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Poemas neste tema

Tempo e Passagem

Perce Polegatto

Perce Polegatto

Todas as Sombras

Não me entendas teu amante suicida
que eu nem mesmo escreverei de nosso amor.
não me abraces esperando que eu te ame,
pois tudo em nós não passa de conflito
e há enigmas além de teu segredo
que chegam de mansinho e me acorrentam.

não, não me tragas mais poesia nos teus olhos!
há ventos estranhos, resíduos vivos,
há um desperdício inútil de sangue nas fronteiras
e hoje eu tenho que morrer,
morrer um pouco.

há sarcófagos ocultos onde ainda repousam princesas,
há terríveis profecias trazendo devastações,
há livros enormes (dentro deles os heróis se sacrificam),
há astrônomos, soldados e palhaços,
há um circo na cidade.

vagam fantasmas de incerto destino,
há névoa no ar.
o pesadelo persegue as pessoas.
mulheres soluçam, sozinhas de sexo.
a fome devora as aldeias.

em outras galáxias, povos inteiros sucumbem
— morrem civilizações e outras nascem
ao tempo em que sonho.

há pontes sombrias
e rios infinitos murmurando um pranto lamacento.
há muralhas, cordilheiras, guerrilheiros,
há missionários perdidos na selva para sempre.
há um velho solitário que conhece os segredos do inverno
e um gênio no fundo de um bar, esquecido.

caem dinastias para sempre,
criam-se potências e tiranos sanguinários,
morrem bravos e covardes por amor,
séculos correm...

há homens cavando uma mina distante,
há fósseis que nos lembram os dilúvios fabulosos
e algas oceânicas em lamas primitivas.

não esperes mais de mim que meu tormento.
há muito me perdi nas águas cristalinas dos teus olhos,
embora nosso beijo no passado
fosse menos violento que as próprias tempestades do universo
em recentes espirais de estrelas jovens.

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Paulo Vizioli

Paulo Vizioli

Apresentação de Donizete Galvão

Do silêncio da pedra é o terceiro volume de poesia de Donizete Galvão. Tem em comum com os anteriores -- Azul navalha (1988) e As faces do rio (1991) -- a profundidade das inquietações temáticas e o vigor dos recursos estilísticos -- além (é claro) da postura independente, livre das atitudes e dos modismos que permeiam boa parte da produção poética contemporânea. Mas a obra apresenta igualmente traços próprios, distinguindo-se de Azul navalha pela concisão maior da linguagem, e de As faces do rio pela escolha da "pedra", ao invés da "água", como motivo condutor. Com isso, o volume dá um pouco mais de ênfase ao "espaço" em detrimento do "tempo"(que normalmente se associa à fluidez do rio), complementando assim a visão que o poeta oferece da sua e da nossa realidade.
Ao contrário da água, que tem a fala dos seus rumorejos e fragores, a pedra é silenciosa, calando "o que nela dói". A água representa a vida, enquanto a pedra simboliza a esterilidade do deserto e, em última instância, a morte. Por isso, Donizete Galvão começa por repudiá-la: "Em que noite adormeci verde/ e acordei Saara?" Vê-se como um daqueles homens que, prisioneiros de suas poluídas cidades de pedra, se isolam uns dos outros na rotina de uma vida aparentemente sem propósito.
Nesta sua waste land particular, Deus se torna a própria pedra, "deus que não pune/ deus que não salva". Apesar disso, é para a pedra que o poeta acaba se voltando, procurando identificar-se com ela consciente e integralmente. Busca nessa imanência algo da eternidade, através das lições que se podem extrair da permanência dos minerais: "De pedra ser./Da pedra ter/ o duro desejo de durar". Sim, porque no espaço da pedra também se encontra uma dimensão temporal, como bem lembra o poema "Fósseis" (ainda que os indícios da vida passada sejam apenas "souvenirs para turistas". Pouco a pouco, o autor vai descobrindo os aspectos positivos de seu símbolo central, ora vendo a pedra como anteparo ou abrigo (como em "Motetos de São José del - Rei"), ora, entre sério e irônico, fazendo um pequeno rol de suas utilidades ("Almanaque da pedra"). A verdade, porém, é que a pedra é o chão essencial: é o que resta depois de tudo ("quando tudo já houver sido,/ lá estará ela"); e é também o que precede a tudo. É dela que brota a água, a fonte da vida: e, sem ela, não haveria o sustentáculo e a nutrição para as plantas e animais, -- como aquela garça que "ergue/ para o céu/ a hipérbole/ do seu alvo/ pescoço".
Até a linguagem da água nasce dos seus embates com o leito das rochas. E é esse processo que esta poesia reproduz, ao recorrer à realidade para dar voz à mesma realidade. Ele trabalha a pedra. E a pedra trabalhada -- a pedra lisa -- se transforma em arte, em algo acima da transitoriedade e do sofrimento ("no mundo das pedras lisas não cabe a dor"). É a pedra capaz de despertar em nós os mesmos devaneios de Keats diante dos relevos de uma urna grega, ou de Yeats diante de uma escultura em lápis lazúl
São esses, em resumo, alguns dos temas de Donizete Galvão em Do silêncio da pedra, temas sem dúvida relevantes, que, ademais, ganham vida graças a uma linguagem poética extremamente concisa e altamente sugestiva -- de tal riqueza metafórica que as imagens se atropelam umas ás outras ("o mar de pedra soterra/ a árvore dos brônquios") -- e toda pontilhada por funcionais sonoridades ( aliterações, rimas internas etc.). Temos, pois, aqui um autor que não só tem o que dizer, mas que também sabe como dizê-lo.

