Poemas neste tema
Tristeza e Melancolia
Álvaro Feijó
Nossa Senhora da Apresentação
O altar as vagas
o dossel a espuma!
Missas rezadas pelo vento,
ora pelos fiéis defuntos que se foram
noutras vagas.
Ora pelas barcaças que, uma a uma,
buscaram as sereias na distância
e se foram com elas.
Sobre o altar, entre círios, que não são
os círios murchos das igrejas velhas
mas o lume de estrelas,
ELA,
Nossa Senhora da Apresentação.
Aquela
que não tem mantos da cor do céu,
nem fios doiro nos cabelos,
nem anéis nos dedos;
aquela
que não traz um menino nos seus braços
porque os seios mirraram
e já não têm pão para lhe dar;
aquela
que tem o corpo negro e sujo
e os ossos a saltar
da pele
e dos rasgões da saia e do corpete;
Nossa Senhora da Apresentação
da Beira-Mar,
que tem capelas
em cada peito de marinheiro,
que morre e, num instante,
se renova
e que anda
quer nos engaços do sargaceiro
ou nas gamelas do pilado
e palhabotes da Terra Nova.
Aquela
a quem todos adoram.
Dos meninos
feitos nos intervalos das campanhas,
aos bichanos que limpam de cabeças
e tripas de pescado
as muralhas do cais.
O dossel a espuma.
O altar das vagas
— e que altar enorme! —
Entre círios de estrelas,
Nossa Senhora da Apresentação
e Justificação
— a Fome!
o dossel a espuma!
Missas rezadas pelo vento,
ora pelos fiéis defuntos que se foram
noutras vagas.
Ora pelas barcaças que, uma a uma,
buscaram as sereias na distância
e se foram com elas.
Sobre o altar, entre círios, que não são
os círios murchos das igrejas velhas
mas o lume de estrelas,
ELA,
Nossa Senhora da Apresentação.
Aquela
que não tem mantos da cor do céu,
nem fios doiro nos cabelos,
nem anéis nos dedos;
aquela
que não traz um menino nos seus braços
porque os seios mirraram
e já não têm pão para lhe dar;
aquela
que tem o corpo negro e sujo
e os ossos a saltar
da pele
e dos rasgões da saia e do corpete;
Nossa Senhora da Apresentação
da Beira-Mar,
que tem capelas
em cada peito de marinheiro,
que morre e, num instante,
se renova
e que anda
quer nos engaços do sargaceiro
ou nas gamelas do pilado
e palhabotes da Terra Nova.
Aquela
a quem todos adoram.
Dos meninos
feitos nos intervalos das campanhas,
aos bichanos que limpam de cabeças
e tripas de pescado
as muralhas do cais.
O dossel a espuma.
O altar das vagas
— e que altar enorme! —
Entre círios de estrelas,
Nossa Senhora da Apresentação
e Justificação
— a Fome!
2 029
3
Olavo Bilac
Só
Este, que um deus cruel arremessou à vida,
Marcando-o com o sinal da sua maldição,
— Este desabrochou como a erva má, nascida
Apenas para aos pés ser calcada no chão.
De motejo em motejo arrasta a alma ferida...
Sem constância no amor, dentro do coração
Sente, crespa, crescer a selva retorcida
Dos pensamentos maus, filhos da solidão.
Longos dias sem sol! noites de eterno luto!
Alma cega, perdida à toa no caminho!
Roto casco de nau, desprezado no mar!
E, árvore, acabará sem nunca dar um fruto;
E, homem há de morrer como viveu: sozinho!
Sem ar! sem luz! sem Deus! sem fé! sem pão!
sem lar!
Marcando-o com o sinal da sua maldição,
— Este desabrochou como a erva má, nascida
Apenas para aos pés ser calcada no chão.
De motejo em motejo arrasta a alma ferida...
Sem constância no amor, dentro do coração
Sente, crespa, crescer a selva retorcida
Dos pensamentos maus, filhos da solidão.
Longos dias sem sol! noites de eterno luto!
Alma cega, perdida à toa no caminho!
Roto casco de nau, desprezado no mar!
E, árvore, acabará sem nunca dar um fruto;
E, homem há de morrer como viveu: sozinho!
Sem ar! sem luz! sem Deus! sem fé! sem pão!
sem lar!
3 368
3
Álvares de Azevedo
Adeus, Meus Sonhos!
Adeus, meus sonhos, eu pranteio e morro!
Não levo da existência uma saudade!
E tanta vida que meu peito enchia
Morreu na minha triste mocidade!
Misérrimo! Votei meus pobres dias
À sina doida de um amor sem fruto,
E minh’alma na treva agora dorme
Como um olhar que a morte envolve em luto.
Que me resta, meu Deus? Morra comigo
A estrela de meus cândidos amores,
Já não vejo no meu peito morto
Um punhado sequer de murchas flores!
