Poemas neste tema
Mar, Rios e Oceanos
Roberto Pontes
Lamento do Rio Raivoso
Essa água
onde um tronco vai
não é água.
É sangue.
Esse rio que corre
não é rio.
É rei coroado de pontes.
Essas conchas
que servem de leito
não são ostras.
São ossos trazidos dos mangues.
Essa nascente do rio Cocó
só pode ser dois olhos
muito grandes
chorando a vida toda
por ter nascido rio
e não fuzil.
(De Contracanto. Fortaleza: SINedições, 1968)
onde um tronco vai
não é água.
É sangue.
Esse rio que corre
não é rio.
É rei coroado de pontes.
Essas conchas
que servem de leito
não são ostras.
São ossos trazidos dos mangues.
Essa nascente do rio Cocó
só pode ser dois olhos
muito grandes
chorando a vida toda
por ter nascido rio
e não fuzil.
(De Contracanto. Fortaleza: SINedições, 1968)
1 390
Roberto Pontes
Sutil Tecido de Sal e Concha
por Lúcia Helena
Acabo de ler o livro de Robeto Pontes, e a associação que de pronto me ocorre remete-me ao conceito que a Psicanálise tem formulado sobre o texto literário: "escrever é evitar o assassinato do desejo". E se o homem é este ser desejante, espécie de Prometeu acorrentado, de Sísifo que continuamente se debate com a perda de si e do outro, esta associação me ocorre em relação ao texto de Roberto porque ele, de modo explícito, se realiza em consonância com a perspectiva estético-histórica, o amor cortês, no qual o lirismo é tematizado como manifestação do desejo nas suas múltiplas formas: seja na do desejo de escrever sobre o desejo, seja no de viver o desejo como escrita que o perpetua e resgata. Aliás, estas duas perspectivas se interrelacionam e alternam ao longo do livro, num marcante traço erótico. E não seria excessivo afirmar que a personagem central deste texto "desejante" é Eros, captado em todos os seus poros e latências.
Cada poema de Memória Corporal, livro em que até no título se tematiza a palavra se fazendo carne, reafirma incessantemente o ato de amor, através de expressivas e reiteradas metáforas, nas quais a poesia e o ato de escrever se confundem com o ato de fazer amor, num gesto múltiplo de que participam: a natureza, o amante e o objeto amado.
Surpreende-nos a riqueza e simbiose de elementos que a natureza captada pelo poeta congrega, principalmente marinhos: "Nessas águas de sal marinho/ há cogumelos, enguias, hipocampos/ nenúfares, ventosas e anêmonas" ("Há Solstício Tropical"). A natureza ora se manifesta participante, à maneira das canções de amigo, em que as personagens e o amor aderem ao cenário, chegando a ganhar suas espécies o nome da paisagem em que decorre tanto a espera quanto o encontro ou a realização do amor. Ora se torna confidente, à maneira dos românticos, em que a ambiência tende ao lunar, ao silêncio, ao melancólico; ora, ainda, se mostra contundente, ao remeter, de modo inesperado, a correlações semânticas que instalam uma carga corrosiva, através das quais marca-se uma ruptura com o clima idílico predominante na obra: "Nos teus colares de coral rochoso/ os sátiros fecundam salamandras/ e entre moluscos de anemia e cloro/ ejaculo gasolina incendiária." ("Há Solstício Tropical").
As personagens – tanto o amante como seu objeto amado – são apresentadas com tal capacidade de metamorfose que, a todo momento, a personagem masculina, como "fauno" de inesgotável sensualidade, se transforma em objetos fálicos, através dos quais se desloca o significante ( a "marca" do desejo ) que percorre e constitui o verbo lírico: flechas, girassóis de amianto, dedos de aço e lua, dedos de sol e ferro – são algumas das "máscaras" poéticas desse Eros irrequieto que celebra o amor e tem sabor de sal. E sua "ninfa" metamorfoseia-se em pétala, terra, água e concha, no que o poeta retoma a imagem da flor-mulher, tão cara aos líricos, e os mitos do elemento fecundável, quer seja a terra a salgar, já que o amante é sal; quer seja a da concha do mar, que ao sal também converge: "Tu me dirás que sou forte/ e tenho sabor de sal/ (...) / Eu te direi que és lisa/ e polida como uma concha" ("Este Nosso Encantamento").
E porque o texto se faz porta-voz de Eros, o desejo a todo instante também se metamorfoseia e desloca, transmudado em pássaro, gaivota, corda que vibra, corcel, raio e punhal – ao se referir à amada, numa sugestão de atividade/passividade, penetração/profundidade, na qual se expressa, de modo icônico, um determinado conceito da sexualidade masculina/feminina. Eis, então, que a mulher é apresentada, no texto, como motivo de desejo, impulsionada pela latência e espera, e o homem como o gesto que emite aquele que se apossa: "Passa por mim a sensação da posse/ que me atormenta e dói como um segredo/ e vem com os passos de animal ferido/ nas vísceras, nos nervos e no peito" ("Poema da Posse"); ou ainda: "e agora, ouve, / cantarei assim: / lábios de maçã suave,/ mãos próprias e cabíveis nas minhas,/ eu sou a fúria que desfecha golpes,/ eu sou aquele que conhece os prazeres" ("Faltando Leite, Faltando Pão").
Desde "Cinco Prelúdios" até "Epitáfio", respectivamente o primeiro e o último poemas do livro, os temas da fecundação e da cópula se anunciam e tomam a forma da imagem de um sonho circular, no qual uma pétala é engravidada pelo pingo morno que lhe afoga o ventre e se faz "liberto, líquido, livre", ao acender-se a chama do amor pelos dedos da amiga, que lampejam na noite fria. Se isto é o que se tematiza no primeiro poema, que dá ensejo à abertura do ciclo da fecundação amorosa, no último texto – discurso da memória que flui – há o desdobramento final do ciclo que evolui ao longo do livro, e "Aqui jaz o amor um dia dito". E, com resta morto o amor, cabe à palavra poética resgatá-lo.
Este ciclo – fecundação/paixão/morte/resgate – do amor justifica o título da obra: Memória Corporal, além de explicitar o sentido que o poeta atribui ao termo memória. Este é apresentado, no texto de Roberto Pontes, como uma tentativa de se apreender, surpreender e suspender o tempo. Memória como instância que torna possível ao homem resgatar, do círculo inexorável e destrutivo de vida/morte, tanto o sentimento quanto as coisas. Como se a poesia, fazendo-se na cumplicidade com a memória, se tornasse uma "verdade indestrutível" e perpetuasse, para além de Cronos, a viagem de Eros.
Uma viagem lírica, em que a beleza do efeito rítmico-sonoro a todo momento nos relembra as melhores realizações da poesia lírica, dos cancioneiros ao hoje. Uma viagem de sensibilidade que nos penetra mansamente, à maneira do amor, e outras vezes avidamente, à maneira da paixão.
