Poemas neste tema
Solidão
Fernando Py
Canto de Muro
A Mário Quintana
Num canto de muro
o garoto chorava
num canto de muro
a Terra findava
num canto de muro
a noite pousava
crepúsculo sujo
de rua asfaltada.
Num canto de muro
nem Deus se encontrava
num canto de muro
blasfêmia gravada
num canto de muro
o diabo urinava
no chão sem futuro
da terra ensombrada.
Num canto de muro
o sol desmaiava
e a noite tranqüila
o solo ocupava
— a posse, tão fria
(terreno tão duro)
teu ângulo diedro,
parede, rachado.
Num canto de muro
esquina forçada
o mundo vivia
e o mundo acabava.
Num canto de muro
a sombra vazia
prepara o futuro
da nova cidade.
Num canto de muro
o garoto chorava
num canto de muro
a Terra findava
num canto de muro
a noite pousava
crepúsculo sujo
de rua asfaltada.
Num canto de muro
nem Deus se encontrava
num canto de muro
blasfêmia gravada
num canto de muro
o diabo urinava
no chão sem futuro
da terra ensombrada.
Num canto de muro
o sol desmaiava
e a noite tranqüila
o solo ocupava
— a posse, tão fria
(terreno tão duro)
teu ângulo diedro,
parede, rachado.
Num canto de muro
esquina forçada
o mundo vivia
e o mundo acabava.
Num canto de muro
a sombra vazia
prepara o futuro
da nova cidade.
1 037
Rosani Abou Adal
Contemplação
Presa no meu dormitório
tento dividir a solidão com o peixe
cercado de paredes de vidro.
Cabisbaixo no fundo do aquário,
absorto, perplexo, faceiro,
companheiro me olha.
Quero tocá-lo e senti-lo
através da parede invisível.
Ele acompanha meus movimentos,
entende meus sinais.
Nada e nada e bóia na superfície
à espera de carinho.
Suavemente toco
suas escamas sedosas.
Ficamos horas a nos contemplar.
tento dividir a solidão com o peixe
cercado de paredes de vidro.
Cabisbaixo no fundo do aquário,
absorto, perplexo, faceiro,
companheiro me olha.
Quero tocá-lo e senti-lo
através da parede invisível.
Ele acompanha meus movimentos,
entende meus sinais.
Nada e nada e bóia na superfície
à espera de carinho.
Suavemente toco
suas escamas sedosas.
Ficamos horas a nos contemplar.
935
Rosani Abou Adal
Código Morse
Bolhas de espuma boiam sobre a água,
código morse da espécie Beta
comunicando que é adulto
e precisa uma fêmea para acasalar.
Olhos tristes e pequenos
protestam a solidão aquática.
No fundo do aquário, sem mover nadadeiras,
sonha com a azulzinha, a vermelhinha
para compartilhar carinho e afeto.
Seu coração vazio e infeliz.
Fala português e portunhol
com suas guelras.
Ninguém entende a mensagem.
Tenta outra vez,
o código sem tradução.
O Beta codifica a solidão oculta
- a companheira invisível
surge do outro lado do aquário.
código morse da espécie Beta
comunicando que é adulto
e precisa uma fêmea para acasalar.
Olhos tristes e pequenos
protestam a solidão aquática.
No fundo do aquário, sem mover nadadeiras,
sonha com a azulzinha, a vermelhinha
para compartilhar carinho e afeto.
Seu coração vazio e infeliz.
Fala português e portunhol
com suas guelras.
Ninguém entende a mensagem.
Tenta outra vez,
o código sem tradução.
O Beta codifica a solidão oculta
- a companheira invisível
surge do outro lado do aquário.
1 024
Rosani Abou Adal
Alma Gêmea
Sou tão solitária quanto a lua
rodeada de estrelas.
O céu está nublado,
nenhum habitante me acompanha.
Sou luar sem multidão,
raio-de-luz no azul.
Não escuto vozes e não vejo sombras.
Sou indivisível no universo,
tão pequena diante da terra,
tão grande frente aos homens.
Sou luz que brilha e não se apaga,
um corpo perdido no espaço.
Ninguém me percebe no planeta.
Grito frases de silêncio,
ninguém me escuta.
Murmuro pausas,
ninguém me ouve.
Sou tão pequena e frágil
quanto um milésimo de segundo.
Sou tão forte quanto as Muralhas da China,
ninguém descobre meus segredos,
ninguém sabe a minha história.
Sou pastora das galáxias,
caminho sobre pedras,
procuro sonhos e castelos.
Minha alma gêmea está a quilômetros de distância.
Não tenho nave nem foguete.
Hei de encontrá-la num futuro próximo.
rodeada de estrelas.
O céu está nublado,
nenhum habitante me acompanha.
Sou luar sem multidão,
raio-de-luz no azul.
Não escuto vozes e não vejo sombras.
Sou indivisível no universo,
tão pequena diante da terra,
tão grande frente aos homens.
Sou luz que brilha e não se apaga,
um corpo perdido no espaço.
Ninguém me percebe no planeta.
Grito frases de silêncio,
ninguém me escuta.
Murmuro pausas,
ninguém me ouve.
