Poemas neste tema
Noite e Lua
Francisco Carvalho
Adágio Para um Tigre
Quando ele passeia pela floresta
os astros se escondem em seus casulos
de cristal e as ramagens genuflexas
derramam no ar gorjeios de alaúdes.
O tigre escuta o cântico das árvores
seduzidas pela flauta de Pã.
Seus olhos, dançarinos entre as flores
querem dormir ao sol de Aldebarã.
A noite arrasta o seu manto de búzios
sobre os pântanos coroados de chamas.
O tigre é um deus que sai de seus refúgios
para comer os brolhos das semanas.
O vento apaga as lâmpadas dos charcos
volta a zumbir nas veias dos cipós.
O tigre escreve a lenda de seus passos.
Em seu rumor canta secreta voz.
As horas passam, suas vestes longas
tocam de leve as harpas das clareiras.
O andar do tigre e o espírito das sombras
são dois impulsos para as profundezas.
os astros se escondem em seus casulos
de cristal e as ramagens genuflexas
derramam no ar gorjeios de alaúdes.
O tigre escuta o cântico das árvores
seduzidas pela flauta de Pã.
Seus olhos, dançarinos entre as flores
querem dormir ao sol de Aldebarã.
A noite arrasta o seu manto de búzios
sobre os pântanos coroados de chamas.
O tigre é um deus que sai de seus refúgios
para comer os brolhos das semanas.
O vento apaga as lâmpadas dos charcos
volta a zumbir nas veias dos cipós.
O tigre escreve a lenda de seus passos.
Em seu rumor canta secreta voz.
As horas passam, suas vestes longas
tocam de leve as harpas das clareiras.
O andar do tigre e o espírito das sombras
são dois impulsos para as profundezas.
1 095
Flávio Villa-Lobos
Delírio
Na penumbra,
uma indefinível alegoria
salta na trêmula paisagem
e principia uma estranha
dança noturna.
Passos silenciosos
movem-se elásticos
em meio à névoa úmida
- vôos espetaculares
sem música.
Gestos grandiosos,
o corpo envolto em mímica
revela o deslumbramento
solitário e, ao mesmo tempo,
mágico e absoluto.
Instante único,
encontro de almas gêmeas,
o toque ímpar no extraordinário...
Fuga da realidade
em pleno sol da meia-noite.
uma indefinível alegoria
salta na trêmula paisagem
e principia uma estranha
dança noturna.
Passos silenciosos
movem-se elásticos
em meio à névoa úmida
- vôos espetaculares
sem música.
Gestos grandiosos,
o corpo envolto em mímica
revela o deslumbramento
solitário e, ao mesmo tempo,
mágico e absoluto.
Instante único,
encontro de almas gêmeas,
o toque ímpar no extraordinário...
Fuga da realidade
em pleno sol da meia-noite.
898
Francisco Carvalho
Sala
Ouço passos vindos
do alpendre
para dentro da sala.
Será o vento que fala
coisas da cabala?
Ou será o morto
de regresso à senzala?
O vento se cala
e um rumor de sedas
resvala
no ladrilho da sala.
No alto da cumeeira
a coruja gargalha.
De novo o mistério
se instala
em cada movimento
da sala.
do alpendre
para dentro da sala.
Será o vento que fala
coisas da cabala?
Ou será o morto
de regresso à senzala?
O vento se cala
e um rumor de sedas
resvala
no ladrilho da sala.
No alto da cumeeira
a coruja gargalha.
De novo o mistério
se instala
em cada movimento
da sala.
1 022
Frederico Barbosa
Rarefato
Outra trilogia do tédio
I
Nenhuma voz humana aqui se pronunciachove um fantasma anárquico, demolidor
amplo nada no vazio deste desertoanuncia-se como ausência, carne em unha
odor silencioso no vento escarpacorte de um espectro pousando na água
tudo que escoa em silêncio em tempo ecoa
II
Sentia o término correndo nas veias.Há pressa: via.Houve um momento grave.(O filme era ruim. O cinema, lotado.Na luz neblina, escondido, um cigarro.)Impossível escapar ao pânico,prever o vazio provável.De repente: o estalo.Terminal,a consciência do zero rondando.Estado, condição, estado.Abre:
III
Dominado pela pedra, insone,descolorido, o crime principianas altas horas de noite vaziaganha corpo no decorrer do dia.
Ganha corpo no decorrer do dia,dominado pela pedra insonedor de náusea delicada e infame,das altas horas da noite vazia.
Dor de náusea delicada, infame,nas altas horas na noite vaziaganha corpo no decorrer, no diadominada pela pedra, insone.
Ganha corpo no decorrer do dia,dor de naúsea delicada e infamedescolorido, o crime principiaalia-se ao tédio impune e some.
Poema em espanhol
I
Nenhuma voz humana aqui se pronunciachove um fantasma anárquico, demolidor
amplo nada no vazio deste desertoanuncia-se como ausência, carne em unha
odor silencioso no vento escarpacorte de um espectro pousando na água
tudo que escoa em silêncio em tempo ecoa
II
Sentia o término correndo nas veias.Há pressa: via.Houve um momento grave.(O filme era ruim. O cinema, lotado.Na luz neblina, escondido, um cigarro.)Impossível escapar ao pânico,prever o vazio provável.De repente: o estalo.Terminal,a consciência do zero rondando.Estado, condição, estado.Abre:
III
Dominado pela pedra, insone,descolorido, o crime principianas altas horas de noite vaziaganha corpo no decorrer do dia.
Ganha corpo no decorrer do dia,dominado pela pedra insonedor de náusea delicada e infame,das altas horas da noite vazia.
Dor de náusea delicada, infame,nas altas horas na noite vaziaganha corpo no decorrer, no diadominada pela pedra, insone.
Ganha corpo no decorrer do dia,dor de naúsea delicada e infamedescolorido, o crime principiaalia-se ao tédio impune e some.
