Poemas neste tema
Silêncio
Luis Germano Graal
Ao Primeiro Dia
Ao primeiro dia
Do primeiro mês
Do primeiro ano
Da graça do Senhor
Partimos
Era mal de manhãzinha
Partimos
Pouco a pouco
A costa foi-se
Desanuviando
As caras ficaram cada vez menores
Menores
Menores
Os poucos que nos trouxeram
Gritaram pragas
Rogaram mal dizeres
Mas logo, logo, não ouvíamos o que diziam
Às tantas horas
E tantos minutos
Do primeiro dia
Do primeiro mês
Do primeiro ano
Da graça do Senhor
Debaixo do astro iniciante a esquentar
Partimos
No princípio todos faziam silêncio
Todos faziam silêncio
Todos faziam silêncio
Aos poucos
Fomos nos olhando
Uns aos outros
Aos poucos
Fomos nos reconhecendo
Aos poucos
Uns aos outros
Como nos espelhos
Não sabemos quem terá sido
O primeiro
A pronunciar a primeira palavra
Logo estávamos todos a trocar palavras
Umas indo
Outras voltando
Pelo convés da nau
Víamos as palavrinhas
Nesse vaivém
Vai e vêm
Pelo ar
Como coisa atrás de coisa
Nossas cabeças estão cheias
E muito cheias
De palavras
E num belo minuto
Quando menos esperamos
Algumas delas se juntam
A algumas outras
E se prestamos
Atenção
Notamos uma frase
Se construindo
Outra frase se juntando
Daqui a pouco temos versos
E estrofes
Completas
Logo mais um poema inteiro
E como nas cabeças
De todos outros nós
Outras palavras se juntam
Pra formar novas outras frases
Que se juntam
Pra formar novas outras estrofes
Nós trocamos entre nós
Os poemas que nascemos
E ficamos mais antigos
Todos nós mais antigos
De todos nós todos
Assim é
Que poucos minutos
Após as tantas horas
Da manhã do primeiro dia
Do primeiro ano do Senhor
Um sábado
Véspera de domingo
Como todos os outros sábados
Sexta após sexta-feira
Sempre que nasce um sábado
No tempo
Para durar exatas e poucas
Vinte e quatro horas
Como todos os dias também duram
A cada semana que passa
Cada ano
Os séculos passam
E um sábado continua pregado
Ao domingo
Nunca depois
Sempre antes
Senão vira segunda feira
Que não tem graça nenhuma.
Assim foi que neste sábado
Dia primeiro
Do primeiro mês
Do primeiro ano
Da desgraça do Senhor
Nós partimos
E nos reconhecemos
E nos presenteamos
E ficamos mais amigos uns dos outros
Nós.
Do primeiro mês
Do primeiro ano
Da graça do Senhor
Partimos
Era mal de manhãzinha
Partimos
Pouco a pouco
A costa foi-se
Desanuviando
As caras ficaram cada vez menores
Menores
Menores
Os poucos que nos trouxeram
Gritaram pragas
Rogaram mal dizeres
Mas logo, logo, não ouvíamos o que diziam
Às tantas horas
E tantos minutos
Do primeiro dia
Do primeiro mês
Do primeiro ano
Da graça do Senhor
Debaixo do astro iniciante a esquentar
Partimos
No princípio todos faziam silêncio
Todos faziam silêncio
Todos faziam silêncio
Aos poucos
Fomos nos olhando
Uns aos outros
Aos poucos
Fomos nos reconhecendo
Aos poucos
Uns aos outros
Como nos espelhos
Não sabemos quem terá sido
O primeiro
A pronunciar a primeira palavra
Logo estávamos todos a trocar palavras
Umas indo
Outras voltando
Pelo convés da nau
Víamos as palavrinhas
Nesse vaivém
Vai e vêm
Pelo ar
Como coisa atrás de coisa
Nossas cabeças estão cheias
E muito cheias
De palavras
E num belo minuto
Quando menos esperamos
Algumas delas se juntam
A algumas outras
E se prestamos
Atenção
Notamos uma frase
Se construindo
Outra frase se juntando
Daqui a pouco temos versos
E estrofes
Completas
Logo mais um poema inteiro
E como nas cabeças
De todos outros nós
Outras palavras se juntam
Pra formar novas outras frases
Que se juntam
Pra formar novas outras estrofes
Nós trocamos entre nós
Os poemas que nascemos
E ficamos mais antigos
Todos nós mais antigos
De todos nós todos
Assim é
Que poucos minutos
Após as tantas horas
Da manhã do primeiro dia
Do primeiro ano do Senhor
Um sábado
Véspera de domingo
Como todos os outros sábados
Sexta após sexta-feira
Sempre que nasce um sábado
No tempo
Para durar exatas e poucas
Vinte e quatro horas
Como todos os dias também duram
A cada semana que passa
Cada ano
Os séculos passam
E um sábado continua pregado
Ao domingo
Nunca depois
Sempre antes
Senão vira segunda feira
Que não tem graça nenhuma.
Assim foi que neste sábado
Dia primeiro
Do primeiro mês
Do primeiro ano
Da desgraça do Senhor
Nós partimos
E nos reconhecemos
E nos presenteamos
E ficamos mais amigos uns dos outros
Nós.
1 023
Gláucia Lemos
Outrem
Há os que acendem luzes no teu rosto
e os que atiram flores nos teus braços.
Os que semeiam cardos nos teus passos
e há quem aposte a vida em teu desgosto.
Seja um sorriso o teu único laço.
Saiba Deus se ele expressa bem teu gosto.
Não há limites para o que for posto
pelo silêncio de quem tens nos braços.
Olha pra quem põe luzes no teu rosto...
Descobre quem aposta em teu desgosto...
Teu amigo pode ser teu mal maior.
Que te guardes de crer na humana fala.
Anjos e demos numa mesma igualha
repartem dor e riso a teu redor.
11.07.96
e os que atiram flores nos teus braços.
Os que semeiam cardos nos teus passos
e há quem aposte a vida em teu desgosto.
Seja um sorriso o teu único laço.
