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Protesto, Resistência e Revolução

Pedro Tierra

Pedro Tierra

A Morte Anunciada de Josimo Tavares

1. 
Há um dizer
antigo
entre os homens da raça dos rios:
a morte quando se anuncia,
devora a sombra do corpo
e inventa a luz da solidão.

Você se afastou sob o sol.
Era 14 de abril.
Busquei-lhe a sombra
sobre o chão da rua
e não havia sombra.

Ainda busquei tocá-lo.
Falamos da vida
e da morte
(a arma que me matará
já está na oficina ...)
E você sorria manso
desde a defendida
solidão dos místicos.
Falamos da luta
e da necessidade de prosseguir
(os tecelões da morte
forçam os teares,
arrematam os fios
do tecido que te cobrirá ...)
2.
Incendiaram
nossas casas.
Destruíram plantações.
Saquearam celeiros.
Derrubaram cocais.
Envenenaram as águas.

Invadiram povoados.
Torturaram nossos pais.
Arrancaram as orelhas dos mortos.
Atiraram nos rios corpos mutilados
Derrubaram a cruz que erguemos,
sinal aceso de nossa memória.

Cortaram a língua dos nossos irmãos.
Violaram nossas filhas.
Assassinaram inválidos.
Queimaram a sangue e fogo
a terra que trabalhamos.

Quem emprestará a voz
ao idioma do perdão
e protegerá com súplicas
o riso dos assassinos?!
Aniquilaram a raiz da esperança.
Esgotou-se o tempo de tolerar
e desatou-se a hora da vingança:
o primitivo nome da justiça.
3.
Todos sabiam
dessa morte.
A cerca do latifúndio sabia.
Os pistoleiros, os assalariados da morte,
a polícia fardada e paisana, o GETAT,
os garimpeiros, os bêbados, as prostitutas,
as professorinhas, as beatas,
as crianças brincando no areal da rua
sabiam

Os homens da terra, os posseiros, os saqueados,
as mulheres alfabetizadas pela dor
e pela espera
sabiam.

O prefeito, o juiz, o delegado, a UDR,
os fazendeiros, os crápulas
sabiam.

As mãos dos assassinos
poliam as armas.

A igreja sabia
e esperava ..

A haste orgulhosa do babaçu
sabia.
E dobrava as palmas num lamento
e multiplicava a ciência dessa morte,

os passarinhos, o relógio dos templos
mastigando o comboio da horas
e não se deteve, a água dos rios
não se deteve, fluindo irremediável
a hora dessa morte.

A pedra dos caminhos
sabia
e permaneceu muda,
o vento sabia
               e anunciava seu gemido todavia indecifrável

Tuas sandálias sabiam
e continuaram a caminhar.

Eu, que nasci votado à alegria
e vivo a contar o rosário interminável
dos mortos
não fiz o verso,
                              espada de fúria,
           que cindisse em dois
o comboio das horas
e descarrilasse o tempo de tua morte.

Você sabia.
E sorria
apenas.
Como quem se lava
para chegar vestido
de algodão
e transparência
à hora da solidão.

Quem é esse menino negro
que desafia limites?

Apenas um homem.
Sandálias surradas.
Paciência e indignação.
Riso alvo.
Mel noturno.
Sonho irrecusável.

Lutou contra cercas.
Todas as cercas.
As cercas do medo.
As cercas do ódio.
As cercas da terra.
As cercas da fome.
As cercas do corpo.
As cercas do latifúndio.

Trago na palma da mão
um punhado de terra
que te cobriu.
Está fresca.
É morena, mas ainda não é livre
como querias.

Sei aqui dentro
que não queres apenas lágrimas.
Tua terra sobre a mesa
me diz com seu silêncio agudo
Meu sangue se
levantará
como um rio acorrentado
e romperá as cercas do mundo.

Um rio de sangues convocados
atravessará tua camisa
e ela será bandeira
sobre a cabeça dos rebelados.

Goiânia, maio/86
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Valéria Lamego

Valéria Lamego

A musa contra o ditador

A musa contra o ditador

Nos autoritários anos 30, a poeta lutou na imprensa pela democracia
e contra o ensino religioso

especial para a Folha

"Cecília, és tão forte e tão frágil.
Como a onda ao termo da luta. Mas a onda é água que afoga:
Tu, não, és enxuta." Manuel Bandeira (em "Improviso", no
livro Belo Belo) Cecília Meireles na década de 30 rompeu
com todos os tabus de uma sociedade ao defender uma política menos
casuísta e uma educação moderna.

