Poemas neste tema
Solidão
Mafalda Veiga
Ilha
Dancei no fio
de uma espada
num poço aberto
em sol vermelho
há tanto tempo
não sei de ti
toquei na chama
mas era um espelho
Soltei a dor
como um segredo
que se guardou
e não se deu
lambi a ferida
de te esperar
mas este sangue
sabia a mar
Há uma ilha
dentro do deserto
há um caminho
numa vaga
há espaço para correr
sob o sol
há um barco vazio
que me arrasta
Andei num fio
de navalha
fui acrobata
e enlouqueci
abri uma fenda
e foi-se o mar
mas este mar
não chega a ti
Há uma ilha
dentro do deserto
há um caminho
numa vaga
há espaço para correr
sob o sol
há um barco vazio
que me arrasta
És uma ilha
dentro do deserto
és um caminho
numa vaga
És espaço pra correr
sob o sol
és um barco vazio
que me arrasta
és um barco vazio
que me arrasta
de uma espada
num poço aberto
em sol vermelho
há tanto tempo
não sei de ti
toquei na chama
mas era um espelho
Soltei a dor
como um segredo
que se guardou
e não se deu
lambi a ferida
de te esperar
mas este sangue
sabia a mar
Há uma ilha
dentro do deserto
há um caminho
numa vaga
há espaço para correr
sob o sol
há um barco vazio
que me arrasta
Andei num fio
de navalha
fui acrobata
e enlouqueci
abri uma fenda
e foi-se o mar
mas este mar
não chega a ti
Há uma ilha
dentro do deserto
há um caminho
numa vaga
há espaço para correr
sob o sol
há um barco vazio
que me arrasta
És uma ilha
dentro do deserto
és um caminho
numa vaga
És espaço pra correr
sob o sol
és um barco vazio
que me arrasta
és um barco vazio
que me arrasta
1 442
Fernando Pessoa
[1] A Cabeça do Grifo: O INFANTE D. HENRIQUE
Em seu trono entre o brilho das esferas,
Com seu manto de noite e solidão,
Tem aos pés o mar novo e as mortas eras —
O único imperador que tem, deveras,
O globo mundo em sua mão.
Com seu manto de noite e solidão,
Tem aos pés o mar novo e as mortas eras —
O único imperador que tem, deveras,
O globo mundo em sua mão.
7 013
Mafalda Veiga
Lenda de Uma Cigana
A lenda de uma cigana
Adormecida ao relento
Que perdeu a caravana
Por seguir o pensamento
Tem dias que anda pairando
Nos rumos do mundo
Tem dias que anda rolando
Nas presas do tempo
Diz a lenda que a cigana
Pelo caminho onde viera
O xaile tinha perdido
E um vagabundo o trouxera
Sacudindo o pó e as mágoas
Como se a cor acordasse
Num abraço dançou com ela
Antes que o vento a roubasse
Só o vento nos roda a saia
Só o vento nos faz dançar
Nos confunde os passos na areia
Muda o rumo às águas do mar
No silêncio mal se ouviam
Dançar descalços na areia
Numa noite quase fria
Estava a lua quase cheia
E pra rasgarem o escuro
Ou fugir à solidão
Ataram corpos cansados
Na sombra vaga do chão
Quando o sol entorna o dia
Ficara o xaile esquecido
E os passos da cigana
Já o vento tinha escondido
Ficou só o vagabundo
Resgatando uma ilusão
Com a alma amordaçada
Na palma da mão
Só o vento nos roda a saia
Só o vento nos faz dançar
Nos confunde os passos na areia
Muda o rumo às águas do mar
Adormecida ao relento
Que perdeu a caravana
Por seguir o pensamento
Tem dias que anda pairando
Nos rumos do mundo
Tem dias que anda rolando
Nas presas do tempo
Diz a lenda que a cigana
Pelo caminho onde viera
O xaile tinha perdido
E um vagabundo o trouxera
Sacudindo o pó e as mágoas
Como se a cor acordasse
Num abraço dançou com ela
Antes que o vento a roubasse
Só o vento nos roda a saia
Só o vento nos faz dançar
Nos confunde os passos na areia
Muda o rumo às águas do mar
No silêncio mal se ouviam
Dançar descalços na areia
Numa noite quase fria
Estava a lua quase cheia
E pra rasgarem o escuro
Ou fugir à solidão
Ataram corpos cansados
Na sombra vaga do chão
Quando o sol entorna o dia
Ficara o xaile esquecido
E os passos da cigana
Já o vento tinha escondido
Ficou só o vagabundo
Resgatando uma ilusão
Com a alma amordaçada
Na palma da mão
Só o vento nos roda a saia
Só o vento nos faz dançar
Nos confunde os passos na areia
Muda o rumo às águas do mar
1 260
Edgar Allan Poe
Spirits of the Dead
Thy soul shall find itself alone
'Mid dark thoughts of the grey tomb-stone;
Not one, of all the crowd, to pry
Into thine hour of secrecy.
