Poemas neste tema
Raiva e Indignação
Carlos Drummond de Andrade
Escravo Em Papelópolis
Ó burocratas!
Que ódio vos tenho, e se fosse apenas ódio...
É ainda o sentimento
da vida que perdi sendo um dos vossos.
Que ódio vos tenho, e se fosse apenas ódio...
É ainda o sentimento
da vida que perdi sendo um dos vossos.
1 277
Carlos Drummond de Andrade
Campeonato de Pião
Bota parafuso no bico do pião.
Bota prego limado, bota tudo
pra rachar o pião competidor.
Roda, pião!
Racha, pião!
Se você não pode rachar este colégio,
nem o mundo nem a vida,
racha pelo menos o pião!
(Mas eu não sei, nunca aprendi
rachar pião. Imobilizo-me.)
Bota prego limado, bota tudo
pra rachar o pião competidor.
Roda, pião!
Racha, pião!
Se você não pode rachar este colégio,
nem o mundo nem a vida,
racha pelo menos o pião!
(Mas eu não sei, nunca aprendi
rachar pião. Imobilizo-me.)
1 247
António Ramos Rosa
A Face Ergueu-Se Contra a Face
A face ergueu-se contra a face
quase
a palavra
dos dentes
quase
a palavra
dos dentes
1 101
António Ramos Rosa
Primavera
Falo por palavras
duras rasas
Uma raiva tranquila
habita-me
O meu dia existe
neste punho de pedra
nesta serra verde
nesta casa fria
Uma folha canta
É um lábio livre
Uma folha olha
tranquilamente
Olho é bom olhar
ver o tronco
as ramagens finas
a boca que espera
no murmúrio das folhas
Estou só e o sol sobe
num céu que desconheço
duras rasas
Uma raiva tranquila
habita-me
O meu dia existe
neste punho de pedra
nesta serra verde
nesta casa fria
Uma folha canta
É um lábio livre
Uma folha olha
tranquilamente
Olho é bom olhar
ver o tronco
as ramagens finas
a boca que espera
no murmúrio das folhas
Estou só e o sol sobe
num céu que desconheço
1 037
António Ramos Rosa
Velocidade
a manhã a moeda crespa
o princípio duma torre o peito rude
um boi na estrada
os pés as mãos um tronco a ponte
o corpo a terra
a mulher atravessada a raiva
a parede a sombra o peito
o corpo
o princípio duma torre o peito rude
um boi na estrada
os pés as mãos um tronco a ponte
o corpo a terra
a mulher atravessada a raiva
a parede a sombra o peito
o corpo
1 193
António Ramos Rosa
Esta Luz Súbita
Esta luz súbita
que nasce das raízes
onde o implacável vive
Homens
tímidos passageiros
eu rangerei os dentes
até à violência extrema
em que a paz me aniquilará
que nasce das raízes
onde o implacável vive
Homens
tímidos passageiros
eu rangerei os dentes
até à violência extrema
em que a paz me aniquilará
660
Francisco Mallmann
III
não te esquece hora alguma
fernando que estamos
em terra invadida
pisas em ossos e sangue
de gente minha fernando
não te esquece hora
alguma que foram os
teus quem te trouxeram
aqui eu nada tenho a
ver com isso só estou
fernando pegando o
que é meu e o desejo
de te ver morto
fernando é só
o início de uma
nova ordem
da visão
fernando que estamos
em terra invadida
pisas em ossos e sangue
de gente minha fernando
não te esquece hora
alguma que foram os
teus quem te trouxeram
aqui eu nada tenho a
ver com isso só estou
fernando pegando o
que é meu e o desejo
de te ver morto
fernando é só
o início de uma
nova ordem
da visão
684
Edmir Domingues
Coroa dos sete pecados ou virtudes capitais
I - ORGULHO
Desse prazer que é apenas natureza
pode advir o orgulho da conquista.
Se orgulho é impulsão, essa imprevista
força que leva à frente. Que se preza
de ser o que constrói, deixada a reza
de lado, que apesar de ser benquista
por uns, é para outros a imprevista
petição recebida com frieza.
