Poemas neste tema
Música
Valéry Larbaud
Motociclistas
Felizes,
sentamo-nos e pedimos ovos.
Pendia um sol vermelho
do rosto do garçom.
Aproveitando a graça esplêndida do crepúsculo,
pedimos também livros, mulheres, vinhos,
Músicas, Júbilos,
Ah! Essências, Éteres, Qüididades,
VIDA ETERNA!!!
De manhãzinha,
acompanhamos com os dedos erguidos
os últimos cometas que se despediam.
- Tchau... Tchau...
sentamo-nos e pedimos ovos.
Pendia um sol vermelho
do rosto do garçom.
Aproveitando a graça esplêndida do crepúsculo,
pedimos também livros, mulheres, vinhos,
Músicas, Júbilos,
Ah! Essências, Éteres, Qüididades,
VIDA ETERNA!!!
De manhãzinha,
acompanhamos com os dedos erguidos
os últimos cometas que se despediam.
- Tchau... Tchau...
917
José Eustáquio da Silva
Belos
cesta nba
violência aparthaid
um grito haiti
liberdade zumbi
tambores jamaicanos
oloduns brasil baiano
stevie wonder reluziu
tropicalizando gilberto gil
viva áfrica americana
viva o toque do pandeiro
cor não tem cor quando se ama
sou neguinho brasileiro
violência aparthaid
um grito haiti
liberdade zumbi
tambores jamaicanos
oloduns brasil baiano
stevie wonder reluziu
tropicalizando gilberto gil
viva áfrica americana
viva o toque do pandeiro
cor não tem cor quando se ama
sou neguinho brasileiro
865
Luís António Cajazeira Ramos
O Canto do Cisne
Quando me vi no instante derradeiro,
a musa das vontades (ela existe!),
num tom que é quase sempre terno e triste,
ofereceu-me o último desejo.
Não sei dizer que brumas me envolveram
nas lembranças de amores que não tive.
Que saudade me deu!... Desde as raízes,
degredos mal guardados soergueram.
Momento de magia e plenitude,
fremi no ardor de lívidos enlevos;
meu sonho se elevou que a mais nem pude.
Qual desejo matar?... Qual liberdade?...
Ó musa maga! música sem medos!
Na dúvida, Beethoven-me! Vivaldi-me!
a musa das vontades (ela existe!),
num tom que é quase sempre terno e triste,
ofereceu-me o último desejo.
Não sei dizer que brumas me envolveram
nas lembranças de amores que não tive.
Que saudade me deu!... Desde as raízes,
degredos mal guardados soergueram.
Momento de magia e plenitude,
fremi no ardor de lívidos enlevos;
meu sonho se elevou que a mais nem pude.
Qual desejo matar?... Qual liberdade?...
Ó musa maga! música sem medos!
Na dúvida, Beethoven-me! Vivaldi-me!
1 214
José Eustáquio da Silva
Confidente
dedos à deriva
navegando entre cordas
nau sem direção
neste mar meu violão
toada dissonante
mar revolto intrigante
maremoto de saudade
avesso de realidade
desafino de coração
geme violão
confidente dos meus ais
não quero mais
navegar assim
geme violão
confidente dos meus ais
não quero mais
me afogar assim
navegando entre cordas
nau sem direção
neste mar meu violão
toada dissonante
mar revolto intrigante
maremoto de saudade
avesso de realidade
desafino de coração
geme violão
confidente dos meus ais
não quero mais
navegar assim
geme violão
confidente dos meus ais
não quero mais
me afogar assim
1 069
José Eustáquio da Silva
Voz
essa voz sai de mim
como língua de fogo
voraz dragão sem espadas e jorges
essa voz sai de mim
como sangue
insensato vampiro de presas cortadas
essa voz sai de mim
como revoada de pombos
imensa liberdade presa em mim
essa voz sai de mim
como despedida
ferida aberta de alguém que se vai
essa voz sai de mim
como um frio punhal
que nos corta fundo e nos faz gritar
arrebenta garganta louca
farta-me de emoções
neste palco dia-a-dia
faço da música meu pincel
e dessa voz minha poesia
como língua de fogo
voraz dragão sem espadas e jorges
essa voz sai de mim
como sangue
insensato vampiro de presas cortadas
essa voz sai de mim
como revoada de pombos
imensa liberdade presa em mim
essa voz sai de mim
como despedida
ferida aberta de alguém que se vai
essa voz sai de mim
como um frio punhal
que nos corta fundo e nos faz gritar
arrebenta garganta louca
farta-me de emoções
neste palco dia-a-dia
faço da música meu pincel
e dessa voz minha poesia
905
José de Oliveira Falcon
Sonata Urbana
a flauta mesmo em silêncio
fabrica seu mel de fábula;
o míssil mamom e a massa
carvão diurno de praga
modula a flauta no asfalto
onde um bêbado declama
seu lirismo contra a lama
e esse luar contra o salto
ou se achas mais sensato
e tua raiva reclama
cospe o lirismo na lama
atira a flauta no asfalto
fabrica seu mel de fábula;
o míssil mamom e a massa
carvão diurno de praga
modula a flauta no asfalto
onde um bêbado declama
seu lirismo contra a lama
e esse luar contra o salto
ou se achas mais sensato
e tua raiva reclama
cospe o lirismo na lama
atira a flauta no asfalto
1 078
José Eustáquio da Silva
Querer
luz pálida
sinal fechado
solidão me toque não
no outdoor vejo você
encanto de alquimista
qualquer coisa, qualquer vista
mar à vista
meu porto é você
meu olho chove
seu rosto jovem
meu grito mudo
sua boca morde
não me incomode
deixe-me amar
abraça-me em lá maior
me transe em música
e me deixe só...
