Raimundo Correia

Raimundo Correia

1859–1911 · viveu 52 anos BR BR

Raimundo Correia foi um poeta parnasiano brasileiro, conhecido pela sua obra marcada pela musicalidade, pelo rigor formal e pela temática amorosa e bucólica. Foi membro da Academia Brasileira de Letras. Sua poesia é um exemplo da influência do Parnasianismo na literatura brasileira, com um vocabulário erudito e imagens cuidadosamente trabalhadas.

n. 1859-05-13, São Luís · m. 1911-09-13, Paris

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Mal Secreto

Se a cólera que espuma, a dor que mora
N'alma, e destrói cada ilusão que nasce
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;

Se se pudesse, o espírito que chora,
Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!

Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo
Como invisível chaga cancerosa!

Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!


In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.1, p.16
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Biografia

Identificação e contexto básico

Joaquim Raimundo de Oliveira Correia, conhecido como Raimundo Correia, foi um poeta brasileiro. Nasceu no Rio de Janeiro, a 29 de maio de 1859, e faleceu no Rio de Janeiro, a 24 de março de 1911. Era filho de uma família abastada e com tradições literárias. Foi membro fundador da Academia Brasileira de Letras. Escreveu em português.

Infância e formação

Proveniente de uma família da elite carioca, teve uma infância privilegiada. Fez os seus estudos preparatórios no Colégio F. M. M. e, posteriormente, formou-se em Direito pela Faculdade de Direito do Recife, em 1882. Desde cedo, demonstrou inclinação para a poesia, influenciado pelos poetas parnasianos franceses e pela literatura clássica.

Percurso literário

Começou a publicar os seus versos em jornais e revistas ainda jovem. O seu primeiro livro, "Primeiros Versos", foi publicado em 1879. A sua obra evoluiu dentro dos cânones do Parnasianismo, mantendo um elevado rigor formal e uma constante preocupação com a forma. Foi um poeta bastante respeitado em vida, tendo sido eleito para a Academia Brasileira de Letras.

Obra, estilo e características literárias

As suas obras principais incluem "Primeiros Versos" (1879), "Sinfonias" (1883), "Versos e Rimas" (1887), "Alelysis" (1893) e "Dispersos" (publicado postumamente). Os temas dominantes são o amor, a beleza, a natureza (com um viés bucólico e idílico), e a reflexão sobre a arte e a vida. A sua forma poética é marcada pelo rigor métrico, com preferência pelo soneto e outras formas fixas, e pela musicalidade. Utilizou um vocabulário culto e preciso, com um tom lírico e por vezes elegíaco. O seu estilo é caracterizado pela objetividade, pela clareza e pela elegância, seguindo os preceitos parnasianos de "arte pela arte".

Contexto cultural e histórico

Raimundo Correia viveu na transição do Império para a República no Brasil, um período de mudanças políticas e sociais. O Parnasianismo, movimento ao qual se associou, representou uma reação ao Romantismo, buscando uma poesia mais objetiva, formal e descritiva. Foi contemporâneo de poetas como Olavo Bilac e Alberto de Oliveira, com quem formou a tríade parnasiana.

Vida pessoal

Casou-se com Maria da Silva Guimarães Correia. Dedicou-se à diplomacia, tendo servido como cônsul do Brasil em Lisboa, de 1891 a 1895. A sua vida pessoal, embora menos documentada em detalhes biográficos do que a literária, parece ter sido marcada pela discrição e pelo ambiente da elite intelectual e política da época.

Reconhecimento e receção

Foi amplamente reconhecido em vida como um dos grandes poetas parnasianos brasileiros, sendo um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, onde ocupou a cadeira 15. A sua poesia foi valorizada pela crítica da época pela sua perfeição formal e pela sua lírica delicada.

Influências e legado

Influenciado pela poesia parnasiana francesa (Gautier, Leconte de Lisle), Raimundo Correia contribuiu para a consolidação do Parnasianismo no Brasil. O seu legado reside na sua obra, que exemplifica a maestria formal e a sensibilidade lírica do movimento, e na sua contribuição para a fundação da Academia Brasileira de Letras.

Interpretação e análise crítica

A crítica tem destacado a aparente frieza formal do Parnasianismo na obra de Raimundo Correia, que, no entanto, esconde uma profunda sensibilidade lírica, especialmente nos temas amorosos e na representação da natureza. A sua poesia é vista como um modelo de equilíbrio entre forma e conteúdo.

Curiosidades e aspetos menos conhecidos

Embora conhecido pela sua poesia, Raimundo Correia também atuou na diplomacia, demonstrando versatilidade. A sua obra menos conhecida inclui poemas mais introspectivos e reflexivos.

Morte e memória

Faleceu no Rio de Janeiro em 1911, de pneumonia. A sua memória é preservada como um dos pilares da poesia parnasiana brasileira e como um dos imortais da Academia Brasileira de Letras.

Poemas

29

Epístola ao Bardo Muniz

Cala-te, esdrúxulo lírico;
Teu estro é bandulho hidrópico!
Olha as garras de um satírico!
Cala-te, esdrúxulo lírico!
Teu verso ao leitor empírico
Fere de tópico em tópico...
Cala-te, esdrúxulo lírico;
Teu estro é bandulho hidrópico!

