Poemas neste tema
Vida
José Eustáquio da Silva
Visões
vida vale violão
lambada lombo
poesia pingada peão
caravelas colombo
mar morto multidão
ter tudo testamento
alma alma assombração
coração consentimento
filho falho fatalidade
dúvida doentia
moço moça mocidade
arrebanhando alegria
lambada lombo
poesia pingada peão
caravelas colombo
mar morto multidão
ter tudo testamento
alma alma assombração
coração consentimento
filho falho fatalidade
dúvida doentia
moço moça mocidade
arrebanhando alegria
867
José Sarney
Carta do Anti-Santo José
aos seus tristes
EU, de nome José,
rasguei os olhos da vida
em cinza manhã de abril.
Chorei e o campo chovia
onde a cidade pedia
tempos, clemência e amor.
BENDITO sejais chão Pinheiro
com o canto dos bois
e os patos selvagens
que deixam as nuvens
e os ventos gigantes
que lhe guiaram as asas
cruzando oceanos
e pousaram
à beira dos Defuntos
onde sacodem a viagem
e fazem ninhos
na folha das plantas aquáticas
que flutuam como anjos deitados
na mansidão dos lagos.
IRMÃOS:
NÃO me julgueis pelo abandono dessa sombra
que prometeu entregar-me o corpo
de pelúcias de carne para que eu o amasse
com a força de todas as tempestades
e eu nunca o amei.
NÃO me julgueis por haver
começado o meu caminho
naquela canoa de toldos
e ramos que cantavam,
"bendito é o santo nome".
EU fui ferido pelos vampiros gigantes
que esmagaram a sunga de chita colegial
feita de flores pequenas e alças de rendas
onde ficou sepultado para sempre
o seu sexo pequenino
e o meu primeiro olhar
que eu carregava nas mãos
como o cálice
daquele vinho
do corpo de Deus que eu não bebi
para embriagar-me
na fome de amar a pronta carne,
o pão, o fruto, a vida e
os peixes que habitavam os lagos desse campo
que me abriu os olhos numa manhã de abril.
IRMÃOS:
NÃO me julgueis pelo que fui
e jamais fui e sempre serei,
pois de não ser vou sendo
esta noite que não teve pôr de sol.
EU juro que a cadela que latia
junto de tuas mãos e eu dizia que era raiva
devia ter morrido
para que hoje eu não a lembrasse
para matar o meu ódio e ressuscitar o meu nojo
de pensar que eu fui capaz de amar
e os ventos da minha vida
não têm mais velas a empurrar
nem barcos para sair do Rio Pericumã e chegar
ao mar alto da Ponta de Itacolomi
e ali afundar
como afundaram
nas pedras eternas de moluscos
tantas navegações e tantos monstros.
IRMÃOS:
Eu habitei a Rua da Madre de Deus
onde os teares funcionavam dia e noite, no número 127.
Dona Sérgia! eu te beijo cerzideira
que me carregou de amor quando os outros me cuspiam
e as estátuas de porcelana branca que vieram de Portugal
guardavam vigilantes as cumeeiras largas do casario da Fábrica
onde batiam algodão branco e doce
da velha indústria Santa Amélia
e as operárias furtavam
os casulos
para higiene do ciclo menstrual
naquele mundo de louças
fusos, caldeiras e fardos.
A Fonte das Pedras
que de pedras tinha a água que escorria como sangue
das carrancas que jamais aceitaram o suor dos escravos
que Dona Ana Jansen fazia atirar nos poços de lanças
para serem espetados e se transformarem em fantasmas que
enchiam de gemidos todos os becos desta cidade que
nasceu para ser possuída em coitos de agonia e pecado
e em virgindades com cheiro de alfazema
entre o amor e as picadas de arraia.
IRMÃOS:
NÃO me julgueis pelo bonde de minha infância que matei
porque eu o amava e o matei,
como se não mata o amor, mas
pelo indesejo da morte.
ELE não corre e foram minhas mãos
que o trucidaram e trucidaram com ele
as moças todas que estavam na janela
e eu desejava casar para fazer filhos que
de novo pegassem o bonde
e fossem até o fim dos caminhos
e de novo fizessem outros filhos e outros mais
para que o bonde fosse o trilho eterno
e não o fim do filho.
..............................................
IRMÃOS:
NÃO me julguei por não haver fugido
com a trapezista do circo mambembe,
com que todos os meninos
das cidades de cavalos e cabeças-de-cuia
pensam fugir para viver em
acrobacias e picadeiros.
Eu a reencontrei em Brooklin, num janeiro de neve
nessa cidade de Nova Iorque que eu também amei
como se ama a prostituta pintada
que nos acena com uma noite de orgia.
O táxi amarelo parou. De repente ao meu lado
a trapezista que eu tinha amado
e ali repousava de sandálias e tranças.
Ao meu espanto apenas disse:
José!
De repente o mundo voltou ao princípio e eu senti
que os passarinhos podem cantar em Manhatan como
na mangueira velha do quintal da casa do velho José Costa,
meu avô,
que me disse um dia:
Guarda a tua alma e o teu corpo em vinha-dalho,
porque a vida é feita de postas azedas
em que os figos e as melancias não têm nem gosto nem cor.
IRMÃOS:
EU, José,
vos digo que a vida é um bando de itãs
que gritam histéricas
na beira do lago de Viana à espera
da terra parar de repente
e de repente a canarana ter flores eternas
as mangueiras terem galhos de meia légua e
debaixo de sua sombra
os índios pedirem amor com os anjos,
plantando rosas de capim de marreca
e o homem Senhor do destino
possa descansar os seus lábios vermelhos
nos seios das deusas jovens,
adormecidas nas aguadas de ventos,
novilhas de todos os mundos.
IRMÃOS:
PERDOAI-ME de dizer a Deus
que ele não pode pisar meus caminhos
com os pés de cardos
que romperam de sangue a coroa fria e sem glória
desses dias que ele me deu e eu esmaguei.
IRMÃOS:
perdoai-me.
o sonho da morte é uma nuvem
que não cobre as eternas noites da vida.
(Os Maribondos de Fogo / 1978)
EU, de nome José,
rasguei os olhos da vida
em cinza manhã de abril.
Chorei e o campo chovia
onde a cidade pedia
tempos, clemência e amor.