Sou tão pequena e frágil
quanto um milésimo de segundo.
Sou tão forte quanto as Muralhas da China,
ninguém descobre meus segredos,
ninguém sabe a minha história.
Sou pastora das galáxias,
caminho sobre pedras,
procuro sonhos e castelos.
Minha alma gêmea está a quilômetros de distância.
Não tenho nave nem foguete.
Hei de encontrá-la num futuro próximo.
961
Rosani Abou Adal
Madrugada
Na placidez da noite,
o apito do guarda-noturno.
Um silvo longo e um breve.
A cadela ladra assustada
com medo da madrugada cálida.
Deitada no meio da rua,
de pernas para o alto,
a gata se lambe sossegada, tranqüila.
Um sibilo agudo se faz presente
na solidão noturna.
Nas casas silenciosas
as pessoas dormem,
cerradas entre quarto paredes,
revelam os segredos da familiaridade.
A gata permanece sobre o asfalto
fazendo confidências individuais.
A cadela frente ao portão
assiste a quietude da noite.
O homem sonha profundo,
o colchão grita frases de amor.
O guarda da noite vigia as casas,
observa as amigas da vida noturna.
Em frente à minha janela assovia
três vezes e prossegue a caminhada.
Acompanhada do meu isolamento
escuto silvos e observo as pessoas
caladas em suas privacidades.
Deitada no meu leito,
coberta com meu manto,
repouso com sofreguidão.
A gata, a cadela, o guarda,
companheiros da madrugada.
o apito do guarda-noturno.
Um silvo longo e um breve.
A cadela ladra assustada
com medo da madrugada cálida.
Deitada no meio da rua,
de pernas para o alto,
a gata se lambe sossegada, tranqüila.
Um sibilo agudo se faz presente
na solidão noturna.
Nas casas silenciosas
as pessoas dormem,
cerradas entre quarto paredes,
revelam os segredos da familiaridade.
A gata permanece sobre o asfalto
fazendo confidências individuais.
A cadela frente ao portão
assiste a quietude da noite.
O homem sonha profundo,
o colchão grita frases de amor.
O guarda da noite vigia as casas,
observa as amigas da vida noturna.
Em frente à minha janela assovia
três vezes e prossegue a caminhada.
Acompanhada do meu isolamento
escuto silvos e observo as pessoas
caladas em suas privacidades.
Deitada no meu leito,
coberta com meu manto,
repouso com sofreguidão.
A gata, a cadela, o guarda,
companheiros da madrugada.
1 097
Rosani Abou Adal
Templo de Zeus
A solidão invade a noite do sábado,
o silêncio toma conta das ruas.
Não escuto cachorros latindo,
apenas o escapamento solto da motocicleta
voando sobre o asfalto como um relâmpago.
Aguardo uma eternidade teu chamado mudo,
o telefax e secretária eletrônica se calaram.
Tento me comunicar contigo por telepatia,
não entendes meus códigos.
Viajo pelo túnel do tempo rumo à terra de Homero
para ouvir tua voz e codificar meus sinais.
Percorro o Bosque Sagrado do Olimpo,
Parthenon, Palácio Cnosso, Pórtico de Cariátides,
Acrópole de Lindos, Templo de Apolo,
Templo de Posêidon, o Templo de Zeus,
e assumo formas de touro, cisne, anfitrião,
chuva de ouro para me aproximar de ti
como fizera Zeus com Europa, Leda, Danae e Alcmene.
Zeus mais feliz que eu com as mortais,
de suas aproximações surgiram Perseu, Pólux e Helena.
A máquina do tempo me traz de volta
ao silêncio do fim de semana.
Nada valeu me transformar em cisne,
touro branco, chuva de ouro e anfitrião.
O aparelho de Graham Bell se calou no tempo.
o silêncio toma conta das ruas.
Não escuto cachorros latindo,
apenas o escapamento solto da motocicleta
voando sobre o asfalto como um relâmpago.
Aguardo uma eternidade teu chamado mudo,
o telefax e secretária eletrônica se calaram.
Tento me comunicar contigo por telepatia,
não entendes meus códigos.
Viajo pelo túnel do tempo rumo à terra de Homero
para ouvir tua voz e codificar meus sinais.
Percorro o Bosque Sagrado do Olimpo,
Parthenon, Palácio Cnosso, Pórtico de Cariátides,
Acrópole de Lindos, Templo de Apolo,
Templo de Posêidon, o Templo de Zeus,
e assumo formas de touro, cisne, anfitrião,
chuva de ouro para me aproximar de ti
como fizera Zeus com Europa, Leda, Danae e Alcmene.
Zeus mais feliz que eu com as mortais,
de suas aproximações surgiram Perseu, Pólux e Helena.
A máquina do tempo me traz de volta
ao silêncio do fim de semana.
Nada valeu me transformar em cisne,
touro branco, chuva de ouro e anfitrião.
O aparelho de Graham Bell se calou no tempo.
938
Rosani Abou Adal
Carência na Noite
Procurei-te por todos os cantos e bares.
Nas mesas vazias, nem sinal de tua sombra.
No céu, a estrela solitária.