Quase sempre constrói um vago orgulho
que vem do fundo da alma, num marulho
de mar cansado, esfeito em verdes ondas.
Nascido, muita vez, de uma ansiedade,
(o novelo de antigas anacondas)
o orgulho de ser bom já é bondade.
II- INVEJA
O orgulho de ser bom já é bondade
que muita vez atrai despeito e inveja.
Mas inveja é virtude e há quem veja
que é impulso normal da humanidade.
Também constrói a inveja, desagrade
aos que só vêem pecado, os de alma aneja
que não possuam senso que preveja
que pode vir de ignota enfermidade.
Mas inveja até pode ser proveito
aquele a quem acaso endereçada
que sentiu que seu passo foi perfeito,
que a inveja que causou não foi nociva.
O invejoso invejou mas não foi nada.
Só é pecado a inveja corrosiva.
III - IRA
Só é pecado a inveja corrosiwa
que esta provoca a ira e o desconforto,
faz naufragar o barco já no porto,
faz nascer a vontade negativa.
No dia a dia deste mundo torto
onde vale talvez a tentativa
mais do que o resultado da saliva
das pregações, nos montes ou no horto,
não vale ver na ira o absoluto
mal, inda mesmo quando fere e assusta
no afã diário, o ritmo dissoluto.
Não é bom que esqueçamos a baraça
de Quem se viu tomado de ira justa
quando expulsou os vendilhões da Praça.
IV- PREGUIÇA
Quando expulsou os vendilhões da Praça
do Templo, Ele calmou-se, descansando,
pois fizera correr o triste bando
e a sua cupidez, sua desgraça.
Descansou, sem preguiça, se a arruaça
acabara, e era a paz. Novo comando
imperava. Mas se sentisse um brando
enfaro de preguiça, essa mordaça
interior, não seria nada estranho.
O “doce não fazer"pode ser justo
“ócio com dignidade”, justo ganho,
depois de afã contínuo, grande luta
em que se quis vencer a todo o custo,
preguiça na vitória após disputa.
V - AVAREZA
Preguiça na vitória após disputa
não é então pecado mas virtude.
A prodigalidade nunca ilude,
essa que é tão ruim quanto a cicuta.
Poupar é sempre bom, uma atitude
que o profeta do templo e o da gruta,
o primeiro aconselha, em resoluta
lição, e o outro exerce em mansuetude.
Quem trabalha, e o seu ganho muito custa
sabe emprestar valor a quanto ganha,
e o medo de perdê-lo sempre o assusta.
Se ao avaro uma perda mortifica
e ao pródigo o espalhar é sempre sanha,
o guardar ou gastar não significa.
VI - GULA
O guardar ou gastar não significa
nem a vida gulosa é condenada
sem um motivo forte. A terra arada
dá presentes ao homem, que o enrica.
As primícias da terra (a Terra amada,
um presente do Céu, que mortifica
o frugal que depende da botica
para ter a saúde desejada),
não podem ser pecado. O vinho doce
que nos desperta a fome dos sentidos
que o Criador nos deu, como se fosse
o seu sinal de amor à sua igreja
que ensina os apetites permitidos.
Amar não é luxúria, assim se veja.
VII - LUXÚRIA
Amar não é luxúria, assim se veja,
na grande intensidade que lhe marca
em toda a vida, até que venha a Barca
de Caronte, e nos leve, benfazeja.
Amar com força viva, na peleja
do edredom, do lençol que o duplo abarca,
é seguir todo o ensino do Nomarca
que mandou construir a sua igreja
e fazê-la crescer, multiplicá-la
a base de atrações e convivências
que podem ser um luxo, com certeza.
(Que não são acidentes mas essências
do natural preparo na ante-sala
desse prazer que é apenas natureza.
Desse prazer que é apenas natureza
pode advir o orgulho da conquista.
Se orgulho é impulsão, essa imprevista
força que leva à frente. Que se preza
de ser o que constrói, deixada a reza
de lado, que apesar de ser benquista
por uns, é para outros a imprevista
petição recebida com frieza.
Quase sempre constrói um vago orgulho
que vem do fundo da alma, num marulho
de mar cansado, esfeito em verdes ondas.