BENDITO sejais chão Pinheiro
com o canto dos bois
e os patos selvagens
que deixam as nuvens
e os ventos gigantes
que lhe guiaram as asas
cruzando oceanos
e pousaram
à beira dos Defuntos
onde sacodem a viagem
e fazem ninhos
na folha das plantas aquáticas
que flutuam como anjos deitados
na mansidão dos lagos.
IRMÃOS:
NÃO me julgueis pelo abandono dessa sombra
que prometeu entregar-me o corpo
de pelúcias de carne para que eu o amasse
com a força de todas as tempestades
e eu nunca o amei.
NÃO me julgueis por haver
começado o meu caminho
naquela canoa de toldos
e ramos que cantavam,
"bendito é o santo nome".
EU fui ferido pelos vampiros gigantes
que esmagaram a sunga de chita colegial
feita de flores pequenas e alças de rendas
onde ficou sepultado para sempre
o seu sexo pequenino
e o meu primeiro olhar
que eu carregava nas mãos
como o cálice
daquele vinho
do corpo de Deus que eu não bebi
para embriagar-me
na fome de amar a pronta carne,
o pão, o fruto, a vida e
os peixes que habitavam os lagos desse campo
que me abriu os olhos numa manhã de abril.
IRMÃOS:
NÃO me julgueis pelo que fui
e jamais fui e sempre serei,
pois de não ser vou sendo
esta noite que não teve pôr de sol.
EU juro que a cadela que latia
junto de tuas mãos e eu dizia que era raiva
devia ter morrido
para que hoje eu não a lembrasse
para matar o meu ódio e ressuscitar o meu nojo
de pensar que eu fui capaz de amar
e os ventos da minha vida
não têm mais velas a empurrar
nem barcos para sair do Rio Pericumã e chegar
ao mar alto da Ponta de Itacolomi
e ali afundar
como afundaram
nas pedras eternas de moluscos
tantas navegações e tantos monstros.
IRMÃOS:
Eu habitei a Rua da Madre de Deus
onde os teares funcionavam dia e noite, no número 127.
Dona Sérgia! eu te beijo cerzideira
que me carregou de amor quando os outros me cuspiam
e as estátuas de porcelana branca que vieram de Portugal
guardavam vigilantes as cumeeiras largas do casario da Fábrica
onde batiam algodão branco e doce
da velha indústria Santa Amélia
e as operárias furtavam
os casulos
para higiene do ciclo menstrual
naquele mundo de louças
fusos, caldeiras e fardos.
A Fonte das Pedras
que de pedras tinha a água que escorria como sangue
das carrancas que jamais aceitaram o suor dos escravos
que Dona Ana Jansen fazia atirar nos poços de lanças
para serem espetados e se transformarem em fantasmas que
enchiam de gemidos todos os becos desta cidade que
nasceu para ser possuída em coitos de agonia e pecado
e em virgindades com cheiro de alfazema
entre o amor e as picadas de arraia.
IRMÃOS:
NÃO me julgueis pelo bonde de minha infância que matei
porque eu o amava e o matei,
como se não mata o amor, mas
pelo indesejo da morte.
ELE não corre e foram minhas mãos
que o trucidaram e trucidaram com ele
as moças todas que estavam na janela
e eu desejava casar para fazer filhos que
de novo pegassem o bonde
e fossem até o fim dos caminhos
e de novo fizessem outros filhos e outros mais
para que o bonde fosse o trilho eterno
e não o fim do filho.
..............................................
IRMÃOS:
NÃO me julguei por não haver fugido
com a trapezista do circo mambembe,
com que todos os meninos
das cidades de cavalos e cabeças-de-cuia
pensam fugir para viver em
acrobacias e picadeiros.
Eu a reencontrei em Brooklin, num janeiro de neve
nessa cidade de Nova Iorque que eu também amei
como se ama a prostituta pintada
que nos acena com uma noite de orgia.
O táxi amarelo parou. De repente ao meu lado
a trapezista que eu tinha amado
e ali repousava de sandálias e tranças.
Ao meu espanto apenas disse:
José!
De repente o mundo voltou ao princípio e eu senti
que os passarinhos podem cantar em Manhatan como
na mangueira velha do quintal da casa do velho José Costa,
meu avô,
que me disse um dia:
Guarda a tua alma e o teu corpo em vinha-dalho,
porque a vida é feita de postas azedas
em que os figos e as melancias não têm nem gosto nem cor.
IRMÃOS:
EU, José,
vos digo que a vida é um bando de itãs
que gritam histéricas
na beira do lago de Viana à espera
da terra parar de repente
e de repente a canarana ter flores eternas
as mangueiras terem galhos de meia légua e
debaixo de sua sombra
os índios pedirem amor com os anjos,
plantando rosas de capim de marreca
e o homem Senhor do destino
possa descansar os seus lábios vermelhos
nos seios das deusas jovens,
adormecidas nas aguadas de ventos,
novilhas de todos os mundos.
IRMÃOS:
PERDOAI-ME de dizer a Deus
que ele não pode pisar meus caminhos
com os pés de cardos
que romperam de sangue a coroa fria e sem glória
desses dias que ele me deu e eu esmaguei.
IRMÃOS:
perdoai-me.
o sonho da morte é uma nuvem
que não cobre as eternas noites da vida.
(Os Maribondos de Fogo / 1978)
1 642
Jurema Batista de Sousa
Horário de Verão
Não sonhe mais vinte minutos!
Os homens, que mandam no tempo
colocam seus dedos pegajosos
sobre o relógio inocente
e ceifam estes vinte minutos
onde sua alma podia vadiar.
Não sinta nem mais um instante
que o mundo inexiste uma hora,
nesta hora, a violência germina
e nos quarenta minutos restantes
preparadas estão as armadilhas,
onde nosso coração é apenas
uma pequena raposa jovem.
Atrasa o teu relógio esta hora
para desvendar o mistério
da vida que pulsa desafiando
os terroristas da lógica.
Os homens, que mandam no tempo
colocam seus dedos pegajosos
sobre o relógio inocente
e ceifam estes vinte minutos
onde sua alma podia vadiar.
Não sinta nem mais um instante
que o mundo inexiste uma hora,
nesta hora, a violência germina
e nos quarenta minutos restantes
preparadas estão as armadilhas,
onde nosso coração é apenas
uma pequena raposa jovem.
Atrasa o teu relógio esta hora
para desvendar o mistério
da vida que pulsa desafiando
os terroristas da lógica.
853
José Fernandes Fafe
Exegese
De que é feito esse amor?, perguntam-me e não sei...