Sobre o autor
Donizete Galvão nasceu em Borda da Mata, Minas Gerais, em 1955.
Publicou em l988 Azul navalha (T.A. Queiroz, Editor), prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) como Revelação de Autor e indicado para o Prêmio Jabuti. Em l99l, publicou seu segundo livro de poesia As faces do rio (Água Viva Edições).
Tem trabalhos publicados nos jornais Nicolau, Suplemento Literário do Minas Gerais, O Galo, O Resto do Mundo , Mariel (editado nos EUA) e nas revistas Babel e Poesia, ambas da Venezuela. Participou também das antologias Veia Poética (Editora Escrita) e Antologia da nova poesia brasileira (Rioarte/Hipocampo).
Título da obra: Do Silêncio da Pedra
Editora: Arte Pau-Brasil Editora
R. Vergueiro, 923, Paraíso
01504-001- São Paulo -SP
Tel. (011) 279-0147
Páginas: 61
Preço: R$ 15,00
Lançamento: Dia 25 de junho- Terça-feira
Local: Livraria da Vila
R. Fradique Coutinho,915
Pinheiros
Tel. 814-5811
Das 18:30 às 21:30
Tels. para contato: 521-9697
871-6174

976
Nilton Santos Filho

Nilton Santos Filho

Poeta Baiano Contemporâneo

I
Enlouquecendo, observo o tempo passar
Num sucessivo desenho sem bússola a marcar...
Logo que percebo esta cadência de heróico astral,
Ocorre-me à idéia da captura do segundo capital
Um ímpeto gigante traduzido em furor
Que, embora intocável, mostra-me pavor. É o
Ultimato que recebo e percebo.
É a certeza de que o escore fossilizado é
Concentrado no seu próprio contexto impregnado
Entardece a minha consciência...
Navega a minha paciência...
Dissipam-se os meus conflitos...
Ofuscam-se os meus delitos...

Estou certo de que o instante
Se cornporta sendo gestação de juventude,
Tomado pela captura de um certo flagrante
Ou pela busca de máxima magnitude
Ultrapasso e solto meu laço.

II
Caminhado incansavelmente na direção,
Aposto na corrida pelo desempate...
Marco o labirinto, mas a minha afobação,
Idealizada numa fuga em arremate,
Não me proporciona histeria, somente alegria.
Hei de ser um fugitivo da instabilidade,
Apesar de ser socorrido pela fragilidade
Na hora em que me encontro distante
Do grito, do rito, da cura incessante!
Oro, às vezes choro, mas nunca demoro...

Vou exibindo uma forma com estrutura
Onde cada flanco se encaixa na conjuntura:
Uma honra, minha sombra, jamais cãibra.

III
Seguindo adiante,
Encontro, triste, a censura:
Gentileza ou sutileza do destino que me força à clausura,
Uma fadiga que tenta impedir-me avante.
Inconformado, porém não impune,
Necessito da denúncia que ora se reúne,
Ditando seu próprio neologismo,
Ofertando-me todo empenho do seu fisiologismo.

Esta castração é para mim mesmo apática...
Sequer necessita de dose homeopática. Ela é
Totalmente desvirtuada de propósito,
Apesar do seu domínio em mim não ter depósito.

Trilha de carência em decadência.
Rumo de vida, de opção assumida.
Inferno de pó, para quem está só.
Luta ferina de própria doutrina.
Hipérbole neurótica da lógica ou ótica.
Abismo sem luta para quem reluta.

IV
Jamais pensei que a força do improviso
Abandonasse a minha fome.
Mesmo que uma sede me venha como aviso,
Atravessarei, desatinadamente, um oceano
Inundado pelo nome, agitado pelo plano.
Serei seguido somente, sem ser suprimido.