Poema em espanhol
1 474
Florisvaldo Mattos
Apogeu dos Vagões
Noturnos vagões carregados de amargura
de empilhados produtos e origens,
correi sobre horizontes dos dias!
Composição de espanto corrosivo
acerca-se de mim, vai penetrando
com violência em meus olhos. Vence-me
a carne e os nervos, minha voz,
meu desesperado sangue e cansaço, como
fantasma criminoso que, alta noite,
entrasse em minha casa fortemente
nutrido de perigos e desastres.
Negros, armados de geometria difícil,
rota economia de outonos ressentidos,
duram interiores funerários
sobre sacos sombrios e carregadores.
Barris de angústia, lento soluço,
arrastado gemido sobre trilhos,
correi, sempre correi, sombra
afogada na sombra de sangrento galope.
Confuso grito e fúria registrando
velocidade e pressentimentos,
avançai contra noites, contra os dias
noturnos vagões, consistência
de amarguras espessas e ferragens,
cruel fome de rodas gira-mundo.
de empilhados produtos e origens,
correi sobre horizontes dos dias!
Composição de espanto corrosivo
acerca-se de mim, vai penetrando
com violência em meus olhos. Vence-me
a carne e os nervos, minha voz,
meu desesperado sangue e cansaço, como
fantasma criminoso que, alta noite,
entrasse em minha casa fortemente
nutrido de perigos e desastres.
Negros, armados de geometria difícil,
rota economia de outonos ressentidos,
duram interiores funerários
sobre sacos sombrios e carregadores.
Barris de angústia, lento soluço,
arrastado gemido sobre trilhos,
correi, sempre correi, sombra
afogada na sombra de sangrento galope.
Confuso grito e fúria registrando
velocidade e pressentimentos,
avançai contra noites, contra os dias
noturnos vagões, consistência
de amarguras espessas e ferragens,
cruel fome de rodas gira-mundo.
775
Francisco José Rodrigues
Serena Noite
Noite, serena noite, eu volto ao teu
doce regaço como alguém que, ausente,
chorasse por teu seio e teu conforto
ou suplicasse por teus mornos braços.
Noite, serena noite, eu te amo como
se fosses minha mãe, ou meu refúgio
de todo o mal do mundo, ó noite cara
aos meus sentidos e aos meus passos ágeis.
Ó noite, tu me encobres, protetora,
contra todos os males, contra olhares,
que hostilizam, olhares que torturam
este pobre de mim ao dia exposto.
Noite, serena noite, eu volto ao teu
doce regaço com meus passos ágeis.
doce regaço como alguém que, ausente,
chorasse por teu seio e teu conforto
ou suplicasse por teus mornos braços.
Noite, serena noite, eu te amo como
se fosses minha mãe, ou meu refúgio
de todo o mal do mundo, ó noite cara
aos meus sentidos e aos meus passos ágeis.
Ó noite, tu me encobres, protetora,
contra todos os males, contra olhares,
que hostilizam, olhares que torturam
este pobre de mim ao dia exposto.
Noite, serena noite, eu volto ao teu
doce regaço com meus passos ágeis.
1 104
Moacyr Felix
Poema quase Explicação
Luzes cortam a noite básica
e desenham o mundo em que vivemos.
As estátuas de mármore então brotam
dos lábios e das mãos dos que pararam
e verticalmente apenas olham.
E as estrelas derramam pedra e cal
construindo em cada olhar muralhas
onde fonte magra pinga sol e lua,
- e o relógio é um deus cantando as horas
horas de pedra e cal.
Simplificado como uma lágrima
tu cruzaste a ponte em meninos mortos,
e se teus dedos - já cimento, se crisparam,
teus olhos se encheram de relâmpagos
afiados para os homens de olhos de pedra e cal.
Não mais o refletido caminhar
de teus passos na noite iluminada,
mas descer com os olhos a ladeira
e deixá-los no cárcere sem portas
onde os ratos e os anjos se devoram.
Impassível como um tronco de árvore, onde
os homens gravam a canivete o que calaram.
e desenham o mundo em que vivemos.
As estátuas de mármore então brotam
dos lábios e das mãos dos que pararam
e verticalmente apenas olham.
E as estrelas derramam pedra e cal
construindo em cada olhar muralhas
onde fonte magra pinga sol e lua,
- e o relógio é um deus cantando as horas
horas de pedra e cal.
Simplificado como uma lágrima
tu cruzaste a ponte em meninos mortos,
e se teus dedos - já cimento, se crisparam,
teus olhos se encheram de relâmpagos
afiados para os homens de olhos de pedra e cal.
Não mais o refletido caminhar
de teus passos na noite iluminada,
mas descer com os olhos a ladeira
e deixá-los no cárcere sem portas
onde os ratos e os anjos se devoram.
Impassível como um tronco de árvore, onde
os homens gravam a canivete o que calaram.
1 301
Fanny Luíza Dupré
Primavera
De asas multicores
pousam nas flores do campo
frágeis borboletas.
Raios de luar.
Bolhas nas águas do lago.
Saltam rãs e sapos.
pousam nas flores do campo
frágeis borboletas.
Raios de luar.
Bolhas nas águas do lago.
Saltam rãs e sapos.
1 110
Fernanda Benevides
Encontro com a Solidão
Eis que me deparo com a solidão
de estar só comigo.
Ninguém ao redor.
Apenas a noite, escassas estrelas
e o mar a murmurar...
A música envolve o ar,
ocupa o espaço,
preenche a lacuna
- lacuna?
Neste momento basto-me.
Solitária e distante,
brindando o estar sozinha,
canto a alegria
de nada ter a lamentar,
assim sorrindo
Por não ter o que chorar.
de estar só comigo.
Ninguém ao redor.
Apenas a noite, escassas estrelas
e o mar a murmurar...
A música envolve o ar,
ocupa o espaço,
preenche a lacuna
- lacuna?
Neste momento basto-me.
Solitária e distante,
brindando o estar sozinha,
canto a alegria
de nada ter a lamentar,
assim sorrindo
Por não ter o que chorar.
