Poemas neste tema
Tempo e Passagem
Leão Moysés Zagury
Não Está na Hora
Não está na hora
de acordar.
Não é hora
de dormir sob as inquietudes poéticas
dum tempo incerto.
Nunca é o momento
do...
nem o despertar quotidiano.
Nunca temos tempo
para...
Nunca pertencemos a lugar algum.
A vida corre e nem
queremos participar
de suas coisas.
Nunca temos tempo.
Será que já morremos?
de acordar.
Não é hora
de dormir sob as inquietudes poéticas
dum tempo incerto.
Nunca é o momento
do...
nem o despertar quotidiano.
Nunca temos tempo
para...
Nunca pertencemos a lugar algum.
A vida corre e nem
queremos participar
de suas coisas.
Nunca temos tempo.
Será que já morremos?
791
Tomáz Kim
Tempo Habitual
De nojo o tempo, o nosso,
A perfídia estrumando
No presumir da carícia branda e sorriso
De todos.
De raiva o tempo, o nosso,
Céu, mar e terra abrasando
Em clamor de labareda e navalha afiada
E sangue.
De pavor o tempo, o nosso,
A primavera assombrando.
Exílio de ventres a fecundar e tudo o mais
Que a faz.
De amor o tempo, o nosso,
Onde uma voz espalhando
A boa nova no pântano fétido da noite
Imposta?
De nojo, de raiva, de pavor,
O tempo transido
Do nosso viver dia-a-dia!
Mas não de amor...
A perfídia estrumando
No presumir da carícia branda e sorriso
De todos.
De raiva o tempo, o nosso,
Céu, mar e terra abrasando
Em clamor de labareda e navalha afiada
E sangue.
De pavor o tempo, o nosso,
A primavera assombrando.
Exílio de ventres a fecundar e tudo o mais
Que a faz.
De amor o tempo, o nosso,
Onde uma voz espalhando
A boa nova no pântano fétido da noite
Imposta?
De nojo, de raiva, de pavor,
O tempo transido
Do nosso viver dia-a-dia!
Mas não de amor...
1 270
Al Berto
Tentativas para um Regresso à Terra
O sol ensina o único caminho
a voz da memória irrompe lodosa
ainda não partimos e já tudo esquecemos
caminhamos envoltos num alvéolo de ouro fosforescente
os corpos diluem-se na delicada pele das pedras
falamos rios deste regresso e pelas margens ressoam
passos
os poços onde nos debruçamos aproximam-se
perigosamente
da ausência e da sede procuramos os rostos na água
conseguimos não esquecer a fome que nos isolou
de oásis em oásis
hoje
é o sangue branco das cobras que perpetua o lugar
o peso de súbitas cassiopeias nos olhos
quando o veludo da noite vem roer a pouco e pouco
a planície
caminhamos ainda
sabemos que deixou de haver tempo para nos olharmos
a fuga só é possível dentro dos fragmentados corpos
e um dia......quem sabe?
chegaremos
a voz da memória irrompe lodosa
ainda não partimos e já tudo esquecemos
caminhamos envoltos num alvéolo de ouro fosforescente
os corpos diluem-se na delicada pele das pedras
falamos rios deste regresso e pelas margens ressoam
passos
os poços onde nos debruçamos aproximam-se
perigosamente
da ausência e da sede procuramos os rostos na água
conseguimos não esquecer a fome que nos isolou
de oásis em oásis
hoje
é o sangue branco das cobras que perpetua o lugar
o peso de súbitas cassiopeias nos olhos
quando o veludo da noite vem roer a pouco e pouco
a planície
caminhamos ainda
sabemos que deixou de haver tempo para nos olharmos
a fuga só é possível dentro dos fragmentados corpos
e um dia......quem sabe?
chegaremos
6 640
Lélia Coelho Frota
Hipótese de Maio
Sobre a mesa o relógio
anuncia meu tempo
que se desfaz em crivo
de aflito pensamento.
De que jardins me evado
de que amores provenho
de que enredo impreciso
se armara o que estou sendo
entre meus dicionários
fragmentos de retratos
os rútilos canários
enfunadas cortinas.
Os amigos inquietos
o silêncio a aumentar
concêntrico, severo
em torno das conversas
além da ausência,
além dos constantes afetos.
Resíduos de passeios
em paisagens alheias
empinham-se em gavetas —
cartas de amor nos seus
macios envelopes
risadas e conchinhas
a voz que fala sempre
no fundo da sonata
diletantes poemas
todos concordemente
citando o Coração
ladeado de flores
zéfiros sorridentes
(e os sabia chorosos).
As gavetas estufam
o que nelas se havia
adquire vida própria
um sitiado encanto
e explusa da memória
de que participava
com escassa competência
eu, que leve o lembrava.
O conteúdo humano
desse ditoso espólio
palpita, e entretanto
— semicerrados olhos
agitar de cambraia —
invencível o sono
se engolfa na dolência.
Sono maior que o escuro
a corromper a luz
diuturna nostalgia
de um sonho, não sei mais
ao certo o que seria.
Coágulo sombrio
adensando-se em zona
fechada, onde me perco
neste mês-de-maria
pensando o que seria
de mim, no dissolvido
rumor que me povoa
sem conduzir à fala
da sempre poesia
sem revelar o muito
de amar que pretendia
antes de antes, não sei
ao certo o que seria.
Mas bem que perfazia
um circuito profundo
onde a primeira imagem
(início e ata finda)
que ainda se reflete
é a da jovem correndo
pela campina, soltos
cabelos, e as glicínias
a descer pelos ombros
prendendo-se na boca
primavera garrida
pelo azul florentino.
Na mão direita tinha
uma roseira viva
juritis entoavam
campestres ladainhas
e pela transparência
de sua carnação
via-se-lhe o coração
com um só nome gravado
a rubro, fulcro infenso.
Corria na campina
fantástica, e ainda
posso lembrar que em fuga
amava sempre, e ria.
anuncia meu tempo
que se desfaz em crivo
de aflito pensamento.
De que jardins me evado
de que amores provenho
de que enredo impreciso
se armara o que estou sendo
entre meus dicionários
fragmentos de retratos
os rútilos canários
enfunadas cortinas.
Os amigos inquietos
o silêncio a aumentar
concêntrico, severo
em torno das conversas
além da ausência,
além dos constantes afetos.
Resíduos de passeios
em paisagens alheias
empinham-se em gavetas —
cartas de amor nos seus
macios envelopes
risadas e conchinhas
a voz que fala sempre
no fundo da sonata
diletantes poemas
todos concordemente
citando o Coração
ladeado de flores
zéfiros sorridentes
(e os sabia chorosos).
As gavetas estufam
o que nelas se havia
adquire vida própria
um sitiado encanto
e explusa da memória
de que participava
com escassa competência
eu, que leve o lembrava.
O conteúdo humano
desse ditoso espólio
palpita, e entretanto
— semicerrados olhos
agitar de cambraia —
invencível o sono
se engolfa na dolência.
Sono maior que o escuro
a corromper a luz
diuturna nostalgia
de um sonho, não sei mais
ao certo o que seria.
Coágulo sombrio
adensando-se em zona
fechada, onde me perco
neste mês-de-maria
pensando o que seria
de mim, no dissolvido
rumor que me povoa
sem conduzir à fala
da sempre poesia
sem revelar o muito
de amar que pretendia
antes de antes, não sei
ao certo o que seria.
Mas bem que perfazia
um circuito profundo
onde a primeira imagem
(início e ata finda)
que ainda se reflete
é a da jovem correndo
pela campina, soltos
cabelos, e as glicínias
a descer pelos ombros
prendendo-se na boca
primavera garrida
pelo azul florentino.