Saiba Deus se ele expressa bem teu gosto.
Não há limites para o que for posto
pelo silêncio de quem tens nos braços.
Olha pra quem põe luzes no teu rosto...
Descobre quem aposta em teu desgosto...
Teu amigo pode ser teu mal maior.
Que te guardes de crer na humana fala.
Anjos e demos numa mesma igualha
repartem dor e riso a teu redor.
11.07.96
1 203
Gláucia Lemos
Soneto á Fala
ou
Rota do Sol
Cala-te e partirei. Muda e sem abraço.
E esta distância se fará completa.
Fechamos esta escala de embaraços,
me defino sem ti, na rota certa.
Mas, cala! Que tua voz é como um laço
que me ata o sangue e minha calma afeta.
Se falas, estremeço e me desfaço,
e quedo, penitente, manifesta.
Se falas, eu me arrisco ao precipício,
como fêmea arrastada, como um vício
que avassala em inteira embriaguez.
Se ainda me amas, me poupa o sacrifício
desta distância. Leva-me á difícil
rota do sol. Ou cala de uma vez!
12.07.96
Rota do Sol
Cala-te e partirei. Muda e sem abraço.
E esta distância se fará completa.
Fechamos esta escala de embaraços,
me defino sem ti, na rota certa.
Mas, cala! Que tua voz é como um laço
que me ata o sangue e minha calma afeta.
Se falas, estremeço e me desfaço,
e quedo, penitente, manifesta.
Se falas, eu me arrisco ao precipício,
como fêmea arrastada, como um vício
que avassala em inteira embriaguez.
Se ainda me amas, me poupa o sacrifício
desta distância. Leva-me á difícil
rota do sol. Ou cala de uma vez!
12.07.96
1 236
Leão Júnior
Tempo Tempo
certifique-se de que o tempo
não goza, em seu cabedal,
o saber de um tempo argüido:
seu irônico juízo
no que investiga retorna
e o que investiga é retorno
do que então se parodia
do que então potencializa
um saber examinar-se
no outro que está do outro
sem imagem conferida
mas que pressupõe ao pôr
radicais inexistências
sob metódico senso
de crítica e de raciocínio
para então comprometer
a base — seu fundamento —
do círculo que vira dia
que se vive sem teoria
o que lhe permite ser tempo
é não contar sua história
é não ter sequer história
é ser o avesso da história
a própria falta — seu ser
de insuportável sentido —
satura de perdas a vida
e a explode como história
aí é preciso viver
de sobrevida aparente
nas sobras do apalavrado
reconduzido ao vazio
e nesta sede excluída
do homem desprende-se o tempo
demolindo o quê de si
sobrevive em seus sistemas
que permanecem percursos
de quebras fendas rupturas
são como um não-rio
os afluentes do tempo
(faz flutuar periódicas
minas de água parada)
que cai por brutas clivagens
como evidências sem fala
ou conflui estimulando
econômicas miragens
que precipitam o invisível
nas influências do visto
e trazem a forma adiante
das margens que nos espiam
sem olhar antecipando
múltiplos fluxos sem rio
é de poesia que
o tempo se alimenta
de sua força estratégica
sua premente ameaça
pois quanto mais fortifica
com mais defesas desata
e obriga ao tempo o adiante
de formas desmoronadas
obriga a viagem das horas
às suas fronteiras perdidas
a descobrir demasiados
possíveis de não rendição
mal começada a jornada
chegam arquitetos do não
tem o passado uma fome
do retomo do que falta
fome de raiz-além
desse longo ignorado
e rumina arruinando
a forma não digerida
tem a fome de uma espera
por horizonte não vindo
se morde o passo do onde
se gera a fome do tempo
enquanto rumina o presente
escape por entre os dentes
quando céu e terra se fizeram uno
o grande tempo moldou todas as coisas
de uma só vez
aos homens transmitiu a técnica
de não esperar
nenhum posterior, absoluto ou relativo
se pressupôs:
a consciência das clepisidras e das ampulhetas
desapareceu
perderam-se as sucessões e os recortes
irreversivelmente
o grande tempo fundiu os homens
na geografia do outro
e já não houve marcas de propriedade
e já não houve Estados
quando céu e terra se fizeram uno
o presente pôde ser lembrado
os configurados do tempo
marinheiros e megáricos
na volta não viram a margem
fazer porto no outro lado
fazer com poucos relógios
este contorno marinho
por lençóis curvos de água
canais de vida ou de linho
(mil canais de travessia
não chegam ao tempo visado
se o ângulo em que se projetam
não vaga em tua memória
se não te apreendem no agora
rasgos de incertos indícios)
a paciência da tribo
faz que dorme
faz que sonhem seus conceitos vagos
com cristais
quase nada extrai da falta
de origem ou fim
a paciência da tribo
retira-se do tempo com malas e bagagens
e põe-se a salvo
como duração e morte
quase nada deixa
de sua imprópria matéria
sem horizonte indagado
a paciência da tribo não se acaba
talvez porque seu puro escape
dispense o eterno
como os cristais às datas
no instante do bote
o tempo masca
não marcha
como os cadetes do colégio militar
a cobra-macha do tempo
não bate os calcanhares que não tem
nem se perfila ou bate continência
a cobra-marcha do tempo apenas rumina
o seu azul pairado
sobre alas, sobre balas.
