Poemas neste tema
Animais e Natureza
Luiz Carlos Freitas
Flor da Vida
VIDA não há no interior das rochas que formam o topo das montanhas,
Mesmo assim a vegetação as recobre em cor.
Por mais que se tente tocá-las em tamanha altura,
Parece que Deus, só a ti permitiste,...FLOR.
VIDA feliz do Beija-Flor!
Te beija com doces e precisos toques, sem dor.
Se só a ti foi permitido tocar as rochas,
Por que não me divides com esse pássaro,...FLOR?
VIDA que a natureza reservou para fazer-te bela !
Podes ser acariciada por delicados insetos, com amor.
Já tens tantos atributos que a diferencia do mundo,
Por que não me odorizas com teu perfume,...FLOR ?
VIDA simples levas cravada num mesmo lugar ao chão.
Para se movimentar precisa de luz e calor.
Se só o vento te toca as pétalas e te assanhas tanto,
Por que não permites, ao menos, soprar-te,...FLOR?
VIDA ! Que estranha vida dessas espécies, que os jardins enfeitam !
Quando muda a estação, desaparecem como vapor.
Se morrerias logo após a primavera,
Por que me coloriste tanto com teu pólen,...FLOR?
14/06/96
Mesmo assim a vegetação as recobre em cor.
Por mais que se tente tocá-las em tamanha altura,
Parece que Deus, só a ti permitiste,...FLOR.
VIDA feliz do Beija-Flor!
Te beija com doces e precisos toques, sem dor.
Se só a ti foi permitido tocar as rochas,
Por que não me divides com esse pássaro,...FLOR?
VIDA que a natureza reservou para fazer-te bela !
Podes ser acariciada por delicados insetos, com amor.
Já tens tantos atributos que a diferencia do mundo,
Por que não me odorizas com teu perfume,...FLOR ?
VIDA simples levas cravada num mesmo lugar ao chão.
Para se movimentar precisa de luz e calor.
Se só o vento te toca as pétalas e te assanhas tanto,
Por que não permites, ao menos, soprar-te,...FLOR?
VIDA ! Que estranha vida dessas espécies, que os jardins enfeitam !
Quando muda a estação, desaparecem como vapor.
Se morrerias logo após a primavera,
Por que me coloriste tanto com teu pólen,...FLOR?
14/06/96
1 005
Machado de Assis
A um Legista
Tu foges à cidade?
Feliz amigo! Vão
Contigo a liberdade,
A vida e o coração.
A estância que te espera
É feita para o amor
Do sol com a primavera,
No seio de uma flor.
Do paço de verdura
Transpõe-me esses umbrais;
Contempla a arquitetura
Dos verdes palmeirais.
Esquece o ardor funesto
Da vida cortesã;
Mais val que o teu Digesto
A rosa da manhã.
Rosa . . . que se enamora
Do amante colibri,
E desde a luz da aurora
Os seios lhe abre e ri.
Mas Zéfiro brejeiro
Opõe ao beija-flor
Embargos de terceiro
Senhor e possuidor.
Quer este possuí-la,
Também o outro a quer.
A pobre flor vacila,
Não sabe a que atender.
O sol, juiz tão grave
Como o melhor doutor,
Condena a brisa e a ave
Aos ósculos da flor.
Zéfiro ouve e apela.
Apela o colibri.
No entanto, a flor singela
Com ambos folga e ri.
Tal a formosa dama
Entre dois fogos, quer
Aproveitar a chama . . .
Rosa, tu és mulher!
Respira aqueles ares,
Amigo. Deita ao chão
Os tédios e os pesares.
Revive. O coração
É como o passarinho,
Que deixa sem cessar
A maciez do ninho
Pela amplidão do ar.
Pudesse eu ir contigo,
Gozar contigo a luz;
Sorver ao pé do amigo
Vida melhor e a flux!
Ir escrever nos campos,
Nas folhas dos rosais,
E à luz dos pirilampos,
Ó Flora, os teus jornais!
Da estrela que mais brilha
Tirar um raio, e então
Fazer a gazetilha
Da imensa solidão.
Vai tu, que podes. Deixa
Os que não podem ir,
Soltar a inútil queixa.
Mudar é reflorir.
Feliz amigo! Vão
Contigo a liberdade,
A vida e o coração.
A estância que te espera
É feita para o amor
Do sol com a primavera,
No seio de uma flor.
Do paço de verdura
Transpõe-me esses umbrais;
Contempla a arquitetura
Dos verdes palmeirais.
Esquece o ardor funesto
Da vida cortesã;
Mais val que o teu Digesto
A rosa da manhã.
Rosa . . . que se enamora
Do amante colibri,
E desde a luz da aurora
Os seios lhe abre e ri.
Mas Zéfiro brejeiro
Opõe ao beija-flor
Embargos de terceiro
Senhor e possuidor.
Quer este possuí-la,
Também o outro a quer.
A pobre flor vacila,
Não sabe a que atender.
O sol, juiz tão grave
Como o melhor doutor,
Condena a brisa e a ave
Aos ósculos da flor.
Zéfiro ouve e apela.
Apela o colibri.
No entanto, a flor singela
Com ambos folga e ri.
Tal a formosa dama
Entre dois fogos, quer
Aproveitar a chama . . .
Rosa, tu és mulher!
Respira aqueles ares,
Amigo. Deita ao chão
Os tédios e os pesares.