Na mão direita tinha
uma roseira viva
juritis entoavam
campestres ladainhas
e pela transparência
de sua carnação
via-se-lhe o coração
com um só nome gravado
a rubro, fulcro infenso.
Corria na campina
fantástica, e ainda
posso lembrar que em fuga
amava sempre, e ria.
1 033
Gláucia Lemos
Poema Para a Mulher de Malandro
Um segundo
ave assustada voando para longe.
Asas molhadas de vento
arrastando o peso
da surpresa e do susto.
Para longe
para bem longe do temporal.
Olhos enxutos respiram distância
coração de ave frágil
pequenino
pulsa pânico
irrompe do peito.
É preciso aguardar o retorno do sol.
O sol...
Luz infiltrando suave
da coroa dos montes.
A medo e a susto
o romper do vento a rota de retorno.
Não sou, não me torno
mas entendo
a mulher do malandro.
ave assustada voando para longe.
Asas molhadas de vento
arrastando o peso
da surpresa e do susto.
Para longe
para bem longe do temporal.
Olhos enxutos respiram distância
coração de ave frágil
pequenino
pulsa pânico
irrompe do peito.
É preciso aguardar o retorno do sol.
O sol...
Luz infiltrando suave
da coroa dos montes.
A medo e a susto
o romper do vento a rota de retorno.
Não sou, não me torno
mas entendo
a mulher do malandro.
1 529
Luiz Fernandes da Silva
Carrossel
Em cada rodada
o frio de lembrança
dos dias de infância.
Em cada cavalinho
as reminiscências da fantasia.
Em cada curva
novas ânsias e
enigma da sorte.
Em cada olhar
a liberdade e
o adeus aos sonhos.
Em cada salto,
o impacto, a queda
o frio de lembrança
dos dias de infância.
Em cada cavalinho
as reminiscências da fantasia.
Em cada curva
novas ânsias e
enigma da sorte.
Em cada olhar
a liberdade e
o adeus aos sonhos.
Em cada salto,
o impacto, a queda
1 173
Lúcio José Gusman
Ausência
Não estares
é como abrir uma ferida imensa
de onde salta
um mar vermelho de solidão.
É dissecar em mim
um tempo que não existe,
um tempo em que não sou,
no qual tu és, absoluta,
pela falta em que me queimas.
Não estares
é afogar-me em águas turvas
ardendo na sede,
insaciável,
que me consome.
Não estares
é como se não quisesses estar
mesmo querendo,
enquanto eu sorvo, ininterruptamente,
a agridoce essência
do teu ser onipresenteausente
é como abrir uma ferida imensa
de onde salta
um mar vermelho de solidão.
É dissecar em mim
um tempo que não existe,
um tempo em que não sou,
no qual tu és, absoluta,
pela falta em que me queimas.
Não estares
é afogar-me em águas turvas
ardendo na sede,
insaciável,
que me consome.
Não estares
é como se não quisesses estar
mesmo querendo,
enquanto eu sorvo, ininterruptamente,
a agridoce essência
do teu ser onipresenteausente
846
Leão Júnior
Tempo Tempo
certifique-se de que o tempo
não goza, em seu cabedal,
o saber de um tempo argüido:
seu irônico juízo
no que investiga retorna
e o que investiga é retorno
do que então se parodia
do que então potencializa
um saber examinar-se
no outro que está do outro
sem imagem conferida
mas que pressupõe ao pôr
radicais inexistências
sob metódico senso
de crítica e de raciocínio
para então comprometer
a base — seu fundamento —
do círculo que vira dia
que se vive sem teoria
o que lhe permite ser tempo
é não contar sua história
é não ter sequer história
é ser o avesso da história
a própria falta — seu ser
de insuportável sentido —
satura de perdas a vida
e a explode como história
aí é preciso viver
de sobrevida aparente
nas sobras do apalavrado
reconduzido ao vazio
e nesta sede excluída
do homem desprende-se o tempo
demolindo o quê de si
sobrevive em seus sistemas
que permanecem percursos
de quebras fendas rupturas
são como um não-rio
os afluentes do tempo
(faz flutuar periódicas
minas de água parada)
que cai por brutas clivagens
como evidências sem fala
ou conflui estimulando
econômicas miragens
que precipitam o invisível
nas influências do visto
e trazem a forma adiante
das margens que nos espiam
sem olhar antecipando
múltiplos fluxos sem rio
é de poesia que
o tempo se alimenta
de sua força estratégica
sua premente ameaça
pois quanto mais fortifica
com mais defesas desata
e obriga ao tempo o adiante
de formas desmoronadas
obriga a viagem das horas
às suas fronteiras perdidas
a descobrir demasiados
possíveis de não rendição
mal começada a jornada
chegam arquitetos do não
tem o passado uma fome
do retomo do que falta
fome de raiz-além
desse longo ignorado
e rumina arruinando
a forma não digerida
tem a fome de uma espera
por horizonte não vindo
se morde o passo do onde
se gera a fome do tempo
enquanto rumina o presente
escape por entre os dentes
quando céu e terra se fizeram uno
o grande tempo moldou todas as coisas
de uma só vez
aos homens transmitiu a técnica
de não esperar
nenhum posterior, absoluto ou relativo
se pressupôs:
a consciência das clepisidras e das ampulhetas
desapareceu
perderam-se as sucessões e os recortes
irreversivelmente
o grande tempo fundiu os homens
na geografia do outro
e já não houve marcas de propriedade
e já não houve Estados
quando céu e terra se fizeram uno
o presente pôde ser lembrado
os configurados do tempo
marinheiros e megáricos
na volta não viram a margem
fazer porto no outro lado
fazer com poucos relógios
este contorno marinho
por lençóis curvos de água
canais de vida ou de linho
(mil canais de travessia
não chegam ao tempo visado
se o ângulo em que se projetam
não vaga em tua memória
se não te apreendem no agora
rasgos de incertos indícios)
a paciência da tribo
faz que dorme
faz que sonhem seus conceitos vagos
com cristais
quase nada extrai da falta
de origem ou fim
a paciência da tribo
retira-se do tempo com malas e bagagens
e põe-se a salvo
como duração e morte
quase nada deixa
de sua imprópria matéria
sem horizonte indagado
a paciência da tribo não se acaba
talvez porque seu puro escape
dispense o eterno
como os cristais às datas
no instante do bote
o tempo masca
não marcha
como os cadetes do colégio militar
a cobra-macha do tempo
não bate os calcanhares que não tem
nem se perfila ou bate continência
a cobra-marcha do tempo apenas rumina
o seu azul pairado
sobre alas, sobre balas.