Da matéria da noite mais impávida,
onde as estrelas inscrevem uma lei ...
Da estrada longa e da cegueira ávida
com que quiseste povoar de amor os ermos...
Longe, os cães das quintas ladravam-te com raiva
(Vejo o teu gesto, um franciscano aceno,
vejo a minha mão crispar-se, dolorida,
vejo unir-nos num abraço o desespero... )
Das trevas, do linho negro em que tecemos
a manta na noite dos pobres estendida...
(Senhora, acamaradando-se dói menos. . . )
Das mãos dadas, pelo sono dos casais, pela Vida,
pela emboscada — onde caíste de cansaço
e me rasgaram a rubra e funda ferida
donde manam — o baço tempo, o alaranjado lume
e a inexorável frialdade de aço
que um anjo tetular em si reúne.
Da matéria da noite mais impávida,
onde as estrelas inscrevem uma lei ...
Da estrada longa e da cegueira ávida
com que quiseste povoar de amor os ermos...
Longe, os cães das quintas ladravam-te com raiva
(Vejo o teu gesto, um franciscano aceno,
vejo a minha mão crispar-se, dolorida,
vejo unir-nos num abraço o desespero... )
Das trevas, do linho negro em que tecemos
a manta na noite dos pobres estendida...
(Senhora, acamaradando-se dói menos. . . )
Das mãos dadas, pelo sono dos casais, pela Vida,
pela emboscada — onde caíste de cansaço
e me rasgaram a rubra e funda ferida
donde manam — o baço tempo, o alaranjado lume
e a inexorável frialdade de aço
que um anjo tetular em si reúne.
858
João Marcio Furtado Costa
O Tempo e a Vida
O Tempo e a Vida
(04/96)
Da vida vivida, a medida é o estado de energia,
e o limite é o próprio tempo: remédio e dimensão.
Passado, presente e futuro, fases da cronologia,
resultante da vivência, da razão e emoção.
Não se vive do passado, o passado, já passou,
não se muda ou se arrepende, se aprende e a bola rola.
Se o presente está errado, se ele é o fardo que restou,
então se muda, se corrige ou se joga a vida fora.
A vida se apresenta e vivo hoje, e vivendo eu faço a hora.
O sonho, eu sonho agora e realizo no amanhã.
O passado foi embora, é uma novela que acabou.
Se o tempo não parou, não sou eu quem vai parar,
comete suicídio, quem vive de passa-tempo,
desperdiçar o momento, é a vida, que se quer matar.
(04/96)
Da vida vivida, a medida é o estado de energia,
e o limite é o próprio tempo: remédio e dimensão.
Passado, presente e futuro, fases da cronologia,
resultante da vivência, da razão e emoção.
Não se vive do passado, o passado, já passou,
não se muda ou se arrepende, se aprende e a bola rola.
Se o presente está errado, se ele é o fardo que restou,
então se muda, se corrige ou se joga a vida fora.
A vida se apresenta e vivo hoje, e vivendo eu faço a hora.
O sonho, eu sonho agora e realizo no amanhã.
O passado foi embora, é uma novela que acabou.
Se o tempo não parou, não sou eu quem vai parar,
comete suicídio, quem vive de passa-tempo,
desperdiçar o momento, é a vida, que se quer matar.
881
João Marcio Furtado Costa
Poema em Linha Torta
Poema em Linha Torta
(05/93)
Que bom que é a vida,
Quando ela é servida,
Com catupiry.
Que bom que é a vida,
Mesmo sofrida,
Se você sabe rir.
E eu gosto de rir.
E eu sei fazer rir.
Serei eu um palhaço?
E o palhaço o que é?
É ladrão de mulher.
Ôba, então que bom
Que eu sou um palhaço!!!
Que bom que eu caço,
Que bom que eu laço,
Que bom que eu traço,
Meu destino e tentação.
E apesar de todo crivo,
Que bom que eu vivo,
Que bom que eu sirvo,
Que bom que eu sou João.
Que bom praticar esporte,
Me cansa, descansa,
Me torna criança,
E ajuda a adiar a morte.
Que bom que é ter sorte,
Ser jovem, ser forte,
E ter muito dinheiro.
Que bom que é ter fogo,
Que bom se tem jogo,
E se vence, o cruzeiro.
Que bom que é o Brasil,
Quando ele é servido,
Ao óleo e ao alho.
Que bom que é o Brasil,
Mesmo sendo sofrido,
Ele é nosso galho.
(05/93)
Que bom que é a vida,
Quando ela é servida,
Com catupiry.
Que bom que é a vida,
Mesmo sofrida,
Se você sabe rir.
E eu gosto de rir.
E eu sei fazer rir.
Serei eu um palhaço?
E o palhaço o que é?
É ladrão de mulher.
Ôba, então que bom
Que eu sou um palhaço!!!
Que bom que eu caço,
Que bom que eu laço,
Que bom que eu traço,
Meu destino e tentação.
E apesar de todo crivo,
Que bom que eu vivo,
Que bom que eu sirvo,
Que bom que eu sou João.
Que bom praticar esporte,
Me cansa, descansa,
Me torna criança,
E ajuda a adiar a morte.
Que bom que é ter sorte,
Ser jovem, ser forte,
E ter muito dinheiro.
Que bom que é ter fogo,
Que bom se tem jogo,
E se vence, o cruzeiro.
Que bom que é o Brasil,
Quando ele é servido,
Ao óleo e ao alho.
Que bom que é o Brasil,
Mesmo sendo sofrido,
Ele é nosso galho.
1 044
José Eduardo Mendes Camargo
Propósito
Não quero viver sob o signo do medo
Que paralisa os abraços,
Nos desperta o temor à morte e, ao depois dela,
Como dizia o poeta Drummond,
E então morrermos de medo
E nascerem flores pálidas e medrosas
Em nossos túmulos.
Quero sentir o ar puro da manhã em meus pulmões,
E tocar a terra com a sola de meus pés.
E fascinar-me com o canto dos pássaros,
As cores da natureza, o perfume das flores
E a beleza das mulheres.
E saltar, gritar e dizer:
Estou vivo, não me importa o grau de loucura
Que se me atribuam.
Que paralisa os abraços,
Nos desperta o temor à morte e, ao depois dela,
Como dizia o poeta Drummond,
E então morrermos de medo
E nascerem flores pálidas e medrosas
Em nossos túmulos.
Quero sentir o ar puro da manhã em meus pulmões,
E tocar a terra com a sola de meus pés.