Nascido, muita vez, de uma ansiedade,
(o novelo de antigas anacondas)
o orgulho de ser bom já é bondade.
II- INVEJA
O orgulho de ser bom já é bondade
que muita vez atrai despeito e inveja.
Mas inveja é virtude e há quem veja
que é impulso normal da humanidade.
Também constrói a inveja, desagrade
aos que só vêem pecado, os de alma aneja
que não possuam senso que preveja
que pode vir de ignota enfermidade.
Mas inveja até pode ser proveito
aquele a quem acaso endereçada
que sentiu que seu passo foi perfeito,
que a inveja que causou não foi nociva.
O invejoso invejou mas não foi nada.
Só é pecado a inveja corrosiva.
III - IRA
Só é pecado a inveja corrosiwa
que esta provoca a ira e o desconforto,
faz naufragar o barco já no porto,
faz nascer a vontade negativa.
No dia a dia deste mundo torto
onde vale talvez a tentativa
mais do que o resultado da saliva
das pregações, nos montes ou no horto,
não vale ver na ira o absoluto
mal, inda mesmo quando fere e assusta
no afã diário, o ritmo dissoluto.
Não é bom que esqueçamos a baraça
de Quem se viu tomado de ira justa
quando expulsou os vendilhões da Praça.
IV- PREGUIÇA
Quando expulsou os vendilhões da Praça
do Templo, Ele calmou-se, descansando,
pois fizera correr o triste bando
e a sua cupidez, sua desgraça.
Descansou, sem preguiça, se a arruaça
acabara, e era a paz. Novo comando
imperava. Mas se sentisse um brando
enfaro de preguiça, essa mordaça
interior, não seria nada estranho.
O “doce não fazer"pode ser justo
“ócio com dignidade”, justo ganho,
depois de afã contínuo, grande luta
em que se quis vencer a todo o custo,
preguiça na vitória após disputa.
V - AVAREZA
Preguiça na vitória após disputa
não é então pecado mas virtude.
A prodigalidade nunca ilude,
essa que é tão ruim quanto a cicuta.
Poupar é sempre bom, uma atitude
que o profeta do templo e o da gruta,
o primeiro aconselha, em resoluta
lição, e o outro exerce em mansuetude.
Quem trabalha, e o seu ganho muito custa
sabe emprestar valor a quanto ganha,
e o medo de perdê-lo sempre o assusta.
Se ao avaro uma perda mortifica
e ao pródigo o espalhar é sempre sanha,
o guardar ou gastar não significa.
VI - GULA
O guardar ou gastar não significa
nem a vida gulosa é condenada
sem um motivo forte. A terra arada
dá presentes ao homem, que o enrica.
As primícias da terra (a Terra amada,
um presente do Céu, que mortifica
o frugal que depende da botica
para ter a saúde desejada),
não podem ser pecado. O vinho doce
que nos desperta a fome dos sentidos
que o Criador nos deu, como se fosse
o seu sinal de amor à sua igreja
que ensina os apetites permitidos.
Amar não é luxúria, assim se veja.
VII - LUXÚRIA
Amar não é luxúria, assim se veja,
na grande intensidade que lhe marca
em toda a vida, até que venha a Barca
de Caronte, e nos leve, benfazeja.
Amar com força viva, na peleja
do edredom, do lençol que o duplo abarca,
é seguir todo o ensino do Nomarca
que mandou construir a sua igreja
e fazê-la crescer, multiplicá-la
a base de atrações e convivências
que podem ser um luxo, com certeza.
(Que não são acidentes mas essências
do natural preparo na ante-sala
desse prazer que é apenas natureza.
653
Martha Medeiros
Sempre desprezei as coisas mornas
Sempre desprezei as coisas mornas, as coisas que não provocam ódio nem paixão, as coisas definidas como mais ou menos. Um filme mais ou menos, um livro mais ou menos. Tudo perda de tempo. Viver tem que ser perturbador, é preciso que nossos anjos e demônios sejam despertados, e com eles sua raiva, seu orgulho, seu acaso, sua adoração ou seu desprezo. O que não faz você mover um músculo, o que não faz você estremecer, suar, desatinar, não merece fazer parte da sua biografia.