774
Fernando Braga
Longe Noturno
Meus olhos emigraram para São Luís
minha cidade pavorosamente triste,
onde um meio de céu esconde o rosto
de Deus das vidraças da planície.
Vim aqui tornar-me em arbusto
onde sou o argonauta deste verde.
Morto pão esquecido sobre a mesa
foi minha ceia incrivelmente tarda.
Noturno vinho em resto abandonado
ferve-me o corpo hipertencialmente
reto, nesta noite sem data dalguma
safra onde me disponho não mais sentir-me.
minha cidade pavorosamente triste,
onde um meio de céu esconde o rosto
de Deus das vidraças da planície.
Vim aqui tornar-me em arbusto
onde sou o argonauta deste verde.
Morto pão esquecido sobre a mesa
foi minha ceia incrivelmente tarda.
Noturno vinho em resto abandonado
ferve-me o corpo hipertencialmente
reto, nesta noite sem data dalguma
safra onde me disponho não mais sentir-me.
268
Emílio Moura
Mundo Imaginário
Sob o olhar desta tarde,
quantas horas revivem
e morrem
de uma nova agonia? Velhas feridas se abrem,
de novo somos julgados, o que era tudo some-se
e num mundo fechado outras vigílias doem.
A noite se organiza e, no entanto, ainda restam
certas luzes ao longe. Ah, como encher com elas
este ser já não-ser que se dissolve e deixa
vagos traços na tarde?
quantas horas revivem
e morrem
de uma nova agonia? Velhas feridas se abrem,
de novo somos julgados, o que era tudo some-se
e num mundo fechado outras vigílias doem.
A noite se organiza e, no entanto, ainda restam
certas luzes ao longe. Ah, como encher com elas
este ser já não-ser que se dissolve e deixa
vagos traços na tarde?
1 140
Emílio Moura
Noturno de Ouro Preto
Que alada figura aquela
transformada em algo lívido?
Que pedia? Que falava
de sua órbita aérea,
com suas múltiplas vozes?
Ah, noite, há muito submersa
em labirintos de sono!
Quem chamava? Quem sofria?
Quem jogava com o segredo
de tantas áreas ignotas?
Que espectro, a vagar, tecia
o próprio avesso do sonho?
E aquele morrer de novo
a cada inútil aurora?
O ardor, o ritmo brusco
da vida jogada fora,
com tantas, tantas raízes
perdidas, esmigalhadas?
Que era tudo? Que era
aquele fluir do tempo
como invisível cortejo
como vento no caminho?
transformada em algo lívido?
Que pedia? Que falava
de sua órbita aérea,
com suas múltiplas vozes?
Ah, noite, há muito submersa
em labirintos de sono!
Quem chamava? Quem sofria?
Quem jogava com o segredo
de tantas áreas ignotas?
Que espectro, a vagar, tecia
o próprio avesso do sonho?
E aquele morrer de novo
a cada inútil aurora?
O ardor, o ritmo brusco
da vida jogada fora,
com tantas, tantas raízes
perdidas, esmigalhadas?
Que era tudo? Que era
aquele fluir do tempo
como invisível cortejo
como vento no caminho?
911
Elisa Sayeg
Visita
Santa Alva trazia no peito
Um mártir de flores bordadas.
O veículo da noite a trazia
Da estrela fosforescente.
De repente voltava a brilhar
O coágulo precioso do peito
Como sopram na primavera
Os perfumes do campo.
Um mártir de flores bordadas.
O veículo da noite a trazia
Da estrela fosforescente.
De repente voltava a brilhar
O coágulo precioso do peito
Como sopram na primavera
Os perfumes do campo.
925
Ernani Sátyro
Louvação de Maria
Maria, simplesmente Maria.
Nem do Carmo, nem das Dores,
Nem da Luz e nem da Guia.
Só Maria!
Nem do Céu e nem de Lourdes,
Nem sequer da Conceição,
Simplesmente só Maria:
— O resto é no coração.
Simplesmente Maria.
Nem Maria Anunciada
Nem Maria Aparecida.
Só Maria, sem mais nada,
Só Maria, toda a vida.
Só Maria,
Mas, Maria noite e dia.
Nem do Carmo, nem das Dores,
Nem da Luz e nem da Guia.
Só Maria!
Nem do Céu e nem de Lourdes,
Nem sequer da Conceição,
Simplesmente só Maria:
— O resto é no coração.
Simplesmente Maria.
Nem Maria Anunciada
Nem Maria Aparecida.
Só Maria, sem mais nada,
Só Maria, toda a vida.
Só Maria,
Mas, Maria noite e dia.
969
Éric Ponty
Narcissus
O que somos afinal sobre o sol que a pino,
encerra o silêncio de nossas esperanças,
que encantados com o brilho lunar nos refaz.
O que somos afinal sobre a lua que cheia,
floresce nossos ensejos, e frutifica nossos mitos,
que desiludidos com o solar ofuscamento nos reluz.
Lúgrebe como é lúgrebe o canto que nasce
que jorra límpida nas outras fontes d’água,
silêncios que encerram nossa imagem
de um refletido mito surdo.
Irrigada voz que descanta o pássaro,
que com asas de brancas nuvens
se interroga sobre a matéria tempo,
fúnebre como o paladar do sino a obrar.
Olhos de prata, murmúrios de ouro,
interrogações que se abrumaram,
rudes questionamentos que não se esvam,.
acumulados e dissimulados
na consciência incerta.
Sol e Lua dentro da noite adentro do dia,
dúbia conversa entre astros que não ponderam
se circunferenciam numa rota imutável,
rotineira como o tempo irrefutável.
Despir, rubro significado altivo,
máscara que não tateia simulacro inteira,
Lívia pele, tenra mentira fluida n’água,
paixão que se encadeia, mas não queima,
límpido abismo simulado de realidade.
