Poemas neste tema
Tempo e Passagem
Marcia Agrau
Praça Saenz Pena
Sou poeta
e posso ser chamada de maluca
mas nasci na Tijuca
e hoje evito vir aqui.
porque a Praça Sáenz Peña que conheci
era bem diferente.
Da infância me lembro
me estão vivos na mente
os filmes que assisti,
os cinemas daqui...
o Carioca,o América,
o Metro, o Olinda,
Tijuquinha,"o poeira"...
A praça era tão linda
que a Tijuca inteira
se orgulhava daqui.
A Sloper onde comprei
meu colar de continhas
continhas e correntinhas
pelo qual me apaixonei
e no qual gastei todinho
o primeiro dinheiro que ganhei...
A Bella Itália, o palheta,
o Éden lá na esquina
onde hoje é o Banerj..
A praça era branca, preta,
tanto cheirava a grã-fina
quanto a salgueiro poeta...
E a sinuca, no sobrado,
enlevava os rapazotes
num ar de maioridade
mesmo que uns piparotes
os trouxessem à realidade.
O comércio emgeral
se enfeitava no Natal
e as árvores dessa praça
que já tinham sua graça
no estado natural
ficavam engalanadas
bolas grandes,coloridas
festões, luzes, nossa vida
se animava por igual.
A mangueira centenária
agradecia orgulhosa
enfeitada e toda prosa
em seu jeitão solidária.
Evito vir aqui.
porque a Praça Sáez Peña que conheci
era bem outra.
Mas me orgulho de vê-la renascida.
Quem sabe inda algum dia
a vejo parecida
com a mesma em que vivi?
Apenas parecida,
só isso, não quero mais
que sei que o tempo é incapaz
de voltar para trás.
Essa praça tão querida
que faz parte da minha vida
e de tantos demais,
tem resistido há tanto tempo,
a tantas agressões, atanto assédio,
que penso
que o que tem vindo em seu socorro
é o samba que embala seu sono descendo do morro...
e a janelinha da Granado que, à meia-noite, se abre
pra lhe dar remédio...
e posso ser chamada de maluca
mas nasci na Tijuca
e hoje evito vir aqui.
porque a Praça Sáenz Peña que conheci
era bem diferente.
Da infância me lembro
me estão vivos na mente
os filmes que assisti,
os cinemas daqui...
o Carioca,o América,
o Metro, o Olinda,
Tijuquinha,"o poeira"...
A praça era tão linda
que a Tijuca inteira
se orgulhava daqui.
A Sloper onde comprei
meu colar de continhas
continhas e correntinhas
pelo qual me apaixonei
e no qual gastei todinho
o primeiro dinheiro que ganhei...
A Bella Itália, o palheta,
o Éden lá na esquina
onde hoje é o Banerj..
A praça era branca, preta,
tanto cheirava a grã-fina
quanto a salgueiro poeta...
E a sinuca, no sobrado,
enlevava os rapazotes
num ar de maioridade
mesmo que uns piparotes
os trouxessem à realidade.
O comércio emgeral
se enfeitava no Natal
e as árvores dessa praça
que já tinham sua graça
no estado natural
ficavam engalanadas
bolas grandes,coloridas
festões, luzes, nossa vida
se animava por igual.
A mangueira centenária
agradecia orgulhosa
enfeitada e toda prosa
em seu jeitão solidária.
Evito vir aqui.
porque a Praça Sáez Peña que conheci
era bem outra.
Mas me orgulho de vê-la renascida.
Quem sabe inda algum dia
a vejo parecida
com a mesma em que vivi?
Apenas parecida,
só isso, não quero mais
que sei que o tempo é incapaz
de voltar para trás.
Essa praça tão querida
que faz parte da minha vida
e de tantos demais,
tem resistido há tanto tempo,
a tantas agressões, atanto assédio,
que penso
que o que tem vindo em seu socorro
é o samba que embala seu sono descendo do morro...
e a janelinha da Granado que, à meia-noite, se abre
pra lhe dar remédio...
796
Marcos A. P. Ribeiro
Minha Bermuda
A sujeira invisível que minha bermuda acumula
só aquele sabão-em-pó vê.
Sinto que novos atributos, de origem não-identificada,
lhe são lentamente agregados.
