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Poemas neste tema

Morte e Luto

David Mourão-Ferreira

David Mourão-Ferreira

Testamento

Que fique só da minha vida

um monumento de palavras

Mas não de prata Nem de cinza

Antes de lava Antes de nada

Daquele nada que se aviva

quando se arrisca uma viagem

por entre os pântanos da ira

além do sol das barricadas

Ou quando um poço que cintila

parece o tecto de uma sala

Ou quando importa que se extinga

dentro de nós a inexacta

irradiação que vem das criptas

em que o azul nos sobressalta

em que à penumbra se diria

que se acrescenta o som das harpas

Ou quando a terra não expira

senão segredos feitos de água

Ou quando a morte nos avisa

Ou quando a vida nos agarra

Adeus ó pombas

todas iguais ante as muralhas

Adeus veredas invisíveis

que na floresta nos aguardam

Adeus ó barcos à deriva

Adeus canais Adeus guitarras

Adeus ó sílabas da brisa

Adeus sibilas ningas cabras

tantas que a Deus se prometiam

mas só adeuses encontravam

Adeus ó deusas de partida

no meu minuto de chegada

Adeus ardentes evasivas

a ver se um pouco as demorava

Se as demorava ou demovia

de tão depressa me deixarem

Adeus ó portas clandestinas

que ao fim da tarde se entreabrem

Adeus adeus íntimas vítimas

das cerimónias implacáveis

Como deixar-vos todavia

se as vossas mãos as vossas faces

ora parecem despedir-me

ora conseguem renovar-me

E tantas tantas tantas ilhas

no mar que não nos limitasse

Como deixar-vos se na linha

deste horizonte aquela praia

tão de repente se aproxima

tão de repente se me escapa

Jorram vulcânicas as crinas

de récuas de éguas subaquáticas

Jorram do fundo. E à superfície

crescem as ilhas assombradas

Eis que de longe lembras liras

mas entre as ondas só navalhas

É quando o poeta menos grita

que mais se crê nas suas lágrimas

Fique porém de quanto sinta

um monumento de palavras

Mas não de bronze Nem de argila

E nem de cinza nem de mármore

De fumo sim Do que se infiltra

no coração das velhas máquinas

no estertor dos suicidas

no riso triste dos apátridas

no ondular das gelosias

de onde se espia a madrugada

Do fumo enfim que se eterniza

na longa insónia das estátuas

E que de nós a alma extirpa

não nos deixando nem a máscara

quando é só corpo o que nos fica

para morrer às mãos dos bárbaros

E que nos conta só mentiras

E nos aceita só verdades

Múltiplas ágeis infinitas

sejam as linhas que ele trace

como as que traça a própria vida

sem liberdade em liberdade

Adeus ó fogo Adeus raízes

que todo o fumo alimentavam

E adeus o mel Adeus urtigas

da minha terra calcinada

Adeus cortiço Adeus cortiça

Ó madrugadas inflamáveis

Já se nem sabe a que sevícias

é que por fim a boca sabe

Nem qual a sombra que improvisa

esta sonâmbula sonata

que apazigua que arrepia

que nos destói que nos exalta

Nem qual o crime inda mais crime

se acaso chega a desvendar-se

Adeus adeus eterna esfinge

Adeus Não penses que me ultrajas

E lembro tudo o que era simples

antes do nada inevitável

Mas que do nada ao menos fique

um monumento de palavras

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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Tarde de Maio

Como esses primitivos que carregam por toda parte o
[maxilar inferior de seus mortos,
assim te levo comigo, tarde de maio,
quando, ao rubor dos incêndios que consumiam a terra,
outra chama, não perceptível, e tão mais devastadora,
surdamente lavrava sob meus traços cômicos,
e uma a uma, disjecta membra, deixava ainda palpitantes
e condenadas, no solo ardente, porções de minh'alma
nunca antes nem nunca mais aferidas em sua nobreza
sem fruto.