no instante exato do bote
a cobra do tempo fuma
e o verde desfile dos passos para sempre
passa
como uma falta de ser
se imagina desejada
ou quanto a letra se quer
mais lida se mais apagada
a consciência propaga
sua força de abafada
que mal ultrapassa a falha
escandaliza o que falta
e perturba porque gasta
a razão da ultrapassagem
ao propagar o querer
doutras forças sufocadas
que mais apagadas se avivam
como letras desejadas
de uma escrita em que falta
tua imagem recortada
tua vida recordada
Por um apagado de charge
o único tempo é o tempo
que fora de si inexiste
como existe o que expulsa
de sua reserva incontente
expulsa do homem o ganho
ou pior, contabiliza
sua fome de um ser tempo
de ter no tempo o seu prumo
e este homem sem divisas
quer do tempo seu insumo
cobra incentivos e lucros
por vida a mais de consumo
mas o tempo acerta o trato
desconhecendo o rumo
quem rói de ti os fantasmas
de que se cobre a razão
lendo o antes da memória
que escapa à imaginação
que examina pela falta
as marcas da contradição
que ousa escritos vazios
sobre raspas predatórias
quem desconcentra a razão
para firmá-la no instável
como solta resistência
que se faz tão maleável
que nenhuma norma nova
fixa a ferida da margem
a tinta encarnada do teu
manuscrito sem história
se entranha na letra como
palavra arrancada à traça
se entranha em calar dobrado
como história dos silêncios
que a letra arranca aos pedaços
desta carne de azurado
a tinta dos manuscritos
come a tua mão pesada
com gratos garfos que vexam
o menos papel do prato
para abrir com suas chaves
o trauma de novos achados
escrevo palavras que calam
o meu objeto é o tempo
não fala
mas guarda em si monumentos
que sem vestígios
abalam
e o seu mudo testamento
fende infinito o fragmento
que age
escrevo à margem do efeito
leitor da ávida ausência
que apaga
e não consulto memórias
meu dicionário é o átimo
que indaga
deixa se possível um oco
para que o tempo arrebente
tuas mordaças sem corpo
o teu silêncio de ovo
teu fio sem interior
que tece os teus desenlaces
com mordidas ou amarras
famintas da tua nudez
derrama o rigor do silêncio
na veia oblíqua do novo
os tempos geraram os tempos
que geram de si os tempos
que geram os tempos de novo
como uma trama bastarda
os laços de parentesco
perdido no que se ligam
tecem o mito e a fenda
saber de que é feito o tempo
desses tempos sem história
é ter por familiares
homônimos desconhecidos
que no entanto evoluem
no seu poder de expurgar
incógnitas biografias
nos interiores das bibliotecas
o teu vizinho vive os anos vinte
um de meia-idade atrás de ti
parte uma galáxia
nos interiores da rua
cada palavra circula
com reais multiplicados
pelos becos mais dispersos
das páginas e
não goza, em seu cabedal,
o saber de um tempo argüido:
seu irônico juízo
no que investiga retorna
e o que investiga é retorno
do que então se parodia
do que então potencializa
um saber examinar-se
no outro que está do outro
sem imagem conferida
mas que pressupõe ao pôr
radicais inexistências
sob metódico senso
de crítica e de raciocínio
para então comprometer
a base — seu fundamento —
do círculo que vira dia
que se vive sem teoria
o que lhe permite ser tempo
é não contar sua história
é não ter sequer história
é ser o avesso da história
a própria falta — seu ser
de insuportável sentido —
satura de perdas a vida
e a explode como história
aí é preciso viver
de sobrevida aparente
nas sobras do apalavrado
reconduzido ao vazio
e nesta sede excluída
do homem desprende-se o tempo
demolindo o quê de si
sobrevive em seus sistemas
que permanecem percursos
de quebras fendas rupturas
são como um não-rio
os afluentes do tempo
(faz flutuar periódicas
minas de água parada)
que cai por brutas clivagens
como evidências sem fala
ou conflui estimulando
econômicas miragens
que precipitam o invisível
nas influências do visto
e trazem a forma adiante
das margens que nos espiam
sem olhar antecipando
múltiplos fluxos sem rio
é de poesia que
o tempo se alimenta
de sua força estratégica
sua premente ameaça
pois quanto mais fortifica
com mais defesas desata
e obriga ao tempo o adiante
de formas desmoronadas
obriga a viagem das horas
às suas fronteiras perdidas
a descobrir demasiados
possíveis de não rendição
mal começada a jornada
chegam arquitetos do não
tem o passado uma fome
do retomo do que falta
fome de raiz-além
desse longo ignorado
e rumina arruinando
a forma não digerida
tem a fome de uma espera
por horizonte não vindo
se morde o passo do onde
se gera a fome do tempo
enquanto rumina o presente
escape por entre os dentes
quando céu e terra se fizeram uno
o grande tempo moldou todas as coisas
de uma só vez
aos homens transmitiu a técnica
de não esperar
nenhum posterior, absoluto ou relativo
se pressupôs:
a consciência das clepisidras e das ampulhetas
desapareceu
perderam-se as sucessões e os recortes
irreversivelmente
o grande tempo fundiu os homens
na geografia do outro
e já não houve marcas de propriedade
e já não houve Estados
quando céu e terra se fizeram uno
o presente pôde ser lembrado
os configurados do tempo
marinheiros e megáricos
na volta não viram a margem
fazer porto no outro lado
fazer com poucos relógios
este contorno marinho
por lençóis curvos de água
canais de vida ou de linho
(mil canais de travessia
não chegam ao tempo visado
se o ângulo em que se projetam
não vaga em tua memória
se não te apreendem no agora
rasgos de incertos indícios)
a paciência da tribo
faz que dorme
faz que sonhem seus conceitos vagos
com cristais
quase nada extrai da falta
de origem ou fim
a paciência da tribo
retira-se do tempo com malas e bagagens
e põe-se a salvo
como duração e morte
quase nada deixa
de sua imprópria matéria
sem horizonte indagado
a paciência da tribo não se acaba
talvez porque seu puro escape
dispense o eterno
como os cristais às datas
no instante do bote
o tempo masca
não marcha
como os cadetes do colégio militar
a cobra-macha do tempo
não bate os calcanhares que não tem
nem se perfila ou bate continência
a cobra-marcha do tempo apenas rumina
o seu azul pairado
sobre alas, sobre balas.
no instante exato do bote
a cobra do tempo fuma
e o verde desfile dos passos para sempre
passa
como uma falta de ser
se imagina desejada
ou quanto a letra se quer
mais lida se mais apagada
a consciência propaga
sua força de abafada
que mal ultrapassa a falha
escandaliza o que falta
e perturba porque gasta
a razão da ultrapassagem
ao propagar o querer
doutras forças sufocadas
que mais apagadas se avivam
como letras desejadas
de uma escrita em que falta
tua imagem recortada
tua vida recordada
Por um apagado de charge
o único tempo é o tempo
que fora de si inexiste
como existe o que expulsa
de sua reserva incontente
expulsa do homem o ganho
ou pior, contabiliza
sua fome de um ser tempo
de ter no tempo o seu prumo
e este homem sem divisas
quer do tempo seu insumo
cobra incentivos e lucros
por vida a mais de consumo
mas o tempo acerta o trato
desconhecendo o rumo
quem rói de ti os fantasmas
de que se cobre a razão
lendo o antes da memória
que escapa à imaginação
que examina pela falta
as marcas da contradição
que ousa escritos vazios
sobre raspas predatórias
quem desconcentra a razão
para firmá-la no instável
como solta resistência
que se faz tão maleável
que nenhuma norma nova
fixa a ferida da margem
a tinta encarnada do teu
manuscrito sem história
se entranha na letra como
palavra arrancada à traça
se entranha em calar dobrado
como história dos silêncios
que a letra arranca aos pedaços
desta carne de azurado
a tinta dos manuscritos
come a tua mão pesada
com gratos garfos que vexam
o menos papel do prato
para abrir com suas chaves
o trauma de novos achados
escrevo palavras que calam
o meu objeto é o tempo
não fala
mas guarda em si monumentos
que sem vestígios
abalam
e o seu mudo testamento
fende infinito o fragmento
que age
escrevo à margem do efeito
leitor da ávida ausência
que apaga
e não consulto memórias
meu dicionário é o átimo
que indaga
deixa se possível um oco
para que o tempo arrebente
tuas mordaças sem corpo
o teu silêncio de ovo
teu fio sem interior
que tece os teus desenlaces
com mordidas ou amarras
famintas da tua nudez
derrama o rigor do silêncio
na veia oblíqua do novo
os tempos geraram os tempos
que geram de si os tempos
que geram os tempos de novo
como uma trama bastarda
os laços de parentesco
perdido no que se ligam
tecem o mito e a fenda
saber de que é feito o tempo
desses tempos sem história
é ter por familiares
homônimos desconhecidos
que no entanto evoluem
no seu poder de expurgar
incógnitas biografias
nos interiores das bibliotecas
o teu vizinho vive os anos vinte
um de meia-idade atrás de ti
parte uma galáxia
nos interiores da rua
cada palavra circula
com reais multiplicados
pelos becos mais dispersos
das páginas e
414
Laura Amélia Damous
Véspera de Reis
Imperfeito tempo
em que és
o instante perfeito
Exato instante
de que é feita
a eternidade
em que és
o instante perfeito
Exato instante
de que é feita
a eternidade
1 082
Lêdo Ivo
Soneto Presunçoso
Que forma luminosa me acompanha
quando, entre o lusco e o fusco, bebo a voz
do meu tempo perdido, e um rio banha
tudo o que caminhei da fonte à foz?
