Poemas neste tema
Separação e fim de relação
Fernando Pessoa
Quando ela pôs o chapéu
Quando ela pôs o chapéu
Como se tudo acabasse,
Sofri de não haver véu
Que inda um pouco a demorasse.
Como se tudo acabasse,
Sofri de não haver véu
Que inda um pouco a demorasse.
2 753
Fernando Pessoa
Esse frio cumprimento
Esse frio cumprimento
Tem ironia p’ra mim.
Porque é o mesmo movimento
Com que a gente diz que sim...
Tem ironia p’ra mim.
Porque é o mesmo movimento
Com que a gente diz que sim...
1 302
Fernando Pessoa
Entreguei-te o coração,
Entreguei-te o coração,
E que tratos tu lhe deste!
É talvez por estar estragado
Que ainda não mo devolveste...
E que tratos tu lhe deste!
É talvez por estar estragado
Que ainda não mo devolveste...
1 643
Fernando Pessoa
O malmequer que arrancaste
O malmequer que arrancaste
Deu-te nada no seu fim,
Mas o amor que me arrancaste,
Se deu nada, foi a mim.
Deu-te nada no seu fim,
Mas o amor que me arrancaste,
Se deu nada, foi a mim.
1 460
Fernando Pessoa
Teus olhos querem dizer
Teus olhos querem dizer
Aquilo que se não diz...
Tenho muito que fazer...
Que sejas muito feliz!
Aquilo que se não diz...
Tenho muito que fazer...
Que sejas muito feliz!
859
Fernando Pessoa
Deste-me um adeus antigo
Deste-me um adeus antigo
À maneira de eu não ser
Mais que o amigo do amigo
Que havias de poder ter.
À maneira de eu não ser
Mais que o amigo do amigo
Que havias de poder ter.
906
Fernando Pessoa
Se te queres despedir
Se te queres despedir
Não te despidas de mim,
Que eu não posso consentir
Que tu me trates assim.
Não te despidas de mim,
Que eu não posso consentir
Que tu me trates assim.
1 165
Fernando Pessoa
O canário já não canta.
O canário já não canta.
Não canta o canário já.
Aquilo que em ti me encanta
Talvez não me encantará.
Não canta o canário já.
Aquilo que em ti me encanta
Talvez não me encantará.
1 694
Fernando Pessoa
O guardanapo dobrado
O guardanapo dobrado
Quer dizer que se não volta.
Tenho o coração atado:
Vê se a tua mão mo solta.
Quer dizer que se não volta.
Tenho o coração atado:
Vê se a tua mão mo solta.
1 470
Fernando Pessoa
FAREWELL
Farewell, farewell for ever,
I cannot more remain;
Far wider things our hearts do sever
Than continent or main -
Pride and distaste and inaptness
To feel each other's joy, distress.
Farewell, farewell for ever;
Be it not said by thee
My heart was weaker, thy heart braver
In mutual misery
But parted were we, be it said,
As are the living from the dead.
Farewell, farewell for ever,
Since love left not behind
Nor even friendship nor endeavour
Nor sorrow mad or kind.
'Tis fit indeed those souls be parted
That cannot e'er be broken-hearted.
Farewell, farewell for ever;
'Tis time this thing were done,
When love is cold which was a fever
And vulgar as a stone,
When life from woe to woe doth flee
And change itself is misery.
I cannot more remain;
Far wider things our hearts do sever
Than continent or main -
Pride and distaste and inaptness
To feel each other's joy, distress.
Farewell, farewell for ever;
Be it not said by thee
My heart was weaker, thy heart braver
In mutual misery
But parted were we, be it said,
As are the living from the dead.
Farewell, farewell for ever,
Since love left not behind
Nor even friendship nor endeavour
Nor sorrow mad or kind.
'Tis fit indeed those souls be parted
That cannot e'er be broken-hearted.
Farewell, farewell for ever;
'Tis time this thing were done,
When love is cold which was a fever
And vulgar as a stone,
When life from woe to woe doth flee
And change itself is misery.
1 661
Fernando Pessoa
ENDINGS
Farewells, departures, goings - these are most sad:
They are endings, dissolutions; they drive sentiment mad.