Revive. O coração
É como o passarinho,
Que deixa sem cessar
A maciez do ninho
Pela amplidão do ar.
Pudesse eu ir contigo,
Gozar contigo a luz;
Sorver ao pé do amigo
Vida melhor e a flux!
Ir escrever nos campos,
Nas folhas dos rosais,
E à luz dos pirilampos,
Ó Flora, os teus jornais!
Da estrela que mais brilha
Tirar um raio, e então
Fazer a gazetilha
Da imensa solidão.
Vai tu, que podes. Deixa
Os que não podem ir,
Soltar a inútil queixa.
Mudar é reflorir.
2 252
Luiz Guimarães
História d’um cão
História d’um cão
Eu tive um cão. Chamava-se Veludo:
Magro, asqueroso, revoltante, imundo,
Para dizer numa palavra tudo
Foi o mais feio cão que houve no mundo
Recebi-o das mãos dum camarada.
Na hora da partida, o cão gemendo
Não me queria acompanhar por nada:
Enfim - mau grado seu - o vim trazendo.
O meu amigo cabisbaixo, mudo,
Olhava-o ... o sol nas ondas se abismava....
«Adeus!» - me disse,- e ao afagar Veludo
Nos olhos seus o pranto borbulhava.
«Trata-o bem. Verás como rasteiro
Te indicarás os mais sutís perigos;
Adeus! E que este amigo verdadeiro
Te console no mundo ermo de amigos.»
Veludo a custo habituou-se à vida
Que o destino de novo lhe escolhera;
Sua rugosa pálpebra sentida
Chorava o antigo dono que perdera.
Nas longas noites de luar brilhante,
Febril, convulso, trêmulo, agitado
A sua cauda - caminhava errante
A luz da lua - tristemente uivando
Toussenel: Figuier e a lista imensa
Dos modernos zoológicos doutores
Dizem que o cão é um animal que pensa:
Talvez tenham razão estes senhores.
Lembro-me ainda. Trouxe-me o correio,
Cinco meses depois, do meu amigo
Um envelope fartamente cheio:
Era uma carta. Carta! era um artigo
Contendo a narração miuda e exata
Da travessia. Dava-me importantes
Notícias do Brasil e de La Plata,
Falava em rios, árvores gigantes:
Gabava o steamer que o levou; dizia
Que ia tentar inúmeras empresas:
Contava-me também que a bordo havia
Mulheres joviais - todas francesas.
Assombrava-me muito da ligeira
Moralidade que encontrou a bordo:
Citava o caso d’uma passageira...
Mil coisas mais de que me não recordo.
Finalmente, por baixo disso tudo
Em nota breve do melhor cursivo
Recomendava o pobre do Veludo
Pedindo a Deus que o conservasse vivo.
Enquanto eu lia, o cão tranquilo e atento
Me contemplava, e - creia que é verdade,
Vi, comovido, vi nesse momento
Seus olhos gotejarem de saudade.
Depois lambeu-me as mãos humildemente,
Estendeu-se a meus pés silencioso
Movendo a cauda, - e adormeceu contente
Farto d’um puro e satisfeito gozo.
Passou-se o tempo. Finalmente um dia
Vi-me livre d’aquele companheiro;
Para nada Veludo me servia,
Dei-o à mulher d’um velho carvoeiro.
E respirei! «Graças a Deus! Já posso»
Dizia eu «viver neste bom mundo
Sem ter que dar diariamente um osso
A um bicho vil, a um feio cão imundo».
Gosto dos animais, porém prefiro
A essa raça baixa e aduladora
Um alazão inglês, de sela ou tiro,
Ou uma gata branca sismadora.
Mal respirei, porém! Quando dormia
E a negra noite amortalhava tudo
Sentí que à minha porta alguem batia:
Fui ver quem era. Abrí. Era Veludo.
Saltou-me às mãos, lambeu-me os pés ganindo,
Farejou toda a casa satisfeito;
E - de cansado - foi rolar dormindo
Como uma pedra, junto do meu leito.
Preguejei furioso. Era execrável
Suportar esse hóspede importuno
Que me seguia como o miserável
Ladrão, ou como um pérfido gatuno.
E resolvi-me enfim. Certo, é custoso
Dizê-lo em alta voz e confessá-lo
Para livrar-me desse cão leproso
Havia um meio só: era matá-lo
Zunia a asa fúnebre dos ventos;
Ao longe o mar na solidão gemendo
Arrebentava em uivos e lamentos...
De instante em instante ia o tufão crescendo.
Chamei Veludo; ele seguia-me. Entanto
A fremente borrasca me arrancava
Dos frios ombros o revolto manto
E a chuva meus cabelos fustigava.
Despertei um barqueiro. Contra o vento,
Contra as ondas coléricas vogamos;
Dava-me força o torvo pensamento:
Peguei num remo - e com furor remamos
Veludo à proa olhava-me choroso
Como o cordeiro no final momento,
Embora! Era fatal! Era forçoso
Livrar-me enfim desse animal nojento.
No largo mar ergui-o nos meus braços
E arremessei-o às ondas de repente...
Ele moveu gemendo os membros lassos
Lutando contra a morte. Era pungente.
Voltei à terra - entrei em casa. O vento
Zunia sempre na amplidão profundo.
E pareceu-me ouvir o atroz lamento
De Veludo nas ondas morimbundo.
Mas ao despir dos ombros meus o manto
Notei - oh grande dor! - haver perdido
Uma relíquia que eu prezava tanto!
