Poemas neste tema
Amor Romântico
Vasko Popa
- Sob o sol
É maravilhoso tomar sol nu
Nunca liguei para a carne
Esses trapos tampouco me envolveram
Enlouqueço por ti assim nu
Não deixes que o sol te acaricie
É melhor que nós nos amemos
Não aqui não aqui sob o sol
Aqui tudo se vê osso querido
742
Jacques Brel
Não vá embora
Não vá embora
A gente apaga tudo
Tudo que passou
Pode se apagar
Apagar o tempo
O mal entendido
E o tempo perdido
E agora
Apagar as horas
Que matam
Numa salva de porquês
A felicidade
Não vá embora
Eu vou te dar
Uma chuva de pérolas
Vinda de países
Onde não há chuva
Vou cavar a terra
Até depois da morte
Para seu corpo cobrir
Com luz e com ouro
Vou criar um reino
Onde o amor será rei
Onde o amor será lei
E você a rainha
Não vá embora
Não vá embora
Eu vou criar para te dar
Palavras sem sentido
Que você compreenderá
E vou te contar
Daqueles amantes ali
Que duas vezes viram
Seus corações incendiar
E vou te contar
A história de um rei
Morto por não ter
Podido te encontrar
Não vá embora
Quantas vezes um vulcão já velho
De onde mais nada podia sair
Se reacendeu
Há também terras gastas
Que dão mais trigo
Do que na colheita
E quando a tarde cai
Para que o céu vire fogo
Vermelho e negro
Nunca se juntam
Não vá embora
Eu não vou mais chorar
Eu não vou mais falar
Vou ficar parado vendo
Você dançar ali
E sorrir
E vou te ouvir
Cantar e depois rir
Deixa que eu me torne
A sombra da sua sombra
A sombra da sua mão
A sombra do seu cão
(tradução de Marília Garcia)
:
Ne me quitte pas
Jacques Brel
Ne me quitte pas
Il faut oublier
Tout peut s’oublier
Qui s’enfuit déjà
Oublier le temps
Des malentendus
Et le temps perdu
A savoir comment
Oublier ces heures
Qui tuaient parfois
A coups de pourquoi
Le cœur du bonheur
Ne me quitte pas
Moi je t’offrirai
Des perles de pluie
Venues de pays
Où il ne pleut pas
Je creuserai la terre
Jusqu’après ma mort
Pour couvrir ton corps
D’or et de lumière
Je ferai un domaine
Où l’amour sera roi
Où l’amour sera loi
Où tu seras reine
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Je t’inventerai
Des mots insensés
Que tu comprendras
Je te parlerai
De ces amants-là
Qui ont vu deux fois
Leurs cœurs s’embraser
Je te raconterai
L’histoire de ce roi
Mort de n’avoir pas
Pu te rencontrer
Ne me quitte pas
On a vu souvent
Rejaillir le feu
De l’ancien volcan
Qu’on croyait trop vieux
Il est paraît-il
Des terres brûlées
Donnant plus de blé
Qu’un meilleur avril
Et quand vient le soir
Pour qu’un ciel flamboie
Le rouge et le noir
Ne s’épousent-ils pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Je n’vais plus pleurer
Je n’vais plus parler
Je me cacherai là
A te regarder
Danser et sourire
Et à t’écouter
Chanter et puis rire
Laisse-moi devenir
L’ombre de ton ombre
L’ombre de ta main
L’ombre de ton chien.
941
Nizâr Qabbânî
pensei ontem no meu amor por ti
pensei ontem no meu amor por ti
lembrei-me logo
das gotas de mel nos teus lábios
e então lambi o açúcar das paredes da minha memória
(tradução de André Simões)
712
Hadewijch de Antuérpia
Por mais tristes que estejam
I
Por mais tristes que estejam a estação e as avezinhas,
não pode está-lo o nobre coração.
Mas quem quiser afrontar os trabalhos de Amor
d´Ele só terá de aprender
- doçura e crueza,
alegria e dor –
o que é preciso experimentar para amar.
II
As almas orgulhosas que cresceram na dilecção
e sabem amar sem que nada as acalme,
devem ser em todos os tempos
fortes e ousadas,
sempre prontas a receber
consolo ou aflição
por bem de Amor apenas.
III
Estranhas são as vias do Amor:
e bem o sabe quem as quer seguir:
muitas vezes ele perturba o coração seguro:
quem ama não encontra constância.
Aquele a quem a Caridade
toca no fundo da alma
conhecerá muita hora de desolação.
IV
Ora ardendo, ora frio,
agora tímido e ainda há pouco ousado,
numerosos são os caprichos do Amor.
