Poemas neste tema
Mar, Rios e Oceanos
Newton de Freitas
Belo Exemplo
Olho a serra apontando para o céu
com os braços grandes dos seus picos,
com os dedos verdes das suas árvores.
Mas bem que ela não esquece os humildes,
nem o chão, nem as pedras que jazem a seus pés.
E pelo abismo, vinda das alturas,
como se fosse um véu de rendas,
como se fosse prata liqüefeita,
salta a linda cascata,
borbulhando eternal.
Ouço. A água geme entre as pedras lodosas,
canta e murmura, ou será que soluça?
Esse barulho de água beijando os penhascos
deve ser um poema de amor
que a serra sabe de cor para dizer ao chão...
Bendito o Deus-poeta que te fez, cascata!
Bendita a Natureza onde palpitam sonhos,
sonhos de amor, belezas, ilusões,
em todos os recantos, até nos abismos!
Cascata, és um sonho líquido e sublime.
De dia o sol se veste de ouro para contemplar-te,
de noite a lua e as estrelas te namoram sorrindo.
Tu vens do coração profundo das montanhas
e és um beijo eterno da nobreza da serra
à humilde chá das campinas sem glórias.
Quando os homens passarem a teus pés,
quando os homens te contemplarem,
os deslumbrados e os indiferentes,
ensina a eles o teu exemplo de fraternidade,
mostra-lhes a tua lição, cascata!
com os braços grandes dos seus picos,
com os dedos verdes das suas árvores.
Mas bem que ela não esquece os humildes,
nem o chão, nem as pedras que jazem a seus pés.
E pelo abismo, vinda das alturas,
como se fosse um véu de rendas,
como se fosse prata liqüefeita,
salta a linda cascata,
borbulhando eternal.
Ouço. A água geme entre as pedras lodosas,
canta e murmura, ou será que soluça?
Esse barulho de água beijando os penhascos
deve ser um poema de amor
que a serra sabe de cor para dizer ao chão...
Bendito o Deus-poeta que te fez, cascata!
Bendita a Natureza onde palpitam sonhos,
sonhos de amor, belezas, ilusões,
em todos os recantos, até nos abismos!
Cascata, és um sonho líquido e sublime.
De dia o sol se veste de ouro para contemplar-te,
de noite a lua e as estrelas te namoram sorrindo.
Tu vens do coração profundo das montanhas
e és um beijo eterno da nobreza da serra
à humilde chá das campinas sem glórias.
Quando os homens passarem a teus pés,
quando os homens te contemplarem,
os deslumbrados e os indiferentes,
ensina a eles o teu exemplo de fraternidade,
mostra-lhes a tua lição, cascata!
900
Dunshee de Abranches
A Selva
De pé, no tombadilho, olhos fitos no espaço,
Colombo, palpitante, estende o forte braço,
aos capitães mostrando, ao longe, sobre a esteira
dos negros vagalhões a luz de uma fogueira...
Há três noites velava, há três noites sentia
a esperança deixar-lhe o peito, e a fantasia
fugir-lhe já também. Rugiam os porões
de fome e de cansaço... e ocas conspirações
iam lentas mudando a bruta marinhagem
o amor do comandante em amor à carnagem.
Há três luas partira a frota de Castela;
e em cada uma lufada a enfunar a vela,
em toda a aurora nova, em todo o novo ocaso,
mais a pátria fugia, e mais e mais o acaso,
impávido matava as velhas tradições,
mostrando a cada instante aos crentes corações
que o Caos inda era a luz, que o Abismo inda era o mar!
jamais se vira um monstro, um só, se levantar
por sobre os vagalhões, grandíloquo, medonho,
como a Grécia sentiu nesse homérico sonho
que os templos levantou e fez as Odisséias.
Colombo, palpitante, estende o forte braço,
aos capitães mostrando, ao longe, sobre a esteira
dos negros vagalhões a luz de uma fogueira...
Há três noites velava, há três noites sentia
a esperança deixar-lhe o peito, e a fantasia
fugir-lhe já também. Rugiam os porões
de fome e de cansaço... e ocas conspirações
iam lentas mudando a bruta marinhagem
o amor do comandante em amor à carnagem.
Há três luas partira a frota de Castela;
e em cada uma lufada a enfunar a vela,
em toda a aurora nova, em todo o novo ocaso,
mais a pátria fugia, e mais e mais o acaso,
impávido matava as velhas tradições,
mostrando a cada instante aos crentes corações
que o Caos inda era a luz, que o Abismo inda era o mar!
jamais se vira um monstro, um só, se levantar
por sobre os vagalhões, grandíloquo, medonho,
como a Grécia sentiu nesse homérico sonho
que os templos levantou e fez as Odisséias.
1 027
Oldegar Vieira
Haicai
Revoadas
Revoadas brancas
sobre rochedos escuros:
gaivotas e espumas.
Alvorada
Pouco a pouco vai
canto claro dos galos
clareando o dia
Revoadas brancas
sobre rochedos escuros:
gaivotas e espumas.
Alvorada
Pouco a pouco vai
canto claro dos galos
clareando o dia
1 698
Martins Vieira
O Parnaíba
Vem de longe, tangendo alvacentas espumas
Ao sabor da corrente, eriçando cachoeiras;
Aqui, se aperta; ali, se espraia, enquanto as plumas
De leques vegetais baloiçam nas palmeiras.
Leva a flor que tranqüila adormece entre as brumas
E se deixa impelir como as balsas fagueiras,
Onde geme o violão do embarcadiço, e algumas
Das cordas vão ferir as cordas verdadeiras...
— Ó rio lá de casa, ó Pai velho das crianças,
Águas que vão molhar o solo e as belas tranças
Da noiva que se banha em ti, ao vento e à luz,
Ó rio benfazejo, aplacarás a sede
Do mar, deixando aqui o pão em cada rede
a nós elo batismo, o nome de Jesus.
Ao sabor da corrente, eriçando cachoeiras;
Aqui, se aperta; ali, se espraia, enquanto as plumas
De leques vegetais baloiçam nas palmeiras.
Leva a flor que tranqüila adormece entre as brumas
E se deixa impelir como as balsas fagueiras,
Onde geme o violão do embarcadiço, e algumas
Das cordas vão ferir as cordas verdadeiras...
— Ó rio lá de casa, ó Pai velho das crianças,
Águas que vão molhar o solo e as belas tranças
Da noiva que se banha em ti, ao vento e à luz,
Ó rio benfazejo, aplacarás a sede
Do mar, deixando aqui o pão em cada rede
a nós elo batismo, o nome de Jesus.
937
Myriam Fraga
Barragem
Estrutura de cal
Subitamente o rio
(argila e metal)
Se recompõe
E pára.
Somente a fúria
Calma do gesto
Que se disfarça.
Barragem ou poço
(argamassa)
Simetria de iludidos
Nas linhas duras
Do cais.
Talvez a sombra
íris-pupila
Que se adelgaça.
Recua e passa.
Subitamente o rio
(argila e metal)
Se recompõe
E pára.
Somente a fúria
Calma do gesto
Que se disfarça.
Barragem ou poço
(argamassa)
Simetria de iludidos
Nas linhas duras
Do cais.
Talvez a sombra
íris-pupila
Que se adelgaça.
Recua e passa.
1 059
Menezes y Morais
Memórias (Caminhos de Estrelas)
Vênus incendiava teus cabelos naquela noite
em q caminhávamos refletidos nas águas
margens assassinadas do rio poti
e no mangal
eu viajei na constelação dos teus olhos
e te dizia
a vida vai além daquilo q a gente imagina
e a liberdade pode estar ali
na próxima esquina
e sobre os trilhos noturnos
convergendo olhares favelados
com a tua mão esquerda dentro da minha direita
sentimos o fogo estrelar daquela noite azul
no céu de teresina
e o vento soprou leve
sussurrando em tua boca
entre o rio e a cidade existe um caminho
onde o tempo cicatriza toda dor
em q caminhávamos refletidos nas águas
margens assassinadas do rio poti
e no mangal
eu viajei na constelação dos teus olhos
e te dizia
a vida vai além daquilo q a gente imagina
e a liberdade pode estar ali
na próxima esquina
e sobre os trilhos noturnos
convergendo olhares favelados
com a tua mão esquerda dentro da minha direita
sentimos o fogo estrelar daquela noite azul
no céu de teresina
e o vento soprou leve
sussurrando em tua boca
entre o rio e a cidade existe um caminho
onde o tempo cicatriza toda dor
866
Neide Archanjo
Estou aqui
Estou aqui
numa das esquinas do planeta
entre o Mediterraneu e o Oceanus Atlanticus
nestas costas
onde cerraram-se para sempre
rios abras e baías
e mesmo algumas ilhas
estuários interiores.
Eu, selvagem, mulher silvestre,
florida em telas e museus
vergonhas não-cobertas
—ah, Iracemas Paraguaçus Moemas! —
entre os deleites da corte instalada.
Eu que não tive por trisavô nenhum celta
bem rico e bem atrevido no mar
a quem chamasse armador.
Eu que deixei para trás
sertões não-navegados
em terra e mar fundidos
nossas Aljubarrotas e Alcácer-Quibires
chão de estrelas e derrotas
compostas identidades
onde o imenso amadurece.
numa das esquinas do planeta
entre o Mediterraneu e o Oceanus Atlanticus
nestas costas
onde cerraram-se para sempre
rios abras e baías
e mesmo algumas ilhas
estuários interiores.
Eu, selvagem, mulher silvestre,
florida em telas e museus
vergonhas não-cobertas
—ah, Iracemas Paraguaçus Moemas! —
entre os deleites da corte instalada.
Eu que não tive por trisavô nenhum celta
bem rico e bem atrevido no mar
a quem chamasse armador.
Eu que deixei para trás
sertões não-navegados
em terra e mar fundidos
nossas Aljubarrotas e Alcácer-Quibires
chão de estrelas e derrotas
compostas identidades
onde o imenso amadurece.
996
Myriam Fraga
A Cidade
Foi plantada no mar
E entre corais se levanta.
O salitre é seu ar,
Sua coroa, sua trança
de salsugem,
Seu vestido de ametista,
Seu manto de sal
E musgo.
Armada em firme silêncio
Dependura-se dos montes
E tão precário equilíbrio
Se propõe
Que além da porta ou portada,
De janela ou de horizonte,
O que a sustenta é o mistério,
Triste chão, sombra vazia,
Tempo escorrendo das pedras,
Lacerado nas esquinas,
Tempo — sudário e guia.
Mas que fera (ou animal)
Esta cidade antiga
Com sua densa pupila
Espreitando entre torres,
Seu hálito de concha
A babujar segredos,
Deitada entre os meus pés,
Minha cadela e amiga.
Repete esta dureza
Este arfar entre dentes,
Seu pulmão de basalto
Onde a morte respira.
E nas sombras da tarde
Em sangue no poente,
Abre os olhos sem pálpebras
E dança. Em maresia
E estrelas afogada.
E nesta coreografia,
Sopro de antigas paisagens
Um calendário se arrasta,
Nas corroídas legendas
Apodrecidas fachadas
A mastigar as divisas
E outros símbolos manchados,
Nos brasões onde goteja
O limo do esquecimento.
Não fosse a imaginada
Profecia, face e apelo
Das inscrições lapidares
Palimpsesto ou astrolábio
Na pedra, na cal, nos muros,
Fendida casca de um mundo
Coagulado em memórias.
Restavam ossos e nomes,
Desassistida batalha
Contra o tempo. E esta cidade,
Com seu signo, seu quadrante
De cristal,
Sua mensagem de calcário,
Desfeita em vaga o soluço,
Mergulharia no espaço
Pássaro alado, albergália.
E entre corais se levanta.
O salitre é seu ar,
Sua coroa, sua trança
de salsugem,
Seu vestido de ametista,
Seu manto de sal
E musgo.
Armada em firme silêncio
Dependura-se dos montes
E tão precário equilíbrio
Se propõe
Que além da porta ou portada,
De janela ou de horizonte,
O que a sustenta é o mistério,
Triste chão, sombra vazia,
Tempo escorrendo das pedras,
Lacerado nas esquinas,
Tempo — sudário e guia.
Mas que fera (ou animal)
Esta cidade antiga
Com sua densa pupila
Espreitando entre torres,
Seu hálito de concha
A babujar segredos,
Deitada entre os meus pés,
Minha cadela e amiga.
