Poemas neste tema
Tempo e Passagem
Fernando Pessoa
Mestre, são plácidas
Mestre, são plácidas
Todas as horas
Que nós perdemos.
Se no perdê-las,
Qual numa jarra,
Nós pomos flores.
Não há tristezas
Nem alegrias
Na nossa vida.
Assim saibamos,
Sábios incautos,
Não a viver,
Mas decorrê-la,
Tranquilos, plácidos,
Tendo as crianças
Por nossas mestras,
E os olhos cheios
De Natureza...
À beira-rio,
À beira-estrada,
Conforme calha,
Sempre no mesmo
Leve descanso
De estar vivendo.
O tempo passa,
Não nos diz nada.
Envelhecemos.
Saibamos, quase
Maliciosos,
Sentir-nos ir.
Não vale a pena
Fazer um gesto.
Não se resiste
Ao deus atroz
Que os próprios filhos
Devora sempre.
Colhamos flores.
Molhemos leves
As nossas mãos
Nos rios calmos,
Para aprendermos
Calma também.
Girassóis sempre
Fitando o Sol,
Da vida iremos
Tranquilos, tendo
Nem o remorso
De ter vivido.
12/06/1914
Todas as horas
Que nós perdemos.
Se no perdê-las,
Qual numa jarra,
Nós pomos flores.
Não há tristezas
Nem alegrias
Na nossa vida.
Assim saibamos,
Sábios incautos,
Não a viver,
Mas decorrê-la,
Tranquilos, plácidos,
Tendo as crianças
Por nossas mestras,
E os olhos cheios
De Natureza...
À beira-rio,
À beira-estrada,
Conforme calha,
Sempre no mesmo
Leve descanso
De estar vivendo.
O tempo passa,
Não nos diz nada.
Envelhecemos.
Saibamos, quase
Maliciosos,
Sentir-nos ir.
Não vale a pena
Fazer um gesto.
Não se resiste
Ao deus atroz
Que os próprios filhos
Devora sempre.
Colhamos flores.
Molhemos leves
As nossas mãos
Nos rios calmos,
Para aprendermos
Calma também.
Girassóis sempre
Fitando o Sol,
Da vida iremos
Tranquilos, tendo
Nem o remorso
De ter vivido.
12/06/1914
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2
Fernando Pessoa
O rastro breve que das ervas moles
O rastro breve que das ervas moles
Ergue o pé findo, o eco que oco coa,
A sombra que se adumbra,
O branco que a nau larga –
Nem maior nem melhor deixa a alma às almas,
O ido aos indos. A lembrança esquece.
Mortos, inda morremos.
Lídia, somos só nossos.
25/01/1928 (Presença, nº 10, 15 de Março de 1928)
Ergue o pé findo, o eco que oco coa,
A sombra que se adumbra,
O branco que a nau larga –
Nem maior nem melhor deixa a alma às almas,
O ido aos indos. A lembrança esquece.
Mortos, inda morremos.
Lídia, somos só nossos.
25/01/1928 (Presença, nº 10, 15 de Março de 1928)
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2
Herberto Helder
Quinze Haikus Japoneses
Ervas do estio:
lugar onde os guerreiros
sonham.
Um cuco
foge ao longe — e ao longe,
uma ilha.
Primeira neve:
bastante para vergar as folhas
dos junquilhos.
Libélula vermelha.
Tira-lhe as asas:
um pimentão.
Pimentão vermelho.
Põe-lhe umas asas:
Libélula.
Pelo meio do arrozal
vou até à ameixoeira —
para ver o seu perfume.
Pirilampos
sobre o espelho da ribeira.
Dupla barragem de luz
Festa das flores.
Acompanhando a mãe,
uma criança cega.
Casa sob as flores brancas.
Onde bater?
Mancha sombria da porta.
Crescente lunar.
O tubarão esconde a cabeça
debaixo das vagas.
A lua deitou sobre as coisas
uma toalha de prata.
Azáleas brancas.
Monte de Higashi.
Como o corpo
sob um lençol.
Caracol,
lento, lento, lento — sobe
o Fuji.
Um cuco
cuja voz se arrasta
sobre as águas.
Ah, o passado.
O tempo onde se acumularam os dias lentos.
lugar onde os guerreiros
sonham.
Um cuco
foge ao longe — e ao longe,
uma ilha.
Primeira neve:
bastante para vergar as folhas
dos junquilhos.
Libélula vermelha.
Tira-lhe as asas:
um pimentão.
Pimentão vermelho.
Põe-lhe umas asas:
Libélula.
Pelo meio do arrozal
vou até à ameixoeira —
para ver o seu perfume.
Pirilampos
sobre o espelho da ribeira.
Dupla barragem de luz
Festa das flores.
Acompanhando a mãe,
uma criança cega.