Even the fall of priests, of tyrants, of slaves and of kings
Has the bitterness and the sadness of the finishing of things.
They are endings, dissolutions; they drive sentiment mad.
Even the fall of priests, of tyrants, of slaves and of kings
Has the bitterness and the sadness of the finishing of things.
1 584
Ibn Ammar
Do amor
olhai quão grande é o amor apaixonado
que é vício e delícia e fogo ardente.
não busqueis pelo amor um dominado
sede antes escravos pela sua lei
e assim sereis livres finalmente.
disseram: «fez-te o amor sofrer intensamente!»
«me agradam suas penas!» foi o que afirmei.
o coração quis doença p"rò corpo nos vestir
a liberdade da escolha eu lhe outorguei.
censurais-me de emagrecido andar.
mas a excelência d"adaga, a que se resume
senão à finura do seu gume?
troçastes por a amada me deixar
mas a noite derradeira de cada lunação
rouba dos olhares a face do crescente.
pensastes que a brisa da consolação,
como um sono profundo, está presente?
secou-se o amor com o fogo do amor
com ela ficará meu pranto defensor.
como o meu coração se lacerava
quando se inclinava graciosa
e a redenção das madeixas despontava!
a quem foi dado contemplar seu véu
escondendo uma manhã tão luminosa
que abraçava um nocturno céu?
dona da alma do jardim, é terno ramo,
coração de zimbro, corça que eu amo*
o brilho do seu rosto amarfanhava
a própria lua em todo o seu esplendor
e o grasnar dos gansos em redor
era o ornamento que a cercava.
da noite da união nasce o dia enfim
e o odor da volúpia vem a mim.
minhas lágrimas caíram copiosas
sobre o belo jardim daquela face
assim humedecendo suas rosas
até que o destino o desenlace
me fez beber da taça da separação
e me tornei ébrio desde então
que é vício e delícia e fogo ardente.
não busqueis pelo amor um dominado
sede antes escravos pela sua lei
e assim sereis livres finalmente.
disseram: «fez-te o amor sofrer intensamente!»
«me agradam suas penas!» foi o que afirmei.
o coração quis doença p"rò corpo nos vestir
a liberdade da escolha eu lhe outorguei.
censurais-me de emagrecido andar.
mas a excelência d"adaga, a que se resume
senão à finura do seu gume?
troçastes por a amada me deixar
mas a noite derradeira de cada lunação
rouba dos olhares a face do crescente.
pensastes que a brisa da consolação,
como um sono profundo, está presente?
secou-se o amor com o fogo do amor
com ela ficará meu pranto defensor.
como o meu coração se lacerava
quando se inclinava graciosa
e a redenção das madeixas despontava!
a quem foi dado contemplar seu véu
escondendo uma manhã tão luminosa
que abraçava um nocturno céu?
dona da alma do jardim, é terno ramo,
coração de zimbro, corça que eu amo*
o brilho do seu rosto amarfanhava
a própria lua em todo o seu esplendor
e o grasnar dos gansos em redor
era o ornamento que a cercava.
da noite da união nasce o dia enfim
e o odor da volúpia vem a mim.
minhas lágrimas caíram copiosas
sobre o belo jardim daquela face
assim humedecendo suas rosas
até que o destino o desenlace
me fez beber da taça da separação
e me tornei ébrio desde então
1 280
Thomas Brasch
Canção
Chuva e nuvens ontem
Ninguém que permaneça
Eu não sou contra
Canto e bebo cerveja
Chora hoje e canta
Árvores cobrem a lua
Onde ninguém mais janta
Eu sempre acabo na rua
Folhas amanhã e trovões
Você terá me deixado
Eu louvarei os troncos
Das árvores a seu lado
(tradução de Ricardo Domeneck)
Ninguém que permaneça
Eu não sou contra
Canto e bebo cerveja
Chora hoje e canta
Árvores cobrem a lua
Onde ninguém mais janta
Eu sempre acabo na rua
Folhas amanhã e trovões
Você terá me deixado
Eu louvarei os troncos
Das árvores a seu lado
(tradução de Ricardo Domeneck)
1 160
Hilda Machado
Miscasting
"So you think salvation lies in pretending?"
