Poemas neste tema
Sol, amanhecer e pôr do sol
Castro Alves
MURMÚRIOS DA TARDE
Êcoute! tout se tait; songe à ta bien-aimée,
Ce soir, sous les tilleuls, à la sombre ramée,
Le rayon du couchant laisse un adieu plus doux;
Ce soir, tout va fleurir: limmortelle nature
Se remplit de parfums, damour et de murmure,
Comme le lit joyeux de deux jeunes époux.
A. de Musset.
Rosa! Rosa de amor purpúrea e bela!
Garret.
Ontem à tarde, quando o sol morria,
A natureza era um poema santo,
De cada moita a escuridão saía,
De cada gruta rebentava um canto,
Ontem à tarde, quando o sol morria.
Do céu azul na profundeza escura
Brilhava a estrela, como um fruto louro,
E qual a foice, que no chão fulgura,
Mostrava a lua o semicirclo douro,
Do céu azul na profundeza escura.
Larga harmonia embalsamava os ares!
Cantava o ninho — suspirava o lago...
E a verde pluma dos sutis palmares
Tinha das ondas o murmúrio vago...
Larga harmonia embalsamava os ares.
Era dos seres a harmonia imensa,
Vago concerto de saudade infinda!
"Sol — não me deixes", diz a vaga extensa,
"Aura — não fujas", diz a flor mais linda;
Era dos seres a harmonia imensa!
"Leva-me! leva-me em teu seio amigo"
Dizia às nuvens o choroso orvalho,
"Rola que foges", diz o ninho antigo,
"Leva-me ainda para um novo galho...
Leva-me! leva-me em teu seio amigo."
"Dá-me inda um beijo, antes que a noite venha!
Inda um calor, antes que chegue o frio. . . "
E mais o musgo se conchega à penha
E mais à penha se conchega o rio...
"Dá-me inda um beijo, antes que a noite venha!"
E tu no entanto no jardim vagavas,
Rosa de amor, celestial Maria...
Ai! como esquiva sobre o chão pisavas,
Ai! como alegre a tua boca ria...
E tu no entanto no jardim vagavas.
Eras a estrela transformada em virgem!
Eras um anjo, que se fez menina!
Tinhas das aves a celeste origem.
Tinhas da lua a palidez divina,
Eras a estrela transformada em virgem!
Flor! Tu chegaste de outra flor mais perto,
Que bela rosa! que fragrância meiga!
Dir-se-ia um riso no jardim aberto,
Dir-se-ia um beijo, que nasceu na veiga...
Flor! Tu chegaste de outra flor mais perto! ...
E eu, que escutava o conversar das flores,
Ouvi que a rosa murmurava ardente:
"Colhe-me, ó virgem, — não terei mais dores,
Guarda-me, ó bela, no teu seio quente..."
E eu escutava o conversar das flores.
"Leva-me! leva-me, ó gentil Maria!"
Também então eu murmurei cismando...
"Minhalma é rosa, que a geada esfria...
Dá-lhe em teus seios um asilo brando...
"Leva-me! leva-me, ó gentfi Maria!..."
Ce soir, sous les tilleuls, à la sombre ramée,
Le rayon du couchant laisse un adieu plus doux;
Ce soir, tout va fleurir: limmortelle nature
Se remplit de parfums, damour et de murmure,
Comme le lit joyeux de deux jeunes époux.
A. de Musset.
Rosa! Rosa de amor purpúrea e bela!
Garret.
Ontem à tarde, quando o sol morria,
A natureza era um poema santo,
De cada moita a escuridão saía,
De cada gruta rebentava um canto,
Ontem à tarde, quando o sol morria.
Do céu azul na profundeza escura
Brilhava a estrela, como um fruto louro,
E qual a foice, que no chão fulgura,
Mostrava a lua o semicirclo douro,
Do céu azul na profundeza escura.
Larga harmonia embalsamava os ares!
Cantava o ninho — suspirava o lago...
E a verde pluma dos sutis palmares
Tinha das ondas o murmúrio vago...
Larga harmonia embalsamava os ares.
Era dos seres a harmonia imensa,
Vago concerto de saudade infinda!
"Sol — não me deixes", diz a vaga extensa,
"Aura — não fujas", diz a flor mais linda;
Era dos seres a harmonia imensa!
"Leva-me! leva-me em teu seio amigo"
Dizia às nuvens o choroso orvalho,
"Rola que foges", diz o ninho antigo,
"Leva-me ainda para um novo galho...
Leva-me! leva-me em teu seio amigo."
"Dá-me inda um beijo, antes que a noite venha!
Inda um calor, antes que chegue o frio. . . "
E mais o musgo se conchega à penha
E mais à penha se conchega o rio...
"Dá-me inda um beijo, antes que a noite venha!"
E tu no entanto no jardim vagavas,
Rosa de amor, celestial Maria...
Ai! como esquiva sobre o chão pisavas,
Ai! como alegre a tua boca ria...
E tu no entanto no jardim vagavas.
Eras a estrela transformada em virgem!
Eras um anjo, que se fez menina!
Tinhas das aves a celeste origem.
Tinhas da lua a palidez divina,
Eras a estrela transformada em virgem!
Flor! Tu chegaste de outra flor mais perto,
Que bela rosa! que fragrância meiga!
Dir-se-ia um riso no jardim aberto,
Dir-se-ia um beijo, que nasceu na veiga...
Flor! Tu chegaste de outra flor mais perto! ...