Repete esta dureza
Este arfar entre dentes,
Seu pulmão de basalto
Onde a morte respira.
E nas sombras da tarde
Em sangue no poente,
Abre os olhos sem pálpebras
E dança. Em maresia
E estrelas afogada.
E nesta coreografia,
Sopro de antigas paisagens
Um calendário se arrasta,
Nas corroídas legendas
Apodrecidas fachadas
A mastigar as divisas
E outros símbolos manchados,
Nos brasões onde goteja
O limo do esquecimento.
Não fosse a imaginada
Profecia, face e apelo
Das inscrições lapidares
Palimpsesto ou astrolábio
Na pedra, na cal, nos muros,
Fendida casca de um mundo
Coagulado em memórias.
Restavam ossos e nomes,
Desassistida batalha
Contra o tempo. E esta cidade,
Com seu signo, seu quadrante
De cristal,
Sua mensagem de calcário,
Desfeita em vaga o soluço,
Mergulharia no espaço
Pássaro alado, albergália.
1 198
Gerardo Mello Mourão
Digo o que vi — pois vi os anjos
Digo o que vi — pois vi os anjos
montados no lombo das poldras azuis
galopando nos potreiros ao redor da cidade — e digo
o que ouvi —
pois ouvi dizer que as deusas moribundas
voltavam à adolescência no crepúsculo
e se entregavam aos anjos
no lombo das poldras azuis
e muitas outras coisas sei
de ver e de ouvir dizer
sobre anjos e deuses
alguns deuses:
subi à montante do rio dos jaguares
no dorso dos crocodilos e achei
a nascente das águas — e escanchado
no espinhado dos sáurios
passei a divisa das águas — perguntei
todos os caminhos do mar
ao abismo à espuma à latitude
e à longitude — pois habitei
minha própria lonjura
e meu álibi:
a corrente das águas carregando
a imagem de meu rosto por onde
a figura se configura — pois habito
meus próprios álibis:
ali estou onde desejo estar — e desejo
o caminho de teus rastros onde
confinado e livre
confino o mundo — pois o prisioneiro
engenha a liberdade —
engenheiro
do dia e da noite
aloeste a sudeste a nornordeste
e quem queira encontrar-me há de seguir
a rota dos abismos — pois
incola do abismo — o abismo
é meu porto e minha pátria
ego poeta cidadão do abismo
pois mordi, Apolo, a fruta de teu nome
e, conheci o sal e o mel e o vinagre e a pimenta
da palavra — o sangue
dos seres e das coisas e seu vinho e sou
o bêbado dos abismos onde
veraneio os meses entre
demônios cartomantes:
— um moço louro a traição periga há uns
papéis confusos longas viagens dinheiros
curtos a mulher morena em lágrimas uma solteira
uma casada e lágrimas pela porta da rua
outra mulher mais outra
empalidece e treme o valete de espadas
uma ruiva pela porta da. rua por onde as já
citadas lágrimas risco de morte uma herança uma estrela
seus astres e desastres:
— "embaralhe o baralho" — e a mão astuta
arqueava as cartas e embaralhava os naipes
descia
ao abismo de seus signos cercado
de profecias por todos os lados
pois enxergava sempre a musa ali
e o coração estremecia aos olhos
da pythia alcovitada — e às vezes
fulgurei em seus olhos e em meus olhos
conheci minha verônica
— pois o que sei de mim
sei por uma sibila, pelas cartomantes
pelas ciganas rastreando as linhas
de minha mão
e o que sei do mundo
é o que sei de mim pelos profetas
é o que sei de mim
por ouvir dizer
é o que sei dos defuntos
na lívida escritura de seus rostos hirtos
entre cravos e rosas quando
meus olhos se agoniam sobre
seus pergaminhos — entre
o hieróglifo de seus dedos rúnicos
e o silêncio pulcro de seus lábios rupestres
Mas um dia rompo o meu silêncio — e as rosas
começam a cair de minha boca
as rosas e as estrelas
e os circunstantes atônitos
me tiram reverentes o chapéu
e dobram os joelhos e me beijam os pés
e quando se erguem
escarnecem de mim e de si mesmos
pois já não se vê mais
que a poeira de um rastro
a aparição e a desaparição — e as rosas
voltam a fechar-se em seus botões de silêncio diante
das estejas apagadas pelo sopro do vento
e sou apenas o que fui — e fui
apenas o que serei na boca dos profetas
dos contadores de lendas
eterno
toda vez que as cartomantes inventem
ao olhar de uma trêmula mulher
o perigo de um príncipe a caminho
e na palma da mão entre o monte de Vênus
e a linha do destino — o presságio
de meu nome alegrará um coração que espera
a chegada da esperança.
Não sou — já fui
não fui — serei
serei o que teria sido
num país que carrego nas pupilas
ego, poeta, Pigafetta
meus olhos pisam meu chão
e caminho pisando os próprios olhos
meus pés escrevem no celeste espaço
com o coruscante stil nuovo
do pentestrelo
minha bitácora — pois escrivão
de Capricórnio tenho por nome
meu pseudônimo
—Caramuru
ou Monteverde? —
montados no lombo das poldras azuis
galopando nos potreiros ao redor da cidade — e digo
o que ouvi —
pois ouvi dizer que as deusas moribundas
voltavam à adolescência no crepúsculo
e se entregavam aos anjos
no lombo das poldras azuis
e muitas outras coisas sei
de ver e de ouvir dizer
sobre anjos e deuses
alguns deuses:
subi à montante do rio dos jaguares
no dorso dos crocodilos e achei
a nascente das águas — e escanchado
no espinhado dos sáurios
passei a divisa das águas — perguntei
todos os caminhos do mar
ao abismo à espuma à latitude
e à longitude — pois habitei
minha própria lonjura
e meu álibi:
a corrente das águas carregando
a imagem de meu rosto por onde
a figura se configura — pois habito
meus próprios álibis:
ali estou onde desejo estar — e desejo
o caminho de teus rastros onde
confinado e livre
confino o mundo — pois o prisioneiro
engenha a liberdade —
engenheiro
do dia e da noite
aloeste a sudeste a nornordeste
e quem queira encontrar-me há de seguir
a rota dos abismos — pois
incola do abismo — o abismo
é meu porto e minha pátria
ego poeta cidadão do abismo
pois mordi, Apolo, a fruta de teu nome
e, conheci o sal e o mel e o vinagre e a pimenta
da palavra — o sangue
dos seres e das coisas e seu vinho e sou
o bêbado dos abismos onde
veraneio os meses entre
demônios cartomantes:
— um moço louro a traição periga há uns
papéis confusos longas viagens dinheiros
curtos a mulher morena em lágrimas uma solteira
uma casada e lágrimas pela porta da rua
outra mulher mais outra
empalidece e treme o valete de espadas
uma ruiva pela porta da. rua por onde as já
citadas lágrimas risco de morte uma herança uma estrela
seus astres e desastres:
— "embaralhe o baralho" — e a mão astuta
arqueava as cartas e embaralhava os naipes
descia
ao abismo de seus signos cercado
de profecias por todos os lados
pois enxergava sempre a musa ali
e o coração estremecia aos olhos
da pythia alcovitada — e às vezes
fulgurei em seus olhos e em meus olhos
conheci minha verônica
— pois o que sei de mim
sei por uma sibila, pelas cartomantes
pelas ciganas rastreando as linhas
de minha mão
e o que sei do mundo
é o que sei de mim pelos profetas
é o que sei de mim
por ouvir dizer
é o que sei dos defuntos
na lívida escritura de seus rostos hirtos
entre cravos e rosas quando
meus olhos se agoniam sobre
seus pergaminhos — entre
o hieróglifo de seus dedos rúnicos
e o silêncio pulcro de seus lábios rupestres
Mas um dia rompo o meu silêncio — e as rosas
começam a cair de minha boca
as rosas e as estrelas
e os circunstantes atônitos
me tiram reverentes o chapéu
e dobram os joelhos e me beijam os pés
e quando se erguem
escarnecem de mim e de si mesmos
pois já não se vê mais
que a poeira de um rastro
a aparição e a desaparição — e as rosas
voltam a fechar-se em seus botões de silêncio diante
das estejas apagadas pelo sopro do vento
e sou apenas o que fui — e fui
apenas o que serei na boca dos profetas
dos contadores de lendas
eterno
toda vez que as cartomantes inventem
ao olhar de uma trêmula mulher
o perigo de um príncipe a caminho
e na palma da mão entre o monte de Vênus
e a linha do destino — o presságio
de meu nome alegrará um coração que espera
a chegada da esperança.
Não sou — já fui
não fui — serei
serei o que teria sido
num país que carrego nas pupilas
ego, poeta, Pigafetta
meus olhos pisam meu chão
e caminho pisando os próprios olhos
meus pés escrevem no celeste espaço
com o coruscante stil nuovo
do pentestrelo
minha bitácora — pois escrivão
de Capricórnio tenho por nome
meu pseudônimo
—Caramuru
ou Monteverde? —
1 200
Marcelo Penido Silva
Tão flácidos
Tão flácidos
lagos esparsos
calmos, iagos
- de aço -
traem azuis
(agora escuros lençóis)
e lenços tão núvios
trapos,
flutuantes,
de sol.
Não precisa noite
para ver, suspensa,
imprecisa soma
de luz, gota, mal.
Ridente iago
em ondas rôtas
murbulha
preces de cão.
Não
tão plácidos
espasmos
baços azuis . . .
(amouro oculto
dúbio
culto, culto)
trap(o)s
ondiantes
vên en
vitral . . .
Nau
dardeja, ensombra,
acácia padece;
mal querida,
tomba.
Nau . . .nau . . .
madeira despécie
lança, fenece
em lago(puro?)
de sal.
lagos esparsos
calmos, iagos
- de aço -
traem azuis
(agora escuros lençóis)
e lenços tão núvios
trapos,
flutuantes,
de sol.
Não precisa noite
para ver, suspensa,
imprecisa soma
de luz, gota, mal.
Ridente iago
em ondas rôtas
murbulha
preces de cão.
Não
tão plácidos
espasmos
baços azuis . . .
(amouro oculto
dúbio
culto, culto)
trap(o)s
ondiantes
vên en
vitral . . .
Nau
dardeja, ensombra,
acácia padece;
mal querida,
tomba.
Nau . . .nau . . .
madeira despécie
lança, fenece
em lago(puro?)
de sal.
979
Mário Pederneiras
Meu Casal
Fica distante da cidade e em frente
À remansosa paz de uma enseada
Esta dos meus romântica morada,
Que olha de cheio para o Sol nascente.
Árvores dão-lhe a sombra desejada
Pela calma feição da minha gente,
E ela toda se ajusta ao tom dolente
Das cantigas que o Mar lhe chora à entrada.
Lá dentro o teu olhar de calmos brilhos,
Todo o meu bem e todo o meu empenho,
E a sonora alegria de meus filhos.
Outros que tenham com mais luxo o lar,
Que a mim me basta, Flor, o que aqui tenho,
Árvores, filhos, teu amor e o mar.
À remansosa paz de uma enseada
Esta dos meus romântica morada,
Que olha de cheio para o Sol nascente.
Árvores dão-lhe a sombra desejada
Pela calma feição da minha gente,
E ela toda se ajusta ao tom dolente
Das cantigas que o Mar lhe chora à entrada.
Lá dentro o teu olhar de calmos brilhos,
Todo o meu bem e todo o meu empenho,
E a sonora alegria de meus filhos.
Outros que tenham com mais luxo o lar,
Que a mim me basta, Flor, o que aqui tenho,
Árvores, filhos, teu amor e o mar.
2 240
Manuel Sobrinho
São Francisco
Ó triste e pobretã cidade maranhense!
Por que a eterna canção romântica das águas
Do velho Parnaíba onduloso não vence
Teu descontentamento e tuas fundas mágoas?
Por que já não te enfeita a pompa que outrora
ostentavas riqueza, orgulho e poderio?
Não vês que ao pé de ti o arvoredo se enflora
Ao beijo das manhãs translúcidas do estio?
Por que sofres assim? Por que definhas tanto?
Por que te pesa a cruz de tal adversidade?
Olha: a árvore remoça em teu subúrbio, e o canto
Das aves do teu céu traduz felicidade...
Por que tua cerviz dobras e não encaras
O céu, que nos dá força, em nosso desalento?
Vês? O Morro da Cruz e o Morro das Araras
Erguem a fronte larga à luz do firmamento...