Esta obra do poeta cearense Roberto Pontes, que tece o amor no traço do homem e do nome, se apresenta como uma das melhores realizações da poesia lírica contemporânea. E, acredito e desejo, ocupará seu lugar.
LÚCIA HELENA é Mestre em Teoria Literária e Doutora em Letras
pela UFRJ. Professora de Literatura da Universidade Federal
Fluminense e de Teoria da Literatura na UFRJ. Professora
conferencista nas Universidades de Lisboa (Portugal),
Pavia e Bérgamo (Itália). Ensaísta e crítica literária tem
colaborado com publicações especializadas, entre as quais:
revista Colóquio/Letras (Portugal); Revista de Cultura Vozes
Petróplis/RJ) e Revista Tempo Brasileiro (RJ). É autora de
A Cosmo-Agonia de Augusto dos Anjos (Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro),
Uma Literatura Antropofágica (Rio de Janeiro/Brasília: Cátedra/INL, 1982)
e Modernismo Brasileiro e Vanguarda (São Paulo: Ática, 1996).
Acabo de ler o livro de Robeto Pontes, e a associação que de pronto me ocorre remete-me ao conceito que a Psicanálise tem formulado sobre o texto literário: "escrever é evitar o assassinato do desejo". E se o homem é este ser desejante, espécie de Prometeu acorrentado, de Sísifo que continuamente se debate com a perda de si e do outro, esta associação me ocorre em relação ao texto de Roberto porque ele, de modo explícito, se realiza em consonância com a perspectiva estético-histórica, o amor cortês, no qual o lirismo é tematizado como manifestação do desejo nas suas múltiplas formas: seja na do desejo de escrever sobre o desejo, seja no de viver o desejo como escrita que o perpetua e resgata. Aliás, estas duas perspectivas se interrelacionam e alternam ao longo do livro, num marcante traço erótico. E não seria excessivo afirmar que a personagem central deste texto "desejante" é Eros, captado em todos os seus poros e latências.
Cada poema de Memória Corporal, livro em que até no título se tematiza a palavra se fazendo carne, reafirma incessantemente o ato de amor, através de expressivas e reiteradas metáforas, nas quais a poesia e o ato de escrever se confundem com o ato de fazer amor, num gesto múltiplo de que participam: a natureza, o amante e o objeto amado.
Surpreende-nos a riqueza e simbiose de elementos que a natureza captada pelo poeta congrega, principalmente marinhos: "Nessas águas de sal marinho/ há cogumelos, enguias, hipocampos/ nenúfares, ventosas e anêmonas" ("Há Solstício Tropical"). A natureza ora se manifesta participante, à maneira das canções de amigo, em que as personagens e o amor aderem ao cenário, chegando a ganhar suas espécies o nome da paisagem em que decorre tanto a espera quanto o encontro ou a realização do amor. Ora se torna confidente, à maneira dos românticos, em que a ambiência tende ao lunar, ao silêncio, ao melancólico; ora, ainda, se mostra contundente, ao remeter, de modo inesperado, a correlações semânticas que instalam uma carga corrosiva, através das quais marca-se uma ruptura com o clima idílico predominante na obra: "Nos teus colares de coral rochoso/ os sátiros fecundam salamandras/ e entre moluscos de anemia e cloro/ ejaculo gasolina incendiária." ("Há Solstício Tropical").
As personagens – tanto o amante como seu objeto amado – são apresentadas com tal capacidade de metamorfose que, a todo momento, a personagem masculina, como "fauno" de inesgotável sensualidade, se transforma em objetos fálicos, através dos quais se desloca o significante ( a "marca" do desejo ) que percorre e constitui o verbo lírico: flechas, girassóis de amianto, dedos de aço e lua, dedos de sol e ferro – são algumas das "máscaras" poéticas desse Eros irrequieto que celebra o amor e tem sabor de sal. E sua "ninfa" metamorfoseia-se em pétala, terra, água e concha, no que o poeta retoma a imagem da flor-mulher, tão cara aos líricos, e os mitos do elemento fecundável, quer seja a terra a salgar, já que o amante é sal; quer seja a da concha do mar, que ao sal também converge: "Tu me dirás que sou forte/ e tenho sabor de sal/ (...) / Eu te direi que és lisa/ e polida como uma concha" ("Este Nosso Encantamento").
E porque o texto se faz porta-voz de Eros, o desejo a todo instante também se metamorfoseia e desloca, transmudado em pássaro, gaivota, corda que vibra, corcel, raio e punhal – ao se referir à amada, numa sugestão de atividade/passividade, penetração/profundidade, na qual se expressa, de modo icônico, um determinado conceito da sexualidade masculina/feminina. Eis, então, que a mulher é apresentada, no texto, como motivo de desejo, impulsionada pela latência e espera, e o homem como o gesto que emite aquele que se apossa: "Passa por mim a sensação da posse/ que me atormenta e dói como um segredo/ e vem com os passos de animal ferido/ nas vísceras, nos nervos e no peito" ("Poema da Posse"); ou ainda: "e agora, ouve, / cantarei assim: / lábios de maçã suave,/ mãos próprias e cabíveis nas minhas,/ eu sou a fúria que desfecha golpes,/ eu sou aquele que conhece os prazeres" ("Faltando Leite, Faltando Pão").
Desde "Cinco Prelúdios" até "Epitáfio", respectivamente o primeiro e o último poemas do livro, os temas da fecundação e da cópula se anunciam e tomam a forma da imagem de um sonho circular, no qual uma pétala é engravidada pelo pingo morno que lhe afoga o ventre e se faz "liberto, líquido, livre", ao acender-se a chama do amor pelos dedos da amiga, que lampejam na noite fria. Se isto é o que se tematiza no primeiro poema, que dá ensejo à abertura do ciclo da fecundação amorosa, no último texto – discurso da memória que flui – há o desdobramento final do ciclo que evolui ao longo do livro, e "Aqui jaz o amor um dia dito". E, com resta morto o amor, cabe à palavra poética resgatá-lo.
Este ciclo – fecundação/paixão/morte/resgate – do amor justifica o título da obra: Memória Corporal, além de explicitar o sentido que o poeta atribui ao termo memória. Este é apresentado, no texto de Roberto Pontes, como uma tentativa de se apreender, surpreender e suspender o tempo. Memória como instância que torna possível ao homem resgatar, do círculo inexorável e destrutivo de vida/morte, tanto o sentimento quanto as coisas. Como se a poesia, fazendo-se na cumplicidade com a memória, se tornasse uma "verdade indestrutível" e perpetuasse, para além de Cronos, a viagem de Eros.