E eu, que escutava o conversar das flores,
Ouvi que a rosa murmurava ardente:
"Colhe-me, ó virgem, — não terei mais dores,
Guarda-me, ó bela, no teu seio quente..."
E eu escutava o conversar das flores.
"Leva-me! leva-me, ó gentil Maria!"
Também então eu murmurei cismando...
"Minhalma é rosa, que a geada esfria...
Dá-lhe em teus seios um asilo brando...
"Leva-me! leva-me, ó gentfi Maria!..."
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Castro Alves
A Tarde
Era a hora em que a tarde se debruça
Lá da crista das serras mais remotas...
E daraponga o canto, que soluça,
Acorda os ecos nas sombrias grotas;
Quando sobre a lagoa, que sembuça,
Passa o bando selvagem das gaivotas ...
E a onça sobre as lapas salta urrando,
Da cordilheira os visos abalando.
Era a hora em que os cardos rumorejam
Como um abrir de bocas inspiradas,
E os angicos as comas espanejam
Pelos dedos das auras perfumadas ...
A hora em que as gardênias, que se beijam,
São tímidas, medrosas desposadas;
E a pedra... a flor... as selvas ... os condores
Gaguejam... falam... cantam seus amores!
Hora meiga da Tarde! Como és bela
Quando surges do azul da zona ardente!
... Tu és do céu a pálida donzela,
Que se banha nas termas do oriente...
Quando é gota do banho cada estrela.
Que te rola da espádua refulgente...
E, — prendendo-te a trança a meia lua,
Te enrolas em neblinas seminua!...
Eu amo-te, ó mimosa do infinito!
Tu me lembras o tempo em que era infante.
Inda adora-te o peito do precito
No meio do martírio excruciante;
E, se não te dá mais da infância o grito
Que menino elevava-te arrogante,
É que agora os martírios foram tantos,
Que mesmo para o riso só tem prantos! ...
Mas não mesqueço nunca dos fraguedos
Onde infante selvagem me guiavas,
E os ninhos do sofrer que entre os silvedos
Da embaíba nos ramos me apontavas;
Nem, mais tarde, dos lânguidos segredos
De amor do nenufar que enamoravas...
E as tranças mulheris da granadilha!. . .
E os abraços fogosos da baunilha! ...
E te amei tanto - cheia de harmonias
A murmurar os cantos da serrana, —
A lustrar o broquei das serranias,
A doirar dos rendeiros a cabana...
E te amei tanto — à flor das águas frias
Da lagoa agitando a verde cana,
Que sonhava morrer entre os palmares,
Fitando o céu ao tom dos teus cantares! ...
Mas hoje, da procela aos estridores,
Sublime, desgrenhada sobre o monte,
Eu quisera fitar-te entre os condores
Das nuvens arruivadas do horizonte...
... Para então, — do relâmpago aos livores,
Que descobrem do espaço a larga fronte, --
Contemplando o infinito. . ., na floresta
Rolar ao som da funeral orquestra!!!
Lá da crista das serras mais remotas...
E daraponga o canto, que soluça,
Acorda os ecos nas sombrias grotas;
Quando sobre a lagoa, que sembuça,
Passa o bando selvagem das gaivotas ...
E a onça sobre as lapas salta urrando,
Da cordilheira os visos abalando.
Era a hora em que os cardos rumorejam
Como um abrir de bocas inspiradas,
E os angicos as comas espanejam
Pelos dedos das auras perfumadas ...
A hora em que as gardênias, que se beijam,
São tímidas, medrosas desposadas;
E a pedra... a flor... as selvas ... os condores
Gaguejam... falam... cantam seus amores!
Hora meiga da Tarde! Como és bela
Quando surges do azul da zona ardente!
... Tu és do céu a pálida donzela,
Que se banha nas termas do oriente...
Quando é gota do banho cada estrela.
Que te rola da espádua refulgente...
E, — prendendo-te a trança a meia lua,
Te enrolas em neblinas seminua!...
Eu amo-te, ó mimosa do infinito!
Tu me lembras o tempo em que era infante.
Inda adora-te o peito do precito
No meio do martírio excruciante;
E, se não te dá mais da infância o grito
Que menino elevava-te arrogante,
É que agora os martírios foram tantos,
Que mesmo para o riso só tem prantos! ...
Mas não mesqueço nunca dos fraguedos
Onde infante selvagem me guiavas,
E os ninhos do sofrer que entre os silvedos
Da embaíba nos ramos me apontavas;
Nem, mais tarde, dos lânguidos segredos
De amor do nenufar que enamoravas...
E as tranças mulheris da granadilha!. . .
E os abraços fogosos da baunilha! ...
E te amei tanto - cheia de harmonias
A murmurar os cantos da serrana, —
A lustrar o broquei das serranias,
A doirar dos rendeiros a cabana...
E te amei tanto — à flor das águas frias
Da lagoa agitando a verde cana,
Que sonhava morrer entre os palmares,
Fitando o céu ao tom dos teus cantares! ...
Mas hoje, da procela aos estridores,
Sublime, desgrenhada sobre o monte,
Eu quisera fitar-te entre os condores
Das nuvens arruivadas do horizonte...
... Para então, — do relâmpago aos livores,
Que descobrem do espaço a larga fronte, --
Contemplando o infinito. . ., na floresta
Rolar ao som da funeral orquestra!!!
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Clodoveu A. de Almeida
Saudades
Tardes cor de ouro,
violáceas, afetuosas.