Por meio de seus artigos sobre política, educação
e cultura, Cecília nos oferece uma outra face daquela que foi considerada
a musa diáfana, fluida e etérea da literatura brasileira.
Sinônimo de ilha e isolamento (para Sérgio Milliet), a escritora
cuja poesia não estava "inserida no drama coletivo de sua geração"
(para o crítico Mário da Silva Brito), em sua trajetória
intelectual a Cecília Meireles que deixou suas marcas foi uma defensora
da idéia universal de democracia, num período em que a incoerência
e as paixões pelo autoritarismo arrastaram jovens intelectuais.

Coleção de inimigos

A estréia de Cecília Meireles na redação de
um jornal se dá em 30, década marcada pela transição
de duas grandes guerras e, no Brasil, pela revolução de outubro.
Na imprensa pipocavam jornais de adesão ao novo regime. Assim surgiu
o "Diário de Notícias", em junho de 1930.

Mais do que um simples matutino, o jornal de Orlando Dantas e Nóbrega
da Cunha trazia uma seção diária dedicada à
educação e à política, a "Página de
Educação", cuja diretora era então a jovem poeta.
Jornalista liberal, partidária incansável das liberdades
individuais, em seus 960 artigos publicados na "Página", entre junho
de 1930 e janeiro de 1933, lutou pela instauração de uma
república democrática, bem diferente daquela regida pelo
populismo autoritário do regime que se descortinava após
a revolução.

Crítica ferrenha das atitudes de Vargas, a quem se referia como
"Sr. ditador", Cecília realizava em sua "Página" uma espécie
de jornalismo "enragé". Ao sustentar uma idéia de nação
menos ufanista, colecionou inimigos e desafetos de suas convicções
sobre liberdade, dentre eles o ministro da Educação Francisco
Campos e o crítico católico Alceu de Amoroso Lima, que anos
depois em seu livro de memórias, "Companheiros de Viagem", de 1971,
reconheceu na poeta "uma grande figura feminina do modernismo".

A truculência ideológica do período nos encarrega de
mostrar, no entanto, que as perseguições por motivos ideológicos,
políticos e, por que não, estéticos, acompanharam
a estreante Cecília ao longo dos anos 30. E parecem acompanhá-la
até os dias de hoje, devido a leitura equivocada que se faz de sua
obra e de um desconhecimento total sobre sua passagem pela política
nos anos seguintes à Revolução de 30 e, mais tarde,
durante o período do Estado Novo.

Partidária dos princípios da Escola Nova, a escola moderna
do filósofo norte-americano John Dewey, junto com Anísio
Teixeira, Fernando de Azevedo e Lourenço Filho, Cecília assistiu
à ascensão de um estado autoritário e de uma Igreja
Católica que tentava recuperar seu poder após 40 anos de
uma república laica, com ares positivistas.

A Revolução de 30 traz para a Igreja Católica a possibilidade
de reaver o poder _embora sua popularidade fosse incontestável.
Em 1931, por exemplo, Nossa Senhora Aparecida é consagrada padroeira
do Brasil em grande festejo popular. E em 12 de outubro, também
de 1931, a título de comemoração de um ano de revolução,
é inaugurada, no Rio de Janeiro, Distrito Federal, a imagem mor
da fidelidade católica de um regime: o Cristo Redentor.

O ataque ao ministro

A inclusão do ensino religioso nas escolas públicas, em 1931,
por um decreto de Vargas, despertou a poeta e seus companheiros para a
verdadeira face da Revolução de 30. Um movimento, diga-se
de passagem, totalmente apoiado pelo grupo em seus primórdios.

Na batalha contra o decreto do ensino religioso, Francisco Campos foi figura
central das críticas da poeta.