Casa sob as flores brancas.
Onde bater?
Mancha sombria da porta.
Crescente lunar.
O tubarão esconde a cabeça
debaixo das vagas.
A lua deitou sobre as coisas
uma toalha de prata.
Azáleas brancas.
Monte de Higashi.
Como o corpo
sob um lençol.
Caracol,
lento, lento, lento — sobe
o Fuji.
Um cuco
cuja voz se arrasta
sobre as águas.
Ah, o passado.
O tempo onde se acumularam os dias lentos.
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Matilde Campilho
Conversa de Fim de Tarde Depois de Três Anos No Exílio
Os garçons empilhando as cadeiras
você me olhando e me pedindo que
fale Por Favor Fale Mas Não Escreva
eu evitando o toque ruim dos ponteiros
do relógio que anuncia a já famosa fuga
de nossos corpos cada um para sua
ponta da cidade — se nosso amor fosse
revólver eu seria o cabo e você a mira
tal como dizia a professora Sofia Jones
é terrível a existência de duas retas
paralelas porque elas nunca se cruzam
e elas apenas se encontram no infinito
a verdade é que nunca nos interessou
a questão do infinito mas o resto
das ideias matemáticas claro que sim
eu na verdade prefiro mais de mil vezes
sua chávena de chá ficando fria sobre a mesa
enquanto você fala sobre raízes quadradas
enquanto você fala sobre ladrões de figos
enquanto você fala sobre o tropeço da baleia
subitamente eu já nem sei sobre o que você fala
porque a forma como seu dente incisivo corta
e suspende toda a beleza da cafetaria
faz com que eu novamente entenda que
pelo sétimo dia é chegada a hora do cuco
e do canto do cuco
portanto eu pego minha bicicleta
e como de costume você faz meu retrato
de cabelo todo desenhado no vento
em jeito de menino que está sempre indo embora
à mesma hora e que amanhã se tudo der certo
voltará à mesma hora para o mesmo amor
a mesma mesa a mesma explosão
com toda a certeza a mesma fuga
porque você e eu a gente é feito de matéria
escorregadia, i.e., manteira, azeite, geleia
e espanto.
você me olhando e me pedindo que
fale Por Favor Fale Mas Não Escreva
eu evitando o toque ruim dos ponteiros
do relógio que anuncia a já famosa fuga
de nossos corpos cada um para sua
ponta da cidade — se nosso amor fosse
revólver eu seria o cabo e você a mira
tal como dizia a professora Sofia Jones
é terrível a existência de duas retas
paralelas porque elas nunca se cruzam
e elas apenas se encontram no infinito
a verdade é que nunca nos interessou
a questão do infinito mas o resto
das ideias matemáticas claro que sim
eu na verdade prefiro mais de mil vezes
sua chávena de chá ficando fria sobre a mesa
enquanto você fala sobre raízes quadradas
enquanto você fala sobre ladrões de figos
enquanto você fala sobre o tropeço da baleia
subitamente eu já nem sei sobre o que você fala
porque a forma como seu dente incisivo corta
e suspende toda a beleza da cafetaria
faz com que eu novamente entenda que
pelo sétimo dia é chegada a hora do cuco
e do canto do cuco
portanto eu pego minha bicicleta
e como de costume você faz meu retrato
de cabelo todo desenhado no vento
em jeito de menino que está sempre indo embora
à mesma hora e que amanhã se tudo der certo
voltará à mesma hora para o mesmo amor
a mesma mesa a mesma explosão
com toda a certeza a mesma fuga
porque você e eu a gente é feito de matéria
escorregadia, i.e., manteira, azeite, geleia
e espanto.