1 650
Raquel Nobre Guerra
É evidente que nos mentem
É evidente que nos mentem quando põem por escrito
que é preciso imaginar Sísifo feliz. Como assim?
(Renunciar ao cigarro no peito inimigo
rebocar o morto para lhe lamber os pés?)
Que valha a pena andar aqui com o propósito
de ter ponta por se estar vivo ainda que falido.
Precisamos de Sísifo doente e formas febris
para encher o bucho filosófico a toque de punheta.
Uma vida sem relato para diminuir a expectativa.
Porque na verdade não há gerações intoleráveis
há momentos em que o homem se torna imóvel
e gerado para um só momento:
o de estar de tal forma comprometido com a sua época
que lhe resta apenas ser ridículo e mentir.
Que me desculpem senhores putas, não é fácil
dirigir esta merda sob o olhar do entendimento
num país onde o poeta nos leva o talho a casa
e se morre de fome num país cheio de poetas.
Dei por mim no «Resumo» da documenta
que quanto a mim, perde para os westerns.
Dei por mim sozinho na cena de porrada ao futuro
cabrões de vindouros se isto não é um grande filme.
E estava certo.
Dei por mim a propor duelos.
Café e pistolas para dois?
que é preciso imaginar Sísifo feliz. Como assim?
(Renunciar ao cigarro no peito inimigo
rebocar o morto para lhe lamber os pés?)
Que valha a pena andar aqui com o propósito
de ter ponta por se estar vivo ainda que falido.
Precisamos de Sísifo doente e formas febris
para encher o bucho filosófico a toque de punheta.
Uma vida sem relato para diminuir a expectativa.
Porque na verdade não há gerações intoleráveis
há momentos em que o homem se torna imóvel
e gerado para um só momento:
o de estar de tal forma comprometido com a sua época
que lhe resta apenas ser ridículo e mentir.
Que me desculpem senhores putas, não é fácil
dirigir esta merda sob o olhar do entendimento
num país onde o poeta nos leva o talho a casa
e se morre de fome num país cheio de poetas.
Dei por mim no «Resumo» da documenta
que quanto a mim, perde para os westerns.
Dei por mim sozinho na cena de porrada ao futuro
cabrões de vindouros se isto não é um grande filme.
E estava certo.
Dei por mim a propor duelos.
Café e pistolas para dois?
731
Susana Thénon
Aqui
Crava-te, desejo
em meu lado raivoso
e molha suas pupilas
por minha última morte.
Aqui o sangue,
aqui o beijo dissoluto,
aqui a torpe fúria de deus
florescendo em meus ossos.
em meu lado raivoso
e molha suas pupilas
por minha última morte.
Aqui o sangue,
aqui o beijo dissoluto,
aqui a torpe fúria de deus
florescendo em meus ossos.
979
José Miguel Silva
Via del Corno
O primeiro tema do sentimento cristão é a compaixão,
que podia ter fundado a equidade, se a Igreja
não tivesse para os homens um projecto faraónico
/semita de poder, humilhação e dependência.
Tinha tudo, a compaixão (essa réplica possível
ao desastre natural) para coser a lei de Zeus
Hospitaleiro à promissão comutadora da justiça,
traduzida na sensata isonomia mundial e
no empenho de aumentar a produção do tempo
livre (de maneira a que chegasse para todos).
Desterrada, todavia, para dentro, deformada
em caridade, sem efeitos no real que sobrelevem
o regalo duma lágrima local, a compaixão reduz-se
ao gosto complacente duma liberalidade baratucha
- toda feita de moções, duplicidades, emoções
e florações de lavadinha consciência. E, assim,
para que serve, que adianta a compaixão?
que podia ter fundado a equidade, se a Igreja
não tivesse para os homens um projecto faraónico
/semita de poder, humilhação e dependência.
Tinha tudo, a compaixão (essa réplica possível
ao desastre natural) para coser a lei de Zeus
Hospitaleiro à promissão comutadora da justiça,
traduzida na sensata isonomia mundial e
no empenho de aumentar a produção do tempo
livre (de maneira a que chegasse para todos).