Por que, perdendo a forma estética, te afeias,
Contrastando com tudo aí desse recanto,
Quando eu — que sou teu filho — eu sei que te rodeias
De infindáveis painéis do mais soberbo encanto?
Por que fazes, agora, humilde, curvaturas
A tudo o que enfrentaste, outrora, com denodo?
É que, nas asas do ouro, ontem galgaste alturas,
E hoje, rastejas, pobre e anônima, no lodo.
Por que a eterna canção romântica das águas
Do velho Parnaíba onduloso não vence
Teu descontentamento e tuas fundas mágoas?
Por que já não te enfeita a pompa que outrora
ostentavas riqueza, orgulho e poderio?
Não vês que ao pé de ti o arvoredo se enflora
Ao beijo das manhãs translúcidas do estio?
Por que sofres assim? Por que definhas tanto?
Por que te pesa a cruz de tal adversidade?
Olha: a árvore remoça em teu subúrbio, e o canto
Das aves do teu céu traduz felicidade...
Por que tua cerviz dobras e não encaras
O céu, que nos dá força, em nosso desalento?
Vês? O Morro da Cruz e o Morro das Araras
Erguem a fronte larga à luz do firmamento...
Por que, perdendo a forma estética, te afeias,
Contrastando com tudo aí desse recanto,
Quando eu — que sou teu filho — eu sei que te rodeias
De infindáveis painéis do mais soberbo encanto?
Por que fazes, agora, humilde, curvaturas
A tudo o que enfrentaste, outrora, com denodo?
É que, nas asas do ouro, ontem galgaste alturas,
E hoje, rastejas, pobre e anônima, no lodo.
735
Gerardo Mello Mourão
Jà vou atravessando a província formosa e a Musa
Jà vou atravessando a província formosa e a Musa
é contígua aos países longínquos:
o prisioneiro é aquele que era livre
o morto o que era vivo
entre o cão e o cano linheiro da espingarda o caçador
alinha o olho sagaz
e a narceja selvagem tomba do azul do céu a asa pendida
de seu fio de sangue — e sempre
por um fio de sangue
Eleutheria
Ariadne convulsa a liberdade encontra
o caminho da morte
— poeta solus poeta tantum —
só o poeta pranteia
sua bela narceja derrubada
na paisagem lacustre:
maldito seja o estampido maldita
seja a mão que afaga o gatilho e a pupila
que endurece à pontaria
maldita seja quando o tiro
quebra as asas aflitas e ao peso
da descarga de chumbo a flor alada
se rebenta no chão e cai
come corpo morto cade
Já peregrinei essas províncias formosas
vi a lua romena sobre os Kárpatos
e as colinas dos Kárpatos onde
os monjes serenos de Sinaia e o pátio
de seu mosteiro sobre
vales e colinas da Transilvânia montada
em sua cítara de nuvens — vi a lua
e a branca mão de Artemis sempre virgem
caçadora de estrelas
fere a noite
no firmamento azul a seta sagrada e pulsa
o coração da luz:
ali quem sabe, Apolo,
para teu rastro um rastro
pois tu mesmo
foras talvez apenas
o buscador de teu próprio rastro
pousam primeiro os olhos no caminho
e ali onde pousaram
pisam os pés nas pupilas onde
ao chão da relva virgem se sugere
o rastro que virá:
e assim andei a Dácia e a Trácia
e o Ponto Euxino e na montanha búlgara
à chama crepitante desse rastro
arderam calcanhares — e o vento
desmanchou em cinza a pulcra perna varonil:
não já sobre teu pé — sobre teu rastro
se lança o corpo divino
as estrelas desabrochavam da terra, Jonathan,
e os firmamentos caíam dentro de um
oceano de jardins:
pois consultei as rosas de outono da Bulgária
e os cravos de Istambul e naveguei
o Bósforo o Mar Negro e o Mar de Mármara
esse Ponto Euxino onde Ovídio
Publius Ovidius Naso poeta fuit — e velejei
as costas da Dardânia onde foi Troia onde
Heitor domava os cavalos e onde
a corda de tua lira regia a lança
do mais doce dos homens
— do guerreiro puro —
Naveguei o Adriático e o Tirreno
o Egeu e o Mar da Jônia e o Atlântico e o Pacífico
e as ilhas e as antilhas
e o mar do Caribe e o Mar do Norte e o Mar
Mediterrâneo e o meio das terras
e as terras ignotas e as terras filiorum dei
e cavalguei o lombo do Ontário o São Lourenço
e o Amazonas e o São Francisco e o Mississipi
e o Paraguai e o Paraná e o Prata
e as cataratas e os outros lagos e os outros rios
o Danúbio e o Tibre o Jaguaribe e o Sena
e o Pó e a ribeira do Arno por onde
caminhava o poeta e o Reno e o Meno por onde
cantava o demente divino e o Tejo de onde
celebrava Camões as caravelas rumo
aos mares nunca dantes navegados e às ilhas
nunca depois reencontradas onde
as ninfas se entregavam aos guerreiros
enumero os caminhos — e seus nomes celebram
a viagem aos tempos matinais
pois navego
a matina dos tempos onde apenas
o som da lira e os cabelos de Melpômene vestiam
a glória fálica de teu corpo nu
na escritura do chão a memória de meus pés
das serras do Ceará Grande e Mel Redondo
às serras de mel do Himeto — pois pisei
a água e o solo
e não pisei a flor o anjo a oliva
nem os filhos dos homens e odiei
os lugares do ódio e os lugares do sangue
sobre o chão dos algozes me cravei de espinhos
e busco
os caminhos do amor
Esta é a memória de meus pés por onde
a liberdade peregrina
— por onde
as columbas arrulham a paz por onde
os adolescentes colhem
as belas raparigas que adormecem nuas
— por onde
corre o vinho alegre
e os homens
e os deuses
bebem no mesmo copo à saúde dos pássaros
das colinas dos lagos e das árvores
das cidades das ruas — à saúde
dos circunstantes e dos transeuntes:
Até breve, Apolo.
é contígua aos países longínquos:
o prisioneiro é aquele que era livre
o morto o que era vivo
entre o cão e o cano linheiro da espingarda o caçador
alinha o olho sagaz
e a narceja selvagem tomba do azul do céu a asa pendida
de seu fio de sangue — e sempre
por um fio de sangue
Eleutheria
Ariadne convulsa a liberdade encontra
o caminho da morte
— poeta solus poeta tantum —
só o poeta pranteia
sua bela narceja derrubada
na paisagem lacustre:
maldito seja o estampido maldita
seja a mão que afaga o gatilho e a pupila
que endurece à pontaria
maldita seja quando o tiro
quebra as asas aflitas e ao peso
da descarga de chumbo a flor alada
se rebenta no chão e cai
come corpo morto cade
Já peregrinei essas províncias formosas
vi a lua romena sobre os Kárpatos
e as colinas dos Kárpatos onde
os monjes serenos de Sinaia e o pátio
de seu mosteiro sobre
vales e colinas da Transilvânia montada
em sua cítara de nuvens — vi a lua
e a branca mão de Artemis sempre virgem
caçadora de estrelas
fere a noite
no firmamento azul a seta sagrada e pulsa
o coração da luz:
ali quem sabe, Apolo,
para teu rastro um rastro
pois tu mesmo
foras talvez apenas
o buscador de teu próprio rastro
pousam primeiro os olhos no caminho
e ali onde pousaram
pisam os pés nas pupilas onde
ao chão da relva virgem se sugere
o rastro que virá:
e assim andei a Dácia e a Trácia
e o Ponto Euxino e na montanha búlgara
à chama crepitante desse rastro
arderam calcanhares — e o vento
desmanchou em cinza a pulcra perna varonil:
não já sobre teu pé — sobre teu rastro
se lança o corpo divino
as estrelas desabrochavam da terra, Jonathan,
e os firmamentos caíam dentro de um
oceano de jardins:
pois consultei as rosas de outono da Bulgária
e os cravos de Istambul e naveguei
o Bósforo o Mar Negro e o Mar de Mármara
esse Ponto Euxino onde Ovídio
Publius Ovidius Naso poeta fuit — e velejei
as costas da Dardânia onde foi Troia onde
Heitor domava os cavalos e onde
a corda de tua lira regia a lança
do mais doce dos homens
— do guerreiro puro —
Naveguei o Adriático e o Tirreno
o Egeu e o Mar da Jônia e o Atlântico e o Pacífico
e as ilhas e as antilhas
e o mar do Caribe e o Mar do Norte e o Mar
Mediterrâneo e o meio das terras
e as terras ignotas e as terras filiorum dei
e cavalguei o lombo do Ontário o São Lourenço
e o Amazonas e o São Francisco e o Mississipi
e o Paraguai e o Paraná e o Prata
e as cataratas e os outros lagos e os outros rios
o Danúbio e o Tibre o Jaguaribe e o Sena
e o Pó e a ribeira do Arno por onde
caminhava o poeta e o Reno e o Meno por onde
cantava o demente divino e o Tejo de onde
celebrava Camões as caravelas rumo
aos mares nunca dantes navegados e às ilhas
nunca depois reencontradas onde
as ninfas se entregavam aos guerreiros
enumero os caminhos — e seus nomes celebram
a viagem aos tempos matinais
pois navego
a matina dos tempos onde apenas
o som da lira e os cabelos de Melpômene vestiam
a glória fálica de teu corpo nu
na escritura do chão a memória de meus pés
das serras do Ceará Grande e Mel Redondo
às serras de mel do Himeto — pois pisei
a água e o solo
e não pisei a flor o anjo a oliva
nem os filhos dos homens e odiei
os lugares do ódio e os lugares do sangue
sobre o chão dos algozes me cravei de espinhos
e busco
os caminhos do amor
Esta é a memória de meus pés por onde
a liberdade peregrina
— por onde
as columbas arrulham a paz por onde
os adolescentes colhem
as belas raparigas que adormecem nuas
— por onde
corre o vinho alegre
e os homens
e os deuses
bebem no mesmo copo à saúde dos pássaros
das colinas dos lagos e das árvores
das cidades das ruas — à saúde
dos circunstantes e dos transeuntes:
Até breve, Apolo.
1 007
Gerardo Mello Mourão
Estivemos oito dias esperando
Estivemos oito dias esperando
por um bergantim
de nossa companhia se perdera: como não veio
mandou o Capitão pôr uma cruz na ilha e nela
atada
uma carta emburilhada em cera
e nela
dizia ao Capitão do bergantim
o que fizesse vindo ali ter:
e emburilhada em cera e mel
fincada com punhal no coração
esta é uma carta, amor, é teu canto de morte —
epitáfio
da primavera:
naquela madrugada
do Hospital dos Espanhóis:
quando teus olhos foram se afundando
na doce caravela de teu corpo,
a herança
de um quinhão de luz tocou aos meus e a camarinha
doou ao coração sua parte de ar
e no formal de partilha o silêncio
era só meu e o rumor
de uma voz — individido —
sucedeu ao ouvido solitário:
o amante da amada morta tem um ouvido a mais
et video cherubim ac seraphim
et audio:
no rádio de Paquita o tango de ontem
é agora mais forte sobre a rua
Benjamim Constant e no Largo da Glória, ó Paulo Flerrúng,
as merencórias putas são mais tristes
batem mais os relógios pela madrugada no sobrado
de Alice
e no bar do Soares se contemplam mais
as cadeiras espectantes:
partiu quem repartia
comigo o ar e a luz e o silêncio e o rumor
e de ar e de luz e de silêncio e vozes
resultou, amor, mais rico o teu cantor — e agora
resta
percorrer teu inventário e nele
a doação de um anel, de uma estrela,
de um céu de agosto e a promessa
da resposta ao beijo na defunta boca — e quem
pudera cantar — que voz se modulara dentro
deste quarto quando
das maçãs do silêncio vive a morte
de teu rosto — na maçã
de teu rosto — pálida rosa entre as outras flores:
pois à pálida rosa submissa
a rosa de ferro do rosto de Albrecht Engels
flor cinérea dos olhos de Heinz Lorenz e outros
guerreiros alemães:
celebravam a princesa morta
e Chagall e Edgar e os cárceres se abriram
requiem para a infanta morta
Guido Corti e Edmondo di Robilant, dos condados
de Veneza:
à pálida rosa respondia a flor
de mármore do rosto dos fidalgos de Itália
e Enrico Marchesini era florentino e chorava
e Amleto Albieri era vêneto — e chorava
e George Blass, o formoso velho, era do sul da
Alemanha — e chorava
e celebrava a lágrima o melhor azul de seus olhos
renanos
e Meyer-Clason viera da Westphalia — e chorava
os sinos dobraram nas lpueiras e entre os poetas
— entre
Marcos Konder e os outros — entre bons ladrões
bons assassinos tomados de doçura — e
a doçura
pungira o duro olhar de Manoel Bento e o belo
inesquecido rosto de Frau Malik — viera de Bonn
am Rheín e chorava
erue, Domine, trenavam vozes
Padre Frederico Prfllwitz — viera da Prússia e
chorava
viera o Padre Fernando do Rio Comprido — e
chorava
e Frei Meinulfo da Baviera e chorava
e o Padre José — de Turim — e chorava
e Monsenhor Felício Magaldi era napolitano e
chorava
e o Padre Waldir era alagoano — e chorava
e o grande rosto compassivo de Castro Pinto —
chorava.