E fascinar-me com o canto dos pássaros,
As cores da natureza, o perfume das flores
E a beleza das mulheres.
E saltar, gritar e dizer:
Estou vivo, não me importa o grau de loucura
Que se me atribuam.
759
José Eduardo Mendes Camargo
Fugaz
Fugaz é o momento do encontro.
Fugaz é a despedida do sol na linha do horizonte.
Fugaz é a estrela cadente.
Fugaz é o encanto do inesperado.
Fugaz é o momento da vitória.
Fugaz é o prazer sublime do orgasmo.
Fugaz é a própria vida no horizonte do tempo.
Eterna é a recordação.
Fugaz é a despedida do sol na linha do horizonte.
Fugaz é a estrela cadente.
Fugaz é o encanto do inesperado.
Fugaz é o momento da vitória.
Fugaz é o prazer sublime do orgasmo.
Fugaz é a própria vida no horizonte do tempo.
Eterna é a recordação.
1 241
José Eduardo Mendes Camargo
Da Vida
Na vida sou um guerreiro.
Entro na luta de alma e corpo inteiro.
Da vida, sou um filósofo.
Fascinam-me os mistérios da alma
e os caprichos do destino.
No amor, fui atleta, um fauno,
e hoje sou um poeta.
Entro na luta de alma e corpo inteiro.
Da vida, sou um filósofo.
Fascinam-me os mistérios da alma
e os caprichos do destino.
No amor, fui atleta, um fauno,
e hoje sou um poeta.
992
José Eduardo Mendes Camargo
Despertar
Acorda e recorda, mulher!
Que recordar é viver outra vez.
Que vibrar é viver e fenecer é morrer.
Acorda e desperta, mulher, outra vez!
Que o amor, a dor e o prazer é viver!
Que recordar é viver outra vez.
Que vibrar é viver e fenecer é morrer.
Acorda e desperta, mulher, outra vez!
Que o amor, a dor e o prazer é viver!
968
José Carlos Souza Santos
Do livro Estrelas Ausentes
A Tarde que Me Cabe
Eram quatro, as horas da manhã
quando nasci,
ainda não se havia completado
o meio-dia
quando os meus olhos se abeberaram
sôfregos,
de lembranças de nunca vistos pôr-do-sol,
de canelones que pela boca me desceram
sem lhes sentir o gosto,
de apaixonados beijos que os desejos
não me aplacaram,
e foi tão rápida a descoberta
de ter vivido somente o espaço de uma manhã
nos meus quarenta anos.
Ainda não se tinha completado
o meio-dia,
e náufrago em tábua de conveniência,
não me permitira
ver a luz que me tocara,
me lambera, me inundara.
e só pelas tuas mãos,
e pelo teu silêncio em grito de ausência
transformado,
hei de viver o período da tarde
que me cabe,
e vivê-lo tão intensamente, que os refúgios
em nossos corpos usados
inatingíveis hão de se tornar
no compassado ritmo do amor.
Eram quatro, as horas da manhã
quando nasci,
ainda não se havia completado
o meio-dia
quando os meus olhos se abeberaram
sôfregos,
de lembranças de nunca vistos pôr-do-sol,
de canelones que pela boca me desceram
sem lhes sentir o gosto,
de apaixonados beijos que os desejos
não me aplacaram,
e foi tão rápida a descoberta
de ter vivido somente o espaço de uma manhã
nos meus quarenta anos.
Ainda não se tinha completado
o meio-dia,
e náufrago em tábua de conveniência,
não me permitira
ver a luz que me tocara,
me lambera, me inundara.
e só pelas tuas mãos,
e pelo teu silêncio em grito de ausência
transformado,
hei de viver o período da tarde
que me cabe,
e vivê-lo tão intensamente, que os refúgios
em nossos corpos usados
inatingíveis hão de se tornar
no compassado ritmo do amor.
876
Ildásio Tavares
O Meu Tempo
Não existe hora certa, existe o meu relógio,
Lembrando sempre com seu tic-tac
Que há vida
Para ser vivida,
Que houve a vida
Que não se viveu.
Não importa que o rádio renitente ruja
São tal hora e tal minuto,
Hora oficial,
Afinal,
Que há de oficial em minha vida?
Somente,
Quebrando a paz exata deste espaço,
Levando a mim à frente, sem retorno,
A tiquetaquear meu ser-serei,
Existe o meu relógio, —
pulso falso,
Sensato solilóquio, lento, certo,
Que canta
O canto
Do tempo
Que é meu,
Lembrando sempre com seu tic-tac
Que há vida
Para ser vivida,
Que houve a vida
Que não se viveu.
Não importa que o rádio renitente ruja
São tal hora e tal minuto,
Hora oficial,
Afinal,
Que há de oficial em minha vida?
Somente,
Quebrando a paz exata deste espaço,
Levando a mim à frente, sem retorno,
A tiquetaquear meu ser-serei,
Existe o meu relógio, —
pulso falso,
Sensato solilóquio, lento, certo,
Que canta
O canto
Do tempo
Que é meu,
1 118
Isabel Machado
Suprema
Suprema força que me atrai
para o que temo
e o meu temor me excita mais
e mais... e mais...
Suprema calma que te encarna
e não me acalma
e a tua mansa, mansa fala
já calou...
Supremo canto dos teus lábios
talvez escárnio
de mim mesma...
talvez a vida
louca vida
me roubou...
Suprema luz que me fascina...
supremo enlevo
que me toca
e dia-a-dia
dia-a-dia
me assassina...
para o que temo
e o meu temor me excita mais
e mais... e mais...
Suprema calma que te encarna
e não me acalma
e a tua mansa, mansa fala
já calou...
Supremo canto dos teus lábios
talvez escárnio
de mim mesma...
talvez a vida
louca vida
me roubou...
Suprema luz que me fascina...
supremo enlevo
que me toca
e dia-a-dia
dia-a-dia
me assassina...
964
Jáder de Carvalho
Eu me enganei
Eu me enganei quando disse: "É o fim!"
Via-me no espelho: a neve no cabelo.
As rugas se cruzavam no meu rosto.
A vista se cansava. Ah, era o fim!
Dentro do peito, o coração batia.
Em contraste com o rosto, a alma era jovem.
Eu gostava do cheiro das mulheres:
ia do olfato às profundezas d’alma.
Pensei: "A vida não me chega ao termo.