Desterrada, todavia, para dentro, deformada
em caridade, sem efeitos no real que sobrelevem
o regalo duma lágrima local, a compaixão reduz-se
ao gosto complacente duma liberalidade baratucha
- toda feita de moções, duplicidades, emoções
e florações de lavadinha consciência. E, assim,
para que serve, que adianta a compaixão?
1 371
Fernando Pessoa
N'um mar de mijo havia um penico sem tampa
N'um mar de mijo havia um penico sem tampa
Mesmo tapado tinha o que contém: só trampa.
D'um malídoro vento ele boia ao sabor
Que em si tem incerteza;
Eis o símbolo (deixo o detalhe ao leitor)
Da monarquia portuguesa.
Mesmo tapado tinha o que contém: só trampa.
D'um malídoro vento ele boia ao sabor
Que em si tem incerteza;
Eis o símbolo (deixo o detalhe ao leitor)
Da monarquia portuguesa.
1 227
Fernando Pessoa
EPITÁFIO A JOÃO FRANCO
(...)na tua campa
O epitáfio solene que mereces
«Foi melhorando, desde a vida à morte.
Pois será pó, é podridão, foi trampa.[»]
O epitáfio solene que mereces
«Foi melhorando, desde a vida à morte.
Pois será pó, é podridão, foi trampa.[»]
1 487
Fernando Pessoa
Não a ti, mas aos teus, odeio, Cristo.
Não a ti, mas aos teus, odeio, Cristo.
Tu não és mais que um deus a mais no eterno
Pantéon que preside
À nossa vida incerta.
Nem maior nem menor que os novos deuses,
Tua sombria forma dolorida
Trouxe algo que faltava
Ao número dos divos.
Por isso reina a par de outros no Olimpo,
Ou pela triste terra se quiseres
Vai enxugar o pranto
Dos humanos que sofrem.
Não venham, porém, estultos teus cultores
Em teu nome vedar o eterno culto
Das presenças maiores
E parceiras da tua.
A esses, sim, do âmago eu odeio
Do crente peito, e a esses eu não sigo,
Supersticiosos leigos
Na ciência dos deuses.
Ah, aumentai, não combatendo nunca.
Enriquecei o Olimpo, aos deuses dando
Cada vez maior força
Plo número maior.
Basta os males que o Fado as Parcas fez
Por seu intuito natural fazerem.
Nós homens nos façamos
Unidos pelos deuses.
Tu não és mais que um deus a mais no eterno
Pantéon que preside
À nossa vida incerta.
Nem maior nem menor que os novos deuses,
Tua sombria forma dolorida
Trouxe algo que faltava
Ao número dos divos.
Por isso reina a par de outros no Olimpo,
Ou pela triste terra se quiseres
Vai enxugar o pranto
Dos humanos que sofrem.
Não venham, porém, estultos teus cultores
Em teu nome vedar o eterno culto
Das presenças maiores
E parceiras da tua.
A esses, sim, do âmago eu odeio
Do crente peito, e a esses eu não sigo,
Supersticiosos leigos
Na ciência dos deuses.
Ah, aumentai, não combatendo nunca.
Enriquecei o Olimpo, aos deuses dando
Cada vez maior força
Plo número maior.
Basta os males que o Fado as Parcas fez
Por seu intuito natural fazerem.
Nós homens nos façamos
Unidos pelos deuses.
1 255
Fernando Pessoa
E eu que estou bêbado de toda a injustiça do mundo...
E eu que estou bêbado de toda a injustiça do mundo...
— O dilúvio de Deus e o bebé loirinho boiando morto à tona de água,
Eu, em cujo coração a angústia dos outros é raiva,
E a vasta humilhação de existir um amor taciturno —
Eu, o lírico que faz frases porque não pode fazer sorte,
Eu, o fantasma do meu desejo redentor, névoa fria —
Eu não sei se devo fazer poemas, escrever palavras, porque a alma —
A alma inúmera dos outros sofre sempre fora de mim.
Meus versos são a minha impotência.
O que não consigo, escrevo-o;
E os ritmos diversos que faço aliviam a minha cobardia.