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Matilde Campilho
O Amor Faz-Me Fome
Tropecei numa ementa de vendas de comida ready-made
E por uma dessas fatalidades que vêm encadernadas
em vouchers de correio ou publicidade não endereçada
Fui reparar que agora tu e a tua miúda fazem
cafés da manhã para entregar ao domicílio
Perdão queria dizer pequenos-almoços
deixemos o café e as manhãs para outras dinastias
No meu tempo eu era o príncipe e tu a imagem
mais pura do menino Jean-Nicolas-Arthur Rimbuad
Dois saltimbancos cruzando a cidade e os dias
Também cruzávamos os dedos mas isso agora não importa
dois rapazolas roubando meio croissant e três goles de suco
às mesas impecavelmente postas dos hotéis mais bonitos da cidade
A comida não era de todo o que mais nos interessava
se pensarmos que a paixão alucinante era rastilho suficiente
para rebentar-nos o estômago até ao nível da alegria
Havia sempre alguém disposto a pagar-nos refeições
assim como nós estávamos sempre prontos a pular o fogo mágico
Acostumámo-nos desde muito cedo a sair das celebrações
de joelhos chamuscados e com as roupas mais ou menos rasgadas
Isso era motivo suficiente para que um de nós pegasse a moto
e então os dois acelerávamos até à praia mais deserta do país
Nem por isso deixámos de nos escapar aos acontecimentos
mas aqueles foram indubitavelmente os mergulhos de ouro
Agora as fogueiras levantam-se muito mais altas do que as magias
às quais dedicámos quase toda a nossa juventude igualitária
Hoje temos mais de trinta anos e da minha janela dá para ver
os disparos dos incontáveis snipers das barricadas de Kiev
Desta varanda podem ouvir-se os gritos das ruas venezuelanas
se sobrepondo ao viejo papá que só quer dizer pásame el pan
Daqui dá para cheirar a ameaça de pólvora semi-invisível saindo
do documento que declara o estado de exceção no sul da Bahia
Parece que a primavera do mundo é um trabalho em progresso
mas o caminho até lá está sendo todo feito entre as veredas
e entre os galhos de fogo de um gigante inverno
No nosso tempo eu acreditava muito nas notícias e na televisão
Hoje eu acredito tudo nas experiências que me contam os homens
Ontem éramos os filhos dos netos da revolução
E explicaram-nos que a tabuada e a paixão alucinante eram tudo
o que precisávamos e precisaríamos para o exercício da construção
Hoje somos pais de algumas crianças e pais de nós mesmos
e já vamos sabendo algumas coisas sobre a palavra desconstrução
O amor ainda é o estandarte onde vamos pendurando as bandeiras
A coragem ainda é o ferro onde vamos pendurando as roupas
Sim ainda rasgamos nossas roupas Sim ainda esfolamos os joelhos
Mas agora é tudo em nome de uma certa mudança universal
Onde andarás tu e teu sonho nesta manhã eu já não sei
Muito menos que espécie de alimentos entregas ao domicílio
Seja como for o amor ainda me faz bastante fome
e o relento ainda me parece o asfalto justo para toda a revolução
Portanto (apesar dos vouchers) hoje meu miúdo e eu escolhemos
tomar um café da manhã na rua e deixar para lá o domicílio.
E por uma dessas fatalidades que vêm encadernadas
em vouchers de correio ou publicidade não endereçada
Fui reparar que agora tu e a tua miúda fazem
cafés da manhã para entregar ao domicílio
Perdão queria dizer pequenos-almoços
deixemos o café e as manhãs para outras dinastias
No meu tempo eu era o príncipe e tu a imagem
mais pura do menino Jean-Nicolas-Arthur Rimbuad
Dois saltimbancos cruzando a cidade e os dias
Também cruzávamos os dedos mas isso agora não importa
dois rapazolas roubando meio croissant e três goles de suco
às mesas impecavelmente postas dos hotéis mais bonitos da cidade
A comida não era de todo o que mais nos interessava
se pensarmos que a paixão alucinante era rastilho suficiente
para rebentar-nos o estômago até ao nível da alegria
Havia sempre alguém disposto a pagar-nos refeições
assim como nós estávamos sempre prontos a pular o fogo mágico
Acostumámo-nos desde muito cedo a sair das celebrações
de joelhos chamuscados e com as roupas mais ou menos rasgadas
Isso era motivo suficiente para que um de nós pegasse a moto
e então os dois acelerávamos até à praia mais deserta do país
Nem por isso deixámos de nos escapar aos acontecimentos
mas aqueles foram indubitavelmente os mergulhos de ouro
Agora as fogueiras levantam-se muito mais altas do que as magias
às quais dedicámos quase toda a nossa juventude igualitária
Hoje temos mais de trinta anos e da minha janela dá para ver
os disparos dos incontáveis snipers das barricadas de Kiev
Desta varanda podem ouvir-se os gritos das ruas venezuelanas
se sobrepondo ao viejo papá que só quer dizer pásame el pan
Daqui dá para cheirar a ameaça de pólvora semi-invisível saindo
do documento que declara o estado de exceção no sul da Bahia
Parece que a primavera do mundo é um trabalho em progresso
mas o caminho até lá está sendo todo feito entre as veredas
e entre os galhos de fogo de um gigante inverno
No nosso tempo eu acreditava muito nas notícias e na televisão
Hoje eu acredito tudo nas experiências que me contam os homens
Ontem éramos os filhos dos netos da revolução
E explicaram-nos que a tabuada e a paixão alucinante eram tudo
o que precisávamos e precisaríamos para o exercício da construção
Hoje somos pais de algumas crianças e pais de nós mesmos
e já vamos sabendo algumas coisas sobre a palavra desconstrução
O amor ainda é o estandarte onde vamos pendurando as bandeiras
A coragem ainda é o ferro onde vamos pendurando as roupas
Sim ainda rasgamos nossas roupas Sim ainda esfolamos os joelhos
Mas agora é tudo em nome de uma certa mudança universal
Onde andarás tu e teu sonho nesta manhã eu já não sei
Muito menos que espécie de alimentos entregas ao domicílio
Seja como for o amor ainda me faz bastante fome
e o relento ainda me parece o asfalto justo para toda a revolução
Portanto (apesar dos vouchers) hoje meu miúdo e eu escolhemos
tomar um café da manhã na rua e deixar para lá o domicílio.