no instante exato do bote
a cobra do tempo fuma
e o verde desfile dos passos para sempre
passa
como uma falta de ser
se imagina desejada
ou quanto a letra se quer
mais lida se mais apagada
a consciência propaga
sua força de abafada
que mal ultrapassa a falha
escandaliza o que falta
e perturba porque gasta
a razão da ultrapassagem
ao propagar o querer
doutras forças sufocadas
que mais apagadas se avivam
como letras desejadas
de uma escrita em que falta
tua imagem recortada
tua vida recordada
Por um apagado de charge
o único tempo é o tempo
que fora de si inexiste
como existe o que expulsa
de sua reserva incontente
expulsa do homem o ganho
ou pior, contabiliza
sua fome de um ser tempo
de ter no tempo o seu prumo
e este homem sem divisas
quer do tempo seu insumo
cobra incentivos e lucros
por vida a mais de consumo
mas o tempo acerta o trato
desconhecendo o rumo
quem rói de ti os fantasmas
de que se cobre a razão
lendo o antes da memória
que escapa à imaginação
que examina pela falta
as marcas da contradição
que ousa escritos vazios
sobre raspas predatórias
quem desconcentra a razão
para firmá-la no instável
como solta resistência
que se faz tão maleável
que nenhuma norma nova
fixa a ferida da margem
a tinta encarnada do teu
manuscrito sem história
se entranha na letra como
palavra arrancada à traça
se entranha em calar dobrado
como história dos silêncios
que a letra arranca aos pedaços
desta carne de azurado
a tinta dos manuscritos
come a tua mão pesada
com gratos garfos que vexam
o menos papel do prato
para abrir com suas chaves
o trauma de novos achados
escrevo palavras que calam
o meu objeto é o tempo
não fala
mas guarda em si monumentos
que sem vestígios
abalam
e o seu mudo testamento
fende infinito o fragmento
que age
escrevo à margem do efeito
leitor da ávida ausência
que apaga
e não consulto memórias
meu dicionário é o átimo
que indaga
deixa se possível um oco
para que o tempo arrebente
tuas mordaças sem corpo
o teu silêncio de ovo
teu fio sem interior
que tece os teus desenlaces
com mordidas ou amarras
famintas da tua nudez
derrama o rigor do silêncio
na veia oblíqua do novo
os tempos geraram os tempos
que geram de si os tempos
que geram os tempos de novo
como uma trama bastarda
os laços de parentesco
perdido no que se ligam
tecem o mito e a fenda
saber de que é feito o tempo
desses tempos sem história
é ter por familiares
homônimos desconhecidos
que no entanto evoluem
no seu poder de expurgar
incógnitas biografias
nos interiores das bibliotecas
o teu vizinho vive os anos vinte
um de meia-idade atrás de ti
parte uma galáxia
nos interiores da rua
cada palavra circula
com reais multiplicados
pelos becos mais dispersos
das páginas e
não goza, em seu cabedal,
o saber de um tempo argüido:
seu irônico juízo
no que investiga retorna
e o que investiga é retorno
do que então se parodia
do que então potencializa
um saber examinar-se
no outro que está do outro
sem imagem conferida
mas que pressupõe ao pôr
radicais inexistências
sob metódico senso
de crítica e de raciocínio
para então comprometer
a base — seu fundamento —
do círculo que vira dia
que se vive sem teoria
o que lhe permite ser tempo
é não contar sua história
é não ter sequer história
é ser o avesso da história
a própria falta — seu ser
de insuportável sentido —
satura de perdas a vida
e a explode como história
aí é preciso viver
de sobrevida aparente
nas sobras do apalavrado
reconduzido ao vazio
e nesta sede excluída
do homem desprende-se o tempo
demolindo o quê de si
sobrevive em seus sistemas
que permanecem percursos
de quebras fendas rupturas
são como um não-rio
os afluentes do tempo
(faz flutuar periódicas
minas de água parada)
que cai por brutas clivagens
como evidências sem fala
ou conflui estimulando
econômicas miragens
que precipitam o invisível
nas influências do visto
e trazem a forma adiante
das margens que nos espiam
sem olhar antecipando
múltiplos fluxos sem rio
é de poesia que
o tempo se alimenta
de sua força estratégica
sua premente ameaça
pois quanto mais fortifica
com mais defesas desata
e obriga ao tempo o adiante
de formas desmoronadas
obriga a viagem das horas
às suas fronteiras perdidas
a descobrir demasiados
possíveis de não rendição
mal começada a jornada
chegam arquitetos do não
tem o passado uma fome
do retomo do que falta
fome de raiz-além
desse longo ignorado
e rumina arruinando
a forma não digerida
tem a fome de uma espera
por horizonte não vindo
se morde o passo do onde
se gera a fome do tempo
enquanto rumina o presente
escape por entre os dentes
quando céu e terra se fizeram uno
o grande tempo moldou todas as coisas
de uma só vez
aos homens transmitiu a técnica
de não esperar
nenhum posterior, absoluto ou relativo
se pressupôs:
a consciência das clepisidras e das ampulhetas
desapareceu
perderam-se as sucessões e os recortes
irreversivelmente
o grande tempo fundiu os homens
na geografia do outro
e já não houve marcas de propriedade
e já não houve Estados
quando céu e terra se fizeram uno
o presente pôde ser lembrado
os configurados do tempo
marinheiros e megáricos
na volta não viram a margem
fazer porto no outro lado
fazer com poucos relógios
este contorno marinho
por lençóis curvos de água
canais de vida ou de linho
(mil canais de travessia
não chegam ao tempo visado
se o ângulo em que se projetam
não vaga em tua memória
se não te apreendem no agora
rasgos de incertos indícios)
a paciência da tribo
faz que dorme
faz que sonhem seus conceitos vagos
com cristais
quase nada extrai da falta
de origem ou fim
a paciência da tribo
retira-se do tempo com malas e bagagens
e põe-se a salvo
como duração e morte
quase nada deixa
de sua imprópria matéria
sem horizonte indagado
a paciência da tribo não se acaba
talvez porque seu puro escape
dispense o eterno
como os cristais às datas
no instante do bote
o tempo masca
não marcha
como os cadetes do colégio militar
a cobra-macha do tempo
não bate os calcanhares que não tem
nem se perfila ou bate continência
a cobra-marcha do tempo apenas rumina
o seu azul pairado
sobre alas, sobre balas.