sinal fechado
solidão me toque não
no outdoor vejo você
encanto de alquimista
qualquer coisa, qualquer vista
mar à vista
meu porto é você
meu olho chove
seu rosto jovem
meu grito mudo
sua boca morde
não me incomode
deixe-me amar
abraça-me em lá maior
me transe em música
e me deixe só...
779
José Eustáquio da Silva
Quem sou?
Meu nome é José Eustáquio da Silva (Taquinho), natural de Bela Vista de Minas-MG, pequena cidade da zona da mata mineira, situada a 100 Km da capital Belo Horizonte.
Há aproximadamente 15 anos me identifiquei com a literatura, e hoje a tenho como minha melhor companheira.
Minhas primeiras ( e únicas ) investidas no ramo das letras, deram-se em meados da década de 80, onde atrevi-me a inscrever meus incautos e pueris poemas em alguns concursos literários da escola na qual estudei (sou formado em Metalurgia ).
Também nesta época, atiçado por alguns amigos, andei musicalizando alguns poemas, fazendo-os participar de alguns (bons) festivais de música da minha cidade, chegando, inclusive, talvez mais por insistência do que competência, a ganhar alguns prêmios.
Hoje, prismando-me em uma cosmovisão bem diferente, talvez menos inteligente e menos inocente , daquela de alguns anos atrás, sigo observando tudo, como se fosse tudo tão estranho e buscando um novo significado para o que, para muitos, parece óbvio.
Há aproximadamente 15 anos me identifiquei com a literatura, e hoje a tenho como minha melhor companheira.
Minhas primeiras ( e únicas ) investidas no ramo das letras, deram-se em meados da década de 80, onde atrevi-me a inscrever meus incautos e pueris poemas em alguns concursos literários da escola na qual estudei (sou formado em Metalurgia ).
Também nesta época, atiçado por alguns amigos, andei musicalizando alguns poemas, fazendo-os participar de alguns (bons) festivais de música da minha cidade, chegando, inclusive, talvez mais por insistência do que competência, a ganhar alguns prêmios.
Hoje, prismando-me em uma cosmovisão bem diferente, talvez menos inteligente e menos inocente , daquela de alguns anos atrás, sigo observando tudo, como se fosse tudo tão estranho e buscando um novo significado para o que, para muitos, parece óbvio.
1 150
Nelson Ascher
Festas do intelecto e da desordem
Há muito de semelhante nas trajetórias que levaram (ou trouxeram) Waly Salomão e Antonio Risério aos seus respectivos primeiros volumes de poemas. Primeiros, sim _pois o que Waly fazia antes era um tipo de prosa, e o volume de estréia de Risério (incorporado neste novo) estava mais para um ensaio geral, oculto, além disso, no segredo de uma edição mínima. Bom, quanto às semelhanças, ambos vêm do mesmo Estado _a Bahia_, ligaram-se e/ou descendem _mais ou menos_ da MPB de lá (Caetano, Gil & cia.) e da poesia concreta paulista, agitaram revistas nos anos 70 (Navilouca um, Muda o outro) etc.
Mas as diferenças são importantes. "Algaravia" de Waly é um livro cosmopolita, embora claramente enraizado na sua origem. "Fetiche" de Risério, no que tem de mais realizado, é étnico, ou melhor, interétnico. O primeiro metaboliza _sem negá-las_ as influências que formaram o poeta. O segundo oscila entre algo de fato próprio/pessoal e um lastro de tributos pagos explicitamente. Um atrai, entre outras razões, pelo que já não é. O outro, pelo que poderia ser mais plenamente.
As intenções de Waly são claras e ele as declara: "Um poema deve ser uma festa do intelecto"; "_O que é que você quer ser quando crescer?/_Poeta polifônico." A festa polifônica do intelecto se realiza sobretudo na memória que, para ele, "é uma ilha de edição", em que são trabalhados diversos tempos e lugares, reais ou imaginários, evocados de distintas maneiras, mas principalmente por meio de frases em outras línguas (inglês, francês, catalão).
Atravessa o livro uma perpétua perplexidade em face do quê e pelo quê se passou e, curiosamente, sobressai em seus poemas não tanto a nostalgia quanto a náusea _por exemplo, dos anos 60/70 em "Pesadelo de Classe"_ e, quando se celebra (dubiamente) a viagem em "Poema Jet-Lagged", ela é logo após negada em "Anti-Viagem", texto que, com o anterior, espelha-se num díptico oximoresco.