O silêncio das ruas, a minha inquietude.
Do outro lado da calçada
ninguém me acompanha os passos.
Uma gata mia no cio,
abraça muros e portões
com unhas afiadas.
Os olhos verdes brilham
para encontrar aconchego
na próxima esquina, debaixo de um automóvel,
num casarão de luzes apagadas.
Brilham tanto que parecem
gerar sete gatinhos em cinco minutos.
Com passos lentos, caminho
seguindo teus rastros,
tuas marcas felinas invisíveis.
A calçada sem pegadas.
Em casa, um ombro amigo,
a coberta fria me aquece e me acolhe.
Sem vestes, abraço a espuma e durmo.
Nas mesas vazias, nem sinal de tua sombra.
No céu, a estrela solitária.
O silêncio das ruas, a minha inquietude.
Do outro lado da calçada
ninguém me acompanha os passos.
Uma gata mia no cio,
abraça muros e portões
com unhas afiadas.
Os olhos verdes brilham
para encontrar aconchego
na próxima esquina, debaixo de um automóvel,
num casarão de luzes apagadas.
Brilham tanto que parecem
gerar sete gatinhos em cinco minutos.
Com passos lentos, caminho
seguindo teus rastros,
tuas marcas felinas invisíveis.
A calçada sem pegadas.
Em casa, um ombro amigo,
a coberta fria me aquece e me acolhe.
Sem vestes, abraço a espuma e durmo.
1 005
Rosani Abou Adal
Nua
Sinto-me como um cabide
que pendura a própria roupa.
Estou nua diante de mim,
completamente nua.
Minha nudez é como o silêncio,
horas que param no tempo
com os ponteiros na mesma posição
por um longo período.
Sinto frio, muito frio.
É verão mas parece estar nevando
- o agasalho esquenta o guarda-roupa.
Não tenho cobertas,
durmo feito estátua no cimento.
Não há amigo dentro do armário
apenas suportes, pedaços de pano.
Abro as portas e procuro alguém,
não há ninguém no móvel imóvel.
Tento me vestir e não consigo,
troco de roupa a cada segundo
e não me sinto bem.
Talvez a cor, é melhor mudar.
Experimento outra, mais outra,
as roupas não me vestem, desnudam.
O guarda-roupa está vazio,
totalmente vazio, sem cabides,
suéter, paletó e linho.
Com certeza deve estar blefando
ou me dando um xeque-mate,
mas ele não sabe jogar.
É um pedaço de madeira
esculpida e esmaltada,
não se veste nem se despe
e não precisa de coberta para dormir.
Sinto frio, muito frio.
Deito na cama e não conquisto sonhos,
estão solitários, divagando
no porta-jóias do inconsciente.
Os pesadelos dormem como chumbo
e não acordam.
Eu grito e não escutam.
Estou nua diante de mim mesma.
Não tenho cobertores nem cobertas.
que pendura a própria roupa.
Estou nua diante de mim,
completamente nua.
Minha nudez é como o silêncio,
horas que param no tempo
com os ponteiros na mesma posição
por um longo período.
Sinto frio, muito frio.
É verão mas parece estar nevando
- o agasalho esquenta o guarda-roupa.
Não tenho cobertas,
durmo feito estátua no cimento.
Não há amigo dentro do armário
apenas suportes, pedaços de pano.
Abro as portas e procuro alguém,
não há ninguém no móvel imóvel.
Tento me vestir e não consigo,
troco de roupa a cada segundo
e não me sinto bem.
Talvez a cor, é melhor mudar.
Experimento outra, mais outra,
as roupas não me vestem, desnudam.
O guarda-roupa está vazio,
totalmente vazio, sem cabides,
suéter, paletó e linho.
Com certeza deve estar blefando
ou me dando um xeque-mate,
mas ele não sabe jogar.
É um pedaço de madeira
esculpida e esmaltada,
não se veste nem se despe
e não precisa de coberta para dormir.
Sinto frio, muito frio.
Deito na cama e não conquisto sonhos,
estão solitários, divagando
no porta-jóias do inconsciente.
Os pesadelos dormem como chumbo
e não acordam.
Eu grito e não escutam.
Estou nua diante de mim mesma.
Não tenho cobertores nem cobertas.
886
Paulo F. Cunha
Sou Só
Sou só
Sou infinitamente só
dentro de mim mesmo.
Não era, dependia, queria...
Mas aprendi nos ramos
da Árvore da Vida que
não se consegue ser todo
sem primeiro ser total
e profundamente só,
até que eu seja apenas
uma nuvem branca
levada pelos ventos
e mudando , ao leu, a forma.
Tantos degraus, tantos
galhos devo passar.
Talvez nunca chegue a sê-lo
Mas, em havendo vida, vou tentar
Sou infinitamente só
dentro de mim mesmo.
Não era, dependia, queria...
Mas aprendi nos ramos
da Árvore da Vida que
não se consegue ser todo
sem primeiro ser total
e profundamente só,
até que eu seja apenas
uma nuvem branca
levada pelos ventos
e mudando , ao leu, a forma.
Tantos degraus, tantos
galhos devo passar.