A costureira estúpida violada por sedução,
O marçano rato preso sempre pelo rabo,
O comerciante próspero escravo da sua prosperidade
— Não distingo, não louvo, não (...) —
São todos bichos humanos, estupidamente sofrentes.
Ao sentir isto tudo, ao pensar isto tudo, ao raivar isto tudo,
Quebro o meu coração fatidicamente como um espelho,
E toda a injustiça do mundo é um mundo dentro de mim.
Meu coração esquife, meu coração (...), meu coração cadafalso —
Todos os crimes se deram e se pagaram dentro de mim.
Lacrimejância inútil, pieguice humana dos nervos,
Bebedeira da servilidade altruísta,
Voz com papelotes chorando no deserto de um quarto andar esquerdo...
— O dilúvio de Deus e o bebé loirinho boiando morto à tona de água,
Eu, em cujo coração a angústia dos outros é raiva,
E a vasta humilhação de existir um amor taciturno —
Eu, o lírico que faz frases porque não pode fazer sorte,
Eu, o fantasma do meu desejo redentor, névoa fria —
Eu não sei se devo fazer poemas, escrever palavras, porque a alma —
A alma inúmera dos outros sofre sempre fora de mim.
Meus versos são a minha impotência.
O que não consigo, escrevo-o;
E os ritmos diversos que faço aliviam a minha cobardia.
A costureira estúpida violada por sedução,
O marçano rato preso sempre pelo rabo,
O comerciante próspero escravo da sua prosperidade
— Não distingo, não louvo, não (...) —
São todos bichos humanos, estupidamente sofrentes.
Ao sentir isto tudo, ao pensar isto tudo, ao raivar isto tudo,
Quebro o meu coração fatidicamente como um espelho,
E toda a injustiça do mundo é um mundo dentro de mim.
Meu coração esquife, meu coração (...), meu coração cadafalso —
Todos os crimes se deram e se pagaram dentro de mim.
Lacrimejância inútil, pieguice humana dos nervos,
Bebedeira da servilidade altruísta,
Voz com papelotes chorando no deserto de um quarto andar esquerdo...
1 589
Fernando Pessoa
Bem sei que tudo é natural
Bem sei que tudo é natural
Mas ainda tenho coração...
Boa noite e merda!...
(Estala, meu coração!)
(Merda para a humanidade inteira!)
Na casa da mãe do filho que foi atropelado,
Tudo ri, tudo brinca.
E há um grande ruído de buzinas sem conta a lembrar
Receberam a compensação:
Bebé igual a X,
Gozam o X neste momento,
Comem e bebem o bebé morto,
Bravo! São gente!
Bravo! São a humanidade!
Bravo: são todos os pais e todas as mães
Que têm filhos atropeláveis!
Como tudo esquece quando há dinheiro.
Bebé igual a X.
Com isso se forrou a papel uma casa.
Com isso se pagou a última prestação da mobília.
Coitadito do Bebé.
Mas, se não tivesse sido morto por atropelamento, que seria das contas?
Sim, era amado.
Sim, era querido
Mas morreu.
Paciência, morreu!
Que pena, morreu!
Mas deixou o com que pagar contas
E isso é qualquer coisa.
(É claro que foi uma desgraça)
Mas agora pagam-se as contas.
(É claro que aquele pobre corpinho
Ficou triturado)
Mas agora, ao menos, não se deve na mercearia.
(É pena sim, mas há sempre um alívio.)
O bebé morreu, mas o que existe são dez contos.
Isso, dez contos.
Pode fazer-se muito (pobre bebé) com dez contos.
Pagar muitas dívidas (bebezinho querido)
Com dez contos.
Pôr muita coisa em ordem
(Lindo bebé que morreste) com dez contos.
Bem se sabe é triste
(Dez contos)
Uma criancinha nossa atropelada
(Dez contos)
Mas a visão da casa remodelada
(Dez contos)
De um lar reconstituído
(Dez contos)
Faz esquecer muitas coisas (como o choramos!)
Dez contos!
Parece que foi por Deus que os recebeu
(Esses dez contos).
Pobre bebé trucidado!