Tardes de pressentimento, de meditação,
que inundais de perfume e que cobris de rosas
meigos recantos de meu coração.
Tardes de doçura e recolhimento,
aveludadas, de arminho
Insinuais a delícia do carinho
e a beleza sem par do querer bem.
Enfeitais o infinito em linda cor de vinho,
lembrais a suavidade espiritual de alguém.
Vós que viveis acompanhando
toda a melancolia de meu ser,
ide longe, longe, para quem eu amo
dizei-lhe coisas que não sei dizer.
Tardes de reclínio, tardes de bondade,
cheias de mansidão crepuscular,
ide, contai-lhe esta agônica saudade
dizei-lhe da Amizade,
do amor
e do pesar...
Voai, voai, através destes espaços,
tardes religiosas, tardes calmas
e levai-lhe o aconchego de meus braços
uní eternamente as nossas almas.
violáceas, afetuosas.
Tardes de pressentimento, de meditação,
que inundais de perfume e que cobris de rosas
meigos recantos de meu coração.
Tardes de doçura e recolhimento,
aveludadas, de arminho
Insinuais a delícia do carinho
e a beleza sem par do querer bem.
Enfeitais o infinito em linda cor de vinho,
lembrais a suavidade espiritual de alguém.
Vós que viveis acompanhando
toda a melancolia de meu ser,
ide longe, longe, para quem eu amo
dizei-lhe coisas que não sei dizer.
Tardes de reclínio, tardes de bondade,
cheias de mansidão crepuscular,
ide, contai-lhe esta agônica saudade
dizei-lhe da Amizade,
do amor
e do pesar...
Voai, voai, através destes espaços,
tardes religiosas, tardes calmas
e levai-lhe o aconchego de meus braços
uní eternamente as nossas almas.
1 136
Bernardo Guimarães
Hino à Tarde
A tarde está tão bela e tão serena
Que convida a cismar .. Ei-la saudosa
E meiga reclinada
Em seu etéreo leito,
Da muda noite amável precursora;
Do róseo seio aromas transpirando,
Com vagos cantos, com gentil sorriso
Ao repouso convida a natureza.
Montão de nuvens, como vasto incêndio,
Resplende no horizonte, e o clarão rábido
Céus e montes ao longe purpureia.
Pelas odoras veigas
As auras brandamente se espreguiçam,
E o sabiá na encosta solitária
Saudoso cadenceia
Pousado arpejo, que entristece os termos.
Oh! que grato remanso! — que hora amena,
Propícia aos sonhos dalma!
Quem me dera voltar à feliz quadra,
Em que este coração me transbordava
De emoções virginais, de afetos puros!
Em que esta alma em seu selo refletia,
Como o cristal da fonte, pura ainda,
Todo o fulgor do céu, toda a beleza
E magia da terra! ...ó doce quadrar
Quão veloz te sumiste — como um sonho
Nas sombras do passado!
Quanto eu te amava então, tarde formosa.
Qual pastora gentil, que se reclina
Rósea e louçã, sobre a macia relva,
Das diurnas fadigas descansando;
A face em que o afã lhe acende as cores,
Na mão repousa — os seios lhe estremecem
No mole arfar, e o lume de seus olhos
Em suave langor vai desmaiando;
Assim me aparecias, meiga tarde,
Sobre os montes do ocaso debruçada;
Tu eras o anjo da melancolia
Que à paz da solidão me convidava.
Então no tronco, que o tufão prostrava
No viso da colina ou na erma rocha,
Sobre a margem do abismo pendurada,
Me assentava a cismar, nutrindo a mente
De arroubadas visões, de aéreos sonhos.
Contigo a sós sentindo o teu bafejo
De aromas e frescor banhar-me a fronte,
E afagar brandamente os meus cabelos,
Minhalma então boiava docemente
Por um mar de ilusões e parecia
Que um coro aéreo, pelo azul do espaço,
Me ia embalando com sonoras dálias:
De um puro sonho sobre as asas de ouro
Me voava enlevado o pensamento,
Encantadas paragens devassando;
Ou nas vagas de luz que o ocaso inundam
Afoito me embebia, e o espaço infindo
Transpondo, ia entrever no estranho arroubo
Os radiantes pórticos do Elísio.
Ó sonhos meus, ó ilusões amenas
De meus primeiros anos,
Poesia, amor, Saudades, esperanças,
Onde fostes? por que me abandonasses?
Inda do tempo me não pesa a destra
E não me alveja a fronte; — inda não sinto
Cercar-me o coração da idade os gelos,
E já vós me fugis, ó ledas flores
De minha primavera!
E assim vós me deixais, — tronco sem seiva,
Só, definhando na aridez do mundo?
sonhos meus, por que me abandonasses?
A tarde está tão bela e tão serena
Que convida a cismar: — vai pouco a pouco
Desmaiando o rubor dos horizontes,
E pela amena solidão dos vales
Caladas sombras pousam: — breve a noite
Abrigará com a sombra de seu manto
A terra adormecida.
Vinde ainda uma vez, meus sonhos de ouro,
Nesta hora, em que tudo sobre a terra
Suspira, cisma ou canta,
Como esse afagador extremo raio,
Que à tarde pousa sobre as grimpas ermas,
Vinde pairar ainda sobre a fronte
Do bardo pensativo; — iluminara
Com um raio inspirado;
Antes que os ecos todos adormeçam
Da noite no silêncio,
Quero um hino vibrar nas cordas dharpa
Para saudar a filha do crepúsculo.