Be silent in that solitude,
Which is not loneliness- for then
The spirits of the dead, who stood
In life before thee, are again
In death around thee, and their will
Shall overshadow thee; be still.
The night, though clear, shall frown,
And the stars shall not look down
From their high thrones in the Heaven
With light like hope to mortals given,
But their red orbs, without beam,
To thy weariness shall seem
As a burning and a fever
Which would cling to thee for ever.
Now are thoughts thou shalt not banish,
Now are visions ne'er to vanish;
From thy spirit shall they pass
No more, like dew-drop from the grass.
The breeze, the breath of God, is still,
And the mist upon the hill
Shadowy, shadowy, yet unbroken,
Is a symbol and a token.
How it hangs upon the trees,
A mystery of mysteries!
1827
'Mid dark thoughts of the grey tomb-stone;
Not one, of all the crowd, to pry
Into thine hour of secrecy.
Be silent in that solitude,
Which is not loneliness- for then
The spirits of the dead, who stood
In life before thee, are again
In death around thee, and their will
Shall overshadow thee; be still.
The night, though clear, shall frown,
And the stars shall not look down
From their high thrones in the Heaven
With light like hope to mortals given,
But their red orbs, without beam,
To thy weariness shall seem
As a burning and a fever
Which would cling to thee for ever.
Now are thoughts thou shalt not banish,
Now are visions ne'er to vanish;
From thy spirit shall they pass
No more, like dew-drop from the grass.
The breeze, the breath of God, is still,
And the mist upon the hill
Shadowy, shadowy, yet unbroken,
Is a symbol and a token.
How it hangs upon the trees,
A mystery of mysteries!
1827
1 441
Stéphane Mallarmé
LES PURS ONGLES
As puras unhas do alto dedicando o onix
A angústia, meia-noite, sustem, lampadófora,
Vário vesperal sonho ardido p'la Fênix
Que não recolhe alguma cinerária ânfora.
Nas crede;ncias da sala vazia: nem ptix,
Abolido bib'lô de vaidade sonora
(Que o Mestre foi buscar, suas lágrimas ao Stix
Com tal único objeto que ao se Nada enflora),
Mas perto da janela ao norte aberta algo áureo
Agoniza segundo talvez o cenário
De licornes ruivando fogo contra a nixe,
Ela, defunta nua em espelho, apesar de ora,
Nesse esquecer que o fecha quadro, já se fixe
De só cintilações o septimimo agora.
(Tradução de Jorge de Sena)
A angústia, meia-noite, sustem, lampadófora,
Vário vesperal sonho ardido p'la Fênix
Que não recolhe alguma cinerária ânfora.
Nas crede;ncias da sala vazia: nem ptix,
Abolido bib'lô de vaidade sonora
(Que o Mestre foi buscar, suas lágrimas ao Stix
Com tal único objeto que ao se Nada enflora),
Mas perto da janela ao norte aberta algo áureo
Agoniza segundo talvez o cenário
De licornes ruivando fogo contra a nixe,
Ela, defunta nua em espelho, apesar de ora,
Nesse esquecer que o fecha quadro, já se fixe
De só cintilações o septimimo agora.
(Tradução de Jorge de Sena)
2 064
Edgar Allan Poe
Alone
From childhood's hour I have not been
As others were; I have not seen
As others saw; I could not bring
My passions from a common spring.