Naquela tarde sobre o lgarapé das Almas no país
do Pará
a velha Maria Cândida sentiu um nó nas entranhas
transfigurou-se de súbito à beira das águas e
clamou a Manuel e Lourdes e Antônio e
João e Zaida
e aos vizinhos atônitos
apontando a vitória-régia que se afundava nas
águas ao terral de junho:
— Magdalena está morrendo — é a flor
da morte no rosto da princesa" —
e no rosto
mongol do velho pai, da velha mãe
no igarapé dos olhos dourados
a pétala da morta desmaiava.
Pois canto agora sua sombra:
já rosa entre as mulheres — conhecido
foi seu corpo ao macho à borboleta ao óleo-santo
e à manjerona em flor:
entre formas
de brisa e moldes de luar
é lida a sua forma — e sabe dela
a raiz da relva — e à volta
das hortelãs cheirosas
Yugo Kusakabe — era japonês — e chorava
e lavrou-lhe a pedra da sepultura e por ali
sei o caminho do homem em sua mocidade.
Sentado junto à Ponte Vecchio o poeta
examinava o mapa de Eleusis e ensinava aos pés
várzea, lezíria e vertentes do monte
e a lira de Tibulo a tiracolo
pastor da morte a morte o pastoreia
venho de onde para onde parto
Madgalena
da raça dos Mourões
na adega do sepulcro amadurece
a ancoreta do vinho desejado —
sou o axnante de bronze: da espada empunho os
copos
e nos copos de seu vinho com a ponta da espada
mergulhe a macerar-se o coração
e da romã partida
regale-se na lágrima a semente
de amor e morte para sempre
esparzida em teu vôo
E as amantes na alcova e os algozes no ergástulo e
o confessor na extrema-unção e o médico
na autópsia sobre o peito hão de
encontrar-me
de teu pássaro e teu nome a tatuagem azul
.........................
(e ainda cantarei de ti)
.....................
E foi o funeral — esse — de Magdalena domadora
de coração
nas moradas altas do cemitério — testemunha
Efraín — e uma palmeira
cresceu de súbito de sua fina cintura — lembra
Bárbara —
e seu jeito guarda
na boca desse frade alemão
nome de milagre —
good night, sweet Princess,
amadures
no chão da sepultura
e da haste do florido corpo
nas auroras eternas
te encontrarei, formosa, e a mão
arredondada às curvas morenas
macia de madeixas a mão
demorarei no fruto de teu rosto
e à luz dos olhos
põe-te um vestido verde
por formosura
como a pera
quando madura.
por um bergantim
de nossa companhia se perdera: como não veio
mandou o Capitão pôr uma cruz na ilha e nela
atada
uma carta emburilhada em cera
e nela
dizia ao Capitão do bergantim
o que fizesse vindo ali ter:
e emburilhada em cera e mel
fincada com punhal no coração
esta é uma carta, amor, é teu canto de morte —
epitáfio
da primavera:
naquela madrugada
do Hospital dos Espanhóis:
quando teus olhos foram se afundando
na doce caravela de teu corpo,
a herança
de um quinhão de luz tocou aos meus e a camarinha
doou ao coração sua parte de ar
e no formal de partilha o silêncio
era só meu e o rumor
de uma voz — individido —
sucedeu ao ouvido solitário:
o amante da amada morta tem um ouvido a mais
et video cherubim ac seraphim
et audio:
no rádio de Paquita o tango de ontem
é agora mais forte sobre a rua
Benjamim Constant e no Largo da Glória, ó Paulo Flerrúng,
as merencórias putas são mais tristes
batem mais os relógios pela madrugada no sobrado
de Alice
e no bar do Soares se contemplam mais
as cadeiras espectantes:
partiu quem repartia
comigo o ar e a luz e o silêncio e o rumor
e de ar e de luz e de silêncio e vozes
resultou, amor, mais rico o teu cantor — e agora
resta
percorrer teu inventário e nele
a doação de um anel, de uma estrela,
de um céu de agosto e a promessa
da resposta ao beijo na defunta boca — e quem
pudera cantar — que voz se modulara dentro
deste quarto quando
das maçãs do silêncio vive a morte
de teu rosto — na maçã
de teu rosto — pálida rosa entre as outras flores:
pois à pálida rosa submissa
a rosa de ferro do rosto de Albrecht Engels
flor cinérea dos olhos de Heinz Lorenz e outros
guerreiros alemães:
celebravam a princesa morta
e Chagall e Edgar e os cárceres se abriram
requiem para a infanta morta
Guido Corti e Edmondo di Robilant, dos condados
de Veneza:
à pálida rosa respondia a flor
de mármore do rosto dos fidalgos de Itália
e Enrico Marchesini era florentino e chorava
e Amleto Albieri era vêneto — e chorava
e George Blass, o formoso velho, era do sul da
Alemanha — e chorava
e celebrava a lágrima o melhor azul de seus olhos
renanos
e Meyer-Clason viera da Westphalia — e chorava
os sinos dobraram nas lpueiras e entre os poetas
— entre
Marcos Konder e os outros — entre bons ladrões
bons assassinos tomados de doçura — e
a doçura
pungira o duro olhar de Manoel Bento e o belo
inesquecido rosto de Frau Malik — viera de Bonn
am Rheín e chorava
erue, Domine, trenavam vozes
Padre Frederico Prfllwitz — viera da Prússia e
chorava
viera o Padre Fernando do Rio Comprido — e
chorava
e Frei Meinulfo da Baviera e chorava
e o Padre José — de Turim — e chorava
e Monsenhor Felício Magaldi era napolitano e
chorava
e o Padre Waldir era alagoano — e chorava
e o grande rosto compassivo de Castro Pinto —
chorava.
Naquela tarde sobre o lgarapé das Almas no país
do Pará
a velha Maria Cândida sentiu um nó nas entranhas
transfigurou-se de súbito à beira das águas e
clamou a Manuel e Lourdes e Antônio e
João e Zaida
e aos vizinhos atônitos
apontando a vitória-régia que se afundava nas
águas ao terral de junho:
— Magdalena está morrendo — é a flor
da morte no rosto da princesa" —
e no rosto
mongol do velho pai, da velha mãe
no igarapé dos olhos dourados
a pétala da morta desmaiava.
Pois canto agora sua sombra:
já rosa entre as mulheres — conhecido
foi seu corpo ao macho à borboleta ao óleo-santo
e à manjerona em flor:
entre formas
de brisa e moldes de luar
é lida a sua forma — e sabe dela
a raiz da relva — e à volta
das hortelãs cheirosas
Yugo Kusakabe — era japonês — e chorava
e lavrou-lhe a pedra da sepultura e por ali
sei o caminho do homem em sua mocidade.
Sentado junto à Ponte Vecchio o poeta
examinava o mapa de Eleusis e ensinava aos pés
várzea, lezíria e vertentes do monte
e a lira de Tibulo a tiracolo
pastor da morte a morte o pastoreia
venho de onde para onde parto
Madgalena
da raça dos Mourões
na adega do sepulcro amadurece
a ancoreta do vinho desejado —
sou o axnante de bronze: da espada empunho os
copos
e nos copos de seu vinho com a ponta da espada
mergulhe a macerar-se o coração
e da romã partida
regale-se na lágrima a semente
de amor e morte para sempre
esparzida em teu vôo
E as amantes na alcova e os algozes no ergástulo e
o confessor na extrema-unção e o médico
na autópsia sobre o peito hão de
encontrar-me
de teu pássaro e teu nome a tatuagem azul
.........................
(e ainda cantarei de ti)
.....................
E foi o funeral — esse — de Magdalena domadora
de coração
nas moradas altas do cemitério — testemunha
Efraín — e uma palmeira
cresceu de súbito de sua fina cintura — lembra
Bárbara —
e seu jeito guarda
na boca desse frade alemão
nome de milagre —
good night, sweet Princess,
amadures
no chão da sepultura
e da haste do florido corpo
nas auroras eternas
te encontrarei, formosa, e a mão
arredondada às curvas morenas
macia de madeixas a mão
demorarei no fruto de teu rosto
e à luz dos olhos
põe-te um vestido verde
por formosura
como a pera
quando madura.
1 247
Moreira Campos
Natureza
Sento-me no silêncio
e apalpo a natureza.
A cantilena eterna da água,
que tem raízes límpidas
e misteriosas.
Nasce não sei onde,
vem de entranhas
antigas como o tempo
e desce em cachos de espuma.
Vem branda a brisa
e fresca como um bálsamo.
Mil cigarras que explodem
em concerto único.
O canto longínquo do pássaro não identificado
(mas um pássaro).
O baque surdo da fruta
na legitimidade do seu amadurecimento.
Todos os ruídos
estão milenarmente impregnados no homem
como uma memória platônica.
Sons honestos.
Uma herança,
uma identificação,
ou sinfonia.
Nada resulta do petróleo
ou é conquista do plástico.
Não há insultos,
não há agressões à natureza.
Sobretudo ninguém
que me perturbe esse recolhimento.
Somente o silêncio.
e apalpo a natureza.
A cantilena eterna da água,
que tem raízes límpidas
e misteriosas.
Nasce não sei onde,
vem de entranhas
antigas como o tempo
e desce em cachos de espuma.
Vem branda a brisa
e fresca como um bálsamo.
Mil cigarras que explodem
em concerto único.
O canto longínquo do pássaro não identificado
(mas um pássaro).
O baque surdo da fruta
na legitimidade do seu amadurecimento.
Todos os ruídos
estão milenarmente impregnados no homem
como uma memória platônica.
Sons honestos.
Uma herança,
uma identificação,
ou sinfonia.
Nada resulta do petróleo
ou é conquista do plástico.
Não há insultos,
não há agressões à natureza.
Sobretudo ninguém
que me perturbe esse recolhimento.
Somente o silêncio.
1 314
Gerardo Mello Mourão
E onde o sítio do desejo? Pois moreno
E onde o sítio do desejo? Pois moreno
e triste sôbolos rios era; ao longe
o país dos Mourões e ao longe
o país de Apolo e para lá me vou nas caravelas
de Pero Lopes de Sousa
e de seus bagos venho.
E as moças de Jaguaribe em lua e cântaro?
Restavam — e era muito — as montanhas de azul
sôbolos rios do país das Gerais e a espera
de medrar-me afinal dos profetas de pedra
"Amós, digamos", Dantas,
que em chão de salmos e escrituras
sangra bela é no cactus a rosa
da peripécia: em vão
lavrada n’água
sôbolos rios a escritura
do canto do exílio se apagava. E onde
o sítio do desejo?
Entre a camisa e a pele
ia brotando a rosa
no coração talvez palpitasse em seu mapa
de uma rosa dos ventos a corola
tersa labareda
sobre o coração.
Ó país das Gerais onde "o cantar
dos galos é terrível na solidão" e onde
terrível é a saudade de umas terras que a tristeza
amua,
saudade de Airuoca onde
andam formigas, Carlos,
no cobertor vermelho de teu pai
e o doutor de Sião por nome Dantas
Dantas Mota vigia a dor no peito e
em vão o guarda o cachecol de seda
quando ao vento montês
instalam-se os soluços e as sanfonas.
Pois cantar de Sião também ali
pastei estrelas: e por longos anos
o exilado sonhava exílios novos
e ao tom dos sinos e à sombra
das cimarrras dos padres professores
suspeitei tua voz: e de que lado
do mundo é que as auroras nascem?