Era um cordão de prata: - eu tinha-o unido
Contra o meu coração constantemente
E o conservava no maior recato
Pois minha mãe me dera essa corrente
E, suspenso à corrente, o seu retrato.
Certo caira lém no mar profundo,
No eterno abismo que devora tudo;
E foi o cão, foi esse cão imundo
A causa do meu mal! Ah, se Veludo
Duas vidas tivera - duas vidas
Eu arrancara àquela besta morta
E àquelas vís entranhas corrompidas.
Nisto sentí uivar à minha porta.
Corrí, - abrí... Era Veludo! Arfava:
Estendeu-se a meus pés, - e docemente
Deixou cair da boca que espumava
A medalha suspensa da corrente.
Fôra crível, oh Deus? - Ajoelhado
Junto do cão - estupefato, absorto,
Palpei-lhe o corpo: estava enregelado;
Sacudi-o, chamei-o! Estava morto.
Eu tive um cão. Chamava-se Veludo:
Magro, asqueroso, revoltante, imundo,
Para dizer numa palavra tudo
Foi o mais feio cão que houve no mundo
Recebi-o das mãos dum camarada.
Na hora da partida, o cão gemendo
Não me queria acompanhar por nada:
Enfim - mau grado seu - o vim trazendo.
O meu amigo cabisbaixo, mudo,
Olhava-o ... o sol nas ondas se abismava....
«Adeus!» - me disse,- e ao afagar Veludo
Nos olhos seus o pranto borbulhava.
«Trata-o bem. Verás como rasteiro
Te indicarás os mais sutís perigos;
Adeus! E que este amigo verdadeiro
Te console no mundo ermo de amigos.»
Veludo a custo habituou-se à vida
Que o destino de novo lhe escolhera;
Sua rugosa pálpebra sentida
Chorava o antigo dono que perdera.
Nas longas noites de luar brilhante,
Febril, convulso, trêmulo, agitado
A sua cauda - caminhava errante
A luz da lua - tristemente uivando
Toussenel: Figuier e a lista imensa
Dos modernos zoológicos doutores
Dizem que o cão é um animal que pensa:
Talvez tenham razão estes senhores.
Lembro-me ainda. Trouxe-me o correio,
Cinco meses depois, do meu amigo
Um envelope fartamente cheio:
Era uma carta. Carta! era um artigo
Contendo a narração miuda e exata
Da travessia. Dava-me importantes
Notícias do Brasil e de La Plata,
Falava em rios, árvores gigantes:
Gabava o steamer que o levou; dizia
Que ia tentar inúmeras empresas:
Contava-me também que a bordo havia
Mulheres joviais - todas francesas.
Assombrava-me muito da ligeira
Moralidade que encontrou a bordo:
Citava o caso d’uma passageira...
Mil coisas mais de que me não recordo.
Finalmente, por baixo disso tudo
Em nota breve do melhor cursivo
Recomendava o pobre do Veludo
Pedindo a Deus que o conservasse vivo.
Enquanto eu lia, o cão tranquilo e atento
Me contemplava, e - creia que é verdade,
Vi, comovido, vi nesse momento
Seus olhos gotejarem de saudade.
Depois lambeu-me as mãos humildemente,
Estendeu-se a meus pés silencioso
Movendo a cauda, - e adormeceu contente
Farto d’um puro e satisfeito gozo.
Passou-se o tempo. Finalmente um dia
Vi-me livre d’aquele companheiro;
Para nada Veludo me servia,
Dei-o à mulher d’um velho carvoeiro.
E respirei! «Graças a Deus! Já posso»
Dizia eu «viver neste bom mundo
Sem ter que dar diariamente um osso
A um bicho vil, a um feio cão imundo».
Gosto dos animais, porém prefiro
A essa raça baixa e aduladora
Um alazão inglês, de sela ou tiro,
Ou uma gata branca sismadora.
Mal respirei, porém! Quando dormia
E a negra noite amortalhava tudo
Sentí que à minha porta alguem batia:
Fui ver quem era. Abrí. Era Veludo.
Saltou-me às mãos, lambeu-me os pés ganindo,
Farejou toda a casa satisfeito;
E - de cansado - foi rolar dormindo
Como uma pedra, junto do meu leito.
Preguejei furioso. Era execrável
Suportar esse hóspede importuno
Que me seguia como o miserável
Ladrão, ou como um pérfido gatuno.
E resolvi-me enfim. Certo, é custoso
Dizê-lo em alta voz e confessá-lo
Para livrar-me desse cão leproso
Havia um meio só: era matá-lo
Zunia a asa fúnebre dos ventos;
Ao longe o mar na solidão gemendo
Arrebentava em uivos e lamentos...
De instante em instante ia o tufão crescendo.
Chamei Veludo; ele seguia-me. Entanto
A fremente borrasca me arrancava
Dos frios ombros o revolto manto
E a chuva meus cabelos fustigava.
Despertei um barqueiro. Contra o vento,
Contra as ondas coléricas vogamos;
Dava-me força o torvo pensamento:
Peguei num remo - e com furor remamos
Veludo à proa olhava-me choroso
Como o cordeiro no final momento,
Embora! Era fatal! Era forçoso
Livrar-me enfim desse animal nojento.
No largo mar ergui-o nos meus braços
E arremessei-o às ondas de repente...
Ele moveu gemendo os membros lassos
Lutando contra a morte. Era pungente.
