Poemas neste tema
Viagens e Horizontes
Orides Fontela
Viagem
Viajar
mas não
para
viajar
mas sem
onde
sem rota sem ciclo sem círculo
sem finalidade possível.
Viajar
e nem sequer sonhar-se
esta viagem.
Publicado no livro Rosácea (1986).
In: FONTELA, Orides. Trevo, 1969/1988. Il. Mira Schendel. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma
mas não
para
viajar
mas sem
onde
sem rota sem ciclo sem círculo
sem finalidade possível.
Viajar
e nem sequer sonhar-se
esta viagem.
Publicado no livro Rosácea (1986).
In: FONTELA, Orides. Trevo, 1969/1988. Il. Mira Schendel. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma
1 979
Lindolf Bell
Paulicéia Desvairada 1972
Olhei as vitrinas da cidade.
Olhei através.
(Outra vez,
outra voz.)
Olhei através de mim
através do vidro,
olhei através da cidade
dentro de mim.
Olhei através da imagem
dentro do vidro
atravessada pelas vibrações
(vidrações)
de meus corações
atravessados pelos vidros
desta viagem precária,
defronte de mim de mim
dentro dos vidros
de pupilas claras
eu vim.
Olhei o inverso
dentro dos espelhos do improviso,
improverso.
O código móvel
da imóvel travessia
da cidade dentro de si
dentro de mim
se atravessando,
se atraverssando
na pupila no vidro
no papel a formiga
na papoula na nuvem,
o coração dentro fora de si
(sim e não)
e o silêncio
e o lenço das contradições
mais alto
e acima de todos os arranha-céus
— oh! esplêndida floreza
desta dura transversia.
(...)
Poema integrante da série Incorporação.
In: BELL, Lindolf. Incorporação: doze anos de poesia, 1962/1973. São Paulo: Quíron, 1974. (Sélesis, 3)
Olhei através.
(Outra vez,
outra voz.)
Olhei através de mim
através do vidro,
olhei através da cidade
dentro de mim.
Olhei através da imagem
dentro do vidro
atravessada pelas vibrações
(vidrações)
de meus corações
atravessados pelos vidros
desta viagem precária,
defronte de mim de mim
dentro dos vidros
de pupilas claras
eu vim.
Olhei o inverso
dentro dos espelhos do improviso,
improverso.
O código móvel
da imóvel travessia
da cidade dentro de si
dentro de mim
se atravessando,
se atraverssando
na pupila no vidro
no papel a formiga
na papoula na nuvem,
o coração dentro fora de si
(sim e não)
e o silêncio
e o lenço das contradições
mais alto
e acima de todos os arranha-céus
— oh! esplêndida floreza
desta dura transversia.
(...)
Poema integrante da série Incorporação.
In: BELL, Lindolf. Incorporação: doze anos de poesia, 1962/1973. São Paulo: Quíron, 1974. (Sélesis, 3)
1 983
Ribeiro Couto
Santos
Sobre a cidade a tarde cai de manso.
Começam a acender-se luzes mortiças
Nos longos mastros dos transatlânticos ancorados.
Como é longo o cais envolvendo a cidade inteira
Com os chatos armazéns e os guindastes em fila!
Como é longo o cais junto às águas oleosas!
Presos à amurada baloiçam botes vazios.
Vêm conversas confusas de marinheiros
Dentre vagões atulhados de carvão de pedra.
Nossa Senhora do Monte Serrat protege o comércio.
A igrejinha branca lá está, no alto do morro,
Abençoando a fadiga dos homens suarentos.
Junto a estas águas oleosas nasci.
Nasci para sonhar o bem difícil das viagens,
O encanto triste dos amanhãs do exílio.
O apito imenso das sereias, nas partidas,
Foi a música maravilhosa dos meus ouvidos de criança.
Ó transatlânticos com bandeiras enfeitadas,
Não é verdade que viestes para levar-me?
Publicado no livro Um Homem na Multidão (1926).
In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.13
Começam a acender-se luzes mortiças
Nos longos mastros dos transatlânticos ancorados.
Como é longo o cais envolvendo a cidade inteira
Com os chatos armazéns e os guindastes em fila!
Como é longo o cais junto às águas oleosas!
Presos à amurada baloiçam botes vazios.
Vêm conversas confusas de marinheiros
Dentre vagões atulhados de carvão de pedra.
Nossa Senhora do Monte Serrat protege o comércio.
A igrejinha branca lá está, no alto do morro,
Abençoando a fadiga dos homens suarentos.
Junto a estas águas oleosas nasci.
Nasci para sonhar o bem difícil das viagens,
O encanto triste dos amanhãs do exílio.
O apito imenso das sereias, nas partidas,
Foi a música maravilhosa dos meus ouvidos de criança.
Ó transatlânticos com bandeiras enfeitadas,
Não é verdade que viestes para levar-me?
Publicado no livro Um Homem na Multidão (1926).
In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.13
1 363
Sérgio Milliet
Expressionismo
Ônibus bêbedos tropeçam nas calçadas
Clichy-Odéon
O Sena sujo acaricia as pontes cansadas
Oito horas e ainda não é noite
Os barcos enfileirados
escorregam lesmamente
Atravancamentos
Assovios do pliceman a cavalo
Posso atravessar
A Torre Eiffel tem tanta pena do obelisco!
O boi e o sapo fábula moderna
Sexo conquistador
O mundo abre os joelhos
Meu Pantheon tão negro no meio
das casas debruçadas e curiosas
As janelas são olhos que se acendem um depois do outro
e daqui há duas horas
verei a Cidade-Luz!
Blaise Cendrars - Jean Cocteau - Vildrac - Appollinaire
Quartier Latin tão querido dos vagabundos
Lentamente subo para Montmartre
como alguém que volta para casa
com muito spleen
Pigalle cabarés
Morand não escreveu a noite de Montmartre
Lapin Agile
Casas baixas
Nostalgia do meu sol
Bonés
O coração da manhã falava em crimes bizarros
Mas eu não temo roubos
Debruçado sobre um balcão duvidoso
bebes conhaque
Meus amigos querem crônicas!
Hotel Meublé
Maryland
E um pouco do meu país
alastra-se pela prisão pequena...
Publicado no livro Poemas Análogos (1927). Poema integrante da série Poemas Análogos.
In: MILLIET, Sérgio. Poesias. Porto Alegre: Livr. do Globo, 1946. p.51-52. (Autores brasileiros, 19
Clichy-Odéon
O Sena sujo acaricia as pontes cansadas
Oito horas e ainda não é noite
Os barcos enfileirados
escorregam lesmamente
Atravancamentos
Assovios do pliceman a cavalo
Posso atravessar
A Torre Eiffel tem tanta pena do obelisco!