Ai de mim! — esses tempos já caíram
Na sombria voragem do passado!
Os meus Sonhos queridos se esvaíram,
Como após o festim murchas se espalham
As flores da grinalda:
Perdeu a fantasia as asas de ouro
Com que Se alava às regiões sublimes
De mágica poesia,
E despojada de seus doces sonhos
Minhalma vela a sós com o sofrimento,
Qual vela o condenado
Em sombria masmorra à luz sinistra
De amortecida lâmpada.
Adeus, formosa filha do Ocidente,
Virgem de olhar sereno que meus sonhos
Em doces harmonias transformavas;
Adeus, ó tarde! — já nas frouxas cordas
Rouqueja o vento e a voz me desfalece...
Mil e mil vezes raiarás ainda
Nestes sítios saudosos que escutaram
De minha lira o desleixado acento;
Mas ai de mim! nas solitárias veigas
Não mais escutarás a voz do bardo,
Hinos casando ao sussurrar da brisa
Para saudar teus mágicos fulgores!
Silenciosa e triste está minhalma,
Bem como lira de estaladas cordas
Que o trovador esquece pendurada
No ramo do arvoredo,
Em ócio triste balançando ao vento.
Que convida a cismar .. Ei-la saudosa
E meiga reclinada
Em seu etéreo leito,
Da muda noite amável precursora;
Do róseo seio aromas transpirando,
Com vagos cantos, com gentil sorriso
Ao repouso convida a natureza.
Montão de nuvens, como vasto incêndio,
Resplende no horizonte, e o clarão rábido
Céus e montes ao longe purpureia.
Pelas odoras veigas
As auras brandamente se espreguiçam,
E o sabiá na encosta solitária
Saudoso cadenceia
Pousado arpejo, que entristece os termos.
Oh! que grato remanso! — que hora amena,
Propícia aos sonhos dalma!
Quem me dera voltar à feliz quadra,
Em que este coração me transbordava
De emoções virginais, de afetos puros!
Em que esta alma em seu selo refletia,
Como o cristal da fonte, pura ainda,
Todo o fulgor do céu, toda a beleza
E magia da terra! ...ó doce quadrar
Quão veloz te sumiste — como um sonho
Nas sombras do passado!
Quanto eu te amava então, tarde formosa.
Qual pastora gentil, que se reclina
Rósea e louçã, sobre a macia relva,
Das diurnas fadigas descansando;
A face em que o afã lhe acende as cores,
Na mão repousa — os seios lhe estremecem
No mole arfar, e o lume de seus olhos
Em suave langor vai desmaiando;
Assim me aparecias, meiga tarde,
Sobre os montes do ocaso debruçada;
Tu eras o anjo da melancolia
Que à paz da solidão me convidava.
Então no tronco, que o tufão prostrava
No viso da colina ou na erma rocha,
Sobre a margem do abismo pendurada,
Me assentava a cismar, nutrindo a mente
De arroubadas visões, de aéreos sonhos.
Contigo a sós sentindo o teu bafejo
De aromas e frescor banhar-me a fronte,
E afagar brandamente os meus cabelos,
Minhalma então boiava docemente
Por um mar de ilusões e parecia
Que um coro aéreo, pelo azul do espaço,
Me ia embalando com sonoras dálias:
De um puro sonho sobre as asas de ouro
Me voava enlevado o pensamento,
Encantadas paragens devassando;
Ou nas vagas de luz que o ocaso inundam
Afoito me embebia, e o espaço infindo
Transpondo, ia entrever no estranho arroubo
Os radiantes pórticos do Elísio.
Ó sonhos meus, ó ilusões amenas
De meus primeiros anos,
Poesia, amor, Saudades, esperanças,
Onde fostes? por que me abandonasses?
Inda do tempo me não pesa a destra
E não me alveja a fronte; — inda não sinto
Cercar-me o coração da idade os gelos,
E já vós me fugis, ó ledas flores
De minha primavera!
E assim vós me deixais, — tronco sem seiva,
Só, definhando na aridez do mundo?
sonhos meus, por que me abandonasses?
A tarde está tão bela e tão serena
Que convida a cismar: — vai pouco a pouco
Desmaiando o rubor dos horizontes,
E pela amena solidão dos vales
Caladas sombras pousam: — breve a noite
Abrigará com a sombra de seu manto
A terra adormecida.
Vinde ainda uma vez, meus sonhos de ouro,
Nesta hora, em que tudo sobre a terra
Suspira, cisma ou canta,
Como esse afagador extremo raio,
Que à tarde pousa sobre as grimpas ermas,
Vinde pairar ainda sobre a fronte
Do bardo pensativo; — iluminara
Com um raio inspirado;
Antes que os ecos todos adormeçam
Da noite no silêncio,
Quero um hino vibrar nas cordas dharpa
Para saudar a filha do crepúsculo.
Ai de mim! — esses tempos já caíram
Na sombria voragem do passado!
Os meus Sonhos queridos se esvaíram,
Como após o festim murchas se espalham
As flores da grinalda:
Perdeu a fantasia as asas de ouro
Com que Se alava às regiões sublimes
De mágica poesia,
E despojada de seus doces sonhos
Minhalma vela a sós com o sofrimento,
Qual vela o condenado
Em sombria masmorra à luz sinistra
De amortecida lâmpada.
Adeus, formosa filha do Ocidente,
Virgem de olhar sereno que meus sonhos
Em doces harmonias transformavas;
Adeus, ó tarde! — já nas frouxas cordas
Rouqueja o vento e a voz me desfalece...