Mas a toda a hora ele nos lembra
a nossa imensa dívida
para com o seu alto poder,
que nos atrai e só a Ele nos destina.
V
Ora gracioso, ora terrível,
agora próximo e ainda há pouco distante:
para quem o conhece e nele confia
isto mesmo é alegria maior.
Como Amor
num só acto
fere e abraça!
VI
Ora humilhado, ora exaltado,
agora escondido, manifesto ainda há pouco,
para se ser um dia atingido pela dilecção
é preciso arriscar muita aventura –
antes de alcançar
aquele ponto em que se desfruta
da pura essência do Amor.
VII
Ora leve, ora pesado,
sombrio agora e claro ainda há pouco,
na doce paz, na sufocante angústia,
dando e recebendo –
dupla vida,
serve aos espíritos
que se perdem no amor.
(tradução de João Barrento)
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955
Nizâr Qabbânî
sobre o amor marinho
sou o teu mar, senhora minha,
e não me perguntes da viagem
nem do tempo da partida e da chegada:
só tens de
esquecer os impulsos da terra
e obedecer às leis do mar
e entrar-me como peixe enfurecido;
racha o navio em dois pedaços
e o horizonte em dois pedaços
e a minha vida em dois pedaços
Nizâr Qabbânî
(tradução de André Simões)
994
Nizâr Qabbânî
a fala das mãos dela
um pouco de silêncio,
impetuosa,
que a mais bela fala
é a fala das tuas mãos
sobre a mesa
(tradução de André Simões)
560
Jorge de Sena
Conheço o sal
Conheço o sal da tua pele seca
depois que o estio se volveu inverno
da carne repousando em suor nocturno.
Conheço o sal do leite que bebemos
quando das bocas se estreitavam lábios
e o coração no sexo palpitava.
Conheço o sal dos teus cabelos negros
ou louros ou cinzentos que se enrolam
neste dormir de brilhos azulados.
Conheço o sal que resta em minhas mãos
como nas praias o perfume fica
quando a maré desceu e se retrai.
Conheço o sal da tua boca, o sal
da tua língua, o sal de teus mamilos,
e o da cintura se encurvando de ancas.
A todo o sal conheço que é só teu,
ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,
um cristalino pó de amantes enlaçados.
1 910
Jorge de Sena
Glosa à chegada do outono
O corpo não espera. Não. Por nós
ou pelo amor. Este pousar de mãos,
tão reticente e que interroga a sós
a tépida secura acetinada,
a que palpita por adivinhada
em solitários movimentos vãos;
este pousar em que não estamos nós,
mas uma sede, uma memória, tudo
o que sabemos de tocar desnudo
o corpo que não espera: este pousar
que não conhece, nada vê, nem nada
ousa temer no seu temor agudo...
Tem tanta pressa o corpo! E já passou,
quando um de nós ou quando o amor chegou.
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ou pelo amor. Este pousar de mãos,
tão reticente e que interroga a sós
a tépida secura acetinada,
a que palpita por adivinhada
em solitários movimentos vãos;
este pousar em que não estamos nós,
mas uma sede, uma memória, tudo
o que sabemos de tocar desnudo
o corpo que não espera: este pousar
que não conhece, nada vê, nem nada
ousa temer no seu temor agudo...
Tem tanta pressa o corpo! E já passou,
quando um de nós ou quando o amor chegou.
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1 596
Frank O'Hara
Para Lígia, após uma festa
Você nem sempre sabe o que estou sentindo.
Ontem à noite no ar morno de setembro enquanto
eu brandia uma invectiva contra alguém que não me interessa
era amor por você que me inflamava,
e não é esquisito? pois em salas cheias de
estranhos minhas emoções mais tenras
contorcem-se e
dão à luz o grito.
Estenda sua mão, não há
um cinzeiro, de repente, ali? Ao lado
da cama? E alguém que você ama adentra o quarto
e diz você não
quer os ovos um pouco
diferentes hoje? E quando eles chegam são
apenas ovos mexidos comuns e o ar morno
permanece.
897
Abu Ishaq Ibrahim Ibn Sahl al-Isra’ili al-Ishbili
Um belo rapaz
Muitas vezes um belo rapaz de lábios rubros
me pergunta sorrindo: – qual a tua religião?
Eu lhe respondo: em teu amor encontro minha fé,
meu paraíso, meu Deus e minha eternidade.
Tradução de Paulo Azevedo Chaves, in "Nus" (Editora Comunicarte, 1991).
me pergunta sorrindo: – qual a tua religião?
Eu lhe respondo: em teu amor encontro minha fé,
meu paraíso, meu Deus e minha eternidade.
Tradução de Paulo Azevedo Chaves, in "Nus" (Editora Comunicarte, 1991).
