Poemas neste tema
Solidão
Mônica Banderas
Desaflito
A solidão é um transplante
de um peito de carne
para um peito de aço.
É a sétima arte equivocada
com a película da face (endurecida)
A solidão é portadora de equívocos.
É um corte ao norte do meu sonho
e à leste de meus planos e perspectivas.
de um peito de carne
para um peito de aço.
É a sétima arte equivocada
com a película da face (endurecida)
A solidão é portadora de equívocos.
É um corte ao norte do meu sonho
e à leste de meus planos e perspectivas.
1 053
Moreira Campos
Antecipação
Este fim de tarde,
estes túmulos,
a visita aos meus.
Esta solidão,
o silêncio dos meus próprios passos
entre carrapichos,
que se grudaram às minhas calças.
O apito longo da velha máquina
(perto é a oficina da Estrada de Ferro)
vem de longe,
tem tons de queixa e modulações de chamado.
Dominam-me a renúncia
e um desejo de antecipação.
estes túmulos,
a visita aos meus.
Esta solidão,
o silêncio dos meus próprios passos
entre carrapichos,
que se grudaram às minhas calças.
O apito longo da velha máquina
(perto é a oficina da Estrada de Ferro)
vem de longe,
tem tons de queixa e modulações de chamado.
Dominam-me a renúncia
e um desejo de antecipação.
1 153
Moreira Campos
A Visita
Ó tia de minha mulher,
ó tia Augusta,
eu vos visito não porque seja um bom,
não porque seja aquele homem "coração de ouro",
como dizeis aos vizinhos em tom de segredo,
que contudo deverá ser ouvido por mim,
enquanto meu automóvel espera à sombra da árvore.
Não. Eu vos visito para sentir os caibros toscos desta sala, a telha-vã,
a velha máquina de costura coberta com a toalhinha
sobre a qual repousa a tentativa do jarro de flores;
o retrato desbotado de vosso marido
contra a parede.
Eu vos visito para indagar do moleque que criastes
e que fugiu pela janela,
que o vento da noite ficou batendo.
E eu vos visito sobretudo para usufruir de vossa solidão
e do mistério de vossas palavras nobres,
de mulher lida em romances, embora baratos.
— E os meninos (da vizinhança) ainda aperreiam muito?
— Hem?
— Os meninos?
— Uns vândalos, meu filho.
Ó tia de minha mulher,
ó tia Augusta, esta palavra "vândalos"
me comove muito mais do que todos os vossos males.
Contudo, trouxe-vos estas maçãs para vossa convalescença
ó tia Augusta,
eu vos visito não porque seja um bom,
não porque seja aquele homem "coração de ouro",
como dizeis aos vizinhos em tom de segredo,
que contudo deverá ser ouvido por mim,
enquanto meu automóvel espera à sombra da árvore.
Não. Eu vos visito para sentir os caibros toscos desta sala, a telha-vã,
a velha máquina de costura coberta com a toalhinha
sobre a qual repousa a tentativa do jarro de flores;
o retrato desbotado de vosso marido
contra a parede.
Eu vos visito para indagar do moleque que criastes
e que fugiu pela janela,
que o vento da noite ficou batendo.
E eu vos visito sobretudo para usufruir de vossa solidão
e do mistério de vossas palavras nobres,
de mulher lida em romances, embora baratos.
— E os meninos (da vizinhança) ainda aperreiam muito?
— Hem?
— Os meninos?
— Uns vândalos, meu filho.
Ó tia de minha mulher,
ó tia Augusta, esta palavra "vândalos"
me comove muito mais do que todos os vossos males.
Contudo, trouxe-vos estas maçãs para vossa convalescença
1 617
Marly de Oliveira
Não conheci o desterro
Não conheci o desterro,
mas sei a quanto obriga.
Vivo na minha terra,
embora desencontrada. Quem sabe
de mim, quem me ouve
o que não digo, quem segura
a rédea de meu sonho, permitindo
o risco da vertigem, o perigo
de conhecer o abismo?
mas sei a quanto obriga.
Vivo na minha terra,
embora desencontrada. Quem sabe
de mim, quem me ouve
o que não digo, quem segura
a rédea de meu sonho, permitindo
o risco da vertigem, o perigo
de conhecer o abismo?