Mil e mil vezes raiarás ainda
Nestes sítios saudosos que escutaram
De minha lira o desleixado acento;
Mas ai de mim! nas solitárias veigas
Não mais escutarás a voz do bardo,
Hinos casando ao sussurrar da brisa
Para saudar teus mágicos fulgores!
Silenciosa e triste está minhalma,
Bem como lira de estaladas cordas
Que o trovador esquece pendurada
No ramo do arvoredo,
Em ócio triste balançando ao vento.
1 833
Aymar Mendonça
Prismático
Toca o mistério da cumeeira
o bico da gralha azul
Ali a casa de fogo
o riso desvairado
o céu aquecido de astracã
A gralha azulando o tempo
a cumeeira se desmistificando
e os olhos contemplando
os segredos da casa que sorri
Prelúdio de aurora.
o bico da gralha azul
Ali a casa de fogo
o riso desvairado
o céu aquecido de astracã
A gralha azulando o tempo
a cumeeira se desmistificando
e os olhos contemplando
os segredos da casa que sorri
Prelúdio de aurora.
829
Bruno Araújo de Melo
A Tentativa dos Sonâmbulos
Hoje eu quero sair
E conversar com muita gente;
E ver o por-do-sol;
E crer no sol queimando lentamente.
Todo o tempo do mundo
Para mim que estou tão só
Refazer as pinturas
Nesses quadros
Que criei
Enquanto sonhava;
Ainda quero ver
Pessoas rindo sem pensar
Que há tanta lágrima
No fim de tudo.
E quero ver também
O mundo todo se alegrar
Ao perceber que as coisas
Tem um jeito próprio.
E não precisa ser perfeito
O nosso álbum de retratos;
Sempre há momentos ruins...
Um dia iremos nos lembrar
Sem julgamento algum, de tudo.
Sabendo que o que fizemos,
Foi uma tentativa
De fazer a vida
Mais feliz.
E conversar com muita gente;
E ver o por-do-sol;
E crer no sol queimando lentamente.
Todo o tempo do mundo
Para mim que estou tão só
Refazer as pinturas
Nesses quadros
Que criei
Enquanto sonhava;
Ainda quero ver
Pessoas rindo sem pensar
Que há tanta lágrima
No fim de tudo.
E quero ver também
O mundo todo se alegrar
Ao perceber que as coisas
Tem um jeito próprio.
E não precisa ser perfeito
O nosso álbum de retratos;
Sempre há momentos ruins...
Um dia iremos nos lembrar
Sem julgamento algum, de tudo.
Sabendo que o que fizemos,
Foi uma tentativa
De fazer a vida
Mais feliz.
854
Artur Eduardo Benevides
Numa Sexta-Feira de Junho
Saudades. Todas tuas. Quão sozinho!
Quão cheio de esperanças me perdi!
Ao ver-te em plenitude te sofri,
Sentindo-te mais forte do que o vinho.
Saudades. E não vens. Mas adivinho
Como estejas agora por aí.
E juro que ao olhar-te me senti
Como quem nuvens colhe num caminho.
És o sol que me guia ou que me aquece.
És a valsa distante, da quermesse.
És o trigo do sonho a florescer.
Penso em teu rosto fino e delicado
E mesmo ao ver-me assim, tão desolado,
Já quase morto estando, vou viver!
Quão cheio de esperanças me perdi!
Ao ver-te em plenitude te sofri,
Sentindo-te mais forte do que o vinho.
Saudades. E não vens. Mas adivinho
Como estejas agora por aí.
E juro que ao olhar-te me senti
Como quem nuvens colhe num caminho.
És o sol que me guia ou que me aquece.
És a valsa distante, da quermesse.
És o trigo do sonho a florescer.
Penso em teu rosto fino e delicado
E mesmo ao ver-me assim, tão desolado,
Já quase morto estando, vou viver!
1 251
Antônio Nunes de Siqueira
Soneto Acróstico
Voe da fama, ao sempre merecido
Aplauso, que vos deve eternamente,
Sonora tuba com trinado ardente,
Clamor perpétuo de eco enobrecido;
O vosso nome aclame, (que esculpido
Firme de bronze lâmina eminente
Expende) eternizando felizmente
Raro assombro, e jamais nunca excedido
Zenit: Diga que sois o mais glorioso
César, prodígio insigne da eloqüência,
Exemplo singular do valeroso:
Sol, que com predigníssima excelência,
Ainda no Ocidente, luminoso
Repartis, sempre igual, vossa influência.
Aplauso, que vos deve eternamente,
Sonora tuba com trinado ardente,
Clamor perpétuo de eco enobrecido;
O vosso nome aclame, (que esculpido
Firme de bronze lâmina eminente
Expende) eternizando felizmente
Raro assombro, e jamais nunca excedido
Zenit: Diga que sois o mais glorioso
César, prodígio insigne da eloqüência,
Exemplo singular do valeroso:
Sol, que com predigníssima excelência,
Ainda no Ocidente, luminoso
Repartis, sempre igual, vossa influência.
535
António Osório
Haicai
Corte
Crepitou o fogo
E rubro cortou o vôo
da Fidalga palmeira.
Viagem
Pássaro a voar
Na manhã recém-nascida
Rumo à canção.
Crepitou o fogo
E rubro cortou o vôo
da Fidalga palmeira.
Viagem
Pássaro a voar
Na manhã recém-nascida
Rumo à canção.