Uma viagem lírica, em que a beleza do efeito rítmico-sonoro a todo momento nos relembra as melhores realizações da poesia lírica, dos cancioneiros ao hoje. Uma viagem de sensibilidade que nos penetra mansamente, à maneira do amor, e outras vezes avidamente, à maneira da paixão.
Esta obra do poeta cearense Roberto Pontes, que tece o amor no traço do homem e do nome, se apresenta como uma das melhores realizações da poesia lírica contemporânea. E, acredito e desejo, ocupará seu lugar.
LÚCIA HELENA é Mestre em Teoria Literária e Doutora em Letras
pela UFRJ. Professora de Literatura da Universidade Federal
Fluminense e de Teoria da Literatura na UFRJ. Professora
conferencista nas Universidades de Lisboa (Portugal),
Pavia e Bérgamo (Itália). Ensaísta e crítica literária tem
colaborado com publicações especializadas, entre as quais:
revista Colóquio/Letras (Portugal); Revista de Cultura Vozes
Petróplis/RJ) e Revista Tempo Brasileiro (RJ). É autora de
A Cosmo-Agonia de Augusto dos Anjos (Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro),
Uma Literatura Antropofágica (Rio de Janeiro/Brasília: Cátedra/INL, 1982)
e Modernismo Brasileiro e Vanguarda (São Paulo: Ática, 1996).
828
Roque da Silva Ferreira
Haicai
Marinha
farol da barra
clareia um barco na areia
que a maré agarra...
Atração
Há uma estrela boa
no olhar que me faz lembrar
uma ave que voa...
farol da barra
clareia um barco na areia
que a maré agarra...
Atração
Há uma estrela boa
no olhar que me faz lembrar
uma ave que voa...
898
Rodrigues de Abreu
Mar Desconhecido
A Batista Pereira
Se eu tivesse tido saúde, rapazes,
não estaria aqui fazendo versos.
Já teria percorrido todo o mundo.
A estas horas, talvez os meus pés estivessem quebrando
o último bloco de gelo
da última ilha conhecida de um dos pólos.
Descobriria um mundo desconhecido,
para onde fossem os japoneses
que teimam em vir para o Brasil...
Porque em minha alma se concentrou
toda a ânsia aventureira
que semeou nos cinco oceanos deste mundo
buques de Espanha e naus de Portugal!
Rapazes, eu sou um marinheiro!
Por isso em dia vindouro, nevoento,
porque há de ser sempre de névoa esse dia supremo,
eu partirei numa galera frágil
pelo Mar Desconhecido.
Como em redor dos meus antepassados
que partiram de Sagres e de Palos,
o choro estalará em derredor de mim.
Será agudo e longo como um uivo,
o choro de minha tia e minha irmã.
Meu irmão chorará, castigando, entre as mãos, o pobre
rosto apavorado.
E até meu pai, esse homem triste e estranho,
que eu jamais compreendi, estará soluçando,
numa angústia quase igual à que lhe veio,
quando mamãe se foi numa tarde comprida...
Mas nos meus olhos brilhará uma chama inquieta.
Não pensem que será a febre.
Será o Sant Elmo que brilhou nos mastros altos
das naves tontas que se foram à Aventura.
Saltarei na galera apodrecida,
que me espera no meu porto de Sagres,
no mais áspero cais da vida.
Saltarei um pouco feliz, um pouco contente,
porque não ouvirei o choro de minha mãe.
O choro das mães é lento e cansado.
E é o único choro capaz de chumbar à terra firme
o mais ousado mareante.
Com um golpe rijo cortarei as amarras.
Entrarei, um sorriso nos lábios pálidos,
pelo imenso Mar Desconhecido.
Mas, rapazes, não gritarei JAMAIS!
não gritarei NUNCA! não gritarei ATÉ A OUTRA VIDA!
Porque eu posso muito bem voltar do Mar Desconhecido,
para contar a vocês as maravilhas de um país estranho.
Quero que vocês, à moda antiga, me bradem BOA VIAGEM!,
e tenham a certeza de que serei mais feliz.
Eu gritarei ATÉ BREVE!, e me sumirei na névoa espessa,
fazendo um gesto carinhoso de despedida.
Se eu tivesse tido saúde, rapazes,
não estaria aqui fazendo versos.
Já teria percorrido todo o mundo.
A estas horas, talvez os meus pés estivessem quebrando
o último bloco de gelo
da última ilha conhecida de um dos pólos.
Descobriria um mundo desconhecido,
para onde fossem os japoneses
que teimam em vir para o Brasil...
Porque em minha alma se concentrou
toda a ânsia aventureira
que semeou nos cinco oceanos deste mundo
buques de Espanha e naus de Portugal!
Rapazes, eu sou um marinheiro!
Por isso em dia vindouro, nevoento,
porque há de ser sempre de névoa esse dia supremo,
eu partirei numa galera frágil
pelo Mar Desconhecido.
Como em redor dos meus antepassados
que partiram de Sagres e de Palos,
o choro estalará em derredor de mim.
Será agudo e longo como um uivo,
o choro de minha tia e minha irmã.
Meu irmão chorará, castigando, entre as mãos, o pobre
rosto apavorado.
E até meu pai, esse homem triste e estranho,
que eu jamais compreendi, estará soluçando,
numa angústia quase igual à que lhe veio,
quando mamãe se foi numa tarde comprida...
Mas nos meus olhos brilhará uma chama inquieta.
Não pensem que será a febre.
Será o Sant Elmo que brilhou nos mastros altos
das naves tontas que se foram à Aventura.
Saltarei na galera apodrecida,
que me espera no meu porto de Sagres,
no mais áspero cais da vida.
Saltarei um pouco feliz, um pouco contente,
porque não ouvirei o choro de minha mãe.
O choro das mães é lento e cansado.
E é o único choro capaz de chumbar à terra firme
o mais ousado mareante.
Com um golpe rijo cortarei as amarras.
Entrarei, um sorriso nos lábios pálidos,
pelo imenso Mar Desconhecido.
Mas, rapazes, não gritarei JAMAIS!
não gritarei NUNCA! não gritarei ATÉ A OUTRA VIDA!
Porque eu posso muito bem voltar do Mar Desconhecido,
para contar a vocês as maravilhas de um país estranho.
Quero que vocês, à moda antiga, me bradem BOA VIAGEM!,
e tenham a certeza de que serei mais feliz.
Eu gritarei ATÉ BREVE!, e me sumirei na névoa espessa,
fazendo um gesto carinhoso de despedida.
