dragões pastando na grama
azul, incêndio nas cortinas
dos apartamentos — desço,
escuto um coro de crianças
bêbadas, vozes batendo no casco
do navio fantasma ancorado
no Cais da Última Utopia — vejo,
sinto na pele os dedos de uma androide
aflita, quase em pânico, mãos
de neblina, pálpebras que se fecham
toda vez que toco o bico dos seios — escuto,
encaro olho no olho o olho
do Grande Gavião Terena, leopardos
lambem o leite da Via Láctea, saltam
com garras envenenadas sobre
as penugens de Vênus, penetram
o cu da lua, pregas se rompem,
espelhos se estilhaçam e rasgam a carne
dos banqueiros que sugam o vinho
da vida com canudinhos cedidos
pelo senhor McDonald — sinto,
e por isso escrevo, e por isso deixo aqui
palavras escritas na água, na carne
dos que sofrem, escrevo com sangue, escrevo
com porra nas paredes das salas
iluminadas com a luz monótona dos aparelhos
de televisão, escrevo com mijo nos muros
das cidades do Ocidente, convoco hidras,
provoco tumulto, estrelas sentam-se no sofá
e tomam café marroquino, os sentidos
mixam o onde e o quando na câmara
oca de ecos, a pele se arrepia, relógios
praticam saltos ornamentais em piscinas
vazias, neve ao redor dos cabelos, chove
na terra inteira, dedos de açúcar tocam
a escama dos peixes, o corpo todo pressente
a presença de um deus, e você finalmente encara
o úmido olho azul do mistério
1 104
Ademir Assunção
MICOSE NA PELE DO TEMPO
(segundo monólogo interior de Lili Maconha)
Há tempos o faquir polia as pontas dos pregos
com areia do Mojave.
Há tempos e dimensões perdidas
apenas esperando o momento certo da conexão.
Há o tempo lá fora, chuva de granizo,
fagulhas de fogos de artifício
e brumas que se movem.
Há o tempo dos estalidos distantes das estrelas.
E há o tempo do Aqui, esse templo da linguagem
que se enrola em frases-serpentes
enquanto escrevo
e que talvez continue traçando sinuosidades
muito tempo depois.
Mas de tempos em tempos
alguém estoura os miolos, alguém explode uma aeronave
alguém fecha o livro
e não o abre nunca mais.
Há tempos o faquir polia as pontas dos pregos
com areia do Mojave.
Há tempos e dimensões perdidas
apenas esperando o momento certo da conexão.
Há o tempo lá fora, chuva de granizo,
fagulhas de fogos de artifício
e brumas que se movem.
Há o tempo dos estalidos distantes das estrelas.
E há o tempo do Aqui, esse templo da linguagem
que se enrola em frases-serpentes
enquanto escrevo
e que talvez continue traçando sinuosidades
muito tempo depois.
Mas de tempos em tempos
alguém estoura os miolos, alguém explode uma aeronave
alguém fecha o livro
e não o abre nunca mais.
1 200
Ademir Assunção
TURBULÊNCIA DE NERVOS
(sétimo monólogo interior de Lili Maconha)
Arrancaram a alma das palavras.
Esfolaram a epiderme, trituraram a carne e moeram os ossos,
até esvaziarem cada camada de sentido.
Ela virá esta noite.
Carcaças corroídas pelo ácido monetário,
sílabas e fonemas são apenas fantasmas,
sem significado algum.
Ela virá. A cadela de casaco felpudo, escuro e grosso.
Há letreiros luminosos nas fachadas dos edifícios,
mas eles não dizem nada.
Tudo está a venda. Tudo é ruína. Tudo é naufrágio
e turbulência de nervos.
Ela virá e eu a estarei esperando.
Peixes agonizam entre os entulhos.
Torneiras despejam água fétida sobre pilhas de pratos.
Os corredores das universidades estão cheios de zumbis.
0 38 está engatilhado.
Os últimos poetas se enforcaram em galhos de bétulas de ferro.
Arrancaram a alma das palavras.
Esfolaram a epiderme, trituraram a carne e moeram os ossos,
até esvaziarem cada camada de sentido.
Ela virá esta noite.
Carcaças corroídas pelo ácido monetário,
sílabas e fonemas são apenas fantasmas,
sem significado algum.
Ela virá. A cadela de casaco felpudo, escuro e grosso.
Há letreiros luminosos nas fachadas dos edifícios,
mas eles não dizem nada.
Tudo está a venda. Tudo é ruína. Tudo é naufrágio
e turbulência de nervos.
Ela virá e eu a estarei esperando.
Peixes agonizam entre os entulhos.
Torneiras despejam água fétida sobre pilhas de pratos.
Os corredores das universidades estão cheios de zumbis.
0 38 está engatilhado.
Os últimos poetas se enforcaram em galhos de bétulas de ferro.