Não levo da existência uma saudade!
E tanta vida que meu peito enchia
Morreu na minha triste mocidade!
Misérrimo! Votei meus pobres dias
À sina doida de um amor sem fruto,
E minh’alma na treva agora dorme
Como um olhar que a morte envolve em luto.
Que me resta, meu Deus? Morra comigo
A estrela de meus cândidos amores,
Já não vejo no meu peito morto
Um punhado sequer de murchas flores!
6 478
3
Thomas Hardy
IN TENEBRIS
Tempo de inverno corre:
mas a dor do separar
essa não pode voltar:
duas vezes não se morre.
Voam pétalas de flor;
mas por já acontecido
este partir revivido
não pode trazer-me dor.
Aves desmaiam de medo:
que força pode perder
no negro frio a correr
quem perdeu dela o segredo?
As folhas gelam no frio;
mas que amizades amantes
podem gelar como dantes
quem no Inverno sumiu?
Que nos firam temporais;
mas o amor já não tortura
um coração que não dura:
este Inverno é como os mais.
Da noite o negro é limiar,
mas a noite não aterra
quem sem dúvidas se cerra
e só espera sem esperar.
mas a dor do separar
essa não pode voltar:
duas vezes não se morre.
Voam pétalas de flor;
mas por já acontecido
este partir revivido
não pode trazer-me dor.
Aves desmaiam de medo:
que força pode perder
no negro frio a correr
quem perdeu dela o segredo?
As folhas gelam no frio;
mas que amizades amantes
podem gelar como dantes
quem no Inverno sumiu?
Que nos firam temporais;
mas o amor já não tortura
um coração que não dura:
este Inverno é como os mais.
Da noite o negro é limiar,
mas a noite não aterra
quem sem dúvidas se cerra
e só espera sem esperar.
2 008
3
Álvares de Azevedo
Oh ! Páginas da Vida que Eu Amava
Oh! Páginas da vida que eu amava,
Rompei-vos! nunca mais! tão desgraçado! ...
Ardei, lembranças doces do passado!
Quero rir-me de tudo que eu amava!
E que doudo que eu fui! como eu pensava
Em mãe, amor de irmã! em sossegado
Adormecer na vida acalentado
Pelos lábios que eu tímido beijava!
Embora — é meu destino. Em treva densa
Dentro do peito a existência finda
Pressinto a morte na fatal doença!
A mim a solidão da noite infinda!
Possa dormir o trovador sem crença
Perdoa minha mãe - eu te amo ainda!
Rompei-vos! nunca mais! tão desgraçado! ...
Ardei, lembranças doces do passado!
Quero rir-me de tudo que eu amava!
E que doudo que eu fui! como eu pensava
Em mãe, amor de irmã! em sossegado
Adormecer na vida acalentado
Pelos lábios que eu tímido beijava!
Embora — é meu destino. Em treva densa
Dentro do peito a existência finda
Pressinto a morte na fatal doença!
A mim a solidão da noite infinda!
Possa dormir o trovador sem crença
Perdoa minha mãe - eu te amo ainda!
3 704
3
Pierre de Ronsard
QUAL NO RAMO SE VÊ
Qual no ramo se vê, no mês de maio, a rosa,
Em bela floração e recente frescor,
Causar inveja ao céu, por sua viva cor,
Quando, ao pranto da aurora, estremece formosa;
Repousam Graça e Amor na pétala cheirosa,
Perfumando o jardim e as plantas ao redor;
Mas, vítima da chuva ou de excessivo ardor,
A se despetalar, fenece a flor mimosa.
Assim, quando floria a tua formosura,
Honrando a terra e o céu tua gentil figura,
Em cinzas te tornou a Parca rigorosa.
Como exéquias recebe o meu pranto e gemido,
Esta jarra de leite, este cesto florido:
O teu corpo há de ser, vivo ou mono, uma rosa.
Em bela floração e recente frescor,
Causar inveja ao céu, por sua viva cor,
Quando, ao pranto da aurora, estremece formosa;
Repousam Graça e Amor na pétala cheirosa,
Perfumando o jardim e as plantas ao redor;
Mas, vítima da chuva ou de excessivo ardor,
A se despetalar, fenece a flor mimosa.
Assim, quando floria a tua formosura,
Honrando a terra e o céu tua gentil figura,
Em cinzas te tornou a Parca rigorosa.
Como exéquias recebe o meu pranto e gemido,
Esta jarra de leite, este cesto florido:
O teu corpo há de ser, vivo ou mono, uma rosa.
1 233
3
William Shakespeare
Trecho de Ricardo II
Acto III, Cena 2
RICARDO
Falemos de sepulcros, vermes, epitáfios,
Sejamos pó, e com pluviosos olhos
Inscrevamos tristeza no seio da terra.