Ela adquire novo odor:
papelão velho, restos de comida,
líquidos orgânicos, pêlos de gato -
perfeita síntese odorífera
de horas lendo diante da TV
(fazer duas coisas ao mesmo tempo
é um prazer meu).
Então vem o momento
em que é preciso decidir não mais usá-la.
Está suja - conceito bastante elástico.
Volte-se ao início do processo.
Assim percebo a passagem do tempo,
quando se vive para a escolha do epitáfio.
só aquele sabão-em-pó vê.
Sinto que novos atributos, de origem não-identificada,
lhe são lentamente agregados.
Ela adquire novo odor:
papelão velho, restos de comida,
líquidos orgânicos, pêlos de gato -
perfeita síntese odorífera
de horas lendo diante da TV
(fazer duas coisas ao mesmo tempo
é um prazer meu).
Então vem o momento
em que é preciso decidir não mais usá-la.
Está suja - conceito bastante elástico.
Volte-se ao início do processo.
Assim percebo a passagem do tempo,
quando se vive para a escolha do epitáfio.
1 032
Maria Aparecida Reis Araújo
Faces do Silêncio
Pedras escondidas em prateleiras
de encostas
e guizos de aljôfar - silêncio
é o guia, o selo e a viagem.
O desembarcar de ossos
em asas do vento
o borbulhar de espuma
em corpos de areia
o riso milenar no roteiro de cinzas.
de encostas
e guizos de aljôfar - silêncio
é o guia, o selo e a viagem.
O desembarcar de ossos
em asas do vento
o borbulhar de espuma
em corpos de areia
o riso milenar no roteiro de cinzas.
879
Maria Aparecida Reis Araújo
Domínios da Casa
É esta nitidez abrindo
lentamente as portas
ao encontro das horas.
Cheiro de sol em pomares e vinhos.
Acordes nas bordas de um cálice
desfiando memória no tempo.
Território de vidas a casa
é um canto explícito de ausências.
Reacendendo chamas aquecendo o coração.
lentamente as portas
ao encontro das horas.
Cheiro de sol em pomares e vinhos.
Acordes nas bordas de um cálice
desfiando memória no tempo.
Território de vidas a casa
é um canto explícito de ausências.
Reacendendo chamas aquecendo o coração.
879
Maria A. Oliveira
Insônia
Limbo inclinado de coisas perdidas,
algum mistério gozoso em mutação,
crispado e semimorto.
Melhor assim. O sono não me serve
o sono é um céu vazio
despedaçando as asas da memória
e suas aves de sonho fazem medo.
A noite singra o silencio mais alto e mais calado
sem naufrágios
e um lento espanto se estende sob o tempo,
um tempo oculto, inteiro e inconsútil
sobre as migalhas do dia.
A túnica do tempo e uma forma de paz
arrasta sobre nos sua paz de vento
e embala os gatos de tudo que lhes falta,
devolve a solidão a seus espelhos
e cala aos poucos os ecos das imagens.
Das mãos vazias as asas
tocam de leve as águas da aventura.
algum mistério gozoso em mutação,
crispado e semimorto.
Melhor assim. O sono não me serve
o sono é um céu vazio
despedaçando as asas da memória
e suas aves de sonho fazem medo.
A noite singra o silencio mais alto e mais calado
sem naufrágios
e um lento espanto se estende sob o tempo,
um tempo oculto, inteiro e inconsútil
sobre as migalhas do dia.
A túnica do tempo e uma forma de paz
arrasta sobre nos sua paz de vento
e embala os gatos de tudo que lhes falta,
devolve a solidão a seus espelhos
e cala aos poucos os ecos das imagens.
Das mãos vazias as asas
tocam de leve as águas da aventura.
896
Majela Colares
As Cores do Tempo
Eu canto a passagem do tempo
Clarice Lispector
Percebo o tempo farejando as cores
de um já vencido e desbotado instante,
tingidas horas (reluzente tinta)
preserva apenas um azul distante...
pelas arestas espirais dos tons
embaça o risco do momento diante
frágil moldura irregular do tempo
descolorido feito sombra errante.
riscamt as cores novo instante súbito
(um branco espaço a revolver o caos...)
traçando o tempo - qual íris perfeito -
agora a tinta condensando as cores
consagra breve, colorido intenso,
marcas do tempo que jamais desfeito...