Dez contos.
Mas ainda tenho coração...
Boa noite e merda!...
(Estala, meu coração!)
(Merda para a humanidade inteira!)
Na casa da mãe do filho que foi atropelado,
Tudo ri, tudo brinca.
E há um grande ruído de buzinas sem conta a lembrar
Receberam a compensação:
Bebé igual a X,
Gozam o X neste momento,
Comem e bebem o bebé morto,
Bravo! São gente!
Bravo! São a humanidade!
Bravo: são todos os pais e todas as mães
Que têm filhos atropeláveis!
Como tudo esquece quando há dinheiro.
Bebé igual a X.
Com isso se forrou a papel uma casa.
Com isso se pagou a última prestação da mobília.
Coitadito do Bebé.
Mas, se não tivesse sido morto por atropelamento, que seria das contas?
Sim, era amado.
Sim, era querido
Mas morreu.
Paciência, morreu!
Que pena, morreu!
Mas deixou o com que pagar contas
E isso é qualquer coisa.
(É claro que foi uma desgraça)
Mas agora pagam-se as contas.
(É claro que aquele pobre corpinho
Ficou triturado)
Mas agora, ao menos, não se deve na mercearia.
(É pena sim, mas há sempre um alívio.)
O bebé morreu, mas o que existe são dez contos.
Isso, dez contos.
Pode fazer-se muito (pobre bebé) com dez contos.
Pagar muitas dívidas (bebezinho querido)
Com dez contos.
Pôr muita coisa em ordem
(Lindo bebé que morreste) com dez contos.
Bem se sabe é triste
(Dez contos)
Uma criancinha nossa atropelada
(Dez contos)
Mas a visão da casa remodelada
(Dez contos)
De um lar reconstituído
(Dez contos)
Faz esquecer muitas coisas (como o choramos!)
Dez contos!
Parece que foi por Deus que os recebeu
(Esses dez contos).
Pobre bebé trucidado!
Dez contos.
1 421
Fernando Pessoa
EPIGRAMS- VI
Pius, of pious anger full,
In's bull makes priests and men of bias
Spy us. Although Pius is pious,
His bull (if that's a bull) 's a bull.
In's bull makes priests and men of bias
Spy us. Although Pius is pious,
His bull (if that's a bull) 's a bull.
1 227
Fernando Pessoa
Puseste a chaleira ao lume
Puseste a chaleira ao lume
Com um jeito de desdém.
Suma-te o diabo que sume
Primeiro quem te quer bem!
Com um jeito de desdém.
Suma-te o diabo que sume
Primeiro quem te quer bem!
1 417
Fernando Pessoa
Nas minhas veias, por onde corre, numa lava de asco,
Nas minhas veias, por onde corre, numa lava de asco
A fúria do horror da vida!
A fúria do horror da vida!
1 517
Fernando Pessoa
MARCHA FÚNEBRE
Com lixo, dinheiro dos outros, e sangue inocente,
Cercada por assassinos, traidores, ladrões (a salvo)
No seu caixão francês, liberalissimamente,
Em carro puxado por uma burra (a do estado) seu alvo,
(…)
Passa para além do mundo, em uma visão desconforme,
A República Democrática Portuguesa.
O Lenine de capote e lenço,
Afonso anti-Henriques Costa.
Mas o Diabo espantou-se: aqui entram bandidos
Até certo ponto e dentro de certo limite.
Assassinos, sim, mas com uma certa inteligência.
Ladrões, sim, mas capazes de uma certa bondade.
Agora vocês não trazem quem tivesse tido a decência
De ao menos ter uma vez dito a razão ou verdade.
Cercada por assassinos, traidores, ladrões (a salvo)
No seu caixão francês, liberalissimamente,
Em carro puxado por uma burra (a do estado) seu alvo,
(…)
Passa para além do mundo, em uma visão desconforme,
A República Democrática Portuguesa.
O Lenine de capote e lenço,
Afonso anti-Henriques Costa.
Mas o Diabo espantou-se: aqui entram bandidos
Até certo ponto e dentro de certo limite.
Assassinos, sim, mas com uma certa inteligência.