Dos homens desde o berço enfrento a sanha
que os difere da abelha e do albatroz.
Meu irmão, meu algoz! No perde-e-ganha
quem ganhou, quem perdeu, não fomos nós.
O mundo nada pesa. Atlas, sinto
a leveza dos astros nos meus ombros.
Minha alma desatenta é mais pesada.
Quer ganhe ou perca, sou verdade e minto.
Se pergunto, a resposta é dos assombros.
No sol a pino finjo a madrugada.
quando, entre o lusco e o fusco, bebo a voz
do meu tempo perdido, e um rio banha
tudo o que caminhei da fonte à foz?
Dos homens desde o berço enfrento a sanha
que os difere da abelha e do albatroz.
Meu irmão, meu algoz! No perde-e-ganha
quem ganhou, quem perdeu, não fomos nós.
O mundo nada pesa. Atlas, sinto
a leveza dos astros nos meus ombros.
Minha alma desatenta é mais pesada.
Quer ganhe ou perca, sou verdade e minto.
Se pergunto, a resposta é dos assombros.
No sol a pino finjo a madrugada.
1 542
Valéry Larbaud
Noite de Verão
As horas, uma a uma, tempo adentro,
Percorrem seu trajeto sem retorno.
A noite na cidade, um templo morno,
Refaz o seu girar que não tem centro.
O amor é um clube chic onde não entro:
Anoto mentalmente seu contorno,
Corrompo a portaria com suborno,
Mas tudo é superfície, não há dentro.
Prosseguem as mulheres, sempre lentas,
Seu adejar de carnes opulentas.
São pernas, coxas, seios como frutas
Penetrando a substância de meu gozo.
E a boca das senhoras absolutas
Eu sorvo, num espasmo silencioso.
Percorrem seu trajeto sem retorno.
A noite na cidade, um templo morno,
Refaz o seu girar que não tem centro.
O amor é um clube chic onde não entro:
Anoto mentalmente seu contorno,
Corrompo a portaria com suborno,
Mas tudo é superfície, não há dentro.
Prosseguem as mulheres, sempre lentas,
Seu adejar de carnes opulentas.
São pernas, coxas, seios como frutas
Penetrando a substância de meu gozo.
E a boca das senhoras absolutas
Eu sorvo, num espasmo silencioso.
966
Lêdo Ivo
Acontecimento do Soneto
À doce sombra dos cancioneiros
em plena juventude encontro abrigo.
Estou farto do tempo, e não consigo
cantar solenemente os derradeiros
versos de minha vida, que os primeiros
foram cantados já, mas sem o antigo
acento de pureza ou de perigo
de eternos cantos, nunca passageiros.
Sôbolos rios que cantando vão
a lírica imortal do degredado
que, estando em Babilônia, quer Sião,
irei, levando uma mulher comigo,
e serei, mergulhado no passado,
cada vez mais moderno e mais antigo.
em plena juventude encontro abrigo.
Estou farto do tempo, e não consigo
cantar solenemente os derradeiros
versos de minha vida, que os primeiros
foram cantados já, mas sem o antigo
acento de pureza ou de perigo
de eternos cantos, nunca passageiros.
Sôbolos rios que cantando vão
a lírica imortal do degredado
que, estando em Babilônia, quer Sião,
irei, levando uma mulher comigo,
e serei, mergulhado no passado,
cada vez mais moderno e mais antigo.
1 329
Luís António Cajazeira Ramos
Entre o Sono e a Vigília
(soneto sonolento, ao dormir)
Na indolência do tempo, as horas morrem,
a madrugada avança seu crepúsculo,
um silêncio selvagem rasga o mundo,
e a vigília se abriga sob as pálpebras.
Um frio silente e aflito, quase um susto,
tão lépido quão lívido, perpassa,
que a imensidão do instante se revela,
e os abraços desfazem-se inconclusos.
Entre luzes e sombras vacilantes,
o assombro de mil séculos desvai-se,
e o espírito gazeia e se dissipa.
No espasmo mais recôndito do sonho,
o pássaro se furta da gaiola,
e o gato esconde o pulo entre almofadas.
Na indolência do tempo, as horas morrem,
a madrugada avança seu crepúsculo,
um silêncio selvagem rasga o mundo,
e a vigília se abriga sob as pálpebras.
Um frio silente e aflito, quase um susto,
tão lépido quão lívido, perpassa,
que a imensidão do instante se revela,
e os abraços desfazem-se inconclusos.
Entre luzes e sombras vacilantes,
o assombro de mil séculos desvai-se,
e o espírito gazeia e se dissipa.
No espasmo mais recôndito do sonho,
o pássaro se furta da gaiola,
e o gato esconde o pulo entre almofadas.
1 119
João Rui de Sousa
Poema Contíguo ao Ódio
Que gelado sopro nos agita
do lado de dentro das ruas?
Que rápida vertigem nos domina
nesta agudíssima manhã?
Este vento que nos queimaestas veias mais quentes
Estes longos minutos que sacodem o rosto
Estes ponteiros gigantes que nos marcam os séculos
Estes rios de sal que abrem sulcos nos ossos
Esta raiva que nos corta estas lâminas nos lábios
Estes vidros de silêncio que nos enchem a boca
Estes deuses que sorriem estas lágrimas mais puras
Estes grandes traços negros de trânsito impedido
do lado de dentro das ruas?
Que rápida vertigem nos domina
nesta agudíssima manhã?
Este vento que nos queimaestas veias mais quentes
Estes longos minutos que sacodem o rosto
Estes ponteiros gigantes que nos marcam os séculos
Estes rios de sal que abrem sulcos nos ossos
Esta raiva que nos corta estas lâminas nos lábios
Estes vidros de silêncio que nos enchem a boca
Estes deuses que sorriem estas lágrimas mais puras
Estes grandes traços negros de trânsito impedido
1 214
Jurema Batista de Sousa
Horário de Verão
Não sonhe mais vinte minutos!
Os homens, que mandam no tempo
colocam seus dedos pegajosos
sobre o relógio inocente
e ceifam estes vinte minutos
onde sua alma podia vadiar.
Não sinta nem mais um instante
que o mundo inexiste uma hora,
nesta hora, a violência germina
e nos quarenta minutos restantes
preparadas estão as armadilhas,
onde nosso coração é apenas
uma pequena raposa jovem.
Atrasa o teu relógio esta hora
para desvendar o mistério
da vida que pulsa desafiando
os terroristas da lógica.
Os homens, que mandam no tempo
colocam seus dedos pegajosos
sobre o relógio inocente
e ceifam estes vinte minutos
onde sua alma podia vadiar.
Não sinta nem mais um instante
que o mundo inexiste uma hora,
nesta hora, a violência germina
e nos quarenta minutos restantes
preparadas estão as armadilhas,
onde nosso coração é apenas
uma pequena raposa jovem.
Atrasa o teu relógio esta hora
para desvendar o mistério
da vida que pulsa desafiando
os terroristas da lógica.