Voltei à terra - entrei em casa. O vento
Zunia sempre na amplidão profundo.
E pareceu-me ouvir o atroz lamento
De Veludo nas ondas morimbundo.
Mas ao despir dos ombros meus o manto
Notei - oh grande dor! - haver perdido
Uma relíquia que eu prezava tanto!
Era um cordão de prata: - eu tinha-o unido
Contra o meu coração constantemente
E o conservava no maior recato
Pois minha mãe me dera essa corrente
E, suspenso à corrente, o seu retrato.
Certo caira lém no mar profundo,
No eterno abismo que devora tudo;
E foi o cão, foi esse cão imundo
A causa do meu mal! Ah, se Veludo
Duas vidas tivera - duas vidas
Eu arrancara àquela besta morta
E àquelas vís entranhas corrompidas.
Nisto sentí uivar à minha porta.
Corrí, - abrí... Era Veludo! Arfava:
Estendeu-se a meus pés, - e docemente
Deixou cair da boca que espumava
A medalha suspensa da corrente.
Fôra crível, oh Deus? - Ajoelhado
Junto do cão - estupefato, absorto,
Palpei-lhe o corpo: estava enregelado;
Sacudi-o, chamei-o! Estava morto.
1 345
Leopoldo Neto
Boa Vista
A natureza foi para ti bondosa
Desabrochando-te neste lavrado imenso
Pra desfilares, sobre ti mesma vaidosa
Despreocupada com o crescimento intenso!...
És a divina musa, que me faz brotar versos
A dadivosa que abriga toda gente
Acalento das tristezas e dos reversos
A namorada pura, a dona da minha mente !...
És a lira , que dá musicalidade a vidas
Afago dos desiludidos e injustiçados !...
Orquestra sinfônica dos desconsolados !...
Do norte do Brasil és a princesa
De Roraima és a receita da certeza
Que dá sucesso garantido para toda lida !...
Desabrochando-te neste lavrado imenso
Pra desfilares, sobre ti mesma vaidosa
Despreocupada com o crescimento intenso!...
És a divina musa, que me faz brotar versos
A dadivosa que abriga toda gente
Acalento das tristezas e dos reversos
A namorada pura, a dona da minha mente !...
És a lira , que dá musicalidade a vidas
Afago dos desiludidos e injustiçados !...
Orquestra sinfônica dos desconsolados !...
Do norte do Brasil és a princesa
De Roraima és a receita da certeza
Que dá sucesso garantido para toda lida !...
941
Lúcia Maria Leite Sousa
O Arco-íris da Terra
Como um arco-íris de enrgia e cor
um imenso facho de luz surgiu
e da imensidão dos raios,
nasceu o azul cristalino do céu...
que nos encanta e presenteia
com a suave pureza do luar...
que apaixona e enlouquece os enamorados.
Eu vi o mar...
que nasceu verde...ou azul...
como um arco-íris...vultoso,
inundando de emoção o nosso olhar.
Eu senti o melodioso sussurrar do vento
nas folhar verdes das árvores...
como um arco-íris...
num vôo de esperança,
no verde-esperança da vida.
Eu vi a cinza semente borbulhar
no seio da terra...num sublime renascer.
Eu vi no céu
o encontro do sol e da lua,
num maravilhoso entardecer,
de cores vermelhas e incandescentes...
como um arco-íris...
e os pássaros a entoar melodias,
enriquecendo a grandiosa coreografia.
Mas no dia-a-dia da vida,
eu vi o facho de luz se apagar
e na imensidão do céu
um buraco negro predominar.
E as nuvens de gases,
eu vi o arco-íris encobrir,
e o azul do céu sombrear,
e o verde do mar escurecer,
e o amarelo das folhas entristecer,
e o verde das árvores esvair,
e toda terra gritar...não me deixai morrer!
Quero ser com um arco-íris,
e resplandecer luz e cor
até o infinito...eternamente!
13.07.92, Maceió/AL
um imenso facho de luz surgiu
e da imensidão dos raios,
nasceu o azul cristalino do céu...
que nos encanta e presenteia
com a suave pureza do luar...
que apaixona e enlouquece os enamorados.
Eu vi o mar...
que nasceu verde...ou azul...
como um arco-íris...vultoso,
inundando de emoção o nosso olhar.
Eu senti o melodioso sussurrar do vento
nas folhar verdes das árvores...
como um arco-íris...
num vôo de esperança,
no verde-esperança da vida.
Eu vi a cinza semente borbulhar
no seio da terra...num sublime renascer.
Eu vi no céu
o encontro do sol e da lua,
num maravilhoso entardecer,
de cores vermelhas e incandescentes...
como um arco-íris...
e os pássaros a entoar melodias,
enriquecendo a grandiosa coreografia.
Mas no dia-a-dia da vida,
eu vi o facho de luz se apagar
e na imensidão do céu
um buraco negro predominar.
E as nuvens de gases,
eu vi o arco-íris encobrir,
e o azul do céu sombrear,
e o verde do mar escurecer,
e o amarelo das folhas entristecer,
e o verde das árvores esvair,
e toda terra gritar...não me deixai morrer!
Quero ser com um arco-íris,
e resplandecer luz e cor
até o infinito...eternamente!
13.07.92, Maceió/AL
951
Luiz Nogueira Barros
O cavalo branco
Eu queria agora o meu cavalo branco
que tenho procurado pelos brados.
Seria bom qu ’ ele tivesse asas e cascos afiados.