Waly faz do poema uma des-re-montagem da experiência, mas sua meta, obviamente, não é a fixação desta e sim o próprio poema, que, aliás, é continuamente discutido dentro e por dentro sem que se transforme em metapoesia. E as próprias citações eruditas brotam, por assim dizer, organicamente do argumento e da "persona" lírica inventada. E aqui, no conjunto, ele barroquiza tropicalmente, na melhor tradição de seu Estado: "Uns ouvindo o canto intuem Orfeu, outros sentem/ Oxum" _porque sua poesia se faz com "Alaúde, cuíca e pau-de-chuva". Mais que o citado, portanto, conta mesmo é quem cita, pois, afinal, "Alguém acha que ritmo jorra fácil,/ pronto rebento do espontaneismo?".
Em "Fetiche", por sua vez, o mais duradouro é o que se vincula a/e decorre do ensaísmo do poeta.
Risério, conhecido como um dos mais talentosos ensaístas de sua geração, estudou com originalidade a poesia brasileira moderna, a MPB, o carnaval e certos temas _sua marca registrada_ que poderiam ser chamados de etnopoéticos. Quando sua própria poesia se aproxima desse último conjunto de inquietações, ela ganha singularidade. Quando, por outro lado, envolve-se com as admirações literárias e musicais do autor, ela deixa a rigor de ser "sua própria poesia" e torna-se poesia alheia.
Assim há no livro poemas que poderiam ser atribuídos, por exemplo, a Haroldo de Campos ("Dêuteros Hélios" remete obviamente aos "Opúsculos Goetheanos"); a Paulo Leminski ("Leminskiana" naturalmente, mas também "Estreito de Behring"); a Décio Pignatari ("Caras Pintadas", em que frases inteiras ganham outro sentido quando deformadas pela troca de letras);
Caetano Veloso ("Noche de Ronda" descende de "Podres Poderes", "Vaca Profana" etc.), Affonso Avilla, José Paulo Paes e até mesmo Drummond (compare-se "Toque Árabe", que não é um mau poema, com "Anedota Búlgara").
O tributo mais pesado, porém, é pago a Augusto de Campos. E não se trata apenas do caráter visual do livro, com poemas espacializados, transcritos em diversas famílias e corpos de letra e processados por computador, ou de "intraduções", mas de praticamente metade dos textos do livro operando num estilo que, com poucas alterações generacionais, são augustianos sem tirar nem pôr.
Poetas foram feitos para serem imitados, seguidos, mas também alterados. O problema é que Augusto é um dos mais singulares que existem, particularmente quando desenvolve paralela e articuladamente o verbal e o visual, algo no que ele é provavelmente único. Ou seja, uma vez que se chegue ao "ovo novelo" de Colombo, torna-se fácil imitá-lo, mas o resultado acaba sendo precisamente isso _uma imitação, com as consequências de praxe: o que for bom no poema pertence ao mestre, enquanto cabe ao discípulo assumir plena responsabilidade pelos seus defeitos.
Em outras palavras, Augusto é inimitável e metade de "Fetiche" o demonstra bem: quando os poemas funcionam, eles não são, em última instância, de autoria do autor.
Essa autoria se firma e patenteia, isto sim, nos poemas em que Riséio busca sua _com perdão da palavra_ inspiração, em outras culturas, na alteridade, na procura do _com redobrado perdão da palavra_ "outro", uma entidade cantada, decantada e entrevistada, mas raramente entrevista.
É aqui _em "Via Papua" e "Antiskoklaan" (um poema judaico), na algaravia multicultural (no bom sentido) de "Herrera", em "Padê", "Poema de Catequese" e outros_ que o poeta retoma uma das melhores vertentes do primeiro modernismo _a de Oswald, Raul Bopp e do Mario macunaímico_ para começar a trabalhá-la, enquanto fetiche "so to say" primitivo _sem fetichismo primitivista_, num outro patamar de conhecimento antropológico, informado agora menos pelos delírios de Bachofen que pelos estudos de um Mircea Eliade ou um Lévi-Strauss. A chave disso, é Risério mesmo quem a dá em sua "Arte Poética": "Na serra da desordem/ no piracambu tapiri/ em cada igarapé do pindaré/ em cada igarapé do gurupi/ existe uma palavra/ uma palavra nova para mim".
Lançamento - "Algaravias", de Waly Salomão, será lançado no Rio, no dia 8, a partir das 20h, na Livraria Timbre (r. Marquês de São Vicente, 52, loja 221, tel. 021/274-1146), e em São Paulo, no dia 15, a partir das 20h, na Livraria Antes do Baile Verde (al. Gabriel Monteiro da Silva, 1.374, tel. 011/881-9721).
(in Folha de São Paulo)
Leia obra poética de Nelson Ascher
Mas as diferenças são importantes. "Algaravia" de Waly é um livro cosmopolita, embora claramente enraizado na sua origem. "Fetiche" de Risério, no que tem de mais realizado, é étnico, ou melhor, interétnico. O primeiro metaboliza _sem negá-las_ as influências que formaram o poeta. O segundo oscila entre algo de fato próprio/pessoal e um lastro de tributos pagos explicitamente. Um atrai, entre outras razões, pelo que já não é. O outro, pelo que poderia ser mais plenamente.