Entrecortadas vozes que se dissecam,
o vento, o que diz o vento ao vento
que ventila a própria sentença
de outros apagados tempos invernais?
Sim, a paixão é rubra lavra de vulcão,
espessa e fluida e sufocada nuvem,
que dilui a consciência e o logos.
Resistir na verde margem relva,
com o retrato entrecortado n’água,
tingido pelas toscas luzes do prisma,
para que o branco não seja preto,
para que o preto não seja branco,
simulada visão do natural tempo,
arquitetado.
O que somos, àquilo que nós fomos,
dentro de poucos instantes, iremos,
a questão inquestionável que aglutina,
súplice e suplicado que ateia,
ruge o instante dentro de um infinito.
Driblar uma consciência outra, gesto possível,
e a si mesmo, improvável ato que desfigura,
como a cera de uma face resplandecente,
que desfalece na contra luz do tempo.
Um eclipse é uma imagem de pena,
rápido encontro, infindável espera,
que se perde como amantes por acaso,
que desfalecem após o orgasmo.
Admira-se trágica cena de um enamorado,
que enluarado pela límpida água refletida,
soltos suspiros como se outra natureza,
sua máscara fosse esculpida e terminada.
Rogado por tal imagem quer ser altivo,
buscar dentro de si próprio outros gemidos,
que a faça entreter de seus alaridos,
dissimulado como está de si na margem.
Perdido, quer encontrar um pedido, só suspiro,
melodiar, uma canção suave, só grunhido,
entreter ao outro, e a si mesmo, só que entretido.
Desfazer-se de sua própria figura espectral,
sem tal companheira, voar altivo no azul céu,
pintando o que lhe resta da augusta miséria.
O suplicante exaurido de sua ébria consciência,
vê os reflexos na margem cobertos de rubro véu,
os raios de circunferência prata, ledo engano,
são frios como a noite invernal, que o vento retrata,
é tão só esta paixão que exaure e assusta
quem se observa refletido, a si mesmo perdido.
As brancas mãos, os braços abraçados que aguardam
a possibilidade de ali ainda haver um ninho doirado,
que agassa-lhe o pássaro de sua frígida tempestade,
antes que se finde numa escura nuvem do nada.
Altiva é sua boca, carnudos lábios marmóreos,
suspiros e gemidos é feito o martírio que dali, .
parte e retorna num outro segundo de infinita perda,
na paisagem onde um branco mancebo se retraí.
O corpo é branca estátua que não se move mais,
inerte como a mais dura esfinge indecifrável,
corrói o interior sobre o sol angustiante e a pino,
cabelos doirados que não mais doiram a enseada,
só a brisa lhe sussurra, o que antes lhe encantava,
triste é a sua matéria, ledo seu simulacro invólucro.
O que somos sobre uma margem de uma relva,
que nos desperta com a limpida água que flui,
é a ébria forma de uma bruma suplicada,
que se perfez, e se desfaz n’água de um lago.
encerra o silêncio de nossas esperanças,
que encantados com o brilho lunar nos refaz.
O que somos afinal sobre a lua que cheia,
floresce nossos ensejos, e frutifica nossos mitos,
que desiludidos com o solar ofuscamento nos reluz.
Lúgrebe como é lúgrebe o canto que nasce
que jorra límpida nas outras fontes d’água,
silêncios que encerram nossa imagem
de um refletido mito surdo.
Irrigada voz que descanta o pássaro,
que com asas de brancas nuvens
se interroga sobre a matéria tempo,
fúnebre como o paladar do sino a obrar.
Olhos de prata, murmúrios de ouro,
interrogações que se abrumaram,
rudes questionamentos que não se esvam,.
acumulados e dissimulados
na consciência incerta.
Sol e Lua dentro da noite adentro do dia,
dúbia conversa entre astros que não ponderam
se circunferenciam numa rota imutável,
rotineira como o tempo irrefutável.
Despir, rubro significado altivo,
máscara que não tateia simulacro inteira,
Lívia pele, tenra mentira fluida n’água,
paixão que se encadeia, mas não queima,
límpido abismo simulado de realidade.
Entrecortadas vozes que se dissecam,
o vento, o que diz o vento ao vento
que ventila a própria sentença
de outros apagados tempos invernais?
Sim, a paixão é rubra lavra de vulcão,
espessa e fluida e sufocada nuvem,
que dilui a consciência e o logos.
Resistir na verde margem relva,
com o retrato entrecortado n’água,
tingido pelas toscas luzes do prisma,
para que o branco não seja preto,
para que o preto não seja branco,
simulada visão do natural tempo,
arquitetado.
O que somos, àquilo que nós fomos,
dentro de poucos instantes, iremos,
a questão inquestionável que aglutina,
súplice e suplicado que ateia,
ruge o instante dentro de um infinito.
Driblar uma consciência outra, gesto possível,
e a si mesmo, improvável ato que desfigura,
como a cera de uma face resplandecente,
que desfalece na contra luz do tempo.
Um eclipse é uma imagem de pena,
rápido encontro, infindável espera,
que se perde como amantes por acaso,
que desfalecem após o orgasmo.
Admira-se trágica cena de um enamorado,
que enluarado pela límpida água refletida,
soltos suspiros como se outra natureza,
sua máscara fosse esculpida e terminada.
Rogado por tal imagem quer ser altivo,
buscar dentro de si próprio outros gemidos,
que a faça entreter de seus alaridos,
dissimulado como está de si na margem.
Perdido, quer encontrar um pedido, só suspiro,
melodiar, uma canção suave, só grunhido,
entreter ao outro, e a si mesmo, só que entretido.
Desfazer-se de sua própria figura espectral,
sem tal companheira, voar altivo no azul céu,
pintando o que lhe resta da augusta miséria.
O suplicante exaurido de sua ébria consciência,
vê os reflexos na margem cobertos de rubro véu,
os raios de circunferência prata, ledo engano,
são frios como a noite invernal, que o vento retrata,
é tão só esta paixão que exaure e assusta
quem se observa refletido, a si mesmo perdido.