1 156
Rodrigues Lobo
de A Primavera
já nasce o belo dia,Princípio do verão formoso e brando,Que com nova alegriaEstão denunciando As aves namoradasDos floridos raminhos penduradas.já abre a bela aurora,Com nova luz, as portas do oriente;E mostra a linda Flora O prado mais contente Vestido de boninas Aljofrado de gotas cristalinas. Já o sol mais formoso Está ferindo as águas prateadas;E zéfiro queixosoOra as mostra encrespadas À vista dos penedos, Ora sobre elas move os arvoredos.De reluzente areiaSe mostra mais formosa a rica praia,Cuja riba se arreiaDo álamo e da faia,Do freixo e do salgueiro,Do olmo, da aveleira, e do loureiro.já com rumor profundoNão soa o Lis nos montes seus vizinhos;Antes no claro fundoMostra os alvos seixinhos,E os peixes que nas veiasDeixam, tremendo, a sombra nas areias.já sem nuvens medonhasSe mostra o céu vestido de outras cores,já se ouvem as sanfonhasE flauta dos pastores Que vão guiando o gado Pela fragosa serra, e pelo prado.Já nas largas campinas,E nas verdes descidas dos outeiros,Ao som das sanfoninas,Cantam os ovelheiros,Enquanto os gados pascemAs mimosas ervinhas que renascem.Sobre a tenra verdura Agora os cabritinhos vão saltando,E sobre a fonte puraPassa a noite cantandoO rouxinol suaveCom saudoso acento agudo e grave.Diana mais formosa,Sem ventos, sobre as águas aparece, E faz que a noite irosa Tão clara resplandece À vista das estrelas,Que se envergonha o sol à vista delas.Tudo nesta mudança,Qual em sua esperança,Também de novo cobra novo estado;E qual em seu cuidadoAcha contentamento;Qual melhora na vida o pensamento.
1 532
Rozania Moraes
Amor de Mar
Noite de luzes.
os lábios do poeta
bebem lágrimas
do mar, salgadas.
A beira do mar se enfeita
de gente que vem e vai
como movimentos do mar
suaves afagos
mãos presas ao olhar
ondas dançam, eróticas
a tocar os lábios das pedras
beijo roubado, beijo furtivo
beijos molhados, salgados.
Noite azul
Flutuando no escuro
o astro branco
derrama raios leitosos
na espuma da água.
A praia se esvazia
para o mar que a ama
no silêncio, na areia, nas pedras
madrugada adentro.
Noite sensual
corpos à espera do dia
embalados pela canção
de outro poeta, tocada ao longe
nos bares do cais,
canção de outro amor
que se lançou ao mar
e dele nunca mais voltou.
os lábios do poeta
bebem lágrimas
do mar, salgadas.
A beira do mar se enfeita
de gente que vem e vai
como movimentos do mar
suaves afagos
mãos presas ao olhar
ondas dançam, eróticas
a tocar os lábios das pedras
beijo roubado, beijo furtivo
beijos molhados, salgados.
Noite azul
Flutuando no escuro
o astro branco
derrama raios leitosos
na espuma da água.
A praia se esvazia
para o mar que a ama
no silêncio, na areia, nas pedras
madrugada adentro.
Noite sensual
corpos à espera do dia
embalados pela canção
de outro poeta, tocada ao longe
nos bares do cais,
canção de outro amor
que se lançou ao mar
e dele nunca mais voltou.
425
Romulo Gouvêa
Nossas bocas
Nossas bocas são portas
onde há fluxo e refluxo
por onde passa tudo.
Passa paixão
passa amor
passam sentimentos e carinhos.
Por elas passa o mar
passam os rios
passam todos os caminhos.
Por elas só não passa o tempo.
Elas têm a mesma temperatura,
mesmo calor, mesma ternura.
São de mesma estrutura.
Nossas bocas, neste beijo, são portas
portas abertas
por onde passam nossas descobertas.
onde há fluxo e refluxo
por onde passa tudo.
Passa paixão
passa amor
passam sentimentos e carinhos.
Por elas passa o mar
passam os rios
passam todos os caminhos.
Por elas só não passa o tempo.
Elas têm a mesma temperatura,
mesmo calor, mesma ternura.
São de mesma estrutura.
Nossas bocas, neste beijo, são portas
portas abertas
por onde passam nossas descobertas.
964
Raquel Naveira
Camalotes
Na cheia
Os camalotes bóiam,
Estufados corpos aquáticos
Que a correnteza leva;
Conjunto de leques duros,
Verdes,
Que se dissolvem no silêncio;
Aqui e ali um buquê de flores
Arrebenta lilás;
A malha fina de raízes
Apanha peixes,
Escamas,
Pés delicados de pássaros que pousam;
A canoa de folhas
Navega sem leme
Rumo à foz,
À pedra,
Ao mar que espreme
E espuma.
Os camalotes bóiam,
Estufados corpos aquáticos
Que a correnteza leva;
Conjunto de leques duros,
Verdes,
Que se dissolvem no silêncio;
Aqui e ali um buquê de flores
Arrebenta lilás;
A malha fina de raízes
Apanha peixes,
Escamas,
Pés delicados de pássaros que pousam;
A canoa de folhas
Navega sem leme
Rumo à foz,
À pedra,
Ao mar que espreme
E espuma.
1 099
Ricardo Madeira
Em Vales Encantados
O rio parou
E perguntou
À bela princesa (que na margem
Olhava o reflexo da sua imagem)
O porquê das suas lágrimas.
Depois continuou
E dias depois voltou
Carregando na sua corrente
Mensagem de teor urgente
Enviada pelo príncipe.
Milhares de flores,
Mil dores e amores,
Orquídeas, papoilas e rosas
Que flutuavam vagorosas
Desde destino longínquo.
E uma sublime doce canção
Atravessou os vales encantados
Serpenteando entre o silêncio
Daqueles bosques perfumados.
E perguntou
À bela princesa (que na margem
Olhava o reflexo da sua imagem)
O porquê das suas lágrimas.
Depois continuou
E dias depois voltou
Carregando na sua corrente
Mensagem de teor urgente
Enviada pelo príncipe.
Milhares de flores,
Mil dores e amores,
Orquídeas, papoilas e rosas
Que flutuavam vagorosas
Desde destino longínquo.
E uma sublime doce canção
Atravessou os vales encantados
Serpenteando entre o silêncio
Daqueles bosques perfumados.
945
Rodrigo Guidi Peplau
Redonda, brilhante e provocativa
A mancha amarela
que se alonga pelo mar até aqui,
parece querer me levar
fascinado pela sua origem.
Ela ora se expõe,
ora se esconde
num jogo humano de sedução.
O caminho vai se abrindo
a medida que me aproximo,
sem o que se preocupar,
sem o que temer.
Nesse ritual mágico de união
entre a lua e o poeta
não penso nada, apenas sinto
não julgo nada, apenas vejo
e seu desfecho é tão incerto
quanto o final de qualquer poema.
que se alonga pelo mar até aqui,
parece querer me levar
fascinado pela sua origem.
Ela ora se expõe,
ora se esconde
num jogo humano de sedução.
O caminho vai se abrindo
a medida que me aproximo,
sem o que se preocupar,
sem o que temer.