Do nosso testamento aqui tratemos.
E para quê? Que temos que testar,
Salvo o deposto corpo entregue ao túmulo?
Tudo que é nosso e a vida a Bolingbroke advém,
E que diremos nosso senão morte nossa
E esta pequena crosta de singela terra,
Que serve só para cobrir os ossos?
Ali, por amor de Deus, sentemo-nos no chão,
Contando histórias tristes da morte dos Reis:
Como têm sido alguns depostos; outros
Caíram em combate, alguns possessos
Pelos fantasmas que deposto haviam;
Outros, envenenados por esposas,
Enquanto outros, dormindo, foram mortos:
Assassinados todos. Pois dentro da Coroa
Que as têmperas mortais de um Rei circunda
Tem sua Corte a Morte, e lá está o Bobo
Zombando de seu Estado, e rindo-lhe da pompa,
Permitindo um suspiro, ou uma cena breve,
Que monarquize, o temam, mate com olhares,
Embebendo-o de estultas presunções,
Como se a carne que muralha a vida
Nos fosse inexpugnável bronze: oh, ilusão!
Quando ela vem por fim, e com um alfinete
Perfura os muros do Castelo... e adeus Rei.
Cobri-vos. Não troceis da carne e osso,
Com reverências solenes. Deitai fora
Respeito, as tradições, as etiquetas,
Porque me haveis julgado o que não sou:
Vivo de pão, qual um de vós. E sinto faltas,
Procuro amigos, sofro dores. Assim sujeito,
Corno podeis dizer-me que sou Rei?
(tradução
de Jorge de Sena)
RICARDO
Falemos de sepulcros, vermes, epitáfios,
Sejamos pó, e com pluviosos olhos
Inscrevamos tristeza no seio da terra.
Do nosso testamento aqui tratemos.
E para quê? Que temos que testar,
Salvo o deposto corpo entregue ao túmulo?
Tudo que é nosso e a vida a Bolingbroke advém,
E que diremos nosso senão morte nossa
E esta pequena crosta de singela terra,
Que serve só para cobrir os ossos?
Ali, por amor de Deus, sentemo-nos no chão,
Contando histórias tristes da morte dos Reis:
Como têm sido alguns depostos; outros
Caíram em combate, alguns possessos
Pelos fantasmas que deposto haviam;
Outros, envenenados por esposas,
Enquanto outros, dormindo, foram mortos:
Assassinados todos. Pois dentro da Coroa
Que as têmperas mortais de um Rei circunda
Tem sua Corte a Morte, e lá está o Bobo
Zombando de seu Estado, e rindo-lhe da pompa,
Permitindo um suspiro, ou uma cena breve,
Que monarquize, o temam, mate com olhares,
Embebendo-o de estultas presunções,
Como se a carne que muralha a vida
Nos fosse inexpugnável bronze: oh, ilusão!
Quando ela vem por fim, e com um alfinete
Perfura os muros do Castelo... e adeus Rei.
Cobri-vos. Não troceis da carne e osso,
Com reverências solenes. Deitai fora
Respeito, as tradições, as etiquetas,
Porque me haveis julgado o que não sou:
Vivo de pão, qual um de vós. E sinto faltas,
Procuro amigos, sofro dores. Assim sujeito,
Corno podeis dizer-me que sou Rei?
(tradução
de Jorge de Sena)
4 066
3
Alexandre O'Neill
VI
A que vens,solidão,com teu relógio
de ponteiros de visgo,de bater de feltro?
Ombro nenhum ao meu ombro encostado,
a que vens,ó camarada solidão?
Companheira,amiga,até amante,
até ausente,ó solidão,te amei,
como se ama o frio até o frio dar
a chama que tu dás,ó solidão!
A que vens,enfermeira? Não sabes que estou morto,
que se digo o meu sim ou o meu não
é só para que os outros me julguem mais um outro,
é só para que um morto não tire o sono aos outros?
A que vens ,solidão?Vai antes possuir
os que amam sem esperança e sem saber esperam,
dá-lhes o teu conforto,encosta-lhes ao ombro
o teu ombro nenhum,ó solidão!
in:Poemas com Endereço(1962)
de ponteiros de visgo,de bater de feltro?
Ombro nenhum ao meu ombro encostado,
a que vens,ó camarada solidão?
Companheira,amiga,até amante,
até ausente,ó solidão,te amei,
como se ama o frio até o frio dar
a chama que tu dás,ó solidão!
A que vens,enfermeira? Não sabes que estou morto,
que se digo o meu sim ou o meu não
é só para que os outros me julguem mais um outro,
é só para que um morto não tire o sono aos outros?