Mas os primitivos imploram à relíquia saúde e chuva,
colheita, fim do inimigo, não sei que portentos.
Eu nada te peço a ti, tarde de maio,
senão que continues, no tempo e fora dele, irreversível,
sinal de derrota que se vai consumindo a ponto de
converter-se em sinal de beleza no rosto de alguém
que, precisamente, volve o rosto, e passa. . .
Outono é a estação em que ocorrem tais crises,
e em maio, tantas vezes, morremos.

Para renascer, eu sei, numa fictícia primavera,
já então espectrais sob o aveludado da casca,
trazendo na sombra a aderência das resinas fúnebres
com que nos ungiram, e nas vestes a poeira do carro
fúnebre, tarde de maio, em que desaparecemos,
sem que ninguém, o amor inclusive, pusesse reparo.
E os que o vissem não saberiam dizer: se era um préstito
lutuoso, arrastado, poeirento, ou um desfile carnavalesco.
Nem houve testemunha.

Não há nunca testemunhas. Há desatentos. Curiosos, muitos.
Quem reconhece o drama, quando se precipita, sem máscara?
Se morro de amor, todos o ignoram
e negam. O próprio amor se desconhece e maltrata.
O próprio amor se esconde, ao jeito dos bichos caçados;
não está certo de ser amor, há tanto lavou a memória
das impurezas de barro e folha em que repousava. E resta,
perdida no ar, por que melhor se conserve,
uma particular tristeza, a imprimir seu selo nas nuvens.
4 091 3
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Todo Mundo E Ninguém (Auto da Lusitânia, de Gil Vicente)

(AUTO DA LUSITÂNIA, DE GIL VICENTE)
NINGUÉM
Tu estás a fim de quê?


TODO MUNDO
A fim de coisas buscar

que não consigo topar.

Mas não desisto, porque

o cara tem de teimar.


NINGUÉM
Me diz teu nome primeiro.


TODO MUNDO
Eu me chamo Todo Mundo

e passo o dia e o ano inteiro

correndo atrás de dinheiro,

seja limpo ou seja imundo.


BELZEBU
Vale a pena dar ciência

e anotar isto bem,

por ser fato verdadeiro:

que Ninguém tem consciência,

e Todo Mundo, dinheiro.


NINGUÉM
E que mais procuras, hem?


TODO MUNDO
Procuro poder e glória.


NINGUÉM
Eu cá não vou nessa história.

Só quero virtude… Amém.


BELZEBU
Mas o papai não se ilude

e traça: Livro Segundo.

Busca o poder Todo Mundo

e Ninguém busca virtude.


NINGUÉM
Que desejas mais, sabido?


TODO MUNDO
Minha ação elogiada

em todo e qualquer sentido.


NINGUÉM
Prefiro ser repreendido

quando der uma mancada.


BELZEBU
Aqui deixo por escrito

o que querem, lado a lado:

Todo Mundo ser louvado

e Ninguém levar um pito.


NINGUÉM
E que mais, amigo meu?


TODO MUNDO
Mais a vida. A vida, olé!


NINGUÉM
A vida? Não sei o que é.

A morte, conheço eu.


BELZEBU
Esta agora é muito forte

e guardo para ser lida:

Todo Mundo busca a vida

e Ninguém conhece a morte.


TODO MUNDO
Também quero o Paraíso,

mas sem ter que me chatear.


NINGUÉM
E eu, suando pra pagar

minhas faltas de juízo!


BELZEBU
Para que sirva de aviso,

mais uma transa se escreve:

Todo Mundo quer Paraíso

e Ninguém paga o que deve.




TODO MUNDO
Eu sou vidrado em tapear,

e mentir nasceu comigo.


NINGUÉM
A verdade eu sempre digo

sem nunca chantagear.


BELZEBU
Boto anúncio na cidade,

deste troço curioso:

Todo Mundo é mentiroso

e Ninguém fala verdade.


NINGUÉM
Que mais, bicho?


TODO MUNDO
Bajular.


NINGUÉM
Eu cá não jogo confete.


BELZEBU
Três mais quatro igual a sete.

O programa sai do ar.

Lero lero lero lero,

curro paco paco paco.