Paul Bowles
estou entregando o cargo
onde é que assino
retorno outros pertences
um pavilhão em ruínas
o glorioso crepúsculo na praia
e a personagem de mulher
mais Julieta que Justine
adeus ardor
adeus afrontas
estou entregando o cargo
onde é que assino
há 77 dias deixei na portaria
o remo de cativo nas galés de Argélia
uma garrafa de vodka vazia
cinco meses de luxúria
despido o luto
na esquina
um ovo
feliz ano novo
bem vindo outro
como é que abre esse champanhe
como se ri
mas o cavaleiro de espadas voltou a galope
armou a sua armadilha
cisco no olho da caolha
a sua vitória de Pirro
cidades fortificadas
mil torres
escaladas por memórias inimigas
eu, a amada
eu, a sábia
eu, a traída
agora finalmente estou renunciando ao pacto
rasgo o contrato
devolvo a fita
me vendeu gato por lebre
paródia por filme francês
a atriz coadjuvante é uma canastra
a cena da queda é o mesmo castelo de cartas
o herói chega dizendo ter perdido a chave
a barba de mais de três dias
vim devolver o homem
assino onde
o peito desse cavaleiro não é de aço
sua armadura é um galão de tinta inútil
similar paraguaio
fraco abusado
soufflé falhado e palavra fútil
seu peito de cavalheiro
é porta sem campainha
telefone que não responde
só tropeça em velhos recados
positivo
câmbio
não adianta insistir
onde não há ninguém em casa
os joelhos ainda esfolados
lambendo os dedos
procuro por compressas frias
oh céu brilhante do exílio
que terra
que tribo
produziu o teatrinho Troll colado à minha boca
onde é que fica essa tomada
onde desliga
Paul Bowles
estou entregando o cargo
onde é que assino
retorno outros pertences
um pavilhão em ruínas
o glorioso crepúsculo na praia
e a personagem de mulher
mais Julieta que Justine
adeus ardor
adeus afrontas
estou entregando o cargo
onde é que assino
há 77 dias deixei na portaria
o remo de cativo nas galés de Argélia
uma garrafa de vodka vazia
cinco meses de luxúria
despido o luto
na esquina
um ovo
feliz ano novo
bem vindo outro
como é que abre esse champanhe
como se ri
mas o cavaleiro de espadas voltou a galope
armou a sua armadilha
cisco no olho da caolha
a sua vitória de Pirro
cidades fortificadas
mil torres
escaladas por memórias inimigas
eu, a amada
eu, a sábia
eu, a traída
agora finalmente estou renunciando ao pacto
rasgo o contrato
devolvo a fita
me vendeu gato por lebre
paródia por filme francês
a atriz coadjuvante é uma canastra
a cena da queda é o mesmo castelo de cartas
o herói chega dizendo ter perdido a chave
a barba de mais de três dias
vim devolver o homem
assino onde
o peito desse cavaleiro não é de aço
sua armadura é um galão de tinta inútil
similar paraguaio
fraco abusado
soufflé falhado e palavra fútil
seu peito de cavalheiro
é porta sem campainha
telefone que não responde
só tropeça em velhos recados
positivo
câmbio
não adianta insistir
onde não há ninguém em casa
os joelhos ainda esfolados
lambendo os dedos
procuro por compressas frias
oh céu brilhante do exílio
que terra
que tribo
produziu o teatrinho Troll colado à minha boca
onde é que fica essa tomada
onde desliga
2 145
Leonardo Martinelli
Retrato Cubista (para cdcl)
Não há remédio
para cólicas e abismos
afetivos:
você ali sentindo as
dores dentro e
o amor através -
além das
expectativas
mofadas ao
sol, eternas
cativas dos
malefícios fiscais
sem retorno -
do sorriso
infantil às margens
da Lagoa
após uma palavra
afiada
da última vez etc. -
então
o telefone
público
explode em cacos
oito meses
de idas sem volta -
esperas
tão banais
quanto um arco
e flecha
de brinquedo
um beijo sem retorno
ou dez mil pixels
de Picasso
(não esqueceremos
nada disso
querida,
e no entanto queremos
dormir em paz.)
para cólicas e abismos
afetivos:
você ali sentindo as
dores dentro e
o amor através -
além das
expectativas
mofadas ao
sol, eternas
cativas dos
malefícios fiscais
sem retorno -
do sorriso
infantil às margens
da Lagoa
após uma palavra
afiada
da última vez etc. -
então
o telefone
público
explode em cacos
oito meses
de idas sem volta -
esperas
tão banais
quanto um arco
e flecha
de brinquedo
um beijo sem retorno
ou dez mil pixels
de Picasso
(não esqueceremos
nada disso
querida,
e no entanto queremos
dormir em paz.)