858
Juan Gelman
Chega
chega
não quero mais morte
não quero mais dor ou sombras chega
meu coração é esplêndido como uma palavra
meu coração tornou-se belo como o sol
que sai voa canta meu coração
é cedo um passarinho
e depois teu nome
teu nome sobe todas as manhãs
aquece o mundo e se põe
só em meu coração
sol em meu coração
(Tradução de Ricardo Domeneck)
Basta
basta
no quiero más de muerte
no quiero más de dolor o sombras basta
mi corazón es espléndido como una palabra
mi corazón se há vuelto bello como el sol
que sale vuela canta mi corazón
es de temprano un pajarito
y después es tu nombre
tu nombre sube todas las mañanas
calienta el mundo y se pone
solo en mi corazón
sol en mi corazón.
.
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não quero mais morte
não quero mais dor ou sombras chega
meu coração é esplêndido como uma palavra
meu coração tornou-se belo como o sol
que sai voa canta meu coração
é cedo um passarinho
e depois teu nome
teu nome sobe todas as manhãs
aquece o mundo e se põe
só em meu coração
sol em meu coração
(Tradução de Ricardo Domeneck)
Basta
basta
no quiero más de muerte
no quiero más de dolor o sombras basta
mi corazón es espléndido como una palabra
mi corazón se há vuelto bello como el sol
que sale vuela canta mi corazón
es de temprano un pajarito
y después es tu nombre
tu nombre sube todas las mañanas
calienta el mundo y se pone
solo en mi corazón
sol en mi corazón.
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1 419
Affonso Ávila
Cantiga de Nossa Senhora da Modéstia
do nicho elipse ontem fresta
sem coroa ou aura à sobretesta
sem louvor barroco à testa
cheia de graça em enfesta
lindeira de urbe e floresta
névoa ao olho imanifesta
oculta por imolesta
flor ou bem que se requesta
coração que se empresta
a nenhum juro infunesta
em seu sol tarde seresta
de som noite que se apresta
ao ardor deste à ânsia desta
dada mão furtiva ou presta
príncipes de brim voile em véstía
rímel pó rouge à arte honesta
na esquina de amor ou festa
ao cadente beijo da hora é esta
sua luz vertia em réstia
nossa senhora da modéstia
deCantigas do Falso Alfonso El Sábio, 2002.
927
Ghérasim Luca
Seu corpo leve
Seu corpo leve
será o fim do mundo?
é um erro
é uma delícia deslizando
entre os meus lábios
perto do espelho
mas o outro pensava:
é apenas uma pomba que respira
seja o que for
onde estou
algo acontece
numa posição delimitada pelo temporal
Perto do espelho é um erro
onde estou é apenas uma pomba
mas o outro pensava:
algo acontece
numa posição delimitada
deslizando entre os meus lábios
será o fim do mundo?
é uma delícia seja o que for
seu corpo leve respira pelo temporal
Numa posição delimitada
perto do gelo que respira
seu corpo leve deslizando entre os meus lábios
será o fim do mundo?
mas o outro pensava: é uma delícia
algo acontece seja o que for
pelo temporal é apenas uma pomba
onde estou é um erro
Será o fim do mundo que respira
seu corpo leve? Mas o outro pensava:
onde estou perto do espelho
é uma delícia numa posição delimitada
seja o que for é um erro
algo acontece pelo temporal
é apenas uma pomba
deslizando entre os meus lábios
É apenas uma pomba
numa posição delimitada
onde estou pelo temporal
mas o outro pensava:
quem respira perto do espelho
será o fim do mundo?
seja o que for é uma delícia
algo acontece
deslizando entre os meus lábios
seu corpo leve
(tradução de Laura Erber)
:
Son corps léger
est-il la fin du monde?
c’est une erreur
c’est une délice glissant
entre mes lèvres
près de la glace
mais l’autre pensait:
ce n’est qu’une colombe qui respire
quoi qu’il en soit
là où je suis
il se passe quelque chose
dans une position délimitée par l’orage
Près de la glace c’est une erreur
là où je suis ce n’est qu’une colombe
mais l’autre pensait:
il se passe quelque chose
dans une position délimitée
glissant entre mes lèvres
est-ce la fin du monde?
c’est une délice quoi qu’il en soit
sons corps léger respire par l’orage
Dans une position délimitée
près de la glace qui respire
sons corps léger glissant entre mes lèvres
est-ce la fin du monde?
mais l’autre pensait: c’est une délice
il se passe quelque chose quoi qu’il en soit
par l’orage ce n’est qu’une colombe
là où je suis c’est une erreur
Est-ce la fin du monde qui respire
son corps léger? mais l’autre pensait:
là où je suis près de la glace
c’est une délice dans une position délimitée
quoi qu’il en soit c’est une erreur
il se passe quelque chose par l’orage
ce n’est qu’une colombe
glissant entre mes lèvres
Ce n’est qu’une colombe
dans une position délimitée
là où je suis par l’orage
mais l’autre pensait:
qui respire près de la glace
est-ce la fin du monde?