E de muitos outros países me pediram notícias
pois podes pedir-me agora notícias de muitos
outros países
tenho notícias de muitos outros países
— boa romaria faz
quem em sua casa fica em paz —
e mau romeiro há sido o filho dos Mourões
debaixo de seu chapéu fez moradia:
pisando o chão de suas casas
moram uns com seus pés — e sob o céu
populoso das constelações
caminha esta cabeça moradora: e o que mora
de mim são estes
cabelos inocentes e a testa
e os pasmados olhos:
agora tu, Calíope, me ensina
as imagens não vasadas no vasado olho de Luís Vaz
le roi Edipe a peut-être
un oeil de trop
furente Adamastor comeu um olho
ao filho dos Mourões e onde
foi pupila hoje é ruína
de templo e de mansão e às vezes temo
não reste de tanto rosto desejado
senão sobejos na poeira onde rolaram
as cascas de laranja devoradas.
Mas onde o sítio do desejo?
O mar, o mar de Pero nos rolava para terra
e não podíamos surgir
porque o fundo era de pedra
outro dia ao meio-dia fomos dar à praia
ali, achamos uma nau de duzentos tonéis
e uma chalupa de castelhanos e em chegando
nos disseram
como iam ao Rio Maranhão e o capitão
lhes mandou requerer não fossem sôbolo rio
porquanto era de El-Rei Nosso Senhor e dentro
de sua demarcação — ali
tomei o sol em quinze graus e um sesmo
e em se cerrando a noite com muito vento nordeste
o galeão São Vicente perdeu duas âncoras em se
fazendo à vela
e a caravela Príncipe uma
o surgidouro deste porto é todo sujo
já não posso com as velas e o grande mar
arrebenta-me o mastro do traquete pelos
tamboretes
e engole minhas âncoras
abaixamos o mastro um côvado
pusemos-lhe umas emmes
e com arrataduras o corregemos
o melhor que podemos e gastamos
todo o dia em correger o mastro — mas onde
o sítio do desejo? Demorava-me, verde,
o Cabo Verde ao nordeste e tomava
da quarta do norte, e roxo
o Cabo Roxo a lesnordeste e demorava-me
a Serra Leoa a leste e à quarta do nordeste
fazíamos o caminho a sulsueste:
neste dia nos morreu um homem
o dia todo estivemos sem vento até o quarto da
modorra
e de noite, ao quarto da prima
nos deu uma trovoada de sueste e outra de nordeste
com muito vento e água e relâmpagos.
Naveguei navegamos
água vento relâmpago
entrâncias do labirinto de Gerardo
quartos de primas — Dora, Mariana, onde eram
doces tempestades e caminhos
do sítio do desejo
quartos da modorra depois:
todo animal entristece
depois do coito.
Gran força de vento nos fez
amainar de romania as velas
tomei o sol em dois graus: demorava-me
a ilha de Fernão de Loronha ao suleste
e ao sudoeste demorava
o Cabo de Santo Agostinho o olhar de Santa Mônica
nesta paragem correm as águas aloesnoroeste
e em certos tempos correm mais
assim que nesta paragem a pilotagem é incerta:
por experiência verdadeira
para saberdes se estais de barvalento ou de
julavento
da ilha de Fernão de Loronha
quando estais de barlavento vereis muitas aves
— os mais
rebiforcados e alcatrazes pretos
e de julavento vereis
mui poucas aves e as que virdes serão
alcatrazes brancos
e o mar é mui chão:
entre alcatrazes pretos
e alcatrazes brancos
por mar mui chão
por muito chão de mar
por mar e chão de chãs de terra de Alagoas
às vezes a um tiro de falcão do abismo
se arrisca à peripécia de Gerardo
e incerta é a pilotagem do perigo e Raul
e Efrain e Abdias e Godo e Napoleão
e os outros capitães, Francisco,
tapavam os olhos com a mão
sacudiam a cabeça e tremiam pelo navegante
cheios de misericórdia e terror:
"Carlos — diziam — Carlos, o temerário"—
e era Gerardo entrando, amor,
Gerardo em seu labirinto
e cada qual teria o seu: jogava
Juan y su laberinto
de papel
Agustín y su laberinto
de farsa
Godo y su laberinto
de estrelas
Abdias e seu labirinto
de bocetas
Francisco e seu labirinto
de anjos e Tomás
e seu labirinto de maçã
e vai morrer mordendo a fruta
do primeiro Adão
Tomás talvez o último Adão
mordendo a sua fruta e a fruta
de todos esses labirintos
tem o mesmo sabor o mesmo aroma:
assim, digamos, Gerardo
em seu labirinto navegava
farsa estrela papel bocetas anjos e maçãs
Mas onde o sítio do desejo?
e triste sôbolos rios era; ao longe
o país dos Mourões e ao longe
o país de Apolo e para lá me vou nas caravelas
de Pero Lopes de Sousa
e de seus bagos venho.
E as moças de Jaguaribe em lua e cântaro?
Restavam — e era muito — as montanhas de azul
sôbolos rios do país das Gerais e a espera
de medrar-me afinal dos profetas de pedra
"Amós, digamos", Dantas,
que em chão de salmos e escrituras
sangra bela é no cactus a rosa
da peripécia: em vão
lavrada n’água
sôbolos rios a escritura
do canto do exílio se apagava. E onde
o sítio do desejo?
Entre a camisa e a pele
ia brotando a rosa
no coração talvez palpitasse em seu mapa
de uma rosa dos ventos a corola
tersa labareda
sobre o coração.
Ó país das Gerais onde "o cantar
dos galos é terrível na solidão" e onde
terrível é a saudade de umas terras que a tristeza
amua,
saudade de Airuoca onde
andam formigas, Carlos,
no cobertor vermelho de teu pai
e o doutor de Sião por nome Dantas
Dantas Mota vigia a dor no peito e
em vão o guarda o cachecol de seda
quando ao vento montês
instalam-se os soluços e as sanfonas.
Pois cantar de Sião também ali
pastei estrelas: e por longos anos
o exilado sonhava exílios novos
e ao tom dos sinos e à sombra
das cimarrras dos padres professores
suspeitei tua voz: e de que lado
do mundo é que as auroras nascem?
E de muitos outros países me pediram notícias
pois podes pedir-me agora notícias de muitos
outros países
tenho notícias de muitos outros países
— boa romaria faz
quem em sua casa fica em paz —
e mau romeiro há sido o filho dos Mourões
debaixo de seu chapéu fez moradia:
pisando o chão de suas casas
moram uns com seus pés — e sob o céu
populoso das constelações
caminha esta cabeça moradora: e o que mora
de mim são estes
cabelos inocentes e a testa
e os pasmados olhos:
agora tu, Calíope, me ensina
as imagens não vasadas no vasado olho de Luís Vaz
le roi Edipe a peut-être
un oeil de trop
furente Adamastor comeu um olho
ao filho dos Mourões e onde
foi pupila hoje é ruína
de templo e de mansão e às vezes temo
não reste de tanto rosto desejado
senão sobejos na poeira onde rolaram
as cascas de laranja devoradas.
Mas onde o sítio do desejo?
O mar, o mar de Pero nos rolava para terra
e não podíamos surgir
porque o fundo era de pedra
outro dia ao meio-dia fomos dar à praia
ali, achamos uma nau de duzentos tonéis
e uma chalupa de castelhanos e em chegando
nos disseram
como iam ao Rio Maranhão e o capitão
lhes mandou requerer não fossem sôbolo rio
porquanto era de El-Rei Nosso Senhor e dentro
de sua demarcação — ali
tomei o sol em quinze graus e um sesmo
e em se cerrando a noite com muito vento nordeste
o galeão São Vicente perdeu duas âncoras em se
fazendo à vela
e a caravela Príncipe uma
o surgidouro deste porto é todo sujo
já não posso com as velas e o grande mar
arrebenta-me o mastro do traquete pelos
tamboretes
e engole minhas âncoras
abaixamos o mastro um côvado
pusemos-lhe umas emmes
e com arrataduras o corregemos
o melhor que podemos e gastamos
todo o dia em correger o mastro — mas onde
o sítio do desejo? Demorava-me, verde,
o Cabo Verde ao nordeste e tomava
da quarta do norte, e roxo
o Cabo Roxo a lesnordeste e demorava-me
a Serra Leoa a leste e à quarta do nordeste
fazíamos o caminho a sulsueste:
neste dia nos morreu um homem
o dia todo estivemos sem vento até o quarto da
modorra
e de noite, ao quarto da prima
nos deu uma trovoada de sueste e outra de nordeste
com muito vento e água e relâmpagos.
Naveguei navegamos
água vento relâmpago
entrâncias do labirinto de Gerardo
quartos de primas — Dora, Mariana, onde eram
doces tempestades e caminhos
do sítio do desejo
quartos da modorra depois:
todo animal entristece
depois do coito.
Gran força de vento nos fez
amainar de romania as velas
tomei o sol em dois graus: demorava-me
a ilha de Fernão de Loronha ao suleste
e ao sudoeste demorava
o Cabo de Santo Agostinho o olhar de Santa Mônica
nesta paragem correm as águas aloesnoroeste
e em certos tempos correm mais
assim que nesta paragem a pilotagem é incerta:
por experiência verdadeira
para saberdes se estais de barvalento ou de
julavento
da ilha de Fernão de Loronha
quando estais de barlavento vereis muitas aves
— os mais
rebiforcados e alcatrazes pretos
e de julavento vereis
mui poucas aves e as que virdes serão
alcatrazes brancos
e o mar é mui chão:
entre alcatrazes pretos
e alcatrazes brancos
por mar mui chão
por muito chão de mar
por mar e chão de chãs de terra de Alagoas
às vezes a um tiro de falcão do abismo
se arrisca à peripécia de Gerardo
e incerta é a pilotagem do perigo e Raul
e Efrain e Abdias e Godo e Napoleão
e os outros capitães, Francisco,
tapavam os olhos com a mão
sacudiam a cabeça e tremiam pelo navegante
cheios de misericórdia e terror:
"Carlos — diziam — Carlos, o temerário"—
e era Gerardo entrando, amor,
Gerardo em seu labirinto
e cada qual teria o seu: jogava
Juan y su laberinto
de papel
Agustín y su laberinto
de farsa
Godo y su laberinto
de estrelas
Abdias e seu labirinto
de bocetas
Francisco e seu labirinto
de anjos e Tomás
e seu labirinto de maçã
e vai morrer mordendo a fruta
do primeiro Adão
Tomás talvez o último Adão
mordendo a sua fruta e a fruta
de todos esses labirintos
tem o mesmo sabor o mesmo aroma:
assim, digamos, Gerardo
em seu labirinto navegava
farsa estrela papel bocetas anjos e maçãs
Mas onde o sítio do desejo?
774
Gerardo Mello Mourão
In illo tempore - 1549
I n illo tempore - 1549
floresciam os machos no pais dos Mourões
e o Padre Manuel da Nóbrega escrevia ao Rei de Portugal:
"mandassem órfãs ou mesmo mulheres erradas, que todas achariam maridos,
por ser a terra larga e grossa"
nem se pecava além do equinócio:
Deus é grande, mas o mato é maior
e nas macegas altas e nos cômoros
nas capoeiras nos valos nas catingas
nos espinheiros no agreste
nas ipueiras no sertão de sol da terra larga e grossa o jesuíta
ultra equinotialem non peccatur
a natureza entregava ao vento terral
com a mesma pureza
o gemido das fêmeas possuídas e o clamor
das seriemas e das cericoias no taboleiro
e eu já te esperava
in illo tempore
e te ensaiava nas órfãs e nas mulheres erradas do Padre Manuel.
Para a alvura de teu corpo
inventei as águas limpas
não te podes banhar em teus Danúbios
teus Arnos e teus Renos e teus Senas onde boiam
catraias e cadáveres:
ao talho deste facão
para a sede de teus lábios
a linfa intata é servida
no mangará das bromélias;
e no ouro das macambiras
a água de prata pura.
floresciam os machos no pais dos Mourões
e o Padre Manuel da Nóbrega escrevia ao Rei de Portugal:
"mandassem órfãs ou mesmo mulheres erradas, que todas achariam maridos,
por ser a terra larga e grossa"
nem se pecava além do equinócio:
Deus é grande, mas o mato é maior
e nas macegas altas e nos cômoros
nas capoeiras nos valos nas catingas
nos espinheiros no agreste
nas ipueiras no sertão de sol da terra larga e grossa o jesuíta
ultra equinotialem non peccatur
a natureza entregava ao vento terral
com a mesma pureza
o gemido das fêmeas possuídas e o clamor
das seriemas e das cericoias no taboleiro
e eu já te esperava
in illo tempore
e te ensaiava nas órfãs e nas mulheres erradas do Padre Manuel.