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1
Matilde Campilho
Eu Já Escuto Os Teus Sinais
Olhe lá
Eu nunca quis voltar
atrás no tempo
nem por uma vez
A vida já foi muito boa
e muito ruim comigo
com minhas costas
com meus rinscom meus estúpidos
glóbulos vermelhos
com minha melancolia
com minha nacionalidade
A vida já foi mais estúpida
que meus glóbulos vermelhos
Mais doce que a visão do sol
de junho batendo nos joelhos
de um garoto ou de uma mulher
A vida já se serviu de mim
como uma pega
como um garçom
como um respigador
como um profissional
da marcação de fronteiras
Serviu-se de mim
para todos os trabalhos
Quis cuspir-lhe na cara
vezinquando
Mas nunca
por razão nenhuma
quis voltar atrás
no tempo da vida
Pelo contrário
sempre me servi
do tempo dela
para aprender a contar
as partes todas
da futebolada mística
Desta vez é diferente
Escute agora é diferente
Daqui da bancada
dá para ver meio passado
e meio futuro
Me sento sobre o balde
do duro inverno boreal
E enquanto vou esculpindo
o lustroso nada a canivete
Eu vejo os 32 °C no pontão
do Leme (mais cinco graus
se contarmos a temperatura
externa da pedra física)
Sobre o cais estão dançando
alguns astros imperfeitos
Suspeito que são homens
Eles levantam suas plumas
até a garganta do deserto
Sim eu me lembro
Mais de 40 homens
e a banda tocando
uma canção de amor
De repente lá vem vindo
oba de repente lá vem
Estou falando da entrada
da menina na arena
Da entrada dos seus cabelos
na frente de nossas retinas
Estou falando da velocidade
de um bambolê elétrico
rodopiando em torno
de tantos triplos suores
enquanto a banda toca
Olhe lá não procure histórias
estou falando de algum passado
Estou falando do ritmo
de uma estação violenta
E nem por isso impiedosa
É verão no Rio de Janeiro
Daqui deste balde revirado
dá para ver a felicidade
desabando sobre as cabeças
Dá para ver a força santa
do desejo físico imortal
Dá para ver disparos
que arrasam com toda
espécie de nacionalidade
Olhe eu nunca quis trocar
os tempos nem as partes
da partida fundamental
Mas daqui deste balde
dá para ver o assalto
que deu cabo da puta
e do garçom e até mesmo
do barbudo fronteiriço
O crime alegórico
que restaurou a alegria
E portanto veja bem
hoje se eu pudesse
eu voltava à cidade
Só para me sentar
sobre a pedra austral
e ficar assistindo às explosões
dos bambolês polifônicos
entre os dedos de uma mulher
Hoje se eu pudesse
eu voltava à cidade
Só para beijar
a cidade na boca.
Eu nunca quis voltar
atrás no tempo
nem por uma vez
A vida já foi muito boa
e muito ruim comigo
com minhas costas
com meus rinscom meus estúpidos
glóbulos vermelhos
com minha melancolia
com minha nacionalidade
A vida já foi mais estúpida
que meus glóbulos vermelhos
Mais doce que a visão do sol
de junho batendo nos joelhos
de um garoto ou de uma mulher
A vida já se serviu de mim
como uma pega
como um garçom
como um respigador
como um profissional
da marcação de fronteiras
Serviu-se de mim
para todos os trabalhos
Quis cuspir-lhe na cara
vezinquando
Mas nunca
por razão nenhuma
quis voltar atrás
no tempo da vida
Pelo contrário
sempre me servi
do tempo dela
para aprender a contar
as partes todas
da futebolada mística
Desta vez é diferente
Escute agora é diferente
Daqui da bancada
dá para ver meio passado
e meio futuro
Me sento sobre o balde
do duro inverno boreal
E enquanto vou esculpindo
o lustroso nada a canivete
Eu vejo os 32 °C no pontão
do Leme (mais cinco graus
se contarmos a temperatura
externa da pedra física)
Sobre o cais estão dançando
alguns astros imperfeitos
Suspeito que são homens
Eles levantam suas plumas
até a garganta do deserto
Sim eu me lembro
Mais de 40 homens
e a banda tocando
uma canção de amor
De repente lá vem vindo
oba de repente lá vem
Estou falando da entrada
da menina na arena
Da entrada dos seus cabelos
na frente de nossas retinas
Estou falando da velocidade
de um bambolê elétrico
rodopiando em torno
de tantos triplos suores
enquanto a banda toca
Olhe lá não procure histórias
estou falando de algum passado
Estou falando do ritmo
de uma estação violenta
E nem por isso impiedosa
É verão no Rio de Janeiro
Daqui deste balde revirado
dá para ver a felicidade
desabando sobre as cabeças
Dá para ver a força santa
do desejo físico imortal
Dá para ver disparos
que arrasam com toda
espécie de nacionalidade
Olhe eu nunca quis trocar
os tempos nem as partes
da partida fundamental
Mas daqui deste balde
dá para ver o assalto
que deu cabo da puta
e do garçom e até mesmo
do barbudo fronteiriço
O crime alegórico
que restaurou a alegria
E portanto veja bem
hoje se eu pudesse
eu voltava à cidade
Só para me sentar
sobre a pedra austral
e ficar assistindo às explosões
dos bambolês polifônicos
entre os dedos de uma mulher
Hoje se eu pudesse
eu voltava à cidade
Só para beijar
a cidade na boca.