O boi e o sapo fábula moderna
Sexo conquistador
O mundo abre os joelhos
Meu Pantheon tão negro no meio
das casas debruçadas e curiosas
As janelas são olhos que se acendem um depois do outro
e daqui há duas horas
verei a Cidade-Luz!
Blaise Cendrars - Jean Cocteau - Vildrac - Appollinaire
Quartier Latin tão querido dos vagabundos
Lentamente subo para Montmartre
como alguém que volta para casa
com muito spleen
Pigalle cabarés
Morand não escreveu a noite de Montmartre
Lapin Agile
Casas baixas
Nostalgia do meu sol
Bonés
O coração da manhã falava em crimes bizarros
Mas eu não temo roubos
Debruçado sobre um balcão duvidoso
bebes conhaque
Meus amigos querem crônicas!
Hotel Meublé
Maryland
E um pouco do meu país
alastra-se pela prisão pequena...
Publicado no livro Poemas Análogos (1927). Poema integrante da série Poemas Análogos.
In: MILLIET, Sérgio. Poesias. Porto Alegre: Livr. do Globo, 1946. p.51-52. (Autores brasileiros, 19
1 337
Alcides Villaça
Rumo Oeste
O rádio no carro canta pelas cidades.
Já sei onde está a melhor garapa
de Araras, o melhor algodão em Leme.
Em Pirassununga o hábito do Angelus
ainda veste de santa qualquer tarde.
O locutor e seu melhor emplastro
para curar no peito aquela velha aflição.
Todas as rádios abrem para o mundo
o coração do largo e um recado de Ester:
esta canção vai para W.J.
que ainda não esqueci.
O céu de todas as rádios
se estende para a capital: o que se dança
em New York direto para São Simão.
Para você, Lucinha, mexer o que Deus lhe deu.
A velha teia das cidades
enleia agora as estrelas.
Ao som da sétima badalada
do coração da Matriz
desligue o rádio! e respire
de passagem tudo o que fica:
são ondas soltas no ar.
In VILLAÇA, Alcides. Viagem de Trem. Il. Alberto A. Martins. São Paulo: Duas Cidades, 1988 (Claro enigma). Poema integrante da série No Desvio
Já sei onde está a melhor garapa
de Araras, o melhor algodão em Leme.
Em Pirassununga o hábito do Angelus
ainda veste de santa qualquer tarde.
O locutor e seu melhor emplastro
para curar no peito aquela velha aflição.
Todas as rádios abrem para o mundo
o coração do largo e um recado de Ester:
esta canção vai para W.J.
que ainda não esqueci.
O céu de todas as rádios
se estende para a capital: o que se dança
em New York direto para São Simão.
Para você, Lucinha, mexer o que Deus lhe deu.
A velha teia das cidades
enleia agora as estrelas.
Ao som da sétima badalada
do coração da Matriz
desligue o rádio! e respire
de passagem tudo o que fica:
são ondas soltas no ar.
In VILLAÇA, Alcides. Viagem de Trem. Il. Alberto A. Martins. São Paulo: Duas Cidades, 1988 (Claro enigma). Poema integrante da série No Desvio
1 392
Joaquim Cardozo
Aves de Rapina
Há muitos anos que os caminhos se arrastavam
Subindo para as montanhas.
Percorriam as florestas perseguindo a distância,
Lentos e longos deslizavam nas planícies.
Passaram chuvas, passaram ventos,
Passaram sombras aladas...
Um dia os aviões surgiram e libertaram a distância,
Os aviões desceram e levaram os caminhos.
Publicado no livro Poemas (1947).
In: CARDOZO, Joaquim. Poesias completas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p.1
Subindo para as montanhas.
Percorriam as florestas perseguindo a distância,
Lentos e longos deslizavam nas planícies.
Passaram chuvas, passaram ventos,
Passaram sombras aladas...
Um dia os aviões surgiram e libertaram a distância,
Os aviões desceram e levaram os caminhos.
Publicado no livro Poemas (1947).
In: CARDOZO, Joaquim. Poesias completas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p.1
2 943
Carlos Felipe Moisés
Mário de Andrade em San Francisco
para Roberto Piva & Cláudio Willer
Dez horas da noite.
Percorro os meandros do Chinatown em San Francisco
e entre becos de névoa e olhares aflitos
é a ti que procuro,
São Paulo, comoção da minha vida,
na voz de Mário,
teu poeta
subindo e descendo as ladeiras da angústia
de uma cidade que anseia pelo mar.
Dez horas da noite.
Meu pés,
que já pisaram as ruínas de Yucatán
e a Medina de Marraquech
o cais de Amsterdã
e o deserto de Alcácer-Quebir,
chegam cansados à Union Square no coração de San Francisco
e este chão morno coberto de pombos me acolhe
como se eu pisasse a Rua Lopes Chaves em noite de crimes.
Dez horas da noite.
A culpa do insofrido
onde está?
Ali, Mário, põe a máscara!
O Rei de Tule jogou a taça ao mar,
vendaval a levou — e hoje,
troféu cravado na torre mais alta da Golden Gate
banhada em luar
ela anseia pelo Oriente onde, dizem, o sol reside.
Dez horas da noite.
Vem, Mário, vou mostrar-te San Francisco,
cidade esculpida em bruma a oriente do Oriente onde a
Primavera existe e se ergue do mar todo ano ofertando
presságios e desassossego,
ladeira abaixo
ladeira acima.
Aqui os corações são arrastados pelos bondes sapateando nos
trilhos como o nosso dlem-dlem Santana! ei-ô! rumo à
Voluntários da Pátria ou às madrugadas arrepiadas de
frio do Largo de São Bento.
(...)
In: MOISÉS, Carlos Felipe. Subsolo. São Paulo: Massao Ohno, 1989
Dez horas da noite.
Percorro os meandros do Chinatown em San Francisco
e entre becos de névoa e olhares aflitos
é a ti que procuro,
São Paulo, comoção da minha vida,
na voz de Mário,
teu poeta
subindo e descendo as ladeiras da angústia
de uma cidade que anseia pelo mar.
Dez horas da noite.
Meu pés,
que já pisaram as ruínas de Yucatán
e a Medina de Marraquech
o cais de Amsterdã
e o deserto de Alcácer-Quebir,
chegam cansados à Union Square no coração de San Francisco
e este chão morno coberto de pombos me acolhe
como se eu pisasse a Rua Lopes Chaves em noite de crimes.