1 332
Antonio Ferreira dos Santos Júnior
Vislumbres
1
A pedra está ausente
Mas fixa
Meu eterno pensamento.
2
O jacarandá floresce
Roxas
O vento leva --- as flores.
3
Abro os olhos
Na noite
É lua cheia --- sonho.
4
No canto a aranha
Tece
Uma cadeia de silêncio.
5
A palavra lançada
No silêncio
O eco responde: Nada.
6
Ainda existe o sol
Outono
O frio espreita na colina.
7
No centro da mata
Pássaros voam
Nuvens por entre as folhas.
8
Flor --- contínua ternura
Dói
Ela murchar no vaso.
9
O pássaro de asas molhadas
Na noite
Espera a alvorada.
10
Chove miúdo e calmo
No distante
A noite floresce.
11
Rápido na estrada
O lagarto
Torna verde o caminho.
12
Deitadas sob a terra
Raízes
Sonham folhas e flores.
13
É lua cheia
Em teu corpo
Meu pássaro pousa para sempre.
14
O vôo do pássaro
Silencia
A dor da despedida.
15
Ponha asas
Em teu corpo
A montanha é no longe.
16
Faz sol sobre o campo
A chuva
Molhou meus cabelos.
17
Viro mais uma folha
Do livro
E o segredo continua.
18
Falei contigo tantas palavras
E mais
Palavras. Que restou?
19
Caminha --- tua sina
Andar
Até curvar e silenciar.
20
Não vôo mais
É tarde
O repouso é necessário.
21
Sem dor --- é a despedida
Adeus
Flores roxas e amarelas.
22
Este é o abraço
Final
O único que importa.
23
Jogo a pedra pro alto
Silêncio
Círculos se formam no lago.
24
Veloz a garça
Se esgarça
Escuro seu tempo.
25
Solto o lápis da mão
No chão
Palavras caladas.
26
Brancos cabelos
Outono
Antiga primavera na cabeça.
27
O selo não veda
O livro
Dentro -- o Infinito.
28
Há arco - íris
No céu
O resto é silêncio.
29
O touro pára
A capa
É vermelha e a espada.
30
Não penso nada
Na brisa
Um aroma de passado.
A pedra está ausente
Mas fixa
Meu eterno pensamento.
2
O jacarandá floresce
Roxas
O vento leva --- as flores.
3
Abro os olhos
Na noite
É lua cheia --- sonho.
4
No canto a aranha
Tece
Uma cadeia de silêncio.
5
A palavra lançada
No silêncio
O eco responde: Nada.
6
Ainda existe o sol
Outono
O frio espreita na colina.
7
No centro da mata
Pássaros voam
Nuvens por entre as folhas.
8
Flor --- contínua ternura
Dói
Ela murchar no vaso.
9
O pássaro de asas molhadas
Na noite
Espera a alvorada.
10
Chove miúdo e calmo
No distante
A noite floresce.
11
Rápido na estrada
O lagarto
Torna verde o caminho.
12
Deitadas sob a terra
Raízes
Sonham folhas e flores.
13
É lua cheia
Em teu corpo
Meu pássaro pousa para sempre.
14
O vôo do pássaro
Silencia
A dor da despedida.
15
Ponha asas
Em teu corpo
A montanha é no longe.
16
Faz sol sobre o campo
A chuva
Molhou meus cabelos.
17
Viro mais uma folha
Do livro
E o segredo continua.
18
Falei contigo tantas palavras
E mais
Palavras. Que restou?
19
Caminha --- tua sina
Andar
Até curvar e silenciar.
20
Não vôo mais
É tarde
O repouso é necessário.
21
Sem dor --- é a despedida
Adeus
Flores roxas e amarelas.
22
Este é o abraço
Final
O único que importa.
23
Jogo a pedra pro alto
Silêncio
Círculos se formam no lago.
24
Veloz a garça
Se esgarça
Escuro seu tempo.
25
Solto o lápis da mão
No chão
Palavras caladas.
26
Brancos cabelos
Outono
Antiga primavera na cabeça.
27
O selo não veda
O livro
Dentro -- o Infinito.
28
Há arco - íris
No céu
O resto é silêncio.
29
O touro pára
A capa
É vermelha e a espada.
30
Não penso nada
Na brisa
Um aroma de passado.
840
Afonso Duarte
Ex-voto da Paisagem
de Coimbra ao Pôr-do-Sol
Sangue de Inês, Coimbra, é o teu ex-voto.
Ah, quem o crime estranha, a morte chora?
Inês, ó miséria, teu nome invoco
Ao rito da paisagem que o memora.
Em teu perfil de magoada ausente
Que Coimbra de lágrimas incensa,
Teu sangue, à mártir, exilou em Poente,
Doou-te o amor espiritual presença.
Teu infortúnio, aos meus lábios, timbra,
Sangüínea a golpes na hora do sol-pôr,
Que aos outonais poentes de Coimbra
O sol é em sacrifício do teu amor,
E em teu lago, cismátíco paúl,
Olho as nuvens do Céu cor de martírios:
Anda tua Alma poluindo o Azul,
Dorida luz viática de círios.
E ao que esta luz fatídica delira
E ao que a paisagem tem de insatisfeito,
Com meus dedos em febre, as mãos na Lira,
Soluçarei cuidados do teu peito.
Teu vulto de "Mors-amor" recomponho
Quando cai em delíquio a tarde exangue:
— E é a paisagem minha Ágora de sonho ,
— E é o poente a Legenda do teu sangue.