1 194
Mário Faustino
Soneto
Necessito de um ser, um ser humano
Que me envolva de ser
Contra o não ser universal, arcano
Impossível de ler
À luz da lua que ressarce o dano
Cruel de adormecer
A sós, à noite, ao pé do desumano
Desejo de morrer.
Necessito de um ser, de seu abraço
Escuro e palpitante
Necessito de um ser dormente e lasso
Contra meu ser arfante:
Necessito de um ser sendo ao meu lado
Um ser profundo e aberto, um ser amado.
Que me envolva de ser
Contra o não ser universal, arcano
Impossível de ler
À luz da lua que ressarce o dano
Cruel de adormecer
A sós, à noite, ao pé do desumano
Desejo de morrer.
Necessito de um ser, de seu abraço
Escuro e palpitante
Necessito de um ser dormente e lasso
Contra meu ser arfante:
Necessito de um ser sendo ao meu lado
Um ser profundo e aberto, um ser amado.
2 133
Mirella Márcia
Segundo Soneto
Meu amor é um antigo montanhês
Que se escondeu na mais estranha gruta.
Há quem diga que em tempos de escassez
Meu amor se transforma em força bruta.
Nestas noites, meu velho se transporta
Na garupa da águia mais sombria,
Sobrevoando a casa cuja porta
Com medo você fecha em correria.
Não vê que tão esquivo aldeão,
Não sabe que tão incrível eremita
Pesquisa em meio à treva um só clarão
Que ilumine a caverna onde habita?
E no entanto na própria gruta escura
Mora o sol, toda a luz que ele procura.
Que se escondeu na mais estranha gruta.
Há quem diga que em tempos de escassez
Meu amor se transforma em força bruta.
Nestas noites, meu velho se transporta
Na garupa da águia mais sombria,
Sobrevoando a casa cuja porta
Com medo você fecha em correria.
Não vê que tão esquivo aldeão,
Não sabe que tão incrível eremita
Pesquisa em meio à treva um só clarão
Que ilumine a caverna onde habita?
E no entanto na própria gruta escura
Mora o sol, toda a luz que ele procura.
893
Mário Donizete Massari
Velório
Sinto-me só neste velório
As pessoas estão distantes, alheias
o que farão aqui?
Sussurram problemas diários
preço do arroz, sindicato
sucessão presidencial, sucessos do
[rádio . . .
Estou só, na minha lucidez
E embora seja o morto
Me sinto vivo mais do que nunca.
As pessoas estão distantes, alheias
o que farão aqui?
Sussurram problemas diários
preço do arroz, sindicato
sucessão presidencial, sucessos do
[rádio . . .
Estou só, na minha lucidez
E embora seja o morto
Me sinto vivo mais do que nunca.
959
Mário Donizete Massari
Poema do sol de amanhã
Um corpo magro
caminho lentamente
como soubesse ser a vida
um facho de luz.
Como soubesse que as palavras
encerram um sentido
às vezes incompreensíveis
a certos olhos.
O caminho contém pedregulhos
esparsas incertezas
momentâneas alegrias
de descobrir que algo está errado.
Quando a noite chegar
brincará de contar estrelas
e no berço de feno
sonhará com belezas.
Levantará cedo
quando o sol traçar seu primeiro perfil
como uma avenida iluminada
o mundo é uma grande avenida iluminada
que brilha para alguns
Então sua caminhada reiniciará
o longo caminho dos que não têm para [onde ir
caminho lentamente
como soubesse ser a vida
um facho de luz.
Como soubesse que as palavras
encerram um sentido
às vezes incompreensíveis
a certos olhos.
O caminho contém pedregulhos
esparsas incertezas
momentâneas alegrias
de descobrir que algo está errado.
Quando a noite chegar
brincará de contar estrelas
e no berço de feno
sonhará com belezas.
Levantará cedo
quando o sol traçar seu primeiro perfil
como uma avenida iluminada
o mundo é uma grande avenida iluminada
que brilha para alguns
Então sua caminhada reiniciará
o longo caminho dos que não têm para [onde ir
758
Mário Donizete Massari
Canto à poesia
Se isto que eu canto agora
fosse alegria,
eu não cantaria.