Clarice Lispector
Percebo o tempo farejando as cores
de um já vencido e desbotado instante,
tingidas horas (reluzente tinta)
preserva apenas um azul distante...
pelas arestas espirais dos tons
embaça o risco do momento diante
frágil moldura irregular do tempo
descolorido feito sombra errante.
riscamt as cores novo instante súbito
(um branco espaço a revolver o caos...)
traçando o tempo - qual íris perfeito -
agora a tinta condensando as cores
consagra breve, colorido intenso,
marcas do tempo que jamais desfeito...
1 378
Majela Colares
Soneto Para uma Estação
Estas sombras antigas de poente
guardam arcos de sol - dias de outono -
desfolhados na noite, nunca ausente,
quando as horas bocejam voz de sono.
São instantes maduros de nascente
na surpresa incessante do mês nono,
concebidos em gestos, mão silente,
quando as horas bocejam cor de sono.
Entre os cílios, o mundo em movimento,
sob as asas dos olhos morre um vento
para não ser sequer restos de sono.
Mas ao leste dos lábios pousa a aurora
fogem sombras antigas, vão-se embora...
surgem arcos de sol - dias de outono.
guardam arcos de sol - dias de outono -
desfolhados na noite, nunca ausente,
quando as horas bocejam voz de sono.
São instantes maduros de nascente
na surpresa incessante do mês nono,
concebidos em gestos, mão silente,
quando as horas bocejam cor de sono.
Entre os cílios, o mundo em movimento,
sob as asas dos olhos morre um vento
para não ser sequer restos de sono.
Mas ao leste dos lábios pousa a aurora
fogem sombras antigas, vão-se embora...
surgem arcos de sol - dias de outono.
967
Majela Colares
Vertigem
Já se ouviam, de estrelas, rebramidos
entre as sombras da noite camuflada.
Rumores de horas mortas... tempos idos.
- Era a tarde batendo em retirada.
Lábios mudos fendidos pelos gestos...
pálida boca (a noite escancarada).
Consumidos olhares, quase restos.
- Era a tarde batendo em retirada.
A voz frágil, o braço já pendia.
Vago, inerte, rumando pela estrada,
raios cegos o sol oferecia.
- Era a tarde batendo em retirada.
Os ecos projetados no futuro.
Vã imagem, figura rebuscada.
Na linha do horizonte um traço escuro.
- Era a tarde batendo em retirada.
As palavras... a frase repetida,
denso texto, linguagem retratada.
Verso e verbo, no entanto, morte e vida.
Sempre a tarde batendo em retirada.
As medidas da mão, agora ausente,
conduzidas para hora anunciada.
A vertigem, por fim, não se pressente?
Quando é tarde batendo em retirada.
entre as sombras da noite camuflada.
Rumores de horas mortas... tempos idos.
- Era a tarde batendo em retirada.
Lábios mudos fendidos pelos gestos...
pálida boca (a noite escancarada).
Consumidos olhares, quase restos.
- Era a tarde batendo em retirada.
A voz frágil, o braço já pendia.
Vago, inerte, rumando pela estrada,
raios cegos o sol oferecia.
- Era a tarde batendo em retirada.
Os ecos projetados no futuro.
Vã imagem, figura rebuscada.
Na linha do horizonte um traço escuro.
- Era a tarde batendo em retirada.
As palavras... a frase repetida,
denso texto, linguagem retratada.
Verso e verbo, no entanto, morte e vida.
Sempre a tarde batendo em retirada.
As medidas da mão, agora ausente,
conduzidas para hora anunciada.
A vertigem, por fim, não se pressente?
Quando é tarde batendo em retirada.
1 001
Majela Colares
A Sombra da Mão
Ferro
fogo
nau
e firmamento...
mentes de enxofre
olhos de laser
anjos de aço circundam a órbita
pairam no ar
bailam no ar
o céu é cinza
os homens, loucos, caem vorazmente
decepcionados com a sua própria crença
desesperados
recorrem, quem sabe, a Shakespeare:
Há mais coisas entre o céu e a terra, Horácio,
do que pode sonhar a nossa vã filosofia.
É tarde.