A que vens ,solidão?Vai antes possuir
os que amam sem esperança e sem saber esperam,
dá-lhes o teu conforto,encosta-lhes ao ombro
o teu ombro nenhum,ó solidão!
in:Poemas com Endereço(1962)
4 801
3
Cristóvão Falcão
Crisfal
(Fragmento)
Os tempos mudam ventura,
bem o sei pelo passar,
mas, por minha grã tristura,
nenhuns puderam mudar
a minha desaventura.
Não mudam tempos nem anos
ao triste a sua tristeza,
antes tenho por certeza
que o longo uso dos danos
se converte em natureza.
Coitado de mim, coitado,
pois o meu mal não se amansa
com choro nem com cuidado;
quem diz que chorar descansa
há de ter pouco chorado,
que quando as lágrimas são
por igual da causa delas
virá descanso por elas,
mas como descansarão
pois que são mais as querelas.
Contudo olhos de quem
não vive fazendo al
chorai mais que os de ninguém
que o que é para maior mal
tenho já pra maior bem.
Lágrimas manso e manso
prossigam em seu ofício,
que não façam benefício,
não servindo de descanso
serviram de sacrifício.
Minhas lágrimas cansadas,
sem descanso nem folgança,
a minha triste lembrança
vos tem tão aviventadas
como morta a esperança.
Correi de toda vontade
que esta vos não faltará,
mas isto como será?
pedi-la-ei à saudade,
e a saudade me dará.
Todos os contentamentos
da minha vida passaram,
e por fim não me ficaram
senão descontentamentos
que de mim se contentaram.
Destes pelo meu pecado,
inda que nunca pequei,
a quem amo e amarei
nunca desacompanhado
me vejo nem me verei.
Faz-me esta desconfiança
ver meu remédio tardar,
e já agora esperar
não ousa minha esperança
por me mais não magoar.
Se por isto desmereço
dê-se-me a culpa assim
e seja já com a fim
que há muito que me conheço
aborrecido de mim.
Os tempos mudam ventura,
bem o sei pelo passar,
mas, por minha grã tristura,
nenhuns puderam mudar
a minha desaventura.
Não mudam tempos nem anos
ao triste a sua tristeza,
antes tenho por certeza
que o longo uso dos danos
se converte em natureza.
Coitado de mim, coitado,
pois o meu mal não se amansa
com choro nem com cuidado;
quem diz que chorar descansa
há de ter pouco chorado,
que quando as lágrimas são
por igual da causa delas
virá descanso por elas,
mas como descansarão
pois que são mais as querelas.
Contudo olhos de quem
não vive fazendo al
chorai mais que os de ninguém
que o que é para maior mal
tenho já pra maior bem.
Lágrimas manso e manso
prossigam em seu ofício,
que não façam benefício,
não servindo de descanso
serviram de sacrifício.
Minhas lágrimas cansadas,
sem descanso nem folgança,
a minha triste lembrança
vos tem tão aviventadas
como morta a esperança.
Correi de toda vontade
que esta vos não faltará,
mas isto como será?
pedi-la-ei à saudade,
e a saudade me dará.
Todos os contentamentos
da minha vida passaram,
e por fim não me ficaram
senão descontentamentos
que de mim se contentaram.
Destes pelo meu pecado,
inda que nunca pequei,
a quem amo e amarei
nunca desacompanhado
me vejo nem me verei.
Faz-me esta desconfiança
ver meu remédio tardar,
e já agora esperar
não ousa minha esperança
por me mais não magoar.
Se por isto desmereço
dê-se-me a culpa assim
e seja já com a fim
que há muito que me conheço
aborrecido de mim.
2 350
3
Stéphane Mallarmé
Brise Marine
Brise Marine
La chair est triste, hélas! et jai lu tous les livres.
Fuir! là-bas fuir! Je sens que des oiseaux sont ivres
Dêtre parmi lécume inconnue et les cieux!
Rien, ni les vieux jardins reflétés par les yeux
Ne retiendra ce cœur qui dans la mer se trempe
O nuits! ni la clarté déserte de ma lampe
Sur le vide papier que la blancheur défend
Et ni la jeune femme allaitant son enfant.
Je partirai! Steamer balançant ta mâture,
Lève lancre pour une exotique nature!
Un Ennui, désolé par les cruels espoirs,
Croit encore à ladieu suprême des mouchoirs!
Et, peut-être, les mâts, invitant les orages
Sont-ils de ceux quun vent penche sur les naufrages
Perdus, sans mâts, sans mâts, ni fertiles îlots...
Mais, ô mon cœur, entends le chant des matelots!
La chair est triste, hélas! et jai lu tous les livres.
Fuir! là-bas fuir! Je sens que des oiseaux sont ivres
Dêtre parmi lécume inconnue et les cieux!