1 106
Pêro Garcia Burgalês
Rui Queimado
Rui Queimado morreu de amor
nos seus cantares, por Santa Maria,
por uma dona a quem muito queria:
e, para se mostrar melhor trovador,
porque ela não lhe quis bem fazer,
fez-s’ele em seus cantares morrer,
mas ressuscitou ao terceiro dia!
Isto fez ele pela sua senhora
a que quer grande bem, e mais vos diria:
como cuida que é mestre em trovar,
e nos cantares que faz, tem prazer
em morrer e logo voltar a viver;
isto faz ele que o pode fazer,
mas outro homem por nada o faria.
E não tem já de sua morte pavor,
senão a sua morte mais temeria,
mas sabe bem, por sua sabedoria,
que viverá, depois que morto for,
e faz em seu cantar prender a morte,
voltando logo à vida: vedes que poder
Deus lhe deu, mais do que se podia crer.
E, se me Deus a mim desse o poder
que ele hoje tem, de viver após morrer,
jamais a morte eu temeria.
Português antigo
Roi Queimado morreu con amor
en seus cantares, par Sancta Maria,
por ūa dona que gran ben queria:
e, por se meter por mais trobador,
porque lhe ela non quis ben fazer,
feze-s’el en seus cantares morrer,
mais resurgiu depois ao tercer dia!
Esto fez el por ūa sa senhor
que quer gran ben, e mais vos en diria:
por que cuida que faz i maestria,
enos cantares que faz, á sabor
de morrer i e des i d’ar viver;
esto faz el que x’o pode fazer,
mais outr’omem per ren’ nono faria.
E non á já de sa morte pavor,
senon sa morte mais la temeria,
mais sabe ben, per sa sabedoria,
que viverá, des quando morto for,
e faz-[s’] en seu cantar morte prender,
des i ar vive: vedes que poder
que lhi Deus deu, mais que non cuidaria.
E, se mi Deus a mim desse poder
qual oj’el á, pois morrer, de viver,
já mais morte nunca temeria.
nos seus cantares, por Santa Maria,
por uma dona a quem muito queria:
e, para se mostrar melhor trovador,
porque ela não lhe quis bem fazer,
fez-s’ele em seus cantares morrer,
mas ressuscitou ao terceiro dia!
Isto fez ele pela sua senhora
a que quer grande bem, e mais vos diria:
como cuida que é mestre em trovar,
e nos cantares que faz, tem prazer
em morrer e logo voltar a viver;
isto faz ele que o pode fazer,
mas outro homem por nada o faria.
E não tem já de sua morte pavor,
senão a sua morte mais temeria,
mas sabe bem, por sua sabedoria,
que viverá, depois que morto for,
e faz em seu cantar prender a morte,
voltando logo à vida: vedes que poder
Deus lhe deu, mais do que se podia crer.
E, se me Deus a mim desse o poder
que ele hoje tem, de viver após morrer,
jamais a morte eu temeria.
Português antigo
Roi Queimado morreu con amor
en seus cantares, par Sancta Maria,
por ūa dona que gran ben queria:
e, por se meter por mais trobador,
porque lhe ela non quis ben fazer,
feze-s’el en seus cantares morrer,
mais resurgiu depois ao tercer dia!
Esto fez el por ūa sa senhor
que quer gran ben, e mais vos en diria:
por que cuida que faz i maestria,
enos cantares que faz, á sabor
de morrer i e des i d’ar viver;
esto faz el que x’o pode fazer,
mais outr’omem per ren’ nono faria.
E non á já de sa morte pavor,
senon sa morte mais la temeria,
mais sabe ben, per sa sabedoria,
que viverá, des quando morto for,
e faz-[s’] en seu cantar morte prender,
des i ar vive: vedes que poder
que lhi Deus deu, mais que non cuidaria.
E, se mi Deus a mim desse poder
qual oj’el á, pois morrer, de viver,
já mais morte nunca temeria.
1 487
Frei Agostinho da Cruz
II Os versos, que cantei importunado
Os versos, que cantei importunado
Da mocidade cega a quem seguia,
Queimei (como vergonha me pedia)
Chorando, por haver tão mal cantado.
Se nestes não ficar tão desculpado
Quanto mais alto estilo merecia,
Não me podem negar a melhoria
Da mudança, que diz dum noutro estado.
Que vai que sejam bem ou mal aceitos?
Pois não os escrevi para louvores
Humanos, pelo menos perigosos,
Senão para plantar em tenros peitos
Desejos de colher divinas flores
À força de suspiros saudosos.
Da mocidade cega a quem seguia,
Queimei (como vergonha me pedia)
Chorando, por haver tão mal cantado.
Se nestes não ficar tão desculpado
Quanto mais alto estilo merecia,
Não me podem negar a melhoria
Da mudança, que diz dum noutro estado.
Que vai que sejam bem ou mal aceitos?
Pois não os escrevi para louvores
Humanos, pelo menos perigosos,
Senão para plantar em tenros peitos
Desejos de colher divinas flores
À força de suspiros saudosos.
598