Quoi qu’il en soit c’est une délice
Il se passe quelque chose
c’est une erreur
glissant entre mes lèvres
son corps léger
Os editores da Modo de Usar & Co. agradecem à poeta carioca Laura Erber por ter gentilmente permitido a publicação destas traduções.
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1 333
Affonso Ávila
insólito
contato é impudicícia ou carência de tato
gesto que sai do corpo como um salto de gato
suave rude ardil ou busca de gozo
rei dos sentidos empós do amor ou do afeto
sondagem de quem sonhou e argui de fato
a empáfia escondida entre haustos do só
não temer o impacto da astúcia
colher a rosa no ramo propício enquanto é vermelha
e saborear o odor a cor o íntimo calor
é tarde é breve mas intensa de brilho
signo de infinito clamor
que não calou no estamento do tempo
e rói fundo o apetite que resta
via possível na corrosão do palor
e usá-la a furto oculto
imponderada lapela
fim ou princípio
sorte lançada
defasado cupido
gesto que sai do corpo como um salto de gato
suave rude ardil ou busca de gozo
rei dos sentidos empós do amor ou do afeto
sondagem de quem sonhou e argui de fato
a empáfia escondida entre haustos do só
não temer o impacto da astúcia
colher a rosa no ramo propício enquanto é vermelha
e saborear o odor a cor o íntimo calor
é tarde é breve mas intensa de brilho
signo de infinito clamor
que não calou no estamento do tempo
e rói fundo o apetite que resta
via possível na corrosão do palor
e usá-la a furto oculto
imponderada lapela
fim ou princípio
sorte lançada
defasado cupido
1 010
Affonso Ávila
em cada conto te conto
& em cada conto te cont
o& em cada enquanto me enca
nto& em cada arco te a
barco& em cada porta m
e perco& em cada lanço t
e alcanço& em cada escad
a me escapo&em cada pe
dra te prendo& em cada g
rade me escravo& em ca
da sótão te sonho& em cada
esconso me affonso& em
cada cláudio te canto & e
m cada fosso me enforco&
deCantaria Barroca, 1975
1 100
Frank O'Hara
Poema
Há dias em que sinto exalar uma fina poeira
como aquela atribuída a Pilades na famosa
Chronica nera areopagitica ao ser descoberta
e é porque um arqueólogo
adentrou a câmara secreta do meu peito
e chacoalhou o papel que carrega seu nome
Não gosto deste estranho espirrando sobre nosso amor.
como aquela atribuída a Pilades na famosa
Chronica nera areopagitica ao ser descoberta
e é porque um arqueólogo
adentrou a câmara secreta do meu peito
e chacoalhou o papel que carrega seu nome
Não gosto deste estranho espirrando sobre nosso amor.
989
Gerrit Komrij
Nada, só borras, só fundo.
Vivíamos os dois num velho palacete.
Sem chão nem tecto. De paredes nada.
So what? Palacetes diziam-nos pouco.
Era uma granja meio desmoronada.
Fazíamos sempre grandes conversas.
Nada importante. A política, o tempo.
O amor? Tá bom, íamos nós lá nisso!
Cavaco de café, um passatempo.
Bebíamos poesia dum jarro.
Nada de cristais. Um copo marado.
Conteúdo? Nada, só borras, só fundo.
Era uma poesia de tostão furado.
(tradução de Fernando Venâncio,
Gerrit Komrij, Contrabando: uma antologia poética
Tradução do holandês de Fernando Venâncio, Assírio & Alvim)
:
Niets dan droesem, niets dan draf
Gerrit Komrij
We zaten samen in een oud kasteel.
Het had geen vloeren en geen dak. Geen muur.
So what? Kastelen zeiden ons niet veel.
Het was een halfvervallen boerenschuur.
We hadden al die tijd een goed gesprek.
Niets van belang. De politiek, het weer.
De liefde? Ja, daar waren we mooi gek.
Het waren borrelpraatjes en niets meer.
We dronken poëzie uit een karaf
Van het goedkoopste glas. Niet van kristal.
De inhoud? Niets dan droesem. Niets dan draf
Het was een poëzie van niemendal.
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718
Gertrude Stein
Homens
Às vezes os homens estão beijando. Os homens estão às vezes beijando e às vezes bebendo. Os homens estão às vezes beijando uns aos outros e às vezes então há três deles e um deles está falando e dois deles estão beijando e ambos, ambos os dois que estão beijando, têm seus olhos cheios então de lágrimas neles.