From the same source I have not taken
My sorrow; I could not awaken
My heart to joy at the same tone;
And all I loved, I loved alone.
Then- in my childhood, in the dawn
Of a most stormy life- was drawn
From every depth of good and ill
The mystery which binds me still:
From the torrent, or the fountain,
From the red cliff of the mountain,
From the sun that round me rolled
In its autumn tint of gold,
From the lightning in the sky
As it passed me flying by,
From the thunder and the storm,
And the cloud that took the form
(When the rest of Heaven was blue)
Of a demon in my view.
1829
As others were; I have not seen
As others saw; I could not bring
My passions from a common spring.
From the same source I have not taken
My sorrow; I could not awaken
My heart to joy at the same tone;
And all I loved, I loved alone.
Then- in my childhood, in the dawn
Of a most stormy life- was drawn
From every depth of good and ill
The mystery which binds me still:
From the torrent, or the fountain,
From the red cliff of the mountain,
From the sun that round me rolled
In its autumn tint of gold,
From the lightning in the sky
As it passed me flying by,
From the thunder and the storm,
And the cloud that took the form
(When the rest of Heaven was blue)
Of a demon in my view.
1829
1 968
Stéphane Mallarmé
Salut
Rien, cette écume, vierge vers
À ne désigner que la coupe;
Telle loin se noie une troupe
De sirènes mainte à l'envers.
Nous naviguons, ô mes divers
Amis, moi déjà sur la poupe
Vous l'avant fastueux qui coupe
Le flot de foudres et d'hivers;
Une ivresse belle m'engage
Sans craindre même son tangage
De porter debout ce salut
Solitude, récif, étoile
À n'importe ce qui valut
Le blanc souci de notre toile.
À ne désigner que la coupe;
Telle loin se noie une troupe
De sirènes mainte à l'envers.
Nous naviguons, ô mes divers
Amis, moi déjà sur la poupe
Vous l'avant fastueux qui coupe
Le flot de foudres et d'hivers;
Une ivresse belle m'engage
Sans craindre même son tangage
De porter debout ce salut
Solitude, récif, étoile
À n'importe ce qui valut
Le blanc souci de notre toile.
2 726
Cruz e Sousa
VOZ FUGITIVA
Últimos Sonetos
Às vezes na tu'alma, que adormece
tanto e tão fundo, alguma voz escuto
de timbre emocional, claro, impoluto
que uma voz bem amiga me parece.
E fico mudo a ouvi-la, como a prece
de um meigo coração que está de luto
e livre, já, de todo o mal corrupto,
mesmo as afrontas mais cruéis esquece.
Mas outras vezes, sempre em vão, procuro
dessa voz singular o timbre puro,
as essências do céu maravilhosas.
Procuro ansioso, inquieto, alvoroçado,
mas tudo na tu'alma está calado,
no silêncio fatal das nebulosas.
Às vezes na tu'alma, que adormece
tanto e tão fundo, alguma voz escuto
de timbre emocional, claro, impoluto
que uma voz bem amiga me parece.
E fico mudo a ouvi-la, como a prece
de um meigo coração que está de luto
e livre, já, de todo o mal corrupto,
mesmo as afrontas mais cruéis esquece.
Mas outras vezes, sempre em vão, procuro
dessa voz singular o timbre puro,
as essências do céu maravilhosas.
Procuro ansioso, inquieto, alvoroçado,
mas tudo na tu'alma está calado,
no silêncio fatal das nebulosas.
1 674
Antero de Quental
Oceano Nox
Junto do mar, que erguia gravemente
A trágica voz rouca, enquanto o vento
Passava como o voo dum pensamento
Que busca e hesita, inquieto e intermitente,
Junto do mar sentei-me tristemente,
Olhando o céu pesado e nevoento,
E interroguei, cismando, esse lamento
Que saía das coisas vagamente…
Que inquieto desejo vos tortura,
Seres elementares, força obscura?
Em volta de que ideia gravitais?
Mas na imensa extensão onde se esconde
O inconsciente imortal só me responde
Um bramido, um queixume e nada mais.