Dez horas da noite.
A culpa do insofrido
onde está?
Ali, Mário, põe a máscara!
O Rei de Tule jogou a taça ao mar,
vendaval a levou — e hoje,
troféu cravado na torre mais alta da Golden Gate
banhada em luar
ela anseia pelo Oriente onde, dizem, o sol reside.
Dez horas da noite.
Vem, Mário, vou mostrar-te San Francisco,
cidade esculpida em bruma a oriente do Oriente onde a
Primavera existe e se ergue do mar todo ano ofertando
presságios e desassossego,
ladeira abaixo
ladeira acima.
Aqui os corações são arrastados pelos bondes sapateando nos
trilhos como o nosso dlem-dlem Santana! ei-ô! rumo à
Voluntários da Pátria ou às madrugadas arrepiadas de
frio do Largo de São Bento.
(...)
In: MOISÉS, Carlos Felipe. Subsolo. São Paulo: Massao Ohno, 1989
940
Antonio Fernando De Franceschi
Capitão Blood
no assalto
em que me lanço
temeroso
ancas acima
desato ao vento
dorso e cabelos
mas teus velames
travo firme
sustenidos
em meu medo:
a que porto
afinal
me destina
esta viagem?
em que ilha
me socorro
se o mar
me der vertigem?
In: DE FRANCESCHI, Antonio Fernando. Caminho das águas: poemas. São Paulo: Brasiliense, 1987. Poema integrante da série Em Campo Aberto
em que me lanço
temeroso
ancas acima
desato ao vento
dorso e cabelos
mas teus velames
travo firme
sustenidos
em meu medo:
a que porto
afinal
me destina
esta viagem?
em que ilha
me socorro
se o mar
me der vertigem?
In: DE FRANCESCHI, Antonio Fernando. Caminho das águas: poemas. São Paulo: Brasiliense, 1987. Poema integrante da série Em Campo Aberto
1 100
Ribeiro Couto
VII [E os trens que vêm de Bauru
E os trens que vêm de Bauru
Trazem cheia a segunda classe,
Com catingas de porão de navio,
Com choros de crianças embrulhadas em grossas lãs
européias,
Com caras rubras queimadas de sóis estrangeiros,
Famílias salubres e miseráveis
Que o Brasil chamava, miragem de ultramar.
Nesse amontôo de povo mal dormido
— Cabeças com lenços de cores, boinas de veludo negro —,
Nesses corpos fétidos que os beliches balançaram
Na travessia do vapor inglês,
Há uma poesia profunda,
Há uma poesia violenta,
Poesia das plebes agrícolas da Europa,
Poesia de raças antigas e obstinadas
Que qualquer coisa para este lado do Atlântico atrai;
Poesia da sorte desconhecida sobre o mar,
Poesia do porto de Santos,
Poesia da São Paulo Railway Company,
Poesia da Capital entrevista na bruma,
Poesia da imigração.
Publicado no livro Noroeste e Outros Poemas do Brasil (1933). Poema integrante da série Noroeste.
In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.24
Trazem cheia a segunda classe,
Com catingas de porão de navio,
Com choros de crianças embrulhadas em grossas lãs
européias,
Com caras rubras queimadas de sóis estrangeiros,
Famílias salubres e miseráveis
Que o Brasil chamava, miragem de ultramar.
Nesse amontôo de povo mal dormido
— Cabeças com lenços de cores, boinas de veludo negro —,
Nesses corpos fétidos que os beliches balançaram
Na travessia do vapor inglês,
Há uma poesia profunda,
Há uma poesia violenta,
Poesia das plebes agrícolas da Europa,
Poesia de raças antigas e obstinadas
Que qualquer coisa para este lado do Atlântico atrai;
Poesia da sorte desconhecida sobre o mar,
Poesia do porto de Santos,
Poesia da São Paulo Railway Company,
Poesia da Capital entrevista na bruma,
Poesia da imigração.
Publicado no livro Noroeste e Outros Poemas do Brasil (1933). Poema integrante da série Noroeste.
In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.24
1 258
Gregório de Matos
Novas do Mundo
França está mui doente das ilhargas,
Inglaterra tem dores de cabeça,
Purga-se Holanda, e temo lhe aconteça
Ficar debilitada com descargas.
Alemanha lhe aplica ervas amargas,
Botões de fogo, com que convaleça.
Espanha não lhe dá, que este mal cresça.
Portugal tem saúde e forças largas.
Morre Constantinopla, está ungida.
Veneza engorda, e toma forças dobres,
Roma está bem, e toda a Igreja boa.
Europa anda de humores mal regida.
Na América arribaram muitos pobres.
Estas as novas são, que há de Lisboa.
In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.
NOTA: Botão de fogo: instrumento cirúrgico com um botão de aço que se aquece para cauteriza
Inglaterra tem dores de cabeça,
Purga-se Holanda, e temo lhe aconteça
Ficar debilitada com descargas.
Alemanha lhe aplica ervas amargas,
Botões de fogo, com que convaleça.
Espanha não lhe dá, que este mal cresça.
Portugal tem saúde e forças largas.
Morre Constantinopla, está ungida.
Veneza engorda, e toma forças dobres,
Roma está bem, e toda a Igreja boa.
Europa anda de humores mal regida.
Na América arribaram muitos pobres.
Estas as novas são, que há de Lisboa.
In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.
NOTA: Botão de fogo: instrumento cirúrgico com um botão de aço que se aquece para cauteriza
1 805
Edimilson de Almeida Pereira
Ouvido
O viajante recebe da cobra
um amuleto.
Aprende o riso dos mortos,
das pedras ouve a música.
Roubado em seu segredo
o viajante desaparece.
A cobra muda de veste,
o homem perde o corpo.
Publicado no livro Árvore dos arturos & Outros poemas (1988). Poema integrante da série Contos Africanos: Reinvenção de Imagens.
In: PEREIRA, Edimilson de Almeida. Corpo vivido: reunião poética. Juiz de Fora: Ed. D'Lira; Belo Horizonte: Mazza Ed., 1992. p.193
NOTA: Título original do poema: "O Ouvido. Conto de Angola
um amuleto.
Aprende o riso dos mortos,
das pedras ouve a música.
Roubado em seu segredo
o viajante desaparece.
A cobra muda de veste,
o homem perde o corpo.
Publicado no livro Árvore dos arturos & Outros poemas (1988). Poema integrante da série Contos Africanos: Reinvenção de Imagens.