no instante exato do bote
a cobra do tempo fuma
e o verde desfile dos passos para sempre
passa
como uma falta de ser
se imagina desejada
ou quanto a letra se quer
mais lida se mais apagada
a consciência propaga
sua força de abafada
que mal ultrapassa a falha
escandaliza o que falta
e perturba porque gasta
a razão da ultrapassagem
ao propagar o querer
doutras forças sufocadas
que mais apagadas se avivam
como letras desejadas
de uma escrita em que falta
tua imagem recortada
tua vida recordada
Por um apagado de charge
o único tempo é o tempo
que fora de si inexiste
como existe o que expulsa
de sua reserva incontente
expulsa do homem o ganho
ou pior, contabiliza
sua fome de um ser tempo
de ter no tempo o seu prumo
e este homem sem divisas
quer do tempo seu insumo
cobra incentivos e lucros
por vida a mais de consumo
mas o tempo acerta o trato
desconhecendo o rumo
quem rói de ti os fantasmas
de que se cobre a razão
lendo o antes da memória
que escapa à imaginação
que examina pela falta
as marcas da contradição
que ousa escritos vazios
sobre raspas predatórias
quem desconcentra a razão
para firmá-la no instável
como solta resistência
que se faz tão maleável
que nenhuma norma nova
fixa a ferida da margem
a tinta encarnada do teu
manuscrito sem história
se entranha na letra como
palavra arrancada à traça
se entranha em calar dobrado
como história dos silêncios
que a letra arranca aos pedaços
desta carne de azurado
a tinta dos manuscritos
come a tua mão pesada
com gratos garfos que vexam
o menos papel do prato
para abrir com suas chaves
o trauma de novos achados
escrevo palavras que calam
o meu objeto é o tempo
não fala
mas guarda em si monumentos
que sem vestígios
abalam
e o seu mudo testamento
fende infinito o fragmento
que age
escrevo à margem do efeito
leitor da ávida ausência
que apaga
e não consulto memórias
meu dicionário é o átimo
que indaga
deixa se possível um oco
para que o tempo arrebente
tuas mordaças sem corpo
o teu silêncio de ovo
teu fio sem interior
que tece os teus desenlaces
com mordidas ou amarras
famintas da tua nudez
derrama o rigor do silêncio
na veia oblíqua do novo
os tempos geraram os tempos
que geram de si os tempos
que geram os tempos de novo
como uma trama bastarda
os laços de parentesco
perdido no que se ligam
tecem o mito e a fenda
saber de que é feito o tempo
desses tempos sem história
é ter por familiares
homônimos desconhecidos
que no entanto evoluem
no seu poder de expurgar
incógnitas biografias
nos interiores das bibliotecas
o teu vizinho vive os anos vinte
um de meia-idade atrás de ti
parte uma galáxia
nos interiores da rua
cada palavra circula
com reais multiplicados
pelos becos mais dispersos
das páginas e
413
Lígia Andrade
Silêncio
O silêncio brota
Flui
escorre em cada canto
Da casa
Exala um perfume triste
De abandono
De algo que passou
Não volta mais
O irremediável
Silêncio
Faca de dois gumes
Cicatriza e ao mesmo tempo fere
E nós
Aproximados na mesma freqüência morna
Mais nos afastamos
Por falta de palavras...
Flui
escorre em cada canto
Da casa
Exala um perfume triste
De abandono
De algo que passou
Não volta mais
O irremediável
Silêncio
Faca de dois gumes
Cicatriza e ao mesmo tempo fere
E nós
Aproximados na mesma freqüência morna
Mais nos afastamos
Por falta de palavras...
960
Lêdo Ivo
O Portão
O portão fica aberto o dia inteiro
mas à noite eu mesmo vou fechá-lo.
Não espero nenhum visitante noturno
a não ser o ladrão que salta o muro dos sonhos.
A noite é tão silenciosa que me faz escutar
o nascimento dos mananciais nas florestas.
Minha cama branca como a via-láctea
é breve para mim na noite negra.
Ocupo todo o espaço da mundo. Minha mão
desatenta
derruba uma estrela e enxota um morcego.
O bater de meu coração intriga as corujas
que, nos ramos dos cedros, ruminam o enigma
do dia e da noite paridos pelas águas.
No meu sonho de pedra fico imóvel e viajo.
Sou o vento que apalpa as alcachofras
e enferruja os arreios pendurados no estábulo.
Sou a formiga que, guiada pelas constelações,
respira os perfumes da terra e do oceano.
Um homem que sonha é tudo o que não é:
o mar que os navios avariaram,
o silvo negro do trem entre fogueiras,
a mancha que escurece o tambor de querosene.
Se antes de dormir fecho o meu portão
no sonho ele se abre. E quem não veio de dia
pisando as folhas secas dos eucaliptos
vem de noite e conhece o caminho, igual aos mortos
que todavia jamais vieram, mas sabem onde estou
— coberto por uma mortalha, como todos os que
sonham
e se agitam na escuridão, e gritam as palavras
que fugiram do dicionário e foram respirar o ar da
noite que cheira a jasmim
e ao doce esterco fermentado.
os visitantes indesejáveis atravessam as portas
trancadas
e as persianas que filtram a passagem da brisa
e me rodeiam.
Ó mistério do mundo, nenhum cadeado fecha o
portão da noite.
Foi em vão que ao anoitecer pensei em dormir
sozinho
protegido pelo arame farpado que cerca as minhas
terras
e pelos meus cães que sonham de olhos abertos.
À noite, uma simples aragem destrói os muros dos
homens.
Embora o meu portão vá amanhecer fechado
sei que alguém o abriu, no silêncio da noite,
e assistiu no escuro ao meu sono inquieto.
The Gate Poema em Inglês
mas à noite eu mesmo vou fechá-lo.
Não espero nenhum visitante noturno
a não ser o ladrão que salta o muro dos sonhos.
A noite é tão silenciosa que me faz escutar
o nascimento dos mananciais nas florestas.
Minha cama branca como a via-láctea
é breve para mim na noite negra.
Ocupo todo o espaço da mundo. Minha mão
desatenta
derruba uma estrela e enxota um morcego.
O bater de meu coração intriga as corujas
que, nos ramos dos cedros, ruminam o enigma
do dia e da noite paridos pelas águas.
No meu sonho de pedra fico imóvel e viajo.
Sou o vento que apalpa as alcachofras
e enferruja os arreios pendurados no estábulo.
Sou a formiga que, guiada pelas constelações,
respira os perfumes da terra e do oceano.