"Os senhores viram o caso do sr. Francisco Campos", escreve no artigo "A
Hora do Espetáculo", "veio precedido de uma fama extraordinária
de menino prodígio. A cada passo era citada a reforma de ensino
mineira, que nós sempre aplaudimos com restrições,
como a obra glorificada do sábio de Indaiá. A reforma já
trazia no seu bojo agourento, o fantasma do clericalismo. Que foi que fez
como ministro da Educação? Anunciou uma reforma que apareceu
aos pedaços, confusa, como arrancada a ferros do seu cérebro
reputado genial. Todos os jornais protestaram, protestaram os interessados,
um por um, e o ministro ficou indo e vindo entre o Rio e Minas, como se
não tivesse a responsabilidade formidável do cargo que lhe
deram e com o qual, infelizmente, não se contentou. E ainda arranjou
o decreto sobre o ensino religioso, como a última e desgraçada
manobra para se inutilizar como ministro da Educação...".

A laicidade da escola, bem como a co-educação dos sexos e
a manutenção de uma escola pública livre dos arbítrios
da família e da igreja eram as principais bandeiras de Cecília
na "Página". Princípios esses encarados com verdadeira ojeriza
pelo porta-voz da Igreja Católica, o crítico Alceu Amoroso
Lima. No artigo "Absolutismo Pedagógico", de março de 1932,
sobre o Manifesto da Educação lançado pelo grupo da
Escola Nova, Alceu afirma: "Cinco são os meios que recomenda a nossa
NEP (1) para a obtenção dos seus dois filhos _o biologismo
e o estadismo pedagógicos: ruptura do quadro familiar, laicidade,
gratuidade, obrigatoriedade e co-educação".

A campanha de Meireles, na imprensa, não se limitava a defender
o programa liberal da Escola Nova. Seguida por um desejo irrefreável
de combate aos medalhões e à politicagem reinante, Cecília,
sem dúvida, se fazia ouvir no Palácio do Catete. "O sr. Francisco
Campos", dizia ela, "parece que resolveu dar cada dia prova mais convincente
de que não entende mesmo nada, absolutamente, de pedagogia. Que
a sua pedagogia é uma pedagogia de ministro, isto é, politicagem...".

Qualquer atitude sectária valia para a poeta-jornalista um artigo
reflexivo. E assim o fez quando Manuel Bandeira, convidado a participar
do júri do Salão de Belas-Artes de 1931, recebeu severas
críticas dos pintores acadêmicos. "Há uma coisa que
parece ter desagradado: a inclusão de um poeta numa comissão
de belas-artes. Talvez, se fosse um poeta parnasiano, acadêmico,
cheio de lugares-comuns e de preocupações pronominais, o
descontentamento fosse menor. Trata-se, porém, de Manuel Bandeira."

Cansada da política

A "Página de Educação" encerra para Cecília
em janeiro de 1933, quando um cansaço tremendo com as manobras políticas
do governo e o estado da educação no Rio de Janeiro a tomam
por completo. A poeta chega mesmo a manifestar em sua correspondência
o "horror" que lhe causava o jornalismo em sua vida.

Entretanto, logo após sua despedida da "Página de Educação",
Cecília Meireles volta aos jornais. Desta vez para o carioca "A
Nação", no qual foi contratada com um senão: poderia
escrever sobre tudo, menos sobre política!

Durante toda a sua vida a poeta se dedica ao jornalismo. Na década
de 40 escreve para "A Manhã" uma coluna semanal s
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Cleise Mendes

Cleise Mendes

A Poesia no Teatro

Bocas, buchichos, bilhetes,
o beijo, o banzo, o batuque,
bispos, beatos, blasfêmias,
as conversas cavernosas,
cavando caos e castigo,
cartas cárceres carrascos,
cruzes, quilombos, capoeira,
denúncias, depoimentos,
devassas e desventuras,
a danação do degredo.

E a liberdade tecendo
o fio de sua renda:
navegar é preciso
que se aprenda.

Filetes deferimentos,
ferros, feitores, fidalgos,
(afã de fazer feitiço!)
garras, garrotes, gadanhos,
galhofas e galicismos,
o gosto das gargalhadas,
o gozo, o guizo, a gandaia,
a justiça justaposta,
gerando jeito, jeitinho
e gente jeremiando.

E a liberdade tecendo
o fio de sua renda:
navegar é preciso
que se aprenda.

Lágrimas lavam as leis
e as legiões de lacaios,
os livros em labaredas,
a luz, o lume, a legenda,
iluminismos letais...
masmorras, mortes, miséria,
meirinhos, maçons, muzenza,
o Nordeste, a novembrada,
novidades e novenas,
Napoleão e novelas.