Às vezes os homens estão bebendo e estão amando e um deles está falando e dois estão brigando e um dos dois está tão à frente que então eles estão se amando e estão dizendo todas as coisas um ao outro. Todos os três estão dizendo um ao outro qualquer coisa. Todos os três estão dizendo um ao outro qualquer coisa. Um deles está escutando um outro um. Um deles está escutando dois deles. Um não está escutando eles e ele tem lágrimas então lágrimas de torpor e eles estão todos os três bebendo e dizendo uns aos outros todas as coisas.
Um deles está então cheio dessa coisa muito cheio de lágrimas nele. Ele está muito cheio então e está ganhando tendo o outro derrubado no chão. Ele está cheio então e beijando o outro então certo então de que o outro é um que ouve todas as coisas. Ele está cheio então e o terceiro deles então é um que ele então não chegaria perto. Ele era um cheio então e o terceiro então está ocupando alguma coisa. O um que então é um cheio é um que está precisando então que o terceiro não ocupe coisa alguma. O terceiro está ocupando alguma coisa. O cheio era um cheio e estava partindo quando nem um sabia coisa alguma sabia que ele estava partindo.
Os três se amaram. Dois deles estavam amando.Um deles não estava amando e lembrava de todas as coisas e ocupava alguma coisa. Um deles estava amando e tinha derrubado um outro no chão e estava precisando de que o outro outro não ocupasse coisa alguma. O outro o que foi derrubado no chão estava então amando e estava então sabendo que o cheio estava então amando. Ele estava amando então e o cheio estava amando então e eles eram então os que estavam amando. Eles tinham estado se beijando e o que estava derrubado no chão era um que poderia ter derrubado o cheio no chão.
Outra vez, bem mais tarde cada um deles encontrou um dos três. O um que era um cheio de lágrimas vindo dele enquanto ele estava amando e beijando não encontrou o um que estava então ocupando alguma coisa. Ele encontrou o outro e não o encontrou outra vez. Ele era um cheio então e estava assim por não querer encontrar o um que estava então ocupando alguma coisa. Ele era sempre um cheio de alguma coisa. Ele era agora um cheio por não querer encontrar o um que estava então ocupando alguma coisa. Ele não o encontrou. Ele ficou bem cheio por uma vez tê-lo quase encontrado. Ele era um bem cheio então. Ele não foi então encontrá-lo, àquele que estava então ocupando alguma coisa.
Um dos três encontrou um deles e queria encontrá-lo de novo e estar amando de novo mesmo que eles não chegassem de novo a se beijar e a chorar. Ele encontrou o um que estava então cheio de ser o que não precisa estar amando qualquer um que ele tenha conhecido; o um que quis ser o que não gosta de beijar, que não gosta de qualquer um que tenha sido um. Ele não estava gostando daquele que era então um cheio de ser um a não gostar de qualquer um que tinha sido um. O um que estava encontrando com ele o um que era então um cheio não estava gostando dele, não estava gostando daquele cheio. Ele perdeu algo perdeu ser um gostando do outro ser um cheio de beijar e chorar. Ele perdeu algo, o um que encontrou o outro que então era um cheio perdeu gostar daquele, perdeu o outro sendo um cheio de amar e chorar.
O um que era um cheio por ser então um que não quer encontrar o que estava então ocupando alguma coisa, era então um cheio por não querer conhecer qualquer um que tivesse sido. Ele não estava querendo então encontrar o que estava então ocupando alguma coisa. Ele era um cheio então por ter este sentimento então nele. Ele estava chorando um tanto então por estar cheio.
Cada um dos três era um tal, tal eles eram então. Cada um deles, os três deles, queria dizer alguma coisa sendo um tal. Cada um dos três era um tal bebendo e amando e falando. Cada um deles, cada um dos três era um que bebia com o outro amava um dos três, amava dois dos três amava todos os três, beijava um deles, chorava um tanto então. Cada um dos três era um tal. Cada um dos três queria dizer alguma coisa sendo um tal.
O um que estava ocupando alguma coisa era um tal sendo um a beber e a falar e a ouvir e a ocupar então alguma coisa, ocupar sendo um tal, um a beber e a ouvir e a falar, a ocupar completamente sendo um tal.
Ele era um a ocupar alguma coisa. Ele era um a ocupar sendo um tal, um a beber e a amar por escutar e por falar. Ele era um a ocupar sendo um tal a ocupar completamente sendo um tal, a beber e a amar por estar escutando e por estar falando.