(...)

Nos teus preitos esquipáticos
Citas tanto bardo, — Hipócrates!
Citas autores dramáticos
Nos teus preitos esquipáticos
Citas talentos simpáticos!
Citas Camões! Citas Sócrates!
Nos teus preitos esquipáticos
Citas tanto bardo, — Hipócrates!

Muniz! tu causas-nos cólicas!
Erudito de catálogos!
Pondo as almas melancólicas,
Muniz! tu causas-nos cólicas!
Faze antes canções bucólicas,
Mas nunca preitos análogos!
Muniz! tu causas-nos cólicas
Erudito de catálogos!

Deita antes verso byrônico,
Mas, rápido, a velocípede...
Sê ferino, sê irônico!
Deita antes verso byrônico!
Que diabo! Isso é vício crônico!
Espanta que sejas bípede!
Deita antes verso byrônico,
Mas, rápido, a velocípede...

Larga essa lira caquética!
Ouve! e desculpa esta epístola!
Ó professor de dialética!
Larga essa lira caquética!
Porque antes não curas ética,
Pústula, escrófula e fístula!
Larga essa lira caquética!
Ouve! e desculpa esta epístola!


Poema integrante da série Poesias Avulsas.

In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo. Ed. Nacional, 1948. v.2, p.354-356
1 509

Luiz Gama

A Raul Pompéia


Tantos triunfos te contando os dias,
Iam-te os dias descontando e os anos,
Quando bramavas, quando combatias
Contra os bárbaros, contra os desumanos;

Quando a alma brava e procelosa abrias
Invergável ao pulso dos tiranos,
E ígnea, como os desertos africanos
Dilacerados pelas ventanias...

Contra o inimigo atroz rompeste em guerra,
Grilhões a rebentar por toda a parte,
Por toda a parte a escancarar masmorras.

Morreste!... Embalde, Escravidão! Por terra
Rolou... Morreu por não poder matar-te!
Também não tarda muito que tu morras!


In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.2, p.19
2 643

O Vinho de Hebe

Quando do Olimpo nos festins surgia
Hebe risonha, os deuses majestosos
Os copos estendiam-lhe, ruidosos,
E ela, passando, os copos lhes enchia...

A Mocidade, assim, na rubra orgia
Da vida, alegre e pródiga de gozos,
Passa por nós, e nós também, sequiosos,
Nossa taça estendemos-lhe, vazia...

E o vinho do prazer em nossa taça
Verte-nos ela, verte-nos e passa...
Passa, e não torna atrás o seu caminho.

Nós chamamo-la em vão; em nossos lábios
Restam apenas tímidos ressábios,
Como recordações daquele vinho.


In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.1, p.4
4 954

Nuvem Branca

Dizei-me: é ela a noiva casta e pura,
Que no alvor dessa nuvem rutilante,
Passa agora? Dizei-me, nesse instante,
Turbilhões de translúcida brancura;

Colar, broches de pérolas e opalas;
Gaza que, em níveos flocos, por formosas,
Rijas pomas de mármore, ondulosas
Curvas e espáduas de marfim, resvalas...

Dizei-me, branca, virginal capela;
Nítida espuma de nevadas rendas;
Alvos botões de laranjeira; prendas
Simbólicas do amor; dizei-me: é ela?

É ela a noiva? É mesto, ou prazenteiro,
Seu doce olhar? Sorri alegre, ou chora,
Seu semblante gentil oculto agora
Do espesso véu no alvíssimo nevoeiro?

É ela, sim! Su’alma, entre os fulgores
Das claras tochas cândidas e ardentes,
Nas querúbicas asas transparentes,
Voa, festiva, a um tálamo de flores...

Mistérios nupciais, só vos devassa
Um louco amante! Ao seu olhar ansioso
Velais debalde o arcanjo, o astro radioso
Que, dentro dessa nuvem branca, passa...


Publicado no livro Aleluias (1891).

In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.1, p. 79-80
2 469

Vésper

Do seu fastígio azul, serena e fria,
Desce a noite outonal, augusta e bela;
Vésper fulgura além... Vésper! Só ela
Todo o céu, doce e pálida, alumia.

De um mosteiro na cúpula irradia
Com frouxa luz... Em sua humilde cela,
Contemplativa e lânguida à janela,
Triste freira, fitando-a, se extasia...

Vésper, envolta em deslumbrante alvura,
Ó nuvens, que ides pelo espaço afora!
A quem tão longo olhar volve da altura?

Que olhar, irmão do seu, procura agora
Na terra o astro do amor? O olhar procura
Da solitária freira que o namora.


Publicado no livro Aleluias (1891).

In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.1, p.97
1 912

Julieta

A loura Julieta enamorada,
Triste, lânguida, pálida, abatida,
Aparece radiante na sacada
Dos raios brancos do luar ferida.

Engolfa o olhar na sombra condensada,
Perscruta, busca em torno... e na avenida
Surge Romeu; da valerosa espada
Esplende a clara lâmina polida...