As intenções de Waly são claras e ele as declara: "Um poema deve ser uma festa do intelecto"; "_O que é que você quer ser quando crescer?/_Poeta polifônico." A festa polifônica do intelecto se realiza sobretudo na memória que, para ele, "é uma ilha de edição", em que são trabalhados diversos tempos e lugares, reais ou imaginários, evocados de distintas maneiras, mas principalmente por meio de frases em outras línguas (inglês, francês, catalão).
Atravessa o livro uma perpétua perplexidade em face do quê e pelo quê se passou e, curiosamente, sobressai em seus poemas não tanto a nostalgia quanto a náusea _por exemplo, dos anos 60/70 em "Pesadelo de Classe"_ e, quando se celebra (dubiamente) a viagem em "Poema Jet-Lagged", ela é logo após negada em "Anti-Viagem", texto que, com o anterior, espelha-se num díptico oximoresco.
Waly faz do poema uma des-re-montagem da experiência, mas sua meta, obviamente, não é a fixação desta e sim o próprio poema, que, aliás, é continuamente discutido dentro e por dentro sem que se transforme em metapoesia. E as próprias citações eruditas brotam, por assim dizer, organicamente do argumento e da "persona" lírica inventada. E aqui, no conjunto, ele barroquiza tropicalmente, na melhor tradição de seu Estado: "Uns ouvindo o canto intuem Orfeu, outros sentem/ Oxum" _porque sua poesia se faz com "Alaúde, cuíca e pau-de-chuva". Mais que o citado, portanto, conta mesmo é quem cita, pois, afinal, "Alguém acha que ritmo jorra fácil,/ pronto rebento do espontaneismo?".
Em "Fetiche", por sua vez, o mais duradouro é o que se vincula a/e decorre do ensaísmo do poeta.
Risério, conhecido como um dos mais talentosos ensaístas de sua geração, estudou com originalidade a poesia brasileira moderna, a MPB, o carnaval e certos temas _sua marca registrada_ que poderiam ser chamados de etnopoéticos. Quando sua própria poesia se aproxima desse último conjunto de inquietações, ela ganha singularidade. Quando, por outro lado, envolve-se com as admirações literárias e musicais do autor, ela deixa a rigor de ser "sua própria poesia" e torna-se poesia alheia.
Assim há no livro poemas que poderiam ser atribuídos, por exemplo, a Haroldo de Campos ("Dêuteros Hélios" remete obviamente aos "Opúsculos Goetheanos"); a Paulo Leminski ("Leminskiana" naturalmente, mas também "Estreito de Behring"); a Décio Pignatari ("Caras Pintadas", em que frases inteiras ganham outro sentido quando deformadas pela troca de letras);
Caetano Veloso ("Noche de Ronda" descende de "Podres Poderes", "Vaca Profana" etc.), Affonso Avilla, José Paulo Paes e até mesmo Drummond (compare-se "Toque Árabe", que não é um mau poema, com "Anedota Búlgara").
O tributo mais pesado, porém, é pago a Augusto de Campos. E não se trata apenas do caráter visual do livro, com poemas espacializados, transcritos em diversas famílias e corpos de letra e processados por computador, ou de "intraduções", mas de praticamente metade dos textos do livro operando num estilo que, com poucas alterações generacionais, são augustianos sem tirar nem pôr.
Poetas foram feitos para serem imitados, seguidos, mas também alterados. O problema é que Augusto é um dos mais singulares que existem, particularmente quando desenvolve paralela e articuladamente o verbal e o visual, algo no que ele é provavelmente único. Ou seja, uma vez que se chegue ao "ovo novelo" de Colombo, torna-se fácil imitá-lo, mas o resultado acaba sendo precisamente isso _uma imitação, com as consequências de praxe: o que for bom no poema pertence ao mestre, enquanto cabe ao discípulo assumir plena responsabilidade pelos seus defeitos.
Em outras palavras, Augusto é inimitável e metade de "Fetiche" o demonstra bem: quando os poemas funcionam, eles não são, em última instância, de autoria do autor.
Essa autoria se firma e patenteia, isto sim, nos poemas em que Riséio busca sua _com perdão da palavra_ inspiração, em outras culturas, na alteridade, na procura do _com redobrado perdão da palavra_ "outro", uma entidade cantada, decantada e entrevistada, mas raramente entrevista.
É aqui _em "Via Papua" e "Antiskoklaan" (um poema judaico), na algaravia multicultural (no bom sentido) de "Herrera", em "Padê", "Poema de Catequese" e outros_ que o poeta retoma uma das melhores vertentes do primeiro modernismo _a de Oswald, Raul Bopp e do Mario macunaímico_ para começar a trabalhá-la, enquanto fetiche "so to say" primitivo _sem fetichismo primitivista_, num outro patamar de conhecimento antropológico, informado agora menos pelos delírios de Bachofen que pelos estudos de um Mircea Eliade ou um Lévi-Strauss. A chave disso, é Risério mesmo quem a dá em sua "Arte Poética": "Na serra da desordem/ no piracambu tapiri/ em cada igarapé do pindaré/ em cada igarapé do gurupi/ existe uma palavra/ uma palavra nova para mim".
Lançamento - "Algaravias", de Waly Salomão, será lançado no Rio, no dia 8, a partir das 20h, na Livraria Timbre (r. Marquês de São Vicente, 52, loja 221, tel. 021/274-1146), e em São Paulo, no dia 15, a partir das 20h, na Livraria Antes do Baile Verde (al. Gabriel Monteiro da Silva, 1.374, tel. 011/881-9721).