In: PEREIRA, Edimilson de Almeida. Corpo vivido: reunião poética. Juiz de Fora: Ed. D'Lira; Belo Horizonte: Mazza Ed., 1992. p.193
NOTA: Título original do poema: "O Ouvido. Conto de Angola
1 230
Domingos Carvalho da Silva
O Pastor de Hienas
Madrugada madrugada
fugirei de madrugada
com um sol em cada nuvem
e uma lua em cada estrada.
Levarei nas mãos a grade
da cela em que encerrei.
Fugirei de madrugada
contigo ou outra qualquer
pra violar os caminhos
que pelo mundo se perdem.
Fugirei de madrugada
entre embarcações do porto:
os pulsos cheios de sangue,
veias rotas pelo corpo.
Fugirei do teu abraço.
Fugirei do teu castigo.
Abraçarei as hienas.
Queimarei medas de trigo.
Serei fantasma nos campos.
Morto nas encruzilhadas.
Só os corvos hão de encontrar
o meu corpo, que abraçavas...
Fugirei de madrugada
como um ciclone inclemente,
beijando o ventre das águas,
como beijava o teu ventre.
Madrugada madrugada
Esponja que apaga estrelas.
Fugirei de madrugada
estilhaçando as algemas.
Irei como um incendiário
com o olhar em labaredas
e a mão erguida agitando
o facho de teus cabelos.
Publicado no livro Girassol de outono: poemas, 1949/1951 (1952).
In: SILVA, Domingos Carvalho da. Múltipla escolha. Introd. Diana Bernardes. Rio de Janeiro: J. Olympio; Brasília: INL, 198
fugirei de madrugada
com um sol em cada nuvem
e uma lua em cada estrada.
Levarei nas mãos a grade
da cela em que encerrei.
Fugirei de madrugada
contigo ou outra qualquer
pra violar os caminhos
que pelo mundo se perdem.
Fugirei de madrugada
entre embarcações do porto:
os pulsos cheios de sangue,
veias rotas pelo corpo.
Fugirei do teu abraço.
Fugirei do teu castigo.
Abraçarei as hienas.
Queimarei medas de trigo.
Serei fantasma nos campos.
Morto nas encruzilhadas.
Só os corvos hão de encontrar
o meu corpo, que abraçavas...
Fugirei de madrugada
como um ciclone inclemente,
beijando o ventre das águas,
como beijava o teu ventre.
Madrugada madrugada
Esponja que apaga estrelas.
Fugirei de madrugada
estilhaçando as algemas.
Irei como um incendiário
com o olhar em labaredas
e a mão erguida agitando
o facho de teus cabelos.
Publicado no livro Girassol de outono: poemas, 1949/1951 (1952).
In: SILVA, Domingos Carvalho da. Múltipla escolha. Introd. Diana Bernardes. Rio de Janeiro: J. Olympio; Brasília: INL, 198
1 198
Maria Helena Nery Garcez
Gorjeios de Cá e de Lá
Tomemos uma bica, pá,
ou preferes um galão?
Depois, vamos ter à paragem,
façamos a bicha do autocarro,
obliteremos os módulos
que eles pagarão a portagem.
Isto está mesmo muito giro.
Leiamos O Morro dos Vendavais
assentados sobre o relvado
ou observemos os peões
que estão a refilar.
Será que estou mesmo na minha pátria, ó Soares?
In: GARCEZ, Maria Helena Nery. Telhado de vidro. São Paulo: J. Scortecci, 1988.
NOTA: O título parodia os versos "As aves, que aqui gorjeiam,/Não gorjeiam como lá.", da "Canção do Exílio", do livro PRIMEIROS CANTOS (1846), de Gonçalves Dia
ou preferes um galão?
Depois, vamos ter à paragem,
façamos a bicha do autocarro,
obliteremos os módulos
que eles pagarão a portagem.
Isto está mesmo muito giro.
Leiamos O Morro dos Vendavais
assentados sobre o relvado
ou observemos os peões
que estão a refilar.
Será que estou mesmo na minha pátria, ó Soares?
In: GARCEZ, Maria Helena Nery. Telhado de vidro. São Paulo: J. Scortecci, 1988.
NOTA: O título parodia os versos "As aves, que aqui gorjeiam,/Não gorjeiam como lá.", da "Canção do Exílio", do livro PRIMEIROS CANTOS (1846), de Gonçalves Dia
895
Mário Faustino
Cino
Campagna italiana 1309, em plena estrada
Arre! já celebrei mulheres em três cidades,
Mas é tudo a mesma coisa;
E cantarei do sol.
Lábios, palavras, e lhes armamos armadilhas,
Sonhos, palavras, e são como jóias,
Estranhos bruxedos de velha divindade,
Corvos, noites, carícia:
E eis que não o são;
Já se tornaram almas de canção.
Olhos, sonhos, lábios, e a noite vai-se.
Em plena estrada, uma vez mais,
Elas não são.
Esquecidas, em suas torres, de nossa toada,
Uma vez por causa do vento, da revoada
Sonham rumo de nós e
Suspirando dizem, "Ah, se Cino,
Apaixonado Cino, o de olhos enrugados,
Alegre Cino, de riso rápido.
Cino ousado, Cino zombeteiro,
Frágil Cino, o mais forte de seu clã bandoleiro
Que bate as velhas vias sob o sol,
Se Cino do alaúde aqui voltasse!"
Uma vez, duas vezes, um ano —
E vagamente assim se exprimem:
"Cino?" "Oh, eh, Cino Polnesi
O cantor, não é dele que se trata?"
"Ah, sim, passou uma vez por aqui,
Sujeito atrevido, mas...
"São todos a mesma coisa, esses vagabundos
Peste! As canções eram dele?
Ou cantava as dos outros?
Mas e o senhor, Meu Senhor, como vai sua cidade?"
Mas e o senhor, "Meu Senhor", bá! por piedade!
E todos os que eu conhecia estavam fora, Meu Senhor, e tu
Eras Cino SemTerra, tal como eu sou,
O Sinistro.
Já celebrei mulheres em três cidades.
Mas é tudo a mesma coisa.
E cantarei o sol.
... eh?... a maioria delas tinha olhos cinzentos,
Mas é tudo a mesma coisa, e cantarei o sol.
'Pollo Phoibeu, panela velha, tu,
Glória da égide do Zeus do dia,
Escudo d'azul aço, o céu lá em cima
Tem por chefe tua rútila alegria!
'Pollo Phoibeu, ao longo do caminho,
Faze de teu riso nossa chanson;
Que teu fulgor ofusque nossa dor,
E que o choro da chuva tombe sem nós!
Buscando sempre o rastro recente
Rumo aos jardins do sol...
...................................