A trágica voz rouca, enquanto o vento
Passava como o voo dum pensamento
Que busca e hesita, inquieto e intermitente,
Junto do mar sentei-me tristemente,
Olhando o céu pesado e nevoento,
E interroguei, cismando, esse lamento
Que saía das coisas vagamente…
Que inquieto desejo vos tortura,
Seres elementares, força obscura?
Em volta de que ideia gravitais?
Mas na imensa extensão onde se esconde
O inconsciente imortal só me responde
Um bramido, um queixume e nada mais.
2 194
Álvares de Azevedo
DESÂNIMO
Lira dos Vinte Anos
Segunda Parte
Estou agora triste. Há nesta vida
Páginas torvas que se não apagam,
Nódoas que não se lavam... se esquecê-las
De todo não é dado a quem padece...
Ao menos resta ao sonhador consolo
No imaginar dos sonhos de mancebo!
Oh! voltai uma vez! eu sofro tanto!
Meus sonhos, consolai-me! distraí-me!
Anjos das ilusões, as asas brancas
As névoas puras, que outro sol matiza.
Abri ante meus olhos que abraseiam
E lágrimas não tem que a dor do peito
Transbordem um momento...
E tu, imagem,
Ilusão de mulher, querido sonho,
Na hora derradeira, vem sentar-te,
Pensativa e saudosa no meu leito!
O que sofres? que dor desconhecida
Inunda de palor teu rosto virgem?
Por que tu'alma dobra taciturna,
Como um lírio a um bafo d'infortúnio?
Por que tão melancólica suspiras?
Ilusão, ideal, a ti meus sonhos,
Como os cantos a Deus se erguem gemendo!
Por ti meu pobre coração palpita...
Eu sofro tanto! meus exaustos dias
Não sei por que logo ao nascer manchou-os
De negra profecia um Deus irado.
Outros meu fado invejam... Que loucura!
Que valem as ridículas vaidades
De uma vida opulenta, os falsos mimos
De gente que não ama? Até o gênio
Que Deus lançou-me à doentia fronte,
Qual semente perdida num rochedo,
Tudo isso que vale, se padeço!
Nessas horas talvez em mim não pensas:
Pousas sombria a desmaiada face
Na doce mão e pendes-te sonhando
No teu mundo ideal de fantasia...
Se meu orgulho, que fraqueia agora,
Pudesse crer que ao pobre desditoso
Sagravas uma idéia, uma saudade...
Eu seria um instante venturoso!
Mas não... ali no baile fascinante,
Na alegria brutal da noite ardente,
No sorriso ebrioso e tresloucado
Daqueles homens que, pra rir um pouco,
Encobrem sob a máscara o semblante,
Tu não pensas em mim. Na tua idéia
Se minha imagem retratou-se um dia
Foi como a estrela peregrina e pálida
Sobre a face de um lago...
Segunda Parte
Estou agora triste. Há nesta vida
Páginas torvas que se não apagam,
Nódoas que não se lavam... se esquecê-las
De todo não é dado a quem padece...
Ao menos resta ao sonhador consolo
No imaginar dos sonhos de mancebo!
Oh! voltai uma vez! eu sofro tanto!
Meus sonhos, consolai-me! distraí-me!
Anjos das ilusões, as asas brancas
As névoas puras, que outro sol matiza.
Abri ante meus olhos que abraseiam
E lágrimas não tem que a dor do peito
Transbordem um momento...
E tu, imagem,
Ilusão de mulher, querido sonho,
Na hora derradeira, vem sentar-te,
Pensativa e saudosa no meu leito!
O que sofres? que dor desconhecida
Inunda de palor teu rosto virgem?
Por que tu'alma dobra taciturna,
Como um lírio a um bafo d'infortúnio?
Por que tão melancólica suspiras?
Ilusão, ideal, a ti meus sonhos,
Como os cantos a Deus se erguem gemendo!
Por ti meu pobre coração palpita...
Eu sofro tanto! meus exaustos dias
Não sei por que logo ao nascer manchou-os
De negra profecia um Deus irado.
Outros meu fado invejam... Que loucura!
Que valem as ridículas vaidades
De uma vida opulenta, os falsos mimos
De gente que não ama? Até o gênio
Que Deus lançou-me à doentia fronte,
Qual semente perdida num rochedo,
Tudo isso que vale, se padeço!