(in Folha de São Paulo)
Leia obra poética de Nelson Ascher
1 173
Gabriel Archanjo de Mendonça
Virtuose
Na vastidão de bocas desdentadas
a pastoral tange o verniz das pedras
— mas onde o eco?
O cocho transborda teclas
e as falanges se incendeiam
na pira de sons vivaces.
Fundem-se os tons na digestão difícil.
O líquido se evapora
ao contato do solo impermeável.
Nervos cozidos fervilhando à pele
derretem-se em lavas
na pausa conclusiva.
Lábios carbonizados se contraem
cobrando a palma impossível.
a pastoral tange o verniz das pedras
— mas onde o eco?
O cocho transborda teclas
e as falanges se incendeiam
na pira de sons vivaces.
Fundem-se os tons na digestão difícil.
O líquido se evapora
ao contato do solo impermeável.
Nervos cozidos fervilhando à pele
derretem-se em lavas
na pausa conclusiva.
Lábios carbonizados se contraem
cobrando a palma impossível.
826
Gilberto Avelino
Na Piscina
Aquém do mar,
a piscina
de águas azuis.
As sombras,
os ventos,
as mesas,
brancas,
circulando
a piscina.
A suavidade
da água de cocos.
Ou o doce e fino
sabor
da água das fontes,
após
comer-se
a leve gordura dos cascos,
a clara carne
das patas
dos vermelhos
caranguejos cozidos.
Ainda,
a carne seca,
assada nas brasas,
flamejando.
Em copos de cristal,
a tênue espuma
do vinho
branco
ou tinto,
com verdes-azeitonas
boiando.
Enterneciam a manhã
os blues
de Louis Armstrong.
Aquém do mar,
a piscina
de águas azuis.
De repente
vinhas,
a davas ao corpo
a carícia das águas.
Com o exíguo vestir,
em relevo expunhas
ao sol
o viço
da inapagável beleza
do teu corpo.
E do olhar
nasciam-me
salsas enlaçantes.
Não te esqueças,
portanto,
girassol de dezembro,
de que sempre volto
a ver
o azul dessas águas.
a piscina
de águas azuis.
As sombras,
os ventos,
as mesas,
brancas,
circulando
a piscina.
A suavidade
da água de cocos.
Ou o doce e fino
sabor
da água das fontes,
após
comer-se
a leve gordura dos cascos,
a clara carne
das patas
dos vermelhos
caranguejos cozidos.
Ainda,
a carne seca,
assada nas brasas,
flamejando.
Em copos de cristal,
a tênue espuma
do vinho
branco
ou tinto,
com verdes-azeitonas
boiando.
Enterneciam a manhã
os blues
de Louis Armstrong.
Aquém do mar,
a piscina
de águas azuis.
De repente
vinhas,
a davas ao corpo
a carícia das águas.
Com o exíguo vestir,
em relevo expunhas
ao sol
o viço
da inapagável beleza
do teu corpo.
E do olhar
nasciam-me
salsas enlaçantes.
Não te esqueças,
portanto,
girassol de dezembro,
de que sempre volto
a ver
o azul dessas águas.
2 354
Fernanda Benevides
Eu e Brisa
Eis que o ciciar da brisa matinal
acariciou-me o ouvido
- acordou em mim uma melodia.
Ecos vibrantes eclodiram,
plenetraram-me,
invadiram-me...
Ah! Essa brisa matinal
me trouxe um viço,
uma inquietação,
um rebuliço!...
acariciou-me o ouvido
- acordou em mim uma melodia.
Ecos vibrantes eclodiram,
plenetraram-me,
invadiram-me...
Ah! Essa brisa matinal
me trouxe um viço,
uma inquietação,
um rebuliço!...
922
Fernanda Benevides
Encontro com a Solidão
Eis que me deparo com a solidão
de estar só comigo.
Ninguém ao redor.
Apenas a noite, escassas estrelas
e o mar a murmurar...
A música envolve o ar,
ocupa o espaço,
preenche a lacuna
- lacuna?
Neste momento basto-me.
Solitária e distante,
brindando o estar sozinha,
canto a alegria
de nada ter a lamentar,
assim sorrindo
Por não ter o que chorar.
de estar só comigo.
Ninguém ao redor.
Apenas a noite, escassas estrelas
e o mar a murmurar...
A música envolve o ar,
ocupa o espaço,
preenche a lacuna
- lacuna?
Neste momento basto-me.
Solitária e distante,
brindando o estar sozinha,
canto a alegria
de nada ter a lamentar,
assim sorrindo
Por não ter o que chorar.
774
Eunaldo Costa
Flamejam luzes no meu peito
Flamejam luzes no meu peito
Quando começo a ouvir
A primeira partitura da madrugada,
Então, em êxtase, vôo como um pássaro
E colho a estrela que o tempo
Modelou para as minhas mãos
Que vão traçar o rumo dos rios
Que andam com o corpo ferido de âncoras
Alado, sinto que eu e o som
Da vida somos um só,
E que minha alma, banhada
De prata e sol, se transforma
Numa rosa mágica de um signo do zodíaco,
Neste momento começo a ouvir
A segunda partitura da madrugada.