Talvez nunca chegue a sê-lo
Mas, em havendo vida, vou tentar
911
Paulo F. Cunha
Solidão
Eu me examino na solidão ,
abro todos os contatos
comigo mesmo
Quantas vezes me envaideço ,
outras tantas me entristeço ,
com a visão que tenho de mim.
Ouço os ruídos da rua
que me arranham o corpo ,
que me ferem os tímpanos ,
que me apertam a cabeça
quando estou posto em solidão .
Os ruidos são tão claros
quanto escura a percepção
de mim mesmo .
Solidão é guerrear sem armadura ,
fazendo do coração a bomba
e da cabeça ,em riste , a lança .
Solidão , como te evito ,
solidão como te quero .
abro todos os contatos
comigo mesmo
Quantas vezes me envaideço ,
outras tantas me entristeço ,
com a visão que tenho de mim.
Ouço os ruídos da rua
que me arranham o corpo ,
que me ferem os tímpanos ,
que me apertam a cabeça
quando estou posto em solidão .
Os ruidos são tão claros
quanto escura a percepção
de mim mesmo .
Solidão é guerrear sem armadura ,
fazendo do coração a bomba
e da cabeça ,em riste , a lança .
Solidão , como te evito ,
solidão como te quero .
762
Perillo Doliveira
Conselho
Se és triste, ergue para o alto a tua taça
e canta, pois cantando
farás com que o sofrer seja mais brando
e esquecerás, talvez, tua desgraça.
Se és infeliz, não chores. Ao contrário,
deves sorrir, porque, sorrindo,
verás teu sonho se tornar mais lindo,
mais amplo, iluminando o teu Calvário.
Se és só, procura amar sem interesse,
amar a tudo e a todos, sem egoísmo,
e encontrarás neste teu grande altruísmo
o fim da solidão que te entristece.
E, assim, na própria angústia que te invade,
na mesma dor que te crucia,
desvenderás, entre hinos de alegria,
o grande enigma da Felicidade.
e canta, pois cantando
farás com que o sofrer seja mais brando
e esquecerás, talvez, tua desgraça.
Se és infeliz, não chores. Ao contrário,
deves sorrir, porque, sorrindo,
verás teu sonho se tornar mais lindo,
mais amplo, iluminando o teu Calvário.
Se és só, procura amar sem interesse,
amar a tudo e a todos, sem egoísmo,
e encontrarás neste teu grande altruísmo
o fim da solidão que te entristece.
E, assim, na própria angústia que te invade,
na mesma dor que te crucia,
desvenderás, entre hinos de alegria,
o grande enigma da Felicidade.
913
Paulo F. Cunha
Transparência
Por que , quando estás perto ,
sou transparente à ti ?
Por que , quando estás longe
sou transparente ao mundo ?
Por que não sou sólido , opaco
como os outros ?
Ou será que não vejo os outros ,
preocupado com minha transparência . ,
sou transparente à ti ?
Por que , quando estás longe
sou transparente ao mundo ?
Por que não sou sólido , opaco
como os outros ?
Ou será que não vejo os outros ,
preocupado com minha transparência . ,
951
Orlando Neves
1954
Este rosto de hoje,
assim triste, assim magro,
é a memória.
Estas mãos de hoje,
assim vãs, asssssim frias,
são o silêncio.
Esta boca de hoje,
assim branca, assim breve,
é a ausência.
Este olhar de hoje,
assim ágil, assim mudo,
é o cansaço.
Este corpo de hoje,
assim remoto, assim seco,
é apenas um grito
de socorro.
assim triste, assim magro,
é a memória.
Estas mãos de hoje,
assim vãs, asssssim frias,
são o silêncio.
Esta boca de hoje,
assim branca, assim breve,
é a ausência.
Este olhar de hoje,
assim ágil, assim mudo,
é o cansaço.
Este corpo de hoje,
assim remoto, assim seco,
é apenas um grito
de socorro.
1 040
Raimundo Oswald Cavalcante Barroso
A Vida no Cárcere
A vida no cárcere é limitada.
Nosso corredor é bem estreito.
Apenas no sábado
temos visita.
Dela saímos
exaustos de tanto viver
a semana em poucas horas.
Nosso corredor é bem estreito.
Apenas no sábado
temos visita.
Dela saímos
exaustos de tanto viver
a semana em poucas horas.
918
Orlando Neves
1935
Vou alimentar-te à mão, ternura,
até que morras negada
pelos fantasmas que são, vivas,
as pessoas. Vou alimentar-te
como a um animal feroz
que guardo, amo e temo.
Vou alimentar-te de mim,
ternura.
até que morras negada
pelos fantasmas que são, vivas,
as pessoas. Vou alimentar-te
como a um animal feroz
que guardo, amo e temo.
Vou alimentar-te de mim,
ternura.
1 071
Nogueira Tapety
A Teia de Penélope
Penélope tecendo e destecendo a trama,
Num trabalho incessante, improfícuo e exaustivo
Simboliza este amor fatal que nos inflama
A cuja ação ela há de viver, como eu vivo.