Nessas horas talvez em mim não pensas:
Pousas sombria a desmaiada face
Na doce mão e pendes-te sonhando
No teu mundo ideal de fantasia...
Se meu orgulho, que fraqueia agora,
Pudesse crer que ao pobre desditoso
Sagravas uma idéia, uma saudade...
Eu seria um instante venturoso!
Mas não... ali no baile fascinante,
Na alegria brutal da noite ardente,
No sorriso ebrioso e tresloucado
Daqueles homens que, pra rir um pouco,
Encobrem sob a máscara o semblante,
Tu não pensas em mim. Na tua idéia
Se minha imagem retratou-se um dia
Foi como a estrela peregrina e pálida
Sobre a face de um lago...
3 226
Cruz e Sousa
VÃO ARREBATAMENTO
Últimos Sonetos
Partes um dia das Curiosidades
do teu ser singular, partes em busca
de almas irmãs, cujo esplendor ofusca
as celestes, divinas claridades.
Rasgas terras e céus, imensidades,
dos perigos da Vida a vaga brusca,
queima-te o sol que na Amplidão corusca
e consola-te a lua das saudades.
Andas por toda a parte, em toda a parte
a sedução das almas a falar-te,
como da Terra luminosos marcos.
E a sorrir e a gemer e soluçando
ah! sempre em busca de almas vais andando
mas em vez delas encontrando charcos!
Partes um dia das Curiosidades
do teu ser singular, partes em busca
de almas irmãs, cujo esplendor ofusca
as celestes, divinas claridades.
Rasgas terras e céus, imensidades,
dos perigos da Vida a vaga brusca,
queima-te o sol que na Amplidão corusca
e consola-te a lua das saudades.
Andas por toda a parte, em toda a parte
a sedução das almas a falar-te,
como da Terra luminosos marcos.
E a sorrir e a gemer e soluçando
ah! sempre em busca de almas vais andando
mas em vez delas encontrando charcos!
1 381
Felipe Larson
NA ESPERA DA SUA VOLTA
A solidão está presente
Meus amigos onde estão?
E fico aqui sozinho em casa
Escrevendo cartas
Só me telefone, na hora exata,
Na hora marcada.
Mas a canção só é cantada
Quando há uma razão
O coração não sabe nada
Do que é sentir saudades
Eu não entendo mais nada
Não sei porque você se foi
Mas espero sua volta
A nossa casa agora tão vazia
O que a sua falta me faz
Não durmo mais tranqüilo
Sem seu carinho
Meus amigos onde estão?
E fico aqui sozinho em casa
Escrevendo cartas
Só me telefone, na hora exata,
Na hora marcada.
Mas a canção só é cantada
Quando há uma razão
O coração não sabe nada
Do que é sentir saudades
Eu não entendo mais nada
Não sei porque você se foi
Mas espero sua volta
A nossa casa agora tão vazia
O que a sua falta me faz
Não durmo mais tranqüilo
Sem seu carinho
606
Felipe Larson
A ARTE DE PODER VOAR
Há alguma coisa diferente pairando no ar...
Pareço estar, alegremente, vendo o mundo girar.
E quem se importa com isso?
O estado que me encontro se que vai passar
Para apagar as marcas feitas ao chão
Pois tenho no peito um humilde coração
Você não sabe o que é querer ficar só
Ficando somente com o meu silêncio
Tendo uma razão pra ficar aqui
Pra ver se encontro meu caminho
Quero mostrar a vida com toda sua nitidez
Agora o pensamento parece mais sereno
Vejo você, mesmo assim, não me entende,
E a noite custa a chegar
Quero me por pra fora, me sentir mais puro,
Como se eu pudesse voar ao céu
Onde ninguém pudesse alcançar pra me buscar
Pareço estar, alegremente, vendo o mundo girar.
E quem se importa com isso?