853
Jorge Pieiro
Os Abismos Horizontais de Sérgio Campos
Tempo e maturidade são fatores essenciais para consolidar as relações viscerais entre a poesia e o poeta. Convém esclarecer que essa afirmativa anula a concepção comum de tempo, enquanto representação dos movimentos do Universo. Concebido assim, sem as prisões estabelecidas pelo homem e seus métodos, mas como parcela íntima e individual, o tempo do poeta contraria a inevitável degeneração funcional e orgânica do ser humano. Dessa forma, permite elastecer a mirada dos horizontes e aprofundar a contemplação das esferas de vivência interior; já a maturidade, provável conseqüência dos escrutínios da vida, toma-se motivo condutor da experiência poética, estendida entre a realidade e o imaginário.
Com as cicatrizes marcando um rosto, um poeta busca luz ao beber o sol e as constelações, para assim delimitar suas pedras, suas veredas, suas margens e suas amplidões. É privilégio apenas de verdadeiros poetas estabelecer os contornos do infinito e do ínfimo pelo jogo e artifício das palavras com as quais lida.
Sem os alardes vazios de tantos poetas nacionais, apregoadores de falsas grandezas, um poeta buscou a eternidade nas palavras e, com elas, compôs um mundo manual, épico, abissal. Como se houvesse cumprido o rastro da sua luz, legou-nos espetáculos de aurora e crepúsculos um mundo sensível, belo e generoso de poesia. Embora já ausente o principal protagonista, a singularidade do poeta carioca Sérgio Campos (l941-1994), leva-me a reverenciar sua poesia pela leitura reunida de seus dez anos de escrutínio de palavras.
Mar Anterior (Mundo Manual Edições, 1994) foi a celebração e o registro apurado de sua poesia publicada. Selecionados e revistos, a obra reúne poemas desde A Casa do Elementos (CE), 1984, Passando por Bichos (B), 1985, Ciclo Amatório (CA), 1986, Montanhecer (M), 1987, Nativa Idade (NI), O Lobo e o Pastor (LP) e As Iras do Dia (ID), todos de 1990, Móbiles de Sal (MS), 1991, A Cúpula e o Rumor (CR), 1992, até Leitura de Cinzas (LC), 1993.
Mar Anterior é uma obra poética em dinâmico refluxo, que possibilita reconhecer a variedade de estratagemas no possível sal marinho de suas entranhas. Exala uma maresia provocada, não pelo agito das ondas de um tempo infelizmente contemporâneo ao que resta de valor sob a superfície desse nosso caosmos de todo dia, mas surgido de uma complacência com os valores arcaicos da mitologia pulsante na inconsciência de nossos cicios de sol e lua.
A um poeta que afirmou ter se fixado nas formas clássicas de poesia, também a ele foi exigida a absoluta modernidade de seu dassicismo, sob a ameaça de não ser compreendido pelos seus pares, e, principalmente, pelas castas dos cartesianos e positivistas de tocaia. Mas isso não importa tanto, pois para quem fazer uma arte arcaica assustou mais aos outros poetas que ao poder, cabe-me estender os olhos às suas poéticas como quem vai assumir uma postura irremediavelmente solene, livre porém dos artifícios burocráticos.
A ausência desses efeitos de repartição pública é reflexo, talvez, das declarações do poeta em várias situações e ocasiões, ao enunciar que a sua estética era basicamente a da repetição. Não escreveu Campos poemas semelhantes, mas os reescreveu elevando a escritura à enésima potência. Quis cumprir a teoria da repetição ao recriar as próprias versões de sua simplicidade harmônica. A prova precisa se dá nesses versos do soneto Apenas o que Dou não é Perdido (LP): "pois o que sei e fiz trouxe da ausência / e refazer é meu melhor inventa" (p. 51).
Em sua curta trajetória poética de 10 anos Sérgio Campos não foi apenas um transcriador dos mitos greco-latinos, mas um venturoso perseguidor da consciência, um viajante na idealidade imaginária que seguiu a trajetória da busca, como Odisseu, em seu Tecido de abismos (ID): sigo em busca de um ouro em que tudo se oculta (p. 36).
Mar Anterior é uma peça solene. Reúne poemas que se reafirmam formalmente em sonetos, odes ou formulações livres, enfeitados, contudo, dentro de uma perspectiva épica moderníssima, o que possibilita vislumbrar origens fragmentárias em suas extensões. A obra, com seus entes, espaços, vazios e suas plenitudes reunidos de forma sucinta, porém bastante impetuosa, sugere a intenção de Campos em construir sua poesia como se construísse abismos horizontais. A profundidade não é vertical; a perpendicularidade dos limites é que revela a sua própria extensão...
Fazendo um paralelo com as construções poéticas greco-latinas, premiadas pelo tempo e pela ousadia, ou com as procriações barrocas, Mar Anterior deixa-se revelar como um exemplar iceberg poético, onde as ruínas dos estilos aparentes ascendem do nível comum dos mortais, deixando submersas as raízes de sua profusão, para mesclar-se com as exigidas fagulhas da poesia mais contemporânea. Ora, não são das ruínas, ou dos encantados ossos que se constrói uma urbe perdida ou um ancestral?
Os poemas mais curtos de Sérgio Campos, na realidade pequenos tentáculos de um abismo mais extenso, são os que considero mais clássicos. Como constituem elos de um enunciado maior, (in)visível, sugerem a figura dos submersos icebergs. Veja-se o exemplo nessa Encantação dos Fios (MS): — "Ó Adriane / o que não se escreve para a beleza / resta sempre inacabada" (p. 31), ou em Lumina (CR): "Entre o que sucede / e intermedia / está a velocidade da flexa / contra a corrente // entre o significado e Delfos o âmbar da profecia // "Mas de inocência e perigo / a manhã faz seus ninhos" (p. 90).
Note-se que o caminho mitológico, nesses exemplos, são fragmentos de erudição diante da grandeza metafórica das nuanças do cotidiano, da incompletude eterna da beleza à possibilidade maniqueísta de como a manhã faz seus ninhos...
do sótão ao porão
Como não poderia deixar de figurar entre os elementos essenciais de uma poética, Sérgio Campos também definiu e deixou florescer elementos simbólicos em sua obra. Exemplo mais evidente dá-se com as construções em tomo da palavra ou do lugar-asilo, a casa. Com efeitos extremamente valiosos, Campos ativa sua motivação e atenção às notas de Gaston Bachelard, eminente fenomenólogo, em sua Poética do Espaço.
Nos poemas dedicados à casa, ruminações dos espaços íntimos, Campos imprimiu com precisão e sutileza a sua previdente solidão, por meio de um texto figurativo, sem ilusões. A exemplo de um eremita que devaneou com a audição de melodias provençais, o poeta revelou o segredo de suas imensidões marginais: acendeu a vela no porão e permitiu a luz do sótão... ou seja, revelou-se.
Em Ruínas Horizontais (MS), o poeta refletiu: "a casa / é seus arredores" (p. 11); "raptos de aromas / de crianças no quintal" (p. 13); "a casa / é seus crepúsculos" (p. 14); "a casa / é suas ruínas" (p. 16); "a casa / é seu corpo e viagem" (p. 17).
Numa evidente busca do passado, o poeta reviveu a ancestralidade de seu espaço e foi consumido por sua gênese. Pois a casa foi / é ainda "alvenaria de acasos", "vômito das clarabóias", "espantalho de rendas no colo das tias", e tantas outras dimensões sintagmáticas, que convergem para uma única compreensão da vida: "toda ruína é humana". A essência do cotidiano, que engole a memória e desatina a lembrança, é a própria fórmula da maravilha poética de Sérgio Campos.