Nesse ritual mágico de união
entre a lua e o poeta
não penso nada, apenas sinto
não julgo nada, apenas vejo
e seu desfecho é tão incerto
quanto o final de qualquer poema.
1 023
Cleonice Rainho
O Rio
A água vai passando
limpinha, limpinha,
espelho do caminho
onde muita gente para,
a se mirar...
Fico olhando...
é bom ver a água passar.
Fraquinha,
na gruta escondida nasceu.
Bebeu o orvalho da serra,
pelo vale desceu,
retratando a paisagem.
E as folhas emurchecidas,
a sua frescura,
reverdeceram-se
milagrosamente.
Rio, recebeu riachos e córregos,
cresceu... ficou importante,
e pontes ganhou
para a estrada
que o engenheiro
traçou.
Encontrou umas pedras,
tropeçou... e, em caídas e quedas,
morro abaixo rolou,
virou cachoeira,
girou, girou,
energia e força
fazendo gerar.
Ergueu-se
em saltos de espuma
e, lá longe, longe
se abriu em remanso...
Foi descansar
junto aos boizinhos
que estavam a pastar...
Depois , as cidades
irá limpar,
antes de correr pro mar.
Destino de água corrente,
faz a gente pensar.
limpinha, limpinha,
espelho do caminho
onde muita gente para,
a se mirar...
Fico olhando...
é bom ver a água passar.
Fraquinha,
na gruta escondida nasceu.
Bebeu o orvalho da serra,
pelo vale desceu,
retratando a paisagem.
E as folhas emurchecidas,
a sua frescura,
reverdeceram-se
milagrosamente.
Rio, recebeu riachos e córregos,
cresceu... ficou importante,
e pontes ganhou
para a estrada
que o engenheiro
traçou.
Encontrou umas pedras,
tropeçou... e, em caídas e quedas,
morro abaixo rolou,
virou cachoeira,
girou, girou,
energia e força
fazendo gerar.
Ergueu-se
em saltos de espuma
e, lá longe, longe
se abriu em remanso...
Foi descansar
junto aos boizinhos
que estavam a pastar...
Depois , as cidades
irá limpar,
antes de correr pro mar.
Destino de água corrente,
faz a gente pensar.
783
Ribeiro Couto
Serenata em Coimbra
Por vós e de um só nome eu te chamaria,
Não fosse a inclinação ao natural — infanta! —
E o pudor que também mais alto se alevanta
No meu vocabulário e na minha poesia.
Passaste com um cântaro à cabeça.
E eu — Mondego, Choupal, Camões, Rainha Santa —
Outro nome não sei que te valha e mereça.
Infanta? Pobre rapariga,
Havia sugestões clássicas pelo espaço
E eras infanta, sim, na paisagem antiga:
Parecias pisar o mármore de um paço.
(Era estranho que eu não ouvisse o burburinho
De fidalgos em ala a oferecer-te o braço.)
Entre escuros portais vejo-me a errar sozinho.
Vai alta a noite. Em que casa moras?
Na colina, uma luz entre tantas
(Não de castelos de rainhas e de infantas)
Será tua janela ainda acesa a estas horas.
Amanhã voltarás ao rio, lavadeira.
Dorme... Dentro da noite um refrão de modinha
Sobe da terra ao céu numa voz estrangeira:
Se coimbra, se Coimbra fosse minha...
Não fosse a inclinação ao natural — infanta! —
E o pudor que também mais alto se alevanta
No meu vocabulário e na minha poesia.
Passaste com um cântaro à cabeça.
E eu — Mondego, Choupal, Camões, Rainha Santa —
Outro nome não sei que te valha e mereça.
Infanta? Pobre rapariga,
Havia sugestões clássicas pelo espaço
E eras infanta, sim, na paisagem antiga:
Parecias pisar o mármore de um paço.
(Era estranho que eu não ouvisse o burburinho
De fidalgos em ala a oferecer-te o braço.)
Entre escuros portais vejo-me a errar sozinho.
Vai alta a noite. Em que casa moras?
Na colina, uma luz entre tantas
(Não de castelos de rainhas e de infantas)
Será tua janela ainda acesa a estas horas.
Amanhã voltarás ao rio, lavadeira.
Dorme... Dentro da noite um refrão de modinha
Sobe da terra ao céu numa voz estrangeira:
Se coimbra, se Coimbra fosse minha...
1 130
Manuel de Araújo Porto Alegre
Colombo
Canto XXVI
O Descobrimento da América
Mais uma hora velou. Deu meia-noite.
Rendeu-se o quarto no maior silêncio.
Acalmada a emoção, e mais convicto,
Fez sinal, e a esquadra pôs à capa,
Sem que alguém da manobra visse a causa.
Sentado, e enfraquecido por vigílias,
Ainda olhava; mas, cedendo ao corpo,
Ali mesmo dormiu, té que de um salto
Erguido ao trom de festival bombarda,
E da grita dos seus, que repeliam
Com Bermejo, na Pinta — "Terra, Terra —
Sem olhar, convencido da verdade,
Por grato impulso, ajoelhou-se orando,
Antes que a terra lhe alegrasse a vista!
Vinha o dia rompendo, e descobrindo
Sobre a linha do mar a terra ansiada!
Como ao empaste das fecundas tintas,
A natureza e a luz na tela fulgem,
Assim fulgia o ondulado aspeto
De Condene floresta, e pouco a pouco,
Ao sorriso das auras fugitivas,
No ar se abriam graciosas palmas,
Como guerreiros de emplumados elmos,
Vindo à plaga a festejar as naves.
Com o prumo na mão, sondando a costa,
Entrou numa abra que no fundo tinha
Surgidouro seguro. Manda o chefe
A manobra de paz! e a um tempo viu-se
Cair o pano, atravessar a frota,
Morder o ferro a desejada areia.
Os descrentes então se convenceram
De que um homem de Deus vê mais que os outros.
Baixam dos turcos o ligeiro esquife
E o real escaler apendoado.
O prazer, que remoça, agita o Nauta.
Larga o burel da devoção, e o peito
De lúcida couraça veste; cinge
A espada de almirante, e sobre os ombros
Traça um manto escarlate, mimo régio.
Protege a fronte com um brilhante almafre,
De cujo cimo pontiagudo rompe
Trífida palma de recurvas plumas.
Toma o pacto real, feito em Granada,
E o pendão de Isabel, o novo lábaro,
Que há de breve vencer mais que o de Roma.
Descem com ele os empregados régios,
E os Pinzões, a quem dera a honra e guarda
Do estandarte real. Acena ao mestre:
Alam as prontas, vogas à ribeira;
Qual amplexo de amor, todos sentiram
O doce abalo do encontrão da praia.
De um salto juvenil pisa Colombo
A nova terra, e, com seguro braço,
A bandeira real, no solo planta.