Eu o montaria:
e de crinas erectas aos ventos da eternidade
ele deixaria, na partida, marcas sobre a terra !...
que tenho procurado pelos brados.
Seria bom qu ’ ele tivesse asas e cascos afiados.
Eu o montaria:
e de crinas erectas aos ventos da eternidade
ele deixaria, na partida, marcas sobre a terra !...
983
Luiz Nogueira Barros
Do cantar e do falar
Cantar,
talvez não seja tudo.
Falar,
ainda não sei.
Cantar,
as aves cantam
um canto eterno e ritimado
na ondulação das árvores
nos bosques e campinas.
Falar,
falam e falaram
homens comuns e incomuns,
nas ruas, nas praças e nos púlpitos.
Se essas coisas doem
ainda não sei.
O que sei que dói é o silêncio
e que um dia hei de cantar,
mas sobretudo hei de falar...
talvez não seja tudo.
Falar,
ainda não sei.
Cantar,
as aves cantam
um canto eterno e ritimado
na ondulação das árvores
nos bosques e campinas.
Falar,
falam e falaram
homens comuns e incomuns,
nas ruas, nas praças e nos púlpitos.
Se essas coisas doem
ainda não sei.
O que sei que dói é o silêncio
e que um dia hei de cantar,
mas sobretudo hei de falar...
953
Tomás Antônio Gonzaga
LIRA I
Eu, Marília, não sou algum vaqueiro
Que viva de guardar alheio gado,
De tosco trato, de expressões grosseiro,
Dos frios gelos e dos sóis queimado;
Tenho própio casal e nele assisto;
Dá-me fruta, legume, vinho, azeite;
Das brancas ovelhinhas tiro o leite
E mais a fina lã, de que me visto,
Graças, Marília bela,
Graças à minha estrela!
Eu vi o meu semblante numa fonte,
Dos anos inda não está cortado:
Os pastores que habitam este monte,
Respeitam o poder do meu cajado;
Com tal destreza toco a sanfoninha
Que inveja até me tem o próprio Alceste;
Ao som dela concerto a voz celeste;
Nem canto letra que não seja minha.
Graças, Marília bela,
Graças à minha estrela!
Mas tendo tantos dotes de ventura,
Só apreço lhes dou, gentil pastora,
Depois que o teu afeto me assegura,
Que queres do que tenho ser senhora;
É bom, minha Marília, é bom ser dono
De um rebanho que cubra monte e prado;
Porém, gentil pastora, o teu agrado
Vale mais que um rebanho e mais que um trono.
Graças, Marília bela,
Graças à minha estrela!
Que viva de guardar alheio gado,
De tosco trato, de expressões grosseiro,
Dos frios gelos e dos sóis queimado;
Tenho própio casal e nele assisto;
Dá-me fruta, legume, vinho, azeite;
Das brancas ovelhinhas tiro o leite
E mais a fina lã, de que me visto,
Graças, Marília bela,
Graças à minha estrela!
Eu vi o meu semblante numa fonte,
Dos anos inda não está cortado:
Os pastores que habitam este monte,
Respeitam o poder do meu cajado;
Com tal destreza toco a sanfoninha
Que inveja até me tem o próprio Alceste;
Ao som dela concerto a voz celeste;
Nem canto letra que não seja minha.
Graças, Marília bela,
Graças à minha estrela!
Mas tendo tantos dotes de ventura,
Só apreço lhes dou, gentil pastora,
Depois que o teu afeto me assegura,
Que queres do que tenho ser senhora;
É bom, minha Marília, é bom ser dono
De um rebanho que cubra monte e prado;
Porém, gentil pastora, o teu agrado
Vale mais que um rebanho e mais que um trono.
Graças, Marília bela,
Graças à minha estrela!
3 507
João Linneu
Cana
É o começo da safra o corte na pernabote de jararacaguizo de cascavel.
É o frio da madrugadaa azia da tardecalor dos infernosa garapa gelada.
É o moer da moendaa pinga benditao ganho do donogavião de atalaia.
É a dor nas costasventania no rostorabeira de caminhãoo barranco da estrada.
É no fio do facão bagaço da canatouceira de socaaçúcar mascavo.
É a fumaça nos olhosfuligem no arum golpe de vento cheiro do restilo.
É a menina em casavelando a caçulaa doçura da canao travo da pinga.
É o suor escorrendoa vida vertendoa moenda moendoa cãibra da noite.
É o pouco sonocagando na moitao choro do filhoamando em silencio.
É a cachaça diária o tapa na filhao ranho do netopileque de domingo.
É uma curva de nívelestrepe na mãoum caco de dentepedaços de gente.
É um jeito de corpochuva de ventoo barro vermelho ruflar de lagarto.
É o bicho-de-péo coró da madeirapedra de fogochuva de estrelas.É o olho-dáguaum pé de ventoo fogo de encontro a coivara.
É uma manga de veza broca da canao berne na carneo sol no cangote
É a saudade, é a saudade da lida com porcodo ciscar da galinhada horta de couveda polenta em feta é a saudade, é a saudadeda panceta da porcada canga do boida pamonha na palhada canjica da tardeé a saudade, é a saudadedo leite de éguada curva do rioda prosa da noite do pé-de-molequeé a saudade, é a saudadedo fumo de corda pão de torresmo do borralho do fornoreza e catira.é a saudade , é a saudade.
É o frio da madrugadaa azia da tardecalor dos infernosa garapa gelada.