E a liberdade tecendo
o fio de sua renda:
navegar é preciso
que se aprenda.

Os póstumos patriotas,
padres, peões, parasitas,
os poderes paralelos,
réus, rebeldes renitentes,
raças, revoltas, revides,
o real e a realeza,
os sambas e as assembléias,
selos, sigilos, segredos,
a sedição e seus sonhos,
o sangue e o suor descendo.

E a liberdade tecendo
o fio de sua renda:
navegar é preciso
que se aprenda.

Traidores e titulares,
o trono, a taxa, o tributo,
o tronco, a tortura, a tropa,
velas, vasos e vitrais,
os vassalos e os valentes,
(a vida à vazar das veias)
o xodó e o xingamento,
zona, zunzum, zombaria,
o zumbir da zurzidela,
zoeiras, zangas e zelos.

E a liberdade tecendo
o fio de sua renda:
navegar é preciso
que se aprenda.

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Castro Alves

Castro Alves

Desespero

"Crime! Pois será crime se a jibóia
Morde silvando a planta, que a esmagara?
Pois será crime se o jaguar nos dentes
Quebra do índio a pérfida taquara?

"E nós que somos, pois? Homens? — Loucura!
Família, leis e Deus lhes coube em sorte.
A família no lar, a lei no mundo...
E os anjos do Senhor depois da morte.

"Três leitos, que sucedem-se macios,
Onde rolam na santa ociosidade...
O pai o embala... a lei o acaricia...
O padre lhe abre a porta à eternidade.

"Sim! Nós somos reptis... Quimporta a espécie?
— A lesma é vil, — o cascavel é bravo.
E vens falar de crimes ao cativo ?
Então não sabes o que é ser escravo! ...

"Ser escravo — é nascer no alcoice escuro
Dos seios infamados da vendida...
— Filho da perdição no berço impuro
Sem leite para a boca ressequida...
"É mais tarde, nas sombras do futuro,
Não descobrir estrela foragida...
É ver — viajante morto de cansaço —
A terra — sem amor!... sem Deus - o espaço!

"Ser escravo — é, dos homens repelido,
Ser também repelido pela fera;
Sendo dos dois irmãos pasto querido,
Que o tigre come e o homem dilacera...
— É do lodo no lodo sacudido
Ver que aqui ou além nada o espera,
Que em cada leito novo há mancha nova...
No berço... após no toro... após na cova!...

"Crime! Quem falou, pobre Maria,
Desta palavra estúpida?... Descansa!
Foram eles talvez?! ... É zombaria...
Escarnecem de ti, pobre criança!
Pois não vês que morremos todo dia,
Debaixo do chicote, que não cansa?
Enquanto do assassino a fronte calma
Não revela um remorso de sua alma?

"Não! Tudo isto é mentira! O que é verdade
É que os infames tudo me roubaram ...
Esperança, trabalho, liberdade
Entreguei-lhes em vão... não se fartaram.
Quiseram mais... Fatal voracidade!
Nos dentes meu amor espedaçaram...
Maria! Última estrela de minhalma!
O que é feito de ti, virgem sem palma?

"Pomba — em teu ninho as serpes te morderam.
Folha — rolaste no paul sombrio.
Palmeira — as ventanias te romperam.
Corça — afogaram-te as caudais do rio.
Pobre flor — no teu cálice beberam,
Deixando-o depois triste e vazio...
— E tu, irmã! e mãe! e amante minha!
Queres que eu guarde a faca na bainha!

"Ó minha mãe! ó mártir africana,
Que morreste de dor no cativeiro!
Ai! sem quebrar aquela jura insana,
Que jurei no teu leito derradeiro,
No sangue desta raça ímpia, tirana
Teu filho vai vingar um povo inteiro!...

Vamos, Maria! Cumpra-se o destino...
Dize! dize-me o nome do assassino!..."

"Virgem das Dores,
Vem dar-me alento,
Neste momento
De agro sofrer!
Para ocultar-lhe
Busquei a morte...
Mas vence a sorte,
Deve assim ser.

....................................

"Pois que seja! Debalde pedi-te,
Ai! debalde a teus pés me rojei...
Porém antes escuta esta história...
Depois dela... O seu nome direi!"