A humanidade implode graças a sua duvidosa crença
o último grito
(último lamento)
não chega a transcender à sua debilitada existência
não vai além dos seus rudimentares tímpanos
jamais chegará
ao aguçado ouvido do universo.
É tarde.
Muito tarde.
Coisa nenhuma subsiste,
bem dizia Lucrécio,
mas tudo flui.
Uma gota de orvalho
cai cristalina e lentamente
no eterno e abissal azul
a terra move-se
séculos recomeçam...
anjos de aço,
pairam no ar,
bailam no ar...
quousque tanden?
Quousque tanden?
fogo
nau
e firmamento...
mentes de enxofre
olhos de laser
anjos de aço circundam a órbita
pairam no ar
bailam no ar
o céu é cinza
os homens, loucos, caem vorazmente
decepcionados com a sua própria crença
desesperados
recorrem, quem sabe, a Shakespeare:
Há mais coisas entre o céu e a terra, Horácio,
do que pode sonhar a nossa vã filosofia.
É tarde.
A humanidade implode graças a sua duvidosa crença
o último grito
(último lamento)
não chega a transcender à sua debilitada existência
não vai além dos seus rudimentares tímpanos
jamais chegará
ao aguçado ouvido do universo.
É tarde.
Muito tarde.
Coisa nenhuma subsiste,
bem dizia Lucrécio,
mas tudo flui.
Uma gota de orvalho
cai cristalina e lentamente
no eterno e abissal azul
a terra move-se
séculos recomeçam...
anjos de aço,
pairam no ar,
bailam no ar...
quousque tanden?
Quousque tanden?
881
Majela Colares
Os Limites do Tempo
Meia face de sol - a tarde finda
nos limites do céu e da calçada.
Uma tarde partida, quando ainda
refletida entre cores, desbotada.
Aquarela dispersa - morte linda.
(Colorido de tez avermelhada)
mas o tempo ilusório fez infinda
meia face de sol desfigurada.
Murchas pétalas de horas finge o monte
rente a linha deserta do horizonte
feito rosa pendida... rosa-flores.
Nos limites da sombra projetada
nos contornos da noite aproximada
percebo o tempo farejando as cores.
nos limites do céu e da calçada.
Uma tarde partida, quando ainda
refletida entre cores, desbotada.
Aquarela dispersa - morte linda.
(Colorido de tez avermelhada)
mas o tempo ilusório fez infinda
meia face de sol desfigurada.
Murchas pétalas de horas finge o monte
rente a linha deserta do horizonte
feito rosa pendida... rosa-flores.
Nos limites da sombra projetada
nos contornos da noite aproximada
percebo o tempo farejando as cores.
931
Majela Colares
As Marcas do Tempo
O último impulso do segundo antes
ao projetar-se no após segundo
risca no tempo cicatrizes, fendas...
(o largo corte invariável, sempre)
que esculpe a forma virtual do instante
no confundível e abstrato mármore,
imagem sólida do momento único.
ao projetar-se no após segundo
risca no tempo cicatrizes, fendas...
(o largo corte invariável, sempre)
que esculpe a forma virtual do instante
no confundível e abstrato mármore,
imagem sólida do momento único.
1 219
Mário Hélio
24-IV (Espaçonavegavelar)
num acúmulo de horas vejo coisa rodopiar
através de cabeça por se desvendar
através do espaçoar
do mar
num acúmulo de oras vejo rosto corar
vejo a prece do medo do modo do homem gritar
através do escaçomar
do ar
num acúmulo de ras tos nareia domar
vejo gente morrendo ao se procurar
anular
num acúmulo de ascosturandoobarcomopodeumsóhomem
tanta coisa desvendar?
através de cabeça por se desvendar
através do espaçoar
do mar
num acúmulo de oras vejo rosto corar
vejo a prece do medo do modo do homem gritar
através do escaçomar
do ar
num acúmulo de ras tos nareia domar
vejo gente morrendo ao se procurar
anular
num acúmulo de ascosturandoobarcomopodeumsóhomem
tanta coisa desvendar?
608
Machado de Assis
A uma Senhora que me Pediu Versos
Pensa em ti mesma, acharás
Melhor poesia,
Viveza, graça, alegria,
Doçura e paz.