"Mors-amor", sinto! é a expressão do Outono
Que vem dos choupos ao cair da folha!
"Mors-amor", ouço! em ritos de abandono
É o olor das pétalas que o vento esfolha!
Desígnio de algum choupo ou cedro velho
Quando o Sol abre o cálice vermelho
Da imensa flor da tarde, eu sinto, eu sei!
Oh!, mãos em holocausto, eu quero vê-los,
Ao Poente, libando os teus cabelos,
Como se fossem áulicos de El-Rei.
Sangue de Inês, Coimbra, é o teu ex-voto.
Ah, quem o crime estranha, a morte chora?
Inês, ó miséria, teu nome invoco
Ao rito da paisagem que o memora.
Em teu perfil de magoada ausente
Que Coimbra de lágrimas incensa,
Teu sangue, à mártir, exilou em Poente,
Doou-te o amor espiritual presença.
Teu infortúnio, aos meus lábios, timbra,
Sangüínea a golpes na hora do sol-pôr,
Que aos outonais poentes de Coimbra
O sol é em sacrifício do teu amor,
E em teu lago, cismátíco paúl,
Olho as nuvens do Céu cor de martírios:
Anda tua Alma poluindo o Azul,
Dorida luz viática de círios.
E ao que esta luz fatídica delira
E ao que a paisagem tem de insatisfeito,
Com meus dedos em febre, as mãos na Lira,
Soluçarei cuidados do teu peito.
Teu vulto de "Mors-amor" recomponho
Quando cai em delíquio a tarde exangue:
— E é a paisagem minha Ágora de sonho ,
— E é o poente a Legenda do teu sangue.
"Mors-amor", sinto! é a expressão do Outono
Que vem dos choupos ao cair da folha!
"Mors-amor", ouço! em ritos de abandono
É o olor das pétalas que o vento esfolha!
Desígnio de algum choupo ou cedro velho
Quando o Sol abre o cálice vermelho
Da imensa flor da tarde, eu sinto, eu sei!
Oh!, mãos em holocausto, eu quero vê-los,
Ao Poente, libando os teus cabelos,
Como se fossem áulicos de El-Rei.
1 143
Arlete Nogueira da Cruz
Rua dos Afogados
Rua de verdade e de sobrado
onde um sol lhe cai em vertical
onde um herói quer-se afogado
libertando sua ilha natural.
Rua que recolhe o moribundo
sacrifício de quem por ser mortal
mergulha e eleva-se num mundo
de mariscos, de algas e de sal,
Rua que sobre rumo ao porto
desta ilha que se quer liberta
rua que transformava o morto
silêncio da cidade — ó rua
de indormidas noites e aberta
para o poeta descer a sua lua.
onde um sol lhe cai em vertical
onde um herói quer-se afogado
libertando sua ilha natural.
Rua que recolhe o moribundo
sacrifício de quem por ser mortal
mergulha e eleva-se num mundo
de mariscos, de algas e de sal,
Rua que sobre rumo ao porto
desta ilha que se quer liberta
rua que transformava o morto
silêncio da cidade — ó rua
de indormidas noites e aberta
para o poeta descer a sua lua.
1 394
Alfred Edward Housman
THE FAIRIES BREAK
As fadas param a dança,
Dos prados somem agora.
E já do Oriente se avança
A nau de prata da aurora.
Velas queimam castiçais.
Começa o dia a espreitar.
E o bolso apalpa o rapaz:
Será que tem de pagar?
Dos prados somem agora.
E já do Oriente se avança
A nau de prata da aurora.
Velas queimam castiçais.
Começa o dia a espreitar.
E o bolso apalpa o rapaz:
Será que tem de pagar?
1 082
Lope de Vega
CANTAR DE CEIFA
CANTAR DE CEIFA
Tão branca tanto que eu era,
quando entrei para ceifeira;
deu-me o sol, fiquei morena.
Tão branca soía eu ser
antes de vir a ceifar,
mas não quis o sol deixar
branco o fogo em meu poder.
No tempo do amanhecer
era eu brilhante açucena:
deu-me o sol, fiquei morena.
Tão branca tanto que eu era,
quando entrei para ceifeira;
deu-me o sol, fiquei morena.
Tão branca soía eu ser
antes de vir a ceifar,
mas não quis o sol deixar
branco o fogo em meu poder.
No tempo do amanhecer
era eu brilhante açucena:
deu-me o sol, fiquei morena.
1 286
Friedrich Hölderlin
Pôr do sol
Onde estás? A alma anoitece-me bêbeda
De todas as tuas delícias; um momento
Escutei o sol, amorável adolescente,
Tirar da lira celeste as notas de ouro do seu canto da noite.
Ecoavam ao redor os bosques e as colinas;
Ele no entanto já ia longe, levando a luz
A gentes mais devotas
Que o honram ainda.
De todas as tuas delícias; um momento
Escutei o sol, amorável adolescente,
Tirar da lira celeste as notas de ouro do seu canto da noite.
Ecoavam ao redor os bosques e as colinas;
Ele no entanto já ia longe, levando a luz
A gentes mais devotas
Que o honram ainda.
1 155
Mary Celeste Bueno
Primavera
A estação libidinosa,
Plena do gosto da vida,
Imprevisível, garrida,
Lânguida e leve, goza.
Plantas, animais e gente,
Cheínhos de seiva e luz,
Erguem-se falicamente,
Ao que o destino os conduz.