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1
Daniel Jonas
UMA SAISON NOS INFERNOS
Tudo é breve: um deus,
o plâncton, o ferro.
O meu poema é uma miséria
comparado com o teu nome
no edital.
A voragem dos grandes estúdios,
a saída dos operários da fábrica,
a grande depressão
dos trinta anos:
Eu bebo
porque se não beber
não conduzo
este corpo a casa.
o plâncton, o ferro.
O meu poema é uma miséria
comparado com o teu nome
no edital.
A voragem dos grandes estúdios,
a saída dos operários da fábrica,
a grande depressão
dos trinta anos:
Eu bebo
porque se não beber
não conduzo
este corpo a casa.
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1
Marco Lucchesi
Farmácia
Eu nada sei
do mal de que padeço
e todavia confesso
o que me aflige
Sinto dores fortes
quando vejo o azul
a beleza me fere
espanta e fascina
o passar do tempo
me dá vertigem
e me prende
em suas teias irreversíveis
os pássaros me deixam
intranquilo no ocaso
e quando vejo seu rosto
meu coração dispara
Preciso de um remédio
para curar-me do mal de ter nascido.
do mal de que padeço
e todavia confesso
o que me aflige
Sinto dores fortes
quando vejo o azul
a beleza me fere
espanta e fascina
o passar do tempo
me dá vertigem
e me prende
em suas teias irreversíveis
os pássaros me deixam
intranquilo no ocaso
e quando vejo seu rosto
meu coração dispara
Preciso de um remédio
para curar-me do mal de ter nascido.
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1
António Cabrita
SOPRA AS TUAS VELAS
O corpo com a idade impõe ora folga, ora um alpendre certo (com vinha de enforcado) aos apartes, enquanto surripia o humor aos corvos.
Um dia esquece-nos, expele pelos olhos uma faúlha preta, e eis-nos arredados
de toda a escuta como as flores de plástico, que macambuzam a televisão da avó.
Já fui mais festivo, fotografava ao acaso e, na ampliação, detectava a secreta geometria dos fundos, as gengivas que desbravam o riso de Deus.
Mais presciente a minha filha de três anos: «és a sereia Ariel ou o linguado?»
Nem hesita: o linguado!
Entra no teu silêncio e sopra as tuas velas, recomendava, astuto, o Victor Hugo
Um dia esquece-nos, expele pelos olhos uma faúlha preta, e eis-nos arredados
de toda a escuta como as flores de plástico, que macambuzam a televisão da avó.
Já fui mais festivo, fotografava ao acaso e, na ampliação, detectava a secreta geometria dos fundos, as gengivas que desbravam o riso de Deus.
Mais presciente a minha filha de três anos: «és a sereia Ariel ou o linguado?»
Nem hesita: o linguado!
Entra no teu silêncio e sopra as tuas velas, recomendava, astuto, o Victor Hugo
716
1
Marília Garcia
ESTRELAS DESCEM À TERRA
começo do começo,
que foi quando me pediram
os poemas que leria no encontro
“a voz do escritor”:
ainda faltava 1 mês
para este encontro
e eu não tinha ideia do que aconteceria
entre o dia do convite e o dia
de estar aqui hoje
assim,
esta voz que fala aqui
é a voz de uma marília de um mês atrás
é a minha voz falando a partir do passado,
é a minha voz,
mas sem controle.
há um mês eu não tinha
como prever o que aconteceria
e eu pensei que se este mês
seguisse o ritmo acelerado
e catastrófico do último ano
tanta coisa já teria
acontecido hoje,
que me dava medo
imaginar.