As Ilhas da Casa (CR) projetam-se mais graves quanto às conclusões do poeta sobre seus arredores. Preso à sua sombra, o poeta admite que "memórias são sucessões / de espelhos aprisionados" (p. 94) para, em seguida, declarar de viva voz o seu desejo de regresso ao hiato que o separa do passado. Tendo, ora as visões de todas as janelas e corredores, ora de seus espaços imaginários, o poeta quer " — Deixar as portas abertas / para paixões circulares" (p. 97).
Com essas imagens e as visões das extremidades cíclicas do espaço, Campos reformulou as divagações de Gaston Bachelard, a respeito da poética e da solidão. Coube a ele revelar aq
Com as cicatrizes marcando um rosto, um poeta busca luz ao beber o sol e as constelações, para assim delimitar suas pedras, suas veredas, suas margens e suas amplidões. É privilégio apenas de verdadeiros poetas estabelecer os contornos do infinito e do ínfimo pelo jogo e artifício das palavras com as quais lida.
Sem os alardes vazios de tantos poetas nacionais, apregoadores de falsas grandezas, um poeta buscou a eternidade nas palavras e, com elas, compôs um mundo manual, épico, abissal. Como se houvesse cumprido o rastro da sua luz, legou-nos espetáculos de aurora e crepúsculos um mundo sensível, belo e generoso de poesia. Embora já ausente o principal protagonista, a singularidade do poeta carioca Sérgio Campos (l941-1994), leva-me a reverenciar sua poesia pela leitura reunida de seus dez anos de escrutínio de palavras.
Mar Anterior (Mundo Manual Edições, 1994) foi a celebração e o registro apurado de sua poesia publicada. Selecionados e revistos, a obra reúne poemas desde A Casa do Elementos (CE), 1984, Passando por Bichos (B), 1985, Ciclo Amatório (CA), 1986, Montanhecer (M), 1987, Nativa Idade (NI), O Lobo e o Pastor (LP) e As Iras do Dia (ID), todos de 1990, Móbiles de Sal (MS), 1991, A Cúpula e o Rumor (CR), 1992, até Leitura de Cinzas (LC), 1993.
Mar Anterior é uma obra poética em dinâmico refluxo, que possibilita reconhecer a variedade de estratagemas no possível sal marinho de suas entranhas. Exala uma maresia provocada, não pelo agito das ondas de um tempo infelizmente contemporâneo ao que resta de valor sob a superfície desse nosso caosmos de todo dia, mas surgido de uma complacência com os valores arcaicos da mitologia pulsante na inconsciência de nossos cicios de sol e lua.
A um poeta que afirmou ter se fixado nas formas clássicas de poesia, também a ele foi exigida a absoluta modernidade de seu dassicismo, sob a ameaça de não ser compreendido pelos seus pares, e, principalmente, pelas castas dos cartesianos e positivistas de tocaia. Mas isso não importa tanto, pois para quem fazer uma arte arcaica assustou mais aos outros poetas que ao poder, cabe-me estender os olhos às suas poéticas como quem vai assumir uma postura irremediavelmente solene, livre porém dos artifícios burocráticos.
A ausência desses efeitos de repartição pública é reflexo, talvez, das declarações do poeta em várias situações e ocasiões, ao enunciar que a sua estética era basicamente a da repetição. Não escreveu Campos poemas semelhantes, mas os reescreveu elevando a escritura à enésima potência. Quis cumprir a teoria da repetição ao recriar as próprias versões de sua simplicidade harmônica. A prova precisa se dá nesses versos do soneto Apenas o que Dou não é Perdido (LP): "pois o que sei e fiz trouxe da ausência / e refazer é meu melhor inventa" (p. 51).
Em sua curta trajetória poética de 10 anos Sérgio Campos não foi apenas um transcriador dos mitos greco-latinos, mas um venturoso perseguidor da consciência, um viajante na idealidade imaginária que seguiu a trajetória da busca, como Odisseu, em seu Tecido de abismos (ID): sigo em busca de um ouro em que tudo se oculta (p. 36).
Mar Anterior é uma peça solene. Reúne poemas que se reafirmam formalmente em sonetos, odes ou formulações livres, enfeitados, contudo, dentro de uma perspectiva épica moderníssima, o que possibilita vislumbrar origens fragmentárias em suas extensões. A obra, com seus entes, espaços, vazios e suas plenitudes reunidos de forma sucinta, porém bastante impetuosa, sugere a intenção de Campos em construir sua poesia como se construísse abismos horizontais. A profundidade não é vertical; a perpendicularidade dos limites é que revela a sua própria extensão...
Fazendo um paralelo com as construções poéticas greco-latinas, premiadas pelo tempo e pela ousadia, ou com as procriações barrocas, Mar Anterior deixa-se revelar como um exemplar iceberg poético, onde as ruínas dos estilos aparentes ascendem do nível comum dos mortais, deixando submersas as raízes de sua profusão, para mesclar-se com as exigidas fagulhas da poesia mais contemporânea. Ora, não são das ruínas, ou dos encantados ossos que se constrói uma urbe perdida ou um ancestral?
Os poemas mais curtos de Sérgio Campos, na realidade pequenos tentáculos de um abismo mais extenso, são os que considero mais clássicos. Como constituem elos de um enunciado maior, (in)visível, sugerem a figura dos submersos icebergs. Veja-se o exemplo nessa Encantação dos Fios (MS): — "Ó Adriane / o que não se escreve para a beleza / resta sempre inacabada" (p. 31), ou em Lumina (CR): "Entre o que sucede / e intermedia / está a velocidade da flexa / contra a corrente // entre o significado e Delfos o âmbar da profecia // "Mas de inocência e perigo / a manhã faz seus ninhos" (p. 90).
Note-se que o caminho mitológico, nesses exemplos, são fragmentos de erudição diante da grandeza metafórica das nuanças do cotidiano, da incompletude eterna da beleza à possibilidade maniqueísta de como a manhã faz seus ninhos...
do sótão ao porão
Como não poderia deixar de figurar entre os elementos essenciais de uma poética, Sérgio Campos também definiu e deixou florescer elementos simbólicos em sua obra. Exemplo mais evidente dá-se com as construções em tomo da palavra ou do lugar-asilo, a casa. Com efeitos extremamente valiosos, Campos ativa sua motivação e atenção às notas de Gaston Bachelard, eminente fenomenólogo, em sua Poética do Espaço.
Nos poemas dedicados à casa, ruminações dos espaços íntimos, Campos imprimiu com precisão e sutileza a sua previdente solidão, por meio de um texto figurativo, sem ilusões. A exemplo de um eremita que devaneou com a audição de melodias provençais, o poeta revelou o segredo de suas imensidões marginais: acendeu a vela no porão e permitiu a luz do sótão... ou seja, revelou-se.
Em Ruínas Horizontais (MS), o poeta refletiu: "a casa / é seus arredores" (p. 11); "raptos de aromas / de crianças no quintal" (p. 13); "a casa / é seus crepúsculos" (p. 14); "a casa / é suas ruínas" (p. 16); "a casa / é seu corpo e viagem" (p. 17).
Numa evidente busca do passado, o poeta reviveu a ancestralidade de seu espaço e foi consumido por sua gênese. Pois a casa foi / é ainda "alvenaria de acasos", "vômito das clarabóias", "espantalho de rendas no colo das tias", e tantas outras dimensões sintagmáticas, que convergem para uma única compreensão da vida: "toda ruína é humana". A essência do cotidiano, que engole a memória e desatina a lembrança, é a própria fórmula da maravilha poética de Sérgio Campos.
As Ilhas da Casa (CR) projetam-se mais graves quanto às conclusões do poeta sobre seus arredores. Preso à sua sombra, o poeta admite que "memórias são sucessões / de espelhos aprisionados" (p. 94) para, em seguida, declarar de viva voz o seu desejo de regresso ao hiato que o separa do passado. Tendo, ora as visões de todas as janelas e corredores, ora de seus espaços imaginários, o poeta quer " — Deixar as portas abertas / para paixões circulares" (p. 97).