Pois esta minha canção
é minha tristeza
em forma de poesia.
Pungiu-me a solidão
na minha vida vazia.
Encheu-se o campo de flores,
orquídeas
e braços que já não abrem
para colhê-las.
Triste vida vazia . . .
fosse alegria,
eu não cantaria.
Pois esta minha canção
é minha tristeza
em forma de poesia.
Pungiu-me a solidão
na minha vida vazia.
Encheu-se o campo de flores,
orquídeas
e braços que já não abrem
para colhê-las.
Triste vida vazia . . .
916
Mário Donizete Massari
Quadrante
casa
pirâmide embalsamada
de cimento e cal
guardas o segredo
—de viver ao relento
Solidão
Nas ruínas de um templo
Nos becos e labirintos
No coração dos ateus
imagem
— mora a solidão
Um rosto pálido
se reflete
nesse espelho
refletindo a minha
transfigurada imagem
— o tempo passou e eu
nem percebi
face
tece na face
a outra face
não a quente
nem ardente
— a face fria
pirâmide embalsamada
de cimento e cal
guardas o segredo
—de viver ao relento
Solidão
Nas ruínas de um templo
Nos becos e labirintos
No coração dos ateus
imagem
— mora a solidão
Um rosto pálido
se reflete
nesse espelho
refletindo a minha
transfigurada imagem
— o tempo passou e eu
nem percebi
face
tece na face
a outra face
não a quente
nem ardente
— a face fria
884
Marcão de Barros
Haicai
Gato faminto,
copo-de-leite no vaso.
Amor perfeito.
Pijama de bolas
no picadeiro vazio.
Palhaço sonâmbulo.
copo-de-leite no vaso.
Amor perfeito.
Pijama de bolas
no picadeiro vazio.
Palhaço sonâmbulo.
1 217
Maurício Batarce
Desventuras
Ao longe meus olhos encerram,
Na língua do martírio,
Um sorriso novo ao longo
Do mundo que giro...
Nas vozes loucas,
Em meio à vida,
Recebo um sonho
De despedidas...
Nunca senti a voz da tortura.
Nem uma turva idéia errante.
Sempre busquei nas amarguras,
As faces de minha vida infante...
Música se ouve
E o amor me vem.
Estou só comigo mesmo,
Mas ainda assim tenho alguém...
Na língua do martírio,
Um sorriso novo ao longo
Do mundo que giro...
Nas vozes loucas,
Em meio à vida,
Recebo um sonho
De despedidas...
Nunca senti a voz da tortura.
Nem uma turva idéia errante.
Sempre busquei nas amarguras,
As faces de minha vida infante...
Música se ouve
E o amor me vem.
Estou só comigo mesmo,
Mas ainda assim tenho alguém...
822
Maria Braga Horta
A Moça da Praça Mauá
I
De onde vem?
Para onde vai
a moça de olhos de gata?
Parou na praça.
Pararam
grumetes em torno dela.
A moça não tem destino:
só tem caminho de ir,
no escuro da vida, ao cais
onde espera os marinheiros
(urgentes, por demorado
percurso na solidão).
São eles que vêm e vão...
Não lhe trazem "souvenirs"
nem contam as aventuras
do mar e de estranhos portos.
Nem passado e nem presente
lhe contam. Nem ela os tem
para contar a ninguém.
Iguais, no seu merecido,
um dia vai, outro vem.
II
Um dia a encontraram morta
no cais da Praça Mauá.
Suicídio, acidente ou crime?
Nem foi preciso indagar...
Morreu simplesmente a moça
que não recebeu da vida
seu tempo de armazenar.
Acodem três cavalheiros
de branco (tarde demais!)
e a levam num carro branco.
Mas não de branco vestida
vai ela ao eterno cais.
Sobre toda a humanidade
pesa o peso desta morte
da moça que não viveu
estória de se contar,
condenada ao seu caminho
de ir ao cais e voltar
sempre, sempre, sempre, sempre...
sempre sem rir, sem chorar.
III
Morreu a moça dos olhos
de gata. Morreu? Mentira!
A moça de olhos de gata
nasceu com o cais, viverá
o tempo de duração
do cais da Praça Mauá.