e eu fiquei me
perguntando:
— com quem estou falando aqui hoje?
e eu fiquei me perguntando:
— como fazer para essas palavras escritas
no passado dizerem algo
sobre estar aqui
agora?
e eu não soube responder.
então, fiquei me perguntando
se hoje faria frio ou não,
e se haveria poeira no ar.
eu sempre me surpreendo
com a poeira que turva a vista:
de repente no meio do dia
uma poeira que se ergue,
uma nuvem
de poeira,
pode ser a poeira vinda das coisas quebradas
todos os dias na vida das pessoas
e eu pensei que talvez a gente pudesse
fazer silêncio
e deixar a escuta aberta
para ouvir.
talvez a gente pudesse fazer silêncio
e de repente neste silêncio
acontecer de ouvir algo por detrás
dos ruídos das máquinas que
cruzam o céu.
talvez não desse para ouvir as máquinas voadoras
neste dia,
foi o que pensei,
mas eu me enganei
porque hoje
desde cedo
os helicópteros estão voando.
— vocês estão ouvindo?
um som infernal
estrelas caindo do céu
em cima da cabeça
o som está cada vez mais perto,
posso encostar a mão
se me viro vejo a sombra
em câmera lenta
sobre a cabeça.
imaginem que isso aqui é um quadrado
com drones volantes,
ou uma cena congelada
com o céu cheio de zepelins,
mas o som é um só:
barulho de máquinas
voadoras
pelo céu.
se a gente prestar atenção e fizer silêncio
— se a gente prestar atenção e fizer
silêncio —
pode ser que ouça
alguma mensagem
perdida no ar.
que foi quando me pediram
os poemas que leria no encontro
“a voz do escritor”:
ainda faltava 1 mês
para este encontro
e eu não tinha ideia do que aconteceria
entre o dia do convite e o dia
de estar aqui hoje
assim,
esta voz que fala aqui
é a voz de uma marília de um mês atrás
é a minha voz falando a partir do passado,
é a minha voz,
mas sem controle.
há um mês eu não tinha
como prever o que aconteceria
e eu pensei que se este mês
seguisse o ritmo acelerado
e catastrófico do último ano
tanta coisa já teria
acontecido hoje,
que me dava medo
imaginar.
e eu fiquei me
perguntando:
— com quem estou falando aqui hoje?
e eu fiquei me perguntando:
— como fazer para essas palavras escritas
no passado dizerem algo
sobre estar aqui
agora?
e eu não soube responder.
então, fiquei me perguntando
se hoje faria frio ou não,
e se haveria poeira no ar.
eu sempre me surpreendo
com a poeira que turva a vista:
de repente no meio do dia
uma poeira que se ergue,
uma nuvem
de poeira,
pode ser a poeira vinda das coisas quebradas
todos os dias na vida das pessoas
e eu pensei que talvez a gente pudesse
fazer silêncio
e deixar a escuta aberta
para ouvir.
talvez a gente pudesse fazer silêncio
e de repente neste silêncio
acontecer de ouvir algo por detrás
dos ruídos das máquinas que
cruzam o céu.
talvez não desse para ouvir as máquinas voadoras
neste dia,
foi o que pensei,
mas eu me enganei
porque hoje
desde cedo
os helicópteros estão voando.
— vocês estão ouvindo?
um som infernal
estrelas caindo do céu
em cima da cabeça
o som está cada vez mais perto,
posso encostar a mão
se me viro vejo a sombra
em câmera lenta
sobre a cabeça.
imaginem que isso aqui é um quadrado
com drones volantes,
ou uma cena congelada
com o céu cheio de zepelins,
mas o som é um só:
barulho de máquinas
voadoras
pelo céu.
se a gente prestar atenção e fizer silêncio
— se a gente prestar atenção e fizer
silêncio —
pode ser que ouça
alguma mensagem
perdida no ar.
701
1
Manuel Laranjeira
NA RUA
Ninguém por certo adivinha
como essa Desconhecida,
entre estes braços prendida,
jurava ser toda minha..
Minha sempre! – E em voz baixinha:
– "Tua ainda além da vida!..."
Hoje fita-me, esquecida
do grande amor que me tinha.
Juramos ser imortal
esse amor estranho e louco...
E o grande amor, afinal,
(Com que desprezo me lembro!)
foi morrendo pouco a pouco,
– como uma tarde em Setembro...
como essa Desconhecida,
entre estes braços prendida,
jurava ser toda minha..
Minha sempre! – E em voz baixinha:
– "Tua ainda além da vida!..."
Hoje fita-me, esquecida
do grande amor que me tinha.
Juramos ser imortal
esse amor estranho e louco...
E o grande amor, afinal,
(Com que desprezo me lembro!)
foi morrendo pouco a pouco,
– como uma tarde em Setembro...