As brancas mãos, os braços abraçados que aguardam
a possibilidade de ali ainda haver um ninho doirado,
que agassa-lhe o pássaro de sua frígida tempestade,
antes que se finde numa escura nuvem do nada.
Altiva é sua boca, carnudos lábios marmóreos,
suspiros e gemidos é feito o martírio que dali, .
parte e retorna num outro segundo de infinita perda,
na paisagem onde um branco mancebo se retraí.
O corpo é branca estátua que não se move mais,
inerte como a mais dura esfinge indecifrável,
corrói o interior sobre o sol angustiante e a pino,
cabelos doirados que não mais doiram a enseada,
só a brisa lhe sussurra, o que antes lhe encantava,
triste é a sua matéria, ledo seu simulacro invólucro.
O que somos sobre uma margem de uma relva,
que nos desperta com a limpida água que flui,
é a ébria forma de uma bruma suplicada,
que se perfez, e se desfaz n’água de um lago.
996
Elielson Rodrigues
Pobre Infeliz
As estrelas me espionam,
eu, reclusivo, grito!
quebro os preceitos que em atrito,
pream minhalma e me decepcionam.
A Noite é meu manto,
dentre a bruma secreto meu desejo,
meu sofrer me martiriza um santo,
mas como haríolo,não prevejo.
Mortos ressuscitam,
a lua ilumina, eles fitam...
Correm e bradam por vida,
e sua dor aumenta a ferida.
A Morte é imprevisível,
é petulante,
invisível,
corante, dos mares vis,
que ceifa a vida
do pobre infeliz.
eu, reclusivo, grito!
quebro os preceitos que em atrito,
pream minhalma e me decepcionam.
A Noite é meu manto,
dentre a bruma secreto meu desejo,
meu sofrer me martiriza um santo,
mas como haríolo,não prevejo.
Mortos ressuscitam,
a lua ilumina, eles fitam...
Correm e bradam por vida,
e sua dor aumenta a ferida.
A Morte é imprevisível,
é petulante,
invisível,
corante, dos mares vis,
que ceifa a vida
do pobre infeliz.
832
Eduardo Bacelar
Noites em Claro
Meia noite e o telefone não tocou,
A noite inteira já acabou.
Quem quisesse poderia ter me encontrado.
Se quisessem....
22 e passam das 4
Muito cedo para acordar,
Muito tarde para dormir.
Mas sempre posso escrever
Como faço agora,
Como não tenho nada mais a fazer,
Quero tanto
E tão pouco…
A noite é minha amiga.
Amiga cruel de minha solidão,
De minhas paixões não correspondidas,
De minha vida não vivida.
No silêncio e na escuridão,
Tudo parece possível,
Meus sonhos e pesadelos
São reais e estão vivos.
A medida que escrevo
O tempo passa,
Alheio a tudo.
Obstinado como já fui.
Quando procuro minha cama,
Já sentindo o peso de meus pensamentos,
Minha janela está como passei a noite.
Em claro.
A noite inteira já acabou.
Quem quisesse poderia ter me encontrado.
Se quisessem....
22 e passam das 4
Muito cedo para acordar,
Muito tarde para dormir.
Mas sempre posso escrever
Como faço agora,
Como não tenho nada mais a fazer,
Quero tanto
E tão pouco…
A noite é minha amiga.
Amiga cruel de minha solidão,
De minhas paixões não correspondidas,
De minha vida não vivida.
No silêncio e na escuridão,
Tudo parece possível,
Meus sonhos e pesadelos
São reais e estão vivos.
A medida que escrevo
O tempo passa,
Alheio a tudo.
Obstinado como já fui.
Quando procuro minha cama,
Já sentindo o peso de meus pensamentos,
Minha janela está como passei a noite.
Em claro.
576
Eduardo Martins
Haicai
Solidão
Noite. Às horas mortas
o vento perpassa lento
pelas ermas portas.
Noturno
Na sala de estudo
um grilo preto de trilo
metálico, agudo.
Noite. Às horas mortas
o vento perpassa lento
pelas ermas portas.
Noturno
Na sala de estudo
um grilo preto de trilo
metálico, agudo.
1 025
Douglas Eden Brotto
Verão
Noite quente... pela
manhã, junto à lanterna
asas de cupim...
Zum-zum dos moscardos...
Ah... as flores amarelas
do maracujá!
manhã, junto à lanterna
asas de cupim...
Zum-zum dos moscardos...
Ah... as flores amarelas
do maracujá!
972
Dutra e Melo
A Noite
Luminoso esteirão mal deixa ao longe,
De ouro e púrpura aceso, o vasto carro
Em que o Dia cercado de seus raios
Pelo éter passeia:
E a Noite melancólica e sombria,
Colhendo sobre a fronte, os soltos cachos
Dos úmidos cabelos,
Em tomo aos ombros ajeitando o manto
Lança às rédeas a mão, solta a carreira
A seus negros ginetes.
Enquanto despeitosa murcham, pendem
Nas campinas as flores,
Enquanto um suspirar surdo e longínquo
Lamenta a ausência do esplendor do dia,
Lúcidas brilham trêmulas estrelas
De faróis lhe servindo — Ai! como é triste
A solitária marcha da amargura
Que abatida percorre a linda noite!
Seus negros olhos e a carroça ebânea
Que pelos céus a tira,
As suas lonas roupas tenebrosas,
Olhos desviam que o fulgor da Aurora
Rutilante convida.
Oh! ninguém busca vê-la — Aves e plantas,
Homens, tudo a abandona! Ingratos, fogem
Como ao leito mortal do extinto amigo.
Tú és, ó Dia, o predileto encanto
Da natureza inteira;
Todos amam colher as áureas flores
Que as rodas do teu carro à terra lançam;
Para o teu rutilar voltam-me os olhos,
E ninguém busca a Noite. — O sono os prende
Enquanto vagaroso vai seu plaustro
As campinas do céu plácido arando.