623
Ibn Zaidûn
Me censurais que ele me substitua
Me censurais que ele me substitua
nos afetos daquela a quem amo;
mas não há nisso desonra alguma:
ela era um manjar delicioso
e sua melhor parte a mim coube,
o resto deixei para este rato.
(Ibn Zaidún - ao saber que a princessa Wallâda tinha um novo amante. Versão livre de Ricardo Domeneck a partir de uma tradução castelhana de Manuel Francisco Reina, Antología de la poesía andalusí).
687
Nizâr Qabbânî
Depois de Roma ter ardido
Depois de Roma ter ardido
e de tu teres ardido com ela
não esperes de mim
que te escreva um poema para te chorar
eu não estou acostumado
a chorar pássaros mortos
(tradução de André Simões)
532
Isabel Câmara
Fim (13° volume)
Você me falou
que me mandasse porta afora
Eu vou
Vou com força total
esta porta não é metal
é o nosso mental
transparente
correndo da corrente
que pega gente exigente.
Vou enxugando a alma.
na palma que segura
a espada.
Vou pedindo calma.
que me mandasse porta afora
Eu vou
Vou com força total
esta porta não é metal
é o nosso mental
transparente
correndo da corrente
que pega gente exigente.
Vou enxugando a alma.
na palma que segura
a espada.
Vou pedindo calma.
809
Bella Akhmadúlina
Separação
Hoje nos separamos para sempre
e isso faz o mundo transformar-se.
Tudo nele anuncia a traição:
os rios vão se afastando das margens,
as nuvens vão se afastando do céu,
a mão direita olha para a esquerda
e arrogante diz: “Vou embora, adeus!”
Abril não mais prepara o mês de maio,
mês de maio que nunca mais verás,
e as flores se desfolham, feitas pó.
É a derrota do azul para o amarelo!
Já as últimas flores se esturricam,
comprimento e largura não há mais,
o branco, em estertor, já agoniza,
deixando um arco-íris de orfãzinhas.
A natureza afoga em sua tristeza,
a maré baixa sobe pela margem,
calam-se os sons e isso porque nós,
você e eu, pra sempre nos deixamos.
/// tradução de Lauro Machado Coelho, incluída no volume Poesia Soviética (São Paulo: Algol Editora, 2007).
.
.
.
989
Noémia de Sousa
Grão d'areia
Um só ínfimo grão d'areia
nunca imaginei
pesar tanto.
--------------
eu depondo
no clássico ritual
sobre o nosso adeus
constrangidos torrões
a mancheias.
nunca imaginei
pesar tanto.
--------------
eu depondo
no clássico ritual
sobre o nosso adeus
constrangidos torrões
a mancheias.
3 069
Jaime Gil de Biedma
Valsa do Aniversário
Não há nada tão doce como um quarto
para dois, quando já não nos queremos demasiado,
nos arredores da cidade, num hotel calmo,
e casais duvidosos e uma criança com gânglios,
se não é esta leve sensação
de irrealidade. Algo como o estio
em casa de meus pais, há algum tempo,
como viagens nocturnas de comboio. Chamo-te
para dizer que não te digo nada
que já não saibas, ou talvez
para beijar-te vagamente
mesmo nos lábios.
Saíste da varanda.
O quarto escureceu
enquanto nos olhamos, contrafeitos
por não sentirmos o peso de três anos.
Tudo é igual, parece
que não foi ontem. E este sabor nostálgico,
que os silêncios nos põem na boca,
possivelmente leva-nos ao equívoco
de nossos sentimentos. Mas não
sem alguma reserva, pois sob isto
algo mais forte vence e é (para dizê-lo
talvez de um modo menos impreciso)
difícil recordar que nos queremos,
se não for com certa imprecisão, e o sábado,
que é hoje, fica tão próximo
de ontem ao fim do dia e de depois
de amanhã
pela manhã...