E a minha consciência se veste do verdor das algas.
Quando começo a ouvir
A primeira partitura da madrugada,
Então, em êxtase, vôo como um pássaro
E colho a estrela que o tempo
Modelou para as minhas mãos
Que vão traçar o rumo dos rios
Que andam com o corpo ferido de âncoras
Alado, sinto que eu e o som
Da vida somos um só,
E que minha alma, banhada
De prata e sol, se transforma
Numa rosa mágica de um signo do zodíaco,
Neste momento começo a ouvir
A segunda partitura da madrugada.
E a minha consciência se veste do verdor das algas.
888
Eolo Yberê Líbera
Barroco de Minas
O espírito de Bach sobre Ouro Preto
Vivaldi pairando sobre o portal do Carmo
(os três anjos do Aleijadinho saem correndo
chamando o mestre)
Vivaldi pairando sobre o portal do Carmo
(os três anjos do Aleijadinho saem correndo
chamando o mestre)
948
Edmundo de Bettencourt
Sugestão
Entro na igreja majestosa e calma,
erro na sombra sob as arcarias.
Anda no ar silêncio, e a minha alma
toma a frieza das colunas frias...
Numa capela triste aonde espalma,
dourado lustre, chamas fugidias,
tocam-me o peito as sete duma palma,
a evocar-me de Cristo as agonias.
Começa o som do órgão, morno, errante,
o aroma do incenso penetrante
como as garras aduncas do tormento.
E já o desejo acre de esquecer,
ao longe o mundo eu só escutar e ver,
coração me nasce brando e lento. . .
erro na sombra sob as arcarias.
Anda no ar silêncio, e a minha alma
toma a frieza das colunas frias...
Numa capela triste aonde espalma,
dourado lustre, chamas fugidias,
tocam-me o peito as sete duma palma,
a evocar-me de Cristo as agonias.
Começa o som do órgão, morno, errante,
o aroma do incenso penetrante
como as garras aduncas do tormento.
E já o desejo acre de esquecer,
ao longe o mundo eu só escutar e ver,
coração me nasce brando e lento. . .
1 095
Duarte Galvão
Tocador de Piana
Negro tocador de canções
são lamentos febris sem eco
na noite das casuarinas dizem ...
Ah! mas dizem tanta coisa sem sentido
Negro tocador ...
A vida permanece num beco
sem saída, e a idéia dos sermões
morre no próprio templo.
Geme, pois, tuas canções tristes,
apertando nos lábios a "piana"
Na noite das casuarinas
Não morrem teus lamentos,
digo-te: outro negro tocador
anônimo, de olhos vendados ou não,
tocará outras canções tristes!
são lamentos febris sem eco
na noite das casuarinas dizem ...
Ah! mas dizem tanta coisa sem sentido
Negro tocador ...
A vida permanece num beco
sem saída, e a idéia dos sermões
morre no próprio templo.
Geme, pois, tuas canções tristes,
apertando nos lábios a "piana"
Na noite das casuarinas
Não morrem teus lamentos,
digo-te: outro negro tocador
anônimo, de olhos vendados ou não,
tocará outras canções tristes!
966
Debora Bottcher
Momentos
Quase a Vida me foge dos sentidos quando te vejo.
O chão parece estar longe
E meus ouvidos ouvem música.
Constante... calma... suave...
Tudo, de repente, parece colorido à volta.
A percepção do importante se perde
Tanto se agiganta minha emoção.
E é nestes momentos
Quando a Vida me foge dos sentidos,
Que percebo quanto sentido tem a Vida.
O chão parece estar longe
E meus ouvidos ouvem música.
Constante... calma... suave...
Tudo, de repente, parece colorido à volta.
A percepção do importante se perde
Tanto se agiganta minha emoção.
E é nestes momentos
Quando a Vida me foge dos sentidos,
Que percebo quanto sentido tem a Vida.
932
Cora Coralina
O Passado
O salão da frente recende a cravo.
Um grupo de gente moça
se reúne ali.
"Clube Literário Goiano".
Rosa Godinho.
Luzia de Oliveira.
Leodegária de Jesus,
a presidência.
Nós, gente menor,
sentadas, convencidas, formais.
Respondendo à chamada.
Ouvindo atentas a leitura da ata.
Pedindo a palavra.
Levantando idéias geniais.
Encerrada a sessão com seriedade,
passávamos à tertúlia.
O velho harmônio, uma flauta, um bandolim.
Músicas antigas. Recitativos.
Declamavam-se monólogos.
Dialogávamos em rimas e risos.
D. Virgínia. Benjamim.
Rodolfo. Ludugero.
Veros anfitriões.
Sangrias. Doces. Licor de rosa.
Distinção. Agrado.
O Passado...
Homens sem pressa,
talvez cansados,
descem com leva
madeirões pesados,
lavrados por escravos
em rudes simetrias,
do tempo das acutas.
Inclemência.
Caem pedaços na calçada.
Passantes cautelosos
desviam-se com prudência.
Que importa a eles o sobrado?
Gente que passa indiferente,
olha de longe,
na dobra das esquinas,
as traves que despencam.
-Que vale para eles o sobrado?