Lá está outra vez na praça.
Grumetes desembarcados
dos mares da solidão
(nascidos também com o cais
só com ele morrerão)
urgentes seguem os passos
do seu primeiro destino
em terras de arribação.
A moça de olhos de gata
é porto de solidão.
Nasce e morre. Morre e nasce.
Traz estampado na face
seu horóscopo malsão.
De onde vem? Para onde vai?
A moça não tem destino;
seu tempo ficou parado
no marco da condição.
De onde vem?
Para onde vai
a moça de olhos de gata?
Parou na praça.
Pararam
grumetes em torno dela.
A moça não tem destino:
só tem caminho de ir,
no escuro da vida, ao cais
onde espera os marinheiros
(urgentes, por demorado
percurso na solidão).
São eles que vêm e vão...
Não lhe trazem "souvenirs"
nem contam as aventuras
do mar e de estranhos portos.
Nem passado e nem presente
lhe contam. Nem ela os tem
para contar a ninguém.
Iguais, no seu merecido,
um dia vai, outro vem.
II
Um dia a encontraram morta
no cais da Praça Mauá.
Suicídio, acidente ou crime?
Nem foi preciso indagar...
Morreu simplesmente a moça
que não recebeu da vida
seu tempo de armazenar.
Acodem três cavalheiros
de branco (tarde demais!)
e a levam num carro branco.
Mas não de branco vestida
vai ela ao eterno cais.
Sobre toda a humanidade
pesa o peso desta morte
da moça que não viveu
estória de se contar,
condenada ao seu caminho
de ir ao cais e voltar
sempre, sempre, sempre, sempre...
sempre sem rir, sem chorar.
III
Morreu a moça dos olhos
de gata. Morreu? Mentira!
A moça de olhos de gata
nasceu com o cais, viverá
o tempo de duração
do cais da Praça Mauá.
Lá está outra vez na praça.
Grumetes desembarcados
dos mares da solidão
(nascidos também com o cais
só com ele morrerão)
urgentes seguem os passos
do seu primeiro destino
em terras de arribação.
A moça de olhos de gata
é porto de solidão.
Nasce e morre. Morre e nasce.
Traz estampado na face
seu horóscopo malsão.
De onde vem? Para onde vai?
A moça não tem destino;
seu tempo ficou parado
no marco da condição.
1 219
Mário Beirão
Moda Alentejana
A ribeira do Xacafre
Vai rasa dos meus cuidados:
No escuro das águas tristes,
Há laivos ensanguentados…
Ó meus olhos, ó meus olhos,
— Noite e dia — que estais vendo?
A ribeira do Xacafre,
Da minha alma discorrendo!
Na ribeira do Xacafre,
uma voz suspira fundo:
A voz da minha saudade,
A despedir-se do Mundo!
Aldeia de Montes Velhos
Não posso querer-te mais:
És a luz do sol-nascente,
Abrindo, em flor, nos meus ais!
Aldeia de Montes Velhos,
És sempre luz de alvorada,
És sempre rosa do altar
Da chama duma «queimada»!
Eu hei-de florir na urze,
Arder no vento «suão»,
Lá, na Charneca das Naves,
Mar alto da Solidão! —
Vai rasa dos meus cuidados:
No escuro das águas tristes,
Há laivos ensanguentados…
Ó meus olhos, ó meus olhos,
— Noite e dia — que estais vendo?
A ribeira do Xacafre,
Da minha alma discorrendo!
Na ribeira do Xacafre,
uma voz suspira fundo:
A voz da minha saudade,
A despedir-se do Mundo!
Aldeia de Montes Velhos
Não posso querer-te mais:
És a luz do sol-nascente,
Abrindo, em flor, nos meus ais!
Aldeia de Montes Velhos,
És sempre luz de alvorada,
És sempre rosa do altar
Da chama duma «queimada»!
Eu hei-de florir na urze,
Arder no vento «suão»,
Lá, na Charneca das Naves,
Mar alto da Solidão! —
1 332
Maurício Batarce
Lição de Vida
Nasceu sem caminhos.
Seus olhos: escuridão da miséria.
Sempre foi sozinho,
Vivendo pelo destino.