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Castro Alves

Castro Alves

O Povo ao Poder

QUANDO nas praças seleva
Do povo a sublime voz...
Um raio ilumina a treva
O Cristo assombra o algoz...
Que o gigante da calçada
Com pé sobre a barricada
Desgrenhado, enorme, e nu,
Em Roma é Catão ou Mário,
É Jesus sobre o Calvário,
É Garibaldi ou Kossuth.

A praça! A praça é do povo
Como o céu é do condor
É o antro onde a liberdade
Cria águias em seu calor.
Senhor!... pois quereis a praça?
Desgraçada a populaça
Só tem a rua de seu...
Ninguém vos rouba os castelos
Tendes palácios tão belos...
Deixai a terra ao Anteu.

Na tortura, na fogueira...
Nas tocas da inquisição
Chiava o ferro na carne
Porém gritava a aflição.
Pois bem... nest’hora poluta
Nós bebemos a cicuta
Sufocados no estertor;
Deíxai-nos soltar um grito
Que topando no infinito
Talvez desperte o Senhor.

A palavra! vós roubais-la
Aos lábios da multidão
Dizeis, senhores, à lava
Que não rompa do vulcão.
Mas quinfâmia! Ai, velha Roma,
Ai, cidade de Vendoma,
Ai, mundos de cem heróis,
Dizei, cidades de pedra,
Onde a liberdade medra
Do porvir aos arrebóis.

Dizei, quando a voz dos Gracos
Tapou a destra da lei?
Onde a toga tribunícia
Foi calcada aos pés do rei?
Fala, soberba Inglaterra,
Do sul ao teu pobre irmão;
Dos teus tribunos que é feito?
Tu guarda-os no largo peito
Não no lodo da prisão.

No entanto em sombras tremendas
Descansa extinta a nação
Fria e treda como o morto.
E vós, que sentis-lhe o pulso
Apenas tremer convulso
Nas extremas contorções...
Não deixais que o filho louco
Grite "oh! Mãe, descansa um pouco
Sobre os nossos corações".

Mas embalde... Que o direito
Não é pasto do punhal.
Nem a patas de cavalos
Se faz um crime legal...
Ah! não há muitos setembros
Da plebe doem os membros
No chicote do poder,
E o momento é malfadado
Quando o povo ensangüentado
Diz: já não posso sofrer.

Pois bem! Nós que caminhamos
Do futuro para a luz,
Nós que o Calvário escalamos
Levando nos ombros a cruz,
Que do presente no escuro
Só temos fé no futuro,
Como alvorada do bem,
Como Laocoonte esmagado
Morreremos coroado
Erguendo os olhos além.

Irmãos da terra da América,
Filhos do solo da cruz,
Erguei as frontes altivas,
Bebei torrentes de luz...
Ai! soberba populaça,
Rebentos da velha raça
Dos nossos velhos Catões,
Lançai um protesto, é povo,
Protesto que o mundo novo
Manda aos tronos e às nações.

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Castro Alves

Castro Alves

Ode ao Dous de Julho

(Recitada no Teatro de São Paulo)

Era no Dous de Julho. A pugna imensa
Travara-se nos cerros da Bahia...
O anjo da morte pálido cosia
Uma vasta mortalha em Pirajá.
"Neste lençol tão largo, tão extenso,
"Como um pedaço roto do infinito ...
O mundo perguntava erguendo um grito:
"Qual dos gigantes morto rolará?! ...

Debruçados do céu. . . a noite e os astros
Seguiam da peleja o incerto fado...
Era tocha — o fuzil avermelhado!
Era o Circo de Roma — o vasto chão!
Por palmas — o troar da artilharia!
Por feras — os canhões negros rugiam!
Por atletas — dous povos se batiam!
Enorme anfiteatro — era a amplidão!

Não! Não eram dous povos os que abalavam
Naquele instante o solo ensangüentado...
Era o porvir — em frente do passado,
A liberdade — em frente à escravidão.
Era a luta das águias — e do abutre,
A revolta do pulso — contra os ferros,
O pugilato da razão — com os erros,
O duelo da treva — e do clarão! ...

No entanto a luta recrescia indômita
As bandeiras - corno águias eriçadas —
"Se abismavam com as asas desdobradas
Na selva escura da fumaça atroz...
Tonto de espanto, cego de metralha
O arcanjo do triunfo vacilava...
E a glória desgrenhada acalentava
O cadáver sangrento dos heróis!