Já celebrei mulheres em três cidades
Mas é tudo a mesma coisa.
E cantarei das aves alvas
Nas águas azuis do céu,
As nuvens, o borrifo de seu mar.
Imagem - 00950001
Poema integrante da série Fontes e Correntes da Poesia Contemporânea: 13. Ezra Pound.
In: FAUSTINO, Mário. Poesia-experiência. Introd. Benedito Nunes. São Paulo: Perspectiva, 1977. (Debates, 136).
NOTA: Tradução de poema de Ezra Poun
Arre! já celebrei mulheres em três cidades,
Mas é tudo a mesma coisa;
E cantarei do sol.
Lábios, palavras, e lhes armamos armadilhas,
Sonhos, palavras, e são como jóias,
Estranhos bruxedos de velha divindade,
Corvos, noites, carícia:
E eis que não o são;
Já se tornaram almas de canção.
Olhos, sonhos, lábios, e a noite vai-se.
Em plena estrada, uma vez mais,
Elas não são.
Esquecidas, em suas torres, de nossa toada,
Uma vez por causa do vento, da revoada
Sonham rumo de nós e
Suspirando dizem, "Ah, se Cino,
Apaixonado Cino, o de olhos enrugados,
Alegre Cino, de riso rápido.
Cino ousado, Cino zombeteiro,
Frágil Cino, o mais forte de seu clã bandoleiro
Que bate as velhas vias sob o sol,
Se Cino do alaúde aqui voltasse!"
Uma vez, duas vezes, um ano —
E vagamente assim se exprimem:
"Cino?" "Oh, eh, Cino Polnesi
O cantor, não é dele que se trata?"
"Ah, sim, passou uma vez por aqui,
Sujeito atrevido, mas...
"São todos a mesma coisa, esses vagabundos
Peste! As canções eram dele?
Ou cantava as dos outros?
Mas e o senhor, Meu Senhor, como vai sua cidade?"
Mas e o senhor, "Meu Senhor", bá! por piedade!
E todos os que eu conhecia estavam fora, Meu Senhor, e tu
Eras Cino SemTerra, tal como eu sou,
O Sinistro.
Já celebrei mulheres em três cidades.
Mas é tudo a mesma coisa.
E cantarei o sol.
... eh?... a maioria delas tinha olhos cinzentos,
Mas é tudo a mesma coisa, e cantarei o sol.
'Pollo Phoibeu, panela velha, tu,
Glória da égide do Zeus do dia,
Escudo d'azul aço, o céu lá em cima
Tem por chefe tua rútila alegria!
'Pollo Phoibeu, ao longo do caminho,
Faze de teu riso nossa chanson;
Que teu fulgor ofusque nossa dor,
E que o choro da chuva tombe sem nós!
Buscando sempre o rastro recente
Rumo aos jardins do sol...
...................................
Já celebrei mulheres em três cidades
Mas é tudo a mesma coisa.
E cantarei das aves alvas
Nas águas azuis do céu,
As nuvens, o borrifo de seu mar.
Imagem - 00950001
Poema integrante da série Fontes e Correntes da Poesia Contemporânea: 13. Ezra Pound.
In: FAUSTINO, Mário. Poesia-experiência. Introd. Benedito Nunes. São Paulo: Perspectiva, 1977. (Debates, 136).
NOTA: Tradução de poema de Ezra Poun
1 338
Joaquim Cardozo
As Janelas, as Escadas, as Pontes e as Estradas
II
(As estradas e as pontes)
As estradas não param. Para longe, que vão,
Vão, sem se mover/cansar. Permanentemente vão;
Quem quiser vai com elas, usa tudo o que é delas
Porque são boas, tão boas, tão amigas
Que ajudam a quem quiser correr,
A quem quiser simplesmente andar,
Ou, tropegamente, caminhar apenas...
Vão para o fim do olhar, em todas as direções desse fim;
— Rugosas, em rodeiras de lama, filmando um movimento
— Lisas, escorrendo ao seu leito, líquido-pastoso
Contêm as rodas, os pés acertam, amparam, as muletas.
Dirigem
A velocidade-serpente, de anéis sucessivos,
Sempre desiguais, serpente de que amortecem o veneno...
As estradas saltam sobre os rios e os vales profundos
Em seus saltos de pontes, com distensões de músculos
Estáticos; imobilizam a vertigem dos abismos.
Pontes que são saltos de vara
Sobre os profundos paralisados;
E o rumor que por elas vai
Não consegue despertá-las do equilíbrio:
Seu sono-silêncio, seu sono-limite.
Os rios, embaixo caminham: estradas moventes
Com agitações de animal, às vezes mansas
às vezes selvagens
Caminham, escadas rolantes sempre descendo;
Colubreiam, coleiam...
As pontes são partes da estrada, são apertos de mãos
Que transportam de um lado para outro lado
— São São Cristóvão de cimento e ferro.
Mãos de duros nervos, de veias metálicas
Onde corre um sangue de quase eterna
Origem; são pulsos que vibram
No mesmo ritmo das estradas
No mesmo ritmo dos que passam
— Talvez, como eu, nunca para mais passar...
As estradas são cordas de um instrumento
Vibrando à passagem dos motores,
Deixando no ar nova música
Onde há ritmos de horizontes
margeantes
Entre os sons das árvores marginantes.
Os rios às vezes se revoltam
Reúnem todas as suas águas
E investem sobre as pontes-algemas
Contra as estradas — muralhas de cárcere —
E se espalham felizes na planície
Em inundações gloriosas.
Imagem - 00100003
In: CARDOZO, Joaquim. Poesias completas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p.181-182. Poema integrante da série Mundos Paralelos.
NOTA: Poema composto de 2 parte
(As estradas e as pontes)
As estradas não param. Para longe, que vão,
Vão, sem se mover/cansar. Permanentemente vão;
Quem quiser vai com elas, usa tudo o que é delas
Porque são boas, tão boas, tão amigas
Que ajudam a quem quiser correr,
A quem quiser simplesmente andar,
Ou, tropegamente, caminhar apenas...
Vão para o fim do olhar, em todas as direções desse fim;
— Rugosas, em rodeiras de lama, filmando um movimento
— Lisas, escorrendo ao seu leito, líquido-pastoso
Contêm as rodas, os pés acertam, amparam, as muletas.
Dirigem
A velocidade-serpente, de anéis sucessivos,
Sempre desiguais, serpente de que amortecem o veneno...
As estradas saltam sobre os rios e os vales profundos
Em seus saltos de pontes, com distensões de músculos
Estáticos; imobilizam a vertigem dos abismos.