Mas tu me és sempre deleitosa e cara,
Noite melancólica; a minha alma
Atrativos em ti descobre ansiosa.
Não ama o pirilampo a luz do dia,
Nem as aves da morte então soluçam!
Noite amiga dos homens! — No silêncio,
Na calma vaporosa que desdobras,
No sossego dos campos, das florestas
A vida interna saboreio ardente.
Só então vive o espírito do homem;
Tenaz rebenta o pensamento algemas;
Linguagem da ternura e sentimento
Lhe fala o coração nas doces horas;
Surge a contemplação dos seios da alma
Em cujas dobras cerra-se aos combates
Da vida labiríntica do mundo;
E fresca mão na fronte vem pousar-nos
Mansa a filosofia animadora.
Noite amiga dos homens! — Teus mistérios
Coração de quem ama não deslembra.
Podem muitos cantar-te em liras de ouro
Enlaçadas de brancas sempre-viva,
De perlas, não de lágrimas, bordada;
Sons de fogo arrancar das lisas cordas,
Confiá-los à brisa das cidades,
Sem que um riso de mofa os enregele;
Correr dedos na lira olhando uns olhos,
E ver descer um beijo, e as mãos queimar-lhes.
Mas eu na harpa de bronze dos finados,
Onde a roxa Perpétua, onde o suspiro
Abrançando a saudade entrelaçam,
Donde um véu cor da morte à terra desce,
Eu só posso cantar fúnebres cantos,
Carpidas nênias que o feliz desama,
Só, no campo, e lá quando abrindo as asas
Tu me acolhes saudosa, ó Noite, esperto
Essa lembrança que só tu conheces,
Que eu guardo, e que uma tumba nos comparte.
Noite amiga dos homens! Quando imperas,
Maior o Criador se nos antolha.
Que importa do teu Sol a pompa, ó Dia?
Essa luz triunfal de resplendores,
Esse golfo da vida pra os sentidos?
Que importa esse brilhar da atmosfera,
Esse vário matiz que adorna a terra?
Perde-se a alma encarando o firmamento,
Quando, ó Noite, o sombreias. — Vê brilhando
Milhões de estrelas, que a distância imensa
Minora a vista luminosa facha,
Que em tomo a infindos sóis, infindos mundos
Abismando a razão, lhe patenteia.
E tu, mágica chave das ciências,
Tu, vasta analogia,
Que véus não rasgas, desdobrando à vista
Mistérios que o entrever mais engrandece!
Noite, ó Noite formosa! — Eu, que amo os astros,
Eu, que neles suspeito mais que as luzes,
Não sei te abandonar, pois, refletindo,
Prezo ver nesses globos outros mundos
Mais felizes que o nosso — onde outros seres
Mal, dor, pecado e morte não conheçam;
Onde o sopro da dúvida não tolde
A argêntea luz da cândida verdade;
E onde a hipótese louca e ambiciosa
Criações moribundas não produza.
Noite amiga dos homens! — Teus altares
Não se mancham de tantos malefícios
Com que as aras do Dia se deturpam.
Unes o esposo à esposa, e aos dois a prole;
A família vê juntos os seus membros,
Irmãos, imito, em doce entretimento,
Fruem prazeres que interrompe o Dia.
Riso, amizade, e gosto sobrevoa
Nessa amena tranqüila sociedade.
A alma se acrisola e purifica
Das escórias que o Dia lhe injetara.
Noite amiga dos homens! — Grato o sono
De teu carro debruça-se na terra;
Quem fadigas e penas por minutos
Contou no dia, — quem deseja a morte,
Quem deseja acalmar o pensamento,
Pertinaz suicida, espelho ustório
Onde os raios de mim longes desgraças
Vêm franger-se e abrasar uma alma fraca;
Quem deseja num caos submergir-se,
Ver o que ama, fugir o que detesta,
Busca a sombra propícia do teu manto.
Então é que ele frui tréguas aos males;
Então é que o sossego alguns momentos
Visita o coração do desditoso;
Que essas almas que os homens não conhecem,
Lassas do mundo já na tenra idade,
Sob as asas do sono o mundo olvidam.
Noite amiga dos homens! — Pensa o vate,
Supremo fogo desce-lhe na fronte,
Quando plácida reinas. — Turbulentas,
Mil imagens descrevem-se nos ares,
Ante a vista em figuras deslumbrosas:
A lucerna do sábio, radiando,
Assiste à criação daltos mistérios,
Lucubrações do gênio, ardente estudo,
Em que os séculos pálidos, mirrados,
Pelas mágicas fórmulas de análise,
Recompondo o esqueleto, ressuscitam.
Noite amiga dos homens! – Quando a Lua
Iluminaste a rota solitária,
Então vibras destalma a última corda.
Então nem mesmo tu, ó poesia,
Nem tu, divina música, soltaras
Som que os sons imitasse desse harpejo;
O céu cheio de nuvens como o oceano,
Que devora uma nau, cheia de espólios;
O mar, em que argentina se prolonga
Essa imagem da luz — e ela tão linda,
Tão sã, tão melancólica, tão pura!...
Noite, ó Noite formosa! — mesmo quando
Não tivesses tão grande majestade,
Bastara o melancólico silêncio,
O calmo rutilar de teu luzeiro,
Para minhalma te sagrar seus hinos;
Bastara duma lágrima a lembrança,
O passado surgindo ante meus olhos,
E esse nome que então murmuram sempre
A aragem frouxa, as ondas sonolentas.
Tu, só tu, bem no âmago do peito,
Vês a serpe roer-me o engenho e a vida;
Vês gotejarem sangue ainda as fridas
De punhal traiçoeiro em mão de amigo.
Oh! vem pois com teu bálsamo saná-las;
Vem, ó Noite propícia, consolar-me,
Té que a Noite no túmulo me salve
De um mundo que me esmaga, e que eu detesto.