Sente-se o arfar de sôfregos desejos,
Estoura no ar um turbilhão de beijos,
Mas o dia reponta!... Ó indiscreta

Da cotovia matinal garganta!
Ó perigo do amor, que o amor quebranta!
Ó noites de Verona! Ó Julieta!


Publicado no livro Sinfonias (1882). Último da série Perfis Românticos, constituída por oito sonetos.

In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.2, p.149
2 195

Ser Moça e Bela Ser

Ser moça e bela ser, por que é que lhe não basta?
Porque tudo o que tem de fresco e virgem gasta
E destrói? Porque atrás de uma vaga esperança
Fátua, aérea e fugaz, frenética se lança
A voar, a voar?...
Também a borboleta,
Mal rompe a ninfa, o estojo abrindo, ávida e inquieta,
As antenas agita, ensaia o vôo, adeja;
O finíssimo pó das asas espaneja;
Pouco habituada à luz, a luz logo a embriaga;
Bóia do sol na morna e rutilante vaga;
Em grandes doses bebe o azul; tonta, espairece
No éter; voa em redor, vai e vem; sobe e desce;
Torna a subir e torna a descer; e ora gira
Contra as correntes do ar, ora, incauta, se atira
Contra o tojo e os sarcais; nas puas lancinantes
Em pedaços faz logo às asas cintilantes;
Da tênue escama de ouro os resquícios mesquinhos
Presos lhe vão ficando à ponta dos espinhos;
Uma porção de si deixa por onde passa,
E, enquanto há vida ainda, esvoaça, esvoaça,
Como um leve papel solto à mercê do vento;
Pousa aqui, voa além, até vir o momento
Em que de todo, enfim, se rasga e dilacera.
ó borboleta, pára! ó mocidade, espera!

2 719

Ondas

Ilha de atrozes degredos!
Cinge um muro de rochedos
Seus flancos. Grosso a espumar
Contra a dura penedia,
Bate, arrebenta, assobia,
Retumba, estrondeia o mar.

Em circuito, o Horror impera;
No centro, abrindo a cratera
Flagrante, arroja um volcão
Ígnea blasfêmia às alturas...
E, nas ínvias espessuras,
Brame o tigre, urra o leão.

Aqui chora, aqui, proscrita,
Clama e desespera aflita
A alma de si mesma algoz,
Buscando na imensa plaga,
Entre mil vagas, a vaga,
Que neste exílio a depôs.

Se a vida a prende à matéria,
Fora desta, a alma, sidérea,
Radia em pleno candor;
O corpo, escravo dos vícios,
É que teme os precipícios,
Que este mar cava em redor.

No azul eterno ela busca,
No azul, cujo brilho a ofusca,
Pairar, incendida ao sol,
Despindo a crusta vil, onde
Se esconde, como se esconde
A lesma em seu caracol.

Contempla o infinito ... Um bando
De gerifaltos voando
Passou, desapareceu
No éter azul, na água verde...
E onde esse bando se perde,
seu longo olhar se perde...

Contempla o mar, silenciosa:
Ora mansa, ora raivosa,
Vai e vem a onda minaz,
E entre as pontas do arrecife,
Às vezes leva um esquife,
Às vezes um berço traz.

Contempla, de olhos magoados,
Tudo... Muitos degredados
Findo o seu degredo têm;
Vão-se na onda intumescida
Da Morte, mas na da Vida,
Novos degredados vêm.

Ó alma contemplativa !
Vem já, decumana e altiva,
Entre as ondas talvez,
A que, no supremo esforço
Da morte, em seu frio dorso,
Te leve ao largo, outra vez.

Quanto esplendor! São aquelas
As regiões de luz, que anelas,
Rompe os rígidos grilhões,
Com que à Carne de agrilhoa
O instinto vital! E voa,
e voa àquelas regiões!...

1 925

Saudade

Aqui outrora retumbaram hinos;
Muito coche real nestas calçadas
E nestas praças, hoje abandonadas,
Rodou por entre os ouropéis mais finos...

Arcos de flores, fachos purpurinos,
Trons festivais, bandeiras desfraldadas,
Girândolas, clarins, atropeladas
Legiões de povo, bimbalhar de sinos...

Tudo passou! Mas dessas arcarias
Negras, e desses torreões medonhos,
Alguém se assenta sobre as lájeas frias;

E em torno os olhos úmidos, tristonhos,
Espraia, e chora, como Jeremias,
Sobre a Jerusalém de tantos sonhos!...

1 842

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Comentários (5)

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robertinho de roberto
robertinho de roberto

preso ao padrão parnasiano, que controla o rigor da norma poética perfeita em detrimento da livre expressão do Autor! R

Andreina
Andreina

Muito bom!

rinaldo
rinaldo

chato

Jhonata piruleta q daocú
Jhonata piruleta q daocú

PIRULETA!!!!!!!! Só li porque tenho q fzr tarefa de lpl sei nem quem é esse bicho

sauan
sauan

tenho que estudar essa merda pra passar de ano