Beija a plaga almejada, ledo chora:
Foi geral a emoção! Disse o silêncio
Na mudez respeitosa mais que a língua.
Ao céu erguendo os lacrimosos olhos
Na mão sustendo o crucifixo, disse:
"Deus eterno, Senhor onipotente,
A cujo verbo criador o espaço,
Fecundado, soltou o firmamento
O Sol, e a Terra, e os ventos do Oceano,
Bendito sejas, Santo, Santo, Santo!
Sempre bendito em toda parte sejas,
Que se exalte tua alta majestade
Por haver concedido ao servo humilde
O teu nome louvar nestas distâncias.
Permite, ó meu Senhor, que agora mesmo,
Como primícias deste santo empenho,
A teu Filho Divino humilde ofereça
Esta terra e o mundo sempre a chame
Terra de Vera Cruz! E que assim seja!"
Ergue-se, e o laço do estandarte afrouxa:
Sopra o vento, desdobra-o, resplandecem
De um lado a imagem do Cordeiro, e do outro
As armas espanholas. Como assenso
Da divina mansão, esparge a brisa
Um chuveiro de flores sobre a imagem,
Flores não vistas da européia gente!
O Descobrimento da América
Mais uma hora velou. Deu meia-noite.
Rendeu-se o quarto no maior silêncio.
Acalmada a emoção, e mais convicto,
Fez sinal, e a esquadra pôs à capa,
Sem que alguém da manobra visse a causa.
Sentado, e enfraquecido por vigílias,
Ainda olhava; mas, cedendo ao corpo,
Ali mesmo dormiu, té que de um salto
Erguido ao trom de festival bombarda,
E da grita dos seus, que repeliam
Com Bermejo, na Pinta — "Terra, Terra —
Sem olhar, convencido da verdade,
Por grato impulso, ajoelhou-se orando,
Antes que a terra lhe alegrasse a vista!
Vinha o dia rompendo, e descobrindo
Sobre a linha do mar a terra ansiada!
Como ao empaste das fecundas tintas,
A natureza e a luz na tela fulgem,
Assim fulgia o ondulado aspeto
De Condene floresta, e pouco a pouco,
Ao sorriso das auras fugitivas,
No ar se abriam graciosas palmas,
Como guerreiros de emplumados elmos,
Vindo à plaga a festejar as naves.
Com o prumo na mão, sondando a costa,
Entrou numa abra que no fundo tinha
Surgidouro seguro. Manda o chefe
A manobra de paz! e a um tempo viu-se
Cair o pano, atravessar a frota,
Morder o ferro a desejada areia.
Os descrentes então se convenceram
De que um homem de Deus vê mais que os outros.
Baixam dos turcos o ligeiro esquife
E o real escaler apendoado.
O prazer, que remoça, agita o Nauta.
Larga o burel da devoção, e o peito
De lúcida couraça veste; cinge
A espada de almirante, e sobre os ombros
Traça um manto escarlate, mimo régio.
Protege a fronte com um brilhante almafre,
De cujo cimo pontiagudo rompe
Trífida palma de recurvas plumas.
Toma o pacto real, feito em Granada,
E o pendão de Isabel, o novo lábaro,
Que há de breve vencer mais que o de Roma.
Descem com ele os empregados régios,
E os Pinzões, a quem dera a honra e guarda
Do estandarte real. Acena ao mestre:
Alam as prontas, vogas à ribeira;
Qual amplexo de amor, todos sentiram
O doce abalo do encontrão da praia.
De um salto juvenil pisa Colombo
A nova terra, e, com seguro braço,
A bandeira real, no solo planta.
Beija a plaga almejada, ledo chora:
Foi geral a emoção! Disse o silêncio
Na mudez respeitosa mais que a língua.
Ao céu erguendo os lacrimosos olhos
Na mão sustendo o crucifixo, disse:
"Deus eterno, Senhor onipotente,
A cujo verbo criador o espaço,
Fecundado, soltou o firmamento
O Sol, e a Terra, e os ventos do Oceano,
Bendito sejas, Santo, Santo, Santo!
Sempre bendito em toda parte sejas,
Que se exalte tua alta majestade
Por haver concedido ao servo humilde
O teu nome louvar nestas distâncias.
Permite, ó meu Senhor, que agora mesmo,
Como primícias deste santo empenho,
A teu Filho Divino humilde ofereça
Esta terra e o mundo sempre a chame
Terra de Vera Cruz! E que assim seja!"
Ergue-se, e o laço do estandarte afrouxa:
Sopra o vento, desdobra-o, resplandecem
De um lado a imagem do Cordeiro, e do outro
As armas espanholas. Como assenso
Da divina mansão, esparge a brisa
Um chuveiro de flores sobre a imagem,
Flores não vistas da européia gente!
1 783
Paulo Silva Ribeiro
O Rio
O Rio
O rio que nasce
Em minha alma
E cruza minha terra,
Que irriga as lavouras
A sua margem,
Que traz alimento e vida
A sua gente...
O meu rio
Não é grandioso
Simplesmente reflete
Vida em cada ponto dele,
Se inunda pastagens, pantanais,
É porque revigora a vida...
O meu rio
Tem peixe pra todo gosto
Tem pacú, pintado, dourado
Tem até lenda de pescador mal-assombrado,
Que por vezes
Pesca em sua canoa
Em noite de lua cheia...
Já te direi
O nome de meu rio,
O teu nome tem seis letras,
Mas poderia ter mil,
Para poder te dar o seu exato valor,
Nestas tardes de abril
Em que fico a te admirar,
Eu te saúdo
Meu rio Cuiabá...
O rio que nasce
Em minha alma
E cruza minha terra,
Que irriga as lavouras
A sua margem,
Que traz alimento e vida
A sua gente...
O meu rio
Não é grandioso
Simplesmente reflete
Vida em cada ponto dele,
Se inunda pastagens, pantanais,
É porque revigora a vida...
O meu rio
Tem peixe pra todo gosto
Tem pacú, pintado, dourado
Tem até lenda de pescador mal-assombrado,
Que por vezes
Pesca em sua canoa
Em noite de lua cheia...
Já te direi
O nome de meu rio,
O teu nome tem seis letras,
Mas poderia ter mil,
Para poder te dar o seu exato valor,
Nestas tardes de abril
Em que fico a te admirar,
Eu te saúdo
Meu rio Cuiabá...
959
Primo Vieira
Haicai
Ao luar, o sapo
tenta engolir uma estrela:
cai fundo no poço!
Marulho de vagas.
Há ecos de eternidade
nos búzios do mar.
tenta engolir uma estrela:
cai fundo no poço!
Marulho de vagas.
Há ecos de eternidade
nos búzios do mar.
1 168
Raimundo Correia
Ondas
Ilha de atrozes degredos!