Sou todo vida. Só por fora é a morte."
E o mundo viu minha ressurreição.
Ah, quantas noites dormirei contigo!
Ah, quanto sol-nascente inda me espera!
A estrada é longa, mas não cansarei!...
Via-me no espelho: a neve no cabelo.
As rugas se cruzavam no meu rosto.
A vista se cansava. Ah, era o fim!
Dentro do peito, o coração batia.
Em contraste com o rosto, a alma era jovem.
Eu gostava do cheiro das mulheres:
ia do olfato às profundezas d’alma.
Pensei: "A vida não me chega ao termo.
Sou todo vida. Só por fora é a morte."
E o mundo viu minha ressurreição.
Ah, quantas noites dormirei contigo!
Ah, quanto sol-nascente inda me espera!
A estrada é longa, mas não cansarei!...
761
Hemetério Cabrinha
Convicção
Tenho a certeza de já ter vivido
Através de outros mundos, de outras eras;
Na rude embriogenia das moneras,
Microcósmicamente impercebido.
Grão de pó entre abismos e crateras,
Nos turvos elementos confundido.
Hei por milhões de séculos sofrido
Entre minérios, vegetais e feras.
Rolei no caos da natureza bruta,
Conseguindo, através de intensa luta,
Chegar à borda dêste humano abismo.
Partícula do Todo simplesmente,
Mas já sentindo no evolver da mente
A razão dêste eterno transformismo.
Através de outros mundos, de outras eras;
Na rude embriogenia das moneras,
Microcósmicamente impercebido.
Grão de pó entre abismos e crateras,
Nos turvos elementos confundido.
Hei por milhões de séculos sofrido
Entre minérios, vegetais e feras.
Rolei no caos da natureza bruta,
Conseguindo, através de intensa luta,
Chegar à borda dêste humano abismo.
Partícula do Todo simplesmente,
Mas já sentindo no evolver da mente
A razão dêste eterno transformismo.
865
Hildeberto Abreu Magalhães
Falas a Dioniso en Crise
I
Páginas não riscadas, muros não pichados,
paredes sorvidas em tintas unicores,
paisagem verde encostada na parede,
número nove paredes pintadas por
crianças multicoloridas que se
extravasam à parede e tecem-lhe
veias disformes e lamentando
o pouco sangue que lhes percorre
e como desejariam voar e tolher
ao espírito o vento mais alto.
Crianças choram, paredes choram,
lágrimas desusadas fecundam
óvulos dissolvendo-se evaporando-se
à temperatura da superfície e
enervando a eletricidade dos dedos;
escuta: dispara a seta e atingirás
o alvo. O que se pensa não se
determina. Termina tua estada
com glória e boa companhia.
Ecoam belos risos e os vejo
debocharem e persuadirem-se...
II
Deixe tocar tua mão... Apega-me
o teu calor. E agora que estou
agonizando, verto-me em frio
e luz opaca, rapto-te da memória,
desmancho-me e desmancho-te
em éter de outrora e agora
ficar acordado, agora permanecer
e ser longe de ti, éter comum!
Deixar-te é enfim um máximo de
beleza: agora és bela como os cegos
a vissem pela primeira vez: és tu
e não-eu és a mim e a ti juntos.
Ainda és e eu não sou mais que
isso: eu e tu. Despeço-me antes
que despedace-me a visão que
elegi como última: a que eu
realmente não sei...
III
O que pertubaria a tua consciência,
nesta tarde, neste minuto vesperal,
nesta canção, o que te pertuba?
Serão lembranças a te perturbar,
a afastar de ti a felicidade,
será o passado tão pesado que
não possa ser posto de lado
para o presente, tua memória
te esfalecendo a felicidade?
De que vale a vida, cheia de símbolos diversos,
se quem vale a vida é cheio de símbolo-fixo?
Expõe o passado à sua podridão e
à sua morte e verás como foge.
Paraste de pensá-lo e já escutas!
A música harmônica do vazio pe-
netra em ti para esvair-se e
repenetrar a tua energia nos
cúmulos e cônscios onipresentes.
IV
Se um dia precisar de proteção
contra o frio, já tenho o tapete,
que comprei no Seixas. Deus
me fez assim, Dioniso, procuro
sempre me converter, prezo fazer
acima de tudo e todo ter ou
saber. Prefiro a autenticidade
no homem e admiro nele sua
loucura lúcida e sua louca lucidez.
Sabe lá como não se faz o quê
constituir-se como não é ou é,
sendo assim ou não sendo assado.
Se precisar um dia de algo e não terei,
terei de fazer e tornar para fazer e ser depois,
se for a mídia que a compre e a tenha enclausurada.
Ninguém necessita minha proteção,
visto que cada um pode se proteger
sozinho; até eu não quero exércitos.
Se comprares algo, terás feito nas mãos.
Terás uma imagem nova para idolatrares...
V
Definitivamente eu sou um mutante;
não posso conter em mim o Adão que
compraz-se ver sua humanidade reinar,
quebrando degraus, saudando novas vias,
ao mesmo tempo que ruge a tradição
e amamos a tradição mais que tudo
ao esfumaçá-la e tornar-lhe nova
tradição que não susterá sequer um
grande ser que se movimenta, que
soluça por todo o Bem consumado
por si e por Tao, por mim e
por ti. Reina homem, mas conhece teus
estragos miserentos! Não podes manchar
tua humanidade com tão vil chaga!
Espera a embriaguez benévola, pacífico-guerreira.
A estupidez da desordem organizada.
A ens-vitae torna-se, o homem
torna-se, cada célula faz-se e
somos construídos para construir,
destruindo as velhas tábuas,
simbolizar o movimento, o moto-
-contínuo, Dioniso.
VI
Sinta-me: levemente esvoaço o tempo ao teu redor;
neste instante não me vês, mas estarei aí a roçar
tua pele e beijar teus cabelos, estarei agora
planejando uma visão desvirtualmente divina, tuas
mãos praguejam moscas impertinentes e me acaricias,
sem o saber, o vento que te rodeia é meu.
Oh! Diana, que mataste Actéon por ter visto tua beleza,
o que não farias se soubesses que tens um vigilante
cósmico, uma sentinela de tua respiração ofegante.
É the best part of the trip, the very best; ser
"companhia incesta amabilíssima elétrica ácida salutar"
é a viagem, movimento, a melhor parte...