Rien, ni les vieux jardins reflétés par les yeux
Ne retiendra ce cœur qui dans la mer se trempe
O nuits! ni la clarté déserte de ma lampe
Sur le vide papier que la blancheur défend
Et ni la jeune femme allaitant son enfant.
Je partirai! Steamer balançant ta mâture,
Lève lancre pour une exotique nature!
Un Ennui, désolé par les cruels espoirs,
Croit encore à ladieu suprême des mouchoirs!
Et, peut-être, les mâts, invitant les orages
Sont-ils de ceux quun vent penche sur les naufrages
Perdus, sans mâts, sans mâts, ni fertiles îlots...
Mais, ô mon cœur, entends le chant des matelots!
3 354
3
Judas Isgorogota
Os que Vêm de Longe
Vocês não queiram mal aos que vêm de longe,
aos que vêm sem rumo certo, como eu vim;
as tempestades é que nos atiram
para as praias sem fim...
Os que vêm de longe, os que vêm famintos,
os que vêm rasgados de dar compaixão,
os olhos parados, os pés doloridos,
pisando saudades calcadas no chão...
Vocês nunca souberam o que é tempestade
na vida de um homem... e nem saberão!
É a seca na mata... é o mato rangendo,
é a terra tostando, virando zarcão...
É a gente morrendo na estrada vermelha
vendo trapos humanos lutando com o pó...
E as levas se arrastam penosas na estrada,
enchendo as estradas de angústia e de dó...
É a gente, sentindo tonturas na alma,
piedade divina dos céus implorar,
e ver que somente uma gota nos brota
dos olhos cansados de tanto chorar...
É o gado morrendo de fome e de sede,
morrendo e mugindo num doido clamor,
e a gente morrendo de sede, e sonhando...
— a gente tem mesmo de ser sonhador... —
sonhando com água, que ao menos o gado
liberte da angústia da sede e da dor...
E os trapos humanos se arrastam rezando,
caindo, chorando,
sofrendo e clamando por Nosso Senhor...
É a gente ter nalma esperanças e sonhos,
viver da ventura dos olhos de alguém,
um dia encontrar a palhoça deserta
e saber que, faminta, arrastando-se além,
aquela que amamos a leva maldita
levou-a também...
É a gente sofrendo de ver a desdita
sorrindo dos homens... Olhar para o céu,
fechar a palhoça e sair pela estrada,
sem rumo, sem nada, dos ventos ao léu...
E o céu lá em cima piscando de quente...
Lá longe a palhoça ficou, triste e só...
Um fiapo de nuvem vem vindo... vem vindo...
e a gente vai indo com os olhos na nuvem,
os pés escaldando na areia e no pó...
Depois, já se sabe... Depois é isso mesmo ...
a gente vem vindo, tal qual como eu vim,
sem Deus, sem destino, sem sorte, sem nada,
até dar à costa num mundo sem fim...
Vocês não queiram mal aos que vêm de longe,
rasgados, famintos de dar compaixão...
os olhos na terra ... os pés doloridos...
pisando saudades calcadas no chão ...
aos que vêm sem rumo certo, como eu vim;
as tempestades é que nos atiram
para as praias sem fim...
Os que vêm de longe, os que vêm famintos,
os que vêm rasgados de dar compaixão,
os olhos parados, os pés doloridos,
pisando saudades calcadas no chão...
Vocês nunca souberam o que é tempestade
na vida de um homem... e nem saberão!
É a seca na mata... é o mato rangendo,
é a terra tostando, virando zarcão...
É a gente morrendo na estrada vermelha
vendo trapos humanos lutando com o pó...
E as levas se arrastam penosas na estrada,
enchendo as estradas de angústia e de dó...
É a gente, sentindo tonturas na alma,
piedade divina dos céus implorar,
e ver que somente uma gota nos brota
dos olhos cansados de tanto chorar...
É o gado morrendo de fome e de sede,
morrendo e mugindo num doido clamor,
e a gente morrendo de sede, e sonhando...
— a gente tem mesmo de ser sonhador... —
sonhando com água, que ao menos o gado
liberte da angústia da sede e da dor...
E os trapos humanos se arrastam rezando,
caindo, chorando,
sofrendo e clamando por Nosso Senhor...
É a gente ter nalma esperanças e sonhos,
viver da ventura dos olhos de alguém,
um dia encontrar a palhoça deserta
e saber que, faminta, arrastando-se além,
aquela que amamos a leva maldita
levou-a também...
É a gente sofrendo de ver a desdita
sorrindo dos homens... Olhar para o céu,
fechar a palhoça e sair pela estrada,
sem rumo, sem nada, dos ventos ao léu...
E o céu lá em cima piscando de quente...
Lá longe a palhoça ficou, triste e só...
Um fiapo de nuvem vem vindo... vem vindo...
e a gente vai indo com os olhos na nuvem,
os pés escaldando na areia e no pó...