Ao seu lado fui sempre inexprimido e esquivo,
Entretanto hoje, ausente, em mim tudo a reclama
E ela que me foi sempre um vulto fugitivo,
Há de, a esta hora, sentir que sua alma me chama.
Ah! capricho cruel, como dói teu efeito
Que me isola inda mais na minha soledade
E um deserto sem fim vem semear no meu peito.
Agora, busco-a em vão na maior ansiedade;
Desgraçado que eu sou, pois nem sinto o direito
De invocá-la através desta amarga saudade.
Num trabalho incessante, improfícuo e exaustivo
Simboliza este amor fatal que nos inflama
A cuja ação ela há de viver, como eu vivo.
Ao seu lado fui sempre inexprimido e esquivo,
Entretanto hoje, ausente, em mim tudo a reclama
E ela que me foi sempre um vulto fugitivo,
Há de, a esta hora, sentir que sua alma me chama.
Ah! capricho cruel, como dói teu efeito
Que me isola inda mais na minha soledade
E um deserto sem fim vem semear no meu peito.
Agora, busco-a em vão na maior ansiedade;
Desgraçado que eu sou, pois nem sinto o direito
De invocá-la através desta amarga saudade.
1 234
Nielson Ricardo de Alencar Ferreira
O guardião do Amor
O guardião do Amor
De noite em meu deitar
A imagem sua vem me atormentar.
Não sei oque fazer e nem oque pensar..
Pois teus olhos não me deixam imaginar.
Oque fazeres agora Anjo da Noite, Guardião do Amor..
Se estes olhos você imagina te fitar..
Espera que a noite em vãos brandos venha te buscar..
Ou esperas que estes olhos contigo possa sonhar?
Não saberes diferenciar..
A beleza do Ser com a de Amar?
Como queres então viver entre os mortais que aqui esta..
Se possuis a plenitude do sonhar?
Minutos de silêncio irei ficar, pois respostas não posso te dar..
Viver é a solucão;
Ir sempre atrás dos sonhos alheios e tentar deles participar..
Seres feliz pelos outros;
Não pensares em ti;
Pois como já disse em forte explendor da alma..
Que humano não seres;
Seres apenas O Guardião do Amor...
De noite em meu deitar
A imagem sua vem me atormentar.
Não sei oque fazer e nem oque pensar..
Pois teus olhos não me deixam imaginar.
Oque fazeres agora Anjo da Noite, Guardião do Amor..
Se estes olhos você imagina te fitar..
Espera que a noite em vãos brandos venha te buscar..
Ou esperas que estes olhos contigo possa sonhar?
Não saberes diferenciar..
A beleza do Ser com a de Amar?
Como queres então viver entre os mortais que aqui esta..
Se possuis a plenitude do sonhar?
Minutos de silêncio irei ficar, pois respostas não posso te dar..
Viver é a solucão;
Ir sempre atrás dos sonhos alheios e tentar deles participar..
Seres feliz pelos outros;
Não pensares em ti;
Pois como já disse em forte explendor da alma..
Que humano não seres;
Seres apenas O Guardião do Amor...
860
Neide Archanjo
Noite adentro
Noite adentro
olhos ancorados em Deus
dormem os animais
as crianças as plantas
Ninguém mais.
olhos ancorados em Deus
dormem os animais
as crianças as plantas
Ninguém mais.
1 194
Natalício Barroso
Os Outros Hóspedes
E afinal quem és tu? E de que país maior do que este chegaste?
E quem te trouxe a esse quarto de hospedaria
e te deitou na cama onde já dormimos e esquecemos? Quem?
A tua esperança é como a dos eremitas que sempre esperam algo de
novo
e o teu silêncio, no ressoar das escadarias desse prédio,é como a de um
castelo morto a tiros.
Mas quem te trouxe? E quem te deu esse ar misterioso de quem vem
de alguma experiência trágica ou de algum lugar sagrado? Quem?
Nada, fora estas indagações, te anuncia.
Apenas a chuva, sobre o teto alto, e a luz tênue sobre o basculante
te mantêm calado e só como uma estátua estupidamente viva.
Mas nós te sentimos. Nós, os que partiram antes de ti
e passaram por aqui em busca da mesma agonia.
E quem te trouxe a esse quarto de hospedaria
e te deitou na cama onde já dormimos e esquecemos? Quem?
A tua esperança é como a dos eremitas que sempre esperam algo de
novo
e o teu silêncio, no ressoar das escadarias desse prédio,é como a de um
castelo morto a tiros.
Mas quem te trouxe? E quem te deu esse ar misterioso de quem vem
de alguma experiência trágica ou de algum lugar sagrado? Quem?
Nada, fora estas indagações, te anuncia.
Apenas a chuva, sobre o teto alto, e a luz tênue sobre o basculante
te mantêm calado e só como uma estátua estupidamente viva.
Mas nós te sentimos. Nós, os que partiram antes de ti
e passaram por aqui em busca da mesma agonia.
928
Myriam Fraga
Perspectiva
Este é um mundo-limite
(A que me oponho)
De ciciadas palavras,
De mesuras,
De faces decalcadas
De outras faces
E de sentenças duras.
Este é um mundo-mentira
(Não me enganam)
Da espiral de cinza.