Serei acerto e não fútil.
Experimentarei a ilusão útil.
Retratarei a razão por mim caricaturada
E, encontrarei a defensiva suturada,
Invertida, comprometida, machucada.

Ilha incendiando, impera-me a criatividade inesgotável
Limites são o meu calvário.
Habitualmente, são pontos de controle insuportável
Atirando-me de encontro ao meu desejo visionário.

V
Estarei assim, fazendo figa cirandar,
Sendo cópia de um choro,
Tomado por causa falada em coro:
Acrobacia de um filósofo do sonhar.
Repetirei a tentativa trêmula
E, agitarei esta pequena flâmula,
Inventando uma linguagem de tatuagem.

Espalhando a poesia como fermento,
Sentirei que o fenômeno é movimento
Paulatino que se exibe estratégico,
Afora seu comportamento léxico.
Lançarei ao vento a eutanásia evaporada,
Hipnotizada pela crença sem freio,
Aonde a inabilidade da escrita for encontrada
Num instante em que o devaneio
De um poeta seja a porta indiscreta,
Ou um arrobo gêmeo do seu próprio roubo.

VI
Meu caminho se lançará sem temer o adultério
Em ondas de acúmulo sem aborto:
Um bálsamo de etéreo acordo.

Canto, encanto, desato e afronto,
Assim conseguirei sobreviver
Num espaço onde a consciência
Toma conta da paciência,
Ordenando-lhe sua incansável fonte de saber.

Meu instante que sempre se renova
Está prestes a se tornar múltiplo :
Unitários mesmo só a vontade nova e o gesto último.

Mando celebrar a minha reza,
Acabando com a minha passividade
Num altar perfumado pela luz vermelha
Distorcida na verdade que se reveza,
Ocultando a imagem iniciando a minha nova viagem...

566
Oldegar Vieira

Oldegar Vieira

Gravuras no Vento

Gravura no vento.
Pois é desacontecido
o acontecimento.

Em êxtase, vê-las...
Uma a uma, todo o céu
porejando estrelas.

Pendentes de um fio,
gotas de chuva — ou de sol —
sob o sol do estio.

Dentro do aranhol,
de repente, frente a frente,
uma aranha e o sol.

Animal nasceu.
Desanimalmente, agora,
vive... num museu.

Tarde longa e quente.
Tange longe uma araponga
seu grito fremente.

Compensar sua ausência
— evidente, este evidência! —
só sua alegria.

À pista vermelha
de uma flor, vem uma rima
e aflorissa: abelha.

Incrível talento,
o desse escultor das nuvens
— genial! —, o vento.

Ploc! Uma rã pula
no silêncio da lagoa,
e o silêncio ondula.

Não metal de sinos.
Vil-metal agora é a rima
que canta o Natal.

Nos cinzeiros jazem
— antecipantes — as cinzas
mortais dos fumantes.

Seu corpo enriquece
a terra. E a saudade
é a flor que floresce.

Ela — uma andorinha —
vendo as outras que não estavam
— nem uma — sozinha.

Claro desafio:
sete cores luminosas
ante um céu sombrio.

Fantasmagoria:
uma borboleta preta
em noite vazia.

Interrogativo
à beira de um charco, um velho
coqueiro — pendido.

Lenta, lentamente,
um caleidoscópio gira.
Gira-sol poente.

Oca, ressequida,
na carcassa da cigarra,
em silêncio, a vida...

Cabelos ao vento,
soltos, como vão revoltos
— ah — seus pensamentos.

Doze, compassadas,
tangendo o silêncio e o tempo,
doze badaladas...

Fina e clara, a chuva,
qual a janela que tem
mais bela cortina?

Nuvens e mais nuvens
a passar, bem que me deite.
Foi-se o ... meu luar.

Uma flor no mato
solitária, rubra, sangue
no verde compacto.

Não tem sul nem norte,
nem oeste ou leste — é céu.
Céu somente azul.

Voltevolteiando
no cristal do tanque, as carpas
silenciosonhando...

Sol da madrugada.
Vai surgindo: dentro de uma
teia iluminada!

Uma borboleta.
Nada mais, nem leve aragem.
E a rosa é desfeita.

Flor em que não vai
a libélula pousar.
Na espuma do mar.

Por acaso a sua
caminhada é a mesma, ou ela
o acompanha, a lua?

Ramagens crestadas
reflorindo: borboletas
nas cinzas, pousadas.

Voz da cachoeira,
ao viço da mata vai
líquida poeira.

Reflita: no espelho,
aquele que o imita,
quem será? Você?