De ouro e púrpura aceso, o vasto carro
Em que o Dia cercado de seus raios
Pelo éter passeia:
E a Noite melancólica e sombria,
Colhendo sobre a fronte, os soltos cachos
Dos úmidos cabelos,
Em tomo aos ombros ajeitando o manto
Lança às rédeas a mão, solta a carreira
A seus negros ginetes.
Enquanto despeitosa murcham, pendem
Nas campinas as flores,
Enquanto um suspirar surdo e longínquo
Lamenta a ausência do esplendor do dia,
Lúcidas brilham trêmulas estrelas
De faróis lhe servindo — Ai! como é triste
A solitária marcha da amargura
Que abatida percorre a linda noite!
Seus negros olhos e a carroça ebânea
Que pelos céus a tira,
As suas lonas roupas tenebrosas,
Olhos desviam que o fulgor da Aurora
Rutilante convida.
Oh! ninguém busca vê-la — Aves e plantas,
Homens, tudo a abandona! Ingratos, fogem
Como ao leito mortal do extinto amigo.
Tú és, ó Dia, o predileto encanto
Da natureza inteira;
Todos amam colher as áureas flores
Que as rodas do teu carro à terra lançam;
Para o teu rutilar voltam-me os olhos,
E ninguém busca a Noite. — O sono os prende
Enquanto vagaroso vai seu plaustro
As campinas do céu plácido arando.
Mas tu me és sempre deleitosa e cara,
Noite melancólica; a minha alma
Atrativos em ti descobre ansiosa.
Não ama o pirilampo a luz do dia,
Nem as aves da morte então soluçam!
Noite amiga dos homens! — No silêncio,
Na calma vaporosa que desdobras,
No sossego dos campos, das florestas
A vida interna saboreio ardente.
Só então vive o espírito do homem;
Tenaz rebenta o pensamento algemas;
Linguagem da ternura e sentimento
Lhe fala o coração nas doces horas;
Surge a contemplação dos seios da alma
Em cujas dobras cerra-se aos combates
Da vida labiríntica do mundo;
E fresca mão na fronte vem pousar-nos
Mansa a filosofia animadora.
Noite amiga dos homens! — Teus mistérios
Coração de quem ama não deslembra.
Podem muitos cantar-te em liras de ouro
Enlaçadas de brancas sempre-viva,
De perlas, não de lágrimas, bordada;
Sons de fogo arrancar das lisas cordas,
Confiá-los à brisa das cidades,
Sem que um riso de mofa os enregele;
Correr dedos na lira olhando uns olhos,
E ver descer um beijo, e as mãos queimar-lhes.
Mas eu na harpa de bronze dos finados,
Onde a roxa Perpétua, onde o suspiro
Abrançando a saudade entrelaçam,
Donde um véu cor da morte à terra desce,
Eu só posso cantar fúnebres cantos,
Carpidas nênias que o feliz desama,
Só, no campo, e lá quando abrindo as asas
Tu me acolhes saudosa, ó Noite, esperto
Essa lembrança que só tu conheces,
Que eu guardo, e que uma tumba nos comparte.
Noite amiga dos homens! Quando imperas,
Maior o Criador se nos antolha.
Que importa do teu Sol a pompa, ó Dia?
Essa luz triunfal de resplendores,
Esse golfo da vida pra os sentidos?
Que importa esse brilhar da atmosfera,
Esse vário matiz que adorna a terra?
Perde-se a alma encarando o firmamento,
Quando, ó Noite, o sombreias. — Vê brilhando
Milhões de estrelas, que a distância imensa
Minora a vista luminosa facha,
Que em tomo a infindos sóis, infindos mundos
Abismando a razão, lhe patenteia.
E tu, mágica chave das ciências,
Tu, vasta analogia,
Que véus não rasgas, desdobrando à vista
Mistérios que o entrever mais engrandece!
Noite, ó Noite formosa! — Eu, que amo os astros,
Eu, que neles suspeito mais que as luzes,
Não sei te abandonar, pois, refletindo,
Prezo ver nesses globos outros mundos
Mais felizes que o nosso — onde outros seres
Mal, dor, pecado e morte não conheçam;
Onde o sopro da dúvida não tolde
A argêntea luz da cândida verdade;
E onde a hipótese louca e ambiciosa
Criações moribundas não produza.
Noite amiga dos homens! — Teus altares
Não se mancham de tantos malefícios
Com que as aras do Dia se deturpam.
Unes o esposo à esposa, e aos dois a prole;
A família vê juntos os seus membros,
Irmãos, imito, em doce entretimento,
Fruem prazeres que interrompe o Dia.
Riso, amizade, e gosto sobrevoa
Nessa amena tranqüila sociedade.
A alma se acrisola e purifica
Das escórias que o Dia lhe injetara.
Noite amiga dos homens! — Grato o sono
De teu carro debruça-se na terra;
Quem fadigas e penas por minutos
Contou no dia, — quem deseja a morte,
Quem deseja acalmar o pensamento,
Pertinaz suicida, espelho ustório
Onde os raios de mim longes desgraças
Vêm franger-se e abrasar uma alma fraca;
Quem deseja num caos submergir-se,
Ver o que ama, fugir o que detesta,
Busca a sombra propícia do teu manto.
Então é que ele frui tréguas aos males;
Então é que o sossego alguns momentos
Visita o coração do desditoso;
Que essas almas que os homens não conhecem,
Lassas do mundo já na tenra idade,
Sob as asas do sono o mundo olvidam.
Noite amiga dos homens! — Pensa o vate,
Supremo fogo desce-lhe na fronte,
Quando plácida reinas. — Turbulentas,
Mil imagens descrevem-se nos ares,
Ante a vista em figuras deslumbrosas:
A lucerna do sábio, radiando,
Assiste à criação daltos mistérios,
Lucubrações do gênio, ardente estudo,
Em que os séculos pálidos, mirrados,
Pelas mágicas fórmulas de análise,
Recompondo o esqueleto, ressuscitam.