Pontes que são saltos de vara
Sobre os profundos paralisados;
E o rumor que por elas vai
Não consegue despertá-las do equilíbrio:
Seu sono-silêncio, seu sono-limite.
Os rios, embaixo caminham: estradas moventes
Com agitações de animal, às vezes mansas
às vezes selvagens
Caminham, escadas rolantes sempre descendo;
Colubreiam, coleiam...
As pontes são partes da estrada, são apertos de mãos
Que transportam de um lado para outro lado
— São São Cristóvão de cimento e ferro.
Mãos de duros nervos, de veias metálicas
Onde corre um sangue de quase eterna
Origem; são pulsos que vibram
No mesmo ritmo das estradas
No mesmo ritmo dos que passam
— Talvez, como eu, nunca para mais passar...
As estradas são cordas de um instrumento
Vibrando à passagem dos motores,
Deixando no ar nova música
Onde há ritmos de horizontes
margeantes
Entre os sons das árvores marginantes.
Os rios às vezes se revoltam
Reúnem todas as suas águas
E investem sobre as pontes-algemas
Contra as estradas — muralhas de cárcere —
E se espalham felizes na planície
Em inundações gloriosas.
Imagem - 00100003
In: CARDOZO, Joaquim. Poesias completas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p.181-182. Poema integrante da série Mundos Paralelos.
NOTA: Poema composto de 2 parte
1 443
Carlos Frydman
Garoa em Pequim
Cai uma lânguida chuva em Pequim,
igual às nostálgicas chuvas que já vi;
vagarosa como o tédio,
dentro de um sombrio cinzento,
mergulhando em dúvida
a colorida alegria,
deixando meus olhos indecisos,
que procuram rever e fixar
a nítida silhueta milenar,
com a alma se debatendo para não ficar
entre as recordações da garoa paulista
e a envolvente realidade chinesa.
Debate-se meu ser apaixonado
entre o saudoso chuvisco paulista
e o véu úmido, cinzento e contínuo,
cobrindo a silhueta velha, nova e divina.
Cai lenta e persistente em Pequim
uma bruma afogando na abstração
minh'alma suspensa entre dois mundos,
atonando um desconhecido passado.
me afastando do indelével presente,
me levando a "Paulicéia Desvairada",
me trazendo a Pequim encantada.
Cai lenta uma chuva em Pequim,
pesando positivamente dentro de mim.
(...)
In: FRYDMAN, Carlos. Os caminhos da memória. Apres. Carlos Burlamáqui Kopke. Il. João Suzuki. São Paulo: Fulgor, 1965
igual às nostálgicas chuvas que já vi;
vagarosa como o tédio,
dentro de um sombrio cinzento,
mergulhando em dúvida
a colorida alegria,
deixando meus olhos indecisos,
que procuram rever e fixar
a nítida silhueta milenar,
com a alma se debatendo para não ficar
entre as recordações da garoa paulista
e a envolvente realidade chinesa.
Debate-se meu ser apaixonado
entre o saudoso chuvisco paulista
e o véu úmido, cinzento e contínuo,
cobrindo a silhueta velha, nova e divina.
Cai lenta e persistente em Pequim
uma bruma afogando na abstração
minh'alma suspensa entre dois mundos,
atonando um desconhecido passado.
me afastando do indelével presente,
me levando a "Paulicéia Desvairada",
me trazendo a Pequim encantada.
Cai lenta uma chuva em Pequim,
pesando positivamente dentro de mim.
(...)
In: FRYDMAN, Carlos. Os caminhos da memória. Apres. Carlos Burlamáqui Kopke. Il. João Suzuki. São Paulo: Fulgor, 1965
959
Glauco Mattoso
Cansioneiro, 1977
viramundo vaila estrada violeiro
barravento ventania travessia disparada
arrastão veleiro saveiro jangadeiro canoeiro
caminhemos caminhando caminhada
andança chegança ponteio boiadeiro
berimbau arueira aruanda enluarada
opinião louvação cantador cirandeiro
banda sarabanda porta-estandarte batucada
incerteza insensatez inquietação
fracasso palhaço jurei errei sofri
antonico tico-tico maracangalha construção
rosa roda ronda bodas baby zambi
cadência decadência aquarela conceição
adalgisa amélia aurora irene geni
In: MATTOSO, Glauco. Memórias de um pueteiro: as melhores gozações de Glauco Mattoso. Rio de Janeiro: Ed. Trote, 1982. Poema integrante da série Sonettos Intalianos & Sonetos Ingreses
barravento ventania travessia disparada
arrastão veleiro saveiro jangadeiro canoeiro
caminhemos caminhando caminhada
andança chegança ponteio boiadeiro
berimbau arueira aruanda enluarada
opinião louvação cantador cirandeiro
banda sarabanda porta-estandarte batucada
incerteza insensatez inquietação
fracasso palhaço jurei errei sofri
antonico tico-tico maracangalha construção
rosa roda ronda bodas baby zambi
cadência decadência aquarela conceição
adalgisa amélia aurora irene geni
In: MATTOSO, Glauco. Memórias de um pueteiro: as melhores gozações de Glauco Mattoso. Rio de Janeiro: Ed. Trote, 1982. Poema integrante da série Sonettos Intalianos & Sonetos Ingreses
1 276
Eudoro Augusto
Bandeira Pós-Moderno (Take 1)
Vou-me embora pra Manhattan,
lá sou amigo do Ray.
Tenho a trombonista ruiva
e uma terapeuta gay.
In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Uma Noite na Ópera.
NOTA: Referência ao poema "Vou-me Embora pra Pasárgada", de Manuel Bandeir
lá sou amigo do Ray.
Tenho a trombonista ruiva
e uma terapeuta gay.
In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Uma Noite na Ópera.