Ele era um tencionando essa coisa por ser um tal tencionando ser um a ocupar completamente sendo um tal, amando por escutar, amando por falar, amando por beber. Ele estava ocupando plenamente sendo um tal e estava plenamente tencionando essa coisa por ser um tal, tencionando ser um a amar por ser um a escutar, por ser um a falar, por ser um a beber.
Ele era um tal, ele estava ocupando completamente sendo um tal, ele estava plenamente tencionando ser um tal. Ele estava completamente ocupando um tal e ele estava então ocupando alguma coisa, ele estava então ocupando alguma coisa e ele era então para o cheio, o que então precisava não estar encontrando ele, ele era para aquele um a ocupar alguma coisa onde ele o então cheio precisava ter todas as coisas em volta dele para que pudesse ser um a deixá-las para trás. Ele estava então ocupando alguma coisa o que poderia estar encontrando o que era então o cheio por ser o que precisava não estar encontrando ele, ele estava então ocupando alguma coisa e sendo um então a amar por beber, a amar por escutar, a amar por falar. Ele poderia então estar ocupando alguma coisa e tendo então o que era o cheio por precisar não estar encontrando ele, tendo o cheio então ser o que ele era ao ter um como aquele com quem ele poderia estar se encontrando outra vez, sendo um tencionando ocupar alguma coisa.
Ele era um completamente sendo um tal. Ele era um a tencionar completamente por ser um tal. Ele era um a ocupar alguma coisa por ser um amando por beber, amando por ouvir, amando por falar. Ele estava tencionando sendo um tal. Ele estava tencionando ao ser um tal. Ele era um tal.
O que foi derrubado no chão por ser um que vem amando e beijando e bebendo poderia ter derrubado no chão o que tinha então derrubado ele no chão. Ele poderia ter derrubado no chão o que derrubou ele no chão, e então ele o amou e ele o beijou, e eles então disseram que ambos então sabiam todas as coisas. Ele poderia ter derrubado no chão o que derrubou ele no chão e ele então não estaria amando e beijando e sabendo então todas as coisas. Às vezes, ele era um a derrubar alguém no chão e sendo um então a deixar alguém cair e sendo um então a saber alguma coisa. Ele estava então quando foi derrubado no chão pelo que ele poderia ter derrubado no chão ele estava então amando e beijando e eles estavam então sabendo de todas as coisas. Ele era um tal e era um que estava tencionando ao ser um sendo um tal. Ele era um que vinha sendo um tal e sendo um tal e sendo um a lembrar que se tornou um tal, e sendo um tal, e estando bebendo e beijando e amando ao estar tencionando ao ser um tal e ser então um tal, e ser então um que poderia ter derrubado no chão o outro e ser então o que foi derrubado no chão pelo que ele estava beijando então e amando então e eles estavam então sabendo todas as coisas, ele estava se lembrando que ele era o que era um tal. Eles estavam então sabendo todas as coisas e ele estava então se lembrando de todas as coisas e o outro depois estava cheio então por ser o que não se lembra de coisa alguma por ser o que não precisa estar lembrando de qualquer um ao ser um que tenha sido. Ele era o que tinha derrubado no chão o outro e o outro poderia ter derrubado ele no chão. Ele tinha derrubado no chão o outro e eles estavam então se beijando e amando e sabendo de todas as coisas.
Ele era um cheio e tinha derrubado no chão o outro. Ele era um cheio e era um tal. Ele era um tal e estava se lembrando de ter tencionado ao ser um tal. Ele não estava se lembrando de todas as coisas.
Ele tinha sido um tal um tal a amar. Ele tinha estado beijando então e bebendo então com lágrimas então surgindo nele. Ele tinha lágrimas ocupando ele quando ele estava se lembrando, quando ele não estava se lembrando sendo um tal. Ele era um cheio por ser um com lágrimas transbordando dele. Ele era um cheio por estar se lembrando, ele era um cheio por não estar se lembrando de ser um tal. Ele era um cheio de lágrimas inchando ele. Ele era um cheio de lágrimas escapando dele. Ele era um cheio de lágrimas sobrando nele. Ele era um que poderia ser um cheio por querer ter derrubado alguém no chão e ser um a chorar então. Ele poderia se lembrar de alguma coisa. Ele se lembrou de alguma coisa. Ele não se lembraria de todas as coisas. Ele seria um tal e seria um cheio estando completo então por ser um tal. Ele era um cheio por ser um a derrubar no chão o outro e admirar então o que tinha sido derrubado por ele. Ele estava sendo um tal. Ele estava tencionando alguma coisa ao ser um tal. Intencionava-se ao ser um tal .
Intencionava-se ao ser um tal e tantos se lembraram daquilo, se lembraram de que ele era um tal e de que se intencionava aquela coisa, intencionava-se ao ser um tal.