Depois, já se sabe... Depois é isso mesmo ...
a gente vem vindo, tal qual como eu vim,
sem Deus, sem destino, sem sorte, sem nada,
até dar à costa num mundo sem fim...
Vocês não queiram mal aos que vêm de longe,
rasgados, famintos de dar compaixão...
os olhos na terra ... os pés doloridos...
pisando saudades calcadas no chão ...
1 791
3
José Luiz Holzmeister
Envelhecer
Envelhecer! Dilema da existência,
transcendental mudança de uma vida!...
Entardecer de uma estação florida,
sonhos e anseios em deliqüescência.
De início — sol risonho... só subida,
mocidade vibrando em efervescência.
Cinqüenta anos depois... a decadência,
a velhice chegando, só descida...
Cruel ter do destino, como herança,
a morte das sonhadas ilusões
e o fenecer da última esperança.
É doloroso, em meio a sonhos ternos,
ver bem longe a alegria dos verões
e bem perto a mortalha dos invernos.
transcendental mudança de uma vida!...
Entardecer de uma estação florida,
sonhos e anseios em deliqüescência.
De início — sol risonho... só subida,
mocidade vibrando em efervescência.
Cinqüenta anos depois... a decadência,
a velhice chegando, só descida...
Cruel ter do destino, como herança,
a morte das sonhadas ilusões
e o fenecer da última esperança.
É doloroso, em meio a sonhos ternos,
ver bem longe a alegria dos verões
e bem perto a mortalha dos invernos.
577
3
Al Berto
eras novo ainda
mal sabia reconhecer os teus própios erros
e o uso violento que de noite eu fazia deles
esta cama de minerais acesos
escrevo para despertar a fera de sol pelo corpo
escorrem aves de cuspo para a adolescência da boca
e junto ao mar existe ainda aquele lugar perdido
onde a memória te imobilizou
enumero as casas abandonadas ao sangue dos répteis
surpreendo-te quando me surpreendes
pela janela espio a paisagem destruída
e o coração triste dos pássaros treme
quando escrevo mar
o mar todo entra pela janela
onde debruço a noite do rosto tocado...me despeço
e o uso violento que de noite eu fazia deles
esta cama de minerais acesos
escrevo para despertar a fera de sol pelo corpo
escorrem aves de cuspo para a adolescência da boca
e junto ao mar existe ainda aquele lugar perdido
onde a memória te imobilizou
enumero as casas abandonadas ao sangue dos répteis
surpreendo-te quando me surpreendes
pela janela espio a paisagem destruída
e o coração triste dos pássaros treme
quando escrevo mar
o mar todo entra pela janela
onde debruço a noite do rosto tocado...me despeço
7 290
3
Fernando Pessoa
Paira à tona de água
Paira à tona de água
Uma vibração,
Há uma vaga mágoa
No meu coração.
Não é porque a brisa
Ou o que quer que seja
Faça esta indecisa
Vibração que adeja,
Nem é porque eu sinta
Uma dor qualquer.
Minha alma é indistinta
Não sabe o que quer.
É uma dor serena,
Sofre porque vê.
Tenho tanta pena!
Soubesse eu de quê!...
14/03/1928
Uma vibração,
Há uma vaga mágoa
No meu coração.
Não é porque a brisa
Ou o que quer que seja
Faça esta indecisa
Vibração que adeja,
Nem é porque eu sinta
Uma dor qualquer.
Minha alma é indistinta
Não sabe o que quer.
É uma dor serena,
Sofre porque vê.
Tenho tanta pena!
Soubesse eu de quê!...
14/03/1928
5 593
3
Luís de Camões
No mundo quis o Tempo que se achasse
No mundo quis um tempo que se achasse
o bem que por acerto ou sorte vinha;
e, por experimentar que dita tinha,
quis que a Fortuna em mim se experimentasse.
Mas por que meu destino me mostrasse
que nem ter esperanças me convinha,
nunca nesta tão longa vida minha
cousa me deixou ver que desejasse.
Mudando andei costume, terra e estado,
por ver se se mudava a sorte dura;
a vida pus nas mãos de um leve lenho.
Mas (segundo o que o Céu me tem mostrado)
já sei que deste meu buscar ventura,
achado tenho já, que não a tenho.
o bem que por acerto ou sorte vinha;
e, por experimentar que dita tinha,
quis que a Fortuna em mim se experimentasse.
Mas por que meu destino me mostrasse
que nem ter esperanças me convinha,
nunca nesta tão longa vida minha
cousa me deixou ver que desejasse.
Mudando andei costume, terra e estado,
por ver se se mudava a sorte dura;
a vida pus nas mãos de um leve lenho.
Mas (segundo o que o Céu me tem mostrado)
já sei que deste meu buscar ventura,
achado tenho já, que não a tenho.