É o moer da moendaa pinga benditao ganho do donogavião de atalaia.
É a dor nas costasventania no rostorabeira de caminhãoo barranco da estrada.
É no fio do facão bagaço da canatouceira de socaaçúcar mascavo.
É a fumaça nos olhosfuligem no arum golpe de vento cheiro do restilo.
É a menina em casavelando a caçulaa doçura da canao travo da pinga.
É o suor escorrendoa vida vertendoa moenda moendoa cãibra da noite.
É o pouco sonocagando na moitao choro do filhoamando em silencio.
É a cachaça diária o tapa na filhao ranho do netopileque de domingo.
É uma curva de nívelestrepe na mãoum caco de dentepedaços de gente.
É um jeito de corpochuva de ventoo barro vermelho ruflar de lagarto.
É o bicho-de-péo coró da madeirapedra de fogochuva de estrelas.É o olho-dáguaum pé de ventoo fogo de encontro a coivara.
É uma manga de veza broca da canao berne na carneo sol no cangote
É a saudade, é a saudade da lida com porcodo ciscar da galinhada horta de couveda polenta em feta é a saudade, é a saudadeda panceta da porcada canga do boida pamonha na palhada canjica da tardeé a saudade, é a saudadedo leite de éguada curva do rioda prosa da noite do pé-de-molequeé a saudade, é a saudadedo fumo de corda pão de torresmo do borralho do fornoreza e catira.é a saudade , é a saudade.
946
Lúcio José Gusman
O pirilampo
Um pirilampo indiscreto,
esperto,
sem pedir licença,
se pôs a contemplar-te
deitada no teu leito:
"- Como és linda!", disse ele.
O pirilampo indiscreto,
esperto,
teve o fado
que me é negado.
E pôde banhar-te
com sua delicada luz,
vislumbrando na fosforescência
do aveludado de teu corpo
a lascívia de tuas formas,
a beleza única de teus contornos.
Tu, qual Vênus pronta a se entregar
aos ansiados braços
de um Morfeu sedento...
Oh! O que eu não daria
para ser o pirilampo!
E ver-te, e admirar-te,
e desejar-te - e te querer! -,
e sentir teu hálito
num abraço-espasmo
longo, duradouro,
fundindo corpos,
entrelaçando almas,
para, enfim,
na exaustão do amor,
depositar na maciez sensual
de tua boca rósea
o ósculo santo da paixão
definitiva.
E depois,
beijar teus olhos semicerrados,
suavemente, ternamente,
e velar teu sono,
e segredar-te sussurrando
tudo aquilo que a uma deusa
se deve dizer ajoelhado.
Mas eu não sou o pirilampo...
esperto,
sem pedir licença,
se pôs a contemplar-te
deitada no teu leito:
"- Como és linda!", disse ele.
O pirilampo indiscreto,
esperto,
teve o fado
que me é negado.
E pôde banhar-te
com sua delicada luz,
vislumbrando na fosforescência
do aveludado de teu corpo
a lascívia de tuas formas,
a beleza única de teus contornos.
Tu, qual Vênus pronta a se entregar
aos ansiados braços
de um Morfeu sedento...
Oh! O que eu não daria
para ser o pirilampo!
E ver-te, e admirar-te,
e desejar-te - e te querer! -,
e sentir teu hálito
num abraço-espasmo
longo, duradouro,
fundindo corpos,
entrelaçando almas,
para, enfim,
na exaustão do amor,
depositar na maciez sensual
de tua boca rósea
o ósculo santo da paixão
definitiva.
E depois,
beijar teus olhos semicerrados,
suavemente, ternamente,
e velar teu sono,
e segredar-te sussurrando
tudo aquilo que a uma deusa
se deve dizer ajoelhado.
Mas eu não sou o pirilampo...
934
Maria Thereza Noronha
Soneto ao Estilo Neo-clássico
Em verde indiferença me pressinto
em prados onde outrora fui rainha.
A grinalda de flores que me vinha
a cabeça adornar, já não a sinto.
Em pálidas areias me reclino
de ilhas onde aportei. Mas se advinha
do mar a voz em versos de marinha
e em conchas de segredo cristalino.
Pastora de lembranças, me sustenta
o hálito da brisa vespertina.
Na asa da borboleta, a face lenta
da larva onde dormiu, não se divisa.
Nem a enxurrada se percebe ainda
na lágrima tangida pela brisa.
em prados onde outrora fui rainha.
A grinalda de flores que me vinha
a cabeça adornar, já não a sinto.
Em pálidas areias me reclino
de ilhas onde aportei. Mas se advinha
do mar a voz em versos de marinha
e em conchas de segredo cristalino.
Pastora de lembranças, me sustenta
o hálito da brisa vespertina.
Na asa da borboleta, a face lenta
da larva onde dormiu, não se divisa.
Nem a enxurrada se percebe ainda
na lágrima tangida pela brisa.
995
Lúcio José Gusman
Obsessão
Uma borboleta linda
mora nos teus olhos
e me fita atentamente.
Quando moves as pupilas
e semicerras as pálpebras,
vejo-a
num espiral frenético
a me chamar e enfeitiçar.
Uma borboleta linda
mora nos teus olhos
e me fita atentamente.
E eu fico a contemplá-la
extasiado, mudo e triste,
com vontade de acompanhá-la.
Uma borboleta linda
mora nos teus olhos
e me fita atentamente.