Todo Mundo é puxa-saco

e Ninguém quer ser sincero!
6 605 3
Arsenii Tarkovskii

Arsenii Tarkovskii

Vida, Vida

Não acredito em pressentimentos, e augúrios
Não me amedrontam. Não fujo da calúnia
Nem do veneno. Não há morte na Terra.
Todos são imortais. Tudo é imortal. Não há por que
Ter medo da morte aos dezessete
Ou mesmo aos setenta. Realidade e luz
Existem, mas morte e trevas, não.
Estamos agora todos na praia,
E eu sou um dos que içam as redes
Quando um cardume de imortalidade nelas entra.
Vive na casa e a casa continua de pé
Vou aparecer em qualquer século
Entrar e fazer uma casa para mim
É por isso que teus filhos estão ao meu lado
E as tuas esposas, todos sentados em uma mesa,
Uma mesa para o avô e o neto
O futuro é consumado aqui e agora
E se eu erguer levemente minha mão diante de ti,
Ficarás com cinco feixes de luz
Com omoplatas como esteios de madeira
Eu ergui todos os dias que fizeram o passado
Com uma cadeia de agrimensor, eu medi o tempo
E viajei através dele como se viajasse pelos Urais
Escolhi uma era que estivesse à minha altura
Rumamos para o sul, fizemos a poeira rodopiar na estepe
Ervaçais cresciam viçosos; um gafanhoto tocava,
Esfregando as pernas, profetizava
E contou-me, como um monge, que eu pereceria
Peguei meu destino e amarrei-o na minha sela;
E agora que cheguei ao futuro ficarei
Ereto sobre meus estribos como um garoto.
Só preciso da imortalidade
Para que meu sangue continue a fluir de era para era
Eu prontamente trocaria a vida
Por um lugar seguro e quente
Se a agulha veloz da vida
Não me puxasse pelo mundo como uma linha.
(in Tarkóvski, Andrei. Esculpir o tempo, tradução de Jefferson Luiz Camargo. São Paulo: Martins Fontes, 1990. - trata-se de um dos poemas recitados por Arseni Tarkóvski no filme O Espelho, de 1975).
:
Outra tradução:
VIVA, VIDA!
Não acredito em premonições, não temo superstições,
veneno e calúnia não vigoram sobre mim.
Não existe morte, senão plenitude no mundo.
Somos todos imortais; tudo é imortal.
Não é preciso temer a morte,
seja aos dezessete ou aos setenta.
Nada há além de presente e de luz;
escuridão e morte não existem neste mundo.
Chegados que somos todos à margem, sou um dos escolhidos
para puxar as redes quando o cardume da imortalidade as cumular.
Habitai a casa, e a casa se sustentará.
Invocarei um dos séculos ao acaso: eu o adentrarei
e nele construirei minha morada.
Sento-me portanto à mesma mesa
que vossos filhos, mães e esposas.
Uma só mesa para servir bisavô e neto:
o futuro se consuma aqui agora,
e quando eu erguer a minha mão,
os cinco raios de luz convosco ficarão.
Omoplatas minhas como vigas mestras,
sustentaram por minha vontade a revolução dos dias.
Medi o tempo com vara de agrimensor:
eu o venci como se voasse sobre os Urais.
Talhei as idades à minha medida.
Rumamos para o sul, um rastro de poeira pela estepe.
As altas ervas agitavam-se entre vapores
e o grilo dançarino,
ao perceber com suas antenas as ferraduras faiscantes,
profetizou-me, como monge possuído, a aniquilação.
Atei então, rápido, meu destino à sela,
ergui-me sobre os estribos como um menino
e agora cavalgo os tempos vindouros a meu ritmo.
Basta-me minha imortalidade,
o fluir de meu sangue de uma para outra era,
mas em troca de um canto quente e seguro
daria de bom grado minha vida,
conquanto sua agulha voadora
não me arrastasse, feito linha, mundo afora.
(Versão a partir de traduções para o inglês e outras línguas ocidentais: Álvaro Machado).
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