Um homem que sonha é tudo o que não é:
o mar que os navios avariaram,
o silvo negro do trem entre fogueiras,
a mancha que escurece o tambor de querosene.
Se antes de dormir fecho o meu portão
no sonho ele se abre. E quem não veio de dia
pisando as folhas secas dos eucaliptos
vem de noite e conhece o caminho, igual aos mortos
que todavia jamais vieram, mas sabem onde estou
— coberto por uma mortalha, como todos os que
sonham
e se agitam na escuridão, e gritam as palavras
que fugiram do dicionário e foram respirar o ar da
noite que cheira a jasmim
e ao doce esterco fermentado.
os visitantes indesejáveis atravessam as portas
trancadas
e as persianas que filtram a passagem da brisa
e me rodeiam.
Ó mistério do mundo, nenhum cadeado fecha o
portão da noite.
Foi em vão que ao anoitecer pensei em dormir
sozinho
protegido pelo arame farpado que cerca as minhas
terras
e pelos meus cães que sonham de olhos abertos.
À noite, uma simples aragem destrói os muros dos
homens.
Embora o meu portão vá amanhecer fechado
sei que alguém o abriu, no silêncio da noite,
e assistiu no escuro ao meu sono inquieto.
The Gate Poema em Inglês
2 268
Valéry Larbaud
Formalismo
Já cansada de elipses e parábolas,
ela traçou um silêncio retilíneo
onde as nuvens se foram perfilar.
Suspensos às arestas dessa fórmula,
choramos o rigor do formalismo,
felizes, delirantes, ensopados.
ela traçou um silêncio retilíneo
onde as nuvens se foram perfilar.
Suspensos às arestas dessa fórmula,
choramos o rigor do formalismo,
felizes, delirantes, ensopados.
977
Luiz Ademir Souza
Pilões 1
Não há de ser breve
o encontro que terei com o rio
A palavra-chave é a sépia
da sua cor
da sua voz latina
Não vou dizer que toda água
corre para o mar;
o oceano não há de ser rápido
-o seu murmúrio a encenar movimento
perigo
se expande com a luz tão fria da manhã
No silêncio da foz e do brilho
a corrida do homem pode livrar
água de pau e pedra
seja de líquido manso ou forte
de ventura ou encanto.
o encontro que terei com o rio
A palavra-chave é a sépia
da sua cor
da sua voz latina
Não vou dizer que toda água
corre para o mar;
o oceano não há de ser rápido
-o seu murmúrio a encenar movimento
perigo
se expande com a luz tão fria da manhã
No silêncio da foz e do brilho
a corrida do homem pode livrar
água de pau e pedra
seja de líquido manso ou forte
de ventura ou encanto.
1 045
Lígia Diniz
Depois (de pensar em você)
Sempre, de tudo, fica um pouco
Te roubo de ti sem perceberes
Te roubo de mim sem perceber
Urges, dirias.
Mas eu, também eu, te necessito.
Fica um pouco de tudo sempre
Das tuas palavras
E do teu silêncio.
Da tua fala morna
Do teu silêncio de cristal
(porque, soprando, quebra-se).
Um pouco de tudo sempre fica
Não importa a que conclusão chegamos
E nem que chegamos, se chegamos.
Sempre fica o caminho.
O caminho eu guardo sem notar
Te roubo o caminho?
De tudo sempre de pouco fazemos muito
Dos teus beijos, das tuas mãos
Das minhas mãos e das palavras
Sempre das palavras, nosso engano
E correção.
Te roubo de ti sem perceberes
Te roubo de mim sem perceber
Urges, dirias.
Mas eu, também eu, te necessito.
Fica um pouco de tudo sempre
Das tuas palavras
E do teu silêncio.
Da tua fala morna
Do teu silêncio de cristal
(porque, soprando, quebra-se).
Um pouco de tudo sempre fica
Não importa a que conclusão chegamos
E nem que chegamos, se chegamos.
Sempre fica o caminho.
O caminho eu guardo sem notar
Te roubo o caminho?
De tudo sempre de pouco fazemos muito
Dos teus beijos, das tuas mãos
Das minhas mãos e das palavras
Sempre das palavras, nosso engano
E correção.
823
Valéry Larbaud
Vôo
Ave a voar sem rumo, tempo acima;
Céu a fluir sem tempo, mero azul;
Livre cor sem sujeito, só de luz;
Luz de luz, voz de estrelas em surdina.
E voz apenas voz, palavra, rima,
Superfície de som, plana e vazia,
Deserto do sentido, sol sem dia,
Com pássaro não-ser planando em cima.
Céu a fluir sem tempo, mero azul;
Livre cor sem sujeito, só de luz;
Luz de luz, voz de estrelas em surdina.
E voz apenas voz, palavra, rima,
Superfície de som, plana e vazia,
Deserto do sentido, sol sem dia,
Com pássaro não-ser planando em cima.
929
João Rui de Sousa
Roteiro
Meu jeito visionário — meu astrolábio.
Meu ser mirabolante — um alcatruz.
De variadas coisas fiz a minha esperança
e sempre em várias coisas vi a minha cruz.
Aos padrões que em vários pontos encontrei
na rota íntima de vestes tropicais
eu dei as mãos, serenas e intactas,
as minhas dores mais certas e reais.
Nos vários sítios que — abismos —
toldaram minha voz por um olhar,
eu evitei o perigo e os prejuízos
à voz feita de calma, meu cantar.
Aos rasgos que, de outrora, evocados
foram sempre pelo seu valor,
eu dei a minha tez de dúvida e de espanto,
o meu silêncio amargo, o meu calor,
E aos pontos cardeais que em volta, vacilantes,
desalentavam já meu ser cativo,
parei o gesto, roubei o pólo sul da esperança
como lembrança para um dia altivo.
Meu ser mirabolante — um alcatruz.
De variadas coisas fiz a minha esperança
e sempre em várias coisas vi a minha cruz.
Aos padrões que em vários pontos encontrei
na rota íntima de vestes tropicais
eu dei as mãos, serenas e intactas,
as minhas dores mais certas e reais.