Para a alvura de teu corpo
inventei as águas limpas
não te podes banhar em teus Danúbios
teus Arnos e teus Renos e teus Senas onde boiam
catraias e cadáveres:
ao talho deste facão
para a sede de teus lábios
a linfa intata é servida
no mangará das bromélias;
e no ouro das macambiras
a água de prata pura.
1 070
Gerardo Mello Mourão
Pelas águas clementes e inclementes navegar
Pelas águas clementes e inclementes navegar
e navegar o chão, a fêmea, a cajazeira
com vento leste sair fora da barra
debaixo da capitânia de Martim Afonso
com Pero Lopes de Souza e de seus bagos venho
antes da era de Úrsula, Alexandre, José e outras
matriarcas e outros patriarcas e aí
começa o labirinto de Gerardo — na era
de Dom Manuel, o Venturoso, pois
por ventura aventura e desventura
ia de capitão de hua armada o governador
da terra do Brasil.
E de que me terei esquecido? Não, por certo,
daquele medo, não daquela dor notuma e as
vacas mugindo
no terror à solidão
de teus pastos e teus céus.
Ficaram num cinzeiro os olhos azuis de Catarina
no cinzeiro de um bar — e de tantas
tantas outras coisas me lembro dia e noite
aquela noite o canto das prostitutas encarceradas
— e o coração,
Demóstenes Gonzalez, o teu, hecho pedazos
e o pedaço de lua aquela noite
no chão do calabouço — e às vezes
Pedro Mota — a morte de Pedro Mota
fulminado quando
cantava sob o chuveiro uma ópera italiana
e a corneta comprada no Ipu e a cartola de meu
pai, a garrucha de bronze de meu avô
e o céu
aberto, mas de súbito
e entra Pedro Mota e sorri
com a cartola de meu pai na delicada mão
e entra Edgar com uma bala no fígado
os santos inocentes acolhidos acenam
e saúdam a gentileza da morte
ao hino de Araci naquela tarde:
não, não me diga adeus.
E de que me terei esquecido? Não, por certo
do tempo em que reinou a calmaria podre
e sem ventar bafo de vento
era mais grosso o mar e ao mar
lancei o prumo e perguntei o fundo
e tomei o fundo com cinqüenta e cinco braças
Tenerife! Tenerife!
tomamos as monetas e mais que o dia
já podia a noite
e pairamos a noite toda até o quarto dalva
demorava-me o Cabo das Tormentas a leste e
depois
barlaventeamos outra noite sem poder cobrar nada
por não poder fazer caminho
e não me esqueço, por certo,
do quintal do Encantado, ribeira e casa
de Araci de Almeida onde o canto dos galos
alongou tua morte
no alanceado coração — e como esqueceria
teus seios olorosos — e da cova deles
bem que rescendiam
e do cravo e da morte os suspeitos aromas:
e ainda cantarei de ti (agora tenho apenas o grande
mar por ló dessa lembrança)
nem mais vela que traquete e mezena
e muito trabalho na capitânia
porque não governava e não governa.
E amainamos a vela e fomos
correndo ao som do mar — até que foi de dia.
E de que me terei esquecido? Não, por certo,
de um cavalo soluçando às estrelas do céu e às
éguas do terreiro
a dor aguda do grande pênis negro
e os cascos do alazão na ladeira da serra
de São Gonçalo dos Mourões
e o bandoneon de Gesu Melo — ou de Josa? —
e a camisa escocesa e a cartucheira e o punhal
e os luminosos olhos
de José Mourão retinindo esporas de prata
na estação de Cratéus — ali a casa de Solon Faria
e a arte de calcular por meio de algarismos
e em sua mão de sábio da comarca ardia um giz
e tantos anos depois, Solon Faria Fllho doutrinava
sobre
a arte de f azer mel por meio das palavras e as
abelhas
rodeavam seus olhos. E de que me terei esquecido?
Não,
por certo, de uma gravata azul
de Aretusa dançando e os seios
de Carmen começando ao olor dos jasmineiros
Maria entre cajus vermelhos e amarelos
D. José Tupinambá da Frota, bispo-conde de Sobral
regendo o sólio e o maestro com sua clarinete
regendo
os tornozelos de Aretusa
e um bonde
varando a madrugada na Tijuca
e tantas outras coisas — e contemplei tremendo
a arte de fazer amor por meio de mágica - o polaco Tadeu
chupando ajoelhado aos pés do marinheiro crioulo
e um carneiro pastando a flor do bogari no quintal
do vigário
e o coldre viril do Colt no cinturão de meu tio e a
elegância
da taça de cristal na poderosa mão de meu avô
e tantas outras coisas — já não sei
se coisas ou lembranças:
possuídas um dia possuíram
o pulso do poeta
inventado e inventor
da memória inventora — e quem soubera
ao andar de Piehin vir de seu corpo
a graça a seu vestido — ou dele
florescer a beleza ao quadril
naquela adolescência?
Não te enxugue em espádua e anca e coxa
a água de beleza em que estes olhos
lavaram tua pele:
vem formosa mulher, camélia pálida,
já do salgado mar a espuma viva
prateia-me a pupila:
é preciso partir e na mão grossa
a enxárcia a vela a cordoalha pedem
um jeito de monção — e à chibata
dos ventos na garupa o barco pede
uma estrela no céu para o caminho à noite:
tu com teus olhos, Vega da Lyra, gema da Coroa
Boreal, estrelas verdes
e de Andrômeda e da Cassiopéia.
Luís de Gonzaga não conhecia o rosto
de Branca de Castela, sua mãe:
nunca fitara um rosto de mulher — os olhos —
ensinava ó Mestre asceta — são
janela da alma e por ali
entram as tentações — e pelos meus
entraram todas:
pungido por olhares fui crescendo:
o melancólico olhar do bisavô em seu retrato
pintado pelo pincel municipal de Raul
Catunda
e a morte na pupila do primo agonizante
e os olhos tristes — o quem te memorem —
desse conde alemão no Castelo de Kronberg, em
Frankfurt
e os teus boiando
constelados de verde à sombra de ouro
da Coroa Boreal de teus cabelos
dorida Berenice
hão de levar os meus por noite e mar. E de que
me terei esquecido? Não,
por certo, do arrepio
na penugem de teu braço quando
atrás de tua orelha era um perfume
farejado; e é preciso desfrutar
a luz, e aos olhos não negar nada na vida e
não perder
cova de seio, pedra de rua, axila e nuca tonsurada
e andorinhas ao céu
de agosto foragidas e dormir
sobre o catálogo palpitante. E de que
me terei esquecido? Não,
por certo, do arrepio
de Claude e Sylvianne e as outras cimitarras
fulgurantes:
aos fascinados olhos transpassavam
de um golpe o coração e tudo
era roteiro — os cegos tocando viola
na feira de Várzea Formosa
os soldados de mosquetão na estrada de Alagoas
e Arlette
ruiva e nua em seu bordel e nas noites de maio
a grinalda da Virgem e os anjos de novena e longa
túnica
e tudo era roteiro e de que banda
do mundo é o sítio do desejo, Capitão?
Soubesse dele e o não cantara
na sanfona saudosa o marinheiro Lorenz
e em sua voz marulhada o dalmata do cargueiro
grego
naquele outubro.
E à quarta do nordeste e à quarta daloeste
pode haver outra vista de terra e por isso
aprendi a pairar a noite toda até o quarto dalva
e também Dalva pairava
as monetas ao léu e o seio em boia e então
barlaventeávamos até o caroço da noite:
no coração marsupial todas as horas
eram nutridas
e volta-se a ampulheta e voltam sempre
os grãos de areia e os grãos
desses nomes de coisas e lugares e pessoas
plantados nas entranhas:
a um tiro da abombarda estão sempre suas ilhas
ao alimpar-se a névoa —
oblivionem oblitus me esqueci de esquecer-me
e aos meus mortos
em vão imolo os bodes vigorosos
e os cantos fúnebres:
do ninho de seus túmulos levantam-se
e ao redor do atônito poeta
cantam a letra
dos próprios epitáfios:
nos alqueires do Inferno ningué
e navegar o chão, a fêmea, a cajazeira
com vento leste sair fora da barra
debaixo da capitânia de Martim Afonso
com Pero Lopes de Souza e de seus bagos venho
antes da era de Úrsula, Alexandre, José e outras
matriarcas e outros patriarcas e aí
começa o labirinto de Gerardo — na era
de Dom Manuel, o Venturoso, pois
por ventura aventura e desventura
ia de capitão de hua armada o governador
da terra do Brasil.
E de que me terei esquecido? Não, por certo,
daquele medo, não daquela dor notuma e as
vacas mugindo
no terror à solidão
de teus pastos e teus céus.
Ficaram num cinzeiro os olhos azuis de Catarina
no cinzeiro de um bar — e de tantas
tantas outras coisas me lembro dia e noite
aquela noite o canto das prostitutas encarceradas
— e o coração,
Demóstenes Gonzalez, o teu, hecho pedazos
e o pedaço de lua aquela noite
no chão do calabouço — e às vezes
Pedro Mota — a morte de Pedro Mota
fulminado quando
cantava sob o chuveiro uma ópera italiana
e a corneta comprada no Ipu e a cartola de meu
pai, a garrucha de bronze de meu avô
e o céu
aberto, mas de súbito
e entra Pedro Mota e sorri
com a cartola de meu pai na delicada mão
e entra Edgar com uma bala no fígado
os santos inocentes acolhidos acenam
e saúdam a gentileza da morte
ao hino de Araci naquela tarde:
não, não me diga adeus.
E de que me terei esquecido? Não, por certo
do tempo em que reinou a calmaria podre
e sem ventar bafo de vento
era mais grosso o mar e ao mar
lancei o prumo e perguntei o fundo
e tomei o fundo com cinqüenta e cinco braças
Tenerife! Tenerife!
tomamos as monetas e mais que o dia
já podia a noite
e pairamos a noite toda até o quarto dalva
demorava-me o Cabo das Tormentas a leste e
depois
barlaventeamos outra noite sem poder cobrar nada
por não poder fazer caminho
e não me esqueço, por certo,
do quintal do Encantado, ribeira e casa
de Araci de Almeida onde o canto dos galos
alongou tua morte
no alanceado coração — e como esqueceria
teus seios olorosos — e da cova deles
bem que rescendiam
e do cravo e da morte os suspeitos aromas:
e ainda cantarei de ti (agora tenho apenas o grande
mar por ló dessa lembrança)
nem mais vela que traquete e mezena
e muito trabalho na capitânia
porque não governava e não governa.
E amainamos a vela e fomos
correndo ao som do mar — até que foi de dia.
E de que me terei esquecido? Não, por certo,
de um cavalo soluçando às estrelas do céu e às
éguas do terreiro
a dor aguda do grande pênis negro
e os cascos do alazão na ladeira da serra
de São Gonçalo dos Mourões
e o bandoneon de Gesu Melo — ou de Josa? —
e a camisa escocesa e a cartucheira e o punhal
e os luminosos olhos
de José Mourão retinindo esporas de prata
na estação de Cratéus — ali a casa de Solon Faria
e a arte de calcular por meio de algarismos
e em sua mão de sábio da comarca ardia um giz
e tantos anos depois, Solon Faria Fllho doutrinava
sobre
a arte de f azer mel por meio das palavras e as
abelhas
rodeavam seus olhos. E de que me terei esquecido?
Não,
por certo, de uma gravata azul
de Aretusa dançando e os seios
de Carmen começando ao olor dos jasmineiros
Maria entre cajus vermelhos e amarelos
D. José Tupinambá da Frota, bispo-conde de Sobral
regendo o sólio e o maestro com sua clarinete
regendo
os tornozelos de Aretusa
e um bonde
varando a madrugada na Tijuca
e tantas outras coisas — e contemplei tremendo
a arte de fazer amor por meio de mágica - o polaco Tadeu
chupando ajoelhado aos pés do marinheiro crioulo
e um carneiro pastando a flor do bogari no quintal
do vigário
e o coldre viril do Colt no cinturão de meu tio e a
elegância
da taça de cristal na poderosa mão de meu avô
e tantas outras coisas — já não sei
se coisas ou lembranças:
possuídas um dia possuíram
o pulso do poeta
inventado e inventor
da memória inventora — e quem soubera
ao andar de Piehin vir de seu corpo
a graça a seu vestido — ou dele
florescer a beleza ao quadril
naquela adolescência?