Do frangalho do sonho.
Onde a espera faz-se inútil
E o tempo é nada.
Mundo-agora.
O demônio com seus filtros
O desvairado cachorro.
Sua matilha.
Semeando este chumbo,
Esta ameaça.
Duro é o espreitar do olho
Em cada face.
Na boca devastada
A fome pasce
E a mão ensaia o gesto
E se disfarça.
(A que me oponho)
De ciciadas palavras,
De mesuras,
De faces decalcadas
De outras faces
E de sentenças duras.
Este é um mundo-mentira
(Não me enganam)
Da espiral de cinza.
Do frangalho do sonho.
Onde a espera faz-se inútil
E o tempo é nada.
Mundo-agora.
O demônio com seus filtros
O desvairado cachorro.
Sua matilha.
Semeando este chumbo,
Esta ameaça.
Duro é o espreitar do olho
Em cada face.
Na boca devastada
A fome pasce
E a mão ensaia o gesto
E se disfarça.
1 403
Neide Archanjo
Ah, meu coração
Ah, meu coração
fluente atento apocalíptico resoluto
pleno de vícios
alegre formoso
e em forma de gota.
No amor tem seu reino:
exercício inquieto e longo
(de claro e lúcido desempenho)
invadindo o outro
mas invadindo-o de fato
além do tato do cansaço do medo
cavalgando-o como idéia
esporas leves
pernas rudes
égua e cavalos
galope escancarado
à luz de outras janelas.
Porque se não agarra assim o outro
meu coração se perde
deixa-se ficar como coisa conclusa
vendo e tendo como urgente
um limite falso e amortizado.
Solidão de árvore
esperando o fruto.
Solidão de Lázaro
esperando o Cristo.
Solidão de alvo
esperando a seta.
Ave, poeta.
fluente atento apocalíptico resoluto
pleno de vícios
alegre formoso
e em forma de gota.
No amor tem seu reino:
exercício inquieto e longo
(de claro e lúcido desempenho)
invadindo o outro
mas invadindo-o de fato
além do tato do cansaço do medo
cavalgando-o como idéia
esporas leves
pernas rudes
égua e cavalos
galope escancarado
à luz de outras janelas.
Porque se não agarra assim o outro
meu coração se perde
deixa-se ficar como coisa conclusa
vendo e tendo como urgente
um limite falso e amortizado.
Solidão de árvore
esperando o fruto.
Solidão de Lázaro
esperando o Cristo.
Solidão de alvo
esperando a seta.
Ave, poeta.
1 145
Gerardo Mello Mourão
Visita o forasteiro sua própria beleza e traz
Visita o forasteiro sua própria beleza e traz
o coração na mão enrolado no mapa
de sua própria pátria
— "Moi aussi, Monsieur, je suis un étranger
e meus olhos pranteiam minha beleza estranha
aos circunstantes
— pois estranho a mim mesmo
só à minha beleza não sou estranho e só
meu coração suporta a delícia cruel
da inventada beleza"
Volvia a cabeça e assumia a garça e o lírio
e flutuavam sobre os ombros
à soberba das pupilas as crinas
das éguas alazãs.
A noite se busca a si mesma
nas calçadas de Chelsea
da haste de sua galáxia sobre
o casaco de pele pende
la cansada paloma de su mano:
não sabe de seu ninho e o ninho
é que estremece à noite
em busca do seu pássaro:
anoiteceu em Chelsea
boa noite, Melpômene Mourão
Estava nu entre as montanhas sagradas
e dizia:
— "não governo meu nome
dado a Melpômene e às outras
tenho de meu o chão que piso
a mulher que escolhi
e os filhos que gerei:
pois boa noite, Apolo,
toma a minha mulher, dorme com ela
viola em tua cama, Calíope, meus filhos".
Quer a beleza o sacrifício
da beleza
e o amor
o sacrifício
do amor
pois eu te queimo a rosa a bem-amada
os pêssegos do outono
e a rosa e a bem-amada e os pêssegos do outono
serão aroma a tuas narinas
— por isso —
do hálito de teus pulmões venho viver.
E lembro-me também das outras oferendas
vinte amantes em chamas sobre teu altar
— "Moi — jai brûlé mon sexe
et je crie sur les flammes
la douleur de ma beauté"
e dessa dor se vive
e dessa dor se morre
Salamandra — chamei
e fulgurou a boca
à labareda de seus olhos
Anoiteceu em Chelsea
e sobre seus altares
na pira crepitavam
os bagos de seu sexo —
"Moi, jai fait ce que fait un dieu"
e eu mesmo sou meu próprio sacrifício
e minha adoração"
Anoiteceu em Chelsea
o adorado adorava o adorador
e às vezes crea a creatura
sua creação
— "Je suis lesclave et le maitre de mon corps
e canto sobre os querubins
la fleur de ma beauté"
— "Não te lembras? um dia a serpente
andava erecta à beira dos riachos:
contempla o meu andar quando anoitece em Chelsea —
eu desejei meu corpo e eu mesmo
ergui da relva
as ancas altas e o redondo seio"
E amante de si mesma
dormia
em seu jasmim sua beleza e em sua
beleza sua solidão
— "E sou Ginandramor Ginandramante
a minha própria companhia
Ginandramada"
Os deuses — só os deuses
não estão sós
e os que caminham por seu país
aprendem sua língua
Boa noite, Apolo,
anoitece em Chelsea e uma asa
de pássaro ou de anjo
me roça a fronte e tremo
ao perigo de seu rosto — e dele
nunca mais me despeçam estes olhos
que a terra, a tua terra, há de nutrir.