Nos vários sítios que — abismos —
toldaram minha voz por um olhar,
eu evitei o perigo e os prejuízos
à voz feita de calma, meu cantar.
Aos rasgos que, de outrora, evocados
foram sempre pelo seu valor,
eu dei a minha tez de dúvida e de espanto,
o meu silêncio amargo, o meu calor,
E aos pontos cardeais que em volta, vacilantes,
desalentavam já meu ser cativo,
parei o gesto, roubei o pólo sul da esperança
como lembrança para um dia altivo.
1 219
Luís António Cajazeira Ramos
Entre o Sono e a Vigília
(soneto sonolento, ao dormir)
Na indolência do tempo, as horas morrem,
a madrugada avança seu crepúsculo,
um silêncio selvagem rasga o mundo,
e a vigília se abriga sob as pálpebras.
Um frio silente e aflito, quase um susto,
tão lépido quão lívido, perpassa,
que a imensidão do instante se revela,
e os abraços desfazem-se inconclusos.
Entre luzes e sombras vacilantes,
o assombro de mil séculos desvai-se,
e o espírito gazeia e se dissipa.
No espasmo mais recôndito do sonho,
o pássaro se furta da gaiola,
e o gato esconde o pulo entre almofadas.
Na indolência do tempo, as horas morrem,
a madrugada avança seu crepúsculo,
um silêncio selvagem rasga o mundo,
e a vigília se abriga sob as pálpebras.
Um frio silente e aflito, quase um susto,
tão lépido quão lívido, perpassa,
que a imensidão do instante se revela,
e os abraços desfazem-se inconclusos.
Entre luzes e sombras vacilantes,
o assombro de mil séculos desvai-se,
e o espírito gazeia e se dissipa.
No espasmo mais recôndito do sonho,
o pássaro se furta da gaiola,
e o gato esconde o pulo entre almofadas.
1 119
José de Paula Ramos Jr.
De Inventione
1
Fico parado, quieto.
Se espero, nada vem,
Ou vem (pior!) postiço,
Fala falsa do que não há,
Palavras ocas, palavrório.
Nenhuma poesia pousa
Na página atulhada de signos.
E não há sintaxe que anime,
Prosódia melíflua que encante,
Ou truque de imagem que esconda
A só carcaça de versos.
O poema impostor não se impõe, perece.
2
Fico parado, quieto.
Se nada espero, nada vem,
Ou vem (bem!) sem querer,
Não se pode evitar;
Palavras aladas assumem controle
E semeiam a folha muda de signos,
Que dançam e cantam e rompem
A espessa caligem das coisas.
É quando a poesia pousa
Numa flor inútil
E nela deposita, como borboleta,
O pólen que a fertiliza.
Fico parado, quieto.
Se espero, nada vem,
Ou vem (pior!) postiço,
Fala falsa do que não há,
Palavras ocas, palavrório.
Nenhuma poesia pousa
Na página atulhada de signos.
E não há sintaxe que anime,
Prosódia melíflua que encante,
Ou truque de imagem que esconda
A só carcaça de versos.
O poema impostor não se impõe, perece.
2
Fico parado, quieto.
Se nada espero, nada vem,
Ou vem (bem!) sem querer,
Não se pode evitar;
Palavras aladas assumem controle
E semeiam a folha muda de signos,
Que dançam e cantam e rompem
A espessa caligem das coisas.
É quando a poesia pousa
Numa flor inútil
E nela deposita, como borboleta,
O pólen que a fertiliza.
912
João Manuel Simões
Diálogo Comigo
Falo comigo, falo.
Mas só me escuto quando,
em silêncio pensando,
me calo.
O que diz minha boca?
Mentira vã, sonora?
Tudo o que digo agora,
sufoca.
Ânsia íntima, larga,
de seguir só e mudo.
Tudo o que conto, tudo
amarga.
Minha voz de ontem brota
de um legendário hoje.
Subitamente foge,
ignota.
Quem serei? Desconheço.
Se chegar a sabê-lo,
a ninguém o revelo:
esqueço.
Mas só me escuto quando,
em silêncio pensando,
me calo.
O que diz minha boca?
Mentira vã, sonora?
Tudo o que digo agora,
sufoca.
Ânsia íntima, larga,
de seguir só e mudo.
Tudo o que conto, tudo
amarga.
Minha voz de ontem brota
de um legendário hoje.
Subitamente foge,
ignota.
Quem serei? Desconheço.
Se chegar a sabê-lo,
a ninguém o revelo:
esqueço.
978
João Manuel Simões
O Primeiro Dia da Criação
Cicatriz na epiderme
macia do silêncio,
ei-la que surge, nítida,
iluminada e frágil,
na geometria exata
do tempo feito espaço,
com gládio nas trevas,
como insígnia de fogo.
Haste de flor de som
sem memória plausível,
gesto puro de flâmula,
alarme sobre claustros
ou mero grito agreste
violando a morte obscena,
ei-la que desabrocha.
No Princípio era o caos,
(Era o cais, eram cães, eram Cains?)
E a palavra boiava,
ambígua, sobre as águas.
macia do silêncio,
ei-la que surge, nítida,
iluminada e frágil,
na geometria exata
do tempo feito espaço,
com gládio nas trevas,
como insígnia de fogo.
Haste de flor de som
sem memória plausível,
gesto puro de flâmula,
alarme sobre claustros
ou mero grito agreste
violando a morte obscena,
ei-la que desabrocha.
No Princípio era o caos,
(Era o cais, eram cães, eram Cains?)
E a palavra boiava,
ambígua, sobre as águas.
740
João Bosco da Encarnação
Essa Noite
Essa Noite
Essa noite estranha,
é uma noite de medo,
pavor de mim mesmo.
Quando penso eme vejo
pensante,
ouço o ruído incessante
— enervante —
do mar,
tenho medo.
Do latido de um cão
longínquo,
tenho medo.
E receio tanto
a escuridão silenciosa
da noite...
E me assusto tanto
com o barulho da folha seca
e do vento tenebroso
na encosta...
A existência só
e a coexistência só
de um mundo de mortos
me amedrontam,
apavoram.