Não te enxugue em espádua e anca e coxa
a água de beleza em que estes olhos
lavaram tua pele:
vem formosa mulher, camélia pálida,
já do salgado mar a espuma viva
prateia-me a pupila:
é preciso partir e na mão grossa
a enxárcia a vela a cordoalha pedem
um jeito de monção — e à chibata
dos ventos na garupa o barco pede
uma estrela no céu para o caminho à noite:
tu com teus olhos, Vega da Lyra, gema da Coroa
Boreal, estrelas verdes
e de Andrômeda e da Cassiopéia.
Luís de Gonzaga não conhecia o rosto
de Branca de Castela, sua mãe:
nunca fitara um rosto de mulher — os olhos —
ensinava ó Mestre asceta — são
janela da alma e por ali
entram as tentações — e pelos meus
entraram todas:
pungido por olhares fui crescendo:
o melancólico olhar do bisavô em seu retrato
pintado pelo pincel municipal de Raul
Catunda
e a morte na pupila do primo agonizante
e os olhos tristes — o quem te memorem —
desse conde alemão no Castelo de Kronberg, em
Frankfurt
e os teus boiando
constelados de verde à sombra de ouro
da Coroa Boreal de teus cabelos
dorida Berenice
hão de levar os meus por noite e mar. E de que
me terei esquecido? Não,
por certo, do arrepio
na penugem de teu braço quando
atrás de tua orelha era um perfume
farejado; e é preciso desfrutar
a luz, e aos olhos não negar nada na vida e
não perder
cova de seio, pedra de rua, axila e nuca tonsurada
e andorinhas ao céu
de agosto foragidas e dormir
sobre o catálogo palpitante. E de que
me terei esquecido? Não,
por certo, do arrepio
de Claude e Sylvianne e as outras cimitarras
fulgurantes:
aos fascinados olhos transpassavam
de um golpe o coração e tudo
era roteiro — os cegos tocando viola
na feira de Várzea Formosa
os soldados de mosquetão na estrada de Alagoas
e Arlette
ruiva e nua em seu bordel e nas noites de maio
a grinalda da Virgem e os anjos de novena e longa
túnica
e tudo era roteiro e de que banda
do mundo é o sítio do desejo, Capitão?
Soubesse dele e o não cantara
na sanfona saudosa o marinheiro Lorenz
e em sua voz marulhada o dalmata do cargueiro
grego
naquele outubro.
E à quarta do nordeste e à quarta daloeste
pode haver outra vista de terra e por isso
aprendi a pairar a noite toda até o quarto dalva
e também Dalva pairava
as monetas ao léu e o seio em boia e então
barlaventeávamos até o caroço da noite:
no coração marsupial todas as horas
eram nutridas
e volta-se a ampulheta e voltam sempre
os grãos de areia e os grãos
desses nomes de coisas e lugares e pessoas
plantados nas entranhas:
a um tiro da abombarda estão sempre suas ilhas
ao alimpar-se a névoa —
oblivionem oblitus me esqueci de esquecer-me
e aos meus mortos
em vão imolo os bodes vigorosos
e os cantos fúnebres:
do ninho de seus túmulos levantam-se
e ao redor do atônito poeta
cantam a letra
dos próprios epitáfios:
nos alqueires do Inferno ningué
1 097
Gerardo Mello Mourão
Um dia as orquídeas se abriram sobre
Um dia as orquídeas se abriram sobre
olhos oblíquos de Magdalena
antes da âncora da dor numa angra verde
e antes
de partir-se teu rosto da romã
antes, vadio com seu cão e sua flauta
pelos montes o poeta
vadiava e farejava as garrafas de whisky,
a virilha das francesas e eram
baralhos de bacará e roletas de ouro
— a bolinha de marfim
cai no sete
cai no zero
cai no preto
no vermelho
a bolinha de marfim
cai não cai
onde é que cai?
Valencius Wurch, echt deutsch
barão da Pomerânia usava polainas e chapéu
gelô e seu nariz
usava um olho cego de um lado e de outro
um monóculo inútil
e era a glória das namoradas da Rua do Senado
e Monsenhor Manuel Gomes, prelado doméstico
do Papa,
pastoreava o bairro de São Cristóvão
com seu cajado do país da Paraíba
e Manuel Machado, depois doutor em leis, depois
capitão de tropas expedicionárias e herói da Pátria
guardou no coração um estilhaço de granada alemã
e com o belo cravo de sangue de seu peito
visitou a morte num campo da Itália
e tornou, virgem e alegre, à Rua Mem de Sá
e casto ao medo e intemperante ao perigo
o filho dos Mourões
Mourão pastava
adolescentes, cônegos, roletas e janelas de trem
de lira a tiracolo e essas
são notícias da Grécia
do caminho da Grécia
onde às vezes perguntava o sol ao quarto dalva
e Dalva
Dalva Silveira navegava o sargaço nas virilhas
aloeste de seus promontórios trêmulos
dei toda as velas.
Sabia de naus francesas por ali com muita
artilharia e pólvora e abarrotadas de brasil:
fiz a vela no bordo do sul
fui quatro relógios
e ao meio-dia era na esteira da nau
duas léguas dela e não podia cobrar terra
cheguei à nau e primeiro que lhe tirasse
me tirou dois tiros:
antes que fosse noite lhe tirei
três tiros de camelo e três vezes
toda a artilharia: e de noite carregou
tanto o vento lessueste que não pude jogar
senão artelheria meúda — e com ele
pelejamos toda a noite:
em rompendo a alva
mandei um marinheiro ver:
via uma vela — não divisava
se era latina se redonda.
E que me importa a mim que veja ou que não veja
se cumpriu toda
a cerimônia de ver.
E essas são notícias da Grécia
do caminho da Grécia
e o valete bicéfalo tangia
ora a espada ora a lira
ora a esquina ora o mar — e Nilo
Nilo José da Costa achara no subúrbio de
Campo Grande
a lua — e achara seu verdadeiro nome e era
Marcus Sandoval e de suas mãos
antes pendiam o fio da navalha e a tesoura
sábia — e delas
nunca mais rolaram cabelos de macho no salão
de barbeiro rolaram
as mechas da lua fêmea
— lua — disse o vento —
mostra-me a graça feminina
das tuas bailarinas
e ao sopro do luar sussurrando
ao ouvido das árvores quietas
todas as frondes num deslumbramento
bailavam aos levíssimos do vento
o bailado das sombras pelo chão
e Marcus Sandoval penou degredo
na Ilha de Fernando Noronha
Fernam de Loronha a nornordeste
por ouvir o filho dos Mourões
e por tanger espada em vez de cítara
e a morte se hospedou em seus pulmões e dorme
no cemitério de Campo Grande e nunca mais
um soneto foi pedido nos botequins do subúrbio
e nunca mais
o silêncio da noite doeu na serenata
onde andará o violão de José Carlos
e a rouca voz de Orlando Carneiro amigo íntimo
de Jesus Cristo
escande agora em vez da ode os códigos da lei
Meritíssimo Juiz da Vara Cível
trauteia agora a dodecafônica demanda
cite-se o réu — e testemunha
debaixo de vara sou citado
e desde as 7 horas do dia, Pero Lopes, até o sol
posto
pelejamos sempre: a nau me deu dentro
na caravela trinta e dois tiros
quebrou-me muitos aparelhos e rompeu-me
as velas todas:
estando eu assim com a nau tomada chegou
o Capitão Irmão com os outros navios e Francisco
Francisco da Gama Lima
servia o mel e o pão o coração fraterno
de José Ribas e fazia o pelo sinal da santa cruz
com a mesma lágrima e o mesmo mel
junto ao cadáver de Anísio Teixeira
onde era o pranto da filha derelicta.
E vinha a nau do Capitão com Pedro Maranduba
carregado de brasil
trazia muita artelheria e outra muita munição
de guerra
por lhes faltar pólvora se deram —
na nau não demos mais que uma bombarda
com um pedreiro ao lume dágua:
com a artelheria meúda lhe ferimos seis homens
na caravela me não mataram nem feriram
nenhum homem — de que
dei muitas graças ao Senhor Deus.
Noroeste e sulsueste se corria:
ao longo da nau eram tudo barreiras vermelhas
vieram da terra a nado às naus
índios a perguntar-nos
se queríamos Brasil:
carregado de Brasil
quero Brasil e as naus
carregadas de Brasil
se preciso, com muita artilharia e bombarda e ainda
abalroar as naus estrangeiras quebrar
a espada aos coronéis piratas e passá-los
a fio de espada boa e partir
a caminho da Grécia em nossa caravela
abarrotada de Brasil com Pero Lopes de Souza
e de seus bagos venho,
com grande lastro de Brasil.
Ao sair da lua abonançou-se o vento
e era o quarto da prima
formosa
no mar de seus cabelos Dora
Maria Mourão — Dora Correia Lima
no quarto da modorra no Leblon
era meio-dia e parecia noite
e o relâmpago de ouro de teus olhos
cortava a tempestade dos cabelos
e o mar tão grosso me entrava
por todas as partes com
o jogar da nau de ventre liso
Dora afagada à brisa ao faro das narinas:
houve vista de montes
e era mui alta a maravilha
em teu monte de relva
e hoje me faz dela
dez léguas e dez línguas noroleste
a costa se corre nornordeste e susudeste — Dora —
e toda longa ao longo do mar
no sertão serras mui altas e formosas
haverá delas ao mar dez léguas — e a lugares,
menos
e haveria às altas e formosas colinas tuas dez
beijos aos teus seios
e a lugares, menos,
e à noite veio o piloto-mor no esquife e súbito
são dez mil léguas de memória a esses seios
e a lugares, mais.
Perfundo de cinqüenta braças dárea limpa
o cabo de pareel que jaz ao mar
da banda sudoeste aloeste e a tuas partes
loessudoeste:
quando fui fora do parcel
eram serras mui altas sudoeste
sob a cintura túrgidas redondas
à mercê de tomar prumo
e com Mercedes Martins a prumo
vou mordendo a maçã em labirinto e mar
a caminho da Grécia onde esperavam entre
orquídeas
olhos oblíquos de Magdalena.
olhos oblíquos de Magdalena
antes da âncora da dor numa angra verde
e antes
de partir-se teu rosto da romã
antes, vadio com seu cão e sua flauta
pelos montes o poeta
vadiava e farejava as garrafas de whisky,
a virilha das francesas e eram
baralhos de bacará e roletas de ouro
— a bolinha de marfim
cai no sete
cai no zero
cai no preto
no vermelho
a bolinha de marfim
cai não cai
onde é que cai?
Valencius Wurch, echt deutsch
barão da Pomerânia usava polainas e chapéu
gelô e seu nariz
usava um olho cego de um lado e de outro
um monóculo inútil
e era a glória das namoradas da Rua do Senado
e Monsenhor Manuel Gomes, prelado doméstico
do Papa,
pastoreava o bairro de São Cristóvão
com seu cajado do país da Paraíba
e Manuel Machado, depois doutor em leis, depois
capitão de tropas expedicionárias e herói da Pátria
guardou no coração um estilhaço de granada alemã
e com o belo cravo de sangue de seu peito
visitou a morte num campo da Itália
e tornou, virgem e alegre, à Rua Mem de Sá
e casto ao medo e intemperante ao perigo
o filho dos Mourões
Mourão pastava
adolescentes, cônegos, roletas e janelas de trem
de lira a tiracolo e essas
são notícias da Grécia
do caminho da Grécia
onde às vezes perguntava o sol ao quarto dalva
e Dalva
Dalva Silveira navegava o sargaço nas virilhas
aloeste de seus promontórios trêmulos
dei toda as velas.
Sabia de naus francesas por ali com muita
artilharia e pólvora e abarrotadas de brasil:
fiz a vela no bordo do sul
fui quatro relógios
e ao meio-dia era na esteira da nau
duas léguas dela e não podia cobrar terra
cheguei à nau e primeiro que lhe tirasse
me tirou dois tiros:
antes que fosse noite lhe tirei
três tiros de camelo e três vezes
toda a artilharia: e de noite carregou
tanto o vento lessueste que não pude jogar
senão artelheria meúda — e com ele
pelejamos toda a noite:
em rompendo a alva
mandei um marinheiro ver:
via uma vela — não divisava
se era latina se redonda.