Quem vê nas velhas sacadas
de ferro forjado
as sombras debruçadas?
Quem é que está ouvindo
o clamor, o adeus, o chamado?...
Que importa a marca dos retratos na parede?
Que importam as salas destelhadas,
e o pudor das alcovas devassadas...
Que importam?
E vão fugindo do sobrado,
aos poucos,
os quadros do Passado.
Um grupo de gente moça
se reúne ali.
"Clube Literário Goiano".
Rosa Godinho.
Luzia de Oliveira.
Leodegária de Jesus,
a presidência.
Nós, gente menor,
sentadas, convencidas, formais.
Respondendo à chamada.
Ouvindo atentas a leitura da ata.
Pedindo a palavra.
Levantando idéias geniais.
Encerrada a sessão com seriedade,
passávamos à tertúlia.
O velho harmônio, uma flauta, um bandolim.
Músicas antigas. Recitativos.
Declamavam-se monólogos.
Dialogávamos em rimas e risos.
D. Virgínia. Benjamim.
Rodolfo. Ludugero.
Veros anfitriões.
Sangrias. Doces. Licor de rosa.
Distinção. Agrado.
O Passado...
Homens sem pressa,
talvez cansados,
descem com leva
madeirões pesados,
lavrados por escravos
em rudes simetrias,
do tempo das acutas.
Inclemência.
Caem pedaços na calçada.
Passantes cautelosos
desviam-se com prudência.
Que importa a eles o sobrado?
Gente que passa indiferente,
olha de longe,
na dobra das esquinas,
as traves que despencam.
-Que vale para eles o sobrado?
Quem vê nas velhas sacadas
de ferro forjado
as sombras debruçadas?
Quem é que está ouvindo
o clamor, o adeus, o chamado?...
Que importa a marca dos retratos na parede?
Que importam as salas destelhadas,
e o pudor das alcovas devassadas...
Que importam?
E vão fugindo do sobrado,
aos poucos,
os quadros do Passado.
2 182
Cludia Nobre de Oliveira
Meu Trabalho, Meu Viver
Meu instrumento é o violino, a flauta, é a lira
é o dó , o ré é a musica...
Meu instrumento é a enxada, é a colheita é a chuva
é o alimento...
Meu instrumento é a massa, é a areia é a água..
é a casa levantada...
Meu instrumento é o barulho, a correria,
é o trânsito, o volante, o leva e trás...
Meu instrumento é o remédio, é a receita
é o estudo é a cura....
Seja qual for seu instrumento de trabalho, e´ com certeza o
seu meio de crescer de evoluir para ser instrumento de luz
da laboriosa natureza......
mas sede, sede de vida.
é o dó , o ré é a musica...
Meu instrumento é a enxada, é a colheita é a chuva
é o alimento...
Meu instrumento é a massa, é a areia é a água..
é a casa levantada...
Meu instrumento é o barulho, a correria,
é o trânsito, o volante, o leva e trás...
Meu instrumento é o remédio, é a receita
é o estudo é a cura....
Seja qual for seu instrumento de trabalho, e´ com certeza o
seu meio de crescer de evoluir para ser instrumento de luz
da laboriosa natureza......
mas sede, sede de vida.
896
Cleonice Rainho
Lição de Mitologia
Era deus com d pequeno
dizia o pai — o deus Apolo —
porque com D grande
só o Deus verdadeiro
— Senhor do mundo inteiro.
Foi deus da luz, da beleza,
da juventude. E protegia
a dança, música e poesia.
Manejava bem flecha e lira
a pé, em passos ritmados
ou em carros puxados
por cavalos brancos
de rédeas de ouro.
Herói de muitas batalhas,
dono de templos,
vivia o presente
e o futuro conhecia,
capaz de qualquer magia.
Mas, gostava mesmo
era de bailar no ar
e tocar e cantar
para encantar os homens...
— E por que ele não volta? —
interrompia o menino
ao pai que respondia:
— Apolo é mito ou lenda
que conhecemos da Mitologia.
dizia o pai — o deus Apolo —
porque com D grande
só o Deus verdadeiro
— Senhor do mundo inteiro.
Foi deus da luz, da beleza,
da juventude. E protegia
a dança, música e poesia.
Manejava bem flecha e lira
a pé, em passos ritmados
ou em carros puxados
por cavalos brancos
de rédeas de ouro.
Herói de muitas batalhas,
dono de templos,
vivia o presente
e o futuro conhecia,
capaz de qualquer magia.
Mas, gostava mesmo
era de bailar no ar
e tocar e cantar
para encantar os homens...
— E por que ele não volta? —
interrompia o menino
ao pai que respondia:
— Apolo é mito ou lenda
que conhecemos da Mitologia.