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3
Luís de Camões
Posto me tem Fortuna em tal estado
Posto me tem Fortuna em tal estado,
E tanto a seus pés me tem rendido!
Não tenho que perder já, de perdido;
Não tenho que mudar já, de mudado.
Todo o bem pera mim é acabado;
Daqui dou o viver já por vivido;
Que, aonde o mal é tão conhecido,
Também o viver mais será escusado,
Se me basta querer, a morte quero,
Que bem outra esperança não convém;
E curarei um mal com outro mal.
E, pois do bem tão pouco bem espero,
Já que o mal este só remédio tem,
Não me culpem em querer remédio tal.
E tanto a seus pés me tem rendido!
Não tenho que perder já, de perdido;
Não tenho que mudar já, de mudado.
Todo o bem pera mim é acabado;
Daqui dou o viver já por vivido;
Que, aonde o mal é tão conhecido,
Também o viver mais será escusado,
Se me basta querer, a morte quero,
Que bem outra esperança não convém;
E curarei um mal com outro mal.
E, pois do bem tão pouco bem espero,
Já que o mal este só remédio tem,
Não me culpem em querer remédio tal.
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3
Amélia Rodrigues
Saudade
Estou aqui
À sua espera
Como sempre, como antes,
Como amanhã...
Estou aqui,
Só,
Mas acompanhada
De tristeza, solidão,
Desesperança...
Estou aqui
E você não está...
Não tenho vida,
Falta-me ar,
Sinto-me perdida
Na lassitude dos meus
Pensamentos.
Estou aqui
E não me encontro,
Pois uma parte de mim
Dissolveu-se
Quando você partiu...
Estou aqui,
Sem alma,
Carente do seu amor...
De você!
Estou aqui
Entre quatro paredes
Perversas, solitárias
E frias...
Estou aqui
Com a sua lembrança,
Vivenciando a sua ausência
Que representa lágrimas
No meu coração ...
Estou aqui,
Chorando,
Onde antes sorri...
Estou aqui,
Sofrendo,
Onde ontem fui feliz!
Estou aqui...
(Ah, estou aqui!)
À sua espera
Como antes, como sempre,
Como amanhã...
Estou aqui
Na ânsia de vê-lo chegar
Cantado, alegre,
Revoltado
(ou mesmo apaixonado!)
E ouvi-lo dizer:
- "Estou aqui!"
À sua espera
Como sempre, como antes,
Como amanhã...
Estou aqui,
Só,
Mas acompanhada
De tristeza, solidão,
Desesperança...
Estou aqui
E você não está...
Não tenho vida,
Falta-me ar,
Sinto-me perdida
Na lassitude dos meus
Pensamentos.
Estou aqui
E não me encontro,
Pois uma parte de mim
Dissolveu-se
Quando você partiu...
Estou aqui,
Sem alma,
Carente do seu amor...
De você!
Estou aqui
Entre quatro paredes
Perversas, solitárias
E frias...
Estou aqui
Com a sua lembrança,
Vivenciando a sua ausência
Que representa lágrimas
No meu coração ...
Estou aqui,
Chorando,
Onde antes sorri...
Estou aqui,
Sofrendo,
Onde ontem fui feliz!
Estou aqui...
(Ah, estou aqui!)
À sua espera
Como antes, como sempre,
Como amanhã...
Estou aqui
Na ânsia de vê-lo chegar
Cantado, alegre,
Revoltado
(ou mesmo apaixonado!)
E ouvi-lo dizer:
- "Estou aqui!"
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3
Fernando Pessoa
Passa uma nuvem pelo sol
Passa uma nuvem pelo sol.
Passa uma pena por quem vê.
A alma é como um girassol:
Vira-se ao que não está ao pé.
Passou a nuvem; o sol volta.
A alegria girassolou.
Pendão latente de revolta,
Que hora maligna te enrolou?
14/08/1933
Passa uma pena por quem vê.
A alma é como um girassol:
Vira-se ao que não está ao pé.
Passou a nuvem; o sol volta.
A alegria girassolou.
Pendão latente de revolta,
Que hora maligna te enrolou?
14/08/1933
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3
Carlos de Oliveira
Sobre o lado esquerdo
De vez em quando a insónia vibra com a nitidez dos sinos, dos cristais.E então, das duas uma : partem -se ou não se partem as cordas tensas da sua harpa insuportável.
No segundo caso, o homem que não dorme pensa:"o melhor é voltar-me para o lado esquerdo e assim,deslocando todo o peso do sangue sobre a metade mais gasta do meu corpo,esmagar o coração."
de Sobre o Lado Esquerdo
No segundo caso, o homem que não dorme pensa:"o melhor é voltar-me para o lado esquerdo e assim,deslocando todo o peso do sangue sobre a metade mais gasta do meu corpo,esmagar o coração."
de Sobre o Lado Esquerdo
3 567
3
Fernando Pessoa
Nuvens sobre a floresta...