E que me importa a mim que veja ou que não veja
se cumpriu toda
a cerimônia de ver.
E essas são notícias da Grécia
do caminho da Grécia
e o valete bicéfalo tangia
ora a espada ora a lira
ora a esquina ora o mar — e Nilo
Nilo José da Costa achara no subúrbio de
Campo Grande
a lua — e achara seu verdadeiro nome e era
Marcus Sandoval e de suas mãos
antes pendiam o fio da navalha e a tesoura
sábia — e delas
nunca mais rolaram cabelos de macho no salão
de barbeiro rolaram
as mechas da lua fêmea
— lua — disse o vento —
mostra-me a graça feminina
das tuas bailarinas
e ao sopro do luar sussurrando
ao ouvido das árvores quietas
todas as frondes num deslumbramento
bailavam aos levíssimos do vento
o bailado das sombras pelo chão
e Marcus Sandoval penou degredo
na Ilha de Fernando Noronha
Fernam de Loronha a nornordeste
por ouvir o filho dos Mourões
e por tanger espada em vez de cítara
e a morte se hospedou em seus pulmões e dorme
no cemitério de Campo Grande e nunca mais
um soneto foi pedido nos botequins do subúrbio
e nunca mais
o silêncio da noite doeu na serenata
onde andará o violão de José Carlos
e a rouca voz de Orlando Carneiro amigo íntimo
de Jesus Cristo
escande agora em vez da ode os códigos da lei
Meritíssimo Juiz da Vara Cível
trauteia agora a dodecafônica demanda
cite-se o réu — e testemunha
debaixo de vara sou citado
e desde as 7 horas do dia, Pero Lopes, até o sol
posto
pelejamos sempre: a nau me deu dentro
na caravela trinta e dois tiros
quebrou-me muitos aparelhos e rompeu-me
as velas todas:
estando eu assim com a nau tomada chegou
o Capitão Irmão com os outros navios e Francisco
Francisco da Gama Lima
servia o mel e o pão o coração fraterno
de José Ribas e fazia o pelo sinal da santa cruz
com a mesma lágrima e o mesmo mel
junto ao cadáver de Anísio Teixeira
onde era o pranto da filha derelicta.
E vinha a nau do Capitão com Pedro Maranduba
carregado de brasil
trazia muita artelheria e outra muita munição
de guerra
por lhes faltar pólvora se deram —
na nau não demos mais que uma bombarda
com um pedreiro ao lume dágua:
com a artelheria meúda lhe ferimos seis homens
na caravela me não mataram nem feriram
nenhum homem — de que
dei muitas graças ao Senhor Deus.
Noroeste e sulsueste se corria:
ao longo da nau eram tudo barreiras vermelhas
vieram da terra a nado às naus
índios a perguntar-nos
se queríamos Brasil:
carregado de Brasil
quero Brasil e as naus
carregadas de Brasil
se preciso, com muita artilharia e bombarda e ainda
abalroar as naus estrangeiras quebrar
a espada aos coronéis piratas e passá-los
a fio de espada boa e partir
a caminho da Grécia em nossa caravela
abarrotada de Brasil com Pero Lopes de Souza
e de seus bagos venho,
com grande lastro de Brasil.
Ao sair da lua abonançou-se o vento
e era o quarto da prima
formosa
no mar de seus cabelos Dora
Maria Mourão — Dora Correia Lima
no quarto da modorra no Leblon
era meio-dia e parecia noite
e o relâmpago de ouro de teus olhos
cortava a tempestade dos cabelos
e o mar tão grosso me entrava
por todas as partes com
o jogar da nau de ventre liso
Dora afagada à brisa ao faro das narinas:
houve vista de montes
e era mui alta a maravilha
em teu monte de relva
e hoje me faz dela
dez léguas e dez línguas noroleste
a costa se corre nornordeste e susudeste — Dora —
e toda longa ao longo do mar
no sertão serras mui altas e formosas
haverá delas ao mar dez léguas — e a lugares,
menos
e haveria às altas e formosas colinas tuas dez
beijos aos teus seios
e a lugares, menos,
e à noite veio o piloto-mor no esquife e súbito
são dez mil léguas de memória a esses seios
e a lugares, mais.
Perfundo de cinqüenta braças dárea limpa
o cabo de pareel que jaz ao mar
da banda sudoeste aloeste e a tuas partes
loessudoeste:
quando fui fora do parcel
eram serras mui altas sudoeste
sob a cintura túrgidas redondas
à mercê de tomar prumo
e com Mercedes Martins a prumo
vou mordendo a maçã em labirinto e mar
a caminho da Grécia onde esperavam entre
orquídeas
olhos oblíquos de Magdalena.
1 068
Herculano Moraes
O rio de minha terra
O rio de minha terra é um deus estranho.
Ele tem braços, dentes, corpo, coração,
muitas vezes homicida,
foi ele quem levou o meu irmão.
É muito calmo o rio de minha terra.
Suas águas são feitas de argila e de mistérios.
Nas solidões das noites enluaradas
a maldição de Crispim desce
sobre as águas encrespadas.
O rio de minha terra é um deus estranho.
Um dia ele deixou o monótono caminhar de corpo mole
para subir as poucas rampas do seu cais.
Foi conhecendo o movimento da cidade,
a pobreza residente nas taperas marginais.
Pois tão irado e tão potente fez-se o rio
que todo um povo se juntou para enfrentá-lo.
Mas ele prosseguiu indiferente,
carregando no seu dorso bois e gente,
até roçados de arroz e de feijão.
Na sua obstinada e galopante caminhada,
destruiu paredes, casas, barricadas,
deixando no percurso mágoa e dor.
Depois subiu os degraus da igreja santa
e postou-se horas sob os pés do Criador.
E desceu devagarinho, até deitar-se
novamente no seu leito.
Mas toda noite o seu olhar de rio
fica boiando sob as luzes da cidade.
Ele tem braços, dentes, corpo, coração,
muitas vezes homicida,
foi ele quem levou o meu irmão.
É muito calmo o rio de minha terra.
Suas águas são feitas de argila e de mistérios.
Nas solidões das noites enluaradas
a maldição de Crispim desce
sobre as águas encrespadas.
O rio de minha terra é um deus estranho.
Um dia ele deixou o monótono caminhar de corpo mole
para subir as poucas rampas do seu cais.
Foi conhecendo o movimento da cidade,
a pobreza residente nas taperas marginais.
Pois tão irado e tão potente fez-se o rio
que todo um povo se juntou para enfrentá-lo.
Mas ele prosseguiu indiferente,
carregando no seu dorso bois e gente,
até roçados de arroz e de feijão.
Na sua obstinada e galopante caminhada,
destruiu paredes, casas, barricadas,
deixando no percurso mágoa e dor.
Depois subiu os degraus da igreja santa
e postou-se horas sob os pés do Criador.
E desceu devagarinho, até deitar-se
novamente no seu leito.
Mas toda noite o seu olhar de rio
fica boiando sob as luzes da cidade.
1 355
Millôr Fernandes
Predestinação
Tinha no nome seu destino líquido: mar, rio e lago.
Pois chamava-se Mário Lago.
Viu a luz sob o signo de Piscis.
Brilhava no céu a constelação de Aquário.
Veio morar no Rio.
Quando discutia, sempre levava um banho.
Pois era um temperamento transbordante.
Sua arte preferida: água-forte.
Seu provérbio predileto: "Quem tem capa, escapa".
Sua piada favorita: "Ser como o rio:
seguir o curso sem deixar o leito".
Pois estudava: engenharia hidráulica.
Quando conheceu uma moça de primeira água.
Foi na onda.
Teve que desistir dos estudos quando
já estava na bica para se formar.
Então arranjou um emprego em Ribeirão das Lajes.
Donde desceu até ser leiteiro.
Encarregado de pôr água no leite.
Ficou noivo e deu à moça uma água marinha.
Mas ela o traiu com um escafandrista.
E fugiu sem dizer água vai.
Foi aquela água.
Desde então ele só vivia na chuva
Virou pau de água.
Portanto, com hidrofobia.
Foi morar numa água furtada.
Deu-lhe água no pulmão.
Rim flutuante.
Água no joelho.
Hidropsia.
Bolha d’água.
Gota.
Catarata.
Morreu afogado.
Pois chamava-se Mário Lago.
Viu a luz sob o signo de Piscis.
Brilhava no céu a constelação de Aquário.
Veio morar no Rio.
Quando discutia, sempre levava um banho.
Pois era um temperamento transbordante.
Sua arte preferida: água-forte.
Seu provérbio predileto: "Quem tem capa, escapa".
Sua piada favorita: "Ser como o rio:
seguir o curso sem deixar o leito".
Pois estudava: engenharia hidráulica.
Quando conheceu uma moça de primeira água.
Foi na onda.
Teve que desistir dos estudos quando
já estava na bica para se formar.
Então arranjou um emprego em Ribeirão das Lajes.
Donde desceu até ser leiteiro.
Encarregado de pôr água no leite.
Ficou noivo e deu à moça uma água marinha.
Mas ela o traiu com um escafandrista.
E fugiu sem dizer água vai.
Foi aquela água.
Desde então ele só vivia na chuva
Virou pau de água.
Portanto, com hidrofobia.
Foi morar numa água furtada.
Deu-lhe água no pulmão.
Rim flutuante.
Água no joelho.
Hidropsia.
Bolha d’água.
Gota.
Catarata.
Morreu afogado.
1 746
Manuel J. Reis
Poema de um náufrago à beira do entendimento
O mar repousa em meus braços, querida!
O mar das coisas que fizemos,
das coisas claras que tantas vezes fomos
e por tão pouco,
das coisas intocáveis,
das coisas líquidas e fatigadas,
e que, no entanto, vivem
no mar que eu e tu fizemos
dos escombros da minha e da tua
memória naufragada.
O mar das coisas que fizemos,
das coisas claras que tantas vezes fomos
e por tão pouco,
das coisas intocáveis,
das coisas líquidas e fatigadas,
e que, no entanto, vivem
no mar que eu e tu fizemos
dos escombros da minha e da tua
memória naufragada.
804
Carlos Anísio Melhor
Elegia para Hart Crane
Escuro é o espaço em que vivemos,
Onde as formas não conseguem penetrar
Ocultamente a noite dos sentidos
Não revela o esforço de se amar.
Desolado em seu ermo ninguém penetrará
O estreito círculo de Poucas sensações
Pois a Ninfa é muda, esquecida a Palavra
Com que Hermes nos faz ressuscitar.
Nem as imagens agora perdidas
Nem o sonho caindo das que ficam
No alto: desejos surdos ao cais do Nunca Mais
Podem a exata forma revelar.
Os que amaram os dias já passados
E nesse escuro poço buscam o devenir,
Fugitivos do Aqui e do Agora,
O porto é navegar.
Luz somente à superfície o sol
E, jacentes, abandonados fomos sob o mar,
Entre Véus de coral — Palavra Oculta
Nos beija os lábios, esquecidos de beijar.
Todo o fundo do mar é tão cruel
Como o esquecido lugar de nossa origem
Somente um filho consegue retornar
Ao seio da mãe que simboliza o Mar.
Onde as formas não conseguem penetrar
Ocultamente a noite dos sentidos
Não revela o esforço de se amar.
Desolado em seu ermo ninguém penetrará
O estreito círculo de Poucas sensações
Pois a Ninfa é muda, esquecida a Palavra
Com que Hermes nos faz ressuscitar.
Nem as imagens agora perdidas
Nem o sonho caindo das que ficam
No alto: desejos surdos ao cais do Nunca Mais
Podem a exata forma revelar.
Os que amaram os dias já passados
E nesse escuro poço buscam o devenir,
Fugitivos do Aqui e do Agora,
O porto é navegar.
Luz somente à superfície o sol
E, jacentes, abandonados fomos sob o mar,
Entre Véus de coral — Palavra Oculta
Nos beija os lábios, esquecidos de beijar.
Todo o fundo do mar é tão cruel
Como o esquecido lugar de nossa origem
Somente um filho consegue retornar
Ao seio da mãe que simboliza o Mar.
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