1 084
Chico Buarque
Choro bandido
Mesmo que os cantores sejam falsos como eu
Serão bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo miseráveis os poetas
Os seus versos serão bons
Mesmo porque as notas eram surdas
Quando um deus sonso e ladrão
Fez das tripas a primeira lira
Que animou todos os sons
E daí nasceram as baladas
E os arroubos de bandidos como eu
Cantando assim:
Você nasceu para mim
Você nasceu para mim
Mesmo que você feche os ouvidos
E as janelas do vestido
Minha musa vai cair em tentação
Mesmo porque estou falando grego
Com sua imaginação
Mesmo que você fuja de mim
Por labirintos e alçapões
Saiba que os poetas como os cegos
Podem ver na escuridão
E eis que, menos sábios do que antes
Os seus lábios ofegantes
Hão de se entregar assim:
Me leve até o fim
Me leve até o fim
Mesmo que os romances sejam falsos como o nosso
São bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo sendo errados os amantes
Seus amores serão bons
Serão bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo miseráveis os poetas
Os seus versos serão bons
Mesmo porque as notas eram surdas
Quando um deus sonso e ladrão
Fez das tripas a primeira lira
Que animou todos os sons
E daí nasceram as baladas
E os arroubos de bandidos como eu
Cantando assim:
Você nasceu para mim
Você nasceu para mim
Mesmo que você feche os ouvidos
E as janelas do vestido
Minha musa vai cair em tentação
Mesmo porque estou falando grego
Com sua imaginação
Mesmo que você fuja de mim
Por labirintos e alçapões
Saiba que os poetas como os cegos
Podem ver na escuridão
E eis que, menos sábios do que antes
Os seus lábios ofegantes
Hão de se entregar assim:
Me leve até o fim
Me leve até o fim
Mesmo que os romances sejam falsos como o nosso
São bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo sendo errados os amantes
Seus amores serão bons
1 607
Cleonice Rainho
O Sino
Os braços longos
nas longas cordas,
a torre e o bronze
os sons do sino.
Cresce a capelinha,
o cruzeiro se eleva,
mais puro e santo
aos sons do sino.
Em pleno dia
de luz e brilhos
badaladas de sol
os sons do sino.
Dormem as plantas,
animais se recolhem
na tarde de sombras
aos sons do sino.
Também me recolho
bem dentro de mim,
guardando a melodia
dos sons do sino.
E minha alma em paz
é uma colina azul,
paisagem do céu
pelos sons do sino.
nas longas cordas,
a torre e o bronze
os sons do sino.
Cresce a capelinha,
o cruzeiro se eleva,
mais puro e santo
aos sons do sino.
Em pleno dia
de luz e brilhos
badaladas de sol
os sons do sino.
Dormem as plantas,
animais se recolhem
na tarde de sombras
aos sons do sino.
Também me recolho
bem dentro de mim,
guardando a melodia
dos sons do sino.
E minha alma em paz
é uma colina azul,
paisagem do céu
pelos sons do sino.
1 289
Chico Buarque
Paratodos
O meu pai era paulista
Meu avô, pernambucano
O meu bisavô, mineiro
Meu tataravô, baiano
Meu maestro soberano
Foi Antonio Brasileiro
Foi Antonio Brasileiro
Quem soprou esta toada
Que cobri de redondilhas
Pra seguir minha jornada
E com a vista enevoada
Ver o inferno e maravilhas
Nessas tortuosas trilhas
A viola me redime
Creia, ilustre cavalheiro
Contra fel, moléstia, crime
Use Dorival Caymmi
Vá de Jackson do Pandeiro
Vi cidades, vi dinheiro
Bandoleiros, vi hospícios
Moças feito passarinho
Avoando de edifícios
Fume Ari, cheire Vinícius
Beba Nelson Cavaquinho
Para um coração mesquinho
Contra a solidão agreste
Luiz Gonzaga é tiro certo
Pixinguinha é inconteste
Tome Noel, Cartola, Orestes
Caetano e João Gilberto
Viva Erasmo, Ben, Roberto
Gil e Hermeto, palmas para
Todos os instrumentistas
Salve Edu, Bituca, Nara
Gal, Bethania, Rita, Clara
Evoé, jovens a vista
O meu pai era paulista
Meu avô pernambucano
O meu bisavô, mineiro
Meu tataravô baiano
Vou na estrada há muitos anos
Sou um artista brasileiro
Meu avô, pernambucano
O meu bisavô, mineiro
Meu tataravô, baiano
Meu maestro soberano
Foi Antonio Brasileiro
Foi Antonio Brasileiro
Quem soprou esta toada
Que cobri de redondilhas
Pra seguir minha jornada
E com a vista enevoada
Ver o inferno e maravilhas
Nessas tortuosas trilhas
A viola me redime
Creia, ilustre cavalheiro
Contra fel, moléstia, crime
Use Dorival Caymmi
Vá de Jackson do Pandeiro
Vi cidades, vi dinheiro
Bandoleiros, vi hospícios
Moças feito passarinho
Avoando de edifícios
Fume Ari, cheire Vinícius
Beba Nelson Cavaquinho
Para um coração mesquinho
Contra a solidão agreste
Luiz Gonzaga é tiro certo
Pixinguinha é inconteste
Tome Noel, Cartola, Orestes
Caetano e João Gilberto
Viva Erasmo, Ben, Roberto
Gil e Hermeto, palmas para
Todos os instrumentistas
Salve Edu, Bituca, Nara
Gal, Bethania, Rita, Clara
Evoé, jovens a vista
O meu pai era paulista
Meu avô pernambucano
O meu bisavô, mineiro
Meu tataravô baiano
Vou na estrada há muitos anos
Sou um artista brasileiro
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