O estado que me encontro se que vai passar
Para apagar as marcas feitas ao chão
Pois tenho no peito um humilde coração
Você não sabe o que é querer ficar só
Ficando somente com o meu silêncio
Tendo uma razão pra ficar aqui
Pra ver se encontro meu caminho
Quero mostrar a vida com toda sua nitidez
Agora o pensamento parece mais sereno
Vejo você, mesmo assim, não me entende,
E a noite custa a chegar
Quero me por pra fora, me sentir mais puro,
Como se eu pudesse voar ao céu
Onde ninguém pudesse alcançar pra me buscar
726
Isaac Felipe Azofeifa
Itinerário simples de sua ausência
Hoje não vieste ao parque.
Poderia pôr-me a recolher do solo
a luz desorientada e sem objeto
que caiu em teu banco.
Para que vou falar
se não está teu silêncio.
Para que hei de olhar sem tua olhada.
E este relógio do coração que espera
golpeando
e doendo.
Esta noite de lua e tu distante.
Necessito a meu lado tuas perguntas.
E te encontrar no ar como brasa,
como uma chama doce,
como silêncio e regaço,
como noite e repouso, como quando
guiávamos a nossa lua até a casa.
Que buquê de rosas esquecidas.
Que tíbia pluma e mansa luz
teu corpo como uma árvore,
como uma árvore gritando
com tanto poro aberto, com tanto sangue
em ondas doces elevando-se.
Oh, sagrada torrente do naufrágio.
Como amaria me perder
Poderia pôr-me a recolher do solo
a luz desorientada e sem objeto
que caiu em teu banco.
Para que vou falar
se não está teu silêncio.
Para que hei de olhar sem tua olhada.
E este relógio do coração que espera
golpeando
e doendo.
Esta noite de lua e tu distante.
Necessito a meu lado tuas perguntas.
E te encontrar no ar como brasa,
como uma chama doce,
como silêncio e regaço,
como noite e repouso, como quando
guiávamos a nossa lua até a casa.
Que buquê de rosas esquecidas.
Que tíbia pluma e mansa luz
teu corpo como uma árvore,
como uma árvore gritando
com tanto poro aberto, com tanto sangue
em ondas doces elevando-se.
Oh, sagrada torrente do naufrágio.
Como amaria me perder
862
Manuel Machado
Outono
No parque, eu só...
Hão fechado
e, esquecido
no parque velho, só
Hão-me deixado.
A folha seca
vagamente
indolente
roça o solo...
Nada sei,
nada quero,
nada espero,
Nada...
Só
no parque hão-me deixado
esquecido,
...e hão fechado.
Hão fechado
e, esquecido
no parque velho, só
Hão-me deixado.
A folha seca
vagamente
indolente
roça o solo...
Nada sei,
nada quero,
nada espero,
Nada...
Só
no parque hão-me deixado
esquecido,
...e hão fechado.
1 023
César Vallejo
Pedra preta sobre pedra branca
Morrerei em Paris com aguaceiro,
um dia do qual tenho já a lembrança.
Morrerei em Paris - e não me apresso -
talvez em uma quinta-feira, como é hoje, de outono.
Quinta-feira será, porque hoje, quinta, que proseio
estes versos, os úmeros hei posto
a mau e, jamais como hoje, hei voltado
com todo meu caminho, a ver-me só.
César Vallejo há morto, lhe batiam
todos sem que ele lhes faça nada
davam-lhe forte com um pau e duro
Também com uma corda, são testemunhos
os dias de quinta e os ossos úmeros,
a solidão, a chuva, os caminhos...
um dia do qual tenho já a lembrança.
Morrerei em Paris - e não me apresso -
talvez em uma quinta-feira, como é hoje, de outono.
Quinta-feira será, porque hoje, quinta, que proseio
estes versos, os úmeros hei posto
a mau e, jamais como hoje, hei voltado
com todo meu caminho, a ver-me só.
César Vallejo há morto, lhe batiam
todos sem que ele lhes faça nada
davam-lhe forte com um pau e duro
Também com uma corda, são testemunhos
os dias de quinta e os ossos úmeros,
a solidão, a chuva, os caminhos...
1 450
Yolanda Bedregal
Ressaca
Quando já a ressaca deixe minha alma na praia,
e do arco cansado de meu ombro se vai
a asa cortada, qual vela desafiante,
em cicatriz e marca prolongará o instante.