Movia as largas pálpebras e da cinza de suas pupilas
se acendiam as lâmpadas douradas
sobre Greenwich Village
Coming from Ohio
—"Are you going to be here for a couple of minutes?
—"For ever, Johnny,
pela eternidade".
Anoitece em Chelsea
from Chelsea to Eleusis, Mister Corso:
— "Who are you who spend the day walking in this lobby" —
eu sou o gastador do dia e o ecônomo da noite
não caminho o hall
ensaio a grande marcha
caminho o dia rumo à noite
e a noite rumo ao dia quando
escapa Mona Lisa de seu quadro e sorri
na adolescência milenária desse rosto chinês e os poetas, Ho
pelos arrozais pelo ria amarelo pelo rio azul
pelas serras de África
conduzem a cruzada e a sagrada lira marca
o ritmo das grandes marchas —
entoando os teus peãs, Apolo,
pois os ventos de Uganda trazem tua voz.
Essa trabalha as ancas sob a saia de veludo vermelho
essa trabalha as unhas escarlates nas sandálias de ouro
essa o umbigo no strip-tease do Club 82
e Johnny no Chelsea trabalha o som:
— "este é um poeta, darling,
veio ouvir minha guitarra e contemplar teus seios" —
e ouvir uma guitarra
e contemplar teus seios
é minha profissão
e consumo o crepúsculo a aurora os clitóris rosados
em seu ninho
e o rouxinol
e o grito do amor — e nasce um seio
de Mo
na
li
sa
Laisa
coming from Ohio
to Delphos — Hellas — clamo e amo e o meu
cl
amor
me tu
mul
tua
Benditos os que beijam teu seio e intumescem teu seio
e apojam teu seio, Eleutheria, onde
as criaturas mamam o leite de Apolo Lykio.
Vejo a lua do Potomac e banha-se no Hudson
e à neblina verde de seus olhos
Laisa
agoniza o sexo e a garganta
de um pássaro se forma
desmancha-se em abelhas
tu —
mel —
tuas —
um tumulto de relvas orvalhadas.
Pois vou a Port-au-Prince, Tuna,
Port-au-Prince
Porto Rico
Porto Belo
Porto Fino
Porto Alegre alegre
por tua noite
e preciso de muitos lugares e de muitas pessoas
preciso de cerejas
e da cereja um mel
e desse mel um fio
para o caminho de labirintos pelas
Califórnias de ouro
e ali
o Macho da Sibila — Alberto —
entre Los Angeles Las Vegas
pastoreia os anjos nas floridas veigas —
caminhos dos Hyperbóreos.
Pois de Kennedy Airport TWA
— "are you a jew, sir?
— Do you speak yddish"?
"are you from India
or Pakistan?
Árabe ou grego?
E eu sou
das terras do Ceará Grande e Mel Redondo
Ipueiras Itabuna e Tanque dArca, Jarmelino,
e não falo yddish
falo a fala falo a flauta falo a língua
das abelhas sobre as cerejas
e leio Léa e lêem- me los angeles
e Lisa
Laisa
Mon
a
Lisa
pois vou
a Porto Belo
Porto Fino e Porto Príncipe onde príncipe
aguardo o reino e a núpcia — e onde
a princesa aprende a abrir-me
a flor das coxas lancinantes
e a pitanga madura e o pintassilgo
me ensinam o que sei:
dormir contigo acordar contigo —
bom dia boa noite
Eleutheria.
o coração na mão enrolado no mapa
de sua própria pátria
— "Moi aussi, Monsieur, je suis un étranger
e meus olhos pranteiam minha beleza estranha
aos circunstantes
— pois estranho a mim mesmo
só à minha beleza não sou estranho e só
meu coração suporta a delícia cruel
da inventada beleza"
Volvia a cabeça e assumia a garça e o lírio
e flutuavam sobre os ombros
à soberba das pupilas as crinas
das éguas alazãs.
A noite se busca a si mesma
nas calçadas de Chelsea
da haste de sua galáxia sobre
o casaco de pele pende
la cansada paloma de su mano:
não sabe de seu ninho e o ninho
é que estremece à noite
em busca do seu pássaro:
anoiteceu em Chelsea
boa noite, Melpômene Mourão
Estava nu entre as montanhas sagradas
e dizia:
— "não governo meu nome
dado a Melpômene e às outras
tenho de meu o chão que piso
a mulher que escolhi
e os filhos que gerei:
pois boa noite, Apolo,
toma a minha mulher, dorme com ela
viola em tua cama, Calíope, meus filhos".