Se olho o céu, se olho mesmo o céu, sol ou noite,
realmente não te vejo, mas vejo-te ao meu lado,
não na lua, teu maior espelho celeste, Deus;
vejo-te aqui como eu concentrado em ti e
cheirando tua pele, nessa carícia que ma faz
um vento que rodeia minha amada, Deusa.
Toque-me, veja-o ao vento que esvoaça teu ins,
éter-me-ei para sentir saudades do que não vi,
furtar-me-ão os sentidos, atolar-nos-ão no
racionalismo-idealismo, mas nunca a memória terá
sido importante, ¿nunca verei de novo o novo?
Ésse, essa letra sibilante, sss, como o ser
"novo atuante tórrido actus purus Adam filho".
VII
Talvez não seja sincero; pensar em ti tão cedo pode ser
uma deslavada coreografia da minha mente, que te deseja
próxima, que me permite acordá-la de madrugada, e
dentro do teu sonho dizer que te amo. Não,
não pode ser sincera, esta vontade que, rasgando
o peito imberbe, sangra-o facilmente à distância,
de te tornar companhia hodierna e na tua pre-
sença devo permanecer escutando o estrondo dos
vulcões sob sua pele, devo permanecer calado,
nessa extrema angústia que quer me levar por
baixo de tuas roupas, quer colar-me à tua pele.
Estás longe, perdida e vaga lembrança, cada vez mais
longe. Mas! como fazes, se não te esfumaças em
minha vã memória? Não consigo te matar-em-mim?
Não te amo sinceramente, estás longe, eu invento
uma doença que me matiamorte, sangro indiscreta-
mente, mas! como faço para esfumaçar-te em minha
vã memória? E se não estiveres só aí? E se dominas
algo em mim, algo que não pode ser chamado vão?
Estou com tendências à repressão neste território...
Mas pensar em ti tão cedo só poderia terminar confundindo
a mim e acordando o vizinho, para escutar-te a música.
O fato não foge à tendência tradicional de sonhar
a noiva antes do casamento, ou querer mais das
bebidas bacantes ou do néctar divino ou apenas lembrar que
há pouco nasceu o sol, já ontem choveu, há muito não
quero tanta solidão, me dói pensar-te e não tocar,
por isso farei-te a estátua; desejo adorá-la, enquanto estás longe.
VIII
Ah! criança selvagem brilhando no meio-dia nuestra vida.
Rasgarias meu coração, adoçarias minhas entranhas e
sacrificarias-me a algum Deus cruel sangüentino.
Emprestarias minh´alma como virtude ao Deus solar,
meu inimigo humano, meu pólo destruidor, meu degelo,
a morte dos meus amigos e amigas, varão coloquial.
Eu posso ver do vão pórtico teu fulgor, usurpo a ti
a energia que movimenta o vento e o círculo;
¿podes ser maior? Do tamanho de um pé, podes
insignificantizar-me? Podes deixar teu fulgor, Deus?
Um sempre-pronto, o semi-pronto-círculo, proto-Deus.
Gravita sobre mim, chegas-me à necessidade, sabes-me.
Teu sopro me acorda, teu vento quente me cerca e
desalmado arranca as epidermes, leva-as de mim, o
que não me possui, livra-me do frio, tirando-me.
Teu corpo suado liberta o meu, teu trabalho duro,
meu corpo semeado em tuas entranhas, os frutos
Páginas não riscadas, muros não pichados,
paredes sorvidas em tintas unicores,
paisagem verde encostada na parede,
número nove paredes pintadas por
crianças multicoloridas que se
extravasam à parede e tecem-lhe
veias disformes e lamentando
o pouco sangue que lhes percorre
e como desejariam voar e tolher
ao espírito o vento mais alto.
Crianças choram, paredes choram,
lágrimas desusadas fecundam
óvulos dissolvendo-se evaporando-se
à temperatura da superfície e
enervando a eletricidade dos dedos;
escuta: dispara a seta e atingirás
o alvo. O que se pensa não se
determina. Termina tua estada
com glória e boa companhia.
Ecoam belos risos e os vejo
debocharem e persuadirem-se...
II
Deixe tocar tua mão... Apega-me
o teu calor. E agora que estou
agonizando, verto-me em frio
e luz opaca, rapto-te da memória,
desmancho-me e desmancho-te
em éter de outrora e agora
ficar acordado, agora permanecer
e ser longe de ti, éter comum!
Deixar-te é enfim um máximo de
beleza: agora és bela como os cegos
a vissem pela primeira vez: és tu
e não-eu és a mim e a ti juntos.
Ainda és e eu não sou mais que
isso: eu e tu. Despeço-me antes
que despedace-me a visão que
elegi como última: a que eu
realmente não sei...
III
O que pertubaria a tua consciência,
nesta tarde, neste minuto vesperal,
nesta canção, o que te pertuba?
Serão lembranças a te perturbar,
a afastar de ti a felicidade,
será o passado tão pesado que
não possa ser posto de lado
para o presente, tua memória
te esfalecendo a felicidade?
De que vale a vida, cheia de símbolos diversos,
se quem vale a vida é cheio de símbolo-fixo?
Expõe o passado à sua podridão e
à sua morte e verás como foge.
Paraste de pensá-lo e já escutas!
A música harmônica do vazio pe-
netra em ti para esvair-se e
repenetrar a tua energia nos
cúmulos e cônscios onipresentes.
IV
Se um dia precisar de proteção
contra o frio, já tenho o tapete,
que comprei no Seixas. Deus
me fez assim, Dioniso, procuro
sempre me converter, prezo fazer
acima de tudo e todo ter ou
saber. Prefiro a autenticidade
no homem e admiro nele sua
loucura lúcida e sua louca lucidez.
Sabe lá como não se faz o quê
constituir-se como não é ou é,
sendo assim ou não sendo assado.
Se precisar um dia de algo e não terei,
terei de fazer e tornar para fazer e ser depois,
se for a mídia que a compre e a tenha enclausurada.
Ninguém necessita minha proteção,
visto que cada um pode se proteger
sozinho; até eu não quero exércitos.
Se comprares algo, terás feito nas mãos.
Terás uma imagem nova para idolatrares...
V
Definitivamente eu sou um mutante;
não posso conter em mim o Adão que
compraz-se ver sua humanidade reinar,
quebrando degraus, saudando novas vias,
ao mesmo tempo que ruge a tradição
e amamos a tradição mais que tudo
ao esfumaçá-la e tornar-lhe nova
tradição que não susterá sequer um
grande ser que se movimenta, que
soluça por todo o Bem consumado
por si e por Tao, por mim e
por ti. Reina homem, mas conhece teus
estragos miserentos! Não podes manchar
tua humanidade com tão vil chaga!