Seus castelos foram desmoronados
Mas estava no caminho certo.
Com passos controlados,
Andou com os honestos.
Aprendeu consigo,
Aprendeu com a vida.
Descobriu a origem de seus desejos
Porque tinha um ponto de partida.
Mesmo a miséria lhe abatendo,
Mesmo a morte lhe chamando,
Sabia o que estava acontecendo,
Sabia onde estava pisando,
Estava vivendo...
Seus olhos: escuridão da miséria.
Sempre foi sozinho,
Vivendo pelo destino.
Seus castelos foram desmoronados
Mas estava no caminho certo.
Com passos controlados,
Andou com os honestos.
Aprendeu consigo,
Aprendeu com a vida.
Descobriu a origem de seus desejos
Porque tinha um ponto de partida.
Mesmo a miséria lhe abatendo,
Mesmo a morte lhe chamando,
Sabia o que estava acontecendo,
Sabia onde estava pisando,
Estava vivendo...
974
Manoel Carlos de Almeida
Soneto
Demoro-me na escassa infância
em buscamentos de poesia
Que um severo milagre se proponha
e se abasteça a noite de seu dia.
Guardar-me não será melhor que unir-me
à memória dos olhos e do ouvido.
Existe a solidão de um tempo atado
ao que ouvi sem ter sentido.
Sem proeza ofertei amor exíguo.
Não perguntei às formas exauridas
onde encontrar estojo para o verso.
Conquisto para mim palavras minhas
em que o medo engendrou um grave espanto:
fonte de hermética paisagem.
em buscamentos de poesia
Que um severo milagre se proponha
e se abasteça a noite de seu dia.
Guardar-me não será melhor que unir-me
à memória dos olhos e do ouvido.
Existe a solidão de um tempo atado
ao que ouvi sem ter sentido.
Sem proeza ofertei amor exíguo.
Não perguntei às formas exauridas
onde encontrar estojo para o verso.
Conquisto para mim palavras minhas
em que o medo engendrou um grave espanto:
fonte de hermética paisagem.
459
Marco Antônio Rosa
Fortaleza
Fortaleza, Fortaleza,
já quase quites então:
quantos turistas
fazem uma cidade,
com quantas ausências
se faz solidão?
já quase quites então:
quantos turistas
fazem uma cidade,
com quantas ausências
se faz solidão?
890
Marta Gonçalves
A Voz de Meus Cata-ventos
"A Voz de Meus Cata-ventos", de Marco Antonio Souza, traz o vento de um bom texto. O interesse pela leitura, a liberdade ornamental das palavras formam poemas sínteses onde o ordinário da vida cresce a árvore da criatividade. Os elementos usados na composição são de uma solidez unânime. O fluir da filosofia veste de linho as palavras. Marco Antonio se põe a pintar o avô no poema "Morto": "Avô Alírio e as nódoas roxas/ no cavo rosto e flácido corpo,/ deitado e sem siso,/ mais agônico, mais morto." Daí decorre o domínio da pintura abrindo os olhos para o "eu" do poeta. Este "eu" transfigura o irreal no real das coisas perenes.
Marco Antonio faz um seletivo de temáticas abrindo um leque transcendental de conhecimentos exigidos na arte poética. Se de todo os poemas não se mostram na primeira leitura, o leitor descobre a evolução de imagens, a paisagem, a captação mineral silábica dos versos. Do poema "Hora Absurda": "Certos anzóis/ fisgam almas como a servidas hóstias: / Satã." A expressão absurda é uma constante na poesia de Marco Antonio Souza. Uma alquimia descobre o avesso da alma, do corpo, das mãos do poeta. Os vegetais estão presentes e germinam nos lábios. Símbolos, o arbitrário, o inovado, cromatizam a fala. O livro é invadido pelo estado de consciência. O breve poema "O Doente" é de uma realidade tocante: "Cosme cruel, o náusea,/ vestia-se de sujo e já era morto/ com assombradas luas revisitadas pela loucura.