E eu fico a contemplá-la,
extasiado, mudo e triste,
sem poder acompanhar-lhe o vôo.
Uma borboleta linda
mora nos teus olhos.
Uma borboleta linda...
linda... linda...
mora nos teus olhos
e me fita atentamente.
Quando moves as pupilas
e semicerras as pálpebras,
vejo-a
num espiral frenético
a me chamar e enfeitiçar.
Uma borboleta linda
mora nos teus olhos
e me fita atentamente.
E eu fico a contemplá-la
extasiado, mudo e triste,
com vontade de acompanhá-la.
Uma borboleta linda
mora nos teus olhos
e me fita atentamente.
E eu fico a contemplá-la,
extasiado, mudo e triste,
sem poder acompanhar-lhe o vôo.
Uma borboleta linda
mora nos teus olhos.
Uma borboleta linda...
linda... linda...
861
Lêdo Ivo
Advertência a um Gavião
O gavião sobrevoa
a plantação de tomate.
Meu irmão gavião,
eu não aceito a morte.
Na partilha do mundo
não estarei ao teu lado.
Jamais admitirei
a usurparão do dia.
Só sei enfileirar-me
no cortejo da vida.
Meu caminho me leva
a floresta onde fluem
as fontes escondidas.
Mesmo longe adivinho
uma árvore que tenha
frescor de fruto ou ninho.
Gavião! Gavião!
embaixador do não,
o céu não pode ser
sepultura de pássaros.
a plantação de tomate.
Meu irmão gavião,
eu não aceito a morte.
Na partilha do mundo
não estarei ao teu lado.
Jamais admitirei
a usurparão do dia.
Só sei enfileirar-me
no cortejo da vida.
Meu caminho me leva
a floresta onde fluem
as fontes escondidas.
Mesmo longe adivinho
uma árvore que tenha
frescor de fruto ou ninho.
Gavião! Gavião!
embaixador do não,
o céu não pode ser
sepultura de pássaros.
1 026
Lúcio José Gusman
Poema definitivo
És assim como o vento:
pões a biruta da vida
sobre o mastro a voltear;
és a gaivota prateada:
bicas de leve e silente
cada onda do meu mar;
és o grãozinho de areia
que cola e logo descola,
voltando ao seu lugar;
és aquele raio quente
do sol do meio-do-dia,
astro-rei, a me queimar;
és a vitela pastando,
a arvorezinha brotando,
ceifa do ceifador a me ceifar...;
és o vestido de rendas
na menina indefinível
a rodar, rodar, rodar;
és meu ímã predileto
que meu sangue, fer r o-em-brasa,
parece querer sugar;
és tudo quanto não tive,
mais o que pensei ter tido,
louco, louco a sonhar.
Quanto te vejo passar,
quando te sinto chegar,
sei que não vivi em vão:
tu me surges como aquela
que não se gerou no ventre
mas nasceu do coração!
pões a biruta da vida
sobre o mastro a voltear;
és a gaivota prateada:
bicas de leve e silente
cada onda do meu mar;
és o grãozinho de areia
que cola e logo descola,
voltando ao seu lugar;
és aquele raio quente
do sol do meio-do-dia,
astro-rei, a me queimar;
és a vitela pastando,
a arvorezinha brotando,
ceifa do ceifador a me ceifar...;
és o vestido de rendas
na menina indefinível
a rodar, rodar, rodar;
és meu ímã predileto
que meu sangue, fer r o-em-brasa,
parece querer sugar;
és tudo quanto não tive,
mais o que pensei ter tido,
louco, louco a sonhar.
Quanto te vejo passar,
quando te sinto chegar,
sei que não vivi em vão:
tu me surges como aquela
que não se gerou no ventre
mas nasceu do coração!
968
Gláucia Lemos
Reencontro
Foi com asas que veio. Mas com asas
da incerteza encravadas nos espinhos.
Qual pássaro qualquer por sobre casas,
pelos telhados, por desfeitos ninhos.
E pousou frente a mim. Eram lilases
- do tom dos tristes nos seus descaminhos -
suas asas de silêncio. Tantas frases
embrulhadas no medo dos sozinhos.
Foi assim como pássaro ferido
que me buscou. Eram - não sei - de vidro
ou eram de susto os olhos que mostrou .
Pousou uma vez mais no meu vestido.
Trouxe um gorjeio novo a meu ouvido.
Foi assim que o guardei. E ele ficou.
06.07.96
da incerteza encravadas nos espinhos.
Qual pássaro qualquer por sobre casas,
pelos telhados, por desfeitos ninhos.
E pousou frente a mim. Eram lilases
- do tom dos tristes nos seus descaminhos -
suas asas de silêncio. Tantas frases
embrulhadas no medo dos sozinhos.
Foi assim como pássaro ferido
que me buscou. Eram - não sei - de vidro
ou eram de susto os olhos que mostrou .
Pousou uma vez mais no meu vestido.
Trouxe um gorjeio novo a meu ouvido.
Foi assim que o guardei. E ele ficou.
06.07.96
1 199
Lêdo Ivo
De teef
Aangeirokken door de geur van bloed uit haar ingewanden
volgen de honden de bronstige teci als vormden ze de hofstoet
van cen zwarte koningin. En ze besnuffeien haar met een een
obsceen bewegen
dat wij misschien liefde zouderi moeten noemen.
De teef wendt voor dat de belagers haar vervelen
en verlokt ai weigerend, ais veelgevraagde vrouwen.