E tenho um pavor imenso
de ser e de sentir...
Queria ser apenas algo
e não querer...
O pavor do silêncio noturno,
povoado de fantasmas
que riem do meu temor,
o medo da morte
porque parece uma noite
de silêncio profundo,
faz ouvir minha fraqueza,
um cão latindo ao longe,
triste,
um som de silêncio no ouvido,
enlouquece
e assusta como se houvesse
— e talvez haja —
algum estranho na escuridão.
E me assusto
com a escuridão e o silêncio
— nadas —
que reinam em mim...
Vazio que reina em mim
— tudo —
possível e impossível.
Alma solitária
jogada num abismo,
vê-se lá de cima do penhasco
onde o mar encontra as pedras,
um grunhido,
um bafo ofegante
— monstro —
nas minhas costas infinitas,
do tamanho da escuridão
que esconde o mar dos olhos
e nos ouvidos
preenche a imaginação.
Essa noite estranha,
é uma noite de medo,
pavor de mim mesmo.
Quando penso eme vejo
pensante,
ouço o ruído incessante
— enervante —
do mar,
tenho medo.
Do latido de um cão
longínquo,
tenho medo.
E receio tanto
a escuridão silenciosa
da noite...
E me assusto tanto
com o barulho da folha seca
e do vento tenebroso
na encosta...
A existência só
e a coexistência só
de um mundo de mortos
me amedrontam,
apavoram.
E tenho um pavor imenso
de ser e de sentir...
Queria ser apenas algo
e não querer...
O pavor do silêncio noturno,
povoado de fantasmas
que riem do meu temor,
o medo da morte
porque parece uma noite
de silêncio profundo,
faz ouvir minha fraqueza,
um cão latindo ao longe,
triste,
um som de silêncio no ouvido,
enlouquece
e assusta como se houvesse
— e talvez haja —
algum estranho na escuridão.
E me assusto
com a escuridão e o silêncio
— nadas —
que reinam em mim...
Vazio que reina em mim
— tudo —
possível e impossível.
Alma solitária
jogada num abismo,
vê-se lá de cima do penhasco
onde o mar encontra as pedras,
um grunhido,
um bafo ofegante
— monstro —
nas minhas costas infinitas,
do tamanho da escuridão
que esconde o mar dos olhos
e nos ouvidos
preenche a imaginação.
939
Cida Jappe
Papel em Branco
Eu quis
fazer um poema
em louvor a Deus
O lápis, o papel
estavam ali,
mudos, imóveis
e eu nem sequer soube pegá-los
Desci a escada
fui embora...
E o meu poema chegou a Deus,
na folha de papel em branco
fazer um poema
em louvor a Deus
O lápis, o papel
estavam ali,
mudos, imóveis
e eu nem sequer soube pegá-los
Desci a escada
fui embora...
E o meu poema chegou a Deus,
na folha de papel em branco
1 003
Ives Gandra da Silva Martins
Elegia da Ponte Descoberta
Sobre a ponte do meu ao teu retrato
O silêncio cantava silencioso.
Ponte nascida, de repente,
Descortinando espantos e desejos.
Eram duas montanhas existentes,
Sem saberem das fontes.
E as fontes eram lá.
As fontes gêmeas sombras, entretanto,
Não compreendiam
Os reflexos celestes das irmãs.
Mas as fontes já se amavam.
Ó desconhecimento gerador,
Quanta vaga descoberta na suspeita
Da tua própria origem!
A criação instântica vivida
Mostra, sempre, mais vivência rediviva,
Que uma existência inteira de miragens.
As fontes brotaram para o amor
E as fontes amam fontes desiguais.
Eis porque
As fontes eram lá,
Sem saberem das fontes.
E as fontes já se amavam.
O silêncio cantava silencioso.
Ponte nascida, de repente,
Descortinando espantos e desejos.
Eram duas montanhas existentes,
Sem saberem das fontes.
E as fontes eram lá.
As fontes gêmeas sombras, entretanto,
Não compreendiam
Os reflexos celestes das irmãs.
Mas as fontes já se amavam.
Ó desconhecimento gerador,
Quanta vaga descoberta na suspeita
Da tua própria origem!
A criação instântica vivida
Mostra, sempre, mais vivência rediviva,
Que uma existência inteira de miragens.
As fontes brotaram para o amor
E as fontes amam fontes desiguais.
Eis porque
As fontes eram lá,
Sem saberem das fontes.
E as fontes já se amavam.
773
Humberto Fialho Guedes
Contemplação da Aurora
Deixar-se estar. Quedar imóvel.
Por entre as mãos por entre os gestos
invisíveis no tecer as cores
formas e objetos compondo panoramas.
Deixar-se estar. Os olhos mansos
(derramado olhar banhando muros)
amanhecendo em concreção de pedra e limo;
o cais solene vai barrando águas
em postura de silêncio e longa espera.
Deixar-se estar. E as mãos
amaciando gestos revolvendo sonhos
na modulação do instante percebido
pelos rostos e corações em muda contemplação.
Deixar-se estar. Enquanto
(vivazes e esquivas) gaivotas brancas
sobrevoam ilhas; e o mar azul
(traçado em vagas e horizontes)
derrama nas praias restos de vento.
Deixar-se estar. Quedar imóvel.
Para que nem um pensamento (fímbria de luz)
perturbe o enovelar-se que há no vôo
marítimo das ondas convertido em salto.
Deixar-se estar.
Contemplando os objetos esquecidos
( limitadas formas de extensão exata)
com amor de quem os tem como encontrados
depois de longa busca após os ter perdido.
(Velhos remos lembram velhos braços
ancorados ao velho porto do esquecimento;
contariam velhas estórias se pudessem
ser ouvidos em silêncio e muita fé)
Contemplando os objetos esquecidos:
barcos lemes búzios quilhas
velas e mastros tombados ao som dos ventos.
E enquanto o instante se consome lento
na floração de formas colorindo espaços
derramados sons revelam idos
e anunciam no tempo o que se aguarda:
ao longe se divisa e vão surgindo
corcéis de espuma patinando águas
desfazendo brumas semeando cravos
(brancos e breves) que se vão abrindo
em jorros de luz: cristais da aurora.