Espera a embriaguez benévola, pacífico-guerreira.
A estupidez da desordem organizada.
A ens-vitae torna-se, o homem
torna-se, cada célula faz-se e
somos construídos para construir,
destruindo as velhas tábuas,
simbolizar o movimento, o moto-
-contínuo, Dioniso.
VI
Sinta-me: levemente esvoaço o tempo ao teu redor;
neste instante não me vês, mas estarei aí a roçar
tua pele e beijar teus cabelos, estarei agora
planejando uma visão desvirtualmente divina, tuas
mãos praguejam moscas impertinentes e me acaricias,
sem o saber, o vento que te rodeia é meu.
Oh! Diana, que mataste Actéon por ter visto tua beleza,
o que não farias se soubesses que tens um vigilante
cósmico, uma sentinela de tua respiração ofegante.
É the best part of the trip, the very best; ser
"companhia incesta amabilíssima elétrica ácida salutar"
é a viagem, movimento, a melhor parte...
Se olho o céu, se olho mesmo o céu, sol ou noite,
realmente não te vejo, mas vejo-te ao meu lado,
não na lua, teu maior espelho celeste, Deus;
vejo-te aqui como eu concentrado em ti e
cheirando tua pele, nessa carícia que ma faz
um vento que rodeia minha amada, Deusa.
Toque-me, veja-o ao vento que esvoaça teu ins,
éter-me-ei para sentir saudades do que não vi,
furtar-me-ão os sentidos, atolar-nos-ão no
racionalismo-idealismo, mas nunca a memória terá
sido importante, ¿nunca verei de novo o novo?
Ésse, essa letra sibilante, sss, como o ser
"novo atuante tórrido actus purus Adam filho".
VII
Talvez não seja sincero; pensar em ti tão cedo pode ser
uma deslavada coreografia da minha mente, que te deseja
próxima, que me permite acordá-la de madrugada, e
dentro do teu sonho dizer que te amo. Não,
não pode ser sincera, esta vontade que, rasgando
o peito imberbe, sangra-o facilmente à distância,
de te tornar companhia hodierna e na tua pre-
sença devo permanecer escutando o estrondo dos
vulcões sob sua pele, devo permanecer calado,
nessa extrema angústia que quer me levar por
baixo de tuas roupas, quer colar-me à tua pele.
Estás longe, perdida e vaga lembrança, cada vez mais
longe. Mas! como fazes, se não te esfumaças em
minha vã memória? Não consigo te matar-em-mim?
Não te amo sinceramente, estás longe, eu invento
uma doença que me matiamorte, sangro indiscreta-
mente, mas! como faço para esfumaçar-te em minha
vã memória? E se não estiveres só aí? E se dominas
algo em mim, algo que não pode ser chamado vão?
Estou com tendências à repressão neste território...
Mas pensar em ti tão cedo só poderia terminar confundindo
a mim e acordando o vizinho, para escutar-te a música.
O fato não foge à tendência tradicional de sonhar
a noiva antes do casamento, ou querer mais das
bebidas bacantes ou do néctar divino ou apenas lembrar que
há pouco nasceu o sol, já ontem choveu, há muito não
quero tanta solidão, me dói pensar-te e não tocar,
por isso farei-te a estátua; desejo adorá-la, enquanto estás longe.
VIII
Ah! criança selvagem brilhando no meio-dia nuestra vida.
Rasgarias meu coração, adoçarias minhas entranhas e
sacrificarias-me a algum Deus cruel sangüentino.
Emprestarias minh´alma como virtude ao Deus solar,
meu inimigo humano, meu pólo destruidor, meu degelo,
a morte dos meus amigos e amigas, varão coloquial.
Eu posso ver do vão pórtico teu fulgor, usurpo a ti
a energia que movimenta o vento e o círculo;
¿podes ser maior? Do tamanho de um pé, podes
insignificantizar-me? Podes deixar teu fulgor, Deus?
Um sempre-pronto, o semi-pronto-círculo, proto-Deus.
Gravita sobre mim, chegas-me à necessidade, sabes-me.
Teu sopro me acorda, teu vento quente me cerca e
desalmado arranca as epidermes, leva-as de mim, o
que não me possui, livra-me do frio, tirando-me.
Teu corpo suado liberta o meu, teu trabalho duro,
meu corpo semeado em tuas entranhas, os frutos
994
Hélio Pellegrino
Heraclito, o Obscuro
A pedra se move menos que a planta.
A planta se move menos que o réptil, movendo-se sobre a
pedra.
O réptil se move menos que o leopardo, na espessura da
floresta.
O leopardo se move menos que o homem, faminto de
mundo e espaço.
Todo ser, ao mover-se, exprime o seu desassossego: arco
tendido na direção do vir-a-ser.
A pedra tem mais sossego que a planta.
A planta tem mais repouso que o réptil.
O réptil é mais sonolento que o leopardo.
O homem, este é pura insônia — trabalho futuro, vôo e flecha.
A planta se move menos que o réptil, movendo-se sobre a
pedra.
O réptil se move menos que o leopardo, na espessura da
floresta.
O leopardo se move menos que o homem, faminto de
mundo e espaço.
Todo ser, ao mover-se, exprime o seu desassossego: arco
tendido na direção do vir-a-ser.
A pedra tem mais sossego que a planta.
A planta tem mais repouso que o réptil.
O réptil é mais sonolento que o leopardo.
O homem, este é pura insônia — trabalho futuro, vôo e flecha.
1 530
Hélio Pellegrino
LHomme Révolté
Venho de um negro tempo irredutível,
anterior a mim.
Vou para um negro tempo desmedido,
infinito campo de ébano
onde me apagarei.
De uma escarpa a outra,
transfixado entre negro e negror,
danço — centelha breve — o meu furor.
anterior a mim.
Vou para um negro tempo desmedido,
infinito campo de ébano
onde me apagarei.
De uma escarpa a outra,
transfixado entre negro e negror,
danço — centelha breve — o meu furor.
1 320
Hemetério Cabrinha
De onde Venho?
Da grande Fôrça universal procedo
E venho de outras vidas, de outros mundos;
Por indisíveis dédalos profundos
Inconscientemente me enveredo.
Às minúsculas formas antecedo:
Da vibração aos corpos mais fecundos.