NOTA: Referência ao poema "Vou-me Embora pra Pasárgada", de Manuel Bandeir
1 080
Claudio Willer
Previsão do Tempo
I
eles estavam nus antes de viajar
no extremo da rua, as cortinas
como as haviam deixado
pensavam conhecer como pensavam possuir
a terra e o paraíso confundiam-se
no matiz das melancolias
na pedra transparente
apenas mais um passo
e nada mais
ainda uma distorção
proposital, perigosa
como até agora
evitando participar
salões voltados na mesma direção
dois ou três hábitos aceitáveis
do tamanho de uma unha
e assim mesmo
a torrente caía / as chamas espalhavam-se
junto com a cor dos olhos
II
Invertendo inteiramente a rua em liberdade
em um amplo existente
depois de matar
acostumados a aceitar tudo
sempre calmos e solícitos como uma oração
entre o início e o arremate
In: WILLER, Claudio. Anotações para um apocalipse. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1964
eles estavam nus antes de viajar
no extremo da rua, as cortinas
como as haviam deixado
pensavam conhecer como pensavam possuir
a terra e o paraíso confundiam-se
no matiz das melancolias
na pedra transparente
apenas mais um passo
e nada mais
ainda uma distorção
proposital, perigosa
como até agora
evitando participar
salões voltados na mesma direção
dois ou três hábitos aceitáveis
do tamanho de uma unha
e assim mesmo
a torrente caía / as chamas espalhavam-se
junto com a cor dos olhos
II
Invertendo inteiramente a rua em liberdade
em um amplo existente
depois de matar
acostumados a aceitar tudo
sempre calmos e solícitos como uma oração
entre o início e o arremate
In: WILLER, Claudio. Anotações para um apocalipse. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1964
1 269
Claudio Willer
Viagens 4
recuperação / liquefação
a planta dos pés afundada na paisagem
o sol atravessado na garganta
será você um astro
ou uma serpente engastada no vidro
um reflexo da noite
a distância povoa-se de espaços novos
enquanto esperamos e tentamos alcançar
tensa hora da proximidade
densa de profecias e pedras musgosas
a plumagem das aves sacrificiais é estendida
araras faisões colibris pavões
cobrindo o caminho
o barco constrói sua própria nuvem
dentro da qual nos encerramos
In: WILLER, Claudio. Jardins da provocação: poemas, 1976/1980. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1981
a planta dos pés afundada na paisagem
o sol atravessado na garganta
será você um astro
ou uma serpente engastada no vidro
um reflexo da noite
a distância povoa-se de espaços novos
enquanto esperamos e tentamos alcançar
tensa hora da proximidade
densa de profecias e pedras musgosas
a plumagem das aves sacrificiais é estendida
araras faisões colibris pavões
cobrindo o caminho
o barco constrói sua própria nuvem
dentro da qual nos encerramos
In: WILLER, Claudio. Jardins da provocação: poemas, 1976/1980. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1981
987
Manuel de Santa Maria Itaparica
Canto Quinto
XIII
Em um vasto me achei, e novo Mundo,
De nós desconhecido e ignorado,
Em cujas praias bate um mar profundo,
Nunca ategora de algum lenho arado:
O clima alegre, fértil e jucundo,
E o chão de árvores muitas povoado,
E no verdor das folhas julguei que era
Ali sempre contínua a Primavera.
XIV
Delas estavam pomos pendurados
Diversos na fragrância e na pintura,
Nem dos homens carecem ser plantados,
Mas agrestes se dão, e sem cultura;
E entre os troncos muitos levantados,
Que ainda a fantasia me figura,
Havia um pau de tinta mui fecunda,
Transparente na cor, e rubicunda.
XV
Pássaros muitos de diversas cores
Se viam várias ondas transformando,
E dos troncos suavíssimos licores
Em cópia grande estavam dimanando:
Peixes vi na grandeza superiores,
E animais quadrúpedes saltando,
A Terra tem do metal louro as veias,
Que de alguns rios se acha nas areias.
XVI
E quando a vista estava apascentando
Destas cousas na alegre formosura,
Um velho vi, que andava passeando,
De desmarcada e incógnita estatura:
Com sobressalto os olhos fui firmando
Naquela sempre móvel criatura,
E pareceu-me, se bem reparava,
Que vários rostos sempre me mostrava.
(...)
XVIII
Fiquei desta visão maravilhado,
Como quem de tais Monstros não sabia,
E logo perguntei sobressaltado
Quem era, que buscava, e que queria?
Ele virando o rosto remendado,
De cor da escura noute e claro dia,
Que eu era, respondeu, quem procurava,
E que Póstero, disse, se chamava.
(...)
XXII
Este pois lá num século futuro,
Posto que dela ausente e apartado,
Porque cos filhos sempre foi perjuro
O pátrio chão, e os trata sem agrado,
Por devoção intrínseca, e amor puro,
Talvez do Deus, que adoras, inspirado,
De ti e desses dous dessa pousada
Há de cantar com lira temperada.
XXIII
Aqui fez termo o velho, sufocando
A voz dentro do escuro e oculto peito,
Nunca do seu passeio descansando,
Nem quando me explicava o alto conceito:
Eu do letargo atônito despertando
Me alegrei de ver cousas deste jeito,
E vede que julgais, ó companheiros,
Que os sonhos são às vezes verdadeiros.
(...)
Publicado no livro Eustáquidos: poema sacro e tragicômico (1769*).
In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. Antologia dos poetas brasileiros da fase colonial. São Paulo: Perspectiva, 1979. p.138-141. (Textos, 2
Em um vasto me achei, e novo Mundo,
De nós desconhecido e ignorado,
Em cujas praias bate um mar profundo,
Nunca ategora de algum lenho arado:
O clima alegre, fértil e jucundo,
E o chão de árvores muitas povoado,
E no verdor das folhas julguei que era
Ali sempre contínua a Primavera.
XIV
Delas estavam pomos pendurados
Diversos na fragrância e na pintura,
Nem dos homens carecem ser plantados,
Mas agrestes se dão, e sem cultura;
E entre os troncos muitos levantados,
Que ainda a fantasia me figura,
Havia um pau de tinta mui fecunda,
Transparente na cor, e rubicunda.
XV
Pássaros muitos de diversas cores
Se viam várias ondas transformando,
E dos troncos suavíssimos licores
Em cópia grande estavam dimanando:
Peixes vi na grandeza superiores,
E animais quadrúpedes saltando,
A Terra tem do metal louro as veias,
Que de alguns rios se acha nas areias.
XVI
E quando a vista estava apascentando
Destas cousas na alegre formosura,
Um velho vi, que andava passeando,
De desmarcada e incógnita estatura:
Com sobressalto os olhos fui firmando
Naquela sempre móvel criatura,
E pareceu-me, se bem reparava,
Que vários rostos sempre me mostrava.
(...)
XVIII
Fiquei desta visão maravilhado,
Como quem de tais Monstros não sabia,
E logo perguntei sobressaltado
Quem era, que buscava, e que queria?
Ele virando o rosto remendado,
De cor da escura noute e claro dia,
Que eu era, respondeu, quem procurava,
E que Póstero, disse, se chamava.
(...)
XXII
Este pois lá num século futuro,
Posto que dela ausente e apartado,
Porque cos filhos sempre foi perjuro
O pátrio chão, e os trata sem agrado,
Por devoção intrínseca, e amor puro,
Talvez do Deus, que adoras, inspirado,
De ti e desses dous dessa pousada
Há de cantar com lira temperada.