Por entre as mãos por entre os gestos
invisíveis no tecer as cores
formas e objetos compondo panoramas.
Deixar-se estar. Os olhos mansos
(derramado olhar banhando muros)
amanhecendo em concreção de pedra e limo;
o cais solene vai barrando águas
em postura de silêncio e longa espera.
Deixar-se estar. E as mãos
amaciando gestos revolvendo sonhos
na modulação do instante percebido
pelos rostos e corações em muda contemplação.
Deixar-se estar. Enquanto
(vivazes e esquivas) gaivotas brancas
sobrevoam ilhas; e o mar azul
(traçado em vagas e horizontes)
derrama nas praias restos de vento.
Deixar-se estar. Quedar imóvel.
Para que nem um pensamento (fímbria de luz)
perturbe o enovelar-se que há no vôo
marítimo das ondas convertido em salto.
Deixar-se estar.
Contemplando os objetos esquecidos
( limitadas formas de extensão exata)
com amor de quem os tem como encontrados
depois de longa busca após os ter perdido.
(Velhos remos lembram velhos braços
ancorados ao velho porto do esquecimento;
contariam velhas estórias se pudessem
ser ouvidos em silêncio e muita fé)
Contemplando os objetos esquecidos:
barcos lemes búzios quilhas
velas e mastros tombados ao som dos ventos.
E enquanto o instante se consome lento
na floração de formas colorindo espaços
derramados sons revelam idos
e anunciam no tempo o que se aguarda:
ao longe se divisa e vão surgindo
corcéis de espuma patinando águas
desfazendo brumas semeando cravos
(brancos e breves) que se vão abrindo
em jorros de luz: cristais da aurora.
884
Glícia Rodrigues
Jantar
A mesa farta
Era como se estivesse vazia
Esvaziada de afeto
Refletindo nas taças
O nada que continham.
Era como se o banquete fosse
Para fantasmas
Ninguém falava, ninguém amava
Só o mastigar.
No silêncio se ouvia
Prestando mais atenção
Uma certa sofreguidão.
Era como se estivesse vazia
Esvaziada de afeto
Refletindo nas taças
O nada que continham.
Era como se o banquete fosse
Para fantasmas
Ninguém falava, ninguém amava
Só o mastigar.
No silêncio se ouvia
Prestando mais atenção
Uma certa sofreguidão.
883
Hélder Muteia
Presença
Sou dos que ainda estão presentes
e bebem do amor a única ausência.
Quantos pedaços de mentiras
retenho na viscosidade do meu cuspo?
Quantas verdades apaixonadas
reclamam ansiosas o esperma das palavras?
Nenhumas, talvez, nenhumas...
escravizo o silêncio
e faço dele o meu mensageiro.
Estou presente em tudo ou mais
e aí onde me procurarem
será a minha próxima ausência.
e bebem do amor a única ausência.
Quantos pedaços de mentiras
retenho na viscosidade do meu cuspo?
Quantas verdades apaixonadas
reclamam ansiosas o esperma das palavras?
Nenhumas, talvez, nenhumas...
escravizo o silêncio
e faço dele o meu mensageiro.
Estou presente em tudo ou mais
e aí onde me procurarem
será a minha próxima ausência.
1 373
Gustavo Alberto Corrêa Pinto
Haicai
Vulto de homem
contra o horizonte...
Solidão azul.
Noite fria.
Mundo em silêncio.
Tosse ao longe...
contra o horizonte...
Solidão azul.
Noite fria.
Mundo em silêncio.
Tosse ao longe...
1 104
Flávio Villa-Lobos
Relume
Pedra, sólida rocha
escondida sob
a terra
rodeada
pelo silêncio dos séculos
sozinha, quieta,
imóvel.
Formação natural
lava vulcânica
cristal de rocha
sedimentada,
preciosa
pedra,
mineral.
Tempo que tece a textura das cores
forja o reluzente reflexo
- diamante bruto,
instantâneo.
Sonho que salta
ofuscante, belo
- lavra de garimpeiro.
Mundo - negra mina
exaurida,
põe à nú vasta
desolação.
.............................
Uma réstia
de tua grande luz
permanece comigo
e vence
toda a escuridão.
escondida sob
a terra
rodeada
pelo silêncio dos séculos
sozinha, quieta,
imóvel.
Formação natural
lava vulcânica
cristal de rocha
sedimentada,
preciosa
pedra,
mineral.
Tempo que tece a textura das cores
forja o reluzente reflexo
- diamante bruto,
instantâneo.
Sonho que salta
ofuscante, belo
- lavra de garimpeiro.
Mundo - negra mina
exaurida,
põe à nú vasta
desolação.
.............................
Uma réstia
de tua grande luz
permanece comigo
e vence
toda a escuridão.
872
Yoji Fujiyama
Opus Zero
A Élcio Xavier
Transmutas tua face, ó Morte, em grave
silêncio. E a comunhão das árvores
humildes é completa pelo toque solene
da fonte. Efêmera e resignada fonte
onde bebias com a indiferença de um vencedor.
Morte, Morte sem símbolo. Inútil espanto
das aves inocentes. Inútil oferta
de um sacrifício. Que representaria o altar
se nele vivesse o perene e não o ocasional?
Que representaria o perpetuar-se
de um canto se a certeza do eterno
bafejasse os seus passos? Oh incerto,
trivial alimento de uma casta de condenados!
Transmutas tua face, ó Morte, em grave
silêncio. E a comunhão das árvores
humildes é completa pelo toque solene
da fonte. Efêmera e resignada fonte
onde bebias com a indiferença de um vencedor.
Morte, Morte sem símbolo. Inútil espanto
das aves inocentes. Inútil oferta
de um sacrifício. Que representaria o altar
se nele vivesse o perene e não o ocasional?
Que representaria o perpetuar-se
de um canto se a certeza do eterno
bafejasse os seus passos? Oh incerto,
trivial alimento de uma casta de condenados!
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