771
1
Manuel Bandeira
Passado, Presente e Futuro
Só o passado verdadeiramente nos pertence.
O presente... O presente não existe:
Le moment ou je parle est déjà loin de moi.
O futuro diz o povo que a Deus pertence.
A Deus... Ora, adeus!
O presente... O presente não existe:
Le moment ou je parle est déjà loin de moi.
O futuro diz o povo que a Deus pertence.
A Deus... Ora, adeus!
1 654
1
Manuel Bandeira
Soneto Inglês Nº 1
Quando a morte cerrar meus olhos duros
— Duros de tantos vãos padecimentos,
Que pensarão teus peitos imaturos
Da minha dor de todos os momentos?
Vejo-te agora alheia, e tão distante:
Mais que distante — isenta. E bem prevejo,
Desde já bem prevejo o exato instante
Em que de outro será não teu desejo,
Que o não terás, porém teu abandono,
Tua nudez! Um dia hei de ir embora
Adormecer no derradeiro sono.
Um dia chorarás... Que importa? Chora.
Então eu sentirei muito mais perto
De mim feliz, teu coração incerto.
1940
— Duros de tantos vãos padecimentos,
Que pensarão teus peitos imaturos
Da minha dor de todos os momentos?
Vejo-te agora alheia, e tão distante:
Mais que distante — isenta. E bem prevejo,
Desde já bem prevejo o exato instante
Em que de outro será não teu desejo,
Que o não terás, porém teu abandono,
Tua nudez! Um dia hei de ir embora
Adormecer no derradeiro sono.
Um dia chorarás... Que importa? Chora.
Então eu sentirei muito mais perto
De mim feliz, teu coração incerto.
1940
1 328
1
Affonso Romano de Sant'Anna
Presença-Ausência
A presença é finita.
A linha do presente
nos limita.
Mas é tudo o que se pode
em nossa finitude.
Para a ausência caminhamos
aspirando a plenitude.
A linha do presente
nos limita.
Mas é tudo o que se pode
em nossa finitude.
Para a ausência caminhamos
aspirando a plenitude.
1 078
1
Affonso Romano de Sant'Anna
De Novo, Os Cupins
Minha filha chama-me para ouvir
o craque-craque dos cupins
devorando-me os livros na estante.
Paro, presto atenção, não ouço nada,
embora sejam meus os livros:
Joyce e seu irmão Stanislau, Soljenitizin,
Truman Capote, Marguerite Duras, nem sei mais.
Os cupins estão devorando a prosa.
Quando chegarão à poesia?
Preciso dialogar com minhas próprias ruínas.
Deveria ter ouvidos mais apurados. Deveria.
É a idade. Cada vez ouvindo menos
cada vez cupins comendo mais.
o craque-craque dos cupins
devorando-me os livros na estante.
Paro, presto atenção, não ouço nada,
embora sejam meus os livros:
Joyce e seu irmão Stanislau, Soljenitizin,
Truman Capote, Marguerite Duras, nem sei mais.
Os cupins estão devorando a prosa.
Quando chegarão à poesia?
Preciso dialogar com minhas próprias ruínas.
Deveria ter ouvidos mais apurados. Deveria.
É a idade. Cada vez ouvindo menos
cada vez cupins comendo mais.
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1
Marina Colasanti
EM QUE ESPELHO
Que rosto teria hoje minha mãe
se ainda estivesse viva?
Morreu cedo
aos quarenta
e não lhe vi velhice
como já vejo em mim.
Ver minha mãe mudar,
que idéia tão alheia à imutabilidade desse rosto
dessa mãe
tão mais moça que eu
que ainda assim não me é filha.
Que rosto teria eu eu
se minha mãe não tivesse morrido?
Em que espelho olharia,
que tão pouco a tive como espelho?
Ou seria eu o espelho
em que ela buscaria sua mocidade?
Mas não há prata
ou chumbo
atrás do vidro
o espelho se desfez
faz muito tempo
e quando penso mãe
há um rosto antigo
ou rosto algum,
o sentimento
apenas.
se ainda estivesse viva?
Morreu cedo
aos quarenta
e não lhe vi velhice
como já vejo em mim.
Ver minha mãe mudar,
que idéia tão alheia à imutabilidade desse rosto
dessa mãe
tão mais moça que eu
que ainda assim não me é filha.
Que rosto teria eu eu
se minha mãe não tivesse morrido?
Em que espelho olharia,
que tão pouco a tive como espelho?
Ou seria eu o espelho
em que ela buscaria sua mocidade?
Mas não há prata
ou chumbo
atrás do vidro
o espelho se desfez
faz muito tempo
e quando penso mãe
há um rosto antigo
ou rosto algum,
o sentimento
apenas.