(de Companheiros de Viagem)
887
Luiza Neto Jorge
Difícil Poema de Amor
Separo-me de ti nos solstícios de verão, diante da mesa do juiz supremo
dos amantes. Para que os juízes me possam julgar, conhecerão primeiro o
amor desonesto infinito feito de marés ambulantes de espinhos nas pálpebras
onde as ruas são os pontos únicos do furor erótico e onde todos os pontos
únicos do amor são ruas estreitíssimas velocíssimas
que se percorrem como um fio de prumo sem oscilação.
Ontem antes de ontem antes de amanhã antes de hoje antes deste
número-tempo deste número-espaço uma boca feita de lábios alheios beijou.
Precipício aberto: ele nada revela que tu já não saibas.
Porque este contágio de precipícios foste tu que mo comunicaste
maléfico como um pássaro sem bico.
Num silêncio breve vestiu-se a cidade. Muito bom-dia querido
moribundo. Sozinho declaraste a terceira grande paz mundial quando abrindo
os olhos me deste de comer cronometricamente às mil e tantas horas da
manhã de hoje.
Deito-me cedo contigo o meu sono é leve para a liberdade acordas-
-me só de pensares nela. As casas e os bichos apoiam-se em ti. Não fujas não
te mexas: vou fixar-te para sempre nessa posição.
Que há? Abrem-se fendas no ar que respiro vejo-lhe o fundo. Tens os
olhos vasados. Qual de nós os dois "quero-Te" gritou?
Bebe-me espaçadamente encostada aos muros. Se és poeta que fazes tu?
Comes crianças jogas ases sentado és uma estátua de pé a cauda de um cometa.
Mães entretanto vão parindo. Os filhos morrerão ainda? Entregas-te a
cálculos. Amas-me demais.
Confesso: não sei se sou amada por ti.
Virás
quando houver uma fala indestrutível devolvida à boca dos mais vivos. Então
virás
vivo também. Sempre esperei ver-te ressuscitado. Desiludiste-me.
E iremos com o plural de nós nos leitos menores onde o riso, onde o
leito do rio é um filho entre os dois. Que farei de teus braços de meus cabelos
benignos que faremos?
Nasci-te da minha pele com algumas fêmeas te deitei por vezes.
Conheces-me. Não me tens amor
Grave esta corda cortada agudo seixo me ataste aos olhos para me
afundar.
Só por grande angústia me condenas à morte se de mim te veio a cidade
e os minúsculos objectos que já amaste ou que irás amar um dia espero.
Ah a cratera o abismo eléctrico!
Por isso o teu novo amor será comigo mais perigoso que este imaculado
com mais visco de amor cópula mortal.
Calo-me.
Reparei de repente que não estavas aqui. Pus-me a falar a falar. Coisas
de mulher desabitada. Sei que um dia desviarei sem ti os passeios rectos
esvaziarei os gordos manequins falantes. A razão é uma chapa de ferro
ao rubro: se acredito na tua morte começo o suicídio.
Enquanto penetrantemente te espero a luz coalhou. Os pássaros
coalharam enquanto te espero. O leite enquanto te espero coalhou. Haverá
outro verbo?
Submersa, muito distante de qualquer inferno de um paraíso qualquer existo
eu. Existirão tais palavras?
É a altura de escrever sobre a espera. A espera tem unhas de fome, bico
calado, pernas para que as quer. Senta-se de frente e de lado em qualquer
assento. Descai com o sono a cabeça de animal exótico enquanto os olhos se
fixam sobre a ponta do meu pé e principiam um movimento de rotação em
volta de mim em volta de mim de ti.
Nunca te conheci - assim explico o teu desaparecimento. Ou antes:
separei-me de ti no solstício de um verão ultrapassado. As mulheres viajavam
pela cidade completamente nuas de corpo e espírito. Os homens mordiam-
-se com cio. Imperturbável pertenceste-me. Assim nos separámos.