Ele era um tal e tinha tencionado ao ser um tal, intencionado ser um tal ao ser um tal. Ele estava se lembrando dessa coisa se lembrando de que ele era um tal. Ele se lembrou dessa coisa, ele se lembrou de que ele tinha tencionado ao ser um tal.
Ele estava tencionando outra vez ao ser um tal e estava se lembrando de que ele tinha mencionado outra vez que ele era um tal. Ele estava se lembrando outra vez de que ele era um tal e ele estava se lembrando outra vez de que ele estava tencionando. Ele era um tal.
Ele era um tal e estava se lembrando daquela coisa sendo um cheio. Ele era um cheio sendo um tal. Ele era um cheio se lembrando de ser um tal.
Ele era um cheio se lembrando de que ele não estava encontrando qualquer um que tenha sido. Ele era um cheio se lembrando de que ele poderia encontrar qualquer um que tenha ocupado alguma coisa. Ele era um cheio por estar chorando. Ele era um cheio. Ele estava se lembrando de alguma coisa ao ser um cheio. Ele estava se lembrando de ser um tal.
Ele estava se lembrando de ser um tal. Ele estava se lembrando de alguma coisa. Ele estava se lembrando de ter tencionando ao ser um tal. Ele era um tal. Qualquer um era um não se esquecendo outra vez de que ele era um tal. Ele era um não se esquecendo outra vez de que ele era um tal. Ele era um não derrubando um outro no chão e sendo então o cheio por não se tornar um a jamais fazer uma tal coisa. Ele era um cheio sendo um outra vez então não encontrando qualquer um que ele não tenha derrubado no chão. Ele era um cheio sendo um então encontrando outra vez o um que ele não chegou a derrubar no chão e sendo um não encontrando aquele outra vez. Ele era um tal. Ele estava se lembrando de alguma coisa.
Nem um dos três encontrou coisa algum de nem um outro deles. Qualquer um deles era um encontrando um outro. Qualquer um dos três era um tal.
Qualquer um dos três estava tencionando ser um tal. Qualquer um dos três era um tencionando alguma coisa sendo um tal. Qualquer um dos três estava sendo um a ser um tal. Cada um dos três era um sendo um do seu jeito. Cada um dos três era de um jeito diferente dos outros três. Cada um dos três era um tal.
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Sobre as tradutoras:
Marília Garcia é coeditora daModo de Usar & Co. Nasceu no Rio de Janeiro, em 1979. Publicou os livrosEncontro às cegas (Rio de Janeiro: Moby Dick, 2001) e20 poemas para o seu walkman (SP/RJ: Cosac Naify/7Letras, 2007). Participou do Festival de Poesia Latino-americanaSalida al Mar, em Buenos Aires, e está entre os poetas convidados para o Festival Europalia na Bélgica, dedicado este ano ao Brasil. A poeta, tradutora e editora vive e trabalha no Rio de Janeiro.
1 556
Paulo Leminski
desta vez não vai ter neve
desta vez não vai ter neve como em petrogrado aquele dia
o céu vai estar limpo e o sol brilhando
você dormindo e eu sonhando
nem casacos nem cossacos como em petrogrado aquele dia
apenas você nua e eu como nasci
eu dormindo e você sonhando
não vai mais ter multidões gritando como em petrogrado
[aquele dia
silêncio nós dois murmúrios azuis
eu e você dormindo e sonhando
nunca mais vai ter um dia como em petrogrado aquele dia
nada como um dia indo atrás do outro vindo
você e eu sonhando e dormendo
o céu vai estar limpo e o sol brilhando
você dormindo e eu sonhando
nem casacos nem cossacos como em petrogrado aquele dia
apenas você nua e eu como nasci
eu dormindo e você sonhando
não vai mais ter multidões gritando como em petrogrado
[aquele dia
silêncio nós dois murmúrios azuis
eu e você dormindo e sonhando
nunca mais vai ter um dia como em petrogrado aquele dia
nada como um dia indo atrás do outro vindo
você e eu sonhando e dormendo
3 184
Violante do Céu
Canção
Amante pensamento,
Núncio de amor, correio da vontade,
Emulação do vento,
Lisonja da mais triste soledade,
Ministro da lembrança,
Gosto na posse, alívio na esperança,
Já que de minhas queixas
A causa idolatrada vás seguindo,
Diz-lhe qual me deixas:
Diz-lhe que estou morta, mas sentindo,
Que pode mal tão forte
Fazer que sinta (ai triste!) a mesma morte.
Diz-lhe que é já tanto
O pesar de me ver tão dividida,
Que só me causa espanto
A sombra que me segue de üa vida
Tão morta para o gosto
Como via (ai de mi!) para o desgosto.