Lembradas jamais,
as flores do morto vão
mortas, muito mais.

Tem cativo, o canto,
mas o muda borboleta
é livre, no entanto.

Noite a dentro, um cão
late, insone, a quem nem late,
seu insone irmão.

Ah, esse berreiro
das cigarras no austero
parque do mosteiro...

Num céu claro e puro,
um corvo paira sereno
— feio, torvo, escuro.

Cai a neve, e penso
no quanto se deve ser
puro como a neve.

Que fazer com as mãos,
não mais — não — senão guardar
seu fugaz perfume?

Ouracorrentado.
Entre seios femininos,
recrucificado.

Espana a poeira
de luz das estrelas, ou
— no vento — é palmeira?

Mudos edifícios
permutando, permutando
surdos malefícios.

Fuçando em monturos,
anjos andrajosos de
presépios escuros.

Chuva de verão,
chuva de flores na chuva.
Reflorindo, o chão.

Os bois, pacientes.
Mas as rodas, por que vão
gemendo, gementes?

Brancos, a igreja
e o casario entre verdes,
escorrendo ao rio.

Na rua quieta,
a flauta de um vagabundo
— músicopoeta.

Nas mãos de uma negra
— noite-escrava —, uma urupemba
peneirando estrelas.

É flor esquecida,
esta que resta no mármore,
lembrando outra vida?

Um fruto maduro,
pendente, precisamente
na linha do muro.

Trapos do abandono
— do espantalho — vai levando
o vento do outono.

Sob o anil do céu
e ao sol — branco — um enxoval
num varal, ao vento...

Tê-las nas mãos quis,
pois jamais alguém falara
ao cego, de estrelas.

Junquilhos envergam.
Flores de neve pousando
nas hastes, de leve.

Na rua deserta
— desperdício — eis que ela passa
numa hora incerta.

Flor de velho amor,
expressiva? Só se for
— morta — a sempre-viva.

Serão. Ninguém fala.
Somente os trilos dos grilos
nos desvãos da sala.

Grávida ela passa,
e como vai cheia, cheia
de Vida e de Graça.

E o menino via:
afinal, esse "natal"...
não o merecia.

Não mais florescentes,
no lixo largadas, são
flores — defloradas.

Tatuagem móvel
no pavimento: a ramagem
ao luar e ao vento.

Que Deus o proteja
não pede. O que pede é pão
na porta da igreja.

Andorinhas: fusas
na pauta dos fios, ou...
ou semi-confusas?

Pétalas levava
— eram rosas — nas suas,
outras mãos, nervosas.

Sim, cantar mas sem
— como a cigarra — pensar
que a morte lhe vem.

Musicalizado
na folhagem, vai o vento,
músico em viagem.

Mudos nas estantes,
são pacíficos soldados?
Mudos mas prestantes.

Quase um rei deposto.
Não mais arde o sol da tarde.
No espelho, o seu rosto.

Auroralmagia!
O canto claro dos galos
clareando o dia.

Lâmina de luz
— a lagoa — estilhaçada
sob a chuvarada.

O mal da intriga
sofre o mundo mas, ao monge,
o silêncio abriga.

Somente a ilumina
— à imponente nave em sombras —
uma lamparina.

Brutos lenhadores
mas bastante foi que vissem
um ninho entre flores.

Túmida e sangrenta,
da escura folhagem surge
lenta, lenta, a lua.

Lavando e cantando,
o riacho e as lavadeiras,
cantando e lavando.

Quebrado o relógio,
fez-se eternidade o tempo
desmecanizado.

Por entre os telhados,
mamoeiras, bananeiras
— bem domesticados.

Numa folha escrevo
todo um poema: seu nome.
Na folha de um trevo.

Na concha rosada
de uma pétala, uma pérola
de orvalho, engastada.

Bagunça, arruaça,
nenhuma... a não ser dos pombos,
os donos da praça.

Sombra do seu corpo
diz que sou, mas foge e faz
sombra em minha vida.

Seixo — ao léu rolado,
rolarrolando... exilado
peso-de-papel.

Causa de desgosto,
a mensagem vai no rosto
como tatuagem.

Na ramada nua
pousado, um corvo, calado,
vê nascendo a lua.

Na clara do céu
flutua — lua de fogo —
a gema do sol.

Acaso... um acaso?
Ou proposital derrame
de tintas no ocaso?

Difuso e em surdina,
o rumor de uma cascata
dentro de uma neblina.

Pétalas caídas
ou borboletas dormidas
que o vento desperta?

Não lhe serve a prosa.
Só em linguagem poética
diga o nome "rosa".
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