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1
Stela do Patrocínio
Eu sobrevivi do nada
Eu sobrevivi do nada, do nada
Eu não existia
Não tinha existência
Não tinha uma matéria
Comecei a existir com quinhentos milhões
e quinhentos mil anos
Logo de uma vez, já velha
Eu não nasci criança, nasci já velha
Depois é que eu virei criança
...
Eu não existia
Não tinha existência
Não tinha uma matéria
Comecei a existir com quinhentos milhões
e quinhentos mil anos
Logo de uma vez, já velha
Eu não nasci criança, nasci já velha
Depois é que eu virei criança
...
1 246
1
Adélia Prado
Epifania
Você conversa com uma tia, num quarto.
Ela frisa a saia com a unha do polegar e exclama:
‘assim também, deus me livre’.
De repente acontece o tempo se mostrando,
espesso como antes se podia fendê-lo aos oito anos.
Uma destas coisas vai acontecer:
um cachorro late,
um menino chora ou grita,
ou alguém chama do interior da casa:
‘o café está pronto’.
Aí, então, o gerúndio se recolhe
e você recomeça a existir.
Ela frisa a saia com a unha do polegar e exclama:
‘assim também, deus me livre’.
De repente acontece o tempo se mostrando,
espesso como antes se podia fendê-lo aos oito anos.
Uma destas coisas vai acontecer:
um cachorro late,
um menino chora ou grita,
ou alguém chama do interior da casa:
‘o café está pronto’.
Aí, então, o gerúndio se recolhe
e você recomeça a existir.
1 748
1
Adélia Prado
Gritos E Sussurros
Este ano é bissexto, Jonathan.
No céu ou no inferno,
um dia inteiro pra nós.
No céu ou no inferno,
um dia inteiro pra nós.
1 386
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
As Nereides
Pudesse eu reter o teu fluir, ó quarto
Reter para sempre o teu quadrado branco
Denso de silêncio puro
E vida atenta
Reter o brilho
Da Cassiopeia em frente da janela
Reter a queda
Das ondas sobre a areia
E habitar para sempre o teu espelho
Que dos meus ombros jamais tombasse o tempo
Marinho misterioso e antigo
Assim como as nereides
Não perderão jamais seu manto de água
Reter para sempre o teu quadrado branco
Denso de silêncio puro
E vida atenta
Reter o brilho
Da Cassiopeia em frente da janela
Reter a queda
Das ondas sobre a areia
E habitar para sempre o teu espelho
Que dos meus ombros jamais tombasse o tempo
Marinho misterioso e antigo
Assim como as nereides
Não perderão jamais seu manto de água
1 272
1
Adélia Prado
Avós
Minha mão tem manchas,
pintas marrons como ovinhos de codorna.
Crianças acham engraçado
e exibem as suas com alegria,
na certeza — que também já tive —
de que seguirão imunes.
Aproveito e para meu descanso
armo com elas um pequeno circo.
Não temos proteção para o que foi vivido,
insônias, esperas de trem, de notícias,
pessoas que se atrasaram sem aviso,
desgosto pela comida esfriando na mesa posta.
Contra todo artifício, nosso olhar nos revela.
Não perturbe inocentes, pois não há perdas
e, tal qual o novo,
o velho também é mistério.
pintas marrons como ovinhos de codorna.
Crianças acham engraçado
e exibem as suas com alegria,
na certeza — que também já tive —
de que seguirão imunes.
Aproveito e para meu descanso
armo com elas um pequeno circo.
Não temos proteção para o que foi vivido,
insônias, esperas de trem, de notícias,
pessoas que se atrasaram sem aviso,
desgosto pela comida esfriando na mesa posta.
Contra todo artifício, nosso olhar nos revela.
Não perturbe inocentes, pois não há perdas
e, tal qual o novo,
o velho também é mistério.
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Adélia Prado
Chorinho Doce
Eu já tive e perdi
uma casa,
um jardim,
uma soleira,
uma porta,
um caixão de janela com um perfil.
Eu sabia uma modinha e não sei mais.
Quando a vida dá folga, pego a querer
a soleira,
o portal,
o jardim mais a casa,
o caixão de janela e aquele rosto de banda.
Tudo impossível,
tudo de outro dono,
tudo de tempo e vento.
Então me dá choro, horas e horas,
o coração amolecido como um figo na calda.
uma casa,
um jardim,
uma soleira,
uma porta,
um caixão de janela com um perfil.
Eu sabia uma modinha e não sei mais.
Quando a vida dá folga, pego a querer
a soleira,
o portal,
o jardim mais a casa,
o caixão de janela e aquele rosto de banda.
Tudo impossível,
tudo de outro dono,
tudo de tempo e vento.
Então me dá choro, horas e horas,
o coração amolecido como um figo na calda.
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