Com essas imagens e as visões das extremidades cíclicas do espaço, Campos reformulou as divagações de Gaston Bachelard, a respeito da poética e da solidão. Coube a ele revelar aq
1 160
João Marcio Furtado Costa
Dois mil e BUM
Dois mil e BUM
(12/96)
Ao fim daquele segundo, nada se resolveu no mundo.
Por mais importante que fosse, daquele segundo, o fruto,
Seu maior feito, seu intuito, foi de encerrar o minuto.
Mas, também, o minuto, nada mudou de concreto, pois,
Por mais que fosse certo, por mais tempo que desse ao agora,
Nada mais de útil fizera, do que a troca da hora.
E a hora foi embora, radiante de alegria,
Na dicotomia da noite, terminara mais um dia.
Não fora um dia qualquer, aquele 31 de dezembro.
Nem maior, nem menor, nem mais claro ou mais escuro.
Tampouco foi mais puro. Porém, e sem engano,
Ao seu final foi-se o ano, e deu as caras, o futuro.
Foi-se o segundo, o minuto. Foi-se a hora e, junto, o ano,
E o tempo, que é cigano, resolveu baixar o pano,
E encerrar, de vez, o século.
Foste o vigésimo e terminaste. Nada em ti foi respeitado.
Aquele segundo arrogante, agindo qual meliante,
Roubou de ti o legado.
Sei que foi fatalidade, mas perdeste a identidade,
Em dois dígitos já não cabes mais. És a mazela,
Que nos computadores, gerou calamidade provocando dores,
Que ninguém duvide, universais.
Ficou a melancolia. Alvíssaras ao novo século.
A vida ficou vazia. Alvíssaras ao vinte e um.
Disseram que de mil tu passarias,
E que a dois mil não chegarias,
Mesmo se um por todos e todos por um.
Já houve quem pensasse, antever o apocalipse,
Consequência derradeira de um eclipse,
Ou suicídio coletivo, numa guerra mundial.
Porém, ninguém, por mais que fosse visionário,
Pensaria ser possível, resultar tal corolário,
Nem Nostradamus vislumbrou final igual.
Acabar-se na clandestinidade, morto-vivo, que infelicidade
nos bancos de dados institucionais.
(12/96)
Ao fim daquele segundo, nada se resolveu no mundo.
Por mais importante que fosse, daquele segundo, o fruto,
Seu maior feito, seu intuito, foi de encerrar o minuto.
Mas, também, o minuto, nada mudou de concreto, pois,
Por mais que fosse certo, por mais tempo que desse ao agora,
Nada mais de útil fizera, do que a troca da hora.
E a hora foi embora, radiante de alegria,
Na dicotomia da noite, terminara mais um dia.
Não fora um dia qualquer, aquele 31 de dezembro.
Nem maior, nem menor, nem mais claro ou mais escuro.
Tampouco foi mais puro. Porém, e sem engano,
Ao seu final foi-se o ano, e deu as caras, o futuro.
Foi-se o segundo, o minuto. Foi-se a hora e, junto, o ano,
E o tempo, que é cigano, resolveu baixar o pano,
E encerrar, de vez, o século.
Foste o vigésimo e terminaste. Nada em ti foi respeitado.
Aquele segundo arrogante, agindo qual meliante,
Roubou de ti o legado.
Sei que foi fatalidade, mas perdeste a identidade,
Em dois dígitos já não cabes mais. És a mazela,
Que nos computadores, gerou calamidade provocando dores,
Que ninguém duvide, universais.
Ficou a melancolia. Alvíssaras ao novo século.
A vida ficou vazia. Alvíssaras ao vinte e um.
Disseram que de mil tu passarias,
E que a dois mil não chegarias,
Mesmo se um por todos e todos por um.
Já houve quem pensasse, antever o apocalipse,
Consequência derradeira de um eclipse,
Ou suicídio coletivo, numa guerra mundial.
Porém, ninguém, por mais que fosse visionário,
Pensaria ser possível, resultar tal corolário,
Nem Nostradamus vislumbrou final igual.
Acabar-se na clandestinidade, morto-vivo, que infelicidade
nos bancos de dados institucionais.
747
João Gulart de Souza Gomos
algaravia
o que se sabe de mim
é que roubo palavras ao vento
roubo horas ao tempo
e imagens à película:
sou um ladrão de cutículas
redentor de movimentos
coleciono momentos
em pequeninas partículas;
assalto estórias perdidas
e o que não sei, invento —
quixote e moinhos de vento
habitam-me alternados
caminheiro de atalhos
ignoro as desditas
e é o que basta dizer:
que componho versos sem métrica
e desconheço estilos
falo do que não entendo
e calo o que não consinto
aborreço o meu dia
e alimento a gaveta
de papéis escrevinhados
de outra tanta algaravia
que nos despe de encantos
e reclama melodia
noutro tempo, outro canto
e outro tanto se cria
ao falar velhas palavras
tédio... é meio-dia
quando os ponteiros se encontram
e príncipes desencantam
de coaxos já cansados
por beijos de lindas donzelas
... mas isto é já outro caso
(também de amor, mas sonhado)
que não nos compete falar.
tédio... é meia-noite
e lobisomens se encantam
de uivos agoniados
por pragas e maldições;
e a lua vai se deitar
em leitos de outros ladrões
Goulart Gomes, Salvador, BA
é que roubo palavras ao vento
roubo horas ao tempo
e imagens à película:
sou um ladrão de cutículas
redentor de movimentos
coleciono momentos
em pequeninas partículas;
assalto estórias perdidas
e o que não sei, invento —
quixote e moinhos de vento
habitam-me alternados
caminheiro de atalhos
ignoro as desditas
e é o que basta dizer:
que componho versos sem métrica
e desconheço estilos
falo do que não entendo
e calo o que não consinto
aborreço o meu dia
e alimento a gaveta
de papéis escrevinhados
de outra tanta algaravia
que nos despe de encantos
e reclama melodia
noutro tempo, outro canto
e outro tanto se cria
ao falar velhas palavras
tédio... é meio-dia
quando os ponteiros se encontram
e príncipes desencantam
de coaxos já cansados
por beijos de lindas donzelas
... mas isto é já outro caso
(também de amor, mas sonhado)
que não nos compete falar.
tédio... é meia-noite
e lobisomens se encantam
de uivos agoniados
por pragas e maldições;
e a lua vai se deitar
em leitos de outros ladrões
Goulart Gomes, Salvador, BA
872
João Manuel Simões
O Primeiro Dia da Criação
Cicatriz na epiderme
macia do silêncio,
ei-la que surge, nítida,
iluminada e frágil,
na geometria exata
do tempo feito espaço,
com gládio nas trevas,
como insígnia de fogo.
Haste de flor de som
sem memória plausível,
gesto puro de flâmula,
alarme sobre claustros
ou mero grito agreste
violando a morte obscena,
ei-la que desabrocha.
No Princípio era o caos,
(Era o cais, eram cães, eram Cains?)
E a palavra boiava,
ambígua, sobre as águas.
macia do silêncio,
ei-la que surge, nítida,
iluminada e frágil,
na geometria exata
do tempo feito espaço,
com gládio nas trevas,
como insígnia de fogo.
Haste de flor de som
sem memória plausível,
gesto puro de flâmula,
alarme sobre claustros
ou mero grito agreste
violando a morte obscena,
ei-la que desabrocha.
No Princípio era o caos,
(Era o cais, eram cães, eram Cains?)
E a palavra boiava,
ambígua, sobre as águas.