Ficarão vigiando, símbolo trivial,
dois pobres olhos pródigos e uma mendiga fronte
Catacumba de água, amor! No me conheces!
Nem ninguém nos conhece. Só há fugazes toques,
desencontros, na apertada mudez de encruzilhadas.
Expiam sua demora, presenças nunca achadas.
Não são cruz já os braços nem altar para holocausto
de selvagens ternuras. Com seu resplendor exausto,
um sol desalentado afunda os abismos.
Somos pó e luzeiro, tudo em nós mesmos.
Para esta elementar cinza taciturna
seja a imensa lágrima do Mar celeste urna.
e do arco cansado de meu ombro se vai
a asa cortada, qual vela desafiante,
em cicatriz e marca prolongará o instante.
Ficarão vigiando, símbolo trivial,
dois pobres olhos pródigos e uma mendiga fronte
Catacumba de água, amor! No me conheces!
Nem ninguém nos conhece. Só há fugazes toques,
desencontros, na apertada mudez de encruzilhadas.
Expiam sua demora, presenças nunca achadas.
Não são cruz já os braços nem altar para holocausto
de selvagens ternuras. Com seu resplendor exausto,
um sol desalentado afunda os abismos.
Somos pó e luzeiro, tudo em nós mesmos.
Para esta elementar cinza taciturna
seja a imensa lágrima do Mar celeste urna.
545
Ricardo Miró
A última gaivota
Como uma franja agitada, rasgada
do manto da tarde, em rápido vôo
se esfuma o bando pelo céu
buscando, acaso, uma ribeira desconhecida.
Atrás, muito longe, segue uma gaivota
que com crescente e persistente desejo
vai da solidão rasgando o véu
por alcançar o bando, já remoto.
Da tarde surgiu a casta estrela
e achou sempre voando a esquecida,
da rápida patrulha atrás a hulha.
História de minha vida compreendida,
porque eu sou, qual gaivota aquela,
ave deixada atrás pelo bando!
do manto da tarde, em rápido vôo
se esfuma o bando pelo céu
buscando, acaso, uma ribeira desconhecida.
Atrás, muito longe, segue uma gaivota
que com crescente e persistente desejo
vai da solidão rasgando o véu
por alcançar o bando, já remoto.
Da tarde surgiu a casta estrela
e achou sempre voando a esquecida,
da rápida patrulha atrás a hulha.
História de minha vida compreendida,
porque eu sou, qual gaivota aquela,
ave deixada atrás pelo bando!
914
Márcia Cristina Silva
Viagem vital
Às vezes
é preciso
destravar as portas
abrir todas as janelas
soltar o cinto da insegurança
e decolar...
Para assistir à Terra
de luneta
Comer pipoca
sentada na lua
Escorregar pelas pontas das estrelas
Dançar no ventre das nuvens
Sonhar em outros planetas
Às vezes
é preciso
ficar só
com um papel e uma caneta!
é preciso
destravar as portas
abrir todas as janelas
soltar o cinto da insegurança
e decolar...
Para assistir à Terra
de luneta
Comer pipoca
sentada na lua
Escorregar pelas pontas das estrelas
Dançar no ventre das nuvens
Sonhar em outros planetas
Às vezes
é preciso
ficar só
com um papel e uma caneta!
1 081
Gabriela Guglielmo
A caixa
Na caixa tem
tudo: tem
comida, tem
banheiro,
tem cama
Na caixa
há brigas
há discussões
há choros
Na caixa
tem arrependimento
tem medo
tem agonia
A caixa
tem cheiro
de salvação
Gabriela Guglielmo, aluna da 6ª Série do Colégio Bialik dedicou esta poesia a
Anne Frank (foto).
tudo: tem
comida, tem
banheiro,
tem cama
Na caixa
há brigas
há discussões
há choros
Na caixa
tem arrependimento
tem medo
tem agonia
A caixa
tem cheiro
de salvação
Gabriela Guglielmo, aluna da 6ª Série do Colégio Bialik dedicou esta poesia a
Anne Frank (foto).