......................................................
......................................................

Mas quando a branca estrela matutina
Surgiu do espaço e as brisas forasteiras
No verde leque das gentis palmeiras
Foram cantar os hinos do arrebol,
Lá do campo deserto da batalha
Uma voz se elevou clara e divina.
Eras tu — liberdade peregrina!
Esposa do porvir — noiva do Sol!...

Eras tu que, com os dedos ensopados
No sangue dos avós mortos na guerra,
Livre sagravas a Colúmbia terra,
Sagravas livre a nova geração!
Tu que erguias, subida na pirâmide
Formada pelos mortos do Cabrito,
Um pedaço de gládio — no infinito...
Um trapo de bandeira — namplidão!. ..

(S. Paulo, junho de 1868)

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Castro Alves

Castro Alves

Pedro Ivo

Sonhava nesta geração bastarda
Glórias e liberdade!
....................................................
Era um leão sangrento, que rugia,
Da glória nos clarins se embriagava,
E vossa gente pálida recuava,
Quando ele aparecia.

ÁLVARES DE AZEVEDO

I

Rebramaram os ventos... Da negra tormenta
Nos montes de nuvens galopa o corcel...
Relincha — troveja... galgando no espaço
Mil raios desperta coas patas revel.

É noite de horrores... nas grunas celestes,
Nas naves etéreas o vento gemeu...
E os astros fugiram, qual bando de garças
Das águas revoltas do lago do céu.

E a terra é medonha... As árvores nuas
Espectros semelham fincados de pé,
Com os braços de múmias, que os ventos retorcem,
Tremendo a esse grito, que estranho lhes é.

Desperta o infinito... Coa boca entreaberta
Respira a borrasca do largo pulmão.
Ao longe o oceano sacode as espáduas
— Encélado novo calcado no chão.

É noite de horrores... Por ínvio caminho
Um vulto sombrio sozinho passou,
Coa noite no peito, coa noite no busto
Subiu pelo monte, — nas cimas parou.

Cabelos esparsos ao sopro dos ventos,
Olhar desvairado, sinistro, fatal,
Diríeis estátua roçando nas nuvens,
Pra qual a montanha se fez pedestal.

Rugia a procela — nem ele escutava!...
Mil raios choviam — nem ele os fitou!
Com a destra apontando bem longe a cidade,
Após largo tempo sombrio falou!...

..........................................................................

II

Dorme, cidade maldita,
Teu sono de escravidão!...
Dorme, vestal da pureza,
Sobre os coxins do Sultão!...
Dorme, filha da Geórgia,
Prostituta em negra órgia
Sê hoje Lucrécia Bórgia
Da desonra no balcão!...

Dormir?!... Não! Que a infame grita
Lá se alevanta fatal...
Corre o champagne e a desonra
Na orgia descomunal...
Na fronte já tens um laço...
Cadeias de ouro no braço,
De pérolas um baraço,
— Adornos da saturnal!

Louca!... Nem sabes que as luzes,
Que acendeu pra as saturnais,
São do enterro de seus brios
Tristes círios funerais...
Que o seu grito de alegria
É o estertor da agonia,
A que responde a ironia
Do riso de Satanás!...

Morreste... E ao teu saimento
Dobra a procela no céu.
E os astros — olhar dos mortos —
A mão da noite escondeu.
Vê!... Do raio mostra a lampa
Mão de espectro, que destampa
Com dedos de ossos a campa,
Onde a glória adormeceu.

E erguem-se as lápides frias,
Saltam bradando os heróis:
"Quem ousa da eternidade
Roubar-nos o sono a nós?"
Responde o espectro: "A desgraça!
Que a realeza, que passa,
Com o sangue de vossa raça,
Cospe lodo sobre vós!..."

Fugi, fantasmas augustos!
Caveiras que coram mais
Do que essas faces vermelhas
Dos infames pariás!...
Fugi do solo maldito...
Embuçai-vos no infinito!
E eu por detrás do granito
Dos montes ocidentais...

Eu também fujo... Eu fugindo!...
Mentira desses vilões!...
Não foge a nuvem trevosa
Quando em asas de tufões,
Sobe dos céus à esplanada,
Para tomar emprestada
De raios uma outra espada,
À luz das constelações!...