Quer a beleza o sacrifício
da beleza
e o amor
o sacrifício
do amor
pois eu te queimo a rosa a bem-amada
os pêssegos do outono
e a rosa e a bem-amada e os pêssegos do outono
serão aroma a tuas narinas
— por isso —
do hálito de teus pulmões venho viver.
E lembro-me também das outras oferendas
vinte amantes em chamas sobre teu altar
— "Moi — jai brûlé mon sexe
et je crie sur les flammes
la douleur de ma beauté"
e dessa dor se vive
e dessa dor se morre
Salamandra — chamei
e fulgurou a boca
à labareda de seus olhos
Anoiteceu em Chelsea
e sobre seus altares
na pira crepitavam
os bagos de seu sexo —
"Moi, jai fait ce que fait un dieu"
e eu mesmo sou meu próprio sacrifício
e minha adoração"
Anoiteceu em Chelsea
o adorado adorava o adorador
e às vezes crea a creatura
sua creação
— "Je suis lesclave et le maitre de mon corps
e canto sobre os querubins
la fleur de ma beauté"
— "Não te lembras? um dia a serpente
andava erecta à beira dos riachos:
contempla o meu andar quando anoitece em Chelsea —
eu desejei meu corpo e eu mesmo
ergui da relva
as ancas altas e o redondo seio"
E amante de si mesma
dormia
em seu jasmim sua beleza e em sua
beleza sua solidão
— "E sou Ginandramor Ginandramante
a minha própria companhia
Ginandramada"
Os deuses — só os deuses
não estão sós
e os que caminham por seu país
aprendem sua língua
Boa noite, Apolo,
anoitece em Chelsea e uma asa
de pássaro ou de anjo
me roça a fronte e tremo
ao perigo de seu rosto — e dele
nunca mais me despeçam estes olhos
que a terra, a tua terra, há de nutrir.
Movia as largas pálpebras e da cinza de suas pupilas
se acendiam as lâmpadas douradas
sobre Greenwich Village
Coming from Ohio
—"Are you going to be here for a couple of minutes?
—"For ever, Johnny,
pela eternidade".
Anoitece em Chelsea
from Chelsea to Eleusis, Mister Corso:
— "Who are you who spend the day walking in this lobby" —
eu sou o gastador do dia e o ecônomo da noite
não caminho o hall
ensaio a grande marcha
caminho o dia rumo à noite
e a noite rumo ao dia quando
escapa Mona Lisa de seu quadro e sorri
na adolescência milenária desse rosto chinês e os poetas, Ho
pelos arrozais pelo ria amarelo pelo rio azul
pelas serras de África
conduzem a cruzada e a sagrada lira marca
o ritmo das grandes marchas —
entoando os teus peãs, Apolo,
pois os ventos de Uganda trazem tua voz.
Essa trabalha as ancas sob a saia de veludo vermelho
essa trabalha as unhas escarlates nas sandálias de ouro
essa o umbigo no strip-tease do Club 82
e Johnny no Chelsea trabalha o som:
— "este é um poeta, darling,
veio ouvir minha guitarra e contemplar teus seios" —
e ouvir uma guitarra
e contemplar teus seios
é minha profissão
e consumo o crepúsculo a aurora os clitóris rosados
em seu ninho
e o rouxinol
e o grito do amor — e nasce um seio
de Mo
na
li
sa
Laisa
coming from Ohio
to Delphos — Hellas — clamo e amo e o meu
cl
amor
me tu
mul
tua
Benditos os que beijam teu seio e intumescem teu seio
e apojam teu seio, Eleutheria, onde
as criaturas mamam o leite de Apolo Lykio.
Vejo a lua do Potomac e banha-se no Hudson
e à neblina verde de seus olhos
Laisa
agoniza o sexo e a garganta
de um pássaro se forma
desmancha-se em abelhas
tu —
mel —
tuas —
um tumulto de relvas orvalhadas.
Pois vou a Port-au-Prince, Tuna,
Port-au-Prince
Porto Rico
Porto Belo
Porto Fino
Porto Alegre alegre
por tua noite
e preciso de muitos lugares e de muitas pessoas
preciso de cerejas
e da cereja um mel
e desse mel um fio
para o caminho de labirintos pelas
Califórnias de ouro
e ali
o Macho da Sibila — Alberto —
entre Los Angeles Las Vegas
pastoreia os anjos nas floridas veigas —
caminhos dos Hyperbóreos.
Pois de Kennedy Airport TWA
— "are you a jew, sir?
— Do you speak yddish"?
"are you from India
or Pakistan?
Árabe ou grego?
E eu sou
das terras do Ceará Grande e Mel Redondo
Ipueiras Itabuna e Tanque dArca, Jarmelino,
e não falo yddish
falo a fala falo a flauta falo a língua
das abelhas sobre as cerejas
e leio Léa e lêem- me los angeles
e Lisa
Laisa
Mon
a
Lisa
pois vou
a Porto Belo
Porto Fino e Porto Príncipe onde príncipe
aguardo o reino e a núpcia — e onde
a princesa aprende a abrir-me
a flor das coxas lancinantes
e a pitanga madura e o pintassilgo
me ensinam o que sei:
dormir contigo acordar contigo —
bom dia boa noite
Eleutheria.
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