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Mario Benedetti
Rosto de ti
Tenho uma solidão
tão concorrida
tão cheia de nostalgias
e de rostos teus
de adeuses faz tempo
e beijos bem vindos
de primeiras de troca
e de último vagão
Tenho uma solidão
tão concorrida
que posso organizá-la
como uma procissão
por cores
tamanhos
e promessas
por época
por tato e sabor
sem um tremer de mais
me abraço a tuas ausências
que assistem e me assistem
com meu rosto de ti
Estou cheio de sombras
de noites e desejos
de risos e de alguma maldição
Meus hóspedes concorrem
concorrem como sonhos
com seus rancores novos
sua falta de candura
eu lhe ponho uma vassoura
atrás da porta
porque quero estar só
com meu rosto de ti
Porém o rosto de ti
olha a outra parte
com seus olhos de amor
que já não amam
como vives
que buscam a sua fome
olham e olham
e apagar a jornada
as paredes se vão
fica a noite
as nostalgias se vão
não fica nada
Já meu rosto de ti
fecha os olhos
E é uma solidão
tão desolada
tão concorrida
tão cheia de nostalgias
e de rostos teus
de adeuses faz tempo
e beijos bem vindos
de primeiras de troca
e de último vagão
Tenho uma solidão
tão concorrida
que posso organizá-la
como uma procissão
por cores
tamanhos
e promessas
por época
por tato e sabor
sem um tremer de mais
me abraço a tuas ausências
que assistem e me assistem
com meu rosto de ti
Estou cheio de sombras
de noites e desejos
de risos e de alguma maldição
Meus hóspedes concorrem
concorrem como sonhos
com seus rancores novos
sua falta de candura
eu lhe ponho uma vassoura
atrás da porta
porque quero estar só
com meu rosto de ti
Porém o rosto de ti
olha a outra parte
com seus olhos de amor
que já não amam
como vives
que buscam a sua fome
olham e olham
e apagar a jornada
as paredes se vão
fica a noite
as nostalgias se vão
não fica nada
Já meu rosto de ti
fecha os olhos
E é uma solidão
tão desolada
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Alfonsina Storni
Vou dormir
Dentes de flores, cofia de sereno,
Mãos de ervas, tu ama-de-leite fina,
Deixa-me prontos os lençóis terrosos
E o edredom de musgos escardeados.
Vou dormir, ama-de-leite minha, deita-me.
Põe-me uma lâmpada a cabeceira;
Uma constelação; a que te agrade;
Todas são boas: a abaixa um pouquinho
Deixa-me sozinha: ouves romper os brotos...
Te embala um pé celeste desde acima
E um pássaro te traça uns compassos
Para que esqueças... obrigado. Ah, um encargo:
Se ele chama novamente por telefone
Diz-lhe que não insista, que sai...
Mãos de ervas, tu ama-de-leite fina,
Deixa-me prontos os lençóis terrosos
E o edredom de musgos escardeados.
Vou dormir, ama-de-leite minha, deita-me.
Põe-me uma lâmpada a cabeceira;
Uma constelação; a que te agrade;
Todas são boas: a abaixa um pouquinho
Deixa-me sozinha: ouves romper os brotos...
Te embala um pé celeste desde acima
E um pássaro te traça uns compassos
Para que esqueças... obrigado. Ah, um encargo:
Se ele chama novamente por telefone
Diz-lhe que não insista, que sai...
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Mariza Fontes de Almeida
Reticencias
Às vezes eu imagino
que tenho alguém
perto de mim...
Alguém que eu amo
e que me quer também;
que olha nos meus olhos,
que pega no meu rosto,
alguém que sabe o gosto
que o meu coração tem...
Sabe, de vez em quando
a minha imaginação
trabalha tanto,
que chego a ver você!
Chego a sentir sua mão!
Vê?...
Parece que você está aqui agora,
no entanto...
que tenho alguém
perto de mim...
Alguém que eu amo
e que me quer também;
que olha nos meus olhos,
que pega no meu rosto,
alguém que sabe o gosto
que o meu coração tem...
Sabe, de vez em quando
a minha imaginação
trabalha tanto,
que chego a ver você!
Chego a sentir sua mão!
Vê?...
Parece que você está aqui agora,
no entanto...
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