Een penetrante lucht van leven begeleidt haar
tussen de twee zonnen die het verstrijken van de dag begrenzen.
‘s Avonds, wanneer ze wordt opgesloten in de schuur,
blijven de honden buiten, ontroostbaar en trouw.
En hun huilen in het duister leert ons
dat liefde een nutteloze passie is, een gesloten deur.
A cadela Poema em Português
volgen de honden de bronstige teci als vormden ze de hofstoet
van cen zwarte koningin. En ze besnuffeien haar met een een
obsceen bewegen
dat wij misschien liefde zouderi moeten noemen.
De teef wendt voor dat de belagers haar vervelen
en verlokt ai weigerend, ais veelgevraagde vrouwen.
Een penetrante lucht van leven begeleidt haar
tussen de twee zonnen die het verstrijken van de dag begrenzen.
‘s Avonds, wanneer ze wordt opgesloten in de schuur,
blijven de honden buiten, ontroostbaar en trouw.
En hun huilen in het duister leert ons
dat liefde een nutteloze passie is, een gesloten deur.
A cadela Poema em Português
1 190
Jorge Lescano
Inverno
Ao amanhecer
grita o quero-quero
sobre a geada.
A mulher abraça
a garrafa de cachaça.
Miserável casaco.
grita o quero-quero
sobre a geada.
A mulher abraça
a garrafa de cachaça.
Miserável casaco.
1 022
Lúcio José Gusman
Dístico (II)
Tu ficarás comigo, enquanto um pássaro
houver que cante e sonhe na viagem.
E a noite que nos viu será eterna
sobre os campos úmidos da aurora.
Tu ficarás no vento e nas estrelas
e serás a alegria dos caminhos.
Tua presença cantará nas pedras,
teu riso meigo sorrirá nas flores.
E por onde eu seguir, como perdido,
tu estarás, tu ficarás comigo.
Para sempre.
Para sempre.
houver que cante e sonhe na viagem.
E a noite que nos viu será eterna
sobre os campos úmidos da aurora.
Tu ficarás no vento e nas estrelas
e serás a alegria dos caminhos.
Tua presença cantará nas pedras,
teu riso meigo sorrirá nas flores.
E por onde eu seguir, como perdido,
tu estarás, tu ficarás comigo.
Para sempre.
Para sempre.
911
Lêdo Ivo
Os Peixes
Os peixes estão no lago, os dardos escondidos.
Entre as pedras e o lodo eles avançam
túrgidos como o amor.
Venha a mão do desejo turvar a água clara
e eles serão o amor, o sol que penetra em gretas
nupciais,
as espadas cobertas de saliva.
Entre as pedras e o lodo eles avançam
túrgidos como o amor.
Venha a mão do desejo turvar a água clara
e eles serão o amor, o sol que penetra em gretas
nupciais,
as espadas cobertas de saliva.
1 653
Lago Burnett
Procurando estrelas
Faz frio! vou em busca de agasalho,
oh! lágrimas... (e luto por contê-las!)
olhos abertos, procurando estrelas,
sigo, e na estrada, minha mágoa espalho.
As flores choram lágrimas de orvalho,
lágrimas vivas, trêmulas e, ao vê-las,
vejo toda a criação chorando pelas
folhas a balançar em cada galho.
Sigo tristonho... Baila pelo espaço
o lamento das cousas que ficaram
sem um amor, sequer, para entendê-las.
Deixo um pouco de dor por onde passo...
Paro. Olho o céu. As mágoas debandaram
ante o esplendor do riso das estrelas!
(Estrela do Céu Perdido / l949)
oh! lágrimas... (e luto por contê-las!)
olhos abertos, procurando estrelas,
sigo, e na estrada, minha mágoa espalho.
As flores choram lágrimas de orvalho,
lágrimas vivas, trêmulas e, ao vê-las,
vejo toda a criação chorando pelas
folhas a balançar em cada galho.
Sigo tristonho... Baila pelo espaço
o lamento das cousas que ficaram
sem um amor, sequer, para entendê-las.
Deixo um pouco de dor por onde passo...
Paro. Olho o céu. As mágoas debandaram
ante o esplendor do riso das estrelas!
(Estrela do Céu Perdido / l949)
1 202
Jorge Pedro Barbosa
Vou Ser Senhor do Mundo
Vou falar com o Pássaro-Rei,
vou-lhe pedir um favorzinho:
vou ver se ele me dá emprestado
sete penas brancas
para eu voar
e ir poisar no teto do mundo.
Se ele disser que sim,
estou garantido,
porque Capotona-Preta prometeu virar-me
dum passo para o outro,
em senhor da terra,
senhor das águas,
senhor dos céus,
senhor do Mundo.
Mas é se eu voar
com as sete penas brancas
e for poisar no teto do Mundo.
E porquê ele não me faz o favorzinho,
se lhe levo um punhado de milho
e se lhe digo: — Por favor?
vou-lhe pedir um favorzinho:
vou ver se ele me dá emprestado
sete penas brancas
para eu voar
e ir poisar no teto do mundo.
Se ele disser que sim,
estou garantido,
porque Capotona-Preta prometeu virar-me
dum passo para o outro,
em senhor da terra,
senhor das águas,
senhor dos céus,
senhor do Mundo.
Mas é se eu voar
com as sete penas brancas
e for poisar no teto do Mundo.
E porquê ele não me faz o favorzinho,
se lhe levo um punhado de milho
e se lhe digo: — Por favor?
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