Se já dei flores um dia,
Quando rapaz,
As que ora dou têm assaz
Melancolia.
Uma só das horas tuas
Valem um mês
Das almas já ressequidas.
Os sóis e as luas
Creio bem que Deus os fez
Para outras vidas.
Melhor poesia,
Viveza, graça, alegria,
Doçura e paz.
Se já dei flores um dia,
Quando rapaz,
As que ora dou têm assaz
Melancolia.
Uma só das horas tuas
Valem um mês
Das almas já ressequidas.
Os sóis e as luas
Creio bem que Deus os fez
Para outras vidas.
2 315
Luiz de Aquino
Harmonia
Harmonia
Essas mãos já se tocaram
antes
e se afagaram feito jeito
de criança sonolenta.
Essas mãos andaram juntas
muito tempo
e se desejaram tanto tempo.
Agora essas mãos se deram
de vez
e querem envelhecer
sempre unidas.
Essas mãos já se tocaram
antes
e se afagaram feito jeito
de criança sonolenta.
Essas mãos andaram juntas
muito tempo
e se desejaram tanto tempo.
Agora essas mãos se deram
de vez
e querem envelhecer
sempre unidas.
1 095
Luiz de Aquino
Poema da aceitação
Eu prefiro ficar de cá, cobrindo co’as mãos a própria boca
para evitar microfonia.
Um dia, se me deixar levar, posso perder-me
e sofrer, porque nunca perco a noção do tempo.
Esta noite,
sonharei contigo e vou ver-te neste sonho
onde estivemos antes, há poucas horas,
porque o tempo te parece enorme num instante
e posso saber-te distante
uma eternidade entre duas doses.
A angústia, eu sei,
eu a criei
e me apego a ela.
A mágoa existe,
cresceu em meu peito
e não sou josés
porque não fui o primeiro nem serei último.
A dor, por mais profunda,
não te interessa: houve dores maiores
e não as senti em mim.
para evitar microfonia.
Um dia, se me deixar levar, posso perder-me
e sofrer, porque nunca perco a noção do tempo.
Esta noite,
sonharei contigo e vou ver-te neste sonho
onde estivemos antes, há poucas horas,
porque o tempo te parece enorme num instante
e posso saber-te distante
uma eternidade entre duas doses.
A angústia, eu sei,
eu a criei
e me apego a ela.
A mágoa existe,
cresceu em meu peito
e não sou josés
porque não fui o primeiro nem serei último.
A dor, por mais profunda,
não te interessa: houve dores maiores
e não as senti em mim.
1 954
Lya Luft
Tão sutilmente em tantos breves anos
do livro Mulher no Palco
Tão sutilmente em tantos breves anos
foram se trocando sobre os muros
mais que desigualdades, semelhanças,
que aos poucos dois são um, sem que no entanto
deixem de ser plurais:
talvez as asas de um só anjo, inseparáveis.
Presenças, solidões que vão tecendo a vida,
o filho que se faz, uma árvore plantada,
o tempo gotejando do telhado.
Beleza perseguida a cada hora, para que não baixe
o pó de um cotidiano desencanto.
Tão fielmente adaptam-se as almas destes corpos
que uma em outra pode se trocar,
sem que alguém de fora o percebesse nunca.
Tão sutilmente em tantos breves anos
foram se trocando sobre os muros
mais que desigualdades, semelhanças,
que aos poucos dois são um, sem que no entanto
deixem de ser plurais:
talvez as asas de um só anjo, inseparáveis.
Presenças, solidões que vão tecendo a vida,
o filho que se faz, uma árvore plantada,
o tempo gotejando do telhado.
Beleza perseguida a cada hora, para que não baixe
o pó de um cotidiano desencanto.
Tão fielmente adaptam-se as almas destes corpos
que uma em outra pode se trocar,
sem que alguém de fora o percebesse nunca.