XXIII
Aqui fez termo o velho, sufocando
A voz dentro do escuro e oculto peito,
Nunca do seu passeio descansando,
Nem quando me explicava o alto conceito:
Eu do letargo atônito despertando
Me alegrei de ver cousas deste jeito,
E vede que julgais, ó companheiros,
Que os sonhos são às vezes verdadeiros.
(...)
Publicado no livro Eustáquidos: poema sacro e tragicômico (1769*).
In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. Antologia dos poetas brasileiros da fase colonial. São Paulo: Perspectiva, 1979. p.138-141. (Textos, 2
2 359
Fontoura Xavier
XI - Toledo
Toledo, a mística imperial Toledo.
Têmpera de aço e fé, cujo segredo
Guarda consigo, avulta no horizonte,
esbatida no píncaro de um monte.
Afigura-se, vendo-a, ver defronte
A agonia de morte de um rochedo
Que o Tejo enlaça violento e tredo
Como a serpente de Laocoonte.
Santos e sombras são-lhe os habitantes,
Santos de Greco, sombras de Cervantes:
Ao Conde d'Orgaz luz um resplendor.
Cristo depõe perante um tribunal,
O cavalo de Cid El Campeador
Ajoelha à porta de uma catedral!...
In: XAVIER, Fontoura. Opalas. 4.ed. Rio de Janeiro: Gráf. Sauer, 1928
Têmpera de aço e fé, cujo segredo
Guarda consigo, avulta no horizonte,
esbatida no píncaro de um monte.
Afigura-se, vendo-a, ver defronte
A agonia de morte de um rochedo
Que o Tejo enlaça violento e tredo
Como a serpente de Laocoonte.
Santos e sombras são-lhe os habitantes,
Santos de Greco, sombras de Cervantes:
Ao Conde d'Orgaz luz um resplendor.
Cristo depõe perante um tribunal,
O cavalo de Cid El Campeador
Ajoelha à porta de uma catedral!...
In: XAVIER, Fontoura. Opalas. 4.ed. Rio de Janeiro: Gráf. Sauer, 1928
1 108
Fontoura Xavier
VI - Dogaressa
Veneza; um grande sol, numa púrpura acesa,
Vermelha, semelhante ao rico colorido
De Ticiano, agoniza entre o Canal e o Lido:
A agonia do sol da glória de Veneza.
A sua dor de luz vibra como um gemido;
As balsas do Canal são negras de tristeza...
E é tudo o que recorda a colossal grandeza
De um mundo vencedor sobre um mundo vencido.
A quadriga de bronze, os jarretes em arcos,
Numa ânsia de aclamar a jornada de Arcole,
Escarva, piaffé, o frontão de São Marcos.
Dogaressa é um pombal; por Mocenigo, aos tombos,
Palácio que abrigou Byron e Guiccioli,
Beijam-se febrilmente, arruflados, dois pombos.
In: XAVIER, Fontoura. Opalas. 4.ed. Rio de Janeiro: Gráf. Sauer, 1928
Vermelha, semelhante ao rico colorido
De Ticiano, agoniza entre o Canal e o Lido:
A agonia do sol da glória de Veneza.
A sua dor de luz vibra como um gemido;
As balsas do Canal são negras de tristeza...
E é tudo o que recorda a colossal grandeza
De um mundo vencedor sobre um mundo vencido.
A quadriga de bronze, os jarretes em arcos,
Numa ânsia de aclamar a jornada de Arcole,
Escarva, piaffé, o frontão de São Marcos.
Dogaressa é um pombal; por Mocenigo, aos tombos,
Palácio que abrigou Byron e Guiccioli,
Beijam-se febrilmente, arruflados, dois pombos.
In: XAVIER, Fontoura. Opalas. 4.ed. Rio de Janeiro: Gráf. Sauer, 1928
1 101
Sílvio Romero
VII - José de Anchieta
Cansada do repouso, a América ofegante,
Com seu olhar profundo e lânguido cismar,
Um dia despertando aos tépidos bafejos,
Deu seu colo moreno aos homens de além-mar.
Deu seus lábios de fogo aos bravos navegantes,
Sedentos d'emoções, de lutas e de amor,
Que achando pouco o mar e a pátria, cá tiveram
Nas frontes mais suor, nos peitos mais ardor.
E na macia trança, impávida a cabocla,
Que a cútis cetinosa às flores imitou,
Prendendo de uma vez os nobres lutadores,
De uma alma de amazona a fé lhes confiou.
De uns sonhos de amazona o mel de eflúvios tantos
Colhido no fervor da força e da paixão,
Foi como um filtro mago em corações de deuses,
Como um beijo da brisa em juba de leão!
A vida estua aqui. Nos leques das palmeiras
Pensamento do céu se move impresso em luz;
São raios deste sol eterno que nos ama,
São mimos que este ar brilhante aqui produz.
Exala a natureza em tudo um devaneio,
Sua alma inda mais fulge aos toques do luar;
E o belo navegante, envolto na magia,
Cativo, se esqueceu das terras de além-mar.
Poema integrante da série O Primeiro Instante.
In: ROMERO, Sílvio. Últimos harpejos: fragmentos poéticos. Pelotas: Carlos Pinto, 1883
Com seu olhar profundo e lânguido cismar,
Um dia despertando aos tépidos bafejos,
Deu seu colo moreno aos homens de além-mar.
Deu seus lábios de fogo aos bravos navegantes,
Sedentos d'emoções, de lutas e de amor,
Que achando pouco o mar e a pátria, cá tiveram
Nas frontes mais suor, nos peitos mais ardor.
E na macia trança, impávida a cabocla,
Que a cútis cetinosa às flores imitou,
Prendendo de uma vez os nobres lutadores,
De uma alma de amazona a fé lhes confiou.
De uns sonhos de amazona o mel de eflúvios tantos
Colhido no fervor da força e da paixão,
Foi como um filtro mago em corações de deuses,
Como um beijo da brisa em juba de leão!
A vida estua aqui. Nos leques das palmeiras
Pensamento do céu se move impresso em luz;
São raios deste sol eterno que nos ama,
São mimos que este ar brilhante aqui produz.
Exala a natureza em tudo um devaneio,
Sua alma inda mais fulge aos toques do luar;
E o belo navegante, envolto na magia,
Cativo, se esqueceu das terras de além-mar.
Poema integrante da série O Primeiro Instante.
In: ROMERO, Sílvio. Últimos harpejos: fragmentos poéticos. Pelotas: Carlos Pinto, 1883
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