740
João Marcio Furtado Costa
O Tempo e a Vida
O Tempo e a Vida
(04/96)
Da vida vivida, a medida é o estado de energia,
e o limite é o próprio tempo: remédio e dimensão.
Passado, presente e futuro, fases da cronologia,
resultante da vivência, da razão e emoção.
Não se vive do passado, o passado, já passou,
não se muda ou se arrepende, se aprende e a bola rola.
Se o presente está errado, se ele é o fardo que restou,
então se muda, se corrige ou se joga a vida fora.
A vida se apresenta e vivo hoje, e vivendo eu faço a hora.
O sonho, eu sonho agora e realizo no amanhã.
O passado foi embora, é uma novela que acabou.
Se o tempo não parou, não sou eu quem vai parar,
comete suicídio, quem vive de passa-tempo,
desperdiçar o momento, é a vida, que se quer matar.
(04/96)
Da vida vivida, a medida é o estado de energia,
e o limite é o próprio tempo: remédio e dimensão.
Passado, presente e futuro, fases da cronologia,
resultante da vivência, da razão e emoção.
Não se vive do passado, o passado, já passou,
não se muda ou se arrepende, se aprende e a bola rola.
Se o presente está errado, se ele é o fardo que restou,
então se muda, se corrige ou se joga a vida fora.
A vida se apresenta e vivo hoje, e vivendo eu faço a hora.
O sonho, eu sonho agora e realizo no amanhã.
O passado foi embora, é uma novela que acabou.
Se o tempo não parou, não sou eu quem vai parar,
comete suicídio, quem vive de passa-tempo,
desperdiçar o momento, é a vida, que se quer matar.
881
João Ferry
Valença do Piauí
200 anos! Como está velhinha!
mas tão linda, tão guapa, tão bonita,
Parecendo hoje ser uma mocinha,
Com um diadema de fita,
Tendo no peito uma rosa,
Sobre o seu vestido novo,
Que te faz tão graciosa
Ao doce olhar do teu povo.
200 anos de deslumbramentos!
Mas que lutas meu Deus, quantos tormentos,
Para vencer a estrada caprichosa
Conquistando esta data gloriosa
Que hoje feliz com inusitado brilho
Mostra o progresso conquistado e forte,
Recebido do amor de cada filho
A quem tiveste confiada a sorte.
200 anos! Como está velhinha!
Mas tão linda, tão guapa, tão bonita,
Parecendo hoje ser uma mocinha,
Com o seu vestido de chita
Fazendo inveja aos rapazes,
Que te querem namorar,
Mas que ainda não são capazes
De contigo se casar.
Minha querida e imortal Valença!
Hoje teus filhos com alegria imensa,
Glorificando o teu bicentenário,
Fazem de ti um talismã lendário,
Que lhes dará todo um porvir brilhante
Na tua gloriosa trajetória
Para que num futuro bem distante
Maiores loiros tenha a tua história!
mas tão linda, tão guapa, tão bonita,
Parecendo hoje ser uma mocinha,
Com um diadema de fita,
Tendo no peito uma rosa,
Sobre o seu vestido novo,
Que te faz tão graciosa
Ao doce olhar do teu povo.
200 anos de deslumbramentos!
Mas que lutas meu Deus, quantos tormentos,
Para vencer a estrada caprichosa
Conquistando esta data gloriosa
Que hoje feliz com inusitado brilho
Mostra o progresso conquistado e forte,
Recebido do amor de cada filho
A quem tiveste confiada a sorte.
200 anos! Como está velhinha!
Mas tão linda, tão guapa, tão bonita,
Parecendo hoje ser uma mocinha,
Com o seu vestido de chita
Fazendo inveja aos rapazes,
Que te querem namorar,
Mas que ainda não são capazes
De contigo se casar.
Minha querida e imortal Valença!
Hoje teus filhos com alegria imensa,
Glorificando o teu bicentenário,
Fazem de ti um talismã lendário,
Que lhes dará todo um porvir brilhante
Na tua gloriosa trajetória
Para que num futuro bem distante
Maiores loiros tenha a tua história!
1 324
José Eduardo Mendes Camargo
Fugaz
Fugaz é o momento do encontro.
Fugaz é a despedida do sol na linha do horizonte.
Fugaz é a estrela cadente.
Fugaz é o encanto do inesperado.
Fugaz é o momento da vitória.
Fugaz é o prazer sublime do orgasmo.
Fugaz é a própria vida no horizonte do tempo.
Eterna é a recordação.
Fugaz é a despedida do sol na linha do horizonte.
Fugaz é a estrela cadente.
Fugaz é o encanto do inesperado.
Fugaz é o momento da vitória.
Fugaz é o prazer sublime do orgasmo.
Fugaz é a própria vida no horizonte do tempo.
Eterna é a recordação.
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João Bosco da Encarnação
O cavalo é Momento
O cavalo é Momento
O cavalo é Momento,
o cavaleiro é Eu.
Momento jamais se perdeu,
mas Eu tem seus tormentos!
Momento é tão leve
que Eu nunca se atreve
a frear seus galopes.
Não entende a Beleza,
porém, dessa Leveza,
que encanta, sendo golpes.
Momento, na sua destreza,
engana seu montador,
que sofre uma dor,
destruidora tristeza.
Essa dor, que a sente
na forma de um prazer,
e assim, sem se atrever.
A tentar frear Momento,
no próprio ausente
de si, seu leve tormento!"
O cavalo é Momento,
o cavaleiro é Eu.
Momento jamais se perdeu,
mas Eu tem seus tormentos!
Momento é tão leve
que Eu nunca se atreve
a frear seus galopes.
Não entende a Beleza,
porém, dessa Leveza,
que encanta, sendo golpes.
Momento, na sua destreza,
engana seu montador,
que sofre uma dor,
destruidora tristeza.
Essa dor, que a sente
na forma de um prazer,
e assim, sem se atrever.
A tentar frear Momento,
no próprio ausente
de si, seu leve tormento!"
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José Carlos Souza Santos
Do livro Estrelas Ausentes
A Tarde que Me Cabe
Eram quatro, as horas da manhã
quando nasci,
ainda não se havia completado
o meio-dia
quando os meus olhos se abeberaram
sôfregos,
de lembranças de nunca vistos pôr-do-sol,
de canelones que pela boca me desceram
sem lhes sentir o gosto,
de apaixonados beijos que os desejos
não me aplacaram,
e foi tão rápida a descoberta
de ter vivido somente o espaço de uma manhã
nos meus quarenta anos.
Ainda não se tinha completado
o meio-dia,
e náufrago em tábua de conveniência,
não me permitira
ver a luz que me tocara,
me lambera, me inundara.
e só pelas tuas mãos,
e pelo teu silêncio em grito de ausência
transformado,
hei de viver o período da tarde
que me cabe,
e vivê-lo tão intensamente, que os refúgios
em nossos corpos usados
inatingíveis hão de se tornar
no compassado ritmo do amor.
Eram quatro, as horas da manhã
quando nasci,
ainda não se havia completado
o meio-dia
quando os meus olhos se abeberaram
sôfregos,
de lembranças de nunca vistos pôr-do-sol,
de canelones que pela boca me desceram
sem lhes sentir o gosto,
de apaixonados beijos que os desejos
não me aplacaram,
e foi tão rápida a descoberta
de ter vivido somente o espaço de uma manhã
nos meus quarenta anos.
Ainda não se tinha completado
o meio-dia,
e náufrago em tábua de conveniência,
não me permitira
ver a luz que me tocara,
me lambera, me inundara.
e só pelas tuas mãos,
e pelo teu silêncio em grito de ausência
transformado,
hei de viver o período da tarde
que me cabe,
e vivê-lo tão intensamente, que os refúgios
em nossos corpos usados
inatingíveis hão de se tornar
no compassado ritmo do amor.
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