1 357
Mário Hélio
13-III(Quid Novi)
a velhice das plantas
acostumadas a serem o que são
sem perguntarem o que são?
quid novi?
o ovni que sobrevvvvou rapidamente a mente
da cidade sumiu depois com o vazio?
quid novi?
o velho sempre argumentar-se que há de novo?
a velha olhada no espelho
depois estilhaçado e volvido ao que era antes
de ser?
quid novi? a morte aditiva? a vida minutiva?
quid novi? a velocidade? a passivilidade? as idades
todas?
e depois de tantotempo perdido em procurar ven-
cer o tempo constatar que não há tempo nunca houve
quid novi?
a morte?
morremos todo dia e não percebemos
eu não sei porque nos preocupamos
tu não existes insistes
ecoas coas asas ásperas do nada
entretanto sentimorste presente
irreconhecível irrepreensível.
não falas com ninguém, te ouvimos.
quem dera fôssemos eli-
eli-
minando tudo
e não restasse morte
pra manchar ávida a vida.
quid novi?
nada há,
e passa a existir
ao se negar.
acostumadas a serem o que são
sem perguntarem o que são?
quid novi?
o ovni que sobrevvvvou rapidamente a mente
da cidade sumiu depois com o vazio?
quid novi?
o velho sempre argumentar-se que há de novo?
a velha olhada no espelho
depois estilhaçado e volvido ao que era antes
de ser?
quid novi? a morte aditiva? a vida minutiva?
quid novi? a velocidade? a passivilidade? as idades
todas?
e depois de tantotempo perdido em procurar ven-
cer o tempo constatar que não há tempo nunca houve
quid novi?
a morte?
morremos todo dia e não percebemos
eu não sei porque nos preocupamos
tu não existes insistes
ecoas coas asas ásperas do nada
entretanto sentimorste presente
irreconhecível irrepreensível.
não falas com ninguém, te ouvimos.
quem dera fôssemos eli-
eli-
minando tudo
e não restasse morte
pra manchar ávida a vida.
quid novi?
nada há,
e passa a existir
ao se negar.
868
Luiz Nogueira Barros
Viagem
Parto pleno de ventura e na aventura
da viagem empreendida levo o que sobrou
da infância, da juventude e do agora :
fantasia que um dia foi futuro.
Palavras ditas e juradas serão tolas
quando os momentos são de indiferenças.
Mas se o pensar a fala justifica
o tempo é grave amigo e jamais falha.
Hei de seguir assim a antevisão do olhar
e no desenho das paisagens presumidas
serei tudo o que vi, sofri e aprendi.
E tudo será novo como o sempre:
que os sonhos inatingidos não abortam,
pois são gestações que sabem esperar.
da viagem empreendida levo o que sobrou
da infância, da juventude e do agora :
fantasia que um dia foi futuro.
Palavras ditas e juradas serão tolas
quando os momentos são de indiferenças.
Mas se o pensar a fala justifica
o tempo é grave amigo e jamais falha.
Hei de seguir assim a antevisão do olhar
e no desenho das paisagens presumidas
serei tudo o que vi, sofri e aprendi.
E tudo será novo como o sempre:
que os sonhos inatingidos não abortam,
pois são gestações que sabem esperar.
854
Leny Mara Souza
Salvem-se
Não quero ser destruída pelo tempo
O tempo é constituído
Por seres humanos,
Na maioria insensíveis e corruptos
... Num processo de auto destruição
O tempo é constituído
Por seres humanos,
Na maioria insensíveis e corruptos
... Num processo de auto destruição
1 003
Leão Moysés Zagury
Em relação aos pronomes
Ao escrever poemas pronominais
perdi algumas letras.
Escrevendo para você
perdi ...
Perda, sentimento revolto
num mar tempestuoso,
onde nosso orgulho navega.
Pronomes: possessões irreais
ilusões passageiras.
Ah! como é belo
verter lirismo
perante o impossível sonho.
Sempre alguma coisa
corroendo a alma,
na passagem do tempo.
Serão marcas mercadológicas
o motivo?
Nunca se conhece.
Sonhos impossíveis
calando, ferindo sensibilidades,
provocando despertar que se
vai por aí.
Nunca se conhecem
as facetas dos pronomes
ainda usados em vender
peças,roupas,casas,aviões etc.
Não conhecemos a extensão
da força prononominal,
nas frases,versos,
enfim no infinito
universo gramatical
impessoal, sempre duro.
Os versos vão sendo
terminados, enquanto
os pronomes nos saúdam
procurando...
Pronomes.
Fim!
perdi algumas letras.
Escrevendo para você
perdi ...