Noite amiga dos homens! – Quando a Lua
Iluminaste a rota solitária,
Então vibras destalma a última corda.
Então nem mesmo tu, ó poesia,
Nem tu, divina música, soltaras
Som que os sons imitasse desse harpejo;
O céu cheio de nuvens como o oceano,
Que devora uma nau, cheia de espólios;
O mar, em que argentina se prolonga
Essa imagem da luz — e ela tão linda,
Tão sã, tão melancólica, tão pura!...
Noite, ó Noite formosa! — mesmo quando
Não tivesses tão grande majestade,
Bastara o melancólico silêncio,
O calmo rutilar de teu luzeiro,
Para minhalma te sagrar seus hinos;
Bastara duma lágrima a lembrança,
O passado surgindo ante meus olhos,
E esse nome que então murmuram sempre
A aragem frouxa, as ondas sonolentas.
Tu, só tu, bem no âmago do peito,
Vês a serpe roer-me o engenho e a vida;
Vês gotejarem sangue ainda as fridas
De punhal traiçoeiro em mão de amigo.
Oh! vem pois com teu bálsamo saná-las;
Vem, ó Noite propícia, consolar-me,
Té que a Noite no túmulo me salve
De um mundo que me esmaga, e que eu detesto.
1 131
Edmundo de Bettencourt
Ondulação
O luar ondula
fluindo e refluindo
para não acabar a maré cheia
nesta praia onde
ponderável eu me encontro indo
— o pensamento em rumos ignorados
e ao sabor dos presságios. . .
Em breve, à minha volta no areal,
esperanças, de branco, vaporosas,
chorando alto naufrágios
à vista da magia de seus mundos,
com suas lágrimas,
quais enxadas na terra, poderosas,
cavarão sulcos fundos.
E elas ali se hão de enterrar
quando o luar fugir...
Mas com elas enterrarei os meus insultos
à minha nobre angústia de vibrar,
à minha vã desgraça de sentir!
fluindo e refluindo
para não acabar a maré cheia
nesta praia onde
ponderável eu me encontro indo
— o pensamento em rumos ignorados
e ao sabor dos presságios. . .
Em breve, à minha volta no areal,
esperanças, de branco, vaporosas,
chorando alto naufrágios
à vista da magia de seus mundos,
com suas lágrimas,
quais enxadas na terra, poderosas,
cavarão sulcos fundos.
E elas ali se hão de enterrar
quando o luar fugir...
Mas com elas enterrarei os meus insultos
à minha nobre angústia de vibrar,
à minha vã desgraça de sentir!
1 070
Duarte Galvão
Tocador de Piana
Negro tocador de canções
são lamentos febris sem eco
na noite das casuarinas dizem ...
Ah! mas dizem tanta coisa sem sentido
Negro tocador ...
A vida permanece num beco
sem saída, e a idéia dos sermões
morre no próprio templo.
Geme, pois, tuas canções tristes,
apertando nos lábios a "piana"
Na noite das casuarinas
Não morrem teus lamentos,
digo-te: outro negro tocador
anônimo, de olhos vendados ou não,
tocará outras canções tristes!
são lamentos febris sem eco
na noite das casuarinas dizem ...
Ah! mas dizem tanta coisa sem sentido
Negro tocador ...
A vida permanece num beco
sem saída, e a idéia dos sermões
morre no próprio templo.
Geme, pois, tuas canções tristes,
apertando nos lábios a "piana"
Na noite das casuarinas
Não morrem teus lamentos,
digo-te: outro negro tocador
anônimo, de olhos vendados ou não,
tocará outras canções tristes!
966
Dílson Catarino
Cores e Odores
As cores se renovam.
Renovam-se os odores.
As cores,
as dores se renovam.
Renovam-se as dores.
As cores,
os odores se renovam.
Renovam-se as cores.
Quereria não mais sentir as dores
que a gente, quando sente,
se sente eternamente doente
Noite diferente
Noite atraente
O que me atrai é a noite ardente
arde a noite
à noite me arde o desejo obscuro,
mas puro.
O desejo puro, a noite obscura.
Te juro
Nada tão puro quanto minhas ardências
Nada é obscuro na minha essência.
As dores se evidenciam.
Evidenciam-se os odores.
As cores prevalecem sobre as dores.
Renovam-se os odores.
As cores,
as dores se renovam.
Renovam-se as dores.
As cores,
os odores se renovam.
Renovam-se as cores.
Quereria não mais sentir as dores
que a gente, quando sente,
se sente eternamente doente
Noite diferente
Noite atraente
O que me atrai é a noite ardente
arde a noite
à noite me arde o desejo obscuro,
mas puro.
O desejo puro, a noite obscura.
Te juro
Nada tão puro quanto minhas ardências
Nada é obscuro na minha essência.
As dores se evidenciam.
Evidenciam-se os odores.
As cores prevalecem sobre as dores.
882
António Manuel Couto Viana
Camilo Pessanha I
Um aroma subtil. Um lume. Um fumo leve.
Um delicado ritual.
O impulso breve que se descreve
Quase indiscreto, quase sensual.
A música interior apenas murmurada.
A luz difusa. Trémulas imagens.
Ondas de lua. Exílio. A flor despetalada.
Viagens.
Onde singra o navio sombreado de tédio?
Oscila. O servedouro de uma esteira.
A súbita emoção. O clarim do assédio
Desenrola a bandeira.
O ópio envolve o sonho num afago.
Já tudo tão distante! Tão inútil! Tão vago!
Um delicado ritual.
O impulso breve que se descreve
Quase indiscreto, quase sensual.
A música interior apenas murmurada.
A luz difusa. Trémulas imagens.
Ondas de lua. Exílio. A flor despetalada.
Viagens.
Onde singra o navio sombreado de tédio?
Oscila. O servedouro de uma esteira.
A súbita emoção. O clarim do assédio
Desenrola a bandeira.
O ópio envolve o sonho num afago.
Já tudo tão distante! Tão inútil! Tão vago!
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