Como o tigre na caverna
Afia as garras no chão,
Como em Elba amola a espada
Nas pedras — Napoleão,
Tal eu — vaga encapelada,
Recuo de uma passada,
Pra levar de derribada
Rochedos, reis, multidões... !

III

"Pernambuco! Um dia eu vi-te
Dormido imenso ao luar,
Com os olhos quase cerrados,
Com os lábios — quase a falar
Do braço o clarim suspenso,
— O punho no sabre extenso
De pedra — recife imenso,
Que rasga o peito do mar...

E eu disse: Silêncio, ventos!
Cala a boca, furacão!
No sonho daquele sono
Perpassa a Revolução!
Este olhar que não se move
"Stá fito em — Oitenta e Nove —
Lê Homero — escuta Jove...
— Robespierre — Dantão.

Naquele crânio entra em ondas
O verbo de Mirabeau...
Pernambuco sonha a escada
Que também sonhou Jacó;
Cisma a República alçada,
E pega os copos da espada,
Enquanto em sualma brada:
"Somos irmãos, Vergniaud."

Então repeti ao povo:
— Desperta do sono teu!
Sansão — derroca as colunas!
Quebra os ferros — Prometeu!
Vesúvio curvo — não pares,
lgnea coma solta aos ares,
Em lavas inunda os mares,
Mergulha o gládio no céu.

República!... Vôo ousado
Do homem feito condor!
Raio de aurora inda oculta
Que beija a fronte ao Tabor!
Deus! Por quenquanto que o monte
Bebe a luz desse horizonte,
Deixas vagar tanta fronte,
No vale envolto em negror?!...

Inda me lembro... Era, há pouco,
A luta! Horror!... Confusão!...
A morte voa rugindo
Da garganta do canhão!...
O bravo a fileira cerra!...
Em sangue ensopa-se a terra!...
E o fumo — o corvo da guerra —
Com as asas cobre a amplidão...

Cheguei!... Como nuvens tontas,
Ao bater no monte — além,
Topam, rasgam-se, recuam...
Tais a meus pés vi também
Hostes mil na luta inglória...
...Da pirâmide da glória
São degraus... Marcha a vitória,
Porque este braço a sustém.

Foi uma luta de bravos,
Como a luta do jaguar,
De sangue enrubesce a terra,
— De fogo enrubesce o ar!...
... Oh!... mas quem faz que eu não vença?
— O acaso... — avalanche imensa,
Da mão do Eterno suspensa,
Que a idéia esmaga ao tombar!...

Não importa! A liberdade
É como a hidra, o Anteu.
Se no chão rola sem forças,
Mais forte do chão se ergueu...
São os seus ossos sangrentos
Gládios terríveis, sedentos...
E da cinza solta aos ventos
Mais um Graco apareceu!...

.....................................................

Dorme, cidade maldita!
Teu sono de escravidão!
Porém no vasto sacrário
Do templo do coração,
Ateia o lume das lampas,
Talvez que um dia dos pampas
Eu surgindo quebre as campas
Onde te colam no chão.

Adeus! Vou por ti maldito
Vagar nos ermos pauis.
Tu ficas morta, na sombra,
Sem vida, sem fé, sem luz!...
Mas quando o povo acordado
Te erguer do tredo valado,
Virá livre, grande, ousado,
De pranto banhar-me a cruz!... "

IV

Assim falara o vulto errante e negro,
Como a estátua sombria do revés,
Uiva o tufão nas dobras de seu manto,
Como um cão do senhor ulula aos pés...

Inda um momento esteve solitário
Da tempestade semelhante ao deus,
Trocando frases com os trovões no espaço
Raios com os astros nos sombrios céus...

Depois sumiu-se dentre as brumas densas
Da negra noite — de sualma irmã...
E longe... longe... no horizonte imenso
Ressonava a cidade cortesã!...

Vai!... Do sertão esperam-te as Termópilas
A liberdade ainda pulula ali...
Lá não vão vermes perseguir as águias,
Não vão escravos perseguir a ti!

Vai!... Que o teu manto de mil balas roto
É uma bandeira, que não tem rival.
— Desse suor é que Deus faz os astros...
Tens uma espada, que não foi punhal.

Vai, tu que vestes do bandido as roupas,
Mas não te cobres de uma vil libré
Se te re
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