Nuvens sobre a floresta...
Sombra com sombra a mais...
Minha tristeza é esta –
A das coisas reais.
A outra, a que pertence
Aos sonhos que perdi,
Nesta hora não me vence,
Se a há, não a há aqui.
Mas esta, a do arvoredo
Que o céu sem luz invade,
Faz-me receio e medo...
Quem foi minha saudade?
21/08/1933
Sombra com sombra a mais...
Minha tristeza é esta –
A das coisas reais.
A outra, a que pertence
Aos sonhos que perdi,
Nesta hora não me vence,
Se a há, não a há aqui.
Mas esta, a do arvoredo
Que o céu sem luz invade,
Faz-me receio e medo...
Quem foi minha saudade?
21/08/1933
4 621
3
Fernando Pessoa
Pobre velha música!
Pobre velha música!
Não sei porque agrado,
Enche-se de lágrimas
Meu olhar parado.
Recordo outro ouvir-te.
Não sei se te ouvi
Nessa minha infância
Que me lembra em ti.
Com que ânsia tão raiva
Quero aquele outrora!
E eu era feliz? Não sei:
Fui-o outrora agora.
(Athena, nº 3, Dezembro de 1924)
Não sei porque agrado,
Enche-se de lágrimas
Meu olhar parado.
Recordo outro ouvir-te.
Não sei se te ouvi
Nessa minha infância
Que me lembra em ti.
Com que ânsia tão raiva
Quero aquele outrora!
E eu era feliz? Não sei:
Fui-o outrora agora.
(Athena, nº 3, Dezembro de 1924)
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3
Fernando Pessoa
Contemplo o lago mudo
Contemplo o lago mudo
Que uma brisa estremece.
Não sei se penso em tudo
Ou se tudo me esquece.
O lago nada me diz,
Não sinto a brisa mexê-lo.
Não sei se sou feliz
Nem se desejo sê-lo.
Trémulos vincos risonhos
Na água adormecida.
Por que fiz eu dos sonhos
A minha única vida?
04/08/1930
Que uma brisa estremece.
Não sei se penso em tudo
Ou se tudo me esquece.
O lago nada me diz,
Não sinto a brisa mexê-lo.
Não sei se sou feliz
Nem se desejo sê-lo.
Trémulos vincos risonhos
Na água adormecida.
Por que fiz eu dos sonhos
A minha única vida?
04/08/1930
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3
Mário de Sá-Carneiro
Éstatua Falsa
Só de oiro falso os meus olhos se douram;
Sou esfinge sem mistério no poente.
A tristeza das coisas que não foram
Na minh'alma desceu veladamente.
Na minha dor quebram-se espadas de ânsia,
Gomos de luz em treva se misturam.
As sombras que eu dimano não perduram,
Como ontem, para mim, hoje é distância.
Já não estremeço em face do segredo;
Nada me aloira já, nada me aterra:
A vida corre sobre mim em guerra,
E nem sequer um arrepio de medo!
Sou estrela ébria que perdeu os céus,
Sereia louca que deixou o mar;
Sou templo prestes a ruir sem deus,
Estátua falsa ainda erguida no ar...
Sou esfinge sem mistério no poente.
A tristeza das coisas que não foram
Na minh'alma desceu veladamente.
Na minha dor quebram-se espadas de ânsia,
Gomos de luz em treva se misturam.
As sombras que eu dimano não perduram,
Como ontem, para mim, hoje é distância.
Já não estremeço em face do segredo;
Nada me aloira já, nada me aterra:
A vida corre sobre mim em guerra,
E nem sequer um arrepio de medo!
Sou estrela ébria que perdeu os céus,
Sereia louca que deixou o mar;
Sou templo prestes a ruir sem deus,
Estátua falsa ainda erguida no ar...
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Maria Teresa Horta
Poema Antigo
O
homem que percorro
com as mãos
e a lua que concebo
na altitude
do tédio
Só
o oceano
penso paralelo - ventre
à praia intacta
das janelas brancas
com silêncio
ciclames-astros
entre
as vozes que calaram
para sempre
o verbo - bússola
com raiz - grito de relevo
O homem que percorro
com as mãos
a estátua que consinto
a lua que concebo.
homem que percorro
com as mãos
e a lua que concebo
na altitude
do tédio
Só
o oceano
penso paralelo - ventre
à praia intacta
das janelas brancas
com silêncio
ciclames-astros
entre
as vozes que calaram
para sempre
o verbo - bússola
com raiz - grito de relevo
O homem que percorro
com as mãos
a estátua que consinto
a lua que concebo.
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