Abandono da pessoa humana ganha amplitude e dualização visual na estrutura poética. Anjos, quintais, horas, avô, flores, figuras, alma, náuseas, sonhos criam uma anatomia. O retrato do poeta já marca o artista dentro do texto. "A Voz de Meus Cata-ventos" indaga o tempo no relógio da sala. Banha o mar interior do leitor, caracterizando um discurso a que não podemos ficar indiferentes. A solidão que encontramos na leitura dos poemas é um exemplo de forma aberta a muitas releituras. A palavra deve ser recebida no silêncio. Almejamos, de certo modo, um andamento ao livro em toda sua conclusão.
Marco Antonio faz um seletivo de temáticas abrindo um leque transcendental de conhecimentos exigidos na arte poética. Se de todo os poemas não se mostram na primeira leitura, o leitor descobre a evolução de imagens, a paisagem, a captação mineral silábica dos versos. Do poema "Hora Absurda": "Certos anzóis/ fisgam almas como a servidas hóstias: / Satã." A expressão absurda é uma constante na poesia de Marco Antonio Souza. Uma alquimia descobre o avesso da alma, do corpo, das mãos do poeta. Os vegetais estão presentes e germinam nos lábios. Símbolos, o arbitrário, o inovado, cromatizam a fala. O livro é invadido pelo estado de consciência. O breve poema "O Doente" é de uma realidade tocante: "Cosme cruel, o náusea,/ vestia-se de sujo e já era morto/ com assombradas luas revisitadas pela loucura.
Abandono da pessoa humana ganha amplitude e dualização visual na estrutura poética. Anjos, quintais, horas, avô, flores, figuras, alma, náuseas, sonhos criam uma anatomia. O retrato do poeta já marca o artista dentro do texto. "A Voz de Meus Cata-ventos" indaga o tempo no relógio da sala. Banha o mar interior do leitor, caracterizando um discurso a que não podemos ficar indiferentes. A solidão que encontramos na leitura dos poemas é um exemplo de forma aberta a muitas releituras. A palavra deve ser recebida no silêncio. Almejamos, de certo modo, um andamento ao livro em toda sua conclusão.
1 085
Sérgio Mattos
Sonhei Orizontes
Sonhei horizontes.
Vivi, entre vírgulas, um hiato.
Andei exclamando paixões
e interrogando amores:
(dois pontos)
De repente,
quebrei lanças de solidão
na solidez de teu coração...
Vivi, entre vírgulas, um hiato.
Andei exclamando paixões
e interrogando amores:
(dois pontos)
De repente,
quebrei lanças de solidão
na solidez de teu coração...
933
Marta Gonçalves
Mar Interior
O veleiro se perde no mar. No mastro,
cicatrizes do rosto. Espero a maré.
A volta da vela branca purificando
os olhos.
No horizonte o azul estagnado.
A ternura do tempo das amêndoas.
O beijo ficou além da geografia
e crucificou o lábio seco.
Sou marinheira do cansaço, da aceitação.
O desamor toma conta do mar interior.
Salgo a retina na água verde. O vazio
contorna os dedos. Dedos esquecidos do calor.
O que existe além dos nossos olhos?
Uma flor branca esperando o branco dente.
O exílio se alonga e a vida é cardume.
Há de chegar o vento. A imensidão dos anos.
Pouso da terra.
cicatrizes do rosto. Espero a maré.
A volta da vela branca purificando
os olhos.
No horizonte o azul estagnado.
A ternura do tempo das amêndoas.
O beijo ficou além da geografia
e crucificou o lábio seco.
Sou marinheira do cansaço, da aceitação.
O desamor toma conta do mar interior.
Salgo a retina na água verde. O vazio
contorna os dedos. Dedos esquecidos do calor.
O que existe além dos nossos olhos?
Uma flor branca esperando o branco dente.
O exílio se alonga e a vida é cardume.
Há de chegar o vento. A imensidão dos anos.
Pouso da terra.
1 165
Marigê Quirino Marchini
De Diário de Bordo (1958)
De um passado tempo, aqui
que marujo ébrio içará as velas
domingo de manhã
quando todos perguntarem o seu nome
sua nacionalidade o nome do seu barco
e a tripulação?
Ele nada saberá contar senão que
as paredes são como os fuzilados, erguidas contra as sombras
e ele preferia os peixes voadores.
que marujo ébrio içará as velas
domingo de manhã
quando todos perguntarem o seu nome
sua nacionalidade o nome do seu barco
e a tripulação?