Cinge um muro de rochedos
Seus flancos. Grosso a espumar
Contra a dura penedia,
Bate, arrebenta, assobia,
Retumba, estrondeia o mar.
Em circuito, o Horror impera;
No centro, abrindo a cratera
Flagrante, arroja um volcão
Ígnea blasfêmia às alturas...
E, nas ínvias espessuras,
Brame o tigre, urra o leão.
Aqui chora, aqui, proscrita,
Clama e desespera aflita
A alma de si mesma algoz,
Buscando na imensa plaga,
Entre mil vagas, a vaga,
Que neste exílio a depôs.
Se a vida a prende à matéria,
Fora desta, a alma, sidérea,
Radia em pleno candor;
O corpo, escravo dos vícios,
É que teme os precipícios,
Que este mar cava em redor.
No azul eterno ela busca,
No azul, cujo brilho a ofusca,
Pairar, incendida ao sol,
Despindo a crusta vil, onde
Se esconde, como se esconde
A lesma em seu caracol.
Contempla o infinito ... Um bando
De gerifaltos voando
Passou, desapareceu
No éter azul, na água verde...
E onde esse bando se perde,
seu longo olhar se perde...
Contempla o mar, silenciosa:
Ora mansa, ora raivosa,
Vai e vem a onda minaz,
E entre as pontas do arrecife,
Às vezes leva um esquife,
Às vezes um berço traz.
Contempla, de olhos magoados,
Tudo... Muitos degredados
Findo o seu degredo têm;
Vão-se na onda intumescida
Da Morte, mas na da Vida,
Novos degredados vêm.
Ó alma contemplativa !
Vem já, decumana e altiva,
Entre as ondas talvez,
A que, no supremo esforço
Da morte, em seu frio dorso,
Te leve ao largo, outra vez.
Quanto esplendor! São aquelas
As regiões de luz, que anelas,
Rompe os rígidos grilhões,
Com que à Carne de agrilhoa
O instinto vital! E voa,
e voa àquelas regiões!...
Cinge um muro de rochedos
Seus flancos. Grosso a espumar
Contra a dura penedia,
Bate, arrebenta, assobia,
Retumba, estrondeia o mar.
Em circuito, o Horror impera;
No centro, abrindo a cratera
Flagrante, arroja um volcão
Ígnea blasfêmia às alturas...
E, nas ínvias espessuras,
Brame o tigre, urra o leão.
Aqui chora, aqui, proscrita,
Clama e desespera aflita
A alma de si mesma algoz,
Buscando na imensa plaga,
Entre mil vagas, a vaga,
Que neste exílio a depôs.
Se a vida a prende à matéria,
Fora desta, a alma, sidérea,
Radia em pleno candor;
O corpo, escravo dos vícios,
É que teme os precipícios,
Que este mar cava em redor.
No azul eterno ela busca,
No azul, cujo brilho a ofusca,
Pairar, incendida ao sol,
Despindo a crusta vil, onde
Se esconde, como se esconde
A lesma em seu caracol.
Contempla o infinito ... Um bando
De gerifaltos voando
Passou, desapareceu
No éter azul, na água verde...
E onde esse bando se perde,
seu longo olhar se perde...
Contempla o mar, silenciosa:
Ora mansa, ora raivosa,
Vai e vem a onda minaz,
E entre as pontas do arrecife,
Às vezes leva um esquife,
Às vezes um berço traz.
Contempla, de olhos magoados,
Tudo... Muitos degredados
Findo o seu degredo têm;
Vão-se na onda intumescida
Da Morte, mas na da Vida,
Novos degredados vêm.
Ó alma contemplativa !
Vem já, decumana e altiva,
Entre as ondas talvez,
A que, no supremo esforço
Da morte, em seu frio dorso,
Te leve ao largo, outra vez.
Quanto esplendor! São aquelas
As regiões de luz, que anelas,
Rompe os rígidos grilhões,
Com que à Carne de agrilhoa
O instinto vital! E voa,
e voa àquelas regiões!...
1 927
José Maria de Barros Pinho
Ode ao Amor do Mar
Gosto do mar
pelo absurdo
sensual
de suas sereias
pelo encrespar
do vento
no ventre
de peixes
abomináveis
pelo lésbico
despudor
das ondas
violentando
as águas
gosto do mar
absorvendo
sol
na máscara
de bronze
dos pescadores
gosto do mar
mistério azul
das mulheres-marinhas
visivelmente estranguladas
gosto do mar
concupiscente
e paradoxal
em seus horrores.
pelo absurdo
sensual
de suas sereias
pelo encrespar
do vento
no ventre
de peixes
abomináveis
pelo lésbico
despudor
das ondas
violentando
as águas
gosto do mar
absorvendo
sol
na máscara
de bronze
dos pescadores
gosto do mar
mistério azul
das mulheres-marinhas
visivelmente estranguladas
gosto do mar
concupiscente
e paradoxal
em seus horrores.
938
Paulo F. Cunha
Recifetebas
Deito-me ao lado de Jocasta
sem remorsos
purificado por esta Recifetebas
da esfinge Jomard decifrada.
O’meu poeta que - bem mais que
tantos Penas, Bandeiras e Cabrais
me chega, por Recifetebas,
ao coração silente.
Pois me ensinaste como, quando
e onde amar de vez e melhor,
a mulher - cidade Recifenda
Há tanto abandonada, vilipendiada
com a metade má do amoródio
e , finalmente,(re)visitada
(re)conquistada, (re)morada.
Ah! Este reencontro com as ruas
da União, Concórdia, Creoulas, Sossego
Ah! O reencontro com o gosto da comida
e com o gosto do desgosto da chupada
da puta Rita, na praia, entre cinco dividida.
Obrigado meu poeta por decifrar-te
e ser Édipo sem remorso e sem cegueira
Comendo mangues, marés , coqueiros
desta sonhada cidade Recifetebas.
sem remorsos
purificado por esta Recifetebas
da esfinge Jomard decifrada.
O’meu poeta que - bem mais que
tantos Penas, Bandeiras e Cabrais
me chega, por Recifetebas,
ao coração silente.
Pois me ensinaste como, quando
e onde amar de vez e melhor,
a mulher - cidade Recifenda
Há tanto abandonada, vilipendiada
com a metade má do amoródio
e , finalmente,(re)visitada
(re)conquistada, (re)morada.
Ah! Este reencontro com as ruas
da União, Concórdia, Creoulas, Sossego
Ah! O reencontro com o gosto da comida
e com o gosto do desgosto da chupada
da puta Rita, na praia, entre cinco dividida.
Obrigado meu poeta por decifrar-te
e ser Édipo sem remorso e sem cegueira
Comendo mangues, marés , coqueiros
desta sonhada cidade Recifetebas.
762
Paula Nei
De Viagem
Voa, minha alma, voa pelos ares
Como um trapo de nuvem flutuante!