Não calhasse morrer um de nós primeiro que o outro porque ambos ao
mesmo tempo será impossível enquanto não houver relógios que meçam
este tempo e as horas fielmente se adiantarem e atrasarem.
Alguma vez pretendi dizer-te o que quer que fosse? Falava por paixão
por tibieza por desgosto por claridade por frio por cansaço
nunca por pretender dizer o que quer que fosse.
Não me desculpo. Se já me cai o cabelo se já não sinto os ombros é
porque o amor é difícil ou a minha cabeça uma pedra escura que carrego
sobre o corpo a horas e desoras ostentando-a como objecto público sagrado
purulento. O odor que as pedras têm quando corpos. O apocalipse de tudo
quando amamos. O nosso sangue em pó tornado entornado.
O teu amor espreita o meu corpo de longe. De longe por gestos
lhe respondo. Tenho raízes nos vulcões ternuras íntimas medos reclu-
-sos beijos nos dentes.
A pobreza surge dentro de nós embora cautelosos deitados de manhã e
de tarde ou simplesmente de noite despertos. Ambos meu amigo estamos
sentados neste momento perfeitamente incautos já. Contemplamos um país
e sentamo-nos e vestimo-nos e comemos e admiramos os monumentos e
morremos.
Inventei a nossa morte em toda a impossível extensão das palavras.
Aterrorizei-me segundos a fio enquanto em corpo nu ouvindo-me ador-
-mecias devagar.
Com a precaução de quem tem flores fechadas no peito passeei de noite
pela casa. Um fantasma forçou uma porta atrás de mim. Gemendo como um
animal estrangulado acordei-te.
Enterro o meu terror como um alfange na terra. Porque é preciso ter
medo bastante para correr bastante toda a casa celebrar bastantes missas negras
atravessar bastante todas as ruas com demónios privados nas esquinas.
Só o amor tem uma voz e um gesto mesmo no rosto da ideia que me
impus da morte.
És tu tão único como a noite é um astro.
Sobre a poeira que te cobre o peito deixo o meu cartão de visita o meu
nome profissão morada telefone.
Disse-te: Eis-me.
E decepei-te a cabeça de um só golpe.
Não queria matar-te. Choro. Eis-me! Eis-me!
2 909
Fernando Assis Pacheco
Chula das fogueiras
Amor amor meu big amor
eu dizia shazam e tu não me ligavas
pus Mandrake a seguir-te hábil nos truques
e tu não me ligavas
em qualquer planeta verde e avançadíssimo
tu não me ligavas
estendi o meu braço Homem de Borracha até S. Martinho do Bispo
e tu não me ligavas ponta nenhuma
tu querias era casar na Sé Nova
branquingénua abusar do meu livre alvedrio
fiz-te pois um manguito do tamanho dum choupo
e cá estou pai de filhos um bocado estragado
mas não por tua causa que já não existes
ó sombra de sombra à esquina da farmácia
1 385
Raimundo Correia
Conchita
Adeus aos filtros da mulher bonita;
A esse rosto espanhol, pulcro e moreno;
Ao pé que no bolero... ao pé pequeno;
Pé que, alígero e célere, saltita...
Lira do amor, que o amor não mais excita,
A um silêncio de morte eu te condeno;
Despede-te; e um adeus, no último treno,
Soluça às graças da gentil Conchita:
A esses, que em ondas se levantam, seios
Do mais cheiroso jambo; a esses quebrados
Olhos meridionais de ardência cheios;
A esses lábios, enfim, de nácar vivo,
Virgens dos lábios de outrem, mas corados
Pelos beijos de um sol quente e lascivo.
In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.1, p.8
A esse rosto espanhol, pulcro e moreno;
Ao pé que no bolero... ao pé pequeno;
Pé que, alígero e célere, saltita...
Lira do amor, que o amor não mais excita,
A um silêncio de morte eu te condeno;
Despede-te; e um adeus, no último treno,
Soluça às graças da gentil Conchita:
A esses, que em ondas se levantam, seios
Do mais cheiroso jambo; a esses quebrados
Olhos meridionais de ardência cheios;
A esses lábios, enfim, de nácar vivo,
Virgens dos lábios de outrem, mas corados
Pelos beijos de um sol quente e lascivo.
In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.1, p.8
1 657