Perda, sentimento revolto
num mar tempestuoso,
onde nosso orgulho navega.
Pronomes: possessões irreais
ilusões passageiras.
Ah! como é belo
verter lirismo
perante o impossível sonho.
Sempre alguma coisa
corroendo a alma,
na passagem do tempo.
Serão marcas mercadológicas
o motivo?
Nunca se conhece.
Sonhos impossíveis
calando, ferindo sensibilidades,
provocando despertar que se
vai por aí.
Nunca se conhecem
as facetas dos pronomes
ainda usados em vender
peças,roupas,casas,aviões etc.
Não conhecemos a extensão
da força prononominal,
nas frases,versos,
enfim no infinito
universo gramatical
impessoal, sempre duro.
Os versos vão sendo
terminados, enquanto
os pronomes nos saúdam
procurando...
Pronomes.
Fim!
889
Luiz Nogueira Barros
Soneto à liberdade
Longa será, por certo, a estiagem:
fazem antever as nuvens e os ventos.
Que se encham pois as malas de viagem,
que a vida exige assim nesses momentos.
E é bom, também, que o "viver-tristonho",
tal um corcel alado e renovado,
salte do cerne universal do sonho
e voe pelas planícies - imaculado.
E que visões de cata-ventos e moinhos
encontrem o sentido exato desse agora
na selva de pedra dos caminhos.
E mude-se enfim o sonho de outrora,
que tem levado a vida aos descaminhos,
a cada passo, a cada instante e hora.
fazem antever as nuvens e os ventos.
Que se encham pois as malas de viagem,
que a vida exige assim nesses momentos.
E é bom, também, que o "viver-tristonho",
tal um corcel alado e renovado,
salte do cerne universal do sonho
e voe pelas planícies - imaculado.
E que visões de cata-ventos e moinhos
encontrem o sentido exato desse agora
na selva de pedra dos caminhos.
E mude-se enfim o sonho de outrora,
que tem levado a vida aos descaminhos,
a cada passo, a cada instante e hora.
869
Leão Moysés Zagury
MOmento 1
O tempo passa
você chega:
- Calor
- Ternura
-Emoção
Enquanto o tempo passa.
O tempo nos diz coisas
Nossos ouvidos - nossos cúmplices
imprimem, não sei onde,
os murmúrios - ilusões.
E o relógio marca o tempo:
acordar !
os m
você chega:
- Calor
- Ternura
-Emoção
Enquanto o tempo passa.
O tempo nos diz coisas
Nossos ouvidos - nossos cúmplices
imprimem, não sei onde,
os murmúrios - ilusões.
E o relógio marca o tempo:
acordar !
os m
781
Leão Moysés Zagury
Momento 2
Momento 2
Momento é brisa
que se forma,
sonhos que vem e que passam
por teus olhos veludíneos.
Cada sopro de vida,
representa a existência
do porvir.
Gotas de tempo
formando o anjo
que inspira a flor,
que exala perfume
— realidade
te agradeço !
Momento é brisa
que se forma,
sonhos que vem e que passam
por teus olhos veludíneos.
Cada sopro de vida,
representa a existência
do porvir.
Gotas de tempo
formando o anjo
que inspira a flor,
que exala perfume
— realidade
te agradeço !
805
Lourdes Cabral
Pensamentos
Meus pensamentos se estendem
além do espaço, além do tempo,
em outros caminhos abertos e luminosos.
E nesses caminhos percorrem
ciclos intensos, ilimitados.
Aproximam-se
do cicio da beleza, fascínio
do artista,
No universo colorido, vislumbram
o efeito do amor
e a sutileza da renúncia,
do sacrifício,
do heroísmo.
E, na libertação dos sentimentos,
atingem a complexidade da Vida,
a riqueza dos sonhos,
a potencialidade do Tempo...
além do espaço, além do tempo,
em outros caminhos abertos e luminosos.
E nesses caminhos percorrem
ciclos intensos, ilimitados.
Aproximam-se
do cicio da beleza, fascínio
do artista,
No universo colorido, vislumbram
o efeito do amor
e a sutileza da renúncia,
do sacrifício,
do heroísmo.
E, na libertação dos sentimentos,
atingem a complexidade da Vida,
a riqueza dos sonhos,
a potencialidade do Tempo...
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