Ele nada saberá contar senão que
as paredes são como os fuzilados, erguidas contra as sombras
e ele preferia os peixes voadores.
822
Maria Aparecida Reis Araújo
Palavras
O poeta se esconde na falácia dos ventos, nos nódulos do tempo, no perfume das essências, em urdiduras do mar e espraia seu canto de nostalgia e pânico submersos. Abre janelas e colhe neblina com efervescência de sol, num vôo sutil de borboletas.
Pastor e peregrino arrebanha palavras e lapida silêncios. Sobreleva à cantiga de estrelas a chuva polindo o âmago da terra - solidão de pedras, criando silos em corpos de argila. Bebendo o desvairado vinho da lucidez, entorna réstias de luz nos estertores da alma.
Pastor e peregrino arrebanha palavras e lapida silêncios. Sobreleva à cantiga de estrelas a chuva polindo o âmago da terra - solidão de pedras, criando silos em corpos de argila. Bebendo o desvairado vinho da lucidez, entorna réstias de luz nos estertores da alma.
944
Maria A. Oliveira
Insônia
Limbo inclinado de coisas perdidas,
algum mistério gozoso em mutação,
crispado e semimorto.
Melhor assim. O sono não me serve
o sono é um céu vazio
despedaçando as asas da memória
e suas aves de sonho fazem medo.
A noite singra o silencio mais alto e mais calado
sem naufrágios
e um lento espanto se estende sob o tempo,
um tempo oculto, inteiro e inconsútil
sobre as migalhas do dia.
A túnica do tempo e uma forma de paz
arrasta sobre nos sua paz de vento
e embala os gatos de tudo que lhes falta,
devolve a solidão a seus espelhos
e cala aos poucos os ecos das imagens.
Das mãos vazias as asas
tocam de leve as águas da aventura.
algum mistério gozoso em mutação,
crispado e semimorto.
Melhor assim. O sono não me serve
o sono é um céu vazio
despedaçando as asas da memória
e suas aves de sonho fazem medo.
A noite singra o silencio mais alto e mais calado
sem naufrágios
e um lento espanto se estende sob o tempo,
um tempo oculto, inteiro e inconsútil
sobre as migalhas do dia.
A túnica do tempo e uma forma de paz
arrasta sobre nos sua paz de vento
e embala os gatos de tudo que lhes falta,
devolve a solidão a seus espelhos
e cala aos poucos os ecos das imagens.
Das mãos vazias as asas
tocam de leve as águas da aventura.
897
Majela Colares
O Pastor e Sua Aldeia
a Altino Caixeta de Castro
Eu creio que a eternidade nasceu na aldeia
Lucian Blaga
O ladrido infinito de um cão morto
nas vozes de outros cães é repetido
muito além, incessante ao nosso ouvido
mais além, muito além da voz de um cão
trago a lua no bolso e o sol na mão
e um rebanho de cabras e de estrelas
no desejo incomum de sempre tê-las
na distante lembrança de uma aldeia
pervagando a memória das areias
onde estrelas e cabras pastam sonhos
trago à sombra de alpendres breve sono
pressentindo o rangido da tramela
despertado ao contorno da janela
no silêncio imortal da noite fria
canta o galo, outra vez, e denuncia
(seu cantar tem a cor da lua cheia)
o prenúncio de um dia em outro dia
da eterna solidão - eterna aldeia.
Eu creio que a eternidade nasceu na aldeia
Lucian Blaga
O ladrido infinito de um cão morto
nas vozes de outros cães é repetido
muito além, incessante ao nosso ouvido
mais além, muito além da voz de um cão
trago a lua no bolso e o sol na mão
e um rebanho de cabras e de estrelas
no desejo incomum de sempre tê-las
na distante lembrança de uma aldeia
pervagando a memória das areias
onde estrelas e cabras pastam sonhos
trago à sombra de alpendres breve sono
pressentindo o rangido da tramela
despertado ao contorno da janela
no silêncio imortal da noite fria
canta o galo, outra vez, e denuncia
(seu cantar tem a cor da lua cheia)
o prenúncio de um dia em outro dia
da eterna solidão - eterna aldeia.
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