Tempo de dor e prazer
Dias de sol e de chuva:
Um novo ciclo amanhece...
Sob a influência da Lua
Assim como tudo, acontece
São as sementes do ser.
Plena do gosto da vida,
Imprevisível, garrida,
Lânguida e leve, goza.
Plantas, animais e gente,
Cheínhos de seiva e luz,
Erguem-se falicamente,
Ao que o destino os conduz.
Tempo de dor e prazer
Dias de sol e de chuva:
Um novo ciclo amanhece...
Sob a influência da Lua
Assim como tudo, acontece
São as sementes do ser.
354
Fernando Correia Pina
Entardecer
Sentada na soleira do portado,
gozando a doce calma, estava a bela
com seu longo cabelo descuidado,
a saia recuada, a perna à vela.
O sol poente, viscoso e descarado,
pintou o fim da tarde em aguarela
e foi beijar-lhe a púbis, delicado,
qual brisa aflorando negra vela.
Cheio de tesão, ergui-me e avancei
feito a lançar a mão sobre o que olhei,
alinhavando umas desculpas toscas.
Porém, ao alcancar-lhe a poejeira,
lamentei amargamente aquela asneira
pois não eram pintelhos mas, sim, moscas.
gozando a doce calma, estava a bela
com seu longo cabelo descuidado,
a saia recuada, a perna à vela.
O sol poente, viscoso e descarado,
pintou o fim da tarde em aguarela
e foi beijar-lhe a púbis, delicado,
qual brisa aflorando negra vela.
Cheio de tesão, ergui-me e avancei
feito a lançar a mão sobre o que olhei,
alinhavando umas desculpas toscas.
Porém, ao alcancar-lhe a poejeira,
lamentei amargamente aquela asneira
pois não eram pintelhos mas, sim, moscas.
1 244
Peter Salém
Sol lindo
Sentamos pra ver o sol indo.
Grama, grilos, coceirinhas...
(O sol
aquela bolona amarela
E nós
sonhos pra dar e dormir.)
Lá ia, lá longe, o sol indo...
Senti o calor que cê tinha
Na pele que, ali, era só minha.
Aquele gosto quente no dente,
Um beijo, um toque, a mão no joelho...
Epa!
Olha que até o sol ficou vermelho.
Grama, grilos, coceirinhas...
(O sol
aquela bolona amarela
E nós
sonhos pra dar e dormir.)
Lá ia, lá longe, o sol indo...
Senti o calor que cê tinha
Na pele que, ali, era só minha.
Aquele gosto quente no dente,
Um beijo, um toque, a mão no joelho...
Epa!
Olha que até o sol ficou vermelho.
1 062
Giovanna Santos
Madrugada
Era madrugada,
quando ainda dormia...
Era madrugada,
quando sonhei com você...
Era madrugada,
quando acordei nos teus braços,
Era madrugada
quando senti o calor do teu corpo...
Era madrugada,
quando parecia que o dia não ia chegar.
Era madrugada,
quando conheci mais uma página da Vida.
Era madrugada,
quando descobri que a Vida
é boa de viver,
enquanto existir você.
quando ainda dormia...
Era madrugada,
quando sonhei com você...
Era madrugada,
quando acordei nos teus braços,
Era madrugada
quando senti o calor do teu corpo...
Era madrugada,
quando parecia que o dia não ia chegar.
Era madrugada,
quando conheci mais uma página da Vida.
Era madrugada,
quando descobri que a Vida
é boa de viver,
enquanto existir você.
822
Eugénia Tabosa
Despertar
Do longe
ainda vinha
um som
longo
de luar
e senti
ainda viva
essa noite
a te sonhar
Na janela
que se abria
um pássaro
veio pousar
era hora
era dia
era sol
a despontar
À minha porta
batias
e corri nua
a te abraçar.
ainda vinha
um som
longo
de luar
e senti
ainda viva
essa noite
a te sonhar
Na janela
que se abria
um pássaro
veio pousar
era hora
era dia
era sol
a despontar
À minha porta
batias
e corri nua
a te abraçar.
1 240
Luiza Neto Jorge
Venho de dentro,abriu-se a porta
Venho
de dentro,abriu-se a porta:nem todas as horas do
dia e da noiteme darão para olhar de
nascentea poente e pelo meio as ilhas.Há um jogo de
relâmpagos sobre o mundode só imaginá-la a luz
fulmina-me,na outra face ainda é sombraBanhos de
solnas primeiras areias da manhãMansidões na pele e
do labirinto sóa convulsa circunvolução do
corpo.
de dentro,abriu-se a porta:nem todas as horas do
dia e da noiteme darão para olhar de
nascentea poente e pelo meio as ilhas.Há um jogo de
relâmpagos sobre o mundode só imaginá-la a luz
fulmina-me,na outra face ainda é sombraBanhos de
solnas primeiras areias da manhãMansidões na pele e
do labirinto sóa convulsa circunvolução do
corpo.
1 510
Luís Miguel Nava
Um Prego
Cravava cuidadosamente um prego na parede, quando pressentiu que, como água dum cano que se rompesse, o futuro poderia jorrar de súbito na cal, uma substância na aparência cristalina mas em cujo seio as formas do presente se diluiriam todas, como se, com os seus contornos, igualmente se perdesse o seu sentido, e um sol se deslocasse, por pouco que fosse, do presente para o futuro, se esvaziasse então no céu, deixando atrás de si uma cicatriz imensa.
1 752