Transformando-me todos os segundos,
"Mergulhado no cósmico segrêdo".
Sou, para os sábios da moderna ciência,
Um simples animal que tem consciência,
Vivendo apenas entre o berço e a cova...
Entretanto, através do próprio lôdo,
Todo o universo se transforma, todo,
E a própria Eternidade se renova.
E venho de outras vidas, de outros mundos;
Por indisíveis dédalos profundos
Inconscientemente me enveredo.
Às minúsculas formas antecedo:
Da vibração aos corpos mais fecundos.
Transformando-me todos os segundos,
"Mergulhado no cósmico segrêdo".
Sou, para os sábios da moderna ciência,
Um simples animal que tem consciência,
Vivendo apenas entre o berço e a cova...
Entretanto, através do próprio lôdo,
Todo o universo se transforma, todo,
E a própria Eternidade se renova.
1 080
Geir Campos
Safra
Como um viticultor ocioso come
em pleno outono, uma por uma, as uvas
do cacho que ele viu nascer, pesar,
sob os olhos do sol e o próprio olhar;
e em que, mais demorando o paladar
na espera aberta entre o prazer e a fome,
já reconhece o gosto bom das chuvas
lavando os fornos do verão distante;
e, como uma saudade só, o sabor
da terra presa às mãos grossas de suor
— assim viver a vida, instante a instante.
em pleno outono, uma por uma, as uvas
do cacho que ele viu nascer, pesar,
sob os olhos do sol e o próprio olhar;
e em que, mais demorando o paladar
na espera aberta entre o prazer e a fome,
já reconhece o gosto bom das chuvas
lavando os fornos do verão distante;
e, como uma saudade só, o sabor
da terra presa às mãos grossas de suor
— assim viver a vida, instante a instante.
1 267
Francisco Carvalho
Lição de Espaço
O homem no espaço
é a sombra de Sísifo.
O espectro da esfinge
O vertigem do tísico.
O homem no espaço
é a pedra no vértice.
A folha que tomba
1no vórtice.
é a sombra de Sísifo.
O espectro da esfinge
O vertigem do tísico.
O homem no espaço
é a pedra no vértice.
A folha que tomba
1no vórtice.
1 095
Francisco Carvalho
Testamento Real
Fui nascido rei
num pomar de luxúrias
me puseram na cabeça
o colar de chamas
dos heróis.
Conheci as rotas do mar
e suas mitologias
de concha e sal.
Minha nau de exílios
um dia ancorou
nos mares de Ulisses.
Construí palácios
de cristal no vértice
das escarpas.
Meus rebanhos pastavam
girassóis em todas
as encostas dos mapas.
Tive vassalos
e cães fiéis.
Duzentas amantes
cavalgaram meu corpo
da cabeça aos pés.
Fui íntimo das águas
e das marés
cem vezes morri
duzentas vezes ressuscitei
voltei do exílio
num esquife de pedra.
Escrevi estas palavras
no papiro
para que reste de mim
algum vestígio
e para que saibam
que um rei
vive para sempre
à sombra do herói.
num pomar de luxúrias
me puseram na cabeça
o colar de chamas
dos heróis.
Conheci as rotas do mar
e suas mitologias
de concha e sal.
Minha nau de exílios
um dia ancorou
nos mares de Ulisses.
Construí palácios
de cristal no vértice
das escarpas.
Meus rebanhos pastavam
girassóis em todas
as encostas dos mapas.
Tive vassalos
e cães fiéis.
Duzentas amantes
cavalgaram meu corpo
da cabeça aos pés.
Fui íntimo das águas
e das marés
cem vezes morri
duzentas vezes ressuscitei
voltei do exílio
num esquife de pedra.
Escrevi estas palavras
no papiro
para que reste de mim
algum vestígio
e para que saibam
que um rei
vive para sempre
à sombra do herói.
1 022
Francisco Carvalho
Poema para Escrever no Asfalto
Agora eu sei o quanto basta à ceia do coração
e o quanto sobra do naufrágio
das nossas utopias.
Agora eu sei o que significa a fala dos mortos
e esta parábola soterrada
que jorra das veias da pedra.
Agora eu sei o quanto custa o ouro das palavras
e este pacto de sangue
com as metáforas do tempo.
Agora eu sei o que se passa no coração de treva
e do homem que morre mendigando
a própria liberdade.
Agora eu sei que o pão da terra nunca foi repartido
com a nossa pobreza
e com a solidão de ninguém.
Agora eu sei que é preciso agarrar a vida
como se fosse a última dádiva
colocada em nossas mãos.
e o quanto sobra do naufrágio
das nossas utopias.
Agora eu sei o que significa a fala dos mortos
e esta parábola soterrada
que jorra das veias da pedra.
Agora eu sei o quanto custa o ouro das palavras
e este pacto de sangue
com as metáforas do tempo.
Agora eu sei o que se passa no coração de treva
e do homem que morre mendigando
a própria liberdade.
Agora eu sei que o pão da terra nunca foi repartido
com a nossa pobreza
e com a solidão de ninguém.
Agora eu sei que é preciso agarrar a vida
como se fosse a última dádiva
colocada em nossas mãos.
1 093
Francisco José Rodrigues
Amarugens
Trazem as ondas amarugens fortes
Que banham o meu corpo já amargo;
Trazem as ondas amarugens tais
Que se unem mais às amarugens minhas.
Por certo, de ondas faz-se a vida toda
E de amarugens duplamente vindas
Da própria vida e das origens nossas...
Por certo, de ondas faz-se a vida e o tempo.
São ondas que se quebram, ondas fortes
Quem em sal se exaurem ou na branca escuma
Que o vento arrasta em sua boca enorme.
Trazem as ondas amarugens, só.
Por certo, de ondas faz-se a vida toda
— Ondas tão fortes mas que em sal se exaurem!
Que banham o meu corpo já amargo;
Trazem as ondas amarugens tais
Que se unem mais às amarugens minhas.
Por certo, de ondas faz-se a vida toda
E de amarugens duplamente vindas
Da própria vida e das origens nossas...
Por certo, de ondas faz-se a vida e o tempo.
São ondas que se quebram, ondas fortes
Quem em sal se exaurem ou na branca escuma
Que o vento arrasta em sua boca enorme.
Trazem as ondas amarugens, só.
Por certo, de ondas faz-se a vida toda
— Ondas tão fortes mas que em sal se exaurem!
970