Vai perdida, sozinha e soluçante,
Distende as tuas asas sobre os mares!
Leva contigo os lânguidos cismares
Que um dia acalentaste, delirante,
Como acalenta o vento roçagante
A copa verde-negra dos palmares.
Atira tudo isso aos pés de Deus!
Lá onde brilha a luz e estão os céus
E virgens mil coroadas de verbenas.
Isto que já brilhou como uma estrela,
A Deus, dirás, só pertenceu a ela,
Corpo de anjo, coração de hiena.
Como um trapo de nuvem flutuante!
Vai perdida, sozinha e soluçante,
Distende as tuas asas sobre os mares!
Leva contigo os lânguidos cismares
Que um dia acalentaste, delirante,
Como acalenta o vento roçagante
A copa verde-negra dos palmares.
Atira tudo isso aos pés de Deus!
Lá onde brilha a luz e estão os céus
E virgens mil coroadas de verbenas.
Isto que já brilhou como uma estrela,
A Deus, dirás, só pertenceu a ela,
Corpo de anjo, coração de hiena.
910
Pedro Kilkerry
Cetáceo
Fuma. É cobre o zênite. E Chagosos do flanco
Fuga e pó, são corcéis de anca na atropelada;
E tesos no horizonte, a muda cavalgada.
Coalha bebendo o azul um longo vôo branco.
Quando e quando esbagoa ao longe uma enfiada
De barcos em betume indo as proas de arranco.
Perto uma janga embala um marujo no banco
Brunindo ao sol brunido a pele atijolada.
Tine em cobre o zênite e o vento arqueja o oceano
Longo enforca-se a vez e vez e arrufa,
Como se a asa que o roce ao côncavo de um pano.
E na verde ironia, ondulosa de espelho
Úmida raiva iriando a pedraria. Bufa
O cetáceo a escorrer d água ou do sol vermelho.
Fuga e pó, são corcéis de anca na atropelada;
E tesos no horizonte, a muda cavalgada.
Coalha bebendo o azul um longo vôo branco.
Quando e quando esbagoa ao longe uma enfiada
De barcos em betume indo as proas de arranco.
Perto uma janga embala um marujo no banco
Brunindo ao sol brunido a pele atijolada.
Tine em cobre o zênite e o vento arqueja o oceano
Longo enforca-se a vez e vez e arrufa,
Como se a asa que o roce ao côncavo de um pano.
E na verde ironia, ondulosa de espelho
Úmida raiva iriando a pedraria. Bufa
O cetáceo a escorrer d água ou do sol vermelho.
1 910
Paulo F. Cunha
Cidade Desejo
Recife tem urgências de mulher
de mulher bela que mais
bela nua;nudez que ainda
não vi por inteiro , no máximo
envolta em nuvens .
Mas seus segredos mais guardados
que só se mostram no completp despir ,
seus imaginários recantos úmidos
das saliências e curvas dos seus rios ,
os pícaros leitosos , pequenos , apetitosos
de suas elevações e profundezas ,
estes ainda não vi .
Mas prometo jamais dormir
antes do alumbramento do poeta .
de mulher bela que mais
bela nua;nudez que ainda
não vi por inteiro , no máximo
envolta em nuvens .
Mas seus segredos mais guardados
que só se mostram no completp despir ,
seus imaginários recantos úmidos
das saliências e curvas dos seus rios ,
os pícaros leitosos , pequenos , apetitosos
de suas elevações e profundezas ,
estes ainda não vi .
Mas prometo jamais dormir
antes do alumbramento do poeta .
814
Oscar Rosas
Sereia
Reparem nesse bronze, veia a veia,
Cornucópia de seios e de escama,
Obra de um japonês, em que o Fusi-Iama
Adora o mar em enluarada areia.
Canta, e essa harmonia nos golpeia.
É duma triste e solitária gama,
Porém aumenta desse bronze a fama
O olhar amortecido da sereia.
Penso que sonha o pólo e o nevoeiro,
E a pálida talhada de um crescente
Num céu de véus de noiva e jasmineiro.
E, como búzio a referver, ressoa
Numa langue preguiça de serpente,
Num êxtase nostálgico de leoa.
Cornucópia de seios e de escama,
Obra de um japonês, em que o Fusi-Iama
Adora o mar em enluarada areia.
Canta, e essa harmonia nos golpeia.
É duma triste e solitária gama,
Porém aumenta desse bronze a fama
O olhar amortecido da sereia.
Penso que sonha o pólo e o nevoeiro,
E a pálida talhada de um crescente
Num céu de véus de noiva e jasmineiro.
E, como búzio a referver, ressoa
Numa langue preguiça de serpente,
Num êxtase nostálgico de leoa.
1 331
Ona Gaia
O barco
O barco
e o nada
entre o ser sendo
sem nem ser o ser
terra ou mar
fogo ou ar
praia, brilho e Sol.
Mas floresta de estrelas
explodindo no céu
é música
não linear
e isto é legal
isto é natural !!!
e o nada
entre o ser sendo
sem nem ser o ser
terra ou mar
fogo ou ar
praia, brilho e Sol.
Mas floresta de estrelas
explodindo no céu
é música
não linear
e isto é legal
isto é natural !!!
725
Noel Rosa
Cidade Mulher
Cidade de amor e ventura
Que tem mais doçura
Que uma ilusão
Cidade mais bela que o sorriso
Maior que o paraíso
Melhor que a tentação
Cidade que ninguém resiste
Na beleza triste
De um samba-canção
Cidade de flores sem abrolhos
Que encantando nossos olhos
Prende o nosso coração
Cidade notável
Inimitável
Maior e mais bela que outra qualquer
Cidade sensível
Irresistível
Cidade do amor, cidade mulher
Cidade de sonho e grandeza
Que guarda riqueza
Na terra e no mar
Cidade do céu sempre azulado
Teu sol é namorado
Das noites de luar
Cidade padrão de beleza
Foi a natureza
Quem te protegeu
Cidade de amores sem pecado
Foi juntinho ao Corcovado
Que Jesus Cristo nasceu.
Que tem mais doçura
Que uma ilusão
Cidade mais bela que o sorriso
Maior que o paraíso
Melhor que a tentação
Cidade que ninguém resiste
Na beleza triste
De um samba-canção
Cidade de flores sem abrolhos
Que encantando nossos olhos
Prende o nosso coração
Cidade notável
Inimitável
Maior e mais bela que outra qualquer
Cidade sensível
Irresistível
Cidade do amor, cidade mulher
Cidade de sonho e grandeza
Que guarda riqueza
Na terra e no mar
Cidade do céu sempre azulado
Teu sol é namorado
Das noites de luar
Cidade padrão de beleza
Foi a natureza
Quem te protegeu
Cidade de amores sem pecado
Foi juntinho ao Corcovado
Que Jesus Cristo nasceu.
971