Diz-lhe que me mata
Quem, vendo-me morrer sem resistência,
De socorrer-me trata,
Pois para quem padece o mal de ausência
Que é só remédio entendo
Ver o que quer ou fenecer querendo.
Diz-lhe que a memória
Toma por instrumento do meu dano
A já passada glória,
Fazendo o mais suave tão tirano,
Que o bem mais estimado
Me passa o coração, porque é passado.
Diz-lhe que se sabe
O poder de üa ausência rigorosa,
Que a que começa acabe
Antes que ela me acabe poderosa,
Pois de tal modo a sinto,
Que julgo ter por eterno o mais sucinto.
Diz-lhe que se admite
Rogos de um coração que o segue amante,
Que ver-me solicite
Apesar do preciso e do distante,
E que tão cedo seja
Que toda a compaixão se torne inveja.
Diz-lhe que se acorde
De uns efeitos de amor que encarecia,
E que todos recorde,
Mas que seja um minuto cada dia,
Pois eu cada minuto
Infinitas lembranças lhe tributo.
Diz-lhe que até à morte
Assistência contínua lhe ofereces,
E que te invejo a sorte;
E enfim, se de meu mal te compadeces,
Ó pensamento amigo,
Diz-lhe tudo, ou leva-me contigo.
1 078
Guillermo Fernández
Discurso em homenagem a Heráclito
I
Tudo preenche o instante
que virá
que passa
que passou
II
Cogito, ergo, fuit
III
Ninguém se banha duas vezes
em algo que foi um rio
IV
Vamos fazer amor
nesta cama
encontraremos
ainda frouxos
nossos cadáveres
V
Deixem que as crianças
lancem a primeira pedra
porque dos velhos
foi o reino dos céus
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
Discurso en homenaje a Heráclito
Guillermo Fernández
I
Todo lo llena el instante
que vendrá
que pasa
que pasó
II
Cogito, ergo, fuit
III
Nadie se baña dos veces
en algo que fue un río
IV
Hagamos el amor
en esta cama
encontraremos
tibios aún
nuestros cadáveres
V
Dejad que los niños
arrojen la primera piedra
porque de los ancianos fue
el reino de los cielos
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579
Sandro Penna
Alfio que um trem transporta para longe.
Alfio que um trem transporta para longe.
Aonde carregas teus olhos dolorosos
e ao mesmo tempo alegres? Nasce o dia
e já parece a noite tão distante
que há tão pouco transcorreu conosco.
A noite em que não me quiseste dar
a única coisa que eu te merecia e que
por não me dares corpo e mente me incendeia
a tal ponto que aurora, noite e dia
se confundem
na única coisa que vejo que é teu lume.
:
Alfio che un treno porta assai lontano.
Dove porti i tuoi occhi dolorosi
e tanto lieti insieme? Adesso è l'alba
e già tanto lontana pare la sera
che da poco è trascorsa con noi. La sera
in cui non hai voluto darmi
quello che solo meritavo, quello
che non dato m'incendia cuore e mente
a tal punto che l'alba o la sera od il giorno
fanno una confusione
in cui vedo soltanto il tuo lume.
de Stranezze (1976)
Aonde carregas teus olhos dolorosos
e ao mesmo tempo alegres? Nasce o dia
e já parece a noite tão distante
que há tão pouco transcorreu conosco.
A noite em que não me quiseste dar
a única coisa que eu te merecia e que
por não me dares corpo e mente me incendeia
a tal ponto que aurora, noite e dia
se confundem
na única coisa que vejo que é teu lume.
:
Alfio che un treno porta assai lontano.
Dove porti i tuoi occhi dolorosi
e tanto lieti insieme? Adesso è l'alba
e già tanto lontana pare la sera
che da poco è trascorsa con noi. La sera
in cui non hai voluto darmi
quello che solo meritavo, quello
che non dato m'incendia cuore e mente
a tal punto che l'alba o la sera od il giorno
fanno una confusione
in cui vedo soltanto il tuo lume.
de Stranezze (1976)
875
Sandro Penna
Amor, amor
Amor, amor
dileto dissabor.
:
Amore, amore,
lieto disonore.
de Croce e delizia (1958)
dileto dissabor.
:
Amore, amore,
lieto disonore.
de Croce e delizia (1958)
1 097
Paulo Colina
Forja
entre uma calmaria
e outra
do mar de nossas peles
me bastaria amor cantar o fogo
que somos na nascente
de suas coxas
mas há essa dor de outros tempos
e corpos
essa rosa dos ventos sem norte
na memória sitiada da noite
embora o gesto possa ser
no mais todo ternura
o poema continua um quilombo
no coração
1 341