Ladrões, sim, mas capazes de uma certa bondade.
Agora vocês não trazem quem tivesse tido a decência
De ao menos ter uma vez dito a razão ou verdade.
1 768
Fernando Pessoa
No conflito escuro e besta
No conflito escuro e besta
Entre a luz e o lojame
Que ao menos luz se derrame
Sobre a verdade, que é esta:
Como é uso dos lojistas
Aumentar aos cem por cento,
Protestam contra um aumento
Que é reles às suas vistas.
E gritam que é enxovalho
Que os grandes, quando ladrões,
Nem guardem as tradições
Dos gatunos de retalho.
Lojistas, que vos ocorra
Roubar duzentos por cento!
E acaba logo o argumento
Entre a Máfia e a Camorra...
Entre a luz e o lojame
Que ao menos luz se derrame
Sobre a verdade, que é esta:
Como é uso dos lojistas
Aumentar aos cem por cento,
Protestam contra um aumento
Que é reles às suas vistas.
E gritam que é enxovalho
Que os grandes, quando ladrões,
Nem guardem as tradições
Dos gatunos de retalho.
Lojistas, que vos ocorra
Roubar duzentos por cento!
E acaba logo o argumento
Entre a Máfia e a Camorra...
963
Fernando Pessoa
Ao ouvi-los rir
Ao ouvi-los rir
Parece-me ouvir chasquear de mim
Um demónio horroroso e transcendente,
E simbólico de algo do mistério
Ou do universo. E vendo-os todos como
Que intérpretes inconscientes desse
Torturador obscuro, tomo ódio
A esta ridente humanidade toda,
Folgo de lhes pensar torturas n'alma,
Com que perdessem esse riso e até
As lágrimas na dor e no pavor.
Acordo ao conceber quanto eu odeio
Mais do que isto, mais que a humanidade,
Mas o universo todo, o transcendente
Conteúdo horrendo do meu pensamento,
Com um ódio adaptado a essa grandeza,
E uma impotência de mostrar esse ódio
Que essa grandeza, aumentando-o, tolhe.
Parece-me ouvir chasquear de mim
Um demónio horroroso e transcendente,
E simbólico de algo do mistério
Ou do universo. E vendo-os todos como
Que intérpretes inconscientes desse
Torturador obscuro, tomo ódio
A esta ridente humanidade toda,
Folgo de lhes pensar torturas n'alma,
Com que perdessem esse riso e até
As lágrimas na dor e no pavor.
Acordo ao conceber quanto eu odeio
Mais do que isto, mais que a humanidade,
Mas o universo todo, o transcendente
Conteúdo horrendo do meu pensamento,
Com um ódio adaptado a essa grandeza,
E uma impotência de mostrar esse ódio
Que essa grandeza, aumentando-o, tolhe.
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Fernando Pessoa
Quando se amam, vívidos,
Quando se amam, vívidos,
Dois seres juvenis e naturais,
Parece que harmonias se derramam
Como perfumes pela terra em flor.
Mas eu, ao conceber-me amando, sinto
Como que um gargalhar hórrido e fundo
Da existência em mim, como ridículo
E desusado no que é natural.
Nunca, senão pensando no amor,
Me sinto tão longínquo e deslocado,
Tão cheio de ódios contra o meu destino
De raivas contra a essência do viver.
E nasce então em mim de tal sentir,
Um negrume de tédio e ódio imenso
Que torna os grandes crimes e os mais torpes
Inadequadas cousas ao que sinto
Em sua humilde e popular vileza.
Dois seres juvenis e naturais,
Parece que harmonias se derramam
Como perfumes pela terra em flor.
Mas eu, ao conceber-me amando, sinto
Como que um gargalhar hórrido e fundo
Da existência em mim, como ridículo
E desusado no que é natural.
Nunca, senão pensando no amor,
Me sinto tão longínquo e deslocado,
Tão cheio de ódios contra o meu destino
De raivas contra a essência do viver.
E nasce então em mim de tal sentir,
Um negrume de tédio e ódio imenso
Que torna os grandes crimes e os mais torpes
Inadequadas cousas